ACCOUNTING ROUTINES AND QUALITY OF LIFE OF PROFESSIONALS WORKING IN THE ACCOUNTING FIELD: ADAPTATIONS AND CHALLENGES POST-COVID-19
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510190935
Amanda Cristina Santos Silva1
Profa. Me. Rosangela Venâncio2
Resumo
A pandemia de COVID-19 acelerou transformações significativas nas rotinas contábeis, impulsionando a adoção de tecnologias digitais e novos modelos de trabalho, como o híbrido e o remoto. Este estudo teve como objetivo analisar os impactos dessas adaptações na qualidade de vida dos profissionais contábeis do estado do Ceará, considerando dimensões como produtividade, saúde mental, equilíbrio vida-trabalho e satisfação profissional. Por meio de uma abordagem quantitativa, aplicou-se um questionário estruturado a 12 profissionais da área, com dados analisados via estatística descritiva. Os resultados revelaram um paradoxo: se por um lado houve ganhos de produtividade (75% dos respondentes) e maior autonomia (75%) devido à digitalização e flexibilidade, por outro, observou-se aumento significativo da carga de trabalho (75%), elevação do estresse (100%), sensação de desvalorização profissional (58,3% apenas parcialmente valorizados) e dificuldades de delimitação entre vida pessoal e laboral. Os resultados indicam que, apesar de a digitalização e os novos modelos de trabalho terem atualizado significativamente a prática contábil, torna-se indispensável que empresas e entidades de classe estabeleçam estratégias que integrem eficiência tecnológica com cuidados voltados ao bem-estar. Sem esse equilíbrio, corre-se o risco de comprometer tanto a saúde dos trabalhadores quanto a continuidade sustentável da profissão.
Palavras-chave: Qualidade de Vida no Trabalho; Contabilidade; Pós-Pandemia; Home Office; Transformação Digital; Saúde Mental.
1 INTRODUÇÃO
Declarada em março de 2020 pela OMS, a pandemia de Covid-19 representou, além de uma emergência de saúde pública, um marco de mudança estrutural no universo do trabalho. Atividades tradicionalmente presenciais precisaram ser reorganizadas de forma repentina, e na contabilidade isso implicou ajustes tecnológicos rápidos e novos desafios relacionados à manutenção das rotinas legais e ao bem-estar dos profissionais. Setores tradicionalmente ancorados em práticas presenciais e processos físicos, como o contábil, foram compelidos a uma reestruturação urgente de suas operações. O distanciamento social, as restrições de circulação e a necessidade de continuidade dos serviços essenciais aceleraram exponencialmente a adoção de tecnologias digitais e a migração forçada para modelos de trabalho remoto e híbrido. No âmbito da contabilidade, profissão cujo cerne reside na precisão, na confiabilidade e no estrito cumprimento de prazos legais, essas mudanças representaram um desafio duplo: a rápida adaptação tecnológica dos processos e a manutenção da saúde financeira e fiscal das empresas em um cenário de extrema volatilidade normativa, além dos impactos na saúde integral dos profissionais.
De um lado, a utilização de recursos como computação em nuvem, softwares de gestão integrada e plataformas de videoconferência possibilitou a continuidade das atividades contábeis durante o período de crise. Por outro, essa mesma digitalização expôs os profissionais a novas formas de sobrecarga, exigindo maior resiliência tecnológica e enfraquecendo os limites entre vida pessoal e trabalho. Esse modelo de atuação, embora indispensável para a manutenção das empresas, trouxe à tona reflexões relevantes sobre seus efeitos na saúde global do contador. Nesse cenário, a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), entendida como um conceito que integra dimensões físicas, psicológicas e sociais, torna-se um parâmetro essencial para avaliar os reais ganhos e prejuízos dessa transição repentina. Aspectos como estresse, autonomia, satisfação com o trabalho e equilíbrio entre demandas profissionais e pessoais assumem papel central na análise da sustentabilidade dessas rotinas ao longo do tempo.
Considerando essa realidade, este estudo se orienta pelo seguinte problema de pesquisa: de que forma as mudanças nas rotinas contábeis, introduzidas no contexto pós-pandemia, influenciaram a qualidade de vida dos profissionais da área? Para responder a essa questão, definiu-se como objetivo geral investigar os efeitos dessas transformações sobre a vida laboral dos contadores. Especificamente, buscou-se: identificar e descrever as principais alterações decorrentes da pandemia; analisar a percepção dos profissionais quanto ao seu bem-estar, contemplando dimensões como saúde mental, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e níveis de estresse; examinar a relação entre novas práticas de trabalho e indicadores de produtividade, autonomia e satisfação; e, por fim, mapear as estratégias de adaptação utilizadas pelos profissionais e pelas organizações em que atuam.
O estudo é guiado por duas hipóteses principais, que refletem a dualidade de percepções sobre o fenômeno. A primeira (H1) pressupõe que as mudanças implementadas nas rotinas contábeis no período pós-Covid-19 resultaram em aumento significativo da carga de trabalho e da pressão por produtividade, gerando impactos negativos na qualidade de vida dos profissionais. A segunda (H2) considera que a adoção de modelos de trabalho flexíveis e o uso intensivo de tecnologias digitais conferiram maior autonomia e flexibilidade aos profissionais, contribuindo positivamente para o seu bem-estar e satisfação profissional.
A relevância desta pesquisa reside em sua capacidade de oferecer um diagnóstico atualizado e contextualizado sobre a realidade do profissional contábil cearense no cenário póspandemia. Este estudo concentra-se nos profissionais contábeis atuantes no estado do Ceará, buscando oferecer uma análise regional que considere particularidades econômicas e estruturais. Para tanto, optou-se por uma abordagem quantitativa, com aplicação de questionário estruturado online, permitindo a análise estatística descritiva das percepções e mudanças vivenciadas. Os resultados obtidos podem subsidiar empresas e escritórios contábeis na formulação de políticas de gestão de pessoas mais adequadas, que conciliem produtividade e bem-estar; orientar órgãos de classe e reguladores na promoção de debates e diretrizes sobre saúde ocupacional e práticas laborais sustentáveis na contabilidade; e contribuir para a academia, preenchendo uma lacuna sobre estudos regionais que articulem transformações tecnológicas, rotinas de trabalho e qualidade de vida no setor contábil. Por fim, a pesquisa está estruturada em cinco seções, além desta introdução, percorrendo o referencial teórico, a metodologia, a análise dos resultados e as considerações finais, tecendo uma análise sobre as adaptações e os desafios enfrentados pela profissão contábil em um mundo pós-Covid-19.
2. REFERENCIAL TEORICO
2.1 Qualidade de Vida no Trabalho
A Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) consolida-se como um constructo acadêmico e prático fundamental para a gestão organizacional contemporânea, transcendendo a visão reducionista que a associa meramente à satisfação com a remuneração ou às condições físicas do ambiente laboral. Trata-se de um conceito multidimensional e holístico, que abrange um espectro de condições físicas, psicológicas e sociais intrínsecas ao exercício profissional, as quais exercem influência direta no bem-estar, na motivação, no engajamento e, consequentemente, no desempenho dos colaboradores (LIMONGI-FRANÇA, 2017; WALTON, 1973).
Nesta perspectiva, a QVT está intrinsecamente ligada à busca pelo equilíbrio dinâmico entre as exigências organizacionais e as necessidades individuais dos trabalhadores. LimongiFrança (2017, p. 45) captura a essência dessa dualidade:
A QVT pode ser entendida como a busca por um ponto de equilíbrio entre os interesses da organização e as necessidades pessoais dos trabalhadores. Enquanto as empresas demandam eficiência, responsabilidade e resultados, os profissionais almejam segurança, valorização, desenvolvimento e bem-estar. O desafio contemporâneo consiste em conciliar essas expectativas, promovendo um ambiente de trabalho que seja, ao mesmo tempo, produtivo e saudável.
A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) define qualidade de vida como a percepção que cada pessoa tem de sua posição no mundo, considerando fatores culturais, expectativas individuais e condições sociais. Quando transportamos esse conceito para o contexto corporativo, percebe-se que um ambiente de trabalho saudável vai além de uma remuneração adequada, incluindo também suporte emocional, autonomia, senso de pertencimento e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Assim, para que a experiência profissional seja realmente satisfatória, é necessário que o trabalho proporcione segurança, justiça, equidade, apoio psicológico e condições que favoreçam um equilíbrio sustentável entre a esfera pessoal e a profissional.
A pandemia de Covid-19 funcionou como um evento disruptivo, trazendo novos desafios e complexificando a análise da qualidade de vida no trabalho. A rápida adoção do modelo remoto ou híbrido eliminou as fronteiras físicas do ambiente profissional, impactando diretamente áreas altamente regulamentadas e sujeitas a prazos rígidos, como a contabilidade. Nesse cenário, os profissionais enfrentaram múltiplas pressões: manter a conformidade legal em meio a constantes mudanças legislativas; aprender e se adaptar rapidamente a novas ferramentas digitais; e lidar com o estresse gerado pela situação financeira de seus clientes, muitas vezes dentro do mesmo espaço doméstico, sem infraestrutura adequada ou preparação emocional (FENACON, 2021; CFC, 2021).
Diante dessa realidade, a responsabilidade pela qualidade de vida no trabalho deixou de ser exclusivamente da organização, tornando-se também um desafio pessoal. Os profissionais precisaram desenvolver habilidades de autogestão, estabelecer limites e cuidar da saúde mental em um ambiente marcado pela incerteza. A discussão sobre qualidade de vida, portanto, ampliou-se, englobando tanto as condições oferecidas pelas empresas quanto a capacidade do indivíduo de se adaptar, demonstrar resiliência e utilizar competências digitais de forma efetiva, redefinindo o bem-estar no contexto pós-pandêmico.
2.2 Transformações nas Rotinas Contábeis no Contexto Digital e Pós-Pandêmico
A trajetória histórica da contabilidade é marcada por uma evolução tecnológica constante, porém gradual, que transicionou dos livros manuscritos e arquivos de papel para sistemas informatizados de escrituração. Contudo, se a revolução digital na contabilidade já estava em curso, foi o advento da pandemia de Covid-19 que atuou como um catalisador sem precedentes, forçando uma aceleração disruptiva e uma reavaliação profunda dos modelos de operação tradicionais. O que era uma tendência projetada para o longo prazo tornou-se uma necessidade imediata de sobrevivência profissional e empresarial.
O período pré-pandemia já testemunhava a valorização de softwares de gestão integrada e a digitalização de processos, mas o setor contábil ainda mantinha fortes raízes em práticas presenciais: a guarda física de documentos, a assinatura manual em relatórios e, sobretudo, a cultura da reunião presencial com clientes para prestação de contas e consultoria. A pandemia, ao impor o distanciamento social, não simplesmente sugeriu, mas exigiu a quebra definitiva desse paradigma. Pereira e Lima (2022, p. 28) observam que historicamente, a contabilidade manteve forte vínculo com práticas presenciais e registros físicos. Entretanto, o contexto da pandemia acelerou de forma abrupta a digitalização do setor, impondo a substituição das atividades manuais por plataformas digitais e deslocando a rotina contábil para um ambiente virtual que, até então, era apenas acessório. Essa mudança não se limitou ao suporte utilizado, mas transformou integralmente processos, comunicações e competências exigidas do profissional.A pandemia, no entanto, operou uma transição forçada do físico para o digital e do presencial para o remoto, deslocando o eixo da prática contábil para um ambiente virtual até então complementar. Esse movimento não representou apenas uma mudança de suporte, mas uma reengenharia completa dos fluxos de trabalho, dos canais de comunicação e das próprias competências exigidas do profissional. A conformidade legal, outrora atestada por pilhas de documentos carimbados, passou a depender da integridade de sistemas em nuvem e de assinaturas eletrônicas com validade jurídica.
Nesse novo cenário, modelos de trabalho como o home office e o regime híbrido, antes vistos com reticência em um setor tão conservador e regulado, consolidaram-se não apenas como viáveis, mas, em muitos casos, como superiores em termos de eficiência operacional e redução de custos fixos. Estudos do Sistema FENACON (2021) documentaram uma explosão no uso de ferramentas digitais. Plataformas de videoconferência, como Zoom e Microsoft Teams, tornaram-se o novo padrão para atendimento ao cliente e reuniões internas; softwares contábeis baseados em nuvem permitiram o acesso seguro e simultâneo a dados de qualquer localidade; e soluções de armazenamento e assinatura digital de documentos garantiram a continuidade dos fluxos de trabalho e a validade legal dos processos. Atividades críticas como o fechamento mensal, a apuração de impostos complexos e a elaboração de demonstrações financeiras migraram integralmente para o ambiente digital, mantendo, e muitas vezes ampliando, a confiabilidade e a tempestividade das informações.
