“RECABANOS” AND THE CABANAGEM REVOLT: AFROFUTURISM, ANTIRACIST EDUCATION, AND LAWS 10.639/2003 AND 11.645/2008 IN THE AMAZON
“RECABANOS” Y LA REVUELTA DE LA CABANAGEM: AFROFUTURISMO, EDUCACIÓN ANTIRRACISTA Y LAS LEYES 10.639/2003 Y 11.645/2008 EN LA AMAZONÍA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509061106
Lucas Lopes da Silva Aflitos1
Eny Araújo de Paula Teófilo2
Gleidys Sharny da Silva Costa3
Cliciana de Souza Pinheiro4
Maria do Socorro Cardoso da Silva5
Átila de Souza6
RESUMO
É preciso pensar para além dos determinismos acadêmicos, pensar além dos simbolismos socialmente determinados e eurocêntricos. O presente artigo surge de uma reflexão acerca de repensar a lógica do que se conhece historicamente da Revolta da Cabanagem (1835-1840) através do HQ “Recabanos”. E não apenas isso, mas colocar em voga como esse movimento é pouco explorado nas salas de aula no contexto da historiografia da Amazônia. Pensando a obrigatoriedade das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 nos estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, o presente artigo repensa, juntamente com os “Recabanos”, um novo olhar para a Cabanagem, buscando referências afrofuturistas para o movimento de resistência, processos identitários e memoriais nas salas de aula da região amazônica.
Palavras-chave: Revolta da Cabanagem. Recabanos. Lei 10.639/2003. Lei 11.645/2008. Negros e indígenas.
ABSTRACT
It is necessary to think beyond academic determinisms, beyond socially determined and Eurocentric symbolisms. This article arises from a reflection on rethinking the logic of what is historically known about the Cabanagem Revolt (1835-1840) through the comic book “Recabanos.” Not only that, but it also highlights how this movement is underexplored in classrooms within the context of Amazonian historiography. Considering the mandatory inclusion of Laws 10.639/2003 and 11.645/2008 in Afro-Brazilian and Indigenous studies, this article, along with the “Recabanos,” rethinks a new perspective on the Cabanagem, seeking Afrofuturist references for the resistance movement, identity processes, and memorials in classrooms in the Amazon region.
Keywords: Cabanagem Revolt. Recabanos. Law 10.639/2003. Law 11.645/2008. Black and indigenous people.
RESUMEN
Es necesario pensar más allá de los determinismos académicos, de los simbolismos socialmente determinados y eurocéntricos. Este artículo surge de una reflexión sobre la reconsideración de la lógica del conocimiento histórico sobre la Revuelta de Cabanagem (1835-1840) a través del cómic “Recabanos”. Además, destaca cómo este movimiento está poco explorado en las aulas dentro del contexto de la historiografía amazónica. Considerando la inclusión obligatoria de las Leyes 10.639/2003 y 11.645/2008 en los estudios afrobrasileños e indígenas, este artículo, junto con “Recabanos”, replantea una nueva perspectiva sobre la Revuelta de Cabanagem, buscando referencias afrofuturistas para el movimiento de resistencia, los procesos de identidad y los memoriales en las aulas de la región amazónica.
Palabras clave: Revuelta de Cabanagem. Recabanos. Ley 10.639/2003. Ley 11.645/2008. Pueblos negros e indígenas.
INTRODUÇÃO
A história do Brasil é vasta em um contexto de sua diversidade cultural e patrimonial. Contudo, esse histórico perpassa por um longo processo civilizador desde a colonização que influenciou diretamente como enxergamos, enquanto sociedade, o histórico de lutas, movimentos e resistências sociais e políticas que insurgem na contramão deste processo civilizatório eurocêntrico e opressivo.
E o que a história nos revela? Ao longo dos séculos, a narrativa contada do Brasil é sempre pela ótica embranquecida, do white saviour1 e de como negros e indígenas, vistos como selvagens, precisavam de uma certa tutoria, para além da exploração, violência e escravidão.
Lélia Gonzalez, referência no país nos estudos da população negra, especialmente da mulher negra, questiona esse lugar animalesco e inferiorizado da população negra no Brasil ao longo dos tempos em que se vive em uma espécie de tutoria. Segundo a autora:
Intimamente articuladas, as categorias de infans e de sujeito suposto saber nos levam à questão da alienação. A primeira designa aquele que não é sujeito do seu próprio discurso, na medida em que é falado pelos outros. O conceito de infans é constituído a partir da análise da formação psíquica da criança, que, quando falada por adultos na terceira pessoa, é, consequentemente, excluída, ignorada, ausente, apesar de sua presença (2020, p. 141. Grifos da autora).
