REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510282040
Larissa de Freitas Coutinho Oliveira
Resumo
Este artigo analisa a transição de atletas da carreira competitiva para o empreendedorismo esportivo, relacionando modelos clássicos e contemporâneos de transição de carreira (Stambulova; Wylleman & Lavallee; Taylor & Ogilvie; identidade atlética) a teorias de empreendedorismo (Shane & Venkataraman; efeito de Sarasvathy; empreendedorismo esportivo). Através de uma revisão narrativa (2015–2025) em plataformas como Google Scholar, Scopus, Web of Science e SciELO, são reunidas evidências sobre fatores individuais (capital humano e social, identidade atlética, saúde mental), contextuais (branding pessoal, plataformas digitais, financiamento) e institucionais (carreira dupla, políticas públicas, regulação — como o NIL nos EUA). Apresenta-se um modelo composto por cinco etapas: (1) desengajamento competitivo intencional; (2) reconfiguração da identidade e das redes; (3) identificação e exploração de oportunidades; (4) desenvolvimento do negócio; (5) governança e expansão. Exemplos breves (IOC Athlete365/UEFA; marcas criadas por atletas) e uma matriz “barreiras × estratégias” demonstram as possíveis aplicações. Conclui-se que transições bem-sucedidas requerem suporte institucional constante, formação empreendedora focada no esporte e mecanismos de financiamento e proteção da imagem que ajudem a diminuir desigualdades de gênero e renda, assim como a implementação de métricas de empregabilidade e protocolos de saúde mental para reduzir os riscos de descontinuidade.
Palavras-chave: transição de carreira; empreendedorismo esportivo; identidade atlética; dupla carreira; NIL; branding; saúde mental.
Abstract
This article analyzes athletes’ transitions from competitive careers to sports entrepreneurship, linking classic and contemporary career transition models (Stambulova; Wylleman & Lavallee; Taylor & Ogilvie; athletic identity) to entrepreneurship theories (Shane & Venkataraman; effectuation; sports entrepreneurship). Through a narrative review (2015–2025) across Google Scholar, Scopus, Web of Science, and SciELO, we synthesize evidence on individual factors (human and social capital, athletic identity, mental health), contextual factors (personal branding, digital platforms, financing), and institutional factors (dual-career programs, public policies, and regulation—such as Name, Image and Likeness, NIL, in the United States). We present a five-stage model: (1) intentional competitive disengagement; (2) identity and network reconfiguration; (3) opportunity identification and exploration; (4) venture development; and (5) governance and growth. Brief examples (IOC Athlete365/UEFA; athlete-created brands) and a “barriers × strategies” matrix illustrate applications. We conclude that successful transitions require sustained institutional support, sport-focused entrepreneurial education, and financing/image-protection mechanisms that help reduce gender and income inequalities, as well as the implementation of post-career employability metrics and mental-health protocols to mitigate risks of discontinuity.
Keywords: career transition; sports entrepreneurship; athletic identity; dual career; NIL; branding; mental health.
1. Introdução
As mudanças de carreira no esporte de alto rendimento marcam momentos importantes na vida dos atletas, indicando a passagem do status competitivo para novas responsabilidades sociais, profissionais e simbólicas. Esse processo abrange tanto mudanças objetivas, como a procura por novas profissões e reintegração econômica, quanto reconfigurações subjetivas, como a reestruturação da identidade, do propósito e do senso de pertencimento. Apesar de ex-atletas de sucesso geralmente serem vinculados à mídia como treinadores, administradores, produtores de conteúdo ou empresários, a literatura especializada alerta sobre os perigos de uma transição mal planejada: ansiedade, diminuição do prestígio social, problemas na inserção no mercado de trabalho e instabilidade financeira.
Nos últimos anos, os modelos de desenvolvimento de carreira no esporte têm aderido a abordagens mais holísticas e contextuais, que consideram variáveis educacionais, psicológicas, familiares e de mercado. Paralelamente a isso, a consolidação do campo do sports entrepreneurship ampliou as possibilidades de atuação pós-carreira, especialmente em contextos mediados pela digitalização e pela ascensão da economia de criadores. Plataformas como redes sociais, canais de streaming, aplicativos de treinamento e e-commerce possibilitaram a atletas converter seu capital simbólico em iniciativas empreendedoras que vão além da prestação de serviços técnicos.