Todavia, essa transição acelerada não se deu sem custos significativos e novos desafios intrínsecos. A adaptação dos procedimentos internos de controle e auditoria para o ambiente digital exigiu um repensar de protocolos seculares. A capacitação de colaboradores, especialmente os mais veteranos, para operar com fluência as novas ferramentas tornou-se uma urgência estratégica. Paralelamente, a segurança da informação emergiu como uma preocupação central, uma vez que dados sensíveis de empresas e clientes passaram a trafegar por redes domésticas, exigindo investimentos robustos em cibersegurança e políticas de acesso mais rígidas.
Um dos impactos mais profundos, e que se conecta diretamente com a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), foi a reconfiguração da jornada laboral. A pesquisa “Trabalho remoto no pós-pandemia” (RH Pra Você, 2022) salienta um paradoxo: se, por um lado, as ferramentas digitais conferiram ganhos de produtividade ao eliminarem deslocamentos e agilizarem processos, por outro, criaram uma cultura de disponibilidade perene. A barreira física do escritório, que delimitava o fim do dia de trabalho, dissolveu-se. O profissional passou a estar sempre “conectado”, respondendo a mensagens e e-mails em horários irregulares, o que, somado à pressão por responder com agilidade a constantes mudanças normativas, gerou uma sensação de sobrecarga constante e dificuldade de desligamento, potencializando riscos de esgotamento profissional (burnout) e impactando negativamente a saúde mental.
As transformações nas rotinas contábeis pós-pandemia representam uma dualidade complexa: um avanço tecnológico inegável e uma modernização necessária do setor, mas também a introdução de novas fontes de pressão e a exigência de um novo perfil de profissional, um contador não apenas técnico, mas digitalmente fluente, autogestor do seu tempo e resiliente face à ambiguidade e à constante mudança.
2.3 Atendimento Consultivo e a Experiência do Cliente
A pandemia de COVID-19 impulsionou a transformação digital na área contábil, modificando não apenas as rotinas de trabalho, mas também a forma como o contador se relaciona com seus clientes. Nesse cenário, o atendimento consultivo ganhou destaque como um diferencial estratégico, ampliando a atuação do profissional além das atividades de conformidade fiscal e contábil, assumindo um papel mais analítico e orientador, capaz de oferecer suporte e insights que auxiliem na tomada de decisões.
A adoção intensiva de tecnologias, como plataformas de automação de lançamentos, integração bancária e geração automática de relatórios, otimizou processos repetitivos e liberou tempo para atividades de maior valor agregado (CFC, 2022). Essa mudança permitiu que muitos profissionais focassem em análise de dados, planejamento tributário, gestão financeira e consultoria empresarial, aproximando-se mais das necessidades estratégicas dos clientes.
No entanto, a mesma digitalização que trouxe ganhos de produtividade também impôs novos desafios. Com a virtualização do atendimento, ampliaram-se as expectativas por respostas ágeis e soluções imediatas, especialmente em um cenário de constantes mudanças na legislação tributária e trabalhista. Conforme aponta a FENACON (2021), muitos escritórios contábeis relataram aumento no volume e na complexidade dos atendimentos durante e após a pandemia, exigindo dos profissionais não apenas conhecimento técnico atualizado, mas também habilidades de comunicação e gestão emocional.
Segundo a OIT (2019), o estresse no trabalho pode ser compreendido como a reação do indivíduo diante de exigências que ultrapassam sua capacidade de enfrentamento. No campo contábil, essa situação ganhou destaque em razão da sobrecarga de prazos, responsabilidades e necessidade de adaptação constante a novas tecnologias e normas. Na contabilidade, esse fenômeno foi agravado pela combinação de prazos curtos, alto nível de responsabilidade e a necessidade de contínua adaptação tecnológica. A transição para o atendimento remoto, muitas vezes sem limites claros entre vida pessoal e profissional, contribuiu para o desgaste emocional e elevou o risco de burnout entre os profissionais (OMS, 2021).
A experiência do cliente, por sua vez, também se transformou. A demanda por um atendimento mais personalizado e proativo cresceu, exigindo que os contadores não apenas cumpram obrigações legais, mas também antecipem problemas e ofereçam insights valiosos para a tomada de decisão. Esse novo perfil de atendimento (mais consultivo e menos transacional) exige competências que vão além do domínio técnico, incluindo inteligência emocional, capacidade de escuta ativa e gestão de relacionamento.
O atendimento consultivo surge no cenário pós-pandêmico como uma oportunidade de crescimento, mas também como um desafio para os profissionais contábeis. Embora permita agregar mais valor aos serviços prestados e estreitar o relacionamento com os clientes, essa abordagem também pode gerar pressões adicionais, afetando a saúde mental e o equilíbrio pessoal do contador. Dessa forma, torna-se fundamental encontrar um ponto de equilíbrio entre as demandas do cliente e o bem-estar do profissional, garantindo a sustentabilidade e a qualidade do trabalho contábil na realidade contemporânea.
2.4 Estudos Anteriores e Pesquisas Relacionadas
Diversas pesquisas, tanto nacionais quanto internacionais, têm analisado os efeitos da pandemia de COVID-19 nas rotinas contábeis e na qualidade de vida dos profissionais da área. Esses estudos revelam um cenário complexo, marcado por uma rápida transformação digital, mudanças nos modelos de trabalho e impactos significativos no bem-estar dos contadores.
Um levantamento abrangente conduzido pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC, 2021) indicou que cerca de 72% dos escritórios contábeis brasileiros implementaram o regime de home office, seja parcial ou integral, durante os períodos mais críticos da pandemia. Além disso, a pesquisa mostrou que mais da metade desses escritórios manteve algum nível de trabalho remoto mesmo após a flexibilização das medidas sanitárias, sugerindo que essas mudanças podem representar uma reorganização estrutural duradoura na forma como a contabilidade é exercida.
Em complemento, uma pesquisa desenvolvida pela Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis (FENACON, 2021) identificou que, embora 68% dos profissionais tenham relatado aumento de produtividade devido à adoção de ferramentas digitais, cerca de 74% dos entrevistados mencionaram elevação nos níveis de estresse e sensação de sobrecarga de trabalho. Esse aparente paradoxo entre eficiência e desgaste mental é um dos focos centrais de discussão na literatura recente.
Tais resultados convergem com pesquisas internacionais. Um estudo publicado pelo Journal of Accounting and Organizational Change (2022) analisou dados de profissionais contábeis em Portugal e Espanha e identificou uma relação ambígua entre digitalização e bemestar. Os autores concluíram que, embora as tecnologias digitais tenham otimizado processos operacionais e reduzido tempo de execução de tarefas repetitivas, também intensificaram a pressão por resultados imediatos e ampliaram a expectativa de disponibilidade constante, sobretudo em modelos de teletrabalho.
No contexto brasileiro, Silva e Costa (2022) realizaram um estudo qualitativo com contadores de São Paulo e Minas Gerais e observaram que a migração abrupta para o ambiente digital exacerbou desafios preexistentes, como a alta rotatividade de normativos tributários e a necessidade de constante atualização profissional. Os autores também destacaram a dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e profissional no regime remoto, fator que contribuiu significativamente para casos de esgotamento mental.
Outra pesquisa relevante, conduzida por Oliveira et al. (2021) com profissionais do Rio Grande do Sul, focou nos impactos do home office na satisfação profissional. Os resultados indicaram que, enquanto alguns valorizam a flexibilidade de horários e a eliminação do tempo de deslocamento, outros relatam solidão profissional, dificuldade de concentração no ambiente doméstico e sobrecarga devido à extensão não regulamentada da jornada de trabalho.
O presente trabalho diferencia-se desses estudos por concentrar-se especificamente nos profissionais contábeis atuantes no estado do Ceará, região com particularidades econômicas e estruturais que podem influenciar na forma como as mudanças foram vivenciadas. Além disso, enquanto muitas pesquisas anteriores adotaram abordagens qualitivas ou estudos de caso, este projeto utiliza um instrumento quantitativo, sob a forma de questionário estruturado, para mapear de forma sistemática as mudanças percebidas nas rotinas de trabalho e correlacioná-las diretamente com indicadores de qualidade de vida e bem-estar.
Dessa forma, busca-se oferecer uma análise contextualizada que não apenas preencha uma lacuna geográfica na literatura acadêmica sobre o tema, mas que também sirva como subsídio para a formulação de políticas de gestão de pessoas mais efetivas e saudáveis no segmento contábil cearense e nacional.
3. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem quantitativa e perfil descritivo. De acordo com Gil (2010), a pesquisa aplicada tem como objetivo gerar conhecimento voltado à solução de problemas concretos, enquanto a abordagem quantitativa possibilita a mensuração de percepções, comportamentos e opiniões por meio da coleta e análise de dados estruturados. A pesquisa descritiva, por sua vez, busca observar, registrar e interpretar os fenômenos sem interferência direta do pesquisador, permitindo traçar um retrato preciso da realidade investigada.
No contexto desta investigação, o foco foi compreender como as rotinas contábeis foram adaptadas no cenário pós-pandemia de COVID-19 e analisar de que maneira essas mudanças impactaram a qualidade de vida dos profissionais da área. Foram considerados fatores como níveis de estresse, produtividade e satisfação no trabalho, a fim de identificar os principais desafios e estratégias de adaptação adotadas pelos contadores.
3.1 População e Amostra
O público-alvo desta pesquisa foi composto por profissionais contábeis atuantes no estado do Ceará, incluindo contadores, técnicos em contabilidade e auxiliares que desempenham funções relacionadas à gestão e execução de rotinas contábeis em empresas de diferentes portes e segmentos.
A amostra foi definida por conveniência, formada por 12 profissionais que aceitaram participar da pesquisa mediante convite encaminhado via redes sociais, e-mail e grupos de WhatsApp voltados para a classe contábil. Embora tenha havido recusas, as respostas obtidas foram consideradas suficientes para análise, uma vez que representaram profissionais com diferentes perfis, níveis de experiência e contextos de atuação.
3.2 Instrumento de Coleta de Dados
A coleta de dados foi conduzida por meio de um questionário estruturado, elaborado com base em revisão de literatura referente a rotinas contábeis, qualidade de vida no trabalho e os impactos decorrentes da pandemia de Covid-19. O instrumento teve como objetivo captar informações acerca do perfil dos respondentes, das transformações ocorridas nas rotinas de trabalho e da percepção dos profissionais quanto ao seu bem-estar e desempenho no contexto pós-pandêmico.
O questionário foi organizado em cinco blocos temáticos. O primeiro bloco destinou-se ao levantamento do perfil sociodemográfico e profissional dos participantes, abrangendo variáveis como faixa etária, gênero, nível de escolaridade, tempo de atuação na área contábil e as rotinas por eles desempenhadas. O segundo bloco focalizou as mudanças nas rotinas contábeis póspandemia, investigando a adaptação dos profissionais, alterações no regime de trabalho, utilização de ferramentas tecnológicas e a percepção sobre carga de trabalho e áreas mais demandadas. O terceiro bloco voltou-se à percepção sobre qualidade de vida, avaliando indicadores de saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, prática de atividades físicas e disponibilidade de tempo para lazer. O quarto bloco abordou as novas práticas laborais, examinando a modalidade de trabalho vigente, produtividade, flexibilidade, autonomia, valorização profissional e satisfação no emprego. Por fim, o quinto bloco buscou identificar os impactos percebidos e as práticas adotadas frente às mudanças, incluindo a adaptação tecnológica, capacitação profissional e o suporte organizacional recebido.
A aplicação do questionário ocorreu de forma remota, utilizando a plataforma Google Forms, o que viabilizou ampla divulgação entre profissionais da área contábil e assegurou o registro automatizado das respostas. A participação foi voluntária e anônima, garantindo o sigilo das informações prestadas pelos respondentes.
A estrutura detalhada do questionário encontra-se disposta na Tabela 1:
Tabela 1 – Estrutura do questionário aplicado na pesquisa



