SABERES PROFISSIONAIS PARA ENSINAR DESENHO NA ESCOLA NORMAL DO DISTRITO FEDERAL (1927 A 1930)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509051325


Marta Maria Gama1
Laura Isabel Marques Vasconcelos de Almeida2
Alexandra Carvalho de Almeida3
Eurípia Martins de Freitas4
Fares Frade Coelho5
Maria Helena Carvalho Gama6
Narielly Crystinna Guimarães Borges7
Patrícia da Costa8
Rennio Cesar Sousa Carvalho9


RESUMO 

O presente artigo tem como objetivo investigar contribuições de Fernando Nerêo de Sampaio para o ensino de Desenho na Escola Normal do Distrito Federal (1927-1930) durante a Reforma Fernando de Azevedo.  Com base na vertente teórica e metodológica da História Cultural, o artigo propõe discutir as propostas da Reforma Fernando de Azevedo, no período de 1927-1930 e analisar a These de Nerêo Sampaio intitulada “Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia (1929)”, como exigência para o ingresso no concurso da cadeira de Desenho da Escola Normal do Distrito Federal. As análises apontam que a metodologia defendida por Sampaio, destaca a influência de Dewey para sua implementação e articula-se aos saberes necessários para ensinar Desenho na Escola Normal. Conferimos que foi na gestão de Anísio Teixeira, com a transformação da Escola Normal em Instituto de Educação e a elevação da formação de professores em nível universitário, que Nerêo Sampaio realizou o seu objetivo maior: formar professores primários especializados em Desenho e Artes.  

Palavras-chave: História da Educação Matemática. Ensino de Desenho. Formação de Professores. 

ABSTRACT 

This article aims to investigate Fernando Nerêo de Sampaio’s contributions to the teaching of Drawing at the Escola Normal do Distrito Federal (1927-1930) during the Fernando de Azevedo Reform. Based on the theoretical and methodological perspective of Cultural History, the article discusses the proposals of the Fernando de Azevedo Reform in the period 1927-1930 and analyzes Nerêo Sampaio’s Thesis entitled “Children’s Spontaneous Drawing: Considerations on its Methodology (1929)”, a requirement for admission to the Drawing course at the Escola Normal do Distrito Federal. The analyses indicate that the methodology advocated by Sampaio highlights the influence of Dewey in its implementation and is linked to the knowledge necessary to teach Drawing at the Escola Normal do Distrito Federal. We confirmed that it was during Anísio Teixeira’s administration, with the transformation of the Normal School into an Institute of Education and the elevation of teacher training to university level, that Nerêo Sampaio achieved his greatest objective: training primary school teachers specialized in Drawing and Arts. 

Keywords: History of Mathematics Education. Drawing Teaching. Teacher Training.

Introdução 

Com base na vertente teórica e metodológica da História Cultural, este artigo propõe discutir as propostas da Reforma Fernando de Azevedo, no período de 1927-1930 e analisar a These10 de Nerêo Sampaio, intitulada “Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia (1929)”, documento apresentado como exigência  para o ingresso no concurso da cadeira de Desenho da Escola Normal do Distrito Federal. 

A pesquisa em andamento insere-se na linha de investigação “História da Educação Matemática no Brasil” e centra-se na seguinte questão norteadora: Quais as contribuições de Nerêo Sampaio para o ensino de desenho na formação de professores normalistas do Distrito Federal, no período de 1927 a 1961?  

Neste texto, serão apresentadas e discutidas as categorias de análises sobre as propostas de Fernando de Azevedo e as prescrições de Nerêo Sampaio (1929), para o ensino de Desenho, a partir da análise do seu trabalho”11. Sampaio (1929) discute três condições fundamentais que orientam metodologicamente o ensino de desenho, a saber: o que ensinar? Como ensinar, a quem ensinar? Hofstetter e Schneuwly (2017), no contexto da formação de professores e da educação, traçam alguns pontos sobre as questões acima mencionadas. Sobre o que ensinar, resumidamente, apontam que devem ser ensinados saberes específicos, como conteúdos disciplinares (matemática, ciências, línguas etc.), adaptados ao nível de ensino (primário, secundário, superior). Saber a ensinar: conteúdos que são objeto do ensino, como matemática elementar no primário ou matemática avançada no secundário.  

Acerca de como ensinar, os autores enfatizam a utilização de métodos pedagógicos e didáticos apropriados, como o ensino intuitivo, que destaca o uso de objetos concretos e experiências sensoriais. Saber para ensinar: conhecimentos sobre pedagogia, psicologia, didática e metodologias específicas para facilitar o aprendizado. Articular teoria e prática, promovendo uma formação que inclua tanto aspectos teóricos quanto experiências práticas.E por último, a indagação a quem ensinar, segundo Hofstetter e Schneuwly (2017), deve-se adaptar o ensino às necessidades e características dos alunos, considerando seu nível de desenvolvimento, contexto sociocultural e objetivos educacionais. No ensino primário, por exemplo, focar na formação básica e na introdução de conceitos fundamentais. No ensino secundário, preparar os alunos para estudos avançados ou para o mercado de trabalho. Essas questões são centrais para a formação de professores e para a definição de currículos e práticas pedagógicas.

Hofstetter e Schneuwly (2017), destacam que a reforma educacional Fernando de Azevedo, (1927-1930) atingiu seu ápice, porém estava longe de ser um movimento homogêneo, tanto sobre os saberes profissionais, quanto com os professores, pesquisadores, administradores e fundadores de escolas.  

Após esta pequena introdução, nosso intento é examinar a tese de Sampaio sobre o ensino de Desenho na Escola Normal do Rio de Janeiro (1927-1930) e, compreender  as contribuições e benefícios que esta disciplina trouxe aos normalistas para compreensão dos saberes profissionais, a partir da Reforma Fernando de Azevedo (1927) 

As fontes documentais utilizadas encontram-se no acervo do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em diferentes documentos selecionados por França e Domingues, (2020), no Centro de Memória da Educação Brasileira- CMEB12, no Repositório da UFSC (https://www.repositorio.ufsc.br) na Hemeroteca Digital Brasileira e no Arquivo Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, além do nosso arquivo pessoal. 