Diante desse cenário, é importante analisar a transição da identidade atlética para a figura do(a) empreendedor(a), considerando as condições que favorecem ou dificultam esse percurso. Trata-se de um deslocamento ocupacional, um fenômeno que combina dimensões psicológicas, sociais e econômicas. Dessa forma, é necessário que existam marcos teóricos, que articulem modelos de carreira com abordagens do empreendedorismo esportivo.
2. Objetivos e perguntas de pesquisa
O objetivo principal deste artigo é realizar uma análise acadêmica dos fatores que afetam a transição de atletas para o empreendedorismo após suas carreiras esportivas. Com essa finalidade, propõe-se:
1. Integrar modelos teóricos de transição de carreira no esporte (como aqueles sugeridos por Wylleman e Stambulova) com estudos contemporâneos no campo do empreendedorismo esportivo (em particular as contribuições de Ratten e Obschonka), visando a criação de uma abordagem interdisciplinar aplicada ao fenômeno analisado.
2. Identificar e mapear os principais facilitadores e obstáculos vivenciados pelos atletas durante o processo de reconversão profissional, levando em conta as dimensões psicológica, formativa, estrutural e sociocultural que influenciam essa transição.
3. Propor um framework conceitual que represente, de maneira sistematizada, as etapas, momentos decisivos e elementos críticos relacionados à trajetória de mudança do(a) atleta para o(a) empreendedor(a), incluindo variáveis de natureza individual, contextual e institucional.
4. Desenvolver recomendações práticas e estratégicas, voltadas para os diversos envolvidos no ecossistema esportivo — como federações, instituições de ensino superior, incubadoras, órgãos de políticas públicas e os próprios atletas —, com a finalidade de promover a sustentabilidade e a diversidade nas trajetórias profissionais após a carreira esportiva.
3. Revisão de Literatura
A mudança de carreira no âmbito esportivo tem sido amplamente analisada na literatura científica por meio de modelos que consideram variáveis de desenvolvimento, psicossociais e contextuais. A atualização do Position Stand da International Society of Sport Psychology (ISSP) recomenda uma abordagem multissistêmica, que abrange seis domínios interconectados: atlético, psicológico, psicossocial, acadêmico-vocacional, financeiro e legal (Stambulova et al., 2020). Essa abordagem evidencia que o processo de transição é intrinsecamente não linear e diversificado, destacando a necessidade de intervenções personalizadas ao longo do percurso de carreira no esporte.
Modelos clássicos continuam a fundamentar políticas e práticas voltadas à preparação para o desengajamento esportivo, como o modelo de Wylleman & Lavallee (2004), que é estruturado em estágios de desenvolvimento, e o modelo de Taylor & Ogilvie (1994), que se concentra na adaptação ao fim da carreira. Ambos reforçam a ideia de que a antecipação do processo de aposentadoria, aliada ao suporte institucional, se relaciona a melhores indicadores de bem-estar subjetivo e à reintegração em novos contextos ocupacionais.
A literatura destaca como um fator crítico a intensa identificação atlética—definida pela quase exclusiva autoidentificação do sujeito como atleta. Apesar de essa característica ser benéfica durante os períodos de competição, ela pode se tornar um obstáculo à adaptação na vida pós-carreira, a menos que haja uma diversidade em papéis sociais, educacionais ou profissionais (Lally, 2007; Lavallee & Robinson, 2007). Evidências empíricas demonstram que fatores não relacionados ao esporte, como nível educacional, planejamento financeiro e rede de suporte, são preditores mais significativos de sucesso durante a transição do que variáveis estritamente esportivas (Park et al., 2013).
No domínio do empreendedorismo, Shane & Venkataraman (2000) definem a perspectiva do estudo como a identificação, exploração e realização de oportunidades em condições incertas, valorizando a diversidade individual, de recursos e contextos. Essa abordagem enfatiza a relevância do capital humano e social na construção de trajetórias empreendedoras. Além disso, Sarasvathy (2001) apresenta a teoria do effectuation, que prioriza uma lógica de ação fundamentada nos recursos disponíveis, no estabelecimento de parcerias estratégicas e na aceitação de perdas controladas—elementos frequentemente observados em atletas em processo de reconversão profissional.