Fonte: elaborado pela autora (2025).
3.3 Tratamento e Análise dos Dados
Os dados coletados por meio do questionário eletrônico foram processados e analisados integralmente pela própria plataforma Google Forms, que fornece ferramentas nativas de consolidação e visualização dos resultados. Após o encerramento do período de coleta, realizouse uma verificação de consistência diretamente nos resumos gerados pela ferramenta, a fim de identificar possíveis incongruências ou respostas ausentes, garantindo assim a integridade dos dados para análise.
A análise baseou-se inteiramente nos recursos de estatística descritiva gerados automaticamente pelo Google Forms. A plataforma calcula e apresenta as frequências absolutas e relativas (percentuais) para cada pergunta de múltipla escolha, permitindo a quantificação e descrição das tendências predominantes na amostra. Esses relatórios automáticos foram utilizados como base primária para a observação dos padrões de resposta.
Para a apresentação dos resultados neste trabalho, os gráficos de setores (pizza) e de colunas gerados pela ferramenta foram exportados e incorporados diretamente na seção de análise. A escolha por utilizar a visualização própria do Forms deve-se à sua clareza, objetividade e fidelidade aos dados brutos coletados, facilitando a interpretação imediata dos resultados.
A etapa final de interpretação e discussão foi conduzida a partir da confrontação crítica entre os resultados gráficos e tabulares fornecidos pelo Google Forms e o referencial teórico apresentado no Capítulo 2. Este método permitiu contextualizar as descobertas empíricas à luz da literatura existente, identificando relações, contradições e nuances entre as mudanças nas rotinas contábeis pós-pandemia e os impactos percebidos na qualidade de vida profissional. Dessa forma, a análise pôde transcender a mera descrição dos dados, promovendo uma discussão qualificada sobre os desafios e oportunidades enfrentados pela categoria contábil.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Nesta seção, são apresentados e analisados os resultados obtidos por meio do questionário aplicado a profissionais da área contábil. A interpretação dos dados considerou o contexto póspandêmico de COVID-19, enfatizando as mudanças nas rotinas de trabalho, a adaptação às novas tecnologias e os efeitos sobre a qualidade de vida, a produtividade e a satisfação no ambiente profissional. A análise foi aprofundada à luz do referencial teórico, permitindo relacionar a experiência prática dos respondentes com os achados de pesquisas anteriores, contribuindo para uma compreensão mais ampla dos desafios e das transformações enfrentadas pelos contadores neste período.
4.1 Perfil dos respondentes
Gráfico 1 – Distribuição dos participantes por faixa etária.

