ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM DO TRABALHO: ATENÇÃO E PREVENÇÃO DE DOENÇAS OCUPACIONAIS

OCCUPATIONAL NURSING CARE: FOCUS ON ATTENTION AND PREVENTION OF OCCUPATIONAL DISEASES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510282110


Renata Mônica Barbosa dos Santos Lima
Camila Land da Silva Carneiro
Radamese Lima de Oliveira
Rômulo Fernandes Lima
Géssica de Oliveira Sousa
Dinara Maria Taumaturgo Soares
Lauriane Oliveira Cavalcante
Maria Luciana da Silva Farias Thávilla
Roany de Queiroz Freitas Lima


RESUMO: Uma das modalidades da área de saúde que tem mais crescido em importância é a enfermagem do trabalho, pois os profissionais atuam dentro das organizações tanto no sentido de oferecer cuidados, como principalmente contribuir na prevenção de acidentes de trabalho e doenças laborais o papel do enfermeiro do trabalho tem sido considerado indispensável, uma vez que sua atuação abrange desde a prevenção de doenças laborais e acidentes até o acompanhamento dos que precisam no processo de restabelecimento da saúde. Ciente disso é que foi elaborado o presente artigo. Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica, de caráter exploratório, descritivo com o objetivo de conhecer a atuação do Enfermeiro do Trabalho frente às doenças ocupacionais do trabalhador. Após análise da literatura foi possível desenvolver um aprendizado estendido da atuação do Enfermeiro como um profissional de multifuncional, estabelecer conhecimentos sobre uma área em crescimento no mercado e que ainda precisa conquistar mais espaço e maior reconhecimento da categoria de Enfermagem. Com o estudo realizado conclui-se que é de grande importância o profissional da enfermagem do trabalho atuar diretamente nas organizações, no intuito não somente de prevenir doenças e acidentes de trabalho, mas desenvolver um papel constante de promoção da saúde do trabalhador, representando assim, um enorme benefício para toda a coletividade da organização.  

Palavras-chave: Enfermagem do trabalho. Atuação do enfermeiro. Doenças Ocupacionais.  

ABSTRACT: One of the fastest-growing areas within the healthcare field is occupational nursing, as professionals in this specialty work within organizations not only to provide care but, more importantly, to contribute to the prevention of workplace accidents and occupational diseases. The role of the occupational nurse has become indispensable, as their work encompasses everything from the prevention of occupational illnesses and accidents to assisting individuals in the process of restoring their health. With this understanding, the present article was developed. It is a bibliographic review study with an exploratory and descriptive approach, aiming to understand the role of the Occupational Nurse in relation to workers’ occupational diseases. After analyzing the literature, it was possible to broaden the understanding of the nurse’s multifaceted role, to establish knowledge about a growing field that still needs greater recognition and space within the nursing profession. The study concludes that the participation of the occupational nursing professional directly within organizations is of great importance— not only to prevent diseases and workplace accidents but also to play a continuous role in promoting workers’ health, thus representing a significant benefit for the entire organizational community.  

Keywords: Occupational Nursing. Nurse’s Role. Occupational Diseases.  

1. INTRODUÇÃO  

A assistência de enfermagem do trabalho traz uma contribuição significativa para a saúde ocupacional contemporânea, focando no cuidado integral e preventivo dos trabalhadores. Mais do que em ações corretivas ao surgirem agravos, o enfermeiro do trabalho atua estrategicamente na previsão dos riscos, na promoção do bem-estar e do trabalho seguro. Esse trabalho não se limita ao atendimento de clínica, mas acopla-se à educação em saúde, vigilância epidemiológica e gestão de políticas internas de prevenção. Essa atuação em equipe reforça a importância da enfermagem como agente de transformação social entre os trabalhadores, capaz de conciliar produtividade com qualidade de vida. Ao conjugar ciência, ética e o humanismo, o enfermeiro do trabalho consolidar-se-á como intermediário nas ações de redução e prevenção de doenças, no conotativo social do conceito de saúde coletiva ao interior das organizações.  

A escolha do tema justifica-se pelo interesse em estudar a saúde do trabalhador em relação à exposição dos trabalhadores às doenças ocupacionais no que diz respeito à assistência de enfermagem do trabalho. Muitos acidentes podem ser evitados por meio de programas de orientação promovidos pelo enfermeiro. Procura-se confirmar que a interação entre o enfermeiro do trabalho e o trabalhador diminui a subnotificação ou mesmo a omissão dos acidentes ocupacionais. A Sistematização de Assistência de Enfermagem (SAE) pode contribuir por meio do acompanhamento periódico dos enfermeiros.  