O subcampo conhecido como sports entrepreneurship surgiu como uma área de pesquisa focada no empreendedorismo considerando as particularidades do setor esportivo, abordando tópicos como a reintegração de papéis (ex: atleta para treinador, gestor ou influenciador), inovação digital e co-criação de valor com comunidades de fãs e consumidores (Ratten, 2011; Naraine & Parent, 2017). Pesquisas recentes indicam que atletas frequentemente aproveitam seu capital simbólico, redes de apoio e reputação adquirida como vantagem competitiva em empreendimentos, especialmente em áreas como treinamento personalizado, criação de conteúdo, organização de eventos esportivos e moda fitness.
A eficácia das transições do esporte profissional para o empreendedorismo ou outras atividades está profundamente relacionada à presença de sólidos ecossistemas de apoio institucionais. Iniciativas como o IOC Athlete365 Career+ e a UEFA Academy oferecem programas de mentoria, formação e orientação profissional, sendo considerados exemplos de boas práticas em políticas de transição no esporte (Henriksen et al., 2020). Além disso, a União Europeia apoia programas conhecidos como de dupla carreira, com o objetivo de integrar o desempenho esportivo à educação formal ou ao aprimoramento profissional (European Commission, 2012).
No contexto americano, a adoção das regulamentações sobre o Name, Image, and Likeness (NIL), em 2021, permitiu que atletas universitários recebessem compensação pela utilização de sua imagem, ampliando, assim, as oportunidades de empreendedorismo durante sua trajetória acadêmica. Entretanto, essa alteração normativa apresenta desafios adicionais, especialmente em relação à necessidade de habilidades em áreas como finanças, legislação e impostos (Humphreys & Ruseski, 2022).
Além disso, estudos na área de psicologia do esporte têm revelado altos índices de sintomas de ansiedade, depressão e sensação de falta de propósito entre atletas recém-aposentados, particularmente em contextos que carecem de um planejamento adequado ou suporte psicossocial (Gouttebarge et al., 2015). Esse conjunto de descobertas reforça a importância de incluir serviços de apoio psicológico e orientação profissional em programas de transição, considerando a complexidade do processo de reconfiguração identitária e existencial após a carreira esportiva, bem como as questões meramente associadas à empregabilidade.
4. Método
A pesquisa empregou a metodologia de revisão narrativa da literatura, adotando uma abordagem integrativa e interpretativa, com o objetivo de examinar a transição de atletas para caminhos empreendedores após o término de suas carreiras esportivas. O processo de revisão aconteceu entre março e outubro de 2025, englobando publicações científicas e técnicas compreendidas entre 2015 e 2025, assim como obras clássicas que serviram como base para a fundamentação teórica.
A investigação fez uso de fontes acadêmicas de diversas áreas (Google Scholar, Scopus, Web of Science e SciELO) e de repositórios de entidades do setor. Os principais descritores, tanto em português quanto em inglês, foram: transição de carreira de atletas, carreira dual, identidade atlética, empreendedorismo esportivo, effectuation, NIL, branding de atletas e empregabilidade após a carreira.
Os critérios para inclusão foram:
– Artigos avaliados por especialistas.
– Relatórios técnicos de instituições significativas (IOC, UEFA, OIT, FIFPRO, IRS, NCAA);
– Posicionamentos científicos de entidades acadêmicas.
– Materiais jornalísticos de elevada credibilidade, utilizados exclusivamente para a elaboração de dados de mercado e exemplos citados.
Foram eliminados preprints que careciam de rigor metodológico, materiais promocionais desprovidos de dados verificáveis e opiniões que não tinham validação acadêmica. A metodologia incorporou referencial teórico e informações pertinentes ao âmbito esportivo, centrando-se na transição de carreira, no empreendedorismo e na infraestrutura de suporte no ecossistema esportivo.
5. Análise e Discussão
A revisão da literatura técnica indica que a transição da carreira esportiva para novas trajetórias profissionais é influenciada por cinco vetores principais: planejamento e formação; saúde mental e identidade; capital social; regulação econômica; e as interações de gênero.
(a) Elaboração de estratégias e simultaneidade de trajetória profissional. Modelos integrados de carreira dual demonstraram eficácia na diminuição de rupturas identitárias e no incremento do conjunto de competências durante o período pós-carreira (Stambulova et al., 2020). As orientações institucionais, como as da Comissão Europeia (2012) e da FEPSAC, enfatizam a relevância das mentorias acadêmicas, da flexibilidade no currículo e da integração entre a educação e a prática esportiva.
(b) Identidade e bem-estar psicológico. A identidade atlética exagerada (high athletic identity) está associada a um aumento da probabilidade de surgimento de sintomas depressivos e de desafios na adaptação à aposentadoria do esporte competitivo (Lally, 2007; Park et al., 2013). Iniciativas que promovem diversos papéis identitários e proporcionam apoio psicológico constante são essenciais para a prevenção de questões relacionadas à saúde mental na fase pós-carreira (Henriksen et al., 2020).
(c) Redes e capital social. Atletas de alto desempenho criam redes poderosas, compostas por treinadores, patrocinadores e mídias, que podem ser empregadas de acordo com a lógica da effectuation — uma abordagem empreendedora fundamentada em recursos acessíveis e parcerias confiáveis (Sarasvathy, 2001). Transformar esse capital simbólico em parcerias comerciais constitui um diferencial substancial no início do percurso empreendedor.
(d) Regulação e educação financeira. A regulamentação referente ao Nome, Imagem e Semelhança (NIL) nos Estados Unidos, implementada em 2021, possibilitou que atletas universitários monetizassem sua imagem, demandando elevados padrões de conformidade tributária e legal (Humphreys & Ruseski, 2022). A ausência de uma padronização normativa em diversos contextos constitui um obstáculo para a governança e a segurança jurídica de novos empreendedores no âmbito esportivo.
(e) Inclusão e gênero. Atletas do gênero feminino encontram obstáculos adicionais no que diz respeito ao acesso a recursos financeiros, capacitação e redes de suporte. Relatórios da OCDE, UNICEF e do Global Entrepreneurship Monitor indicam que desigualdades estruturais, despesas com conectividade e preconceitos por parte de investidores limitam o potencial de crescimento de negócios conduzidos por mulheres, principalmente em contextos digitais (OECD, 2023).
As particularidades da modalidade esportiva e o grau de competitividade exercem uma influência direta na transição para iniciativas empreendedoras. Nas modalidades individuais, como as artes marciais e o tênis, o capital simbólico costuma estar mais intensamente associado à marca pessoal, promovendo a formação de academias, a oferta de produtos digitais e a emissão de licenças. Em contrapartida, nos esportes coletivos, apesar de o enfoque individual ser reduzido, há uma estrutura institucional mais robusta e uma rede de relacionamentos, conforme evidenciado pelos programas desenvolvidos pela UEFA para auxiliar a transição de atletas para cargos técnicos e administrativos.
Atletas de alto desempenho frequentemente possuem um capital financeiro e reputacional superior; contudo, estão igualmente mais suscetíveis ao lock-in identitário e à pressão da mídia. Por outro lado, praticantes de ligas de menor prestígio enfrentam uma fragilidade econômica ainda mais acentuada e uma falta de apoio para a sua formação, embora possam evidenciar maior flexibilidade e disposição para diversificar suas trajetórias profissionais (Gouttebarge et al., 2015).
O programa global IOC Athlete365 Career+ disponibiliza cursos, orientações e planejamento de carreira para atletas em fase de transição, tendo beneficiado mais de 30 mil pessoas desde 2005.
UEFA Academy – CTP/MIP: iniciativas direcionadas à capacitação executiva de atletas de alto nível do futebol europeu, incluindo percursos específicos em administração esportiva, governança e prospecção, em parceria com redes de clubes e organizações internacionais.
NIL e alfabetização fiscal: a monetização da imagem pelos atletas universitários dos Estados Unidos destacou a urgência de aprimorar a formação tributária, dado que os benefícios relacionados a produtos e serviços podem ser sujeitos a tributação conforme a legislação atual (IRS, 2022).
Empreendedorismo digital após a COVID-19: investigações recentes apontam que plataformas digitais, como streaming, social commerce e fitness conectado, expandiram as oportunidades empresariais para atletas, promovendo modelos de atuação híbridos e autônomos (Ratten, 2020; Obschonka et al., 2018).
É fundamental analisar situações midiáticas envolvendo atletas-investidores sob uma ótica crítica. Parcerias como a joint venture entre a Pestana CR7 e a avaliação da SpringHill Company, cofundada por LeBron James, evidenciam o potencial de extensão de marca; no entanto, demandam uma análise fundamentada em dados comprobatórios e fontes fidedignas.
Com base na análise da literatura, nos modelos teóricos e nos estudos de caso, sugere-se um modelo conceitual dividido em cinco etapas, com o objetivo de ilustrar e guiar a transição de atletas para o empreendedorismo no cenário pós-carreira esportiva. A estrutura visa articular atividades vinculadas à identidade, operações e estratégias, levando em consideração a complexidade não linear do processo, que pode apresentar variações de acordo com o perfil do atleta, a modalidade, os recursos financeiros disponíveis e o contexto institucional.
A fase inicial, que envolve preparação e desengajamento intencional, diz respeito ao instante em que o(a) atleta começa a perceber a importância de desenvolver alternativas que vão além da sua função competitiva. Esse estágio abrange a identificação de competências transferíveis, a elaboração de um planejamento financeiro, a disponibilização de suporte psicológico e o investimento em educação formal ou continuada. Dessa maneira, almeja-se instituir um “plano B” ao longo da trajetória esportiva, interligando-a a outras esferas da existência.
A segunda fase refere-se à reconfiguração da identidade e da rede, um período em que o(a) atleta se dedica à reconstrução de sua autoimagem, reduzindo o efeito da fixação no papel de atleta. Neste estágio, ocorre a ativação e o reposicionamento das redes pessoais e profissionais, com o suporte de mentores, ex-parceiros e agentes estratégicos relevantes para esta nova etapa.
Na terceira fase, que diz respeito à exploração de oportunidades, a prática empreendedora fundamenta-se sobretudo nos princípios da effectuation, os quais estabelecem que a ação é iniciada a partir dos recursos e habilidades atualmente disponíveis — reputação, contatos e competências — para testar soluções em cenários incertos. Dessa maneira, os atletas reconhecem necessidades e deficiências do mercado no ambiente esportivo ou em áreas relacionadas, como saúde, educação, mídia e bem-estar, avaliando suposições em menor escala com parceiros comprometidos.
A quarta etapa envolve a elaboração e verificação do modelo de negócio, na qual se define a essência da operação — se direcionada ao consumidor final (marcas pessoais e produtos digitais), consultorias e academias voltadas a outras empresas (modelo B2B) ou ainda por meio de plataformas digitais de conteúdo e engajamento. Neste estágio, as suposições são avaliadas em relação aos públicos-alvo, com a coleta de métricas associadas à tração, ao engajamento e à conversão.
Finalmente, a quinta etapa diz respeito à governança e à ampliação. Após a confirmação do modelo de negócio, o desafio consiste na formalização do empreendimento, na observância das exigências legais e tributárias, no acesso a fontes de financiamento, como patrocínios, crowdfunding ou modelos mistos de receita, e na adoção de princípios de diversidade, inclusão e responsabilidade social e ambiental (ESG), os quais são reconhecidos como diferenciais competitivos atuais.
Esse framework possui valor tanto analítico quanto prático, revelando-se adequado para programas de formação de atletas, incubadoras de negócios esportivos, gestores de carreira e instituições públicas que buscam promover transições sustentáveis e diversificadas no contexto esportivo.
6. Implicações práticas e políticas
A transição de atletas para o empreendedorismo ou outras ocupações após a carreira requer a consideração de diversos fatores e ações em diferentes níveis — individual, organizacional, institucional e sistêmico. Nesse contexto, são apresentadas sugestões baseadas em estudos teóricos e em casos concretos, sustentadas por diretrizes internacionais.
É aconselhável que os atletas sejam estimulados a começar o planejamento de sua transição de carreira durante o auge da competitividade, preferencialmente de dois a três anos antes da aposentadoria prevista. Este processo deve incluir a busca por formação educacional adequada às exigências do esporte, a obtenção de certificações profissionais e o desenvolvimento de habilidades digitais que possam ser transferidas. A promoção da educação continuada é benéfica para ampliar as oportunidades no pós-carreira e evitar mudanças abruptas na formação da identidade.
A importância de um suporte psicológico constante é enfatizada, focando na diversificação das opções de inserção no mercado de trabalho e no fortalecimento da autoconfiança do atleta fora do ambiente esportivo, com a intenção de gerenciar de forma adequada sua identidade. Estudos mostram que uma identidade plural pode ser um fator protetivo contra sintomas de ansiedade e desorientação que podem surgir com o fim da carreira esportiva.
Além disso, é essencial que o atleta tenha conhecimentos em gestão financeira e tributária. Com a crescente monetização da imagem dos atletas (como regulamentado pela NIL nos Estados Unidos), é crucial entender os princípios de contabilidade, compliance e proteção de marca, incluindo aspectos legais, tributários e reputacionais. A falta dessas habilidades pode trazer riscos à correta apropriação do capital simbólico e à exposição a perdas financeiras.
Ademais, a gestão estratégica de redes deve se basear em métodos que enfatizem a lógica do effectuation, priorizando colaborações comprometidas, experimentações de baixo risco e a ativação de contatos já existentes. A credibilidade que os atletas acumulam pode ser utilizada como um ativo relevante para cocriar soluções com patrocinadores, clubes, startups e instituições de ensino.
As organizações esportivas devem ser incentivadas a estabelecer políticas que promovam a dupla carreira, incluindo tutoria educacional, a flexibilização do currículo, a concessão de créditos acadêmicos e a definição de metas de empregabilidade para até 24 meses após o término da carreira competitiva. Pesquisas indicam que programas integrados aceleram o processo de transição e elevam as taxas de reintegração produtiva dos atletas.
Clubes e federações podem atuar como incubadoras setoriais, oferecendo bootcamps para modelagem de negócios, laboratórios de prototipagem de produtos e fundos-semente com governança filantrópica direcionados a atletas em transição. Essas estruturas ajudam a reduzir a incerteza no início da trajetória empreendedora e aumentam a atratividade dos negócios desenvolvidos.
A saúde mental deve ser incorporada de maneira sistêmica às políticas institucionais, através de protocolos padronizados de avaliação e acompanhamento multiprofissional. Relatórios de instituições como a FIFPRO mostram a ocorrência frequente de sintomas psicológicos após a carreira, muitas vezes subnotificados, o que reforça a necessidade de abordagens preventivas e integradas.
O ecossistema de inovação e investimento pode exercer um papel importante no fortalecimento das trajetórias empreendedoras dos atletas. Nas propostas de investimento lideradas por atletas, devem ser considerados não apenas a visibilidade pública, mas também a habilidade de gerar valor por meio de estratégias de extensão de marca e distribuição nativa em redes sociais — aspectos frequentemente subestimados na análise de riscos.
Durante o processo de due diligence, é recomendável realizar uma análise crítica da composição da equipe, enfatizando a complementaridade entre as competências dos atletas e de parceiros que possuem expertise técnica e operacional, uma vez que essa sinergia é reconhecida como catalisadora do sucesso e da sustentabilidade do empreendimento.
Simultaneamente, iniciativas de financiamento inclusivo devem estabelecer metas claras de diversidade nos portfólios de investimento, incluindo mulheres, atletas de grupos sub-representados e regiões com menor acesso a recursos. Modelos como crowd equity, fundos com linhas earmarked e plataformas de financiamento coletivo demonstram eficácia na democratização do acesso ao capital.
No aspecto regulatório, é essencial o avanço na padronização das normas relacionadas ao uso da imagem, aos direitos trabalhistas dos atletas e à tributação dos rendimentos não salariais. A criação de guias fiscais adaptados a diferentes perfis de atletas e modalidades pode reduzir conflitos e promover maior segurança jurídica no período pós-carreira.
As políticas públicas voltadas à economia do esporte devem incluir cláusulas de diversidade e equidade nos editais de patrocínio e compras públicas, com o objetivo de incentivar o empreendedorismo inclusivo e fortalecer lideranças femininas e de comunidades periféricas.
Por fim, a criação de centros integrados de carreira — que conectam esporte, educação e mercado de trabalho — se mostra um elemento estratégico para a oferta de serviços de orientação, mentoria e requalificação contínua. A avaliação sistemática do impacto dessas iniciativas deve ser incorporada ao ciclo de políticas, utilizando indicadores de empregabilidade, satisfação e bem-estar no contexto pós-carreira.
7. Limitações e agenda de pesquisa
Este estudo se fundamenta em uma revisão narrativa de caráter integrativo, permitindo a combinação de diferentes contribuições conceituais e evidências aplicadas ao contexto atual do esporte de alto rendimento. No entanto, essa metodologia também apresenta limitações. Há uma restrição na generalização dos resultados, especialmente no que diz respeito às particularidades contextuais relacionadas à modalidade esportiva, tipo de competição, gênero e estruturas institucionais nacionais, devido à falta de critérios sistemáticos para inclusão e análise da qualidade dos estudos.
Ademais, o modelo conceitual exposto, apesar de fundamentar-se em teorias amplamente reconhecidas e sustentado por análises de casos, ainda se encontra na etapa inicial de validação. A literatura analisada, até o presente momento, não disponibiliza um conjunto substancial de investigações empíricas que examinem a eficácia das intervenções de transição direcionadas ao empreendedorismo.
Em face dessas restrições, surgem quatro domínios prioritários para investigações futuras:
1. Validação empírica do modelo atleta-empreendedor: Sugere-se a condução de investigações longitudinais e a aplicação de abordagens mistas para examinar a eficácia do modelo em várias categorias de esportes, sistemas federativos e ambientes de suporte institucional. A investigação deve levar em conta fatores como empregabilidade, desempenho empresarial, saúde mental e satisfação com a vida após a trajetória profissional.
2. Análise de políticas e programas institucionais: Existe uma necessidade de pesquisas quase-experimentais que explorem os efeitos de iniciativas como NIL (Nome, Imagem e Semelhança), Career+ (IOC) e a capacitação executiva da UEFA Academy nos resultados da transição profissional. Esta modalidade de investigação deve analisar os impactos variados relacionados a gênero, capital simbólico e redes de apoio.
3. Interseccionalidade e saúde mental: A relação intricada entre a identidade atlética, as condições socioeconômicas e a saúde mental requerem abordagens interseccionais que compreendam experiências influenciadas por desigualdades de gênero, etnia e classe social. Investigações voltadas para a saúde mental após a trajetória profissional devem englobar protocolos psicométricos reconhecidos e metodologias de análise qualitativa detalhada.
4. Trajetórias femininas em ecossistemas digitais e financeiros diversos: É imprescindível investigar de que maneira atletas mulheres — especialmente em países do Sul Global — mobilizam recursos limitados, capital digital emergente e redes de apoio para iniciar negócios. Estudos comparativos entre modelos de financiamento inclusivo e conectividade digital (crowd-equity, incubadoras, redes mistas) podem oferecer insights valiosos para políticas de inclusão.
Essas direções de pesquisa têm o potencial de contribuir para uma agenda científica aplicada e voltada à justiça social, aprofundando o entendimento sobre as transições no campo esportivo contemporâneo.
8. Conclusão
A mudança da prática esportiva de alto nível para o empreendedorismo deve ser vista como um processo sistemático e gradual que abrange diversos fatores. Não se pode considerá-la apenas como um evento isolado. A literatura especializada, juntamente com as evidências do setor avaliadas, sugere que transições bem-sucedidas são resultado da interação entre fatores individuais (planejamento, identidade, saúde mental), contextuais (acesso a redes, construção de marca pessoal, plataformas digitais) e institucionais (programas de apoio, regulamentação e financiamentos).
O modelo atleta→empreendedor apresentado neste estudo ajuda a estruturar esse processo em cinco fases interdependentes, fornecendo uma matriz conceitual que pode ser aplicada tanto no desenvolvimento de políticas quanto na criação de programas de formação e incubação. Ele destaca a importância de estratégias baseadas em effectuation e redes de apoio, ao mesmo tempo que ressalta os riscos associados a deficiências educacionais, visão estratégica limitada e desigualdades estruturais.
A implementação de políticas públicas focadas na dupla carreira, protocolos de saúde mental e ferramentas de financiamento inclusivo é crucial para assegurar a sustentabilidade das carreiras pós-desempenho. Da mesma forma, clubes, federações e aceleradoras devem desempenhar um papel ativo na construção de ecossistemas de transição que possam converter o capital simbólico dos atletas em valor econômico e social duradouro.
Em resumo, a transição do alto rendimento para o empreendedorismo representa um desafio de transformação de identidade e reconfiguração institucional — um terreno promissor para intervenções interdisciplinares e inovações fundamentadas em evidências.
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