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os dados revelam que 50% dos respondentes possuem entre 25 e 34 anos, 41,7% entre 35 e 44 anos e apenas 8,3% têm menos de 25 anos. Não houve participantes acima de 44 anos. Esse resultado demonstra que a amostra é composta majoritariamente por profissionais em fase de consolidação de carreira, característica comum na área contábil. Estudos de Silva (2022) e Oliveira (2021) apontam que esse público foi o mais impactado pelas mudanças tecnológicas aceleradas pela pandemia, pois precisou adaptar práticas tradicionais ao modelo remoto e digitalizado.
Gráfico 2 – Gênero

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Quanto ao gênero, 58,3% se identificaram como feminino e 41,7% como masculino. Esse dado reforça a crescente participação feminina no setor contábil, alinhada a pesquisas recentes que mostram maior inserção de mulheres em cargos técnicos e de gestão na contabilidade (SANTOS, 2021). A predominância feminina pode também influenciar na percepção sobre equilíbrio vida pessoal/trabalho, ponto explorado em questões posteriores.
Gráfico 3 – Escolaridade

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
A amostra apresenta equilíbrio entre os níveis de formação: 50% concluíram o ensino superior, e 50% já possuem pós-graduação, MBA, mestrado ou doutorado. Esse resultado indica heterogeneidade quanto à qualificação, o que pode refletir diferentes percepções sobre os desafios enfrentados no período pós-pandemia. Segundo Martins e Carvalho (2020), quanto maior a formação, maior a tendência de utilização de tecnologias e adaptação a novas práticas no ambiente contábil.
Gráfico 4 – Tempo de atuação na área contábil

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Observa-se que 25% dos respondentes atuam há menos de 1 ano, 16,7% possuem entre 1 e 5 anos de experiência, 33,3% entre 6 e 10 anos e 25% atuam há mais de 10 anos. Esses dados demonstram a heterogeneidade da amostra, reunindo desde profissionais iniciantes até aqueles já consolidados na carreira contábil. Tal diversidade contribui para a análise, pois permite observar como os efeitos da pandemia foram percebidos em diferentes estágios profissionais. Conforme aponta Costa (2021), a experiência acumulada em contextos de transformação influencia diretamente a forma como o trabalhador lida com crises e mudanças estruturais
Gráfico 5 – Rotinas contábeis realizadas

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Entre as principais atividades desempenhadas pelos respondentes, destacam-se a elaboração de demonstrações contábeis (75%), a escrituração contábil (58,3%), o atendimento e consultoria (58,3%) e a folha de pagamento/eSocial (50%). Outras rotinas também foram mencionadas, como o planejamento tributário (41,7%), a apuração de impostos (33,3%) e a escrituração fiscal (25%). Em menor proporção, apareceram estudantes de contabilidade (8,3%) e atuação na administração pública (8,3%). Os dados indicam predominância de atividades operacionais rotineiras, mas também uma relevante atuação consultiva. Esse equilíbrio entre execução técnica e orientação estratégica confirma a tendência de expansão do papel do contador para além do cumprimento de obrigações legais, conforme destacam Silva e Mendes (2020), que ressaltam a crescente importância da consultoria no cenário pós-pandemia.
4.2 Mudanças nas Rotinas Contábeis Pós-Pandemia
Gráfico 6 – Impacto da pandemia na rotina profissional

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que a totalidade dos profissionais contábeis (100%) sofreu impactos em suas rotinas devido à pandemia, sendo que 33,3% relataram alterações significativas e 66,7% mudanças moderadas. Este cenário comprova o caráter disruptivo universal da crise sanitária no setor contábil, alinhando-se com Mendes (2021) quanto à necessidade de adaptação emergencial dos processos frente à digitalização acelerada e migração forçada para o trabalho remoto. A predominância de impactos moderados (66,7%) sobre os significativos (33,3%) sugere certa resiliência prévia do setor, possivelmente associada à natureza técnica e normativa da contabilidade que já vivenciava transformação digital gradual. Contudo, a expressiva parcela que vivenciou mudanças substantivas indica desafios relevantes em adaptação tecnológica, sobrecarga laboral ou adequação aos novos modelos de trabalho, estabelecendo a base para analisar os desdobramentos dessas transformações na qualidade de vida profissional.
Gráfico 7 – Mudanças no regime de trabalho

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam uma transformação substancial nos regimes de trabalho póspandemia, com 91,7% dos profissionais adotando o modelo híbrido e 8,3% atuando exclusivamente de forma remota. Esses dados confirmam a consolidação do regime híbrido como principal modalidade de trabalho no setor contábil, refletindo uma reorganização estrutural das práticas laborais na área. Este cenário corrobora as observações de Almeida (2022) sobre a capacidade do modelo híbrido em equilibrar produtividade organizacional e flexibilidade individual. A quase totalidade de profissionais em regimes não exclusivamente presenciais (100% da amostra) demonstra uma ruptura definitiva com o modelo tradicional prépandêmico, indicando que a adaptação forçada pelo contexto sanitário resultou em uma reconfiguração permanente das formas de trabalho na contabilidade, com implicações diretas na organização das rotinas e na qualidade de vida profissional.
Gráfico 8 – Atividades realizadas remotamente

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que as atividades de interação com clientes foram as mais adaptadas ao formato remoto, com destaque para reuniões (83,3%) e consultorias (66,7%). Atividades técnicas como escrituração contábil/fiscal e apresentação de relatórios (ambas com 33,3%) também mostraram significativa migração digital. Contudo, 25% dos profissionais não incorporaram atividades remotas, indicando resistências ou limitações específicas na virtualização completa de processos. Estes dados confirmam a tese de Oliveira e Rocha (2021) sobre o papel crucial da virtualização na continuidade dos serviços contábeis. A predominância de atividades de relacionamento com clientes no formato remoto sugere uma reconfiguração prioritária dos canais de comunicação, enquanto a persistência de atividades presenciais em um quarto da amostra revela desafios setoriais na digitalização integral de processos contábeis, possivelmente relacionados à natureza técnica ou regulatória de certas tarefas.
Gráfico 9 – Aumento da carga de trabalho

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que a esmagadora maioria dos profissionais (75%) experimentou aumento significativo na carga de trabalho no período pós-pandemia, enquanto 25% não perceberam mudanças no volume de demandas. Este cenário indica uma intensificação generalizada das atividades contábeis, sugerindo que as transformações digitais e operacionais implementadas não resultaram em redução da pressão laboral, mas sim em sua ampliação. Estas informações corroboram Pereira e Lima (2022) ao demonstrarem que a digitalização e adaptação aos novos modelos de trabalho, embora essenciais para a continuidade operacional, acarretaram expressivo incremento na quantidade de tarefas e responsabilidades profissionais. O expressivo percentual de profissionais que reportaram aumento de carga (75%) associa-se diretamente a outros indicadores de sobrecarga identificados na pesquisa, como prazos mais curtos (Gráfico 24), maior cobrança por produtividade (Gráfico 32) e elevação dos níveis de estresse (Gráfico 25), configurando um cenário de intensificação laboral que impacta diretamente a qualidade de vida dos profissionais contábeis.
Gráfico 10 – Áreas mais demandadas

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados indicam que as áreas contábil e trabalhista foram as que exigiram maiores adaptações no período pós pandemia, ambas mencionadas por 41,7% dos profissionais. Em contrapartida, as áreas fiscal e societária receberam significativamente menos menções, com apenas 8,3% das citações cada. Esta distribuição demonstra que as transformações mais relevantes concentraram se nas atividades diretamente vinculadas à gestão de pessoas e à manutenção da operacionalidade das empresas durante a crise.Estes resultados corroboram as observações de Carvalho (2021) sobre o impacto das mudanças legislativas emergenciais, particularmente aquelas relacionadas a medidas trabalhistas e de proteção. A predominância das áreas contábil e trabalhista reflete o caráter social da crise sanitária, que exigiu readequações imediatas em processos de folha de pagamento, benefícios e conformidade trabalhista, sobrecarregando estas frentes de atuação em comparação com áreas de natureza mais técnica como a fiscal e societária.
Gráfico 11 – Adaptação de procedimentos internos