Para realização do presente estudo tem-se como questão norteadora: Qual o papel do enfermeiro do trabalho frente às doenças ocupacionais do trabalhador? Parte-se da hipótese que o enfermeiro do trabalho desempenha papel fundamental na prevenção e na mitigação das doenças ocupacionais, atuando, não apenas no atendimento direto ao trabalhador, mas, essencialmente na promoção de práticas educativas, na vigilância da saúde e na gestão de políticas internas de prevenção. Parte-se da suposição de que, através de ações continuadas e organizadas, o enfermeiro ajude a reduzir o risco e a fortalecer a cultura de segurança nas organizações. Portanto, sua atuação vai além do cuidado clínico, e assume uma dimensão pedagógica e social, voltada para a valorização da vida e para a construção de um ambiente de trabalho com mais saúde e mais humanizado.  

O método escolhido, a ênfase em assistência em enfermagem ao trabalho e a prática de prevenção de doenças ocupacionais, é o bibliográfico da abordagem qualitativa, tendo como suporte: livros, artigos científicos e documentos técnicos abordando a saúde das condições de saúde do trabalhador e as normas relativas à enfermagem ocupacional por meio da abordagem qualitativa aplicada, constituiu-se em balizamento para a crítica das práticas de prevenção refletiva, da enfermagem no trabalho e a ênfase do método bibliográfico ao mesmo tempo que fez emergir a relação entre a teoria e a prática, que se fez expressar pela forma como Polícia e Ações educativas e preventivas transmitem qualidade de vida aos trabalhadores. Conclusivamente, o estudo visou compreender a efetivação do papel estratégico da enfermagem para a saúde do trabalhador no mundo do trabalho, a partir das evidências científicas que se lograram.  

O objetivo geral busca analisar a atuação do Enfermeiro do Trabalho frente às doenças ocupacionais do trabalhador. Entre os objetivos específicos:  

  • Investiga a trajetória da Enfermagem do Trabalho ao longo do tempo e a sua evolução em relação às transformações sociais, econômicas e sanitárias que influenciaram o surgimento dessa especialidade do cuidado à saúde do trabalhador.  
  • Avaliar a efetividade da Enfermagem do Trabalho enquanto prática no plano da promoção da saúde e da prevenção das doenças do trabalho, retratando o enfermeiro enquanto educador em ações de vigilância epidemiológica, ações educativas preventivas e construção de práticas de cuidado que busquem a qualidade de vida nas instituições de trabalho;   
  • Investigar sobre os desafios e perspectivas futuras, centrado na valorização do trabalhador profissional, necessidade de educação continuada, em práticas humanizadas que respeitem o trabalhador como sujeito das ações de cuidar e de prevenção.  

2. BREVE HISTÓRICO DA ENFERMAGEM DO TRABALHO  

Os enfermeiros constituem o maior grupo de trabalhadores da saúde constituindo uma área central do cuidado ao ser humano – individual, familiar, comunitário ou coletivo. Sua atuação varia da promoção da saúde e da prevenção dos agravos à recuperação e à reabilitação, sempre juntamente com o trabalho em equipe. Em seu espaço ocupacional, a enfermagem do trabalho aplica saberes técnicos-científicos visando proteger e fortalecer a saúde do trabalhador. Como assinala Ribeiro (2021, p. 74), um campo que não se limita a intervir diante dos riscos, mas busca promover o bem-estar e favorecer o desempenho funcional no âmbito do trabalho.  

A enfermagem do trabalho referida por Silva (2005, p.34), é:   

A seara é afim à enfermagem em saúde pública, já que adota as mesmas práticas, estratégias e modalidades de atendimento empregadas nesses espaços, para promoção da saúde e cuidado do trabalhador face aos riscos à saúde advindos do desenvolvimento de sua própria atividade, em ações em situações onde o trabalhador se depara frente aos agentes químicos, físicos, biológicos e psicossociais, em que se enfatiza o restabelecimento do estado de saúde física e emocional do trabalhador. E ainda, a área abrange as ações de recuperação dos danos à saúde, ocupacionais ou não, e à reabilitação funcional, ou seja à manutenção da capacidade funcional laboral e da qualidade de vida do sujeito.  

