FIRE ANALYSIS IN RESIDENTIAL BUILDING: CASE STUDY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509051345
Larissa Lázara Mesquita Cavalcante Seixas¹; Diego Rocha de Souza²; Erika Cristina Nogueira Marques Pinheiro³; Barbara dos Santos Barboza⁴; Giovanna Pereira Martins⁵; Greicy Vânia Silva Feitosa⁶; Mayenne Souza Moldes⁷; Natália Soares da Silva⁸; Paloma Miranda Santos⁹; Thiago da Silva Sousa¹⁰
RESUMO
O objetivo deste estudo é apresentar uma análise técnica detalhada dos danos e das causas-raiz de um incêndio ocorrido em um edifício residencial na cidade de Manaus/AM. A metodologia empregada incluiu anamnese aprofundada e vistoria in loco para a constatação de evidências visuais e sensoriais. Os resultados indicaram que o incêndio, com foco inicial na cozinha, possivelmente originou-se de falhas em instalações elétricas, tais como ligações incorretas em tomadas e a não atuação de dispositivos de proteção (disjuntores). A propagação do fogo foi agravada por deficiências no sistema de combate a incêndio do condomínio, que incluíam extintores de água com mau funcionamento (com liberação de resíduo escuro) e hidrantes operando com pressão inadequada. Constatou-se, ainda, a ausência de projetos elétricos originais da construtora e diversas não conformidades no Quadro de Distribuição (QDC) e nas instalações das tomadas, em desacordo com a NBR 5410. A presença de fissuras em elementos de concreto armado adjacentes ao epicentro do incêndio demanda ensaios específicos para uma avaliação estrutural completa. Conclui-se que o incidente revelou a existência de vícios construtivos e falhas críticas na manutenção e adequação dos sistemas elétricos e de segurança contra incêndio, evidenciando a premente necessidade de revisão integral e correção dessas anomalias para garantir a segurança dos moradores e a integridade da edificação.
Palavras-chave: Engenharia Civil, Incêndio, Instalações Elétricas, Patologia da Construção, Segurança Contra Incêndio.
ABSTRACT
This study aims to present a detailed technical analysis of the damages and root causes of a fire that occurred in a residential building in Manaus/AM, Brazil. The methodology employed included an in depth anamnesis and an in loco inspection to ascertain visual and sensory evidence. The investigation’s results indicated that the fire, initially focused in the kitchen area, possibly originated from failures in electrical installations, such as incorrectly wired outlets and circuit breakers that failed to trip. The fire’s propagation was exacerbated by deficiencies in the condominium’s fire suppression system, including malfunctioning water extinguishers (releasing dark residue) and hydrants operating with inadequate pressure. Furthermore, the absence of original electrical designs from the construction company and several non-conformities in the Main Distribution Panel (QDC) and outlet installations were observed, in disagreement with NBR 5410. The presence of cracks in reinforced concrete elements adjacent to the fire’s epicenter necessitates specific testing for a conclusive structural assessment. It is concluded that the incident revealed the existence of construction defects and critical failures in the maintenance and adequacy of electrical and fire safety systems, highlighting the urgent need for a comprehensive review and correction of these anomalies to ensure residents’ safety and the building’s integrity.
Keywords: Civil Engineering, Construction Pathology, Electrical Installations, Fire, Fire Safety.
1. INTRODUÇÃO
A realização deste estudo se justifica pela crescente recorrência de sinistros por incêndio em edificações residenciais no Brasil, frequentemente atribuídos a falhas intrínsecas ao ciclo de vida da construção, abrangendo desde vícios de projeto e execução até deficiências crônicas na manutenção de sistemas elétricos e de segurança. Além do impacto direto e irrecuperável sobre a vida humana e a integridade física dos ocupantes, tais eventos resultam em vultosos prejuízos patrimoniais e expõem fragilidades sistêmicas nos mecanismos de prevenção, com bate e fiscalização vigentes. Nesse contexto, a análise técnica aprofundada de um caso real, como o apresentado neste artigo, adquire relevância científica ao contribuir não apenas para a identificação pormenorizada de patologias construtivas e anomalias de manutenção, mas também para a proposição de medidas corretivas e preventivas embasadas, capazes de subsidiar engenheiros, construtoras, síndicos e órgãos fiscalizadores na mitigação de riscos futuros. A segurança em edificações, especialmente as de uso residencial, constitui um pilar fun damental da Engenharia Civil. Este campo de atuação abrange um espectro complexo de as pectos técnicos, que se estendem desde a concepção e o desenvolvimento de projetos, perpas sando a fase de execução, até a etapa de manutenção e operação dos sistemas construtivos. Eventos catastróficos como incêndios representam um risco significativo à vida humana e à preservação do patrimônio, demandando uma compreensão aprofundada de suas etiologias e da eficácia dos sistemas de proteção passiva e ativa. O aprofundamento do conhecimento sobre esses eventos é essencial para o avanço da área.
O presente estudo de caso concentra-se no incêndio ocorrido em um imóvel residencial na cidade de Manaus/AM. A elucidação detalhada dessa ocorrência revela-se crucial, pois não apenas expôs vulnerabilidades preexistentes na integridade das instalações do edifício e na adequação dos protocolos de segurança, mas também impulsionou a presente investigação. Esta pesquisa visa, portanto, analisar criticamente as causas-raiz do incidente, identificar as patolo gias construtivas e as falhas de manutenção que contribuíram para sua deflagração e propaga ção, e avaliar as consequências sobre a estrutura e os sistemas de segurança da edificação. O conhecimento gerado por estas análises tem como objetivo subsidiar aprimoramentos nas prá ticas de projeto, execução e gestão predial, fortalecendo a segurança habitacional e a conformidade com as normativas vigentes no setor da construção civil brasileira. Diante desse cenário, este artigo visa apresentar uma análise técnica detalhada dos danos resultantes do incêndio e investigar as possíveis causas tanto de sua ignição quanto de sua propagação. Pretende-se contextualizar as evidências encontradas durante a vistoria, identificar anomalias construtivas e falhas em sistemas de segurança, e propor recomendações para a mitigação de riscos futuros. A relevância deste trabalho reside na contribuição para a compreensão de patologias em edificações decorrentes de incêndios e na identificação de pontos críticos em sistemas de segurança, subsidiando a adoção de medidas corretivas e preventivas.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA / REVISÃO DA LITERATURA
construção civil moderna, especialmente em grandes centros urbanos, tem adotado cada vez mais o sistema de paredes de concreto moldado in loco devido à sua eficiência e robustez. No contexto de um incêndio, o comportamento do concreto é de grande interesse. Conforme Jacobs (2007) e os estudos de Wendler (2018) publicados na revista CONCRETO&Construções do IBRACON, o concreto é um material estável e não combustível, que proporciona alta segurança em situações de incêndio.
O sistema de paredes de concreto moldado in loco demonstra elevada eficiência no desempenho sob incêndio. Sendo um material intrinsecamente estável e não combustível, o concreto confere alta segurança em conformidade com os aspectos considerados nas diferentes normas brasileiras sobre o assunto. Adicionalmente, o uso de fibras têxteis tem um efeito colateral positivo na prevenção de spalling (lascamento) a altas temperaturas, uma vez que sua queima forma canais de escape para a água adsorvida no concreto. Ensaios classificam as paredes de concreto, de 10 ou 14 cm de espessura, com Tempo Requerido de Resistência ao Fogo (TRRF) de 120 minutos, tornando-as adequadas para edifícios residenciais com mais de 30 metros de altura.
Apesar da resiliência do concreto, o aumento prolongado da temperatura pode causar danos consideráveis à sua resistência e à armadura. A avaliação pós-incêndio de estruturas de concreto é fundamental para determinar a necessidade de intervenções.
No tocante às instalações elétricas, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR 5410, que trata de Instalações Elétricas de Baixa Tensão, é a principal referência no Brasil. Esta norma estabelece as condições a que devem satisfazer as instalações elétricas para garantir a segurança de pessoas e animais, o funcionamento adequado da instalação e a conservação dos bens. Falhas em aspectos como dimensionamento de condutores, proteção contra surtos (DPS), e o correto agrupamento de circuitos podem ser vetores para sobreaquecimento e, consequentemente, incêndios.
Os sistemas de combate a incêndio, por sua vez, são regidos por normas e instruções técnicas específicas, como a IT 22/2011 do Corpo de Bombeiros, que detalham os requisitos para hidrantes e extintores. A eficácia desses sistemas depende não apenas da correta instalação, mas também da manutenção periódica e do treinamento adequado dos ocupantes, como a brigada de incêndio. A ausência de um sistema de bypass para bombas de hidrante, conforme a IT 22/2011, ou a falta de treinamento da brigada, são exemplos de inconformidades que podem comprometer severamente a capacidade de resposta a um incêndio.
A ocorrência de um incêndio, portanto, frequentemente expõe a interconexão e a dependência entre a qualidade da execução estrutural, a conformidade das instalações elétricas e a funcionalidade dos sistemas de segurança, elementos que se tornam objeto de investigação em laudos técnicos e análises periciais.
3. METODOLOGIA
A análise empregada para a elaboração deste artigo baseou-se preponderantemente nas informações contidas no “Laudo Técnico de Engenharia: Incêndio em unidade habitacional de edifício de multifamiliar” (EDRA ENGENHARIA, 2024), o qual detalha os procedimentos de vistoria e avaliação dos danos.
A metodologia empregada incluiu as seguintes etapas:
1. Anamnese: Realizou-se uma coleta sistemática de informações junto ao proprietário do imóvel e a moradores vizinhos, fundamental para a reconstrução cronológica do evento, desde sua deflagração até o acionamento dos serviços de emergência e as tentativas iniciais de mitigação.
2. Vistoria in loco: A inspeção visual e sensorial do apartamento e das áreas comuns afetadas foi conduzida em 2024. A natureza dessa vistoria foi primariamente descritiva e documental, visando à constatação e registro minucioso dos elementos e danos observáveis, por meio de exame circunstanciado e documentação fotográfica.
– Limitação Metodológica: Importa salientar que, nesta etapa inicial, não foram realizados ensaios expeditos ou destrutivos. A análise concentrou-se na observação superficial e no registro dos danos visíveis. Consequentemente, a avaliação da profundidade do comprometimento estrutural e das propriedades intrínsecas dos materiais afetados restringe-se às manifestações aparentes, exigindo investigações complementares para um diagnóstico definitivo.
Figura 02: Fissuras visualizadas pelo interno do apartamento – cozinha.

Fonte: Autores, 2024.
Figura 03: Fissuras visualizadas pelo corredor do pavimento.

Fonte: Autores, 2024.
Figura 04: Processo físico-químico do concreto em situação de incêndio.

Fonte: Adaptado Jacobs, 2007.
3. Análise de Dados: As informações coletadas durante a anamnese e a vistoria foram submetidas a uma análise crítica, com o objetivo de estabelecer correlações entre os danos evidenciados e as possíveis causas da ocorrência e propagação do incêndio. Foram avaliados os seguintes aspectos:
– Extensão e tipo dos danos materiais em diferentes ambientes do apartamento. o Comportamento estado das instalações elétricas e hidrossanitárias.
– Integridade aparente das paredes de concreto armado.
– Funcionalidade e conformidade dos sistemas de combate a incêndio (extintores e hidrantes).
– Disponibilidade de documentação técnica do condomínio (projetos elétricos, estruturais, etc.).
– Conformidade com as normas técnicas vigentes (ABNT NBR 5410, Instrução Técnica IT 22/2011 do Corpo de Bombeiros).
Este processo analítico teve como finalidade primordial a identificação de anomalias, vícios construtivos e falhas na manutenção que podem ter exacerbado a ocorrência e a
severidade do incidente, servindo de embasamento para as conclusões e as eventuais recomendações apresentadas neste artigo.
Figura 05: Evidência para fuligem e líquido preto nos corredores do prédio.

Fonte: Autores, 2024.
Imagem 06: Teste realizado nos extintores do prédio, destaque para líquido preto saindo do extintor de água.

Fonte: Autores, 2024.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise do evento revelou uma série de fatores interligados que contribuíram significativamente para a ocorrência e a propagação do incêndio no imóvel em questão. Os resultados obtidos por meio da metodologia aplicada são apresentados e discutidos a seguir, categorizados para uma melhor compreensão e, quando pertinente, comparados com a literatura técnica e normativa existente, visando aprofundar o embasamento acadêmico e as implicações das descobertas.
Para uma visão concisa dos principais achados em comparação com referências e normas, a seguinte estrutura de quadro sintetiza os pontos críticos:





A análise do incêndio ocorrido em Manaus revelou um complexo conjunto de falhas interligadas que contribuíram decisivamente para a sua deflagração e propagação. Identificou se a cozinha como o foco inicial, com forte indicação de origem elétrica devido a falhas em tomadas e a disjuntores que não desarmaram, evidenciando graves não conformidades com a ABNT NBR 5410 e a ausência de projetos elétricos, o que aponta para vícios de projeto e execução. Paralelamente, os sistemas de combate a incêndio do condomínio falharam criticamente, com extintores ineficazes (liberando líquido anômalo) e hidrantes sem pressão adequada, indicando negligência na manutenção e desrespeito às normas da ABNT NBR 12962 e 13716. Em relação à estrutura, observaram-se fissuras em paredes de concreto armado e o desplacamento de revestimentos – fenômenos esperados em situação de incêndio –, embora a duração estimada do fogo sugira que a estrutura primária possa não ter sido totalmente comprometida. Contudo, a impossibilidade de determinar se as fissuras eram preexistentes sublinha a importância de históricos de manutenção. Por segurança, a recomendação de ensaios específicos é crucial para uma avaliação conclusiva da capacidade residual da estrutura.
Em síntese, o incidente demonstra um cenário de vulnerabilidades múltiplas, onde deficiências elétricas, falhas nos sistemas de segurança e patologias estruturais se somaram. A intersecção desses achados revela, portanto, um cenário de múltiplas vulnerabilidades, desde o projeto e a execução das instalações elétricas até a negligência na manutenção dos sistemas de segurança. Cada falha, por si só, representa um risco, mas a combinação delas potencializou a ocorrência e a gravidade do incêndio, ressaltando a importância de uma abordagem integrada e rigorosa na conformidade normativa e na manutenção predial para garantir a segurança das edificações e seus ocupantes.
4.1. DANOS MATERIAIS E FOCO DO INCÊNDIO
A vistoria identificou que as áreas mais gravemente afetadas pelo incêndio foram a cozinha e a sala de estar/jantar, com a cozinha sendo o epicentro do sinistro. A disposição das manchas de fumaça e dos resíduos indicou que o foco inicial pode ter se originado próximo à geladeira, corroborando o relato do proprietário que ouviu um estalo de curto-circuito vindo da tomada onde o eletrodoméstico estava conectado. A vistoria técnica in loco revelou que as áreas mais gravemente afetadas pelo incêndio foram a cozinha e a sala de estar/jantar, sendo a cozinha o epicentro do evento. A análise da disposição das manchas de fumaça e dos resíduos encontrados no local indicou que o foco inicial pode ter se originado na região onde estava localizada a geladeira. Esta constatação corrobora o relato do proprietário, que testemunhou um estalo característico de curto-circuito proveniente da tomada à qual o eletrodoméstico estava conectado, sugerindo uma falha elétrica como o provável gatilho para a deflagração do incêndio.
Os danos na cozinha foram extensos, com todos os eletrodomésticos, a bancada e os revestimentos (paredes, forro, piso) completamente destruídos e necessitando de substituição integral. Na sala, móveis e eletrodomésticos também foram severamente atingidos. Nos quartos, os danos concentraram-se nos móveis e na impregnação de fumaça e fuligem. O banheiro, apesar da fuligem, não apresentou danos estruturais significativos, e a varanda teve a rede de proteção parcialmente queimada e manchas de fuligem na fachada.
4.2. INTEGRIDADE ESTRUTURAL
O apartamento foi construído com paredes de concreto armado, o que teoricamente confere maior resistência ao fogo. A avaliação in loco indicou que a coloração do concreto permaneceu inalterada, sugerindo que o material não sofreu degradações significativas de superfície. Contudo, a ausência de projetos executivos da edificação (estruturais e elétricos) limitou a profundidade da análise estrutural.
Foram observadas fissuras próximas à área de origem do incêndio (atrás da geladeira), tanto no lado interno do apartamento quanto no corredor do pavimento, atravessando o elemento construtivo. A natureza dessas fissuras (ativas ou passivas) não pôde ser determinada sem ensaios complementares.
Observou-se, nas imediações da área adjacente à geladeira, um significativo desplacamento de revestimentos cerâmicos e de argamassa. Embora fenômenos similares de desplacamento tenham sido identificados em outros compartimentos, sua incidência e severidade foram notavelmente mais pronunciadas na área próxima ao foco do incêndio. Adicionalmente, um aspecto crítico a ser considerado refere-se à presença de fissuras localizadas nas proximidades da área de origem presumida do incêndio (na porção posterior à geladeira). Embora não tenha sido possível confirmar se as fissuras já estavam presentes antes do incêndio, notou-se que as mesmas se estendem transversalmente pelo elemento construtivo.
Considerando a duração estimada da exposição ao fogo, inferior a 60 minutos, e a resiliência inerente do concreto armado, é plausível que a integridade estrutural primária não tenha sido comprometida em sua totalidade. No entanto, por preceito de segurança e para uma avaliação conclusiva, o laudo recomenda a execução de ensaios específicos no concreto e, primordialmente, na armadura das paredes e lajes das áreas mais atingidas, visando verificar possíveis perdas de resistência ou de capacidade portanto.
4.3. INSTALAÇÕES DE COMBATE A INCÊNDIO
A vistoria e a anamnese revelaram falhas críticas nos sistemas de combate a incêndio do condomínio, que podem ter contribuído significativamente para a propagação do fogo.
1. Extintores: Embora os extintores estivessem lacrados e com manutenção em dia, os extintores de água apresentaram mau funcionamento, como apresentado na figura 07. Os extintores de água apresentavam problemas, liberando, além da água, um líquido preto de origem desconhecida, quando o esperado seria apenas a saída de água. Essa anomalia foi identificada nos corredores do prédio, onde o líquido ficou visível no chão, figura 06. Testes realizados nos extintores do prédio confirmaram que a maioria apresentava o mesmo problema.
2. Hidrantes: A rede de hidrantes do condomínio demonstrou ineficácia. O hidrante do quarto pavimento, onde o incêndio ocorreu, não liberou água. Apenas os hidrantes do primeiro e segundo andares funcionaram. Esta falha pode ser atribuída a um problema estrutural já identificado em laudos de inspeção anterior.
A configuração das tubulações que chegam à bomba de hidrante e saem dela também se apresentam em desconformidade com a norma. Segundo o item B.2.2 da IT 22/2011, sempre que houver uma bomba de pressurização, ela deve ser instalada em sistema bypass, ou seja, quando um tubo do reservatório alimenta diretamente a prumada de hidrantes, “atravessando” a bomba […] Ainda assim, a tubulação oriunda do reservatório somente se conecta à bomba, e dela apenas sai um tubo para os hidrantes, ou seja, não foi feito o bypass.
3. Treinamento da Brigada de Incêndio: As imagens das câmeras de segurança mostraram a dificuldade dos moradores em operar os equipamentos de combate a incêndio. Embora o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) tenha sido aprovado, um laudo de 2020 já apontava a pendência do treinamento da brigada de incêndio, que é um item obrigatório para a emissão do AVCB. Isso indica uma falha na análise do projeto e na vistoria do sistema implementado por parte das autoridades competentes.
4.4. INSTALAÇÕES ELÉTRICAS
A análise das instalações elétricas revelou inúmeras não conformidades, que podem ter sido a causa raiz do incêndio e que representam um risco contínuo para a segurança do condomínio.
A construtora não forneceu os projetos elétricos, dificultando a verificação técnica.
1. Quadro de Distribuição (QDC):
– Ausência de diagrama unifilar e sinalização obrigatória, conforme exigido pela NBR 5410.
– Condutor neutro com seção inadequada após o dispositivo diferencial residual (IDR), contrariando a NBR 5410, que exige a manutenção da seção mínima de 25 mm².
– Ausência de Dispositivo de Proteção contra Surtos (DPS), considerado um vício construtivo, uma vez que nenhum apartamento no condomínio possui tal item. o Impossibilidade de verificação do fator de agrupamento dos condutores devido à falta de projeto, o que pode causar sobreaquecimento.
– Isolamento inadequado dos cabos nos barramentos de terra e neutro, com exposição de cobre, aumentando o risco de curto-circuito.
– Problemas no barramento de terra, com número insuficiente de condutores de proteção para os circuitos existentes.
– Barramentos tipo pente sem proteção, expondo os condutores a contatos acidentais.
Figura 07: Evidência da redução de seção do condutor neutro.

Fonte: Autores, 2024.
Figura 08: Tabela 48 da norma da ABNT NBR 5410, destaque para a obrigatoriedade de manter a seção do condutor neutro sem redução, até 25mm².

Fonte: ABNT, NBR 5410.
2. Tomadas: Foi identificado um erro crítico na instalação das tomadas, com a prática de “jumper” direto entre os bornes de uma tomada para outra, o que pode sobrecarregar o primeiro borne e causar superaquecimento.
Imagem 09: Tomada da unidade habitacional, destaque para os bornes com instalações incorretas.

Fonte: Autores, 2024.
Imagem 10: Forma correta de instalação da tomada, conforme norma da ABNT NBR 5410.

Fonte: Autores, 2024.
O correto, de acordo com a NBR 5410, é que o “jumper” seja realizado utilizando um cabo adequado para distribuir a carga de forma segura e evitar sobrecargas locais. Essas inconformidades elétricas, somadas ao relato do proprietário sobre o início do fogo em uma tomada da geladeira, indicam que a má instalação elétrica é uma provável causa do incêndio. A falha do disjuntor em desarmar, conforme anamnese, reforça a hipótese de dispositivos de proteção ineficazes.
4.5. POSSÍVEIS CAUSAS E PROPAGAÇÃO
Com base nas análises, as possíveis causas do incêndio incluem:
- Erro nas instalações das tomadas, gerando sobrecarga e superaquecimento.
- Falha nos dispositivos de proteção (disjuntores) que não desarmaram.
- Superaquecimento por agrupamento inadequado de condutores.
- Uso de adaptadores ou extensões inadequadas.
A propagação do incêndio, por sua vez, foi acentuada por:
- Falha nos extintores de água, que expeliam líquido preto.
- Possível uso indevido de extintores de água em elementos elétricos, que pode ter intensificado o fogo.
- Pressão inadequada na rede de hidrantes, que impediu o controle eficaz das chamas.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O incêndio no apartamento em Manaus/AM serviu como um catalisador para a manifestação de uma série de anomalias e patologias construtivas que comprometem a segurança e o desempenho da edificação. A investigação técnica revelou que a origem do fogo provavelmente reside em discrepâncias graves nas instalações elétricas, agravadas por deficiências críticas nos sistemas ativos e passivos de segurança contra incêndio do próprio condomínio. As não conformidades elétricas, em especial a instalação incorreta das tomadas, a inadequação da seção do condutor neutro, a ausência de Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) e os problemas no Quadro de Distribuição, constituem vícios de origem que precisam ser urgentemente corrigidos. Adicionalmente, a inoperância dos equipamentos de combate a incêndio e a falta de pressão nos hidrantes demonstram uma falha generalizada na manutenção e no cumprimento das normas de segurança contra incêndio. A persistência de falhas já apontadas em laudos anteriores, como a ausência de treinamento da brigada de incêndio e disfunções no sistema de recalque e pressurização dos hidrantes, sublinha a negligência na correção de pontos críticos de segurança. Embora a estrutura em concreto armado tenha demonstrado capacidade residual de resistência, a presença de fissuras e a ausência de documentação executiva completa demandam uma avaliação diagnóstica aprofundada, incluindo ensaios específicos, para garantir a integridade estrutural a longo prazo.
Em síntese, o incidente em questão não se configurou como um evento isolado, mas sim como um sintoma inequívoco de deficiências multifacetadas inerentes às etapas cruciais de planejamento, projeto, execução e manutenção da edificação. Esse cenário, de fato, evidenciou um conjunto sistêmico de falhas, que transcende meras ocorrências pontuais e aponta para lacunas críticas na cadeia de processos e responsabilidades que regem a integridade e a segurança das estruturas civis. Diante desse panorama, torna-se imperativo que se implementem ações corretivas e preventivas abrangentes, direcionadas a todas as partes interessadas.
Para os gestores e administradores condominiais, a prioridade deve ser a instituição de um plano de manutenção predial rigoroso e sistemático, com alocação orçamentária adequada para a atualização e conformidade das instalações elétricas e dos sistemas de segurança contra incêndio, incluindo auditorias periódicas e treinamento contínuo das equipes de brigada. Aos engenheiros e profissionais técnicos envolvidos, reitera-se a necessidade de uma fiscalização exaustiva em todas as fases da construção, desde a concepção do projeto – com ênfase na compatibilização de todas as disciplinas e na especificação de materiais e sistemas em conformidade com as NBR’s aplicáveis – até a execução e o comissionamento. A realização de inspeções detalhadas e ensaios não destrutivos (ENDs) é fundamental para diagnosticar patologias ocultas e subsidiar a elaboração de projetos de recuperação estrutural e de instalações com a precisão exigida. Por fim, para os moradores, a conscientização e a colaboração ativa são essenciais. Isso envolve o reporte imediato de quaisquer anomalias observadas nas instalações ou equipamentos de segurança, a não interferência em sistemas críticos da edificação e a participação em simulados de emergência, contribuindo assim para a cultura de segurança coletiva no ambiente habitacional.
5. REFERÊNCIAS
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 5410: Instalações elétricas de baixa tensão. Rio de Janeiro, 2004.
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CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DO AMAZONAS (CBMAM). Instrução Técnica 03/2019: Terminologia de Segurança Contra Incêndio. Manaus, 2019. CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DO AMAZONAS (CBMAM). Instrução Técnica 19/2019: Sistema de Detecção e Alarme de Incêndio. Manaus, 2019. CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DO ESTADO DO AMAZONAS (CBMAM). Instrução Técnica 22/2011: Sistemas de Hidrantes e de Mangotinhos para Edificações. Manaus, 2011.
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1Engenheira Civil, Especialista em Desempenho, Patologia e Perícias na Construção Civil.
2Engenheiro Civil, Especialista em BIM – Ferramentas e Processos.
3Mestre em Engenharia Industrial, Engenharia Civil e Engenharia de Segurança do Trabalho, Professora Universitária.
4Estudante de Engenharia Civil, UEA.
5Estudante de Engenharia Civil, UEA.
6Engenheira Civil, Especialista em Engenharia de Avaliações e Perícias.
7Estudante de Engenharia Civil, UEA.
8Estudante de Engenharia Civil, UEA.
9Estudante de Engenharia Civil, UEA.
10Estudante de Engenharia Civil, UEA.