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que todas as organizações implementaram algum nível de adaptação em seus procedimentos internos no período pós pandemia, sendo que 58,3% realizaram mudanças completas e 41,7% efetuaram ajustes parciais. Este cenário revela um esforço generalizado de reestruturação organizacional, embora quase metade das empresas não tenha conseguido implementar uma transformação integral de seus processos. Estes dados corroboram Gonçalves (2021) ao indicarem que muitas organizações optaram por soluções emergenciais imediatas em detrimento de transformações estruturais completas. A significativa parcela de adaptações parciais (41,7%) sugere dificuldades na consolidação de processos digitais estruturados, possivelmente relacionadas a fatores como recursos tecnológicos limitados, resistência à mudança ou falta de planejamento estratégico para a transformação digital. Esta limitação nas adaptações organizacionais pode explicar parte dos desafios relatados pelos profissionais em outros indicadores, como aumento da carga de trabalho e dos níveis de estresse.
Gráfico 12 – Ferramentas tecnológicas utilizadas

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram a centralidade das ferramentas de conectividade e armazenamento digital no exercício profissional pós pandemia, com plataformas de nuvem (91,7%) e sistemas de videoconferência (91,7%) emergindo como tecnologias essenciais. Softwares específicos da área contábil (41,7%) também apresentaram alta adoção, enquanto sistemas especializados em contabilidade (33,3%), folha de pagamento (16,7%) e gestão de tarefas (8,3%) complementam o ecossistema tecnológico do contador contemporâneo. Estes dados confirmam as tendências apontadas por Batista (2022) sobre a consolidação definitiva do armazenamento em nuvem e comunicação virtual como infraestrutura básica do setor contábil. A predominância esmagadora de ferramentas de conectividade (91,7%) sobre sistemas específicos de gestão reflete a natureza da transformação digital no setor: primeiro foi necessário garantir a continuidade operacional através de soluções de comunicação e acesso remoto, para depois avançar na digitalização de processos específicos. Esta hierarquia de adoção tecnológica explica em parte os desafios de adaptação reportados pelos profissionais, uma vez que a implementação de ferramentas básicas de comunicação precedeu a plena digitalização dos processos contábeis especializados.
4.3 Percepção sobre a Qualidade de Vida Pós-Pandemia
Gráfico 13 – Avaliação da qualidade de vida

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que a maioria dos profissionais (75%) avalia positivamente sua qualidade de vida, somando as categorias “boa” (66,7%) e “muito boa” (8,3%). Contudo, uma parcela significativa (25%) apresenta avaliação negativa, distribuída entre as categorias “regular” (16,7%) e “ruim” (8,3%). Este cenário indica que, embora a maior parte dos contadores mantenha uma percepção favorável do seu bem-estar, uma minoria substancial vivencia desafios relevantes na qualidade de vida. Estes dados corroboram Rocha e Silva (2021) ao sugerirem que a sobreposição entre vida pessoal e profissional nos modelos de trabalho remoto e híbrido pode comprometer o bem-estar geral. A existência de avaliações negativas (25%) associa-se diretamente a outros indicadores da pesquisa, como os elevados níveis de estresse (Gráfico 14), a percepção de saúde mental apenas regular (Gráfico 17) e a insuficiência de tempo para descanso (Gráfico 18), configurando um quadro de alerta sobre os impactos psicossociais das transformações pós pandemia na categoria contábil.
Gráfico 14 – Nível de estresse

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que a totalidade dos profissionais (100%) experimentou manutenção ou aumento dos níveis de estresse no período pós pandemia, com 75% reportando aumento considerável, 16,7% aumento leve e 8,3% manutenção dos níveis prévios. Significativamente, nenhum participante registrou diminuição do estresse, indicando um agravamento generalizado deste indicador entre os contadores. Estes dados corroboram Oliveira (2022) ao confirmarem que a combinação entre a natureza intrínseca da rotina contábil, marcada por prazos rígidos, alta responsabilidade e as pressões adaptativas dos novos modelos de trabalho resultaram em significativa intensificação do estresse profissional. A gradiação das respostas (aumento considerável, leve ou manutenção) demonstra que mesmo os profissionais que não relataram agravamento do estresse permaneceram em patamares elevados, configurando um cenário de preocupação generalizada que se correlaciona diretamente com outros indicadores da pesquisa, como a maior carga de trabalho (Gráfico 9), a cobrança por produtividade (Gráfico 32) e as dificuldades de desconexão laboral (Gráfico 18).
Gráfico 15 – Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados indicam que a maioria expressiva dos profissionais (83,3%) considera bom o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, enquanto 16,7% avaliam este equilíbrio como regular. É significativo notar que nenhum participante classificou o equilíbrio como excelente, sugerindo a existência de desafios persistentes na conciliação entre as esferas pessoal e profissional. Estes dados corroboram Santos (2021) ao demonstrarem que os modelos de trabalho pós pandemia no regime híbrido, apresentam dupla faceta: se por um lado facilitam a conciliação através de maior flexibilidade, por outro impõem desafios na delimitação clara de fronteiras entre vida pessoal e profissional. A ausência de avaliações “excelentes” combinada com expressiva parcela de avaliações apenas “regulares” (16,7%) indica que, embora a maioria dos profissionais tenha alcançado um equilíbrio satisfatório, ainda persistem dificuldades significativas na gestão integral das demandas pessoais e laborais, aspecto que se relaciona diretamente com os elevados níveis de estresse reportados (Gráfico 14) e com a percepção de sobrecarga de trabalho (Gráfico 9).
Gráfico 16 – Prática de atividade física

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
A pesquisa revelou que a maioria dos profissionais (58,3%) não pratica atividade física regularmente, enquanto 41,7% mantêm essa prática. Esse resultado é alarmante, uma vez que a ausência de exercícios físicos está frequentemente associada a impactos negativos na saúde física e mental, podendo agravar condições como estresse, ansiedade e fadiga crônica (SILVA; MOURA, 2020). A elevada taxa de sedentarismo encontrada na amostra pode explicar, em parte, a percepção majoritária de qualidade de vida classificada como “regular”, não “boa” ou “muito boa”, conforme indicado no Gráfico 13. Profissionais que não dedicam tempo à atividade física tendem a apresentar menor disposição, pior qualidade do sono e maior dificuldade de concentração, fatores que comprometem tanto o bem-estar quanto a produtividade no trabalho. Esse achado reforça a importância de políticas de promoção da saúde no ambiente laboral, mesmo em contextos de trabalho remoto ou híbrido. Como sugerem Rocha e Silva (2021), a incorporação de pausas ativas, a flexibilização de horários para a prática de exercícios e o incentivo a programas de qualidade de vida podem ser estratégias eficazes para mitigar os efeitos negativos do sedentarismo e melhorar a qualidade de vida dos profissionais contábeis.
Gráfico 17 – Saúde mental

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
A avaliação da saúde mental pelos profissionais contábeis revelou um cenário heterogêneo e preocupante. Metade dos participantes (50%) classificou seu estado como “regular”, 41,7% como “boa” e 8,3% como “muito ruim”. É significativo notar que nenhum participante selecionou a opção “ruim”, mas a presença de avaliações na pior categoria possível (“muito ruim”) acende um sinal de alerta para casos mais severos de desgaste mental na categoria. Os resultados indicam que, para uma parcima expressiva da amostra (58,3%), a saúde mental não é positiva, seja por uma condição meramente regular (50%), seja por uma condição crítica (8,3%). Esse dado vai ao encontro da alta percepção de estresse identificada no Gráfico 14 e da falta de tempo para descanso (Gráfico 18), compondo um quadro de fatores de risco psicossocial. A existência de respostas na categoria “muito ruim” (8,3%) contradiz a noção de uma simples “adaptação resiliente” às mudanças. Em vez disso, sugere que para alguns profissionais, a pressão do contexto pós-pandêmico com sua carga de trabalho, digitalização acelerada e blurring entre vida pessoal e profissional, que teve um impacto severo e negativo. Este achado reforça a urgência de políticas específicas de suporte à saúde mental no setor contábil, incluindo canais de acolhimento, flexibilização de jornada e acesso a acompanhamento psicológico.
Gráfico 18 – Tempo para descanso e lazer

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
A distribuição das respostas sobre tempo para descanso e lazer revela um cenário de insatisfação moderada. Apenas 16,7% dos profissionais declararam ter tempo suficiente para essas atividades. A grande maioria, 75%, respondeu que tem tempo apenas parcialmente, e uma minoria de 8,3% afirmou não ter tempo algum. Este resultado indica que, para 83,3% dos respondentes (a soma das categorias “parcialmente” e “não”), o tempo disponível para desconexão e recuperação é insuficiente ou inadequado. Essa percepção majoritária está alinhada com os níveis elevados de estresse (Gráfico 14) e com as avaliações apenas regulares de saúde mental (Gráfico 17), sugerindo que a dificuldade em se desligar das demandas profissionais é um fator crítico que compromete o bem-estar. Apesar de não ser uma negação categórica na sua totalidade (apenas 8,3%), o fato de três quartos da amostra (75%) viverem em uma situação de equilíbrio precário (“parcialmente”) é profundamente revelador. Ele aponta para uma rotina onde o lazer e o descanso não são priorizados ou são constantemente interrompidos por obrigações laborais, um fenômeno comum em modelos de trabalho que adotam o regime híbrido ou remoto sem uma gestão clara de limites. A literatura confirma que a falta de pausas adequadas e a impossibilidade de recuperação completa após o trabalho comprometem não apenas a saúde e o bem-estar, mas também a produtividade e a qualidade do serviço prestado no longo prazo (COSTA; ALMEIDA, 2022). Portanto, esse dado evidencia a necessidade de as organizações e os próprios profissionais discutirem e implementarem estratégias de gestão de tempo e de estabelecimento de fronteiras entre a vida pessoal e profissional.
Gráfico 19 – Preocupação com qualidade de vida após a pandemia

