OVARIAN REMNANT SYNDROME ASSOCIATED WITH UTERINE STUMP PYOMETRA IN A SPAYED BITCH: CASE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511302101
Ana Luiza Paula Borges1; Lucas Augusto Chaves2; Eloisa Schroeder Medina3; Júlia Marcela Vasconcélos de Moraes Vilela4; Geovana Soares de Castro5; Gabriel Lopes Germano6; Diego Silva Lima7; Nadielli Pereira Bonifácio8; Mariana Paz Rodrigues Dias9; Tales Dias do Prado10
RESUMO
A piometra de coto uterino associada à síndrome do ovário remanescente representa uma complicação tardia decorrente de ovariohisterectomia incompleta, caracterizando importante problema na rotina clínica e cirúrgica de pequenos animais. Este trabalho descreve o caso de uma cadela idosa, previamente esterilizada, que apresentou secreção vulvar recorrente, dor e sinais compatíveis com ciclicidade, evoluindo para diagnóstico de coto uterino infectado associado a ovário remanescente funcional. O diagnóstico foi estabelecido por meio de avaliação clínica, exames laboratoriais, ultrassonografia e confirmação intraoperatória. A paciente foi submetida à celiotomia exploratória para remoção completa do remanescente uterino e do ovário residual, procedimento conduzido com sucesso apesar das aderências e alterações císticas identificadas. O desfecho pós-operatório foi favorável, com resolução completa dos sinais clínicos. O relato reforça a necessidade de técnica cirúrgica minuciosa durante a ovariohisterectomia e destaca a importância da correlação entre sinais clínicos, exame físico e achados de imagem para o diagnóstico preciso e tratamento definitivo dessa condição.
Palavras-chave: Aderências; Cisto ovariano; Coto uterino; Infecção uterina; Remanescente ovariano funcional.
ABSTRACT
Stump pyometra associated with ovarian remnant syndrome is a late complication resulting from incomplete ovariohysterectomy and represents a relevant condition in small animal surgical and clinical practice. This report describes the case of an elderly spayed female dog presenting recurrent vulvar discharge, pain and signs compatible with hormonally driven cyclicity, culminating in the diagnosis of an infected uterine stump associated with functional ovarian remnant. Diagnosis was established through clinical evaluation, laboratory testing, ultrasonography and intraoperative confirmation. The patient underwent exploratory celiotomy for complete removal of the uterine stump and residual ovarian tissue, a procedure successfully performed despite extensive adhesions and large ovarian cystic changes. Postoperative recovery was satisfactory and all clinical signs resolved. This case reinforces the need for meticulous surgical technique during ovariohysterectomy and highlights the importance of integrating clinical signs, physical examination findings and imaging results to achieve accurate diagnosis and definitive treatment of this condition.
Keywords: Abdominal adhesions; Cystic ovarian lesion; Functional ovarian tissue; Post-spay complications; Uterine stump infection.
REVISÃO DA LITERATURA
A ovário-histerectomia (OH), caracterizada pela remoção completa dos ovários e do útero, é um dos procedimentos mais realizados na clínica de pequenos animais. Apesar da segurança geral da técnica, diversas complicações podem surgir no pós-operatório, incluindo hemorragias, infecções, dor, ligadura ureteral, deiscência de sutura, incontinência urinária e formação de aderências, além da Síndrome do Ovário Remanescente (SOR) (Fossum, 2021). Complicações relacionadas a falhas técnicas também são descritas em diferentes estudos que abordam padrões de ligadura e manejo do pedículo ovariano, reforçando a necessidade de domínio anatômico e técnica cirúrgica adequada (Beltramin et al., 2022).
A SOR é definida pela presença de tecido ovariano funcional em cadelas previamente esterilizadas, permitindo a continuidade da produção hormonal e a manifestação de sinais compatíveis com o ciclo estral. A literatura destaca que essa síndrome se caracteriza como falha iatrogênica associada à remoção incompleta do tecido ovariano ou à dificuldade inerente de visualização dos pedículos, principalmente em animais com variações anatômicas, tecido adiposo excessivo ou durante cirurgias realizadas em condições inadequadas (Macphail; Fossum, 2019). Em alguns cenários, alterações reprodutivas associadas a falhas técnicas, como piometra de coto, reforçam a importância da completa remoção de estruturas reprodutivas durante a OH (Couto et al., 2019).