No processo de construção do objeto entendemos que a coleta, a seleção e o questionamento das fontes são basilares para o historiador de uma disciplina escolar. Conforme Almeida (2010), a abordagem historiográfica permite compreender as formas de educação que se manifestam no ambiente escolar, bem como suas conexões com o contexto histórico em que estão inseridas. Contudo, nem sempre é possível encontrar fontes devidamente organizadas e acessíveis para a realização de pesquisas. 

Outra leitura importante, foi a tese de Laura Almeida (2015)13, que se insere no campo da História da Educação Matemática e revela como as práticas escolares foram moldadas por políticas públicas, influências externas e dinâmicas locais entre 1920 e 1980. A pesquisa abordou a operação historiográfica, na perspectiva de Michel de Certeau (1982)14, que se refere à relação entre o lugar de produção social, os procedimentos de análise e a construção de um texto histórico.

Ao visitar o Arquivo Nacional, constatou-se que acerca do recorte temporal em destaque, não há registros sobre o ensino primário do Rio de Janeiro. Nesse sentido, Julia (2001) afirma que a história das práticas culturais é a mais complexa de reconstruir porque “são práticas que não deixam traços”. Entretanto, reconhecendo a restrição da localização das produções escolares, o historiador recomenda “fazer flecha com qualquer graveto” (Julia, 2001, p. 17). 

Apresentar e problematizar a proposta de Nerêo Sampaio para incluir a disciplina de Desenho na Matriz Curricular da Escola Normal do Rio de Janeiro, com base na Reforma Fernando de Azevedo (1927), faz-se necessário para melhor entender e contextualizar a proposta curricular em estudo. Neste contexto justifica-se o recorte temporal considerado essencial para tratar as mudanças na educação ocasionadas pelas transformações sociais pós guerra.  

É nessa conjuntura que Azevedo faz a defesa de uma nova organização do trabalho didático. Para ele, após o término da Primeira Guerra Mundial e com o avanço da industrialização, o sistema capitalista mundial passou por profundas transformações que também repercutiram no Brasil. Nesse cenário de mudanças, diversos segmentos da sociedade civil brasileira começaram a se mobilizar em busca de melhores condições de vida e de uma proposta educacional distinta daquela que vinha sendo oferecida à população até então (Brito; Cardoso; Oliveira, 2017) 

Como fontes primárias utilizou-se duas obras de Fernando de Azevedo: Novos caminhos e novos fins e a Reforma Fernando de Azevedo, entre 1927 e 1930 (Camara, 2011); e a These de Nerêo Sampaio (1929). Como fonte secundária, utilizamos as fontes necessárias para evolução das reflexões aqui destacadas.

O período delimitado nos remete as discussões de Jacques Le Goff (1990), sobre contemporaneidade o qual chama atenção para o dever principal do historiador: a crítica do documento – qualquer que seja ele – enquanto monumento. Para Le Goff, o documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o produziu segundo as relações de força que então detinham o poder. Se hoje um documento chegar às mãos de um pesquisador, adquire importância e ganha status de monumento.   

Segundo Le Goff (1990), o documento não é neutro nem passivo. Ele representa, desde sua origem, uma construção — intencional ou não — moldada pela história, pela sociedade e pelo tempo em que foi produzida. Além disso, continua sendo reinterpretado ou silenciado ao longo das gerações. Por sua permanência e durabilidade, o documento carrega testemunhos e ensinamentos que precisam ser examinados criticamente, indo além de sua aparência imediata. Nesse sentido, o documento se configura como um verdadeiro monumento. (Le Goff, 1990) 

Chervel (1990) traz contribuições importantes sobre a história das disciplinas escolares, como, por exemplo, a afirmação de que não devem ser pesquisadas para preencher lacunas. O autor confirma que as disciplinas escolares são entes que possuem autonomia, embora relativa, dentro do contexto escolar. Elas são construtos da própria escola e não se constituem como meras reproduções. Nesse sentido, essa perspectiva será utilizada durante a análise da disciplina de Desenho.  

Esta pesquisa ao abordar os saberes profissionais, baseia-se em Hofstetter e Schneuwly (2017, 2020)15 que segundo seus estudos, esses saberes são decorrentes de procedimentos difíceis que os modificam a fim de torná-los possíveis de serem ensinados. Por outro lado, fazem parte da profissão docente e definem a atuação do professor, envolvendo uma diversidade de conhecimentos. Esses saberes dizem respeito, sobretudo, ao conteúdo que será ensinado e às características dos alunos — sejam crianças ou adultos — incluindo seus saberes prévios, processos de desenvolvimento e formas de aprendizagem (Hofstetter; Schneuwly, 2017). 

Conforme aponta Castro (1994), a referida reforma tinha como objetivo promover a descentralização dos serviços educacionais, instituir concursos públicos para todos os cargos, ampliar a rede de escolas primárias e profissionais, além de reestruturar a Escola Normal. Essa reorganização envolvia três principais medidas: (1) renovação do corpo docente; (2) reformulação dos cursos, priorizando disciplinas fundamentais e incorporando novas metodologias de ensino; e (3) construção e modernização de prédios escolares, incluindo a revitalização da antiga Escola Normal localizada na Rua Mariz e Barros, atualmente conhecida.