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
A pesquisa revela que a grande maioria dos profissionais contábeis demonstra preocupação com a qualidade de vida, sendo que (58,3%) já mantinham essa atenção antes da pandemia e (8,3%) intensificaram sua preocupação após o período pandêmico. Apenas (33,3%) dos respondentes declararam não se preocupar com o tema. Estes resultados indicam que, para a maior parte dos profissionais, a qualidade de vida já era uma questão relevante antes da crise sanitária, mas que para uma parcela significativa (8,3%) a pandemia funcionou como um catalisador que ampliou essa conscientização. Este dado corrobora a tese de Nascimento (2022) de que o contexto pandêmico acelerou discussões sobre saúde, bem-estar e equilíbrio vida-trabalho em diversas profissões, servindo como marco de reflexão sobre práticas laborais e hábitos de vida. A significativa parcela de profissionais que não demonstra preocupação com qualidade de vida (33,3%) representa um desafio importante para a categoria contábil, sugerindo a necessidade de maior conscientização sobre a importância do equilíbrio entre vida pessoal e profissional para a saúde física, mental e para a própria sustentabilidade da carreira contábil.
4.4 Novas Práticas Laborais, Estresse, Produtividade e Satisfação
Gráfico 20 – Modelo de trabalho atual

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados indicam que a maioria dos profissionais (58,3%) atua atualmente em regime presencial, seguido pelo modelo híbrido (33,3%) e, em menor proporção, pelo regime totalmente remoto (8,3%). Esses dados sugerem um retorno significativo ao ambiente físico de trabalho no cenário pós-pandemia, possivelmente influenciado pela natureza das atividades contábeis que demandam interação presencial, acesso a documentos físicos ou preferência organizacional. Embora o modelo híbrido tenha sido amplamente discutido como tendência, sua adoção não superou o presencial nesta amostra. Isso pode refletir particularidades do setor contábil cearense, como a estrutura de escritórios de menor porte ou a cultura organizacional ainda arraigada ao trabalho presencial. Conforme Almeida (2022), o regime híbrido oferece vantagens como flexibilidade e manutenção de aspectos da cultura organizacional, mas sua implementação efetiva depende de infraestrutura tecnológica e gestão de equipe adequadas, fatores que podem não estar totalmente consolidados em todos os contextos. A baixa adesão ao trabalho totalmente remoto (8,3%) corrobora a ideia de que a contabilidade, em muitos casos, ainda valoriza a proximidade física para atividades que exigem colaboração direta, assinatura de documentos ou atendimento personalizado. Esse retorno ao presencial pode também estar associado a uma tentativa de restabelecer limites claros entre vida pessoal e profissional, após um período de intensa sobreposição durante a pandemia. Este cenário evidencia que, apesar dos avanços tecnológicos e da adaptação ao digital, o modelo presencial permanece como base estrutural para muitos profissionais da contabilidade, levantando questionamentos sobre como equilibrar as conquistas em flexibilidade com as demandas tradicionais do setor.
Gráfico 21 – Produtividade em relação ao período pré-pandemia

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que a grande maioria dos profissionais (75%) percebeu um aumento em sua produtividade em relação ao período pré-pandemia, enquanto 25% afirmaram que ela se manteve estável. É significativo notar que nenhum participante relatou queda em seu desempenho. Esse achado sustenta a hipótese H2 deste estudo, que previa que a adoção de modelos flexíveis e tecnologias digitais traria impactos positivos, conferindo ganhos de eficiência. A digitalização de processos repetitivos, a agilidade no acesso à informação por meio de sistemas em nuvem e a redução do tempo despendido em deslocamentos parecem ter sido fatores determinantes para esse resultado, conforme também observado por Souza e Andrade (2021). No entanto, é crucial contextualizar esse aumento de produtividade à luz de outros dados da pesquisa. Apesar dos ganhos operacionais, os gráficos anteriores (Gráficos 14, 17 e 25) apontaram para um aumento generalizado do estresse e uma percepção apenas regular da saúde mental para metade dos respondentes. Isto sugere a existência de um paradoxo entre produtividade e bem-estar: os profissionais estão produzindo mais, mas a um custo pessoal potencialmente elevado. Portanto, conclui-se que o aumento da produtividade não foi necessariamente acompanhado por uma melhoria proporcional na qualidade de vida. Ele pode estar mais associado a um incremento na intensidade do trabalho, alimentado por ferramentas digitais que permitem a execução de tarefas de forma mais rápida, mas que também ampliam a expectativa de disponibilidade e aceleram o ritmo de demandas, como evidenciado pela percepção de prazos mais curtos (Gráfico 24).
Gráfico 22 – Flexibilidade na rotina de trabalho

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados indicam que apenas 25% dos profissionais consideram que sua rotina de trabalho se tornou efetivamente mais flexível no período pós-pandemia. A maioria esmagadora (66,7%) avalia que essa flexibilidade foi apenas parcial, enquanto 8,3% não perceberam qualquer mudança. Este dado revela uma significativa limitação na percepção de autonomia dos profissionais contábeis, contradizendo em parte a hipótese inicial (H2) de que o trabalho remoto/híbrido traria maior flexibilidade. Apesar da mudança no modelo de trabalho, a rotina contábil – marcada por prazos fiscais rígidos, obrigações legais imutáveis e uma alta carga de demandas – parece não ter permitido uma real flexibilização na organização do tempo e das tarefas para a maioria dos respondentes. Conforme apontado por Ferreira (2021), a flexibilidade genuína está associada a um maior controle sobre a jornada e ao engajamento profissional. No entanto, os dados desta pesquisa sugerem que a suposta flexibilidade do modelo híbrido/remoto foi, na prática, sobrepujada por uma cultura de disponibilidade constante e por prazos ainda mais compressos, como evidenciado no Gráfico 24. A “flexibilidade parcial” percebida pela maioria pode, na realidade, mascarar uma dificuldade em estabelecer limites entre vida pessoal e profissional, levando a uma extensão não oficial da jornada de trabalho e contribuindo para os elevados níveis de estresse reportados (Gráficos 14 e 25). Portanto, conclui-se que, para a amostra investigada, as adaptações pós-pandemia não resultaram em uma flexibilidade significativa na rotina de trabalho, indicando que os benefícios potenciais dos novos modelos de trabalho foram mitigados pelas exigências intrínsecas da profissão contábil e por possíveis falhas na gestão de pessoas e na definição de expectativas por parte das organizações.
Gráfico 23 – Impacto do modelo remoto/híbrido na produtividade

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que a maioria dos profissionais (66,7%) reconhece que o modelo remoto ou híbrido contribuiu positivamente para sua produtividade, enquanto um terço (33,3%) avalia que essa contribuição foi apenas parcial. Estes dados corroboram com os dodos do Gráfico 21, que apontaram aumento ou manutenção da produtividade para todos os respondentes, sugerindo uma associação positiva entre a adoção dos novos modelos de trabalho e a eficiência profissional. A percepção majoritária de ganho de produtividade pode ser atribuída à eliminação de deslocamentos, à agilidade proporcionada pelas ferramentas digitais e à maior autonomia na gestão do tempo, conforme discutido na literatura (Souza e Andrade, 2021). No entanto, o fato de 33,3% dos profissionais reportarem uma contribuição apenas parcial indica que os benefícios não foram universais. Como aponta Nogueira (2022), fatores como a falta de um ambiente adequado para trabalho em casa, dificuldades de concentração devido a interrupções domésticas, deficiências na infraestrutura tecnológica (como internet instável) e a sobrecarga de comunicações digitais podem ter mitigado os ganhos de produtividade para uma parcela significativa dos profissionais. Este resultado nuanceado reflete a dualidade inerente à transição para modelos flexíveis: enquanto uma maioria experimentou ganhos de eficiência, uma minoria substancial enfrentou desafios que limitaram tais benefícios. Esta divisão ressalta a importância de considerar variáveis contextuais, como condições domiciliares, suporte tecnológico oferecido pelas empresas e perfil do profissional, na implementação bem sucedida do trabalho remoto ou híbrido, reforçando a necessidade de políticas organizacionais personalizadas que atendam às diferentes realidades dos colaboradores.
Gráfico 24 – Aumento de demandas e prazos mais curtos