Enxergados como mercadorias, objetos, mãos de obra e outras nomenclaturas que inferiorizam a sua existência, negros, indígenas e caboclos, no contexto da região amazônica, suas vozes não eram ouvidas, não eram sujeitos de si. A busca por sua emancipação no bojo de uma sociedade imperial consistia em resistências e movimentos em prol da libertação. Entretanto, o que se percebe nos livros, nas pesquisas, nos museus etc., é o lugar de infans. Da tutoria e ter sua história contada através de pesquisadores da época e consequentemente, brancos, reafirmando a hegemonia intelectual e discursiva. Deve-se repensar qual o lugar desses sujeitos pertencentes aos grupos étnico-raciais, não somente retirá-los desse lugar da terceira pessoa, mas também reconhecê-los como sujeitos sociais e políticos.
Pensando em significar o que possivelmente nunca fora realmente significado, este artigo questiona a representação da Revolução da Cabanagem na historiografia da Amazônia através da HQ “Recabanos” (2020). Pensado e feito por diversas mentes pensantes de artistas negros e indígenas em território amazônico, “Recabanos” reconfigura esse movimento sob uma nova perspectiva, a da primeira pessoa, os colocando como protagonistas únicos desse momento importante para a história da região.
Outra questão se revela para além de pensar os modelos acadêmicos pré-determinados, como também o uso da arte não somente como plano de estudo, mas como plano de conscientização dessas crianças, adolescentes e jovens que estão modelando e/ou amadurecendo suas identidades e sabemos que nessa fase é um período turbulento e essencial na construção do seu eu. Em que pese a importância do “que é ser cabano” há também a questão do uso da arte e outras linguagens para além do ensino tradicional nas salas de aula das escolas públicas.
Figura 1 Introdução “Recabanos”.

E essa é uma preocupação também da equipe do “Recabanos” na importância da identidade amazônica, negra, indígena, cabocla, com seus mitos e resistência renegados pelo poder, usando da arte, do lúdico e das representações simbólicas no que eles afirmam ser uma “retomada”.
O PROBLEMA
É relativamente recente a Lei 10.639/2003 que prevê a obrigatoriedade do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, posteriormente foi sancionada a Lei 11.645/2008 e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Estas leis não seriam outorgadas sem o movimento social ativo das populações negras e indígenas no Brasil, renovando o Art. 26-A da Lei 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB), estabelecendo a obrigatoriedade em território nacional, estudos e representatividade desses povos. Entretanto, o que se percebe é que as referidas leis não são efetivamente cumpridas.
Segundo a professora Nilma Lino Gomes (2017), a atuação ativa dos movimentos sociais faz a diferença na questão da identidade e na busca por direitos. Movimentos como Frente Negra, surgido em São Paulo na década de 1930, o Teatro Experimental do Negro (TEN) que teve como principal voz Abdias do Nascimento, entre as décadas de 1940 e 1960, o Movimento Unificado Contra a Discriminação Étnico-Racial (MUCDR) e o Movimento Negro Unificado (MNU), surgidos na década de 1970, foram cruciais na organização, elaboração, discursos e recursos contra a discriminação racial enraizado socialmente e que também reivindicavam uma educação antirracista e decolonialista.
Enquanto que os movimentos indígenas positiva e negativamente, ganha um novo contorno com a criação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em dezembro de 1967. Mas somente em 1982 um representante indígena foi eleito democraticamente, o Cacique Mário Juruna, da aldeia Namunkurá, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), sendo também fundador da Comissão Permanente do Índio. Com todo esse histórico, ainda há muita complexidade no acesso ao conhecimento no Brasil, envolvido no sucateamento da educação, o âmbito escolar e a relação entre professores/as e alunos/as. São questões profundas que necessitam de atenção justamente porque, como apontam os movimentos sociais, há uma idealização fortemente estruturada nesse sucateamento para que os alunos, vistos como futuros mão de obra, não se conscientizem da história como realmente é para manter o estado das coisas.
