THE ROLE OF THE BIOMEDICAL SCIENTIST IN TRANSFUSION SAFETY IN PREGNANT WOMEN
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511232338
Samuel Davi Ribeiro de Oliveira1
Áquila Lima Menezes2
RESUMO
A segurança transfusional em gestantes é uma preocupação crescente nos serviços de saúde, especialmente diante da complexidade das reações imunológicas e das exigências clínicas em situações de alto risco obstétrico. Nesse cenário, o biomédico exerce papel técnico-científico estratégico, sendo responsável pela realização de testes imunológicos, monitoramento de reações adversas, validação de compatibilidades e atuação em comitês transfusionais. A atuação integrada desse profissional contribui significativamente para a diminuição da morbimortalidade materno-fetal. Este artigo científico, por meio de uma revisão integrativa da literatura, propõe evidenciar os impactos positivos da inserção do biomédico nos protocolos de hemoterapia obstétrica, com foco na prevenção de desfechos negativos decorrentes de transfusões mal conduzidas. A valorização e reconhecimento das atribuições biomédicas, além da capacitação contínua e da inclusão em protocolos clínicos, são fatores decisivos para garantir a segurança do binômio materno-fetal e aprimorar a qualidade da atenção obstétrica.
Palavras-chave: Segurança transfusional. Hemoterapia obstétrica. Biomédico. Gestantes. Doença hemolítica perinatal.
ABSTRACT
Transfusion safety in pregnant women is an increasing concern in healthcare services, especially due to the complexity of immunological reactions and the clinical demands in high-risk obstetric situations. In this context, the biomedical professional plays a strategic technical-scientific role, being responsible for performing immunological tests, monitoring adverse reactions, validating compatibilities, and participating in transfusion committees. The integrated performance of this professional significantly contributes to reducing maternal-fetal morbidity and mortality. This scientific article, through an integrative literature review, aims to highlight the positive impacts of including biomedical professionals in obstetric transfusion protocols, focusing on the prevention of adverse outcomes resulting from poorly managed transfusions. The recognition and appreciation of biomedical responsibilities, together with continuous training and inclusion in clinical protocols, are decisive factors to ensure the safety of the mother-fetus binomial and to improve the quality of obstetric care.
Keywords: Transfusion safety. Obstetric hemotherapy. Biomedical professional. Pregnant women. Perinatal hemolytic disease.
1. INTRODUÇÃO
A transfusão sanguínea constitui uma das práticas terapêuticas mais relevantes na medicina moderna, sendo amplamente utilizada em situações que envolvem perdas hemáticas severas, anemias graves, distúrbios hematológicos e procedimentos cirúrgicos de grande porte. (Carvalho et al., 2023) demonstrou que no contexto hospitalar, essa intervenção é considerada essencial para a manutenção da vida em situações de urgência e emergência, o que evidencia a necessidade de protocolos rigorosos que garantam sua segurança e eficácia. A segurança transfusional, nesse sentido, não se restringe ao simples fornecimento de sangue compatível, mas envolve uma cadeia de cuidados que abrange desde a triagem clínica do doador até o acompanhamento do receptor no pós-transfusão.
Esse processo torna-se ainda mais complexo e delicado quando aplicado ao atendimento obstétrico, dada a vulnerabilidade biológica da gestante e do feto frente a possíveis reações adversas. Durante a gravidez, ocorrem alterações fisiológicas e imunológicas significativas que podem interferir diretamente na resposta do organismo materno a uma transfusão sanguínea, exigindo maior atenção dos profissionais envolvidos. Além disso, o risco de desenvolvimento de aloimunizações maternas, decorrentes da exposição a antígenos eritrocitários fetais diferentes dos da mãe, eleva a importância da detecção precoce de anticorpos irregulares, especialmente em casos de gestantes Rh-negativas (Hod et al., 2020).
A Doença Hemolítica Perinatal (DHPN), por exemplo, é uma das complicações imunológicas mais graves no período gestacional, caracterizada pela destruição dos eritrócitos fetais pelos anticorpos maternos. Essa condição pode resultar em anemia fetal, icterícia grave, hidropisia fetal e, em casos extremos, óbito intrauterino. Para prevenir tais desfechos, torna-se indispensável o acompanhamento sorológico sistemático da gestante, bem como a realização de testes laboratoriais específicos que possibilitem a identificação de anticorpos clínicos relevantes e a avaliação do risco fetal. Nessa lógica, o profissional biomédico tem atuação estratégica, visto que é o responsável técnico pelos testes imuno-hematológicos em muitos serviços de hemoterapia (Silva e Santos, 2021).