Fernando de Azevedo, em 1928, empreendeu uma Reforma da Educação, enquanto Diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro na qual implantou uma série de modificações no currículo da Escola Normal. O educador enfatiza o ensino primário, de base, com vistas a criar um espírito social acerca das dificuldades existentes no campo da educação, demanda da Escola Nova. Discute a formação dos professores primários, indicando que Azevedo (1928) reconheceu ser imprescindível a preparação do magistério para que a Reforma da Educação empreendida no Rio de Janeiro fosse exitosa. Foi nesses termos que Azevedo fez modificações na estrutura da Escola Normal, a qual passou a ter um curso de cinco anos de preparação profissional com três anos propedêuticos e dois anos de matérias especializadas para a formação do professor como Instituto de Educação (Accácio,1995).  

A partir dessas mudanças, acima mencionadas, é instituído o curso complementar de nível primário superior, com duração de dois anos e caráter vocacional, destinado preferencialmente aos estudantes que tenham finalizado o curso primário de cinco anos. Esse curso integra a estrutura da Escola Normal de sete anos. Azevedo, no mesmo ano,  busca fortalecer tanto a base cultural quanto a formação profissional dos futuros professores municipais, oferecendo-lhes uma preparação mais estruturada, valorizada e inserida em um ambiente propício ao seu pleno desenvolvimento (Accácio, 1995).

A esse respeito Diana Gonçalves Vidal,  diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (2019)16 destaca que Fernando de Azevedo sobressaiu-se no cenário público ao assumir posições de liderança na instrução pública dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, além de exercer uma atuação política significativa como representante do pensamento liberal. Conforme aponta Diana, seu acervo documental, mostrado na figura abaixo, é composto por registros relevantes que evidenciam seu compromisso com uma concepção de educação pública, laica e gratuita. Para Azevedo, a educação constituía um direito fundamental do cidadão e uma obrigação do Estado. Sua defesa por uma educação igualitária visava garantir acesso comum tanto à elite quanto às camadas populares, sustentando a ideia de que os indivíduos deveriam alcançar posições de liderança por meio da meritocracia, identificando e valorizando os talentos presentes na sociedade.

Figura 1

Recorte sobre a Reforma Educacional empreendida por Fernando de Azevedo no Rio de Janeiro, entre 1927 e 1930 – Foto: Marcos Santos / USP Imagens17

As transformações sociais ocorridas no século XX e a luta pelo acesso à educação para todos provocaram em Azevedo o desejo de fazer uma mudança que contribuísse, efetivamente, para transformar a realidade social vigente. Na década de 1920, conforme o autor, sua reforma foi o que preparou o “chão das escolas” para a modernidade pedagógica, diante de uma população escolar heterogênea e que necessitava ser disciplinada pela educação (Azevedo, 1931). 

Com o desejo de socializar a educação, Azevedo propõe o ensino de Arte para as camadas populares e defende que a educação nova correria o risco de romper com a harmonia fundamental da vida se, em sua missão social, não incorporasse as profundas inspirações da arte — tanto em sua dimensão educativa quanto em seu potencial criativo — como meio de promover o bem-estar do indivíduo e da coletividade (Azevedo, 1931). 

Como diretor, Azevedo reformou e construiu escolas, em péssimas condições de funcionamento: “270 escolas, sendo 180 residências, alugadas e mal adaptadas. Dos 90 prédios da Prefeitura, somente 20 foram construídos para escolas, os outros também eram adaptações precárias pouco apropriadas para educação” (Barbosa, 2013, p. 26).  

Barbosa (2013), em sua pesquisa intitulada “O ensino da arte e do design quando se chamava desenho: reforma Fernando de Azevedo”, aponta que a referida reforma educacional foi considerada a mais profunda já implementada no Brasil. Entre seus principais eixos estavam a reestruturação curricular e a inserção do Desenho como disciplina obrigatória. Apesar de sua relevância, a reforma enfrentou diversas críticas, especialmente em relação à exigência do exame de Desenho como requisito para o ingresso na Escola Normal (Barbosa, 2013). A partir desta revisão de literatura, emerge o interesse em pesquisar as obras de Nerêo Sampaio como precursor do ensino de Desenho na Escola Normal no Distrito Federal à época.  

Nerêo Sampaio Arquiteto, Engenheiro, Educador 

No auge das reformas, Nerêo Sampaio foi o arquiteto e engenheiro de muitos prédios coloniais de escolas construídas na administração de Azevedo. Em 1920, Sampaio recebeu o prêmio de viagem como arquiteto e engenheiro, conforme constatamos pela leitura da edição nº 00228, periódico de 1920 destacado na Figura 1  

Figura 2:  Jornal do Brasil

Ano 1920/Edição 00228 (1) Fonte: Hemeroteca Nacional 

Fernando de Azevedo, à frente da direção de Instrução Pública do Distrito Federal, também promoveu vários concursos para o cargo de professor catedrático da Escola Normal (Accácio, 2001). De acordo com Serrano (1945 apud Accácio, 1993)17 “observa-se, em períodos anteriores. a improvisação dos mestres, a falta e preparo, o excesso de docentes em algumas cadeiras da Escola Normal e a falta de professores especializados em outras, que a instituição dos concursos pretende vir a sanar”.  

Barbosa (2013) no texto: “O ensino da arte e do design quando se chamava desenho: Reforma Fernando de Azevedo,discorre sobre o importante papel do intelectual Nerêo Sampaio na Reforma Azevedo, como professor de Desenho do Instituto. Com a reforma, o Desenho foi incluído em todas as séries da Escola Normal, sendo também disciplina eliminatória do concurso, onde o professor Sampaio conquistou o 1º lugar, conforme figura 318

Figura 3: O concurso A Cadeira de Desenho na Escola Normal

Jornal do Brasil (RJ) – 1920 a 1929   Ano 1929/Edição 00236, p. 5 Quarta-feira, 02/10/1929 – Jornal do Brasil, p. 5. 

O concurso foi constituído por quatro fases durante a prova: defesa de These, prova escrita, prova de Desenho de modelo vivo e prova didática. Os candidatos tinham que elaborar uma tese, a de Sampaio (1929) teve como título “Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia”19. Para participar, havia outra exigência: tanto os candidatos quanto a banca examinadora necessitavam ter experiências com o ensino de Desenho e conhecimento da área específica, além de saberes no campo da educação. Todos eram arquitetos e circulavam pelos mesmos espaços políticos e sociais (Barbosa, 2011).  

