REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511232354
Sandra Teresa Nogueira Patton1
Orientador(a): Prof.ª Rosyara Silva Corrêa Muniz2
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo analisar a atuação do cirurgião-dentista na prevenção da alveolite e na redução do risco de sua progressão para osteomielite, complicações pós-operatórias associadas a exodontias. Trata-se de uma revisão de literatura que abordou aspectos clínicos, radiográficos, epidemiológicos e terapêuticos dessas condições. A alveolite, uma inflamação local e autolimitada, é caracterizada pela perda do coágulo sanguíneo no alvéolo, provocando dor intensa e mau odor. Quando não tratada adequadamente, pode criar um ambiente propício à infecção óssea, levando à osteomielite, que é uma condição grave, de natureza infecciosa e destrutiva. Foram discutidos os principais fatores de risco envolvidos, como o tabagismo, o uso de contraceptivos orais, comorbidades sistêmicas, traumas cirúrgicos e higiene oral precária. A pesquisa evidenciou a importância da atuação preventiva do cirurgião-dentista, por meio de condutas clínicas bem definidas, uso racional de medicamentos e acompanhamento criterioso do paciente. Também foi abordada a escassez de dados epidemiológicos que liguem diretamente a alveolite à osteomielite, o que reforça sua raridade clínica. Conclui-se que a prevenção, o diagnóstico precoce e o manejo adequado são essenciais para evitar a progressão dessas complicações, contribuindo para a segurança e bem-estar dos pacientes.
Palavras-chave: Alveolite. Osteomielite. Exodontia. Cirurgião-dentista. Complicações pós-operatórias.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the function of the dentist in preventing alveolar osteitis (commonly known as Dry socket) and reducing the risk of its progression to osteomyelitis, postoperative complications associated with tooth extractions. It is a literature review that addresses clinical, radiographic, epidemiological, and therapeutic aspects of these conditions. Alveolar osteitis, a local and self-limiting inflammation, is characterized by the loss of the blood clot in the alveolus, causing intense pain and bad smell. When not treated properly, it can create an environment conducive to bone infection, leading to osteomyelitis, which is a serious, infectious and destructive condition. The main risk factors involved were discussed, such as smoking, the use of oral contraceptives, systemic comorbidities, surgical trauma and poor oral hygiene. The research highlighted the importance of preventive action by the dentist, through well-defined clinical procedures, rational use of medications, and careful patient monitoring. It also addressed the scarcity of epidemiological data directly linking ―Dry Socket‖ to osteomyelitis, which reinforces its clinical rarity. In conclusion, prevention, early diagnosis, and appropriate management are essential to avoid the progression of these complications, contributing to the safety and well-being of patients.
Keywords: Dry socket. Osteomyelitis. Tooth extraction. Surgeon Dentist. Postoperative complications.
1. INTRODUÇÃO
As cirurgias orais menores exercem papel essencial na prática odontológica, especialmente em procedimentos como exodontias, drenagens de abscessos, frenectomias e biópsias. Embora sejam intervenções rotineiras e geralmente realizadas em ambiente ambulatorial, podem evoluir com complicações pós-operatórias que comprometem a recuperação do paciente e, em casos mais graves, culminam em infecções sistêmicas. Entre essas complicações, destacam-se a alveolite e a osteomielite, condições distintas, mas inter-relacionadas, que merecem atenção especial no contexto do pós operatório odontológico.
A alveolite, também denominada osteíte alveolar, caracteriza-se pela ausência ou lise precoce do coágulo sanguíneo no interior do alvéolo dentário, geralmente entre o segundo e terceiro dias após a exodontia. Clinicamente, manifesta-se com dor intensa, halitose e, em alguns casos, secreção purulenta (SILVA, 2022). Embora seja uma condição autolimitada e de manejo clínico simples, sua não resolução adequada pode predispor a complicações infecciosas mais profundas, especialmente quando associada a fatores sistêmicos ou técnicos.
A osteomielite, por sua vez, configura-se como uma infecção óssea destrutiva e progressiva, podendo apresentar formas agudas ou crônicas. Seu quadro clínico é mais grave, com risco de necrose óssea, drenagem purulenta persistente, febre e dor irradiada. O tratamento frequentemente exige antibioticoterapia prolongada e, em muitos casos, intervenção cirúrgica (SANTOS et al., 2021).
Do ponto de vista clínico, a relação entre ambas as condições torna-se preocupante quando a alveolite, especialmente a úmida, evolui sem controle, criando um ambiente favorável à colonização bacteriana e à disseminação da infecção para o osso alveolar, configurando um quadro de osteomielite odontogênica. Embora tal progressão seja considerada rara, sua ocorrência pode ter desfechos clínicos significativos.
Sob a perspectiva epidemiológica, essa transição é pouco registrada. Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) confirmam que, embora milhões de exodontias sejam realizadas anualmente no Brasil, os registros de internação por osteomielite de ossos da face (CID-10: M86.x) são extremamente baixos. Por outro lado, a alveolite, apesar de sua elevada incidência — que pode variar de 1% a 5% em extrações simples e até 30% em terceiros molares inferiores impactados — não costuma ser notificada em sistemas oficiais de saúde, por se tratar de uma condição manejada em nível ambulatorial. Essa discrepância nos dados evidencia não apenas a eficácia das práticas odontológicas modernas, mas também a subnotificação de eventos clínicos leves que, em situações desfavoráveis, podem evoluir para infecções graves.
Além disso, fatores como diabetes mellitus, tabagismo, imunossupressão, higiene bucal inadequada e traumas cirúrgicos constituem variáveis críticas no risco de progressão de uma infecção alveolar superficial para um quadro osteomielítico. Essas condições sistêmicas comprometem a resposta imunológica e a vascularização local, dificultando o reparo ósseo e favorecendo a instalação de infecções profundas.
Nesse contexto, justifica-se o presente estudo pela sua relevância científica e social. Do ponto de vista acadêmico, contribui para ampliar a compreensão acerca da relação clínica e epidemiológica entre a alveolite e a osteomielite, por meio de uma revisão crítica da literatura especializada. No campo clínico, oferece subsídios para a prática profissional, permitindo que cirurgiões-dentistas identifiquem precocemente os fatores de risco, adotem medidas preventivas mais eficazes e implementem condutas terapêuticas baseadas em evidências, reduzindo assim a ocorrência de complicações infecciosas pós-operatórias.
Diante desse panorama, a problemática que orienta este estudo pode ser formulada da seguinte maneira: quais são os fatores de risco que favorecem a progressão da alveolite para osteomielite em pacientes submetidos a exodontias, considerando seus mecanismos clínicos e dados epidemiológicos disponíveis?
O objetivo geral deste trabalho consistiu em analisar de que forma a atuação do cirurgião-dentista pode contribuir para a prevenção da alveolite e, consequentemente, para a redução de sua evolução em osteomielite. Como objetivos específicos, buscou-se discutir os fatores de risco associados a essas condições, apresentar os principais métodos de prevenção, manejo e tratamento descritos na literatura recente, além de reunir evidências que subsidiem protocolos clínicos voltados à diminuição de complicações infecciosas decorrentes de procedimentos odontológicos.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 Metodologia
O presente estudo caracterizou-se como uma revisão qualitativa de caráter descritivo, desenvolvida na forma de revisão bibliográfica. Tal delineamento foi adotado por possibilitar a sistematização crítica de conhecimentos já produzidos sobre a temática em questão, permitindo compreender a relação entre alveolite e osteomielite a partir de diferentes perspectivas teóricas e evidências clínicas documentadas.
A busca bibliográfica foi conduzida em bases de dados reconhecidas pela produção científica nas áreas de saúde e odontologia, a saber: SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed (National Library of Medicine) e Google Acadêmico. A pesquisa considerou publicações disponíveis no período compreendido entre os anos de 2005 e 2025, incluindo alguns estudos clássicos anteriores a esse intervalo, com o intuito de assegurar a atualização das informações e contemplar o estado da arte referente ao tema.