A essência do processo de trabalho na enfermagem é a prestação de cuidados humanos e o desenvolvimento de promoção, prevenção de doenças e acidentes, e a reabilitação da saúde. O campo de atuação está mais abrangente a cada dia e dispõe de áreas além de hospitalares, área de pesquisa, empresas, indústrias e usinas onde a atuação é como enfermeiro do trabalho (Silva, 2005)  

A história da enfermagem do trabalho no Brasil, segundo Lima; (2009) é bastante atual e que a assistência de enfermagem do trabalho era vista mais como um atendimento emergencial na empresa, o que não a valorizava.   

Entretanto, o espaço para a atuação profissional, principalmente do enfermeiro do trabalho, foi se ampliando, seja na assistência direta aos trabalhadores e a seus familiares, ou no desempenho de funções administrativas, educacionais, de integração ou de pesquisa, entre as décadas de 50 e 70. (Lima, 2009).  

A enfermagem do trabalho surgiu em finais do século XIX na Inglaterra. A inserção da enfermagem do trabalho no meio corporativo brasileiro tornou-se obrigatória no início dos anos 1970, quando as normas passaram a exigir que as empresas contassem com profissionais qualificados na área da saúde ocupacional, como médicos, enfermeiros, técnicos e engenheiros de segurança (Lopes, 2021, p. 42). O auxiliar de enfermagem fez parte oficialmente das equipes de saúde do trabalho em 1972, por meio da Portaria nº 3.237 (ANENT, 2020). Em sequência, a consolidação da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN) possibilitou uma regulamentação dessa profissão, o que ensejou a constituição do COFEN e dos Conselhos Regionais, estes oficializados pela Lei nº 7.498/86 (Santos, 2019, p. 88).  

Em 1974, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro curso de especialização da área. A inserção do enfermeiro do trabalho nas equipes multiprofissionais ocorreu em 1975, por meio da Portaria nº 3.460, em função da mobilização da Escola de Enfermagem Anna Nery, da UFRJ (ANENT, 2020). Três anos depois, em 1978, a publicação da portaria nº 3.214 deu outro grande passo ao criar as Normas Regulamentadoras (NRs), que consagrou a base legal da saúde e segurança do trabalhador (Carvalho, 2022, p. 101). Esse processo ganhou ainda mais força após a Constituição de 1988, que consagrou entre os direitos sociais, o acesso à saúde e à segurança, com os quais foram garantidos uma postura mais humana e a proteção das relações trabalhistas (Almeida & Rocha, 2020, p. 157).  

A promulgação da Constituição da República de 1988 estabelece novo marco protetivo da saúde e da segurança do trabalho, por possuir normas jurídicas que passaram a consagrar o trabalho como um dos principais elementos para o bem estar do sujeito, seja no sentido físico, mental ou social (Ferreira e Nogueira:2021, p.113). Esta nova concepção sobre a dignidade do trabalhador serviu de fortalecimento às políticas de humanização do trabalho. Dentre elas, merece destaque a NR-4, que trata dos Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT).   

Segundo essa norma, as empresas que mantêm empregados sob o regime da CLT têm o dever de constituir equipes multidisciplinares formadas por profissionais habilitados para prevenir acidentes e doenças do trabalho. O enfermeiro do trabalho integra essa equipe como um dos integrantes na constituição do SESMT, no seu espaço para a educação, sensibilização e orientações sobre seus direitos aos trabalhadores, seja através de campanhas continuadas, seja através de ações específicas para a prevenção (Carvalho et al., 2022, p. 132).  

A CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) tem como seu principal objetivo, estabelecido na NR-5, a redução dos riscos que possam ser causadores de danos à saúde e ao bem-estar físico dos trabalhadores, tendo em vista a preservação do ambiente de trabalho e da saúde do trabalhador. Para isto, continuamente, promove e realiza ações que equilibrem a produção à proteção da vida. A CIPA tem dentre outras, as atribuições de identificar os riscos de trabalho existentes, elaborar em conjunto o mapa de riscos, acompanhar ações de prevenção e disseminar orientações sobre segurança e saúde no trabalho (Silva & Duarte, 2021, p. 57). A NR-9, por sua vez, refere-se ao Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), que é uma exigência legal e que tem como função reconhecer, avaliar e controlar os riscos de agentes físicos, químicos e biológicos que possam ser prejudiciais à saúde no trabalho. Observa-se, nesta norma, a reafirmação do cunho preventivo das ações de saúde e a ênfase na construção de ambientes mais saudáveis e na  

Nesse contexto, a enfermagem do trabalho ocupa posição estratégica. Cabe ao enfermeiro atuar não apenas na intervenção, com relação aos agravos, e, sobretudo, nas intervenções de intervenção da saúde, na promoção da saúde e no fortalecimento de um cotidiano laboral mais digno. A prática está pautada em ações educativas, campanhas informativas e programas de acompanhamento, que solidificam o cuidado integral ao trabalhador (Rodrigues, 2020, p. 113).  