A These de Nereo Sampaio: aspectos metodológicos como se ensina desenho 

Figura 4: Capa da These

Fonte: Arquivo pessoal

Nas buscas pelos sites de pesquisas, GHEMAT-Brasil, CMEB/ISERJ, Arquivo Nacional, dentre outros, as pesquisas que abordam os estudos Sampaio e suas sobras ainda são escassas. Para Barbosa (2001), apesar de seu método estar presente nas aulas de Arte, o nome de Nerêu Sampaio permanece pouco conhecido no Brasil. Em uma tentativa de sondar o grau de familiaridade dos arte-educadores brasileiros com sua obra, a autora realizou uma investigação informal durante o Encontro Nacional de Arte, ocorrido entre os dias 11 e 13 de dezembro de 1976. Movida pela curiosidade, ela consultou 23 dos professores mais atuantes na área, e descobriu que apenas um deles — um docente de desenho da Escola Normal do Distrito Federal — conhecia Sampaio. 

A tese é composta por três capítulos. O primeiro refere-se à introdução, onde o autor reflete e aponta a dificuldade de reunir o que já tinha sido experimentado tanto “na Psychologia, quanto no terreno da arte e no campo da Pedagogia. Mesmo assim, abordamos de forma sucinta a parte relativa ao desenho livre e espontâneo” (Sampaio, 1929, n.p).  

O segundo capítulo trata sobre a lógica do desenho infantil, onde afirma o valor especial do desenho na vida da criança. Determina as várias modalidades do desenho espontâneo e as escalas de sua evolução, de modo que já se tem um conhecimento, embora resumido, das expressões gráficas que o professor encontra nas escolas, desde o primeiro contato com o aluno. 

No terceiro e último capítulo, Sampaio (1929) aborda especificamente a metodologia, explicitando as condições fundamentais para orientação do ensino e do método do ensino de desenho. Como não existia nos cursos o objetivo de preparar professores de desenho, provavelmente não houve estudos de Pedagogia, nem o ensino das matérias, necessárias à formação intelectual de professores. “Destarte os que ensinavam desenho, eram presumidamente ecléticos20 por força das circunstancias” (p. 9).  

Afrânio Peixoto (1923), criticava a falta de formação específica para a profissão do magistério no período. Sua crítica (apud Accácio, 2013) evidencia uma profunda incoerência na política educacional brasileira da época: embora houvesse uma carência significativa de professores para a rede pública, as instituições criadas para formá-los — as escolas normais — eram dirigidas por profissionais alheios à área da educação. Em vez de nomear educadores experientes e pedagogicamente preparados, optava-se por bacharéis em direito, médicos, engenheiros, militares e intelectuais sem formação específica em pedagogia. Esses indivíduos, desprovidos de conhecimento teórico e prático sobre métodos de ensino, assumiam funções de formadores de professores, comprometendo a qualidade da formação docente. O autor ainda ressalta a ausência de instituições voltadas à formação dos próprios formadores, ou seja, daqueles que deveriam capacitar os futuros professores a ensinar com competência e consciência pedagógica.21

As fronteiras da profissão docente não eram abalizadas, segundo Nóvoa (1998) apud Ficher e Pinto (2021)22, a criação de instituições voltadas à formação docente constituiu um marco fundamental no processo de profissionalização do magistério. Para os professores, essas instituições representaram uma oportunidade concreta de valorização e ascensão profissional, ao passo que, para o Estado, funcionaram como mecanismos estratégicos de regulamentação e controle sobre a prática educativa e os saberes pedagógicos.

A Escola Normal do Rio de Janeiro foi dirigida por Afrânio Peixoto, de 1916 a 1917 que contribui na preparação do Decreto no. 1059, de 14 de fevereiro de 1916. O então Prefeito do Distrito Federal, Rivadávia da Cunha Corrêa, promulgou, regulamentou o curso e garantiu que os professores assumissem seus cargos, após exames, no entanto, tempos depois foram suspensos, por ordem vinda de cima, tendo como justificativa o grande número de contratações e efetivações de professores, através de atos do poder legislativo e executivo  (Accácio, 2013). 

Acerca do primeiro capítulo, Sampaio (1929) relata estudos realizados anteriormente, sobre arte infantil, principalmente os que priorizavam o desenho espontâneo como uma maneira de despertar o bom gosto da criança. Porém, a utilização dessa disciplina para desenvolver a observação visual só foi aceita depois de Dewey. Sampaio (1929, p. 13) diz: “John Dewey foi quem realmente compreendeu o valor educativo da linguagem gráfica das crianças”.   O autor esclarece sobre a importância do Desenho para Dewey, citando como o livro “A escola e a sociedade”, mais especificamente o capítulo “A escola e a vida da criança”, em que apresenta a visão de Dewey sobre a arte para o desenvolvimento da imaginação, percepção e inteligência da criança.  “Depois das palavras de Dewey o problema somente exigia as experiências necessárias à formação de sua metodologia” (Sampaio, p. 13).

Como se vê, a discussão ao longo da tese é permeada pelo conteúdo e pelo método de ensino do desenho livre e espontâneo. Retomando a introdução, o autor deixa evidente sua análise de estudos anteriores sobre a arte infantil, os quais priorizavam o desenho espontâneo como uma maneira de despertar o bom gosto da criança. Porém, alega não ter condições de remontar a um longo passado, segundo ele “ainda obscuro, por falta de documentação suficiente, para um julgamento definitivo” (Sampaio, n.p.).  

