TRABALHO COLABORATIVO NA INCLUSÃO DE DISCENTES SURDOS E SURDOCEGOS DO CURSO DE PEDAGOGIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ – CAMPUS DE PARANAGUÁ

COLLABORATIVE WORK IN THE INCLUSION OF DEAF AND DEAFBLIND STUDENTS ON THE PEDAGOGY COURSE AT THE STATE UNIVERSITY OF PARANÁ – PARANAGUÁ CAMPUS

TRABAJO COLABORATIVO EN LA INCLUSIÓN DE ALUMNOS SORDOS Y SORDOCIEGOS EN EL CURSO DE PEDAGOGÍA DE LA UNIVERSIDAD ESTADUAL DE PARANÁ – CAMPUS  PARANAGUÁ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511232358


Stella Cristina Cordeiro do Rosário1
Elizabeth Regina Streisky de Farias2


RESUMO 

Esta pesquisa objetivou investigar como se dá a inclusão de discentes surdos e surdoscegos do  curso de Pedagogia no âmbito acadêmico da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), na  perspectiva do trabalho colaborativo no Campus de Paranaguá realizados nos anos de 2024 e  2025. A metodologia da pesquisa baseou-se na pesquisa documental, bibliográfica e de campo.  Quanto à pesquisa documental, analisou-se o Projeto Pedagógico do Curso de Pedagogia, da  Unespar Paranaguá, já na pesquisa bibliográfica foram utilizados autores como: MAIA (2004),  QUADROS (2006), SKLIAR (2006), STROBEL (2008), SANTOS e CASSIANO (2024),  SILVEIRA e FREITAS (2018), que discorrem sobre a inclusão dos surdoscegos, aspectos  pedagógicos com alunos surdos e surdoscegos, bem como sobre trabalho colaborativo. A  pesquisa de campo caracterizou-se como exploratória e utilizou-se como instrumento de coleta  de dados, questionários no google forms, sendo aplicados aos alunos surdos e surdos-cegos,  professores das turmas em que estes alunos se encontram e colaboradores do Núcleo de  Educação Especial Inclusiva (NESPI). Os resultados da pesquisa apontam que, embora muito  se tenha avançado em relação à inclusão, considerando que alunos com deficiência chegam ao  ensino superior, ainda há muito que se avançar quanto às barreiras atitudinais e acessibilidade  curricular. 

Palavras-chave: Trabalho colaborativo, Surdos, Surdocegos, Inclusão no Ensino Superior.

ABSTRACT 

This research aimed to investigate the inclusion of deaf and deafblind students in the Pedagogy  program within the academic environment of the Paraná State University (Unespar), from the  perspective of collaborative work on the Paranaguá Campus, carried out in 2024 and 2025. The research methodology was based on documentary, bibliographical, and field research. For  documentary research, the Pedagogical Project of the Pedagogy Program at Unespar Paranaguá  was analyzed. For bibliographic research, authors such as MAIA (2004), QUADROS (2003),  SKLIAR (2006), STROBEL (2008), SANTOS and CASSIANO (2024), and SILVEIRA and  FREITAS (2018) discussed the inclusion of deafblind students, pedagogical aspects with deaf  and deafblind students, and collaborative work. The field research was exploratory and used  questionnaires as a data collection tool, administered to deaf and deaf-blind students, teachers  of the classes they attend, and staff from the Center for Inclusive Special Education (NESPI).  The research results indicate that, although much progress has been made in terms of inclusion,  considering that students with disabilities reach higher education, there is still much to be done  regarding attitudinal barriers and curricular accessibility. 

Keywords: Collaborative work, Deaf, Deafblind, Inclusion in Higher Education. 

RESUMEN 

Esta investigación tuvo como objetivo investigar la inclusión de estudiantes sordos y  sordociegos en el programa de Pedagogía, dentro del ámbito académico de la Universidad Estatal de Paraná (Unespar), desde la perspectiva del trabajo colaborativo en el campus de  Paranaguá, realizado en 2024 y 2025. La metodología de investigación se basó en la  investigación documental, bibliográfica y de campo. Para la investigación documental, se  analizó el Proyecto Pedagógico del Programa de Pedagogía de la Unespar Paranaguá. Para la  investigación bibliográfica, autores como MAIA (2004), QUADROS (2003), SKLIAR (2006),  STROBEL (2008), SANTOS y CASSIANO (2024), y SILVEIRA y FREITAS (2018)  abordaron la inclusión de estudiantes sordociegos, los aspectos pedagógicos con estudiantes  sordos y sordociegos, y el trabajo colaborativo. La investigación de campo fue exploratoria y  empleó cuestionarios como instrumento de recolección de datos, administrados a estudiantes  sordos y sordociegos, al profesorado de las clases a las que asisten estos estudiantes y al  personal del Centro de Educación Especial Inclusiva (NESPI). Los resultados de la  investigación indican que, si bien se ha avanzado mucho en materia de inclusión, considerando  que los estudiantes con discapacidades acceden a la educación superior, aún queda mucho por  hacer en cuanto a las barreras actitudinales y la accesibilidad curricular. 

Palabras clave: Trabajo colaborativo, Sordos, sordociegos, inclusión en la educación superior.

1. INTRODUÇÃO 

O presente artigo relata uma investigação realizada sobre a inclusão de alunos surdos e  surdos cegos no contexto de uma universidade pública estadual do município de Paranaguá – Pr, no curso de Pedagogia, na perspectiva do trabalho colaborativo. A relevância deste trabalho  diz respeito ao conhecimento sobre os direitos das pessoas com surdez e surdo-cegueira no  ambiente educacional e suas particularidades, mais especificamente no Ensino Superior,  baseando-se na Lei 13.146/2015 – Lei Brasileira de Inclusão de Pessoas com Deficiência (BRASIL,2015), a qual assegura o ingresso e a permanência dos alunos com deficiência em todos os níveis de ensino. 

Como problema de pesquisa questiona-se como se dá a inclusão de alunos surdos e  surdocegos no ensino superior, em uma universidade pública estadual do município de  Paranaguá. 

O objetivo geral deste trabalho é: investigar como se dá a inclusão de alunos surdos e  surdoscegos em uma universidade pública estadual do município de Paranaguá. Quanto aos objetivos específicos elencou-se: Investigar a percepção dos professores  quanto à inclusão; Identificar a adaptação de material e planejamento para alunos surdos e  surdocegos; Analisar a legislação referente ao aluno surdo e surdocego no Curso de Pedagogia de uma universidade pública; identificar o atendimento educacional especializado destinado  aos alunos surdos e surdoscegos. 

Os principais autores que fundamentam este trabalho são Maio e Freitas (2018), Maia  (2004), Skliar (2003), Muller de Quadros (2006), entre outros que tratam da temática,  conceituam surdo e surdocegueira, que trazem abordagens sobre a cultura e comunidade surda. 

A metodologia utilizada nesta pesquisa baseou-se em uma abordagem qualitativa,  caracterizando-se como uma pesquisa exploratória. Utilizou-se da pesquisa documental,  bibliográfica e de campo. 

Quanto à pesquisa bibliográfica, foram pesquisados artigos científicos retirados de  fontes como Scielo e Google Acadêmico, utilizando as palavras chaves: Inclusão, Trabalho  Colaborativo, Surdos, Surdoscegos, Inclusão na Universidade. Foi realizada também uma  pesquisa documental, analisando o Projeto Pedagógico do Curso (PPC), à luz de leis e decretos  que se aplicam aos estudantes surdos e surdoscegos.  

A pesquisa de campo, utilizou como instrumento o questionário no formato google  forms, voltado para grupos diferenciados: os estudantes surdos e surdoscegos, os docentes que  atuam ou atuaram na docência de estudantes surdos e surdoscegos e professores que atuam no  Centro de Educação em Direitos Humanos (CEDH), especificamente no Núcleo de Educação  Especial Inclusiva (NESPI). A análise de dados seguiu a metodologia de análise de conteúdo,  baseada em Minayo (2014). Como resultados, foi possível identificar que, embora muitos  avanços tenham acontecido ao longo dos últimos anos, considerando que tais estudantes  chegaram ao ensino superior e apresentam sucesso em suas trajetórias, ainda há muito que se  caminhar, para que as instituições compreendam que precisam tornar-se inclusivas e eliminar  barreiras que impeçam o desenvolvimento de pessoas com deficiências.

2. REFERENCIAL TEÓRICO 

A surdez é considerada uma deficiência sensorial, que se caracteriza pela perda total ou  parcial da capacidade de perceber sons. Esta deficiência pode comprometer a comunicação e o  desenvolvimento da linguagem oral. O Decreto 5626/2005, que regulamenta a Lei de Libras  (Lei no.10.436/2002), considera que a pessoa surda, por ter perda auditiva, compreende e  interage com o mundo por meio de experiências visuais, tendo como principal meio de  comunicação o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras). 

Alguns autores, entre eles Sánches (1990) e Lacerda (2006), compreendem que a surdez  não é apenas uma limitação, mas uma diferença linguística e cultural, pois estabelecendo uma  língua diferenciada, estabelecem também uma comunidade com identidade própria, mediada  pela Libras, como primeira língua e a língua portuguesa como segunda língua. 

Os surdos em sua maioria se reconhecem como parte de uma comunidade surda, se  colocando em um lugar de autenticidade, consequentemente se posicionando e lutando por seus  direitos, seja culturalmente, socialmente e em qualquer outro aspecto. 

[…] os sujeitos surdos, quando se identificam com a comunidade surda, estão mais motivados a valorizar a sua condição cultural e, assim, passariam a respirar com mais orgulho e auto confiantes na sua construção de identidade e ingressariam em uma relação intercultural, iniciando uma caminhada sendo respeitado como sujeito  “diferente” e não como “deficiente” (STROBEL, 2008, p. 33). 

Neves (2021), ressalta que continuamente tem sido necessário pensar em políticas de  identidades surdas em suas interseccionalidades, ou seja, em que se considerem também  aspectos como gênero, etnia, classe social, etc., constituindo então relações pessoais e sociais,  determinando as formas dos sujeitos interagirem entre si e com o mundo. A autora pontua uma  coisa necessária de se citar, pois os surdos são indivíduos que possuem seus direitos como  qualquer outro, eles não são isentos disso, pois o fato de não ouvirem não quer dizer que não  sejam pessoas e não façam ou não participem de coisas comuns do cotidiano, pelo contrário,  eles podem e devem estar no lugar em que quiserem, seja no educacional, no mercado de  trabalho, em shows, e em outros inúmeros locais de acesso, pois a surdez é apenas uma condição  física, eles vem acima dela como sujeitos. A única diferença é que utilizam uma maneira  diferente de se comunicar, ao invés de utilizarem a voz como fazem os ouvintes eles utilizam  as mãos, através da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), pois “A língua de sinais é a forma  natural de comunicação das pessoas surdas e constitui um elemento central para a construção  de sua identidade cultural, permitindo a interação social plena e o acesso à informação” (SKLIAR, 2003, p. 45). Por este motivo, “As instituições de ensino, as empresas prestadoras  de serviços públicos de saúde, e os órgãos públicos em geral garantirão às pessoas surdas o  atendimento e a prestação de serviços por profissionais intérpretes de Libras.” (BRASIL, 2005,  Art. 26). 

Quanto à surdo-cegueira, trata-se de uma deficiência única, que se caracteriza pela  associação de perdas auditivas e visuais em graus diferenciados. Tal condição provoca desafios  significativos na comunicação e no acesso à informação, podendo provocar também prejuízos  na aprendizagem, caso não tenham suportes adequados.  

De acordo com Maia (2010), não se trata simplesmente da soma da surdez e da cegueira,  mas refere-se a uma condição que exige formas específicas de comunicação e ensino. Quanto  às pessoas surdos-cegas compreende-se que além de terem perda auditiva também possuem  baixa ou perda total da visão, precisando assim de uma adaptação diferenciada dos surdos, os  quais precisam apenas de intérprete, já eles necessitam de guia intérprete, que os auxiliam na  locomoção, e se necessário utilizam a libras tátil, onde o sinal pode ser identificado ao tocar nas  mãos tendo clareza ao sentir os movimentos. “A surdocegueira é uma condição humana única  […] que cria uma nova forma de perceber o mundo, exigindo adaptações comunicativas  específicas, como o uso da modalidade tátil” (ALMEIDA, 2015, p. 163). Por este motivo não  deve-se considerar que todos os surdos-cegos têm a mesma forma de comunicação, pois cada  um pode ter o livre arbítrio de escolher a maneira mais adequada para sua necessidade, outra  opção por exemplo é o tadoma, que é um outro método deles se comunicarem, utilizando a  vibração das cordas vocais, ao tocar as mãos no pescoço da pessoa em que irá falar.  

De acordo com Santos; Cassiano (2024, p. 7) “A Libras Tátil é uma adaptação da Língua  Brasileira de Sinais, em que os sinais são percebidos pelas mãos da pessoa surdocega,  constituindo-se como um recurso fundamental para a sua comunicação”. É importante ressaltar  a importância do uso da libras tátil para os surdos-cegos.

De acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação  Inclusiva (Brasil, 2008), o estudante surdocego tem direito ao uso de recursos comunicativos  individualizados, como Libras tátil. 

Compreende-se que estes sujeitos possuem capacidades de estarem inseridos onde  quiserem e que seus direitos não os diminui e nem fazem com que eles tenham menos  autonomia. Maia (2004) destaca que: “O processo educativo da pessoa surdocega precisa ser  construído a partir de recursos individualizados, respeitando suas especificidades  comunicativas e cognitivas”. Neste sentido, o processo precisa ser construído a partir de  recursos individualizados, respeitando as especificidades de cada estudante, superando modelos padronizados. Portanto, o professor precisa conhecer as potencialidades de cada aluno. No caso  da surdez e surdocegueira, é importante considerar a importância da Língua Brasileira de Sinais  – Libras, conforme destacam Quadros e Schimiedt (2006, p. 12) “Para que a inclusão dos surdos  seja real, é necessário garantir-lhes o direito à língua de sinais como primeira língua e o  português como segunda língua, possibilitando o acesso ao currículo e a vida escolar”. Portanto,  para que haja uma verdadeira inclusão, é necessário respeitar e reconhecer que a primeira língua  dos surdos e dos surdocegos é a “Língua Brasileira de Sinais (Libras)”, sendo que  consequentemente sua maneira de se comunicar será diferente dos demais, e seus meios e  estratégias também. E buscar inserir os discentes e demais comunidade Educacional em um  conhecimento sobre, os levando a uma interação social. 

No que diz respeito a legislação, aponta-se a Lei Brasileira de Inclusão (LBI)  13.146/2015, que é o Estatuto da Pessoa com Deficiência, o qual promove igualdade de condições, direitos e liberdade, a Lei 10.436/2002, que reconhece a Libras como meio legal de  comunicação e garante o direito de ingresso e permanência dos surdos e surdocegos na  Universidade, o Decreto 5.626/2005, que incentiva a inclusão educacional, e a Lei 14.1991 que  considera a Libras como primeira língua dos surdos e surdoscegos.  

Entende-se como trabalho colaborativo qualquer necessidade que é atendida em grupo,  Parrilla (1996), DE HARO (1999) ressaltam que os grupos de colaboração são aqueles em que  todos os envolvidos compartilham as decisões tomadas. Ou seja, é um trabalho realizado por  várias pessoas, podendo utilizar diversos meios e passando por diversas etapas se necessário,  até chegar em um consenso único para se atender o que precisa. No caso dos surdos e dos  surdos-cegos, a colaboração se dá através de assistência dada por profissionais qualificados na  área, tanto professores quanto intérpretes e guias intérpretes, que os auxiliam de maneira  específica e adaptada. O trabalho desses é indispensável, no aspecto pedagógico é muito  importante a interação entre os indivíduos, havendo planejamento, flexibilidade e compromisso  da parte de todos os envolvidos. Para Capellini e Zerbato (2019), o ensino colaborativo (ou co ensino) serve como uma cooperação entre o professor regente e o professor especializado para  que haja um ambiente inclusivo através desse trabalho unido.  

O acesso de estudantes surdos e surdocegos ao Ensino Superior não se inicia  especificamente em 2015, mas é construído a partir de legislações anteriores, como a Lei nº  10.436/2002 e o Decreto nº 5.626/2005, que reconhecem a Libras e determinam condições de  acessibilidade. Em 2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) amplia e  consolida esses direitos, estabelecendo que é dever das instituições de ensino garantir acesso, permanência e aprendizagem, por meio de recursos de acessibilidade que eliminem estruturais  e atitudinais. Assim, as universidades têm a responsabilidade de se organizar tanto nos aspectos  físicos e estruturais, quanto pedagogicamente para assegurar aos estudantes surdos e  surdocegos os apoios necessários para o seu pleno desenvolvimento no seu percurso acadêmico.  

A Lei 13.146/2015 é o principal instrumento legal que garante os direitos das pessoas  com deficiência, incluindo as pessoas surdas, no acesso ao ensino superior. O Estatuto  estabelece que as instituições de ensino superior devem adotar medidas para garantir a  acessibilidade e a inclusão de estudantes surdos, como: tradução e interpretação em Libras,  materiais didáticos acessíveis, professores bilíngues, acesso à comunicação e informação e  adaptação curricular. 

De acordo com Silveira & Freitas (2018, p.1737) “O atendimento educacional ao aluno surdocego exige metodologias específicas, considerando a singularidade dessa deficiência e a  importância de estratégias comunicativas alternativas.” Contudo, não é possível atender esses  alunos com o mesmo método que os demais, ele possui os mesmos direitos deles sim, porém  precisa de adaptações seja através de materiais, seja com o apoio da guia intérprete ou de  qualquer outra forma, não é uma coisa negociável, é uma necessidade e um direito deles. Ou  seja, se eles não tiverem esse apoio podem sofrer consequências negativas no desempenho, na  comunicação principalmente, mas também com as demais atividades e responsabilidades que  terá ao longo da vida acadêmica.  

Masini (2002) aponta que o ensino desses indivíduos mostra de forma clara a  necessidade de uma visão individualizada que permita mostrar o fato que os estudantes surdos cego possuem necessidades individuais, cada um tendo sua própria especificidade. Os locais  educacionais precisam ser abertos para acatar o que esses alunos precisam, pois tudo deve ser  adaptado de forma que atenda o que cada um precisa com as ferramentas que eles escolherem,  esses espaços precisam ter entendimento e preparo para recebê-los, de maneira inclusiva. 

O trabalho colaborativo no ensino superior, representa uma importante estratégia na  perspectiva da educação inclusiva, pois, conforme Pimenta e Anastasiou (2014), o ensino  universitário precisa ir além da transmissão de conteúdos, mas pautar-se pelo diálogo e  construção coletiva do conhecimento. No caso do estudante surdo ou surdocego, a colaboração  deve se dar entre professores, intérpretes de Libras, guias-intérpretes e núcleos de Atendimento  Educacional Especializado (AEE), de forma a assegurar o pleno desenvolvimento e  aprendizagem do estudante.

Assim, o trabalho colaborativo no ensino superior não apenas garante o direito à  aprendizagem, mas também fortalece a cultura da inclusão e o compromisso social da  universidade com a diversidade humana. 

3. METODOLOGIA 

Foi realizada uma pesquisa documental, sendo analisado o Projeto Pedagógico do Curso  de Pedagogia, também realizou-se uma pesquisa bibliográfica, utilizando de autores que tratam  da inclusão e particularmente da inclusão de alunos surdos e surdos-cegos. Foram pesquisados  artigos em periódicos, utilizando como palavras chaves: inclusão no Ensino superior, surdez e  surdo-cegueria. Por fim foi realizada uma pesquisa de campo, utilizando como instrumento  questionários por meio do google forms, direcionados aos alunos surdos e surdoscegos que  cursam Pedagogia na Unespar Paranaguá, aos professores que atuaram junto a estas turmas em  que estes estudantes estão inseridos e profissionais envolvidos, como intérpretes, guias  intérpretes, coordenadora do Núcleo de Educação Especial Inclusiva. A análise dos resultados  foi realizada a partir da análise de conteúdo de Minayo (2014).  

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

De acordo com a pesquisa documental, que analisou o Projeto Pedagógico do Curso de  Pedagogia da Universidade Estadual do Paraná, Campus Paranaguá, é evidenciado o  compromisso institucional com as políticas públicas de inclusão e acessibilidade no ensino  superior. Ao atender às legislações — Lei nº 10.436/2002, que reconhece a Libras como meio  legal de comunicação; Decreto nº 5.626/2005, que regulamenta seu ensino e o trabalho de  intérpretes; e Lei nº 13.146/2015, que institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com  Deficiência (LBI) —, a Unespar Paranaguá busca assegurar o acesso, a permanência e a  aprendizagem de estudantes surdos e surdocegos. As medidas mencionadas, como a  flexibilização curricular, a adaptação de recursos e avaliações, a contratação de intérpretes e  guias-intérpretes, bem como a elaboração de Planos de Ensino Individualizados (PEI), refletem  o avanço das políticas inclusivas no ensino superior. O cumprimento da legal demonstra não só  um ato burocrático, mas evidencia a efetivação de uma prática pedagógica humanizada, que  reconhece a diversidade de seus estudantes. 

Os questionários foram enviados para dois discentes surdos e um discente surdocego do  curso de Pedagogia, oito intérpretes em Libras, três responsáveis pelo Nespi, e nove docentes do curso de Pedagogia, todos participantes da Universidade Estadual do Paraná – Campus  Paranaguá.  

No questionário um (discentes), respondido por duas pessoas, sendo um aluno surdo e  outro surdocego, foram elaboradas doze perguntas, sendo elas relacionadas a questões como o  atendimento, a adaptação, a inclusão que recebem, quais os desafios que enfrentam dentro da  Universidade, e sobre o conhecimento de seus direitos no âmbito universitário.  

No questionário dois (Nespi e intérpretes), respondido por quatro pessoas, foram  realizadas sete perguntas, as quais foram direcionadas para questões como a quantidade de  alunos surdos e surdocegos que auxiliam no curso de Pedagogia, como se dá o auxílio, a quanto  tempo eles trabalham na área, qual a formação deles e a opinião de como se dá a inclusão desses discentes na Universidade. 

No questionário três (docentes), respondido por seis pessoas, foram feitas seis perguntas, sendo elas sobre quantos discentes surdos e surdocegos eles tiveram nos últimos  quatro anos, como é feita a comunicação entre eles, quais os desafios encontrados, se há ou não  adaptações para os discentes, se possuem conhecimento dos direitos desses alunos, e a opinião  sobre como se dá a inclusão dos mesmos na Universidade.  

Os questionários tinham perguntas objetivas e discursivas. As respostas do questionário  destinado aos alunos com deficiência (surdez e surdo-cegueira), indica que eles têm  atendimento especializado, participam do Nespi (Núcleo de Educação Especial Inclusiva),  evidenciando que a participação em tal núcleo auxilia no desenvolvimento deles, disponibiliza  intérpretes e guias intérpretes, enfatizando que dois intérpretes por aluno, conforme a instituição  oferece, é bastante proveitoso, pois, conseguem fazer o revezamento durante as aulas. 

Os estudantes respondentes relatam que utilizam diferentes materiais adaptados às diversas atividades acadêmicas, como impressões em fontes ampliadas e destacadas, vídeos  com tradução em Libras e textos simplificados. Compreende-se que tais recursos são essenciais  para garantir o acesso ao currículo e conteúdo, viabilizando a compreensão, uma vez que  constituem práticas de acessibilidade fundamentais no contexto educacional inclusivo,  conforme enfatiza Sassaki (2010), ao discutir a importância de eliminar barreiras por meio de  adaptações materiais e comunicacionais. 

Quanto aos desafios apontados pelos discentes, eles destacam as dificuldades de  comunicação com colegas ouvintes, sobretudo porque muitos ainda não dominam a Libras.  Essa barreira linguística compromete interações, trabalhos em grupo e vivência plena nas  atividades acadêmicas. Quadros (2006) assevera que a ausência de uma língua compartilhada  entre surdos e ouvintes constitui um dos principais obstáculos à inclusão em ambientes educacionais, uma vez que limita o diálogo e restringe experiências colaborativas. Desta forma,  temos a confirmação desta realidade, nos relatos dos estudantes, evidenciando que, apesar dos  avanços institucionais, ainda há necessidade de ampliar o conhecimento da Libras entre a  comunidade acadêmica para promover relações mais inclusivas. 

As respostas do questionário voltados para os profissionais de apoio, como intérpretes  e pessoal de apoio pedagógico, foi evidenciado que possuem as seguintes formações: tradutora  intérprete de Libras e professora de Libras; Pedagogia/especialização em Libras/Educação  Especial/Surdocegueira, Educação Especial/Gestão, saberes e práticas; Pedagogia; Bacharel e  Licenciatura em Letras Libras. Em relação aos alunos surdos, constatou-se que a mediação se  dá a partir da interpretação de Libras, tradução de textos e atividades e troca de ideias com os  docentes. Já para alunos surdocegos ocorrem alguns meios como: a Libras tátil (cujo sinal é  sentido pelo aluno segurando na mão da guia intérprete), a tradução é realizada no campo de  visão do discente, as letras dos textos são ampliadas e os textos são traduzidos para melhor  entendimento deles, pois na comunidade surda e surdocega eles não conjuga verbo, por isso  os textos precisam ser adaptados, também são feitas essas adaptações quando é necessário  apresentar slides, precisa ter legenda e a imagem nítida, os discentes surdocegos também  precisam de mediação na locomoção, sendo guiados pelos intérpretes, principalmente em locais  com escadaria, por conta da visão limitada que eles têm.  

Os profissionais de apoio, sendo quatro respondentes, dois indicam em suas respostas  ao questionário que consideram a universidade inclusiva para este público e dois consideram  que não há inclusão. Entre os pontos citados como positivos para a inclusão, elencamos: apoio  à permanência no curso; disponibilidade de sala de recurso com professora bilíngue; tradução  de textos; adaptações específicas; professores dispostos e empenhados a flexibilizar os  materiais; acompanhamento com intérpretes e guias intérpretes aos estágios supervisionados e  também a saídas de campo; ter mais de um profissional para a tradução, havendo o revisamento. 

Quanto aos pontos de entrave à inclusão, destaca-se: a falta de conhecimento por parte  de alguns docentes e acadêmicos, interesse e compreensão dos docentes da singularidade destes  alunos. 

Sassaki (2010) destaca que a efetivação da inclusão educacional só ocorre quando há  oferta de recursos de acessibilidade, serviços especializados, profissionais de apoio e  adaptações pedagógicas capazes de eliminar barreiras e garantir a participação dos estudantes  com deficiência. 

Quadros (2006) afirma que o acesso ao currículo se dá no ambiente educacional, por  meio da presença de intérpretes, guias-intérpretes e outros mediadores linguísticos e que tais suportes são fundamentais para garantir a comunicação, a participação e o acompanhamento  pedagógico dos estudantes surdos no ensino superior. 

O questionário foi voltado aos docentes, dos seis respondentes quatro deles disseram ter  lecionado para três discentes surdos e/ou surdocegos e dois lecionaram para cinco discentes.  Quanto aos desafios encontrados na docência a estes alunos, os professores elencaram: a  dificuldade de comunicação, já que não se comunicam em Libras, a preocupação com a  tradução de conteúdos específicos e considerados mais difíceis, o uso de materiais didáticos  adaptados, o estranhamento inicial quando recebem o aluno com deficiências. Os docentes se  mostraram favoráveis às adaptações de recursos, a flexibilização na avaliação e nos prazos de  entrega. Quanto à inclusão na instituição de ensino superior, seis professores responderam que  a instituição é inclusiva, apontando fatores como: a oferta de intérpretes e guias intérpretes, o  apoio aos alunos com deficiência, o acesso a tecnologias assistivas. Dos seis respondentes, dois  professores acreditam que a inclusão ainda não aconteceu na instituição e apontam como  principais fatores de exclusão: a barreira de comunicação, pois a maioria de alunos e professores  não se comunica por meio de Libras, não há acessibilidade física, os ambientes não são  adaptados para pessoas com deficiência. 

De acordo com Lacerda (2006) a ausência de conhecimento da Libras por parte de  professores e demais acadêmicos cria barreiras comunicacionais que dificultam a participação  plena dos estudantes surdos e limitam os processos colaborativos no ensino superior. 

A análise das respostas indica que, a instituição possui uma rede de apoio e o trabalho  colaborativo se efetiva no cotidiano, em relação aos alunos surdos e surdoscegos, os discentes  sentem-se incluídos e atendidos nas suas necessidades específicas, no entanto, há que se  considerar que ainda há um longo caminho para que a inclusão realmente aconteça de modo  amplo e contínuo.  

5. CONCLUSÃO  

Este estudo objetivou analisar o desenvolvimento do trabalho colaborativo com os  discentes surdos e surdocegos do curso de Pedagogia de uma universidade pública estadual no  município de Paranaguá. A partir da investigação realizada com esses estudantes, bem como  com docentes, intérpretes e guias-intérpretes, constatou-se que a colaboração ocorre de maneira  articulada, sustentada pelo diálogo permanente entre intérpretes e professores. Essa interação  possibilita a construção de ações pedagógicas eficazes, alinhadas às especificidades dos alunos,  especialmente mediante o uso de tecnologias assistivas — compreendidas como recursos e serviços, materiais ou imateriais, destinados a promover autonomia e ampliar as possibilidades  de aprendizagem. Embora alguns aspectos precisam ser aprimorados no percurso para a  inclusão, observa-se que a instituição já apresenta avanços significativos, particularmente no  atendimento aos discentes surdos e surdocegos. 

Pode-se dizer, portanto, que muito já foi realizado na instituição pesquisada,  especialmente os discentes surdos e surdoscegos. Isto se dá a partir do ingresso e da  permanência dos mesmos, por meio de recursos diversos e adaptados para atender a  especificidade de cada um, seja por contratação de intérpretes, guias intérpretes, o  funcionamento ativo do Nespi, a oferta de cursos de Libras básico e intermediário gratuito  dentro na própria instituição mediada por um professor que também é surdo e propõe diversos  conhecimentos além do ensinando dos sinais, como embasamento em contextos históricos e  sociais.  

Ressalta-se que uma das maiores dificuldades identificadas na pesquisa, diz respeito à  comunicação, pois, mesmo com todo o suporte disponibilizado, a comunicação destes sujeitos  ainda está restrita a uma pequena comunidade que têm domínio de Libras, mas a maioria dos  discentes e docentes não conseguem comunicar-se por meio da Libras. Neste sentido, é  importante que a instituição promova e incentive mais formações em Libras, de modo especial  voltada para a comunidade interna.  

Embora a inclusão esteja presente no contexto pesquisado, há que se considerar que  entre os direitos das pessoas com deficiência, uma das questões importantes é promover a  autonomia destes sujeitos e o pleno exercício de sua cidadania, assegurando que a deficiência  de uma pessoa, não os define e nem os limita. 

REFERÊNCIAS 

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AMARAL, Lígia Assumpção. Surdocegueira: uma deficiência singular. São Paulo: Vetor,  2011. 

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ DO CAMPUS DE PARANAGUÁ. Projeto  Pedagógico de Curso do curso de pedagogia. 2021


1Graduanda do Curso de Pedagogia. Instituição: Universidade Estadual do Paraná – Campus Paranaguá. E-mail: scordeirodorosario@gmail.com
2Doutora em Educação. Instituição: Universidade Estadual de Ponta Grossa. E-mail: elizabeth.farias@unespar.edu.br