A emancipação entendida como transformação social e cultural, como libertação do ser humano, esteve presente nas ações da comunidade negra organizada, com todas as tensões e contradições próprias desse processo, tanto no período da escravidão quanto na pós-abolição e a partir do advento da República. O fato de essas ações serem projetos e propostas construídos por um povo que tem o seu passado, a sua história e a sua cultura desenvolvidos nos contextos de opressão e dominação – tais como: a colonização, a escravidão, o racismo e a desigualdade social e racial – e que, mesmo assim, segue persistindo e colocando questões para a sociedade, para a educação e para o Estado brasileiro, pode ser visto como potencial emancipatório das lutas e da organização política dos negros no Brasil e na diáspora” (Gomes, 2017, p. 49).
A partir dessa afirmação, reconhecemos a importância dos estudos étnico-raciais no Brasil como uma ferramenta de (in) surgir, isto é, da libertação das amarras sociais e políticas que modelam, corrompem e reprimem corpos, culturas, hábitos, costumes e religiosidade.
As políticas sociais e educacionais, devem ter em suas estruturas uma educação antirracista para que estes alunos, muitos dos quais não se reconhecem enquanto pretos ou pardos2, portanto, não reconhecem a sua própria história que, mesmo amparados por leis, ainda se não se concretizaram na construção efetiva antirracista e reconhecer a importância da cultura.
A cultura é constituída pelo conjunto de saberes, fazeres, regras, normas, proibições, estratégias, crenças, ideias, valores, mitos, que se transmite de geração em geração, se reproduz em cada indivíduo, controla a existência da sociedade e mantém a complexidade psicológica e social. Não há sociedade humana, arcaica ou moderna, desprovida de cultura, mas cada cultura é singular. Assim, sempre existe a cultura nas culturas, mas a cultura existe apenas por meio das culturas (Morin, 2003, p. 56. Grifos do autor).
Nesse sentido, a cultura deve ser respeitada e colocada como viés identitário, reafirmando o lugar do seu eu histórico. O que podemos perceber é que os movimentos de luta de negros e indígenas estão sincronizados nessa representação decolonial. Nesse sentido, é importante na construção em sala de aula trabalhar esses assuntos que norteiam as questões identitárias e ocultar o etnocentrismo3 enraizado no pensamento social para além dos padrões hegemônicos estabelecidos do que é ser civilizado.
A CABANAGEM – UM BREVE CONTEXTO
Insurgência, luta contra opressão racial, “rebeldia” e direitos políticos, uma breve síntese do que foi a Revolta da Cabanagem, na Província do Grão-Pará e parte do Amazonas na década de 1830.
Segundo o Prof. Dr. Luís Balkar, que se debruça a investigar esse movimento de grande importância na região. A Cabanagem surge por conta da
[…] opressão (econômica, política, social) exercida sobre os segmentos populares foi perceptível e favoreceu o encaminhamento de inúmeros protestos que, embora pouco estudados no âmbito dos estudos históricos regionais, foram uma constante em todo o período colonial. Esses enfrentamentos, importantes como mecanismos de intervenção social (principalmente para aqueles que não tinham acesso aos canais “legais” de participação política) na vida da província, tornaram-se cada vez mais violentos à medida que os métodos de controle e opressão iam se tornando cada vez mais despóticos por força da desestruturação econômica materializada na região em fins do século XVIII e início do XIX (1999, p. 237).
Com origem nas cabanas/tendas improvisadas que serviam de moradia, esse movimento político e social contra a pobreza extrema, a desigualdade social e exploração, contou com negros, indígenas, tapuios, cafuzos, mulatos, mamelucos e brancos também inseridos abaixo da linha da pobreza (Balkar, 1999). Todos eles liderados por nomes como Félix Clemente Malcher (durante a revolta foi o governador do Grão-Pará até ser destituído), Francisco Vinagre, Antônio Vinagre e Eduardo Angelim.
Nesta insurgência na busca de direitos básicos para a população, houve um banho de sangue, por volta de 40.000 mortes em toda região amazônica (Balkar 1999), reafirmando a política de morte que ainda reverbera no século XXI.
Desde o reinado de Zumbi dos Palmares (1680-1695), passando pela Revolta do Haiti (1791-1804), a Revolta dos Malês (1835), a Guerra de Canudos (1896-1897), a Revolta da Chibata (1910), citando alguns movimentos notórios insurgentes no Brasil e no Caribe se percebe o verdadeiro genocídio desses desbravadores, em sua maioria negros libertos, foragidos, indígenas, sertanejos e descendentes de escravizados.