Segundo Sampaio (1929), não há grande utilidade em mencionar autores como Corrado Ricci, Lamprecht, Dorpfeld, J. Paasy, entre outros pioneiros intelectualmente relevantes, se suas experiências e observações carecem de documentação gráfica consistente. Além disso, a maioria de suas contribuições está situada no campo da psicologia e muitas delas antecedem o movimento renovador da nova pedagogia, o que limita sua aplicabilidade às práticas educacionais contemporâneas (apud Accácio, 2013). 

Contudo, diz o autor, Huhlmann foi dentre todos23 os intelectuais, o que se adiantou, compreendendo que o desenho devia aproveitar a capacidade espontânea das crianças. Desde o título, o autor evidencia seu comprometimento com a abordagem metodológica adotada. Ao iniciar a leitura da tese, percebe-se que os fundamentos teóricos de Sampaio estão ancorados nas concepções pedagógicas de John Dewey e Édouard Claparède, bem como nos aportes da Psicologia. O autor argumenta que o atraso metodológico no ensino do desenho, observado em diversos países, decorre principalmente — senão exclusivamente — da influência de ideias apriorísticas que resistem às tentativas de fundamentação psicológica do ensino.  

Desde o título, o autor evidencia seu comprometimento com a abordagem metodológica adotada. Ao iniciar a leitura da tese, percebe-se que os fundamentos teóricos de Sampaio estão ancorados nas concepções pedagógicas de John Dewey e Édouard Claparède, bem como nos aportes da Psicologia. O autor argumenta que o atraso metodológico no ensino do desenho, observado em diversos países, decorre principalmente — senão exclusivamente — da influência de ideias apriorísticas que resistem às tentativas de fundamentação psicológica do ensino.  

Com base na experiência acumulada, na observação prática e na reflexão sobre diversas leituras, Sampaio (1929) sustenta que o atraso metodológico no ensino do desenho, verificado em diferentes países, decorre principalmente da predominância de concepções apriorísticas. Tais ideias, segundo o autor, têm historicamente se oposto a qualquer tentativa de fundamentação pedagógica orientada pelos princípios da psicologia, impedindo avanços significativos na renovação do ensino dessa disciplina.

O intelectual relata que, nesse período, os professores de desenho eram os artistas, por falta de professores com formação acadêmica pedagógica para ensinar. E os artistas não acreditavam na capacidade que as crianças tinham de aprender. “Foi desde Comenius para culminar com Dewey, que reuniram tudo quanto de útil havia sido observado, para dar ao desenho a expressão educativa que parecia ter, especialmente na fase inicial da educação” (Sampaio, 1929, p. 11).  

As escolas americanas foram as primeiras a acolher as ideias de Dewey e, passaram a ofertar o desenho partindo da capacidade gráfica das crianças. Na época, ainda existiam lacunas na “Pedagogia do desenho”, principalmente o “aproveitamento do desenho espontâneo como meio de preparação da educação visual para permitir o ensino do desenho natural” A finalidade da tese passa a ser: “despertar na criança o gosto pelo desenho com o objetivo da proporção, isto é, da comparação das grandezas”, o que, segundo o autor, “jamais foi realizado” (Sampaio, p. 11-12).

Neste contexto que Sampaio desenvolveu sua tese envolvendo questões puramente pedagógicas do desenho e estudada sob o aspecto “metodológico” (Sampaio,1929, p.12). 

A proximidade e a influência de Dewey fizeram com que Sampaio apresentasse uma nova metodologia, mesmo sem receber orientações diretamente do autor. Ao interpretar as ideias deweyanas, a seu modo, Sampaio preconizava a produção de representações realistas de objetos observados, sem considerar o valor da imaginação. 

No segundo capítulo, tratando sobre a lógica do desenho infantil, Sampaio orienta os saberes para ensinar Desenho. Nesse movimento, Hofstetter et al. (2017), realizam estudos há dezoito anos e apontam para a “evolução da produção de saberes no campo pedagógico nos séculos XIX e XX”. Nesse sentido os autores esclarecem que ao abordar a formação docente, é fundamental reconhecer a centralidade dos saberes como elementos estruturantes desse processo. Entre eles, destacam-se os saberes para ensinar, que se configuram como instrumentos essenciais na constituição profissional do professor.  

Tais saberes vêm sendo investigados a partir de fontes não convencionais — uma literatura cinzenta preservada em acervos pessoais de docentes envolvidos na formação de outros professores, os quais, ao longo do tempo, se consolidaram como especialistas na área. Como afirmam Hofstetter e Schneuwly (2017), formar alguém, assim como qualquer prática humana, exige a apropriação de saberes específicos que possibilitem a realização dessa tarefa singular e complexa. 

Ao orientar os professores, Sampaio (1929) diz que a criança chega ao desenho como chega à palavra, porque vai percorrendo fases do desenvolvimento de sua vida psíquica, pela imitação e pelo hábito e acrescenta: “Dizer que a criança desenha por distração é tão perigoso como afirmar que ela fala para se divertir. Para a criança, o desenho tem um valor especial, ela pode às vezes falar e desenhar simultaneamente” (p. 23).  

Ao refletir sobre a importância do desenho, como demonstra da figura 5, o autor diz que a criança irá responder que não é um desenho, mas em seguida, pode dizer: “o rato saiu por aqui, deu essa volta, foi até lá e entrou no buraco” (p. 23-24). Complementa seu argumento afirmando que após essa fase a criança tem uma noção, mesmo que imprecisa, das formas das coisas, que é um desenho de uma criança de 3 a 4 anos (p. 25).  

Figura 5

Fonte: Sampaio, 1929, p. 25 

Na figura 6 as letras a e b encontram-se dois exemplos “excelentes e típicos dessa fase”. A criança que desenhou a figura a tem 4 anos e meio, a outra, autora da figura b, tem 4 anos incompletos. Sampaio, (1929, p. 26) acredita que a criança, ao traçar a “célula”, pretende com ela indicar em conjunto, a cabeça e o corpo. O autor discorda e afirma que a criança não se preocupa com a representação do corpo e, mostra como exemplo que na figura 6, a letra c indica um traço horizontal entre as duas pernas.  