Os sinais clínicos da síndrome abrangem aspectos comportamentais e fisiológicos, incluindo edema vulvar, secreção serossanguinolenta, hipertermia, letargia, distensão abdominal, êmese, perda de peso, hiporexia, polidipsia e poliúria, caracterizando uma condição de ampla variabilidade clínica (Silva et al., 2022). Além disso, alterações do sistema genital feminino em cadelas castradas devem sempre ser cuidadosamente avaliadas, já que processos inflamatórios, infecciosos e hormonais podem mimetizar a síndrome, exigindo interpretação clínica precisa (Jericó; Neto; Kogika, 2015).
O diagnóstico da SOR é desafiador e requer abordagem multimodal. A associação entre dosagem de progesterona e hormônio antimülleriano (AMH) tem se mostrado útil na detecção da atividade ovariana, embora situações de falso negativo sejam documentadas, especialmente em tecidos residuais de baixa atividade endócrina (Burgio et al., 2025). Complementarmente, citologias vaginais fornecem informações importantes sobre o estágio hormonal e podem auxiliar na diferenciação entre exposição endógena e exógena a hormônios (Place et al., 2019).
Métodos de imagem têm papel fundamental no diagnóstico. A ultrassonografia abdominal é frequentemente utilizada como exame inicial, e estudos mostram elevada concordância entre achados ultrassonográficos e localização cirúrgica dos resíduos ovarianos (Mullikin et al., 2022). Entretanto, a literatura também demonstra que tomografia computadorizada pode detectar massas associadas a restos ovarianos, sobretudo quando há suspeita de evolução para neoplasia, permitindo visualização precisa de alterações infiltrativas e heterogêneas (Manfredi et al., 2024). Em paralelo, análises sobre anatomia ovariana e sua variação entre pacientes sugerem que a identificação de estruturas residuais pode ser dificultada por particularidades anatômicas e posicionamento intra-abdominal (Stone, 2003).
A etiologia da SOR envolve múltiplos fatores, sobretudo a remoção incompleta do tecido ovariano. Revisões demonstram que o pedículo ovariano direito é mais propenso à permanência de remanescentes devido à sua relação anatômica com o ligamento suspensor, o que dificulta sua exteriorização durante a cirurgia (Devender et al., 2018). Em algumas circunstâncias, pequenas ilhotas ovarianas podem permanecer viáveis e sofrer revascularização, evoluindo para atividade hormonal plena após semanas ou meses. Além disso, pesquisas que analisam padrões cirúrgicos demonstram que técnicas precisas de ligadura, quando aplicadas incorretamente, podem permitir que fragmentos teciduais migrem ou permaneçam parcialmente aderidos à cavidade abdominal (Santos et al., 2012).
O tratamento da SOR é exclusivamente cirúrgico, pois não existem terapias farmacológicas capazes de suprimir de forma definitiva o tecido residual. Recomenda-se que a cirurgia seja realizada em fases de estro ou diestro, períodos nos quais o tecido ovariano apresenta maior vascularização e volume, o que facilita sua identificação e dissecção (Sant’Ana et al., 2024). Esse princípio também é reforçado por abordagens tradicionais da cirurgia reprodutiva, que enfatizam a necessidade de inspeção minuciosa dos pedículos e remoção completa das estruturas anexas (Fossum, 2008).
Embora a celiotomia exploratória seja a técnica tradicional, procedimentos minimamente invasivos vêm ganhando relevância. Estudos indicam que a laparoscopia apresenta menor tempo cirúrgico, redução da dor pós-operatória e menor risco de complicações, constituindo alternativa eficaz quando realizada por equipes treinadas e com infraestrutura adequada (van Nimwegen et al., 2018). Além disso, essa abordagem pode ser particularmente útil em cadelas submetidas a cirurgias prévias, nas quais aderências podem limitar a visualização.
A epidemiologia da síndrome demonstra que sinais estrais podem ocorrer meses ou anos após a esterilização. Relatos descrevem cadelas apresentando pseudogestação e manifestações recorrentes de estro, o que reforça a necessidade de investigação detalhada, sobretudo em situações nas quais o tutor acredita que o animal está plenamente castrado (Ball et al., 2010). Estudos recentes ampliam a compreensão sobre a evolução da síndrome, demonstrando que restos ovarianos podem desenvolver alterações císticas ou mesmo transformações neoplásicas, incluindo tumores de células da granulosa, justificando diagnóstico e intervenção precoce (Zambelli et al., 2025).