No que concerne a busca da reconstrução histórica desse movimento popular tão importante no vasto verde que nos circunda, Paulo Freire, nos diz que: “[…] ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (1996, p. 25. Grifos do autor). E é neste sentido a importância do ensino e aprendizagem da história do seu próprio povo. Ensinar, portanto, o que deve ser ensinado para além do que (não) contam os livros de história na representação do povo amazônico, pois “[…] até hoje não tenha conseguido atrair uma gama de estudos e pesquisas que fosse equivalente ao impacto por ela produzido tanto no cenário regional, quanto no nacional” (Balkar, 1999, p. 225).
Outra questão que influencia na reconstrução são os nomes que tomaram à frente da Cabanagem como os seus supracitados líderes. Segundo Balkar (1999), existem dois nomes de homens negros que também estiveram à frente, mas que são pouco lembrados ou sequer citados nos livros e memoriais sobre a revolta:
Primeiro, quando o negro liberto, chamado por alcunha “Patriota”, se fez líder de um desses grupos e, tendo aglutinando mais de 400 fugidos, chegou a pleitear sua indicação para o cargo de presidente da província no mesmo instante em que defendia o rompimento com o Império e a criação de uma república no norte do país. Depois, quando o “preto” João do Espírito Santo, um cabano mais conhecido como Diamante, “reunindo os seus comparsas, organizou clandestinamente um corpo que denominou de guerrilheiros” e chegou a elaborar um plano para assumir o controle do poder na província, derrubando o então presidente … o cabano Eduardo Angelim. Patriota e Diamante, como tantos outros cabanas negros do Pará, continuam “esquecidos” nos estudos da Cabanagem porque até hoje parece ter bastado, para os historiadores, entendê-las como partícipes menores num jogo em que as melhores cartas e os grandes lances ficavam sempre nas mãos de “gente honrada” como Malcher ou Angelim, os “bravos patriotas” que, ironicamente, tudo fizeram para que as mais importantes demandas populares fossem violentamente postas de lado, sufocadas e finalmente esquecidas como ação menor de “turbulentos” e “inconsequentes” (1999, p. 171).
A construção de uma educação consciente e antirracista perpassa por diversos caminhos e complexidades que exigem afinco e atenção daqueles que legislam as leis, daqueles que constituem os conteúdos programáticos e dos/as professores/as que ministram no dia a dia na sala de aula esses conteúdos. Quais os nomes e figuras que devem ser citados como fundamentais nesse movimento que se prolonga aos dias atuais na busca de uma sociedade antirracista?
RECABANOS (2020)4
No início do HQ “Recabanos” há uma garotinha negra que despenca do navio e cai mar adentro e é salva por homens e mulheres parecidos com ela que a colocam de volta na embarcação. No primeiro momento é preciso ressaltar que “Recabanos” é uma obra ficcional que conta, através do lúdico, do imagético, da fantasia, acerca desse movimento. Depois, percebe-se a alusão aos corpos diaspóricos dos africanos sequestrados do território africano para serem escravizados na América nesse atravessamento do Atlântico.
No Brasil, estima-se o total de 4 milhões de escravizados, entre os séculos XVI e XIX (Gomes, 2007). Nesse contexto, ainda segundo o autor, de cada cem cativos trazidos pelos navios negreiros, apenas 45 aportavam com vida em solo brasileiro. Muitos dos que morriam em terra, eram jogados em valas, carbonizados e enterrados com cal (Gomes, 2007), como destaca o HQ.
Ao longo da obra de apenas vinte páginas, percebemos o cuidado para com a narrativa contada nesse contexto entre o histórico e o fantasioso na busca de ressignificar estes corpos dissidentes e marginalizados que não viram outra opção senão rebelar-se contra o sistema opressivo que imperava.
Pensar no uso desta obra artística nas salas de aulas como conteúdo didático é pensar na ruptura do pensamento etnocida e embranquecido. Retirando de um lugar marginal, selvagem e rebelde, para colocá-los como um grupo de pessoas conscientes em prol de um bem coletivo.
Ao priorizarem o estudo dos aspectos socioeconômicos que engendraram a revolta popular (exploração econômica, despotismo, miséria, epidemias, fomes) contribuíram para inviabilizar e rechaçar como pouco sérias as interpretações racistas e preconceituosas que buscavam explicar o movimento a partir de análises psicológicas baseadas numa pretensa “índole má” dos revoltosos ou no “barbarismo” e “insanidade” das massas” (Balkar, 2001, p. 90).
Ao longo dos tempos, histórias como estas sempre foram contadas de uma maneira racista. “Recabanos” não quer contar essa história. E surge a pergunta, até que ponto a colisão entre a história contada e a sua reimaginação é ficção? Qual é a verdadeira história para além do que é narrado?
No contexto das salas de aula, concordamos com a professora Nilma Lino Gomes: “A educação, entendida como processo de humanização, tem sido sempre uma experiência edificante? É possível educar para a diversidade em uma sociedade marcada pelo colonialismo, pelo capitalismo, pelo machismo e pelo racismo?” (2017, p. 43).
Estas questões são indissociáveis no bojo social e na busca de uma educação mais inclusiva e que valide o histórico político, social, cultural, religioso e patrimonial. É um direito que deve ser validado e cumprido para mover as estruturas sociais tão edificadas no capital, marginalização e genocídio desses grupos. Que dê visibilidade para narrativas como estas, “por isso, a educação deveria mostrar e ilustrar o Destino multifacetado do humano: o destino da espécie humana, o destino individual, o destino social, o destino histórico, todos entrelaçados e inseparáveis” (Morin, 2003, p.61).
As prerrogativas são bastante claras, mas necessitam de mais atenção. Com o “Recabanos”, a ideia deste artigo é instigar, chamar a atenção, desenvolver a questão ética, estética, a originalidade e a criatividade dos estudantes. É o momento de compreender a história, se enxergar como parte de um movimento insurgente e de classes dentro do contexto capitalista, mas desenvolver o lúdico adormecido ou silenciado pela opressão simbólica que não os deixam desenvolver o lado criativo em temas delicados e importantes e ou apenas vistos em datas comemorativas, como o dia 19 de abril – Dia dos Povos Originários e o 20 de novembro – Dia da Consciência Negra. É um estudo constante, pois “a criatividade, enquanto processo que engloba além, da originalidade, outras características, é própria do ser humano. Assim, a escola tem a responsabilidade de ampliar as potencialidades criativas do aluno em todas as áreas” (Rosa, 2005, p. 35).
Englobando a questão interdisciplinar e multidisciplinar. O uso da HQ, das cores, da linguagem, do visual e da música, é a essência do “Recabanos”, sua música também é um grito de alerta e reafirma esse lugar de retomada da história, dos corpos e narrativas.
Figura 2 Recabanos

Fonte: acervo pessoal.
A música tema do HQ, disponível no Youtube5, coloca essa perspectiva dos sangues derramados e da mãe terra que acolhe e faz justiça ao seu povo, usando da linguagem mítica para a abertura de novos conceitos e ideais. São estas inquietações que devem mover o/a professor/a das ciências humanas, especialmente Artes e História em conceber aos seus estudantes uma nova perspectiva.
RECABANOS: AFROFUTURISMO
“Recabanos” é ficção que se intercala com a realidade. Ambos se misturam na construção de uma linguagem acessível e didática, unindo história, passado, presente, liderança, mito e representatividade. Seus personagens representam os ancestrais que estiveram antes no combate da inferiorização e negação de suas vivências. São personagens fortes, negros, indígenas, caboclos e com o tom de pele abaixo do padrão que se estabelece a partir da colonização, daqueles que detinham, na maioria dos casos, o poder social, capital e intelectual.
Percebe-se que são figuras simples, mas há força e acessórios futuristas que sequer existiam naqueles idos de 1835. Uma alusão ao afrofuturismo, termo que ganha notoriedade pelo crítico cultural Mark Dery, no início dos anos 1990, se consolidando como uma ferramenta de combate ao longo dos anos.
Em linhas gerais, o afrofuturismo revisita o passado pensando no futuro próximo. Abusa da linguagem futurista com elementos da negritude. Lima (2010, p. 4), elucida acerca da questão afrofuturista:
O Afrofuturismo é um movimento intelectual, um conceito, uma filosofia ou um gênero artístico transdisciplinar que combina afrocentrismo, fantasia, tecnologia, religião, espiritualidade e misticismo não ocidentais, numerologia, sátira, ficção científica e realidade virtual, para desafiar as representações estéticas sobre África, através de uma estética que imagina e propõe um passado, presente e futuro da experiência negra na diáspora transnacional.
Em síntese, “Recabanos” é demasiadamente influenciado pelo afrofuturismo. Todas estas nomenclaturas da fantasia, da tecnologia, da ficção científica e espiritualidade, estão presentes no HQ que tem produção da Pedra de Fogo Produções e demais artistas, intelectuais e pesquisadores no auxílio da pequena revista.
O projeto tem um afinco estético que chama a atenção pelo trabalho minucioso de ilustração e colorização de Nilberto Jorge e Izabelle Regina, respectivamente. Dois nomes de uma imensa galeria de talentos neste projeto residentes em Manaus como a notória artista afrofuturista, Keila Sankofa6, entre outros nomes.
Percebe-se que o uso da linguagem, visual e oral, fora um campo importante na concepção da revista. Pensando em meios de comunicação para além das salas de aula e dos conteúdos programáticos pré-determinados, é uma rica fonte de saber ancestral e intelectual sobre a Cabanagem e seus desdobramentos.
A filósofa Marilena Chauí (2002, p. 140) nos auxilia a compreender a importância e os diversos caminhos da linguagem:
A linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural, isto é, os humanos nascem com aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticas determinadas, ou, em outros termos, são fatos culturais. Uma vez construída uma língua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidade interna, passando a funcionar como se fosse algo natural, isto é, como algo que possui suas leis e princípios, independentes dos sujeitos falantes que a empregam.
Em outras palavras, a língua falada – sentido vocacional, da voz, mas também o que se manifesta, o que se vê, na questão estética se difere do discurso, embora para algumas culturas e sujeitos elas soem indissociáveis. Ora, o primeiro é expressão cultural, corporal e inato ao sujeito. O outro, se usado de maneira indevida, torna-se uma arma poderosa de alienação e subordinação para com aqueles que não compreendem a manobra do elo dominante em manipular as massas e conseguir permanecer no centro do protagonismo intelectual e econômico.
Nesse sentido, a linguagem de como “Recabanos” se manifesta é fundamental nos conteúdos programáticos de professores e professoras que buscam outros caminhos para contar a história da Cabanagem, por exemplo, através do HQs. Mas não apenas isso. Pois a revista envereda pelos mitos, como da Cobra Grande, e da importância da memória.
Nos amparado novamente em Chauí (2002, p. 125), “a memória é a garantia de nossa própria identidade, o que podemos dizer “eu” reunindo tudo o que fomos e fizemos a tudo que somos e fazemos”. A memória é coletiva, é destino, são valores, modos de fazer, de contar histórias, de viver histórias, é a ancestralidade que não se deixa esquecer e que não podemos esquecer. Senão, o que nos resta?
ANÁLISE CRÍTICA
A análise da Revolta da Cabanagem articulada ao HQ Recabanos permite compreender diferentes dimensões educativas, culturais e sociais. Primeiramente, constata-se que a representação da Cabanagem nos livros didáticos e na historiografia oficial ainda é marcada por silenciamentos e apagamentos. Os líderes negros e indígenas permanecem em posição secundária, o que reflete a hegemonia de uma narrativa eurocêntrica da história nacional.
Ao propor um olhar afrofuturista sobre a revolta, Recabanos rompe com esse enquadramento reducionista e possibilita a construção de novas perspectivas pedagógicas. A inserção de elementos visuais, míticos e tecnológicos cria uma narrativa que valoriza a resistência dos povos subalternizados e amplia o repertório de abordagens para professores que desejam efetivar práticas antirracistas.
Outro ponto observado é que a obra oferece caminhos para o ensino interdisciplinar, articulando História, Artes, Literatura e até mesmo Ciências Sociais, demonstrando que a educação antirracista não deve ser restrita a uma disciplina específica. A presença da música, da mitologia amazônica e da estética afrofuturista permite um diálogo direto com a formação identitária dos estudantes da região, fortalecendo o sentimento de pertencimento.
Contudo, a análise também evidencia desafios: a escassez de políticas públicas que assegurem o cumprimento das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, a carência de materiais didáticos regionais, bem como a falta de formação continuada voltada aos docentes. Sem esses fatores, o potencial de obras como Recabanos corre o risco de permanecer restrito a iniciativas isoladas, sem impacto sistemático na educação básica amazônica.
Portanto, a análise crítica do material confirma sua relevância enquanto instrumento de resistência cultural e pedagógica, mas também aponta para a necessidade de ações estruturais que viabilizem a sua efetiva utilização em sala de aula.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo buscou estabelecer um paralelo entre a Revolta da Cabanagem (1835–1840) e a HQ Recabanos (2020), refletindo sobre como o afrofuturismo pode contribuir para a efetivação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 no contexto amazônico. A análise evidenciou que a obra artística, ao ressignificar a insurgência cabana, coloca em primeiro plano sujeitos historicamente silenciados — negros, indígenas e caboclos —, reafirmando seus papéis de resistência, identidade e memória.
Verificou-se que a HQ se apresenta como um recurso pedagógico potente, capaz de articular arte, história e cultura de forma interdisciplinar, contribuindo para a formação de uma consciência crítica e para a valorização das narrativas locais. Nesse sentido, o uso de materiais didáticos alternativos, como Recabanos, pode auxiliar professores da educação básica a desenvolver práticas antirracistas, criativas e contextualizadas, alinhadas ao que preconizam as legislações educacionais brasileiras.
Todavia, o estudo também revela limites: a ausência de políticas públicas efetivas para garantir a implementação das leis, a carência de formação continuada dos docentes e a falta de sistematização de experiências pedagógicas inovadoras ainda dificultam a concretização de uma educação verdadeiramente decolonial.
Diante disso, reforça-se a necessidade de ampliar o debate acadêmico e pedagógico sobre a Cabanagem e outras insurgências populares da Amazônia, bem como de fomentar pesquisas que avaliem o impacto de práticas educativas baseadas em recursos culturais e artísticos. O desafio posto às escolas públicas amazônicas é o de romper com narrativas eurocêntricas e etnocidas, construindo, a partir da memória e da arte, caminhos de resistência e emancipação.
Assim, Recabanos se mostra não apenas como um registro cultural, mas como uma ferramenta pedagógica que abre horizontes para pensar a história, a identidade e a educação na Amazônia sob a perspectiva da luta, da diversidade e da esperança.
1Em tradução livre “branco salvador” que o coloca no centro da narrativa com sua benevolência para salvar pessoas e grupos marginalizados, especialmente os grupos étnico-raciais. Um contexto racista que atravessa a intelectualidade, cultura e hábitos de um certo grupo estereotipado e que tem o branco como o seu norteador.
2Sobre esta questão da autodeclaração, ver o último Censo de 2022 do IBGE. Disponível em: <https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html/> acesso em 31 ago. 2025.
3Segundo Rocha (2008, p. 13), “o etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. Isto é, a cultura do outro é inferiorizada, subjugada e, se pensarmos nas religiões de matrizes africanas, demonizadas; em favor do eu eurocêntrico, padronizado e civilizado.
4HQ disponível em <https://linktr.ee/Pedradefogoprod?utm_source=linktree_profile_share<sid=632583d1-540a-403e-9e28-1992fafc1d7d> acesso em: 31 ago. 2025.
5https://www.youtube.com/watch?v=AZ8v7O4FlBA. Acesso em 31 de ago. 2025.
6Mulher negra, periférica, mãe solo. Keila Sankofa diz que não faz arte, faz magia em conjunto com seus ancestrais. Um pouco mais sobre ela e algumas de suas obras na dissertação de Lucas Aflitos: “Quem ela pensa que é? Corpo, performance, memória e arte afrocentrada de Keila Sankofa”. Disponível em: < https://www.tede.ufam.edu.br/handle/tede/9589> acesso em: 31 de ago. 2025.
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__________________________. A Revolta Popular Revisitada: Apontamentos Para Uma História e Historiografia Da Cabanagem.” A Revolta Popular Revisitada: Apontamentos Para Uma História e Historiografia Da Cabanagem. Revista Projeto História, vol. 19, 1999, pp. 227–241.
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ROSA, Maria Cristina da. A formação de professores de arte: diversidade e complexidade pedagógica. Florianópolis: Insular, 2005.
1Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: lucasdelucas706@gmail.com
2Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail:enydepaulaluna@gmail.com
3Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: gleidyssharny7@gmail.com
4Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: clicianapinheiro01@gmail.com
5Doutoranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA). E-mail: cardoso.socorro@gmail.com
6Doutorando em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: atilabio@hotmail.com