Figura 6

Fonte: Sampaio, 1929, p. 27) 

Para validar sua metodologia,  Sampaio (1929) fez algumas pesquisas com crianças de escolas primárias no Rio de Janeiro, conseguindo convencer acerca da eficiência de seu método para desenvolver a qualidade da expressão.  

Após observações e experiências em Niterói e em Belo Horizonte, reitera que  a criança inicialmente olha os detalhes da cabeça (olhos, nariz, boca, por último, as orelhas) para apenas depois observar o corpo e representá-lo. Demonstra que somente os desenhos sinalizados pelas letras d, e, e f, fazem um ponto representando o umbigo. Além disso, o autor indica que todas as figuras são estáticas (p. 28). 

Porém, segundo o autor, chega o momento em que as crianças evoluem para os desenhos como elementos dinâmicos, assim percebe-se uma transição perfeitamente definida como está posta na figura 7, na página 30. No dizer de Sampaio, a criança querendo imprimir movimento às figuras, mas habituadas a representá-las de frente, conforme primeiro desenho, ela encontra a dificuldade e descobre que a posição dos pés e braços, voltados para o lado dá a ideia de que a figura se move, como é possível identificar nas imagens  g, h e i (p. 30). 

Figura 7

Fonte: Sampaio, 1929, p. 30) 

Nesse capítulo, o autor analisa 13 desenhos, durante a pesquisa de doutorado, faremos análises mais aprofundadas acerca deles, no entanto destacamos que todos os desenhos, estão delineados a partir de um sistema metodológico24 que relaciona a evolução mental da criança com os impulsos infantis de Dewey. Ele se respalda em Dewey cuja teoria se inscreve na chamada educação progressiva. Um de seus principais objetivos é educar a criança como um todo. O que importa é o crescimento – físico, emocional e intelectual (Ferrari, 2021). 

Para Dewey, torna-se imprescindível uma metodologia que promova a avaliação dos resultados. Fazer a relação entre os meios e as consequências dão continuidade e sentido às ações subsequentes, constituindo-se o conceito de Liberdade/individualidade, entendido não como ausência de controle (Ferrari, 2021)25

No final do segundo capítulo, o autor faz um quadro síntese (figura 8), das várias fases e manifestações do desenho espontâneo, permitindo um exame, em conjunto, de sua evolução. Pontua que o desenho das crianças é realista e que esse realismo é lógico para elas e finaliza o capítulo afirmando que “a linguagem gráfica evolui paralelamente ao desenvolvimento da inteligência, passando do realismo lógico ao realismo visual, isto é, a phase em que a observação visual e a imaginação, orientadas pela razão, procuram a representação das formas aparentes” (p. 56). 

Figura 8

Fonte: Sampaio, 1929, p. 57)

No terceiro capítulo da tese, intitulado “Methodologia”26, Sampaio apresenta três condições fundamentais que orientam, metodologicamente o ensino, a saber: o que se deve ensinar, a quem se vai ensinar e, finalmente, como ensinar. Entretanto, o autor alerta que a eficácia de um método, em qualquer disciplina, depende exclusivamente dos seguintes fatores: “condições do aluno para receber o ensino e do professor para transmiti-lo, elementos para fixação; quantidade e qualidade dos conhecimentos a transmitir; condições da escola e fins individuais e sociais” (Ibid, n.p).  

Segundo Claparède (1925), o papel tradicional do professor é ressignificado: ele deixa de ser apenas transmissor de conhecimento para assumir funções de incentivador e parceiro no processo de aprendizagem. O que se torna central não é a erudição ou o acúmulo de saberes do docente, mas sim sua capacidade de envolver e motivar os alunos. Em uma provocação conceitual, o autor — ao citar Henri de Roorda — chega a afirmar que o modelo ideal de educador poderia ser representado pelo “entusiasta ignorante”, alguém cuja paixão pelo ensino supera a necessidade de domínio absoluto do conteúdo (apud Hofstetter & Schneuwly, 2020). 

Sobre sua metodologia, Sampaio (1929) se refere ao método espontâneo como sendo preponderante para evolução da linguagem gráfica: “[…] qualquer método que contrarie ou abandone as manifestações espontâneas, ou ainda que as desvie do seu curso natural, além de perturbar a própria evolução das manifestações, levará a anulação definitiva da capacidade espontânea” (60). Investia em difundir sua metodologia e apostava na intensificação do ensino de desenho na formação dos professores primários, passando a ser este um lema para Nerêo Sampaio. O método, para ele, deve ter como ponto de partida o intuito de despertar o interesse pela observação visual.  

Em seu capítulo final, Sampaio (1929) orienta sobre o método e o modo de atuação dos docentes, esclarecendo que esta parte compreende o interesse pela disciplina, pela crítica, pela técnica, pelo preparo do professor e pelo material (p. 67). Afirma ainda que o objetivo da disciplina deveria ser despertar na criança o interesse pela observação, porém, é necessário pensar como fazê-lo.

Algumas Considerações 

Aqui retomamos a análise realizada a partir da these de  Fernando Nerêo Sampaio (1929) Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia. e o livro Fernando de Azevedo Novos caminhos e novos fins: a nova política de Educação no Brasil (1931), que trata sobre a reforma educacional ocorrida no período de 1927 1 1930.   

O resultado desse trabalho só foi possível após examinar fontes documentais, teses e artigos de autores como Hofstetter; Schneuwly (2017, 2020), Almeida (2010), Almeida (2015) Chervel (1990), Julia (2001), Le Goff (1990), dentre tantos representantes da história da educação matemática.  

Como demonstrado, no período estudado (1927-1930) foram realizadas muitas reformas na área educacional por Fernando de Azevedo, com ênfase nas reformas que foram implementadas no Distrito Federal. Imprescindível salientar que as principais reformas educacionais contaram com a participação de Nerêo Sampaio, dentre outros estudiosos. 