A atuação atual da enfermagem ocupacional, segundo Paz e Kaiser (2021, p. 79), está ludicamente inserida nas diretrizes da Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho (PNSST), reiterando o seu compromisso com a criação de condições de trabalho justas e seguras. Esta ótica valoriza o trabalho como expressão da cidadania e busca a redução de doenças e de acidentes relacionados ao exercício da profissão, por qualidade de vida e a inclusão.  

Somente a partir dos anos 1980 e com maior rigor o Brasil passou a regulamentar as políticas voltadas para a saúde do trabalhador, em uma nova concepção sobre os efeitos do trabalho para a saúde física e emocional da população economicamente ativa (Paz & Kaiser, 2021, p. 82).  

2.1. O Profissional de Enfermagem do Trabalho e suas principais atribuições:  Habilidades e Competências  

O enfermeiro em trabalho constitui importante agente na promoção à saúde e na prevenção das doenças ocupacionais, pois é seu papel articular os saberes técnicos, teóricos e humanos no acompanhamento ao trabalhador. Para Figueiredo (2020, p. 41), este atuando como um mediador entre a gestão da empresa e os trabalhadores, contribuindo no processo de tornar o ambiente de trabalho mais seguro, ético e saudável para trabalhar. Suas competências vão além do atendimento clínico, mas passam pelo planejamento de ações educativas, pelo acompanhamento das condições de trabalho, e por promover práticas preventivas que se consolidam na cultura de segurança das instituições.   

A prática da enfermagem do trabalho requer uma visão sistêmica do ambiente de trabalho. Para Prado (2021, p.59), o enfermeiro necessita interpretar o contexto e suas dinâmicas sociais para planejar intervenções apropriadas às condições dos referidos trabalhadores. Tal leitura crítica faz com que as práticas preventivas não se restringem a protocolos, mas tornam-se instrumentos de cuidado integral. Assim, o profissional desenvolverá nada mais que uma postura investigativa, articulando ciência e sensibilidade em favor da defesa do bem-estar físico e emocional dos indivíduos.  

A formação e o aprimoramento contínuo também podem ser considerados pilares do desempenho do enfermeiro médico do trabalho. Na opinião Ferreira e Andrade (2023, p. 72) o avanço das tecnologias e a complexificação das relações laborais demandam competências interdisciplinares, envolvendo o domínio técnico e a habilidade de se comunicar e de empatia. A escuta ativa, o acolhimento e a orientação individualizada podem ser considerados diferenciais em um campo que exige presença ética e habilidade para lidar com as vulnerabilidades humanas no espaço produtivo.  

Dentre seus principais deveres está a percepção e avaliação dos riscos ocupacionais. Ribeiro (2022, p. 104) descreve que esse processo inclui o reconhecimento dos agentes físicos, químicos, biológicos, bem como a percepção sobre os fatores psicossociais que afetam a saúde do trabalhador. O enfermeiro, trabalhando junto com engenheiros de segurança e outros especialistas, elabora planos de prevenção com o intuito de minimizar danos e promover condições de trabalho dignas.  

Um outro ponto importante é a dimensão educativa, que se revela na essência transformadora da enfermagem do trabalho. Para Nascimento (2020, p. 89), a educação em saúde é uma ferramenta estratégica para empoderamento, pois ela permite ao trabalhador saborear seus direitos, reconhecer riscos e adotar posturas preventivas. O enfermeiro é, neste contexto, o agente da mudança, capaz de transformar o conhecimento técnico em uma linguagem inteligível e percuciente e, assim, possibilitar a corresponsabilidade coletiva quanto à segurança.  

A comunicação, na condição de competência relacional, um lugar de destaque no contexto desse processo. De acordo com Souza (2021, p. 33), o diálogo claro e sem ruído é necessário para gerar conexão e criar vínculo e confiança entre a equipe e os trabalhadores. Neste sentido, o enfermeiro do trabalho deverá ter capacidade de traduzir informações complexas em instruções aplicáveis, adequando-se às realidades culturais e cognitivas de cada grupo. Esta habilidade comunicativa é o que impulsionará o alcance das ações preventivas, que trarão maior comprometimento ético com o cuidado humanizado.  