Também é importante considerar diagnósticos diferenciais. Há relatos de manifestações estral em cadelas expostas acidentalmente a estrogênios exógenos presentes no ambiente domiciliar, como terapias hormonais humanas. Esses casos demonstram que nem toda ciclicidade aparente decorre de tecido ovariano residual, exigindo investigação ambiental e anamnese ampliada (Ganz; Wehrend, 2021). Tais achados reforçam que a SOR deve ser diagnosticada somente após exclusão de causas alternativas.
Por fim, a prevenção da síndrome depende diretamente da precisão técnica no momento da OH. O adequado manejo dos pedículos ovarianos, a tração correta do ligamento suspensor e a inspeção rigorosa da cavidade abdominal antes do fechamento são medidas fundamentais para evitar restos teciduais (Oliveira et al., 2012). Além disso, o desenvolvimento constante de técnicas cirúrgicas, como padrões de ligadura aprimorados, contribui para a redução da incidência de falhas na remoção completa dos ovários (Beltramin et al., 2022).
A revisão de literatura apresentada evidencia a complexidade diagnóstica, terapêutica e epidemiológica da Síndrome do Ovário Remanescente em cadelas, com destaque à sua relevância clínica e a importância do domínio técnico durante procedimentos de esterilização. Considerando a diversidade de manifestações clínicas, a possibilidade de complicações associadas, como piometra de coto e evolução neoplásica, e os desafios inerentes ao diagnóstico definitivo, torna-se fundamental contextualizar esses conhecimentos por meio da descrição de situações reais que ilustram a aplicação prática desses conceitos. Assim, o relato de caso a seguir foi selecionado com o propósito de integrar os fundamentos teóricos discutidos com a experiência clínica cotidiana, demonstrando, de forma objetiva, a apresentação, condução diagnóstica e abordagem cirúrgica de uma cadela que desenvolveu síndrome do ovário remanescente. Esse caso reforça a importância da identificação precoce, da investigação criteriosa e da intervenção adequada, corroborando a literatura e ampliando a compreensão sobre a condição na rotina veterinária.
RELATO DO CASO
Uma cadela da raça Chow Chow, 11 anos de idade e pesando 21 kg, foi admitida para investigação clínica em razão de dor ao levantar-se e secreção vulvar de odor fétido, acompanhada por episódios de sangramento cíclico que se repetiam entre dois e três meses. Embora esterilizada, a cadela manifestava sinais compatíveis com ciclicidade, o que despertou suspeita de ovariano funcional. Tratamentos prévios envolvendo antibioticoterapia e imunomoduladores não promoveram resolução definitiva, motivando aprofundamento no diagnóstico.
No exame físico, registraram-se temperatura de 38,8 °C, frequência cardíaca de 96 batimentos por minuto, frequência respiratória de 32 movimentos por minuto, mucosas normocoradas, hidratação adequada e escore corporal 3. Os exames complementares incluíram hemograma e bioquímica sérica. O hemograma realizado em 29 de agosto de 2025 revelou aumento de eritrócitos (8,27 milhões/µL), hemácias microcíticas normocrômicas, macrocitose moderada e policromasia, com leucograma dentro dos padrões fisiológicos e proteína plasmática total de aproximadamente 6,2 g/dL (Jericó; Neto; Kogika, 2015). A bioquímica sérica demonstrou ureia no limite superior (39,22 mg/dL) e creatinina dentro da normalidade, e o teste para erliquiose apresentou resultado negativo.
A ultrassonografia abdominal evidenciou estrutura tubular distendida, preenchida por material ecogênico heterogêneo, compatível com piometra de coto. Na região ovariana direita, observou-se aumento volumétrico de aspecto cístico, embora o ovário não tenha sido identificado como estrutura distinta. A associação desses achados com a secreção vulvar recorrente, o histórico compatível com ciclicidade e a ausência de resposta ao tratamento clínico sustentou o diagnóstico de remanescente uterino infectado, além de sugerir fortemente a presença de ovário remanescente funcional. Diante desse conjunto de evidências, determinou-se a necessidade de celiotomia exploratória para localização e remoção dos tecidos residuais e resolução definitiva do quadro.