Foi possível ver em Sampaio  um intelectual da educação, além de Engenheiro e Arquiteto, comprometido com o ensino de Desenho e Artes. Segundo Chervel (1990), as disciplinas escolares, com as suas finalidades e objetivos, sofrem modificações ao longo do tempo para atender às demandas sociais e políticas de cada período. Encontraram-se nesse autor, contribuições importantes sobre a história das disciplinas escolares, quando afirma que as disciplinas escolares são entes que possuem relativa autonomia, dentro do contexto escolar. Elas são construtos da própria escola e não se constituem como meras reproduções.  

Conforme Peres, (2015, p. 149), “o Desenho, no contexto em estudo, era considerado como o conhecimento base, tanto para o campo artístico quanto para o desenvolvimento de projetos para a indústria”. No caso, a palavra Desenho era utilizada para indicar desenho artístico e design, não havendo separação.  

As contribuições de Fernando Nerêo de Sampaio para o ensino de desenho na formação de professores normalistas do Distrito Federal entre 1927 e 1961 foram profundas e transformadoras. Ele foi um dos principais articuladores da renovação pedagógica no campo das artes visuais, alinhando-se aos ideais da Escola Nova e propondo uma abordagem estética, crítica e metodológica inovadora. 

Sampaio defendia que o desenho não era apenas uma técnica, mas uma forma de expressão e investigação do mundo. Ele propôs que o ensino de desenho deveria partir da experiência espontânea da criança, seguida de reflexão e observação — antecipando práticas que só se consolidariam décadas depois.  

Entre 1932 e 1939, Sampaio foi responsável pela criação dos Cursos de Especialização em Desenho e Artes Industriais para professores primários no Instituto de Educação do Distrito Federal (RJ). Esses cursos tinham como objetivo formar docentes com domínio técnico, sensibilidade estética e capacidade crítica, rompendo com o modelo tradicional e mecânico de ensino artístico.  

Atuou diretamente nas administrações de Fernando de Azevedo (1927–1930) e Anísio Teixeira (1931–1935), períodos marcados por reformas que buscavam integrar o ensino artístico ao currículo escolar como ferramenta de formação integral. Sampaio via o desenho como parte da formação cultural e cidadã dos professores, não como um adorno curricular. 

Sua These de 1929, “Desenho espontâneo das crianças: considerações sobre sua metodologia”, foi um divisor de águas. Nela, ele propôs um método que unia expressão livre, observação e crítica — influenciado por John Dewey e pela pedagogia ativa. Ele também publicou programas de ensino e participou de exposições que consolidaram o desenho como disciplina formativa. 

Sampaio buscava construir um saber artístico próprio da escola, distinto do ensino acadêmico das Belas Artes e esta visão contribuiu para a consolidação do campo da arte-educação como área autônoma e relevante na formação docente. 

Embora tenha desempenhado um papel relevante, Nerêo Sampaio permaneceu por longo período à margem dos registros oficiais da história da educação brasileira. Tal invisibilidade pode ser atribuída, em parte, à sua adesão a uma estética artística que, posteriormente, foi considerada obsoleta. Contudo, sua abordagem humanista e metodológica continua a influenciar as práticas contemporâneas no campo da arte-educação, evidenciando a permanência de seus princípios na formação artística atual. 

O desempenho de Anísio Teixeira foi crucial ao transformar a Escola Normal em Instituto de Educação e elevar a formação de professores ao nível universitário.  Essa iniciativa proporcionou a Fernando Nerêo de Sampaio a oportunidade de concretizar seu objetivo principal: formar professores primários especializados em Desenho e Artes, contribuindo significativamente para a qualificação da educação artística no Brasil.  


10A escolha da grafia original não implica em desrespeito à reforma ortográfica, mas sim uma opção estética. Quanto ao documento, cada candidato deveria elaborar uma Tese original sobre o ensino de desenho, para participar do concurso, do qual Nerêo Sampaio ficou em  1ᵒ lugar.

11Este livro, intitulado, Desenho Espontâneo das Crianças (1929), foi escrito por F. Nerêo de Sampaio e foi adquirido em Mar Livros Sebo – | Estante Virtual. Tal obra digitalizada pertence à pesquisadora Marta Maria Gama da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – RJ.

12O CMEB localiza-se no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ) na Rua Mariz e Barros, nº 273, Tijuca, Rio de Janeiro. O Centro é dividido em 4 núcleos responsáveis pela preservação e guarda da memória do Instituto de Educação: Centro de Memória da Educação Brasileira (CMEB/ISERJ), Projeto Memória do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Promemo/ISERJ), Secretaria de Orientação Pedagógica (SOP) e Secretaria de Ensino, que é responsável pela manutenção e fiscalização do arquivo morto.

13Cf. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/116742

14Cf.https://seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/download/12230/9178/54368

15Diálogo com os estudos sobre saberes profissionais na formação docente e no ensino, desenvolvidos pela Equipe de pesquisa em História das Ciências da Educação (ERHISE), da Universidade de Genebra, na Suíça

16https://jornal.usp.br/cultura/fernando-de-azevedo-e-a-defesa-da-educacao-para-todos/ 17 Cf. Ibid

17A Escola Normal No Rio de Janeiro | PDF (scribd.com) disponível em 2013.

18Jornal do Brasil (RJ) – 1920 a 1929 – DocReader Web (bn.br)

19Obra adquirida no site: Desenho Espontâneo das Crianças – Mar Livros Sebo | Estante Virtual

20Ecletismo é um adjetivo pertencente ou relativo ao ecletismo, ao método filosófico dos indivíduos que não seguem sistema algum, fazendo escolhas que dependem daquilo que lhes parece mais próximo da verdade, tendo em conta todas as manifestações de pensamento. Disponível em: Eclético – Dicio, Dicionário Online de Português.