Como critérios de inclusão, foram selecionados artigos científicos publicados em português, inglês, espanhol, entre outras línguas, que abordassem direta ou indiretamente a relação entre alveolite e osteomielite, bem como fatores de risco, prevenção, manejo e evolução clínica dessas condições. Foram considerados relatos de casos, ensaios clínicos randomizados, revisões de literatura e estudos epidemiológicos. Por outro lado, foram excluídos resumos simples, editoriais, artigos que não apresentassem dados científicos relevantes para a discussão da temática e aqueles que não abordassem a interação entre as duas patologias.
Os descritores utilizados para a busca incluíram os termos ―alveolite‖, ―osteomielite‖, ―complicações pós-extração‖ e ―infecção óssea‖, além de suas correspondências em inglês (―dry socket‖, ―osteomyelitis‖, ―post-extraction complications‖, ―bone infection‖). A seleção das publicações seguiu uma triagem inicial a partir da leitura de títulos e resumos, sendo posteriormente realizada a análise integral dos textos que atenderam aos critérios estabelecidos.
A organização e análise dos dados extraídos dos estudos selecionados permitiram a elaboração de uma síntese crítica, com ênfase na identificação dos principais fatores de risco, abordagens terapêuticas e aspectos clínico radiográficos que interligam as duas condições. Esse procedimento possibilitou estruturar os resultados e a discussão do presente artigo com base em evidências científicas atuais e relevantes.
2.2 Resultados e Discussão
Alveolite e sua Potencial Progressão para Osteomielite
A alveolite constitui uma das complicações pós-operatórias mais relevantes em cirurgias de exodontia, caracterizando-se pela perda precoce do coágulo sanguíneo e pelo quadro de dor intensa e persistente no alvéolo dentário. Embora, na maioria dos casos, apresenta evolução autolimitada, a ausência de diagnóstico e manejo adequados pode favorecer a instalação de infecções mais graves, como a osteomielite, que corresponde a uma inflamação e infecção óssea de maior complexidade e morbidade.
A compreensão dessa condição exige a análise integrada de fatores de risco sistêmico e local, dos mecanismos patofisiológicos envolvidos e das estratégias de prevenção e tratamento. Nesse contexto, este capítulo apresenta os principais fundamentos teóricos e científicos sobre a alveolite e sua possível progressão para osteomielite, com enfoque na prática odontológica em cirurgia oral menor. Serão abordados os aspectos relacionados à prevenção, ao manejo clínico e aos cuidados necessários para reduzir complicações e garantir maior segurança no pós-operatório.
2.2.1 Fundamentos Científicos da Prevenção e do Manejo da Alveolite na evitação da Osteomielite.
A alveolite, também denominada osteíte alveolar, é uma complicação pós-exodontia caracterizada pela desintegração precoce do coágulo sanguíneo e pelo surgimento de dor intensa e persistente. Apesar de sua evolução, em geral, ser autolimitada, o tratamento inadequado pode favorecer a progressão para osteomielite, infecção óssea de maior gravidade que acomete o osso alveolar remanescente.
O primeiro relato formal da condição foi descrito por Crawford em 1896, que identificou sintomas clássicos como dor intensa, odor fétido, sabor desagradável e, em alguns casos, exposição óssea. Essa caracterização permitiu a diferenciação da alveolite em relação a outras infecções pós operatórias, consolidando-a como uma entidade clínica distinta.
Entre as hipóteses etiopatogênicas, destaca-se a teoria fibrinolítica de Birn (1973), segundo a qual a ativação de enzimas fibrinolíticas, desencadeada por trauma cirúrgico ou fatores sistêmicos, promove a lise precoce do coágulo, expondo o osso e dificultando a cicatrização. Clinicamente, conforme Blum (2002), o diagnóstico baseia-se em dor persistente, halitose e exposição óssea no alvéolo, geralmente entre o segundo e o quarto dia após a extração. Procedimentos traumáticos de exodontia, como a manipulação excessiva do osso alveolar, aumentam o risco de isquemia e necrose tecidual (Fragiskos, 2007).
A progressão da alveolite para osteomielite ocorre quando a inflamação não é controlada e há invasão bacteriana do osso. Espécies como Staphylococcus aureus, Prevotella e anaeróbios facultativos colonizam o tecido necrótico, formando biofilmes que dificultam a ação do sistema imunológico e dos antimicrobianos (Marx, 1991). Fatores locais, como tabagismo, higiene oral deficiente e trauma cirúrgico, associados a condições sistêmicas como diabetes e imunossupressão, elevam o risco de evolução (Ata-Ali et al., 2014; Costa Neto & Fioravante, 2017).
Histologicamente, a alveolite revela remanescentes do coágulo e infiltrado inflamatório intenso com neutrófilos e linfócitos (Cardoso et al., 2010). Já a osteomielite pode ser confirmada por exames de imagem, como radiografias com padrão de ― osso em traçado‖, sequestros ósseos ou por tomografia computadorizada, complementada por exames laboratoriais e culturas microbiológicas (Ribeiro et al., 2018).
Na prevenção, destaca-se o papel do cirurgião-dentista na identificação de fatores de risco e na adoção de condutas preventivas. Orientações de higiene oral, uso de antissépticos como clorexidina 0,12% e, em casos selecionados, antibióticoprofilaxia, têm demonstrado eficácia na redução da alveolite (Pretto et al., 2012). Contudo, Lacasa et al. (2007) alertam para o risco do uso indiscriminado de antibióticos, que pode favorecer resistência bacteriana.
Estudos epidemiológicos reforçam a associação entre a doença periodontal e a alveolite. Parthasarathi et al. (2011) observaram risco 7,5 vezes maior de desenvolvimento da complicação em pacientes submetidos a exodontias por doença periodontal. Daly et al. (2012) confirmaram esse achado, com risco cerca de cinco vezes maior. A literatura converge no entendimento de que a periodontite prévia é um fator de risco relevante, embora sua magnitude varia conforme metodologia e critérios utilizados nos estudos. Além disso, o uso de enxaguatórios à base de clorexidina a 0,12% pode reduzir a incidência em até 50% (Alves et al., 2020), reforçando a importância da higiene oral adequada como medida profilática.
Assim, a prevenção e o manejo da alveolite fundamentam-se na redução de fatores de risco locais e sistêmicos, na adoção de técnicas cirúrgicas menos traumáticas e na utilização criteriosa de medidas antimicrobianas, garantindo melhor prognóstico e evitando complicações como a osteomielite.
2.2.2 Manejo e Cuidados da Alveolite na Prevenção da Osteomielite
A prevenção e o manejo da alveolite visando evitar sua progressão para osteomielite exigem uma abordagem multidisciplinar, fundamentada em protocolos clínicos baseados em evidências científicas. A avaliação pré operatória minuciosa é essencial para identificar comorbidades como diabetes, tabagismo e alcoolismo, condições que comprometem o reparo tecidual e elevam o risco de complicações.
No âmbito local, o tratamento da alveolite envolve a remoção de detritos, tecido necrótico e biofilme bacteriano por meio de curetagem cuidadosa do alvéolo, seguida de irrigação abundante com solução salina estéril ou antissépticos, como clorexidina 0,12% ou povidona-iodada. Essa conduta reduz a carga bacteriana e previne a colonização óssea, sendo considerada uma medida eficaz na prevenção da osteomielite (Daly et al., 2016). Em situações de maior sensibilidade, pode ser necessária anestesia local para facilitar o procedimento (Metin et al., 2006).
A utilização de curativos medicamentosos também desempenha papel relevante. Produtos como alveogil, óxido de zinco eugenol, gel de clorexidina 2% ou metronidazol tópico auxiliam na analgesia, no efeito antimicrobiano e na proteção do osso exposto. Estudos demonstram que o gel de clorexidina pode reduzir em até 70% a incidência de infecção pós-alveolite (Agrawal et al., 2012). Além disso, a irrigação com rifocina M mostrou eficácia no alívio da dor nas primeiras 48 horas (Pretto et al., 2012). Estratégias inovadoras, como sistemas de liberação prolongada de antimicrobianos (fibras de colágeno impregnadas com gentamicina ou chips de clorexidina), vêm sendo investigadas como alternativas promissoras para reduzir a necessidade de antibióticos sistêmicos (Noroozi & Philbert, 2009).
Quando a alveolite evolui com sinais sistêmicos de infecção — como febre, linfadenite e leucocitose — torna-se necessário o uso de antibióticos por via sistêmica. As opções incluem metronidazol, tinidazol, fenoximetilpenicilina, clindamicina, moxifloxacina e amoxicilina, isolada ou associada ao ácido clavulânico (Pretto et al., 2012). A antibioticoterapia é especialmente indicada em pacientes imunossuprimidos, diabéticos, HIV positivos ou com outras doenças crônicas (Xue et al., 2015). Estudos mostram que a osteomielite maxilar é mais prevalente na mandíbula devido à menor vascularização, e que sua não resolução pode levar a complicações graves, como abscessos cervicofaciais e osteonecrose (Baltensperger & Gratz, 2004).
O controle da dor é fundamental e pode ser realizado com anti inflamatórios não esteroidais (AINEs), como nimesulida e diclofenaco sódico, associados a analgésicos, como o paracetamol, garantindo maior conforto e adesão ao tratamento. Em casos refratários ou de risco elevado, pode-se considerar o uso da oxigenoterapia hiperbárica, que aumenta a oxigenação tecidual, estimula a angiogênese e inibe o crescimento bacteriano, configurando uma alternativa eficaz no reparo ósseo (Freiberger et al., 2008).
Estudos reforçam a importância do controle de fatores de risco. Parthasarathi et al. (2011) demonstraram maior associação entre doença periodontal e ocorrência de alveolite, enquanto Daly et al. (2012) evidenciaram risco triplicado em pacientes fumantes. Além disso, a utilização de técnicas cirúrgicas atraumáticas reduz significativamente o risco de complicações (Rakhshan, 2015). Assim, medidas como controle da infecção periodontal, suspensão temporária do tabagismo, educação em higiene oral e uso racional de antissépticos são determinantes para a prevenção da alveolite e, consequentemente, da osteomielite (Miloro et al., 2022).
A seguir, a tabela resume os principais fatores de risco descritos na literatura, suas associações com a alveolite e o consenso atual sobre sua relevância clínica:
Tabela 1 Fatores de risco associados à alveolite e sua progressão para osteomielite


2.2.3 Evolução de Casos Clínicos e Radiográficos na Diferenciação entre Alveolite e Osteomielite
A diferenciação entre alveolite seca e osteomielite exige uma avaliação clínica criteriosa complementada por exames de imagem e, quando necessário, análises laboratoriais ou histopatológicas. A alveolite é primariamente diagnosticada com base em achados clínicos, como dor intensa após exodontia, halitose e exposição do alvéolo, sem sinais sistêmicos. Em contrapartida, a osteomielite é uma infecção óssea progressiva, frequentemente associada a dor persistente, edema, febre, e em casos avançados, drenagem purulenta e fístulas.
Radiologicamente, os achados evoluem conforme o tipo e estágio da condição.
2.2.4 Achados Radiográficos
Alveolite Seca
Radiograficamente, a alveolite apresenta achados limitados, sendo sua principal característica a ausência do coágulo sanguíneo no interior do alvéolo. Pode haver uma área radiolúcida onde se esperaria a presença de tecido em formação, o que indica interrupção no processo de cicatrização (White & Pharoah, 2014). Em alguns casos, observa-se:
- Borramento ou perda da lâmina dura, linha radiopaca que delimita o alvéolo (Felton, 2016);
- Ausência de alterações destrutivas ósseas profundas;
- Alvéolo visivelmente vazio ou parcialmente preenchido (AAOMR, 2020).
Figura 1- Alveolite Seca (radiografia periapical)

Osteomielite
Os achados radiográficos na osteomielite variam de acordo com o estágio da infecção:
- Estágio agudo (7–14 dias): alterações discretas, como edema de tecidos moles e osteopenia incipiente (Baltensperger & Eyrich, 2009);
- Estágio subagudo: surgem áreas de lise óssea, sequestros (fragmentos de osso necrosado), esclerose reacional e involucro (formação de novo osso ao redor do sequestro) (Krishnan et al., 2018);
- Estágio crônico: presença de fístulas, trajetos de drenagem, áreas de esclerose óssea difusa e reabsorção óssea extensa (Ribeiro et al., 2016; Peterson, 2022).
A tomografia computadorizada (TC) é superior na identificação precoce de sequestros e extensão da necrose. A ressonância magnética (RM), por sua vez, é sensível na detecção de edema de medula óssea, evidenciado como sinal hipointenso em T1 e hiperintenso em T2, mesmo antes da manifestação radiográfica convencional (Ribeiro et al., 2016).
Figura 2 – Osteomielite aguda

2.2.5 Tabela Comparativa: Diferenciação entre Alveolite Seca, Alveolite Úmida e Osteomielite
A tabela a seguir sintetiza as principais características clínicas, radiográficas e terapêuticas das condições infecciosas que podem ocorrer após exodontias, facilitando a diferenciação entre alveolite seca, alveolite úmida e osteomielite.
Tabela 2 – Características Diferenciais entre Alveolite Seca, Alveolite Úmida e Osteomielite


Conclusão
A presente revisão permitiu identificar que, embora a alveolite e a osteomielite sejam condições distintas quanto à etiologia, gravidade e abordagem terapêutica, existe entre elas uma inter-relação clínica relevante, especialmente no contexto das complicações pós-operatórias de exodontias.
Conclui-se que a alveolite longe de ser uma complicação puramente local e autolimitada, configura-se como uma porta de entrada crítica para infecção criando potencial para a progressão da infecção do alveolo, por ser uma condição comum e frequentemente negligenciada, pode, em situações desfavoráveis, evoluir para osteomielite, uma infecção óssea grave, de difícil tratamento e com potencial para causar necrose óssea e comprometimento sistêmico. Os fatores de risco envolvidos nessa progressão incluem hábitos deletérios como o tabagismo, diabetes melilitus, imunossuprimidos, falhas na técnica cirúrgica e descuidos na higiene bucal.
Por tanto , a relevância clínica deste trabalho é imediata . O cirurgião dentista tem papel central na prevenção dessas complicações, desde a avaliação pré-operatória até o acompanhamento pós-cirúrgico. A adoção de protocolos clínicos baseados em evidências, incluindo orientações precisas ao paciente, uso criterioso de antibióticos e antissépticos,diagnóstico precoce por meio de exames de imagem,controle rigoroso da alveolite por meio de procedimentos cirúrgicos minimamente traumáticos são fundamentais para reduzir a incidência de alveolite e evitar sua progressão para quadros infecciosos graves.
A escassez de dados epidemiológicos que correlacionem diretamente a alveolite à osteomielite ressalta não apenas a raridade dessa evolução, mas também a eficácia das medidas preventivas atualmente adotadas na odontologia moderna. A conduta mais adequada é a vigilância clínica pessoal, seguida de tratamento precoce e imediato da alveolite. O exemplo prático disponível nas bases de dados brasileiros, especialmente DATASUS, confirma esse ponto de vista. A subnotificação esperada de alveolite e o baixo número absoluto de internações por osteomielite no crânio que incluem várias etiologias, indicam que essa evolução sinal-epidemiologia é uma jornada rara.
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1Acadêmica do curso de Odontologia da Faculdade Anhanguera.
2Orientador(a). Docente do curso de Odontologia da Faculdade Anhanguera.