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que metade dos participantes (50%) relatou um aumento significativo de demandas associado a prazos mais curtos após a pandemia. Outros 25% indicaram um aumento parcial nessas pressões, enquanto os 25% restantes não perceberam mudanças substantivas. Este achado confirma a intensificação do ritmo de trabalho no cenário pós pandêmico, corroborando a hipótese H1 deste estudo, que previa aumento da carga de trabalho e da pressão por produtividade. Conforme observado por Costa e Lima (2021), a aceleração da digitalização, embora tenha trazido ganhos de agilidade operacional, paradoxalmente intensificou as expectativas sobre o desempenho profissional, criando um ciclo de demandas mais numerosas e prazos mais compressos. Este resultado estabelece uma relação direta com outros dados da pesquisa: o aumento do estresse (Gráficos 14 e 25), a percepção de carga mental elevada (Gráfico 17) e a dificuldade em estabelecer limites entre vida pessoal e profissional (Gráfico 15). A pressão por resultados rápidos em um contexto de transformação digital acelerada parece ter sobrepujado os potenciais benefícios da tecnologia, contribuindo para o cenário de sobrecarga identificado na amostra. A persistência dessa cultura de urgência, mesmo após o período mais crítico da pandemia, sugere uma mudança estrutural nas expectativas do mercado e das organizações em relação ao desempenho dos profissionais contábeis, apontando para a necessidade de uma reflexão crítica sobre a sustentabilidade dessas novas demandas em relação ao bem estar profissional.
Gráfico 25 – Nível de estresse diante das mudanças

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que a expressiva maioria dos profissionais (75%) experimentou aumento nos níveis de estresse após as mudanças implementadas no período pós pandemia, enquanto 25% relataram manutenção dos mesmos patamares anteriores. Significativamente, nenhum participante indicou redução do estresse. Este achado consolida um dos principais desafios identificados nesta pesquisa: o significativo impacto psicossocial das transformações nas rotinas contábeis. O dado corrobora plenamente a hipótese H1 deste estudo, que previa que as adaptações pós Covid 19 resultariam em aumento da pressão laboral com consequentes efeitos negativos na qualidade de vida. A manutenção ou elevação dos níveis de estresse para a totalidade da amostra (100% dos respondentes) representa um alerta crítico para a categoria contábil. Este resultado se conecta diretamente com outros dados da pesquisa: o aumento de demandas e prazos mais curtos (Gráfico 24), a flexibilidade apenas parcial da rotina (Gráfico 22) e as avaliações regulares da saúde mental (Gráfico 17). A percepção unânime de manutenção ou agravamento do estresse sugere que os benefícios operacionais trazidos pela digitalização e pelos novos modelos de trabalho, como o aumento da produtividade (Gráfico 21), foram alcançados à custa do bem estar psicológico dos profissionais. Esta constatação aponta para a necessidade urgente de intervenções organizacionais que equilibrem eficiência operacional e saúde mental, incluindo programas de gestão do estresse, definição de limites claros entre jornada laboral e pessoal, e revisão das expectativas de produtividade no contexto das novas rotinas contábeis.
Gráfico 26 – Valorização profissional

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam uma significativa insatisfação quanto ao reconhecimento profissional entre os contadores pesquisados. Apenas 16,7% dos profissionais afirmaram sentirse valorizados em seu ambiente de trabalho, enquanto a maioria expressiva (58,3%) reportou uma valorização apenas parcial, e 25% declararam não se sentir valorizados profissionalmente. Este achado aponta para uma grave fragilidade nas relações laborais do setor contábil no período pós pandêmico. O dado é particularmente preocupante quando contextualizado com outros resultados da pesquisa: os profissionais enfrentaram aumento de demandas (Gráfico 24), elevação dos níveis de estresse (Gráfico 25), adaptação tecnológica acelerada (Gráfico 30) e desenvolvimento de novas habilidades (Gráfico 34), sem que essas mudanças e esforços adicionais tenham sido acompanhados por um reconhecimento adequado. Conforme destaca Batista (2021), a percepção de valorização profissional constitui elemento fundamental para a retenção de talentos e manutenção do engajamento, especialmente em contextos de alta pressão e transformação acelerada como o vivenciado na pandemia. A discordância entre o aumento das responsabilidades e a falta de reconhecimento correspondente pode explicar, em parte, os níveis de insatisfação profissional identificados (Gráfico 29) e os desafios de saúde mental reportados (Gráfico 17). Este resultado sugere que as organizações contábeis focaram predominantemente na adaptação operacional e tecnológica, negligenciando aspectos fundamentais da gestão de pessoas e do reconhecimento profissional, o que representa um risco para a sustentabilidade do modelo de trabalho implementado e para o bem estar dos profissionais do setor.
Gráfico 27 – Ambiente de trabalho favorável

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam uma percepção majoritariamente negativa em relação ao ambiente de trabalho pós pandemia. Apenas 16,7% dos profissionais consideram seu ambiente favorável ao desempenho profissional, enquanto 41,7% avaliam que é apenas parcialmente favorável e outros 41,7% afirmam categoricamente que não é favorável. Este achado demonstra que, para a grande maioria dos respondentes (83,4%), as adaptações realizadas pelas organizações não foram suficientes para criar condições adequadas de trabalho no novo contexto. Esta percepção negativa corrobora outros resultados da pesquisa, particularmente o aumento do estresse (Gráfico 25), a sensação de desvalorização profissional (Gráfico 26) e a avaliação regular da saúde mental (Gráfico 17). A elevada porcentagem de profissionais que não consideram seu ambiente favorável (41,7%) sugere deficiências significativas tanto na infraestrutura física quanto no suporte organizacional oferecido durante a transição para novos modelos de trabalho. Conforme observado por Mendes (2022), o investimento em infraestrutura tecnológica adequada e políticas de bem-estar organizacional são determinantes para o sucesso da adaptação às novas realidades de trabalho. Este resultado indica que, embora as organizações tenham implementado mudanças operacionais necessárias para a continuidade dos serviços, negligenciaram aspectos fundamentais do ambiente laboral que impactam diretamente o desempenho e o bem-estar profissional, representando um desafio crítico para a sustentabilidade do modelo de trabalho implementado no período pós pandêmico.
Gráfico 28 – Autonomia nas atividades

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados indicam que a maioria significativa dos profissionais (75%) percebeu um aumento naautonomia para desenvolver suas atividades após as mudanças implementadas no período pós pandemia, enquanto 25% relataram que esta autonomia foi apenas parcial. Este achado sugere que a transição para modelos de trabalho mais flexíveis trouxe como contrapartida uma maior independência na gestão das atividades profissionais. Este resultado apresenta uma faceta positiva das transformações ocorridas, corroborando parcialmente a hipótese H2 deste estudo, que previa que a adoção de novos modelos de trabalho traria benefícios como maior autonomia e flexibilidade. Conforme observado por Silva (2021), a autonomia constitui uma das principais vantagens da flexibilização do trabalho, permitindo que os profissionais organizem suas atividades de acordo com suas particularidades e preferências. No entanto, é crucial contextualizar este dado com outros resultados da pesquisa. Apesar do aumento da autonomia, os profissionais também relataram elevação significativa do estresse (Gráfico 25), aumento da carga de trabalho (Gráfico 24) e sensação de desvalorização profissional (Gráfico 26). Esta aparente contradição sugere que a maior autonomia não se traduziu necessariamente em melhores condições de trabalho ou bem estar, mas pode ter representado, na prática, uma transferência de responsabilidades para o profissional sem o correspondente suporte organizacional. A autonomia conquistada parece, portanto, estar associada a uma auto gestão mais exigente em um contexto de pressão por resultados, o que pode explicar a coexistência entre maior independência profissional e a piora nos indicadores de qualidade de vida identificados na pesquisa.
Gráfico 29 – Satisfação profissional

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam um cenário complexo em relação à satisfação profissional. A maioria dos profissionais (66,7%) declarou-se satisfeita, enquanto 16,7% manifestaram indiferença e outros 16,7% reportaram elevado nível de insatisfação. É significativo notar que nenhum participante classificou seu nível de satisfação como “muito satisfeito”. Este quadro indica que, apesar dos ganhos em autonomia (Gráfico 28) e produtividade (Gráfico 21), a satisfação profissional não atingiu níveis ótimos. A combinação entre a expressiva parcela de indiferentes (16,7%) e a significativa taxa de insatisfação (16,7%) sugere a existência de fatores críticos que comprometem o pleno contentamento com a carreira contábil no cenário pós pandêmico. Conforme destacado por Souza e Martins (2021), a satisfação profissional na contabilidade transcende aspectos remuneratórios, dependendo fundamentalmente de reconhecimento, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e oportunidades de crescimento. A relativa baixa satisfação pode estar associada a outros dados desta pesquisa: a sensação de desvalorização profissional (Gráfico 26), o ambiente de trabalho pouco favorável (Gráfico 27), o aumento do estresse (Gráfico 25) e a intensificação das demandas (Gráfico 24). A ausência de respostas na categoria “muito satisfeito” é particularmente reveladora, indicando que mesmo os profissionais que se declararam satisfeitos experimentam reservas em relação às condições atuais de trabalho. Este resultado final corrobora a tese central do estudo de que as transformações nas rotinas contábeis pós pandemia, embora tenham trazido avanços operacionais, geraram desafios significativos para a qualidade de vida e a satisfação profissional dos contadores.
4.5 Impactos Percebidos e Práticas Adotadas
Gráfico 30 – Principais impactos da pandemia na rotina contábil