Na dimensão da gestão em saúde ocupacional, o enfermeiro do trabalho exercita funções estratégicas de caráter gerencial. Para Matos e Queiroga (2019, p. 116), ele planeja, executa e avalia programas aplicados à saúde do trabalhador, atuando em comissões, relatórios de vigilância e auditorias internas. Esta dimensão gerencial demanda capacidade crítica e organizacional no sentido de enlaçar desde o controle dos exames admissionais e periódicos até o monitoramento dos casos de afastamento, readaptação e reabilitação funcional.  

A dimensão ética da atuação profissional é igualmente essencial. Para Lacerda (2022, p. 64), o enfermeiro do trabalho deve fundamentar a sua atuação em princípios de justiça, sigilo e respeito à dignidade humana. O compromisso ético é o que assegurará a confiança do trabalhador e a justiça e transparência nas realizações das práticas. Nesta perspectiva, a ética não estará caracterizada como uma obrigação normativa, mas como uma manifestação do compromisso moral e humano da enfermagem.  

As habilidades socioemocionais se destacam, na atualidade, como elementos indispensáveis. Oliveira (2024, p. 70) postula que a empatia, a escuta ativa e a autorregulação emocional possibilitam ao enfermeiro lidar com situações de estresse e conflito, mantendo a saúde das relações interpessoais. Em contextos de pressão produtiva, a capacidade de lançar mão dessas competências assegura a realização de intervenções mais corretas e humanizadas, favorecendo a articulação saúde e trabalho.  

O enfermeiro do trabalho participa das campanhas, bem como dos programas institucionais de qualidade de vida, imbricando-se nas políticas de responsabilidade social aplicadas pelas empresas. Porém, essa atuação proativa, conforme os dados de Torres e  Menezes, 2021, p. 97, tem reflexo direto nos índices de produtividade e de satisfação no trabalho. Assim, o cuidado transcende o âmbito individual, se reafirmando no âmbito organizacional do próprio negócio.  

Outro aspecto a ressaltar é a ação do enfermeiro na produção de ambientes inclusivos. Rodrigues e Paiva (2023, p. 81) sustentam que a enfermagem do trabalho desempenha papel ativo ao produzir adaptações nos postos de trabalho para pessoas com deficiência, nas ações para garantir a equidade de gênero, e na valorização da diversidade. Tal ação inclusiva amplia o alcance social da profissão e robustece o seu caráter de agente de justiça e transformação.  

2.2. Assistência de Enfermagem do Trabalho na Prevenção de Doenças Ocupacionais  

A assistência de enfermagem do trabalho é um campo considerado de extrema importância para promoção da saúde e prevenção de doenças ocupacionais. Para Figueiredo (2020, p. 41), o enfermeiro do trabalho é o intermediário entre o saber técnico científico e o cuidado humano, o que lhe permite atuar diretamente na construção de ambientes de trabalho seguros e saudáveis. O seu papel vai muito além do aspecto curativo, pois inclui ações educativas, preventivas e gerenciais que visam à preservação da integridade do trabalhador, tanto no aspecto físico quanto no mental. Desta maneira, a enfermagem do trabalho é considerada uma área estratégica em políticas de saúde ocupacional.  

No cotidiano das organizações, o enfermeiro do trabalho faz o papel de mediador entre as exigências produtivas e a saúde dos trabalhadores.  Prado (2021, p.59) afirma que a compreensão do contexto social e das condições de trabalho é fundamental para a criação de intervenções coerentes com a realidade vivida pelos trabalhadores. Essa leitura mais ampla dos riscos permite detectar perigos e propor medidas preventivas que tenham o potencial de minimizar os danos à saúde. Portanto, a atuação do enfermeiro exige sensibilidade, escuta e a capacidade de uma análise crítica das relações laborais.  

O processo de prevenção em saúde do trabalhador precisa de planejamento, vigilância e seguimento permanente. Ferreira e Andrade (2023, p. 72) afirmam que deve ser domínio do enfermeiro instrumentos técnicos de avaliação e que alternativas de gestão e comunicação devem ser desenvolvidas. Essas habilidades podem propiciar a confecção de programas que captam riscos antes da sua ocorrência e estabelecem alterações comportamentais nas empresas. Mais que isso, o cuidado se estende da individualidade para o coletivo, adquirindo características de prática educativa e transformadora.  

A prevenção das doenças ocupacionais está diretamente ligada à capacidade de gestão de identificar os fatores de risco antes de irem à fase de dano. Ribeiro (2022, p. 104) afirma que o enfermeiro do trabalho realiza inspeções, acompanha os indicadores e participa ativamente da construção do plano de ação junto aos engenheiros e gestores. Essa maneira de atuar potencializa a cultura da segurança e amplia o impacto das ações preventivas. O diagnóstico precoce e a vigilância ativa são ferramentas fundamentais na proteção da saúde dos trabalhadores.  

A dimensão educativa da assistência de enfermagem é um dos alicerces da prevenção. Nascimento (2020, p. 89) afirma que o enfermeiro, quando promove campanhas, palestras e treinamentos acaba contribuindo também com a construção de uma consciência coletiva sobre o risco ocupacional. Esta prática educativa corrobora o protagonismo do trabalhador e o estimula à adoção de comportamentos seguros. O conhecimento compartilhado é, portanto, o principal instrumento de empoderamento e de transformação no ambiente de trabalho.  

Outro aspecto que também é fundamental para a contribuição das ações preventivas é a comunicação. Souza (2021, p. 33) salienta que o enfermeiro deve propiciar um diálogo acessível, afetuoso e contínuo com todos os setores da empresa. Esse transitar comunicação é capaz de auxiliar na compreensão das orientações, além de potencializar o estabelecimento de vínculos de confiança entre equipe e trabalhadores. A escuta ativa e a linguagem empática são, portanto, ferramentas imprescindíveis para a execução das ações de prevenção.  

A atuação do enfermeiro na gestão de programas de saúde ocupacional é igualmente fundamental. Matos e Queiroga (2019, p. 116) explicam que é sua responsabilidade planejar, executar e avaliar estratégias para reduzir os índices de acidentes e de afastamento. Essa dimensão administrativa refere-se à coordenação de exames médicos, registros de ocorrências e relatórios técnicos. A sistematização e o controle do conhecimento favorecem a fundamentação da prevenção em evidência e em resultados concretos.  

No que tange ao ético, Lacerda (2022, p. 64) reitera que a obrigação do enfermeiro deve residir na dignidade e no respeito ao trabalhador. A confidencialidade das informações, o juízo imparcial das circunstâncias e a conduta profissional correta são fatores imprescindíveis para a execução do trabalho responsável. A ética não representa apenas um conjunto de normas, mas expressa a essência dessa atividade que caracteriza o exercício da enfermagem. Este modo de agir ética também desempenha habilidade de prevenir e proteger a vida.  

A prevenção de enfermidades ocupacionais requer, ainda, o desenvolvimento de competências socioemocionais. Oliveira (2024, p. 70) defende que a empatia, a paciência e a autorregulação emocional podem auxiliar o enfermeiro a trabalhar sob pressão, em situações de conflito e de sofrimento no trabalho. Essas habilidades sustentam o equilíbrio necessário para atuar diante de diferentes exigências, mantendo o cuidado humanizado. O profissional que compreende as emoções do outro reforça a confiança e torna o processo preventivo mais efetivo.  

Além da prevenção de riscos físicos, o enfermeiro do trabalho também participa da promoção da saúde mental e da melhoria do clima organizacional. Torres e Menezes (2021, p. 97) demonstram que os programas de qualidade de vida e de campanhas de bem-estar repercutem positivamente sobre a motivação e a produtividade. A saúde integral enxerga o trabalhador como sujeito de múltiplas dimensões, e não como mera unidade de produção. A humanização desta visão proporciona o fortalecimento da cultura de saúde e segurança no trabalho. Ainda, a inclusão e a equidade estão presentes nas ações preventivas realizadas pela enfermagem, conforme afirmam Rodrigues e Paiva (2023, p. 81), quando o enfermeiro do trabalho possui um papel fundamental na adaptação dos espaços e práticas, assegurando a acessibilidade e o respeito à diversidade. A prevenção, portanto, se amplia para a criação da justiça social e a valorização do ser humano. O profissional que se apresenta como inclusivo estabelece vínculos e colabora para ambientes mais éticos e mais solidários.   

Finalmente, Fernandes (2024, p. 120) resume que a assistência de enfermagem do trabalho, quando pautada por princípios científicos, éticos e humanos, é capaz de transformar o cotidiano do mundo do trabalho em um espaço de dignidade e de proteção. Para a prevenção de doenças ocupacionais, não se pode computar apenas a ausência de adoecimento, mas a presença efetiva do cuidado e da educação. Desse modo, o enfermeiro do trabalho reafirma a sua missão de ser o guardião da saúde e o promotor da vida em todos os espaços produtivos.  

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS  

O presente estudo reabriu a discussão acerca da pertinência da assistência de enfermagem do trabalho na prevenção das doenças ocupacionais, ressaltando o enfermeiro como mediador importante do diálogo entre cuidado humano e segurança do trabalho. O problema de pesquisa — Qual o papel do enfermeiro do trabalho frente às doenças ocupacionais do trabalhador — mostrou ser atual e relevante, especialmente em razão da mudança das dinâmicas produtivas. A relevância do estudo é que o cuidado preventivo e educativo é imprescindível para o bem-estar e diminuição dos riscos no ambiente laboral.  

Os resultados obtidos atenderam as metas propostas, comprovando que o enfermeiro do trabalho tem um papel estratégico, que vai da vigilância à saúde ao planejamento de ações de prevenção. Sua atuação foi verificada através da educação continuada e da gestão de riscos, na aproximação da teoria à prática. As análises demonstraram o quanto as intervenções preventivas e a comunicação assertiva contribuem para saturar as políticas de segurança e fortalecer a cultura de proteção à vida.  

A hipótese, revelou que o enfermeiro, além de reduzir a chance de quedas e doenças, motiva mudanças organizacionais, alicerçadas no respeito à dignidade humana. Ao agir de forma preventiva e educativa, o profissional vai transformar o ambiente de trabalho em um espaço de cuidado coletivo, reafirmando a importância da enfermagem do trabalho nas equipes multiprofissionais.  

A abordagem qualitativa com uma base bibliográfica mostrou-se apropriada aos objetivos traçados. Essa decisão possibilitou uma análise reflexiva das práticas e desafios da enfermagem do trabalho, diluindo as várias facetas do seu fazer. O levantamento teórico favoreceu o diálogo entre saber científico e prática, mostrando um campo em seguido, alicerçado pelo saber técnico, pela competência humana e pela responsabilidade social.  

Durante a realização do estudo, algumas limitações se impuseram, especificadamente a escassez de estudos empíricos mais recentes sobre o efeito das ações da enfermagem nas organizações. Entretanto, essa lacuna não resultou em comprometimento da validade ou consistência dos resultados, mas reforçou a necessidade de ampliação de estudos que abranjam condições variáveis e que busquem indicadores de impacto mensurável. A ausência de dados quantitativos acena outras abordagens complementares de pesquisa.  

Entre as contribuições obtidas, destacamos a apropriação da ideia de que o enfermeiro do trabalho seja o protagonista das práticas preventivas e promotor da saúde coletiva. Este estudo corrobora que o papel da enfermagem ultrapassa a realidade do atendimento clínico e reveste-se, na verdade, da gestão das políticas internas das organizações, da educação dos trabalhadores, e ações para melhoramento dos ambientes de trabalho, proporcionando ambientes laborais mais autênticos e humanizados. Seu trabalho é o reflexo dos compromissos éticos com a vida e com o desenvolvimento sustentável das instituições.  

A pesquisa também demonstrou a importância das ações educativas como instrumentos de transformação. A promoção, pelos enfermeiros, de campanhas, palestras e treinamentos, contribui para que os trabalhadores se conscientizem e se empoderem. Essa condição pedagógica é uma atitude instrumental que reforça a ideia de enfermagem enquanto ciência do cuidar, capaz de articular saberes, atitudes e práticas voltadas à prevenção e à solidariedade no âmbito laboral.  

Estas limitações investigadas, todavia, apresentam-se como propostas para pesquisas futuras. Pesquisas de campo poderiam ampliar a compreensão do impacto real das intervenções preventivas, conectando-as aos índices de afastamentos, absenteísmo e satisfação no trabalho. Novos estudos também podem estudar o papel da formação continuada na consolidação das competências que o enfermeiro do trabalho precisa localizar diante dos desafios tecnológicos e psicossociais de nossos tempos.    

Ainda se pode sugerir para pesquisas futuras, a investigação sobre políticas públicas e modelos de gestão que valorizem a atividade do enfermeiro do trabalho. A integração entre as instituições de ensino, as empresas e os órgãos de saúde poderá contribuir para a formação de práticas mais justas, mais seguras e mais humanizadas. Essa articulação é fundamental para o fortalecimento da saúde ocupacional como campo interdisciplinar e efetivamente promotor da cidadania.    

Conclui-se, assim, que a enfermagem do trabalho é um pilar imprescindível para a edificação de ambientes saudáveis e produtivos, pois, enquanto técnica, ética e sensibilidade, o enfermeiro do trabalho renova-se como parte ativa e transformadora do verdadeiro tecido da realidade organizacional. Sua presença atuante nas instituições irá, além de prevenir agravos, ressignificar o cuidado enquanto valor coletivo, revalidando que a proteção da vida é o princípio maior de toda prática profissional voltada para o homem trabalhador.  

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

ALMEIDA, R.; ROCHA, M. Saúde e dignidade no ambiente de trabalho: fundamentos constitucionais e políticas de proteção. São Paulo: Atlas, 2020.  

ANENT. Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho: histórico e avanços da profissão no Brasil. Rio de Janeiro: ANENT, 2020.  

CARVALHO, T. P. Enfermagem do trabalho e as Normas Regulamentadoras: interfaces entre saúde e segurança. Belo Horizonte: Editora FUMEC, 2022.  

CARVALHO, T. P.; SILVA, D. R.; GOMES, L. A. Educação e prevenção em saúde do trabalhador: práticas do enfermeiro na constituição do SESMT. Recife: EDUPE, 2022.  

FERREIRA, J. A.; NOGUEIRA, E. M. Direito à saúde e humanização do trabalho: perspectivas constitucionais. Brasília: Thesaurus, 2021.  

FERREIRA, M. L.; ANDRADE, D. S. Competências e formação continuada em enfermagem do trabalho. Belo Horizonte: Appris, 2023.  

FIGUEIREDO, J. C. Saúde ocupacional e o papel do enfermeiro na gestão de riscos.  Rio de Janeiro: Rubio, 2020.  

LACERDA, B. E. Ética e responsabilidade social na enfermagem do trabalho. Curitiba: CRV, 2022.  

LIMA, A. R.; LIMA, M. S. História da enfermagem do trabalho no Brasil: origens, avanços e desafios. Curitiba: Appris, 2009.  

LOPES, R. C. A evolução da enfermagem do trabalho e o contexto da saúde ocupacional no Brasil. Porto Alegre: Sagah, 2021.  

MATOS, E. A.; QUEIROGA, T. L. Gestão e planejamento em saúde do trabalhador: desafios contemporâneos. Recife: EDUPE, 2019.  

NASCIMENTO, A. F. Educação em saúde ocupacional: práticas pedagógicas e cidadania. Salvador: EDUFBA, 2020.  

OLIVEIRA, H. G. Competências socioemocionais na enfermagem contemporânea.  Porto Alegre: Sagah, 2024.  

PAZ, E.; KAISER, F. Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho: perspectivas e atuação da enfermagem ocupacional. Florianópolis: Pandion, 2021.  

PRADO, M. C. Enfermagem do trabalho e mediação do cuidado preventivo. Fortaleza: EdUECE, 2021.  

RIBEIRO, L. F. Enfermagem do trabalho: cuidado, prevenção e promoção da saúde no ambiente laboral. Salvador: Edufba, 2021.  

RIBEIRO, T. S. Gestão de riscos e promoção da saúde ocupacional. Brasília: Thesaurus, 2022.  

RODRIGUES, P. R.; PAIVA, L. J. Inclusão e diversidade nas práticas de enfermagem do trabalho. São Luís: EDUFMA, 2023.  

RODRIGUES, S. P. Ações educativas e prevenção em saúde ocupacional: o papel do enfermeiro do trabalho. Fortaleza: EdUECE, 2020.  

SANTOS, J. M. Regulamentação e valorização da enfermagem do trabalho no Brasil. Campinas: Papirus, 2019.  

SILVA, M. A. Fundamentos da enfermagem do trabalho: práticas, riscos e reabilitação. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.  

SILVA, R. P.; DUARTE, A. G. CIPA e a cultura de prevenção nas organizações: o papel da enfermagem. São Paulo: Cortez, 2021.  

SOUZA, C. N. Comunicação e vínculo na prática da enfermagem do trabalho. Florianópolis: Pandion, 2021. 

TORRES, E. A.; MENEZES, R. F. Programas de qualidade de vida e atuação do enfermeiro do trabalho. Campinas: Papirus, 2021.