21Disponível em: A Escola Normal No Rio de Janeiro | PDF (scribd.com)

22Trabalho apresentado no XIX Seminário Temático Internacional, promovido pelo GHEMAT Brasil, em 2021.

23Sampaio se refere a Corrado Ricci, Lamprecht, Dorpfeld, […] M. Perez. Fritz Huhlmann, etc

24Influenciado pelas ideias de Dewey, Nereo sintetiza as fases do desenvolvimento a partir das ideias: 1. Naturalista (A Escola e Sociedade) (Individualidade e experiência) 2.Integrativa (Democracia e Educação) 3.Arte-educação (Arte como Experiência). Disponível em: John Dewey e o Ensino de Arte No Brasil – Cap. 5 | PDF | John Dewey | Pensamento (scribd.com)

25John Dewey, o pensador que pôs a prática em foco | Nova Escola

26definida por ele como sendo a arte de cultivar as aptidões, fixar os conhecimentos e formar o caráter. “Por isso ela é essencialmente psychophysiologoca” (Sampaio, ano p. 61).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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Almeida, Laura Isabel Vasconcelos de. Ensino de matemática nas séries iniciais no estado de Mato Grosso (1920-1980): uma análise das transformações da cultura escolar. Tese de Doutorado em Educação, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2015 Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/116742

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Azevedo, Fernando de. Novos caminhos e novos fins: a nova política de Educação no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1931. 

Barbosa, Ana Mae Tavares Bastos. John Dewey e o ensino da arte no Brasil. . São Paulo: Cortez, 2001. Acesso em: 23 abr. 2025. 

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Castro, Maria Cecília Ferraz Cardoso. O arquivo Fernando de Azevedo no IEB: cronologia e bibliografia. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. SP, USP: nº 37, 1994, p. 213-245. Disponível em: Vista do O Arquivo Fernando de Azevedo: cronologia e bibliografia (usp.br). 

Chervel, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria £t Educação, Porto Alegre, vol. 2, p. 177-229, 1990. 

Hofstetter, R.; Schneuwly, B.; Freymond, M.; Bos, F. Penetrar na verdade da escola para ter elementos completos de sua avaliação: a irresistível institucionalização do expert em educação (século XIX e XX). In: HOFSTETTER, R.; VALENTE, W. R. (org.). Saberes em (trans)formação: tema central da formação de professores. São Paulo: Livraria da Física, 2017. p. 55-112. 

Hofstetter, R.; Schneuwly, B. Saberes para ensinar e saberes a ensinar: duas figuras contrastantes da Educação Nova: Claparède e Vygotsky HISTEMAT, SBHMat, v. 6, n. 2, p. 226-258, 2020. 

Julia, Dominique. A cultura escolar como objeto. Revista Brasileira de História da Educação. Campinas, SP: SBHE/ Editora Autores Associados, 1º número, 2001.  Le Goff, Jacques. História e memória. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1990, pp. 547548). 

Peres, José Roberto Pereira. A linha mestra e o mestre das linhas: Nerêo Sampaio e a história da formação de professores de Desenho e Artes no Rio de Janeiro (1927-1939). Dissertação [Mestrado em Educação], Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://ppge.educacao.ufrj.br/dissertacoes2015/dzeroberto.pdf. Acesso em: jul de 2025. 

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DIGITAIS:  

A Escola Normal No Rio de Janeiro | PDF (scribd.com)  

Ano 1920/Edição 00228 (1) Fonte: Hemeroteca Nacional 

Arquivo: http://memoria.bn.br/  Ano 1920/Edição 00228 (1) (Hemeroteca Nacional). 

Desenho Espontâneo das Crianças – Mar Livros Sebo | Estante Virtual  

Fernando de Azevedo e a defesa da educação para todos – Jornal da USP.  

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

Jornal do Brasil (RJ) – 1920 a 1929 – DocReader Web (bn.br) 

Jornal do Brasil, p. 5, título: “O concurso à cadeira de Desenho na Escola Normal. O prof. F. de Nerêo Sampaio conquista o 1º lugar”.  Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_04&PagFis=79111 (Acesso: 05/04/2025)


1Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mestrado em Ensino UNIC/IFMT. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1252-8203  E-mail: mghistoriadora@gmail.com
2Pós Doutora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da UNOPAR. Doutora em Educação (PUC/PR) Docente do Programa de Pós-Graduação em Ensino da Universidade de Cuiabá (UNIC) lauraisabelvasc@hotmail.com
3Pedagoga com Especialização em Docência das Séries Iniciais com ênfase em Psicopedagogia no Centro Universitário do Vale do Araguaia – UNIVAR. Email: alexareis2025@gmail.com
4Pedagoga pela UNEMAT Universidade do Estado de Mato Grosso , com Especialização em Psicopedagogia pela FACIPAN Faculdade o Instituto Panamericano. E-mail: euripia070@gmail.com
5Graduado em Matemática pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Especialização em Atendimento Educacional Especializado (AEE). Professor no Centro Municipal de Educação Básica Helena Esteves, localizado em Barra do Garças-MT.  E-mail: farescoelho@gmail.com
6Pedagoga com Especialização em Neuropsicopedagogia pelo Centro Universitário UniCathedral-Barra do Garças-MT. E-mail: profmariahelenacg@gmail.com
7Pedagoga pelo Centro Universitário UniCathedral, com Especialização em Psicopedagogia pela Faculdade Conexão. E-mail: nariellycrystinna19@gmail.com
8Graduada em Matemática pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), turma de 2010, e mestranda no Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat)  – UFMT/CUA. Professora no Centro Municipal de Educação Básica Dona Delice Farias dos Santos, localizado em Barra do Garças-MT. Contato: pisiscosta@gmail.com
9Mestre em Imunologia e Parasitologia Básica e aplicada UFMT. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Goiás UEG. Professor no Instituto Madre Marta Cerutti e E.E.Senador  Filinto Muller, localizada em Barra do Garças-MT. E-mail: renniocesar@hotmail.com