No Brasil, a hemorragia pós-parto ainda figura como uma das principais causas de mortalidade materna, respondendo por cerca de 25% dos óbitos evitáveis no puerpério. Estima-se que aproximadamente 3% das gestantes apresentem quadros de hemorragia grave após o parto, o que exige ações imediatas e frequentemente transfusões emergenciais. Ademais, condições como a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia, associadas à disfunção endotelial e danos sistêmicos, contribuem significativamente para a morbidade materna, aumentando a necessidade de intervenções hemoterápicas e ampliando a importância de um serviço transfusional bem estruturado (Burton et al., 2019).
A atuação do biomédico nesse cenário é multifacetada. Ele participa ativamente da identificação e da quantificação de anticorpos, da realização de provas de compatibilidade, do controle de qualidade dos hemoderivados, do acompanhamento de possíveis reações transfusionais e da implementação de medidas de hemovigilância. Sua formação técnico-científica possibilita a interpretação de resultados laboratoriais com precisão, o que favorece a tomada de decisão clínica pelas equipes médicas e proporciona maior segurança ao binômio materno-fetal. Essa atuação integrada ao corpo clínico, embora prevista em normativas como a RDC nº 34/2014 da ANVISA, ainda é pouco valorizada em muitas instituições de saúde (Pereira et al., 2022).
Apesar da relevância da segurança transfusional no cuidado obstétrico, há uma evidente lacuna na literatura e nos protocolos institucionais quanto à valorização do papel do biomédico. (Oliveira et al., 2020) afirma que a atuação desse profissional, muitas vezes, é invisibilizada frente à predominância das categorias médica e de enfermagem nos processos assistenciais. No entanto, a natureza técnico-analítica do trabalho biomédico é crucial para o sucesso das transfusões em gestantes, sobretudo em contextos de risco, onde a rapidez e a precisão na identificação de riscos imunológicos podem significar a diferença entre a vida e a morte.
O fortalecimento da atuação do biomédico nos serviços de hemoterapia, portanto, representa não apenas um avanço para a categoria profissional, mas uma necessidade urgente para os sistemas de saúde que buscam qualificar a assistência obstétrica com base em evidências científicas. A implementação de protocolos integrados, com equipes multiprofissionais que contemplem a expertise do biomédico, é uma estratégia eficaz para a prevenção de eventos adversos, a redução da mortalidade materna e a promoção de um cuidado humanizado e seguro para gestantes e recém-nascidos (RBAC, 2024).
Assim, este artigo teve como objetivo analisar o papel do biomédico na segurança transfusional em gestantes, considerando sua atuação em processos laboratoriais, protocolos clínicos e práticas de hemovigilância. Especificamente, busca-se discutir os principais riscos transfusionais em gestantes e a importância da hemovigilância, compreender a atuação do biomédico na hemoterapia obstétrica, especialmente em contextos de alto risco materno-fetal, e identificar a relevância dos protocolos clínicos e do treinamento multiprofissional para a segurança transfusional nesse público.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Segurança transfusional e hemovigilância em gestantes
A segurança transfusional corresponde a um conjunto de medidas voltadas para a prevenção, detecção e controle de riscos relacionados ao processo transfusional, desde a seleção do doador até o acompanhamento do receptor. Conforme Carvalho et al. (2023), no Brasil esse conceito ganhou relevância nas últimas décadas com a consolidação da Política Nacional de Sangue e Hemoderivados e com a regulamentação da hemovigilância pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse sistema de monitoramento contínuo inclui a notificação e a investigação de eventos adversos associados à transfusão, permitindo a adoção de medidas corretivas e preventivas em tempo oportuno.
No contexto obstétrico, condições como hemorragia pós-parto, pré-eclâmpsia, complicações hematológicas e intercorrências cirúrgicas intensificam a necessidade de transfusões. Alterações fisiológicas próprias da gestação — como o aumento do volume plasmático e mudanças no perfil imunológico — tornam a gestante mais vulnerável a reações adversas. A literatura internacional reconhece esse grupo como de risco ampliado, o que reforça a importância de protocolos transfusionais específicos para a saúde materno-fetal (Burton et al., 2019; Hod et al., 2020).
Mesmo diante de avanços normativos, persistem desafios no cenário transfusional brasileiro. Ribas et al. (2020) destacam que a subnotificação de reações, a ausência de padronização entre instituições públicas e privadas, a falta de capacitação técnica contínua e a escassez de dados sistematizados comprometem a eficácia das políticas existentes. A Instrução Normativa nº 196/2022 da Anvisa estabeleceu diretrizes para a notificação de eventos adversos, mas sua aplicação ainda enfrenta entraves operacionais e estruturais em diversos serviços de saúde (Brasil, 2022).
Nesse cenário, a atuação do biomédico torna-se essencial. Ele é o profissional capacitado para realizar testes imuno-hematológicos, garantir a compatibilidade entre doador e receptor, monitorar eventos adversos e implementar ações de hemovigilância. De acordo com Silva e Santos (2021), sua contribuição fortalece a rastreabilidade e a cultura de segurança nos serviços de saúde. Além disso, sua participação em capacitações multiprofissionais e em comissões transfusionais possibilita a construção de protocolos clínicos mais alinhados às evidências científicas e às demandas locais (Viana et al., 2023).
Portanto, assegurar a segurança transfusional em gestantes requer não apenas o cumprimento de normativas, mas também o fortalecimento de uma cultura organizacional orientada para a prevenção, a valorização da atuação biomédica e o investimento em infraestrutura laboratorial. Esses elementos constituem a base conceitual necessária para compreender os avanços e as lacunas que ainda persistem no campo da hemoterapia obstétrica.
2.2 Atuação do biomédico na hemoterapia obstétrica
A atuação do biomédico na hemoterapia obstétrica vai muito além da execução de exames pré-transfusionais. Conforme Hod et al. (2020) e Viana et al. (2023), esse profissional assume papel essencial no monitoramento de reações adversas, na implantação de protocolos de hemovigilância e na orientação multiprofissional em situações de complicações obstétricas que demandam suporte transfusional. Sua participação em comissões transfusionais fortalece a discussão interdisciplinar e contribui para decisões clínicas mais seguras, promovendo melhores desfechos materno-fetais.
No que diz respeito ao acompanhamento pós-transfusional, Oliveira et al. (2020) destacam que o biomédico exerce função central na vigilância de sinais clínicos e laboratoriais que possam indicar reações hemolíticas ou alérgicas. Além disso, sua capacidade de interpretar rapidamente os resultados de exames permite fornecer informações críticas à equipe médica, especialmente em emergências obstétricas, como hemorragias pós-parto ou quadros de pré-eclâmpsia.
Em estudos realizados no Brasil, verificou-se que a presença de biomédicos em unidades de hemoterapia obstétrica aumenta significativamente a segurança do processo transfusional. Nogueira et al. (2022) ressaltam que a capacitação técnica desse profissional é essencial para a pesquisa de anticorpos irregulares, particularmente em gestantes previamente transfundidas, que apresentam maior risco de desenvolver aloimunização. A detecção precoce desses anticorpos é crucial para prevenir complicações graves, como DHPN e hemorragia grave no puerpério.
Internacionalmente, Adams et al. (2020) demonstraram que a integração do biomédico nos protocolos transfusionais de hospitais europeus e norte-americanos reduziu consideravelmente os casos de incompatibilidade sanguínea. A aplicação de testes detalhados, como a triagem de anticorpos Rh, tem permitido melhor manejo clínico em gestantes de risco. Essa atuação conjunta com médicos obstetras foi reconhecida como fator decisivo na diminuição de erros transfusionais e na melhoria da segurança materno-fetal.
O biomédico também atua como consultor especializado no processo de decisão terapêutica. Barker et al. (2019) destacam que sua presença em equipes multidisciplinares, principalmente em unidades de terapia intensiva obstétrica, é indispensável para orientar a conduta diante de complicações graves, como hemorragias maciças ou falências orgânicas decorrentes de pré-eclâmpsia. Nessas situações, sua contribuição não se restringe à interpretação de exames laboratoriais, mas inclui recomendações estratégicas para garantir a segurança do sangue a ser transfundido.
Outro aspecto relevante é o desenvolvimento de protocolos que orientem o uso criterioso de hemocomponentes. Segundo a Associação Brasileira de Hematologia (ABHH, 2022), a transfusão em gestantes deve considerar não apenas os níveis de hemoglobina, mas também o histórico imunológico e as condições clínicas individuais, reduzindo o risco de reações adversas. A aplicação rigorosa desses protocolos, em conjunto com a atuação biomédica, tem demonstrado impacto positivo nos desfechos obstétricos.
Além disso, a coleta e análise sistemática de dados sobre reações adversas, realizada pelo biomédico em programas de hemovigilância, contribuem para a melhoria contínua das práticas transfusionais. Matos et al. (2020) apontam que a implementação de tais programas, com a participação ativa desse profissional, reduziu significativamente a ocorrência de erros, como a administração de sangue incompatível, em hospitais que atendem gestantes de alto risco.
Portanto, a atuação do biomédico na hemoterapia obstétrica é multifacetada e estratégica. Gonzalez et al. (2021) reforçam que a constante atualização técnico-científica, associada à integração com equipes clínicas, é indispensável para manter a segurança transfusional em gestantes de alto risco. Assim, sua contribuição vai além do laboratório, estendendo-se à tomada de decisões clínicas e à promoção da saúde materno-fetal.
2.3 Estratégias e Limites da Atuação Biomédica
A adoção de protocolos específicos para a transfusão de sangue em gestantes de alto risco tem se mostrado eficaz na redução de complicações materno-fetais. De acordo com Souza et al. (2022), protocolos baseados em evidências garantem maior segurança clínica, padronizando condutas diante de situações como hemorragia obstétrica, pré-eclâmpsia e coagulopatias. Esses documentos fornecem critérios objetivos que orientam o uso racional de hemocomponentes, reduzindo a ocorrência de transfusões desnecessárias.
A presença de protocolos bem estruturados também se mostra fundamental em contextos de emergência, nos quais a rapidez é decisiva para salvar vidas. Nesses cenários, o biomédico desempenha papel central ao assegurar a liberação ágil e segura dos hemocomponentes, colaborando diretamente com médicos e enfermeiros. Essa padronização ainda favorece a comunicação entre setores estratégicos, como laboratório, banco de sangue e centro cirúrgico, promovendo um atendimento mais integrado (Oliveira et al., 2021).
James et al. (2023) observaram que treinamentos específicos voltados para equipes que atuam em risco transfusional obstétrico resultam em menor incidência de eventos adversos. A formação continuada de biomédicos, médicos e enfermeiros têm contribuído tanto para a assimilação de protocolos clínicos em urgências, como hemorragia pós-parto, quanto para a detecção precoce de sinais laboratoriais de incompatibilidade.
No Brasil, entretanto, a efetividade dessas práticas ainda é limitada por entraves institucionais. A falta de incentivo à capacitação e a ausência de protocolos atualizados em alguns hospitais comprometem o avanço. Em diversas regiões, a atuação biomédica não é plenamente reconhecida, o que prejudica a implementação de práticas seguras e multiprofissionais (Melo et al., 2021).
A integração interprofissional, segundo Petersen et al. (2020), constitui fator determinante para a redução de erros transfusionais. Ambientes hospitalares que estimulam a cooperação entre biomédicos, enfermeiros e obstetras apresentam indicadores de maior qualidade, resultado de estratégias como simuladores clínicos, treinamentos conjuntos e auditorias periódicas. Essa integração também é fundamental no processo de decisão clínica. Ramos et al. (2019) ressaltam que o biomédico, ao fornecer dados detalhados de exames imunológicos, permite que as condutas terapêuticas sejam mais seguras e assertivas. Assim, a abordagem multidisciplinar deve ser adotada não apenas em momentos críticos, mas como prática de rotina, fortalecendo a troca de saberes.
Outro pilar da segurança transfusional é o funcionamento dos comitês transfusionais hospitalares. Cavalcanti et al. (2022) apontam que esses comitês, compostos por profissionais de diferentes áreas, possibilitam a revisão de casos, a identificação de falhas e a proposição de melhorias. Nesses espaços, o biomédico ocupa posição estratégica ao analisar tecnicamente os testes de compatibilidade e orientar o uso racional de hemocomponentes.
Além disso, os avanços tecnológicos exigem atualização constante. Rodrigues et al. (2020) destacam que o uso de softwares de rastreabilidade, bancos de dados informatizados e sistemas de hemoterapia tem elevado os índices de segurança em hospitais. A formação laboratorial do biomédico o habilita a operar essas ferramentas, reduzindo falhas e acelerando processos em situações críticas.
Diante disso, Martins et al. (2021) enfatizam que a adoção de protocolos bem definidos e treinamentos regulares de equipes multiprofissionais são indispensáveis para preservar a vida materno-fetal. O reconhecimento e valorização do biomédico nesses processos consolidam a eficácia das práticas hemoterápicas.
Apesar dos avanços já alcançados, Souza et al. (2022) lembram que barreiras estruturais e institucionais ainda limitam a plena inserção biomédica nas equipes obstétricas. A ausência de protocolos claros que estabeleçam suas atribuições contribui para que esse profissional seja subutilizado, o que enfraquece a segurança transfusional.
Outro desafio recorrente é a escassez de treinamentos direcionados exclusivamente ao biomédico. Lopes et al. (2020) apontam que a maioria dos programas de educação continuada privilegia médicos e enfermeiros, deixando lacunas na atualização desse profissional no contexto obstétrico. Essa fragmentação compromete a atuação conjunta em situações de risco.
Yamamoto et al. (2023) mostram que países que investem em modelos de educação interprofissional têm obtido melhores resultados em segurança do paciente e gestão de eventos transfusionais. No Brasil, entretanto, persistem dificuldades estruturais e resistência institucional, o que atrasa a implementação de mudanças significativas.
Outro ponto crítico é a desinformação de profissionais de saúde sobre o papel técnico do biomédico. Conforme Ramos et al. (2022), o desconhecimento de suas atribuições leva à exclusão de decisões terapêuticas que envolvem avaliação imunológica materno-fetal, comprometendo a eficácia da assistência.
Gonçalves et al. (2021) destacam ainda o déficit de participação do biomédico em comitês transfusionais, instâncias fundamentais para discussão de protocolos e estratégias preventivas. Essa ausência distancia a prática laboratorial da prática clínica.
Além disso, a carência de infraestrutura em muitos bancos de sangue compromete a qualidade dos exames e a rapidez na liberação de hemocomponentes. Em estudo nacional, Almeida et al. (2021) evidenciaram que a sobrecarga de trabalho e a falta de equipamentos modernos limitam a atuação adequada dos biomédicos em situações de urgência obstétrica.
A escassez de produção científica nacional voltada ao papel biomédico em hemoterapia obstétrica também é um entrave. Dias et al. (2023) apontam que a pouca literatura disponível fragiliza a base teórica necessária para embasar boas práticas e formular políticas públicas inclusivas.
Superar esses obstáculos exige uma mudança institucional ampla. Silva et al. (2023) defendem a criação de políticas que garantam a participação ativa do biomédico em comitês, treinamentos e atividades clínicas. Esse reconhecimento é decisivo para consolidar a segurança transfusional no país.
Portanto, embora o biomédico tenha formação técnico-científica robusta, França et al. (2022) concluem que sua atuação ainda encontra entraves significativos. A superação dessas barreiras depende de estratégias integradas que contemplem infraestrutura, capacitação e valorização institucional, garantindo maior segurança materno-fetal.
3. METODOLOGIA
O presente trabalho aborda uma revisão descritiva da literatura, de caráter qualitativo, com critérios de inclusão de artigos científicos dos últimos 10 anos (2014–2024), tendo como tema central o papel do biomédico na segurança transfusional em gestantes. Em complemento, adotou-se o método de revisão integrativa da literatura, por possibilitar a síntese crítica de evidências sobre práticas laboratoriais, hemovigilância e protocolos clínicos na hemoterapia obstétrica.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE, LILACS/BVS e Google Scholar, utilizando descritores controlados DeCS/MeSH e seus sinônimos combinados por operadores booleanos, tais como: “biomédico”, “hemoterapia obstétrica”, “segurança transfusional”, “gestantes” e “doença hemolítica perinatal”. Foram incluídos estudos publicados entre 2014 e 2024, nos idiomas português, inglês e espanhol, com aderência direta ao tema proposto. Excluíram-se editoriais, cartas, resumos sem texto completo, duplicatas, textos sem metodologia definida e artigos indisponíveis na íntegra.
A partir do levantamento bibliográfico em todas as bases, foram identificados 245 registros. Após a leitura dos títulos, 98 artigos foram selecionados para a leitura dos resumos. Na etapa seguinte, 47 estudos atenderam aos critérios inicialmente propostos e foram lidos na íntegra. Na seleção final, 32 artigos compuseram a amostra desta revisão, por atenderem aos requisitos de seleção definidos. Foram excluídos os trabalhos que não respondiam à pergunta norteadora, os não disponíveis integralmente, os repetidos e aqueles cujo conteúdo não correspondia à temática do estudo.
Os dados foram extraídos por fichamento padronizado (autores, ano, delineamento, população-alvo, rotinas laboratoriais/protocolos transfusionais, desfechos e principais achados) e organizados em categorias analíticas: (i) protocolos transfusionais; (ii) testes imunológicos e compatibilidade; (iii) hemovigilância e eventos adversos; (iv) atuação multiprofissional e papel do biomédico. A análise foi crítica e interpretativa, buscando identificar convergências, divergências e lacunas da literatura. Por se tratar de estudo exclusivamente bibliográfico, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A revisão da literatura evidenciou que, apesar dos avanços no campo da hemoterapia, a segurança transfusional em gestantes ainda apresenta desafios importantes. Dados de uma coorte conduzida na Alemanha entre 2011 e 2020 revelaram que 1,23% das gestantes necessitam de transfusão sanguínea, sendo a hemorragia periparto responsável por mais de 40% dos casos, o que reforça a magnitude dessa complicação como uma das principais causas de morbimortalidade materna e fetal (Albrecht et al., 2023). Esse achado é consistente com dados da OMS, que apontam a hemorragia obstétrica como uma das três principais causas de morte materna no mundo, sobretudo em países de baixa e média renda (Who, 2023).
Estudos comparativos também apontaram maior vulnerabilidade das gestantes em relação a reações adversas. Uma investigação sueca demonstrou que mulheres no puerpério apresentaram o dobro de reações transfusionais em comparação com mulheres não grávidas, especialmente em situações de pré-eclâmpsia, evidenciando o impacto das alterações imunológicas e hemodinâmicas características da gestação (Mölne et al., 2019). Esses dados corroboram pesquisas nacionais que relatam alta frequência de eventos adversos subnotificados, revelando a necessidade de fortalecer os sistemas de hemovigilância hospitalar no Brasil (Ribas et al., 2020).
Entre os grupos de maior risco, encontram-se as gestantes com doença falciforme, para as quais a transfusão profilática tem se mostrado eficaz. Uma corte francesa com 224 gestações evidenciou que mulheres submetidas à transfusão preventiva apresentaram menor risco de morbidade obstétrica, quando comparadas àquelas que não receberam esse suporte (Bernaudin et al., 2023). Complementando esses achados, uma meta-análise internacional demonstrou que a transfusão profilática contribui para reduzir a mortalidade fetal e a ocorrência de parto prematuro em gestantes falcêmicas (Roumier et al., 2024). No entanto, esses estudos também apontam limitações, como o risco de aloimunização e de sobrecarga circulatória, reforçando que a decisão terapêutica deve ser individualizada e acompanhada por equipes multiprofissionais treinadas.
No campo das recomendações globais, tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto a Associação Americana de Bancos de Sangue (AABB) destacam a necessidade da aplicação de estratégias de Patient Blood Management (PBM). Essas diretrizes incluem a triagem precoce da anemia, o uso racional de hemocomponentes, a restrição de transfusões desnecessárias e o monitoramento contínuo por indicadores de desempenho. Evidências recentes demonstram que a adoção desses programas está associada à redução de riscos transfusionais e à melhoria da segurança materno-fetal, desde que implementados com suporte de profissionais capacitados e infraestrutura adequada (Who, 2023).
No entanto, a realidade brasileira apresenta peculiaridades que diferenciam a aplicação desses protocolos internacionais. Estudos nacionais apontam dificuldades relacionadas à infraestrutura laboratorial deficiente, à baixa adesão à hemovigilância ativa e ao reconhecimento limitado do biomédico em equipes obstétricas (Silva & Santos, 2021; Viana et al., 2023). Essas barreiras comprometem a implementação efetiva das recomendações globais, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à capacitação multiprofissional e à valorização do papel biomédico na hemoterapia obstétrica.
Assim, os resultados indicam que a literatura internacional tende a enfatizar dados epidemiológicos e protocolos clínicos baseados em evidências, enquanto os estudos nacionais frequentemente ressaltam a atuação multiprofissional e, em especial, do biomédico como elemento-chave para a segurança transfusional. Essa distinção sugere que o avanço da área exige a integração dessas duas perspectivas: de um lado, a incorporação de protocolos transfusionais robustos, e de outro, o fortalecimento da prática biomédica e da hemovigilância hospitalar no Brasil.
Por fim, observa-se que ainda existem lacunas científicas relacionadas ao acompanhamento de longo prazo das gestantes transfundidas e ao impacto da atuação biomédica na redução de eventos adversos. Pesquisas futuras podem contribuir para mensurar com maior precisão esses efeitos, além de avaliar a efetividade da implementação do PBM no contexto obstétrico brasileiro.
5. CONCLUSÃO
A análise da literatura evidenciou que a segurança transfusional em gestantes permanece como um dos maiores desafios da hemoterapia contemporânea, especialmente diante da vulnerabilidade materno-fetal e das complicações associadas a intercorrências obstétricas de alto risco, como hemorragias graves, pré-eclâmpsia e doenças hematológicas. Nesse cenário, a atuação biomédica mostrou-se fundamental, tanto na execução de exames imunológicos e na identificação precoce de anticorpos irregulares, quanto na implementação de medidas de hemovigilância.
Os achados da revisão também confirmaram que países que estruturam programas sistemáticos de hemovigilância e de Patient Blood Management (PBM) apresentam resultados mais positivos na redução de morbimortalidade materna e neonatal. No entanto, a realidade brasileira ainda revela lacunas significativas, como a subnotificação de eventos transfusionais, a insuficiência de infraestrutura laboratorial e a invisibilidade institucional do biomédico em diversos serviços de saúde. Esses fatores limitam a plena efetividade dos programas transfusionais e reforçam a necessidade de fortalecimento das políticas públicas.
Ao mesmo tempo, observa-se que a literatura nacional enfatiza a contribuição técnica e científica do biomédico como peça-chave para a segurança transfusional. Sua inserção em comissões transfusionais, treinamentos multiprofissionais e rotinas de vigilância ativa é reconhecida como estratégica para ampliar a rastreabilidade e reduzir riscos. Entretanto, persistem barreiras relacionadas ao desconhecimento das atribuições desse profissional e à escassez de políticas institucionais que incentivem sua participação efetiva.
Portanto, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o reconhecimento do papel do biomédico na hemoterapia obstétrica, não apenas como executor de procedimentos laboratoriais, mas como integrante efetivo das equipes multiprofissionais responsáveis pela assistência à gestante. Investimentos em educação continuada, protocolos integrados e fortalecimento da cultura de segurança hospitalar são medidas indispensáveis para consolidar esse protagonismo e promover melhorias na atenção obstétrica.
Por fim, destaca-se que ainda existem lacunas importantes de pesquisa, especialmente no que diz respeito ao impacto quantitativo da atuação biomédica na redução de eventos adversos e na eficácia dos protocolos transfusionais no Brasil. Estudos futuros, de caráter multicêntrico e com maior abrangência, poderão fornecer evidências robustas que fundamentam políticas públicas e diretrizes clínicas mais consistentes. Assim, a valorização do biomédico e a implementação de estratégias baseadas em evidências se apresentam como caminhos promissores para a consolidação da segurança transfusional em gestantes.
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1Discente do curso de Biomedicina da Faculdade de Ilhéus, Centro de Ensino Superior, Ilhéus, Bahia. E-mail: samueloliveira1454@gmail.com
2Docente do curso de Biomedicina da Faculdade de Ilhéus, Centro de Ensino Superior, Ilhéus, Bahia. E-mail: aquila.menezes@faculdadedeilheus.com.br