A paciente foi classificada como ASA II, condizente com doença sistêmica leve a moderada e controlada. O protocolo anestésico incluiu acepromazina (0,4 mg, IM) e tramadol (1,6 mg, IM) como medicações pré-anestésicas, seguidos de indução e manutenção anestésica com cetamina e midazolam. A analgesia trans e pós-operatória foi assegurada com tramadol, em conformidade com estratégias de analgesia multimodal. A abordagem cirúrgica consistiu em celiotomia exploratória, realizada por incisão de aproximadamente 8 cm na linha alba, caudalmente à cicatriz umbilical. Os achados intraoperatórios confirmaram a presença de ovário remanescente no antímero direito (Figura 1), envolvido por cisto de grandes dimensões, enquanto o coto uterino encontrava-se aderido à superfície ventral da bexiga. O complexo arteriovenoso ovariano foi ligado com fio absorvível sintético nº 0, e o coto uterino recebeu ligadura transfixante aplicada o mais caudalmente possível, imediatamente cranial à cérvix, seguida de ligadura adicional de segurança. Antes do fechamento da cavidade abdominal, realizou-se lavagem abundante com solução fisiológica aquecida a 0,9% e omentopexia na região do corpo uterino. A síntese ocorreu por três planos: linha alba em padrão simples contínuo com poliglecaprone 25 nº 2-0, subcutâneo em padrão intradérmico com poliglecaprone 25 nº 2-0 e pele em padrão Wolf utilizando fio de nylon nº 3-0.
Figuras 1: ovário remanescente funcional associado a um cisto de grandes dimensões.

No período pós-operatório imediato, realizaram-se monitorização anestésica, manutenção da analgesia e fluidoterapia de suporte. Os cuidados subsequentes incluíram antibioticoterapia com enrofloxacina (5 mg/kg, SID, por dez dias), uso de colar elizabetano, restrição de atividade física e vigilância do sítio cirúrgico. As orientações ao tutor incluíram administração correta dos fármacos prescritos, manutenção do colar e retorno programado para reavaliação e retirada dos pontos, conforme recomendações cirúrgicas clássicas. A paciente apresentou evolução clínica satisfatória, com desaparecimento completo dos sangramentos e secreções vulvares, ausência de complicações e cicatrização adequada. No retorno para retirada dos pontos, aproximadamente duas a três semanas após a cirurgia, observou-se recuperação plena. O prognóstico final foi considerado favorável.
DISCUSSÃO
O caso apresentado corresponde a um quadro de piometra de coto uterino associado a ovário remanescente funcional, condição descrita como consequência tardia de ovariohisterectomia incompleta. A paciente, uma cadela geriátrica de 11 anos, enquadrou-se no perfil de maior suscetibilidade relatado na literatura, manifestando secreção vulvar purulenta e recorrente, dor à movimentação e letargia, sinais compatíveis com os descritos em afecções uterinas secundárias à persistência de tecido remanescente. A ultrassonografia confirmou a presença de conteúdo compatível com piometra de coto, e os achados intraoperatórios revelaram remanescente uterino dilatado, edemaciado e friável. Identificou-se também um cisto ovariano de grandes dimensões, achado que reforça a funcionalidade do ovário remanescente e sua participação na ciclicidade observada antes da intervenção.
A abordagem cirúrgica foi conduzida por celiotomia mediana, técnica amplamente recomendada por proporcionar ampla exposição da cavidade abdominal, permitindo a identificação precisa de aderências e a remoção completa de estruturas residuais (STONE, 2003; SANTOS et al., 2012). O procedimento seguiu rigorosamente os princípios aplicados à cirurgia de tecidos contaminados, com atenção à dissecção cuidadosa, controle vascular por meio de múltiplas ligaduras e irrigação abundante com solução fisiológica, minimizando o risco de disseminação bacteriana e formação de complicações pós-operatórias. As principais dificuldades intraoperatórias incluíram aderências firmes entre o coto uterino e a face ventral da bexiga, além da localização do ovário remanescente em proximidade com estruturas vasculares de maior calibre.
A literatura indica que a presença de ovário remanescente no antímero direito é mais comum, devido à dificuldade de exteriorização desse pedículo ovariano em razão da anatomia mais profunda e da inserção do ligamento suspensor (DEVENDER et al., 2018). Esse detalhe anatômico se correlaciona diretamente com o caso relatado, no qual o resíduo ovariano encontrava-se no antímero direito, envolto por cisto volumoso. A formação cística é descrita por autores como Zambelli et al. (2025), que destacam que o estímulo hormonal contínuo em tecido residual pode favorecer alterações proliferativas e císticas, aspecto compatível com os achados da cirurgia.
A piometra de coto observada também está alinhada ao que Fossum (2021) descreve como possível evolução de remanescentes uterinos expostos cronicamente à ação de progesterona. Como a cadela apresentava episódios cíclicos de sangramento, fica evidente que o tecido ovariano funcional manteve o ambiente hormonal propício para a hiperplasia endometrial e subsequente infecção. Dessa forma, o caso ilustra de maneira clara o mecanismo fisiopatológico discutido pela literatura, reforçando que o estímulo hormonal residual desempenha papel decisivo na instalação da piometra de coto.
A dificuldade diagnóstica inicial também encontra suporte nos relatos de Mullikin et al. (2022), que apontam que a ultrassonografia, apesar de amplamente utilizada, nem sempre permite visualização clara do ovário residual, especialmente quando envolto por cistos ou aderências. No caso descrito, a ultrassonografia sugeriu aumento cístico na topografia ovariana direita, mas não conseguiu identificar o ovário de maneira distinta, o que corresponde exatamente às limitações técnicas apontadas pela literatura. Ainda assim, a compatibilidade clínica e o padrão ultrassonográfico do coto uterino distendido sustentaram a indicação cirúrgica.
Outra observação relevante diz respeito às consequências de ovariohisterectomias realizadas sem completa remoção de ovários e cornos uterinos, especialmente quando aderências, sangramentos ou dificuldade de visualização comprometem a técnica. Beltramin et al. (2022) discutem que erros técnicos no manejo do pedículo ovariano são causas recorrentes de remanescentes, especialmente em cadelas com maior volume de gordura abdominal ou em cirurgias realizadas por profissionais com menor experiência. Este aspecto reforça a necessidade de treinamento contínuo e da adoção de técnicas seguras, como ligaduras duplas e inspeção sistemática da cavidade antes do fechamento, o que poderia ter prevenido a complicação observada neste caso.
Por fim, a evolução satisfatória após a remoção completa do tecido residual confirma o que Sant’Ana et al. (2024) relatam como o único tratamento definitivo para a síndrome do ovário remanescente: a excisão total do tecido ovariano e do coto uterino associado. A resolução completa dos sinais clínicos após a cirurgia demonstra que o remanescente era, de fato, o elemento fisiopatológico responsável pelas manifestações cíclicas e pelo processo infeccioso. Assim, o caso apresentado reforça não apenas a importância da abordagem cirúrgica adequada, mas também a relevância diagnóstica do histórico completo e da correlação entre sinais clínicos e exames complementares.
CONCLUSÃO
O caso apresentado evidencia a importância do reconhecimento da Síndrome do Ovário Remanescente e da piometra de coto como complicações tardias decorrentes de ovariohisterectomia incompleta. A paciente manifestou sinais clínicos compatíveis com atividade ovariana funcional e infecção uterina residual, reforçando a necessidade de investigação criteriosa em cadelas previamente castradas que exibem ciclicidade aparente ou secreções anormais. A ultrassonografia, associada à avaliação clínica e laboratorial, permitiu direcionar o diagnóstico, posteriormente confirmado pelos achados intraoperatórios de remanescente uterino infectado e ovário funcional envolto por cisto.
A abordagem cirúrgica por celiotomia exploratória demonstrou-se eficaz para a remoção completa dos tecidos remanescentes, apesar dos desafios anatômicos enfrentados, como aderências e proximidade do ovário residual com estruturas vasculares. A intervenção adequada resultou em recuperação satisfatória, sem intercorrências pós-operatórias, e permitiu a resolução definitiva da enfermidade. O caso reforça a relevância do domínio técnico durante a ovariohisterectomia, bem como da vigilância clínica contínua, destacando que a prevenção da síndrome depende fundamentalmente da remoção completa de ambos os ovários e de toda a estrutura uterina no procedimento inicial.
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1Acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV
2Acadêmico da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV
3Acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV
4Acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV
5Acadêmica da Faculdade de Medicina Veterinária da UNIRV
6Médico Veterinário
7Médico Veterinário
8Profa. Ma. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV
9Profa. Dr. da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV
10Professor Dr. Titular da Faculdade de Medicina Veterinária da UniRV