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que os impactos mais significativos da pandemia nas rotinas contábeis foram a adaptação tecnológica (83,3%) e o aumento da digitalização (83,3%), seguidos pela sobrecarga de trabalho (50%), perda de clientes (41,7%) e redução de equipe (33,3%). Apenas 16,7% mencionaram demandas urgentes como impacto significativo, e nenhum profissional relatou ausência de impactos relevantes. Estes dados confirmam o caráter transformador da pandemia para a área contábil, funcionando como um catalisador forçado de mudanças tecnológicas. Conforme observado por Silva e Costa (2021), o setor contábil experimentou uma aceleração sem precedentes na adoção de ferramentas digitais e na transformação de processos tradicionalmente físicos em operações digitais. No entanto, a elevada porcentagem de profissionais que mencionaram sobrecarga de trabalho (50%) indica que esta transformação digital não ocorreu sem custos humanos. A combinação entre a necessidade de rápida adaptação tecnológica, a redução de equipes e a perda de clientes criou um ambiente de trabalho mais exigente e potencialmente mais estressante. Este resultado sintetiza a dualidade presente em todo o estudo: por um lado, a modernização tecnológica necessária e benéfica para o setor; por outro, os desafios humanos e organizacionais decorrentes da velocidade e intensidade dessas mudanças. A pandemia de fato constituiu um divisor de águas para a contabilidade, mas seus impactos transcendem a esfera tecnológica, afetando profundamente as condições de trabalho, a organização laboral e o bem-estar dos profissionais do setor.
Gráfico 31 – Práticas adotadas para lidar com os impactos

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados indicam que a maioria dos profissionais (75%) adotou práticas específicas para enfrentar os impactos da pandemia, enquanto 25% não implementaram nenhuma medida formal de adaptação. Entre as estratégias mais utilizadas, destacaram-se o uso de novas ferramentas digitais, o atendimento remoto, capacitações e cursos, planejamento de tarefas e, em menor escala, a redução da carga horária.Este achado revela um esforço significativo de adaptação por parte dos profissionais, mas também evidencia o caráter predominantemente individual e reativo dessas iniciativas. O fato de que um quarto dos respondentes não adotou nenhuma medida formal sugere diferentes níveis de resiliência e capacidade de adaptação entre os profissionais, possivelmente influenciados por fatores como suporte organizacional, recursos disponíveis e perfil pessoal. A predominância de soluções técnicas (ferramentas digitais, atendimento remoto) sobre medidas de proteção à saúde e bem-estar (como a redução de carga horária, mencionada por menos profissionais) corrobora a tese de Rocha (2022) de que as organizações contábeis priorizaram a continuidade operacional em detrimento do suporte psicossocial aos colaboradores. Este resultado ilustra a natureza paradoxal da adaptação no setor contábil: enquanto os profissionais demonstraram notável capacidade de inovação técnica e operacional, a falta de políticas estruturadas de suporte organizacional pode ter contribuído para os elevados índices de estresse e desgaste profissional identificados em outras partes desta pesquisa, revelando uma lacuna crítica na gestão das pessoas durante o processo de transformação digital acelerada pela pandemia.
Gráfico 32 – Cobrança por produtividade

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que a maioria dos profissionais (58,3%) experimentou aumento na cobrança por produtividade após a pandemia, enquanto 16,7% relataram que esta pressão ocorreu de forma parcial e 25% afirmaram não ter percebido mudanças nas exigências de desempenho. Este achado revela uma pressão significativa por eficiência no ambiente de trabalho pós pandêmico, corroborando a hipótese H1 deste estudo que previa aumento da pressão por produtividade. A percepção majoritária de maior cobrança está alinhada com outros resultados da pesquisa, particularmente com o aumento de demandas e prazos mais curtos (Gráfico 24) e com a elevação dos níveis de estresse (Gráfico 25). O dado sugere que as organizações, ao implementarem transformações digitais e novos modelos de trabalho, transferiram para os profissionais expectativas elevadas de desempenho, possivelmente justificadas pelos ganhos de eficiência proporcionados pela tecnologia. No entanto, esta pressão por produtividade parece não ter sido acompanhada de suporte adequado ou reconhecimento proporcional, como evidenciado pela sensação de desvalorização profissional (Gráfico 26). A combinação entre cobrança exacerbada por produtividade e a falta de suporte organizacional adequado pode explicar os elevados índices de estresse e a percepção apenas regular da saúde mental identificados na amostra, indicando que o aumento da eficiência operacional foi alcançado à custa do bem estar dos profissionais contábeis.
Gráfico 33 – Suporte das empresas para lidar com mudanças

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam uma distribuição preocupante quanto ao suporte organizacional recebido durante o período de transformações. Apenas 58,3% dos profissionais afirmaram ter recebido suporte total de suas empresas, enquanto 33,3% relataram ter recebido apoio apenas parcial e 8,3% declararam não ter recebido qualquer tipo de suporte institucional. Este achado evidencia uma significativa lacuna na gestão organizacional do setor contábil durante o processo de adaptação às mudanças pós pandemia. O fato de que 41,6% dos profissionais (soma dos que receberam apoio parcial e nenhum apoio) não tiveram suporte adequado corrobora a tese de Batista (2021) de que a ausência de políticas de apoio organizacional fragiliza a motivação e aumenta os riscos de insatisfação profissional. Esta deficiência no suporte empresarial estabelece uma relação direta com outros resultados da pesquisa: a sensação de desvalorização profissional (Gráfico 26), o ambiente de trabalho considerado desfavorável (Gráfico 27), os elevados níveis de estresse (Gráfico 25) e a insatisfação profissional (Gráfico 29). A falta de suporte adequado parece ter deixado os profissionais vulneráveis às pressões decorrentes das mudanças, exacerbando os desafios de adaptação e contribuindo para a deterioração do bem estar no trabalho. O resultado sugere que as organizações contábeis concentraram seus esforços na implementação de soluções técnicas e operacionais, negligenciando o aspecto igualmente crucial do suporte humano e organizacional necessário para uma transição bem sucedida, representando assim uma importante limitação na gestão das mudanças implementadas no setor.
Gráfico 34 – Desenvolvimento de novas habilidades técnicas

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que a esmagadora maioria dos profissionais (91,7%) reconheceu a necessidade de desenvolver novas competências técnicas após a pandemia, enquanto apenas 8,3% não identificaram esta necessidade. Este achado corrobora a intensidade das transformações digitais ocorridas no setor contábil e a consequente demanda por atualização profissional. A elevada porcentagem de profissionais que perceberam esta necessidade reflete a magnitude das mudanças implementadas e o reconhecimento de que a adaptação bemsucedida exigiu mais do que simples familiarização com novas ferramentas, mas sim a aquisição de competências substantivas. Este resultado contradiz a noção de que a transição digital ocorreu de forma natural ou sem exigências significativas de aprendizado. Conforme observado por Mendes (2022), muitos profissionais podem subestimar a complexidade das habilidades desenvolvidas, caracterizando-as como meros “ajustes” rather than reconhecendoas como novas competências técnicas. No entanto, a percepção majoritária da necessidade de desenvolvimento sugere que os contadores estão conscientes das demandas por qualificação contínua em um setor em rápida transformação. Este achado ressalta a importância de políticas de educação continuada e desenvolvimento profissional no setor contábil, indicando que os profissionais estão predispostos à aquisição de novas competências, mas necessitam de suporte estruturado para acompanhar o ritmo das inovações tecnológicas e metodológicas que continuam a moldar a profissão contábil no cenário pós-pandêmico.
Gráfico 35 – Busca por capacitação própria

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados revelam que a expressiva maioria dos profissionais (83,3%) buscou capacitação por iniciativa própria após as mudanças implementadas no período pós pandemia, enquanto apenas 16,7% não realizaram qualquer investimento em cursos ou treinamentos. Este achado demonstra um notável engajamento dos profissionais contábeis em seu próprio desenvolvimento, contradizendo a noção de baixa iniciativa individual. A elevada porcentagem de profissionais que buscaram capacitação voluntária reflete o reconhecimento da necessidade de atualização constante em um setor em transformação acelerada. Este resultado complementa o achado anterior (Gráfico 34), onde 91,7% dos profissionais identificaram a necessidade de desenvolver novas competências, indicando que esta percepção se traduziu em ação concreta pela maioria. No entanto, é crucial contextualizar este esforço individual com outros dados da pesquisa. A busca por capacitação ocorreu em um cenário marcado por sobrecarga de trabalho (Gráfico 24), aumento do estresse (Gráfico 25) e falta de tempