REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202509061129
Andréa Lúcia Batista Lopes Wanderley¹
Gustavo Manoel Leles Martins²
Murilo Miranda Nunes³
Samir Fernandes Braga⁴
Stela Maris de Almeida Oliveira⁵
RESUMO
O artigo que ora se apresenta tem como foco de estudo apresentar aos leitores que vierem a tomar conhecimento do aqui descrito como os efeitos do afastamento social em tempos de convívio virtual tem sido a causa do isolamento social, do individualismo e do agravamento de problemas psíquicos que podem levar o indivíduo a um estado de insatisfação com o próprio sentido da vida. Em nosso cotidiano laboral, invariavelmente temos contato com pessoas encontradas mortas em avançado estado de putrefação. Não incomum é também a fala de familiares ou amigos que relatam a falta de notícias, de conversas aleatórias ou mesmo de cuidados com possíveis alterações no modo de agir daqueles que partiram. Assim esse trabalho tem por principal objetivo trazer informações científicas sobre os motivos que levam as pessoas ao isolamento social e como isso afeta o psíquico e o emocional daqueles que vieram a óbito. Para a consecução das pesquisas adotou-se uma metodologia de revisão de literatura, como forma de abordagem do assunto, tendo como objeto uma análise qualitativa dos textos apresentados. Ao final foi possível concluir que pós pandemia, o que já vinha sendo noticiado em relação a carência nas relações sociais, agravou-se ainda mais, fazendo com que o ser humano se voltasse ainda mais intensamente ao individualismo em detrimento das necessidades de afeto do próximo.
PALAVRAS CHAVE: Isolamento. Depressão. Sociabilização.
ABSTRACT
The present article aims to present to readers who may become familiar with the study described here how the effects of social distancing in times of virtual coexistence have led to social isolation, individualism, and the worsening of psychological problems that can lead individuals to a state of dissatisfaction with the very meaning of life. In our daily work lives, we invariably come into contact with people found dead in an advanced state of decay. It is also not uncommon for family members or friends to report a lack of news, random conversations, or even attention to possible changes in the behavior of those who have passed away. Thus, the main objective of this work is to provide scientific information on the reasons that lead people to social isolation and how this affects the psychological and emotional well-being of those who have died. To conduct this research, a literature review methodology was adopted as a way to approach the subject, with a qualitative analysis of the texts presented as the objective. Ultimately, it was concluded that post-pandemic, the already reported lack of social connections has worsened, causing people to turn even more intensely to individualism to the detriment of their loved ones’ needs for affection.
KEYWORDS: Isolation. Depression. Socialization.
INTRODUÇÃO
As relações sociais têm sofrido ao longo dos tempos diversas transformações advindas de processos como a globalização, aumento da instrumentação tecnológica, competitividade, perda do sentimento de coletividade entre outros. Tem alterado em muito o ambiente relacional das pessoas, sendo sentido com muita clareza a questão do distanciamento, até mesmo, dentro das famílias. Desta forma, sentimentos como: solidão, estresse e perda da auto estima podem ocasionar doenças psicológicas que levam a possível óbito por suicídio ou por causas naturais que demoram dias parecem notificados, tudo por causa do isolamento social (MASLACH; LEITER, 2022).
Torna-se, relevante aqui recordar que em 2020, o novo coronavírus (COVID-19) espalhou-se mundo afora, sendo definida pela OMS – Organização Mundial de Saúde como uma emergência de saúde pública. Não raro foram os casos de infecções e mortes, que cresciam de maneira avassaladora, levando as autoridades governamentais a tomarem medidas duras para conter o avanço da epidemia. Nesse sentido, além do uso de máscaras e luvas, do hábito frequente de lavar as mãos com água e sabão ou álcool em gel, o distanciamento social foi determinado e este é dentro do cenário deste artigo, um dos motivos para, mesmo após a vacinação e a convivência obrigatória com o vírus ter provocado um aumento assustador nos casos de depressão e, por conseguinte o também anunciado e crescente número de óbitos nos quais o seu conhecimento veio a público dias após o ocorrido.
Dentro desse cenário é que se propõe neste artigo correlacionar assuntos de extrema importância. Principalmente adentrar na questão da diminuição da sociabilização do ser humano, que hoje encontra-se em um individualismo sem precedentes e com isso o isolacionismo social tornou-se uma tônica, na qual até mesmo as mais ínfimas demonstrações de preocupação e cuidado entre as pessoas caíram em desuso. Na esteira desse raciocínio riscos de doenças psicossociais como a depressão trazem são grandes dadas as contingências atuais por que os seres humanos passam em seu cotidiano. O afastamento social, principalmente após o advento do surgimento da COVID-19 onde seu ápice foi atingido deixou marcas indeléveis nas sociedades. Não há como se negar que o individualismo passou a ser uma tônica em detrimento do relacionamento social, que hoje é muito mais virtual do que pessoal.
A elaboração deste artigo justifica-se pela crescente incidência de ocorrência envolvendo pessoas encontradas em óbito já em avançado estado de rigidez cadavérica ou em processo de decomposição, demandando a atuação direta dos profissionais responsáveis pela remoção de cadáveres. Normalmente essas pessoas possuem familiares que ao comunicarem o fato, relatam que realmente já havia tempos que não mantinham nenhum contato, ou que nada haviam visto que lhes chamasse a atenção para uma situação tão crítica que pudesse levar ao ocorrido.
Através da elaboração deste artigo que metodologicamente adota uma postura de revisão bibliográfica de cunho analítico. Tem-se por objetivo estudar sobre os aspectos inerentes ao isolacionismo social, como a depressão de certa forma afeta na saúde mental das pessoas e com isso inúmeras mortes são relatadas depois de muitos dias de ocorrido o óbito.
Assim, a princípio cabe salientar conforme a visão de alguns estudiosos, o que vem a ser realmente, este que é hoje uma das grandes preocupações dos profissionais da saúde, é que de certa forma levam pessoas ditas comuns a se distanciarem, evitarem o contato com outras pessoas relatando possíveis problemas de saúde, e mesmo, colocar fim a sua própria existência.
A depressão é caracterizada como um problema médico comum nos dias atuais, podendo ser crônica ou recorrente, que incapacita, compromete a saúde física e mental. É fato que os indivíduos que desenvolvem um quadro depressivo se sentem com menos vigor físico e sem a impressão de bem-estar e por causa desses sintomas procuram com mais frequência os postos de atendimento à saúde (JOHNSON et al., 1992).
Muitos deprimidos sentem-se desamparados, sem energia e sem o mínimo interesse pela vida. Para estas pessoas é inimaginável retomarem suas vidas com alegria e otimismo e, em alguns casos, sofrem também de ansiedade, enquanto outros se isolam se tornando assim antissociáveis. Ficam mal-humorados e com a estima baixa (MESQUITA, 2005).
Para Melo (2023) as alterações no cérebro que afetam as emoções podem também afetar a capacidade mental. Em um estado depressivo o indivíduo pode passar por períodos de negatividade, falta de concentração levando-o a tomar decisões erradas.
Em um estudo randomizado desenvolvido por Urzal et al. (2021) tem-se que os relatos do impacto da pandemia sobre a saúde mental surgiram sucessivamente, num ritmo que seguiu o aumento do número de casos nos países afetados. No que diz respeito aos estudos internacionais identificam sintomas relevantes de ansiedade em 24,1% a 67,6%, depressão em 12,1% a 55,9%; sintomas clinicamente significativos de perturbação pós-stress traumático (PPST) em 7,4 a 71,5% (9,16) e alterações do sono em quase metade.
Os transtornos depressivos afetam pessoas de todas as idades e a incidência vai ficando maior a cada dia. Esses transtornos apresentam sintomas que abrangem não só o psicológico, mas também aspectos comportamentais, fisiológicos, sociais e econômicos.
DESENVOLVIMENTO
Diante de todas as tensões constantes que o ser humano tem no seu dia a dia, o fenômeno do fim de sua existência pode ser estruturado em um presente estendido, tempo que configura a suspensão de uma continuidade e da sua total ruptura com ele mesmo. E isso pode ser sim uma realidade diante de um futuro incerto permeado pela falta de informações e contato com entes queridos e próximos. Estas características são parte de um conjunto de aspectos centrais que podem levar ao óbito, interpretado como evento intersticial, saturado de incertezas que se traduz na desesperança (FERREIRA, 2011).
Como é possível definir um fenômeno que carrega consigo tantas incertezas e, desse modo, definir metodologias de investigação? Todavia, as fronteiras para conceituar o fenômeno são frágeis, uma vez que não há uma sistematização de informações e, portanto, perpassa outras definições, além do que se compreende no imaginário social sobre a questão (SOBREIRA, 2020).
Para Sobreira (2020) a inconsistência das informações é aspecto presente e recorrente nos registros policiais. Familiares não sabem informar com precisão a hora do ocorrido, as circunstâncias e as hipóteses sobre as causas do falecimento são requisitos básicos acerca da narrativa. Ao fim e ao cabo, são estas informações difusas e incertas que compreendem a construção de uma narrativa do que ocorreu, além de constituir a memória sobre aquele que se foi e sobre as transformações que passam a tomar conta do quotidiano familiar.
A soma de problemas evidencia o sofrimento continuado das famílias e um estado ausente, iniciando um processo no qual “a ausência de qualquer explicação, ou até mesmo de um porque, paralisa a vida dos parentes de pessoas encontradas falecidas. E isso é apenas o primeiro passo rumo a um abismo emocional sem fim” (SILLVA, 2016, p. 57).
Não se nega a importância dos modelos familiares nem de seus conceitos. Gerstel (1996) destaca que tomar uma proposição mais consensual (de família) como ponto de partida equivale a uma “ideologia da família”. Assim afirma o autor: “obscurecendo a diversidade e a realidade da experiência familiar em qualquer tempo e local particulares” (GERSTEL, 1996, p. 299).
Ou seja, para o autor ao se falar em “família” deve-se abordá-la ressaltando sua pluralidade. Discutir a partir de questões tais como “o que é a família?” corre-se o risco de se elaborar uma mera construção teórico-especulativa, portanto, o apenas discorrendo em torno de uma “filosofia da família”. De acordo com o autor, “A família, como categoria geral, é em si uma categoria meramente conceitual da qual já desapareceu toda a problemática histórica […]” (GERSTEL, 1996, p. 12).
Portanto, considerando as afirmações de Therborn (2006), parte-se do pressuposto de que todos os formatos de família estão propensos a produzirem o fenômeno dos desaparecimentos. Assim sendo, as razões internas que provocariam um desaparecimento estão diretamente relacionadas à natureza das relações estabelecidas entre os familiares. Interessa-se, portanto, pelas relações internas e externas às famílias capazes de produzir rupturas nos laços sociais. Isto significa analisar as relações entre marido e esposa, entre pais, filhos e filhas, entre irmãos e irmãs e também com demais membros (avós, tios, primos, etc.) e a relações destes com o campo exterior à família. É nas tensões produzidas a partir destas relações que ocorrem as rupturas no núcleo familiar e que poderão desaguar nos casos de desaparecimentos.
Refletindo sobre as palavras de Goode (2012), pode-se afirmar que a família representa no nível micro os pressupostos da sociedade como agrupamento mais amplo.
Sendo assim, é uma importante “mediadora” das ações de sobrevivência alimentar, de segurança, de manutenção das leis e da socialização. Todos estes pressupostos que normalmente se solicitam ou se consideram típicos das obrigações fundamentais do Estado.
Ainda se apoiando nos ensinamentos de Goode (2012) destaca-se uma segunda característica da família que é servir como um importante mecanismo de controle social:
A família, então, é constituída de indivíduos, mas, ao mesmo tempo, é parte integrante da trama social mais ampla. Todos nós somos constantemente vigiados por nossos parentes que se sentem à vontade para nos criticar, sugerir, ordenar, persuadir, elogiar ou ameaçar, a fim de que desempenhemos as obrigações afetas aos nossos papéis sociais. Mesmo na sociedade mais industrializada e urbanizada, na qual, às vezes, se supõe que as pessoas levam uma vida desenraizada e anônima, a maior parte dos indivíduos interage frequentemente com os outros membros da família; homens adultos que alcançaram uma posição social elevada apercebem-se de que, mesmo adultos, são ainda sensíveis às críticas de seus pais e chegam a irritar-se e a magoar-se se desprezados por um irmão (GOODE, 2012, p. 13).
Ao afirmar que a família “é parte integrante da trama social mais ampla” o autor indica que não é uma instituição solta em um determinado meio social, mas possui a função de ligar “o indivíduo à estrutura social”. Assim, exerce pelo menos três propósitos importantes na e para a constituição da sociedade. Inicialmente destaca o que chama de “função de mediadora”, por meio da qual o indivíduo passará do mundo da casa para o mundo da rua. O segundo propósito está na satisfação das necessidades imediatas de alimentação e proteção. Percebe-se aqui como a família mobiliza sua poderosa capacidade de socialização de forma que prepara os indivíduos não apenas a se sujeitarem às normas, mas para que desejem obedece-las.
Apesar das inúmeras mudanças na estrutura familiar, diversos autores sustentam que ainda possui um papel decisivo para a vida dos indivíduos (KALOUSTIAN, 2000; CARVALHO, 2020).
Nesta perspectiva afirma Donini (2000):
A família continuará a desempenhar algumas de suas antigas funções, mas de forma muito menor; no entanto, continuará sendo uma instituição social fundamental, responsável pela socialização inicial, fornecendo novos membros à sociedade, transmitindo valores éticos e culturais e, acima de tudo, formando o cidadão do futuro em um contexto de amor, compreensão e afeto (DONINI, 2000, p. 03).
Continua sendo um espaço de sociabilidade organizado e, pela constatação histórica, nada indica que não será durável. Sua estrutura, a despeito dos inúmeros movimentos de transformação, continua unindo parentes e não-parentes em uma constante interação.
Conforme Tosta (2000) este processo simples e importante tem sido constatado como essencial para a sobrevivência de parcela expressiva dos indivíduos por meio das redes de solidariedade familiar. O fim da família não ocorreu como previram muitos pensadores, mas se transformou como apontavam outros apegados à tradição patriarcal e ao modelo hegemônico da família nuclear. Contrariamente ao que se afirmou, o surgimento de novos modelos não significou a erosão da instituição familiar. Isto não implica que o debate sobre a família chegou ao fim, as discussões tendem a avançar, o significado das novas relações diante do universo das tecnologias emergentes, as relações de autoridade em tempos de declínio do patriarcalismo.
Enfim, de que forma a quebra das relações de solidariedade poderia ser uma resposta para os casos de pessoas encontradas mortas dias após o ocorrido sem que houvesse uma posterior preocupação de algum ente familiar ou amigo? Com o nascimento do anonimato pela emergência das grandes cidades e com o definhamento da ideia de comunidade a família permaneceu como um importante locus de referência para os indivíduos.
Ela se transformou em uma estrutura emblemática capaz de fornecer um ambiente seguro, tanto para convivência quanto para a socialização dos filhos e filhas. Ao que tudo indica, a emergência dos novos movimentos sociais e a crescente tendência ao individualismo permitiu o questionamento das condições sociais de estruturação dos laços familiares.
Portanto, a visão idílica perdurou enquanto não se questionavam a hierarquia e as relações de dominação exercida pelos adultos sobre as crianças, dos pais sobre os filhos e filhas e do pai sobre a mãe. Este período “inquestionado” representou a era do “Deus pai” como afirmou Roudinesco (2002). Mas segundo a autora, a família que se sucedeu trouxe fortes sintomas de crise:
À família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a família mutilada de hoje, feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de lembranças recalcadas. Ao perder sua auréola de virtude, o pai, que a dominava, forneceu então uma imagem invertida de si mesmo, deixando transparecer um eu descentrado, autobiográfico, individualizado, cuja grande fratura a psicanálise tentará assumir durante todo o século XX. (ROUDINESCO, 2002, p. 21).
O que significa esta nova condição da família? Certamente significou que as relações de solidariedade também sofreram uma mutação. Se não se pode mais confiar na velha estrutura familiar então couberam aos indivíduos buscar novas formas de identificação, porém isto se deu com o custo de novos modelos familiares não reconhecidos.
A despeito destas mudanças, a ideia de família, conforme destacou Roudinesco (2002) e Therborn (2006) não foi abandonada. Contrariamente, para Roudinesco existe um “desejo” pela família. Este desejo pode ser percebido até mesmo por meio das falas de pessoas que figuram como vítimas da violência familiar.
Inúmeras são as causas intervenientes ou mesmo produtoras diretas de isolamentos. Apenas para citar alguns exemplos, pode-se falar da violência urbana, da prostituição, da ocorrência de doenças mentais, do desemprego, da homofobia, dívidas altas, gravidez precoce, da miséria entre outras.
Mas o que caracteriza inicialmente o isolamento, e que se constitui a primeira dificuldade, é o fato de que os indivíduos muitas vezes não deixam pistas evidentes sobre seus motivos. Uma instituição, porém, tem muito a falar sobre os desaparecidos: a família.
Uma breve análise sobre a situação da família nos mais diversos relatos sobre casos de óbitos inconclusos não dá causa mortis, mas sim dos motivos que a levaram a ocorrer indica que ela surge como uma das grandes vítimas desse fenômeno. Como vítima, em decorrência do fato de que o Estado que aparece na Constituição do Brasil com a obrigação de dar apoio e proteção à família ter se tornado inteiramente omisso nesta questão. Entretanto, elementos motivadores para a realização de buscas não faltam. Ao analisar os dados sobre violência urbana no Brasil, por si só, já se encontram argumentos suficientes para mobilizar as polícias.
Em um estudo desenvolvido por Massad (2005) no qual ele revisou os escritos de outros estudiosos, chegou-se à conclusão que ao se partir das constatações levantadas nos textos lidos a família é produtora de violência. Sendo assim, seria responsável por uma significativa parcela dos ocorridos. Um olhar inicial sobre o fenômeno indica o papel desempenhado pela família como uma das principais causas diante do fenômeno aqui enfocado, está-se falando da “família-vítima”. Em um olhar mais atento possibilita observar outra face da família a qual se denomina de “família-vitimizadora”.
Algumas pessoas se isolam porque alguém se tornou “invisível” aos olhos dos outros. Mas como se processa esta invisibilidade? Seja o ato produzido pelo próprio sujeito ou fruto de um ato contra a vontade dele, o que importa é que o ato se passe sem que outros o percebam como um ato ilícito, anormal.
Isto só é possível porque a cidade moderna produz um fenômeno novo, o anonimato. Em tempos remotos o que produzia o anonimato era a distância e a dificuldade de comunicação. Nos tempos modernos, com a ruptura das distâncias por meio do uso intensivo de recursos tecnológicos e de transporte, o anonimato se constrói por meio da aglomeração e de uma nova mentalidade.
A individualidade surge como um forte elemento para a vida dos cidadãos da metrópole moderna, as transformações no indivíduo se passam, sobretudo, no campo intelectual. Isto ocorre porque a cidade é um espaço de “intensificação dos estímulos nervosos”. O autor argumenta ainda que a metrópole “extrai do homem, enquanto criatura que procede a discriminações, uma quantidade de consciência diferente da que a vida rural extrai” (SIMMEL, 2019, p. 12).
Todas essas transformações intelectuais são também acompanhadas por transformações emocionais. O que está em jogo, como exigência é a exatidão, a pontualidade, a calculabidade. Essa condição obriga os indivíduos a um processo altamente impessoal.
No período de isolamento social, como medida imposta para barrar os efeitos nefastos causados pela pandemia do COVID-19 a sociedade se viu privada das suas possibilidades de lazer e distração tais como eram conhecidas, visitações a museus, cinemas, teatros, festas, restaurantes entre outras tantas opções de sociabilização. O direito de ir e vir se viu cerceado pelas duras medidas governamentais (FERRACIOLI et al., 2021).
Se pode notar claramente pelas informações acima descritas que no mínimo deixou-se de usufruir da vida como era o costume individual e das escolhas de cada um. Não invariavelmente a convivência ainda mais próxima e forçada elevou o nível de estresse intra familiar, acentuando a possibilidade de rupturas nos relacionamentos e de exacerbação da violência interpessoal.
De acordo com o Psicólogo Luis Hanns (2020) muitos são os sentimentos envolvidos nesse período, dentre eles o medo é o ponto inicial comum a todos, medos quanto a perdas da vida que antes existiam, preocupações ansiosas quanto à incerteza do futuro e a sensação de aprisionamento que acarretam irritabilidades nos sujeitos. Essas perdas também, possivelmente, podem acarretar processos de luto, devido ao montante de perdas por parte do sujeito.
Estudos sobre o isolamento social, por si só, indicam que a prevalência de efeitos psicológicos negativos é alta, especialmente depressão e inquietação, bem como raiva, medo e insônia, geralmente com grande duração (BROOK et al., 2020).
Outro aspecto, estreitamente ligado à depressão, que deve ser considerado no contexto de isolamento, é a solidão. Alguns estudos consideram a solidão como um estado de humor, um estado onde se percebe a falta do Outro, só podendo ser experienciada em relação a esse outro. Esse outro no momento de solidão toma o lugar de desejo, logo se tem um desejo do outro que supostamente solucionaria a falta (FERRARI, 2008).
Diante do cenário até agora demonstrado torna-se imperativo recordar que a sociabilização é uma maneira de se evitar que os problemas aqui mencionados tomem um caminho sem volta. Interagir com seu semelhante é parte importante no cotidiano das pessoas. Na parte seguinte deste artigo procura-se de outro turno levantar informações que comprovem como vem crescendo o quantitativo de cadáveres encontrados já em estado de putrefação avançada e nos quais a própria família ou amigos mais próximos nem falta havia sentido deste que partiu.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao se debruçar nas leituras e desenvolvimento do texto que ora se apresenta o único intuito motivador foi o do pensar humanamente sobre uma questão tão questionável dentro do atual quadro social que ao longo dos anos vem se emoldurando e se consolidou ainda mais fortemente com o advento da pandemia, o isolamento, a individualidade e a falta de convivência entre as pessoas em um nível de proximidade que antes se observava.
No transcorrer das pesquisas que foram feitas foi possível verificar com clareza que o ser humano voltou-se ainda com mais força para si mesmo, deixando de lado sentimentos como os de solidariedade e participatividade a margem de suas ações cotidianas. Isso atrelado ao nosso cotidiano laboral dentro do Instituto Médico Legal nos motivou a procurar sensibilizar os colegas e possíveis leitores deste artigo e os levar à reflexão sobre os rumos que a sociedade vem tomando em relação às suas atitudes sociais.
Não raro se vê nas diligências que são feitas para atender a casos de corpos encontrados em avançado estado de putrefação, que no falar das pessoas próximas, nada viram, sabiam ou que já a muito tempo não mantinham um relacionamento amigável e fraterno com a pessoa encontrada.
É fato que o distanciamento social, veio em sua esteira trazendo um aumento no número de casos de problemas psíquicos e alterações no convívio de toda a população, em alguns casos levando os indivíduos a perderem a própria noção de valor da vida.
Ao se dedicar a levantar esse assunto, teve-se como prerrogativa, também, buscar informações científicas sobre a magnitude do problema em sí. Sendo assim entende-se que o objetivo aposto na inicial deste foi coroado de sucesso.
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¹Bacharel em Direito. Auxiliar de Autópsia da Polícia Científica de Goiás. Especializações em Ciência Forense e Perícia Criminal; Docência em Segurança Pública; Investigação Criminal e Psicologia Forense; Ciências Criminais; CSI. E-mail: andrea.wanderley11@gmail.com;
²Graduado em Medicina Veterinária. E-mail: gustavo_manoel@hotmail.com.br;
³Bacharel em Medicina Veterinária. Pós-graduação em Direito Processual Penal. E-mail: murilomirandanunes@gmail.com;
⁴Bacharel em Educação Física. Especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento. Auxiliar de Autópsia e Histotécnico da Polícia Científica de Goiás. Técnico em Anatomia do Hospital das Forças Armadas. E-mail: samiresuzana@hotmail.com;
⁵Graduação em Gestão em Hotelaria. Especializações em Investigação Criminal e Psicologia Forense; Ciências Criminais; Docência em Segurança Pública; CSI. E-mail: stelamaris24@icloud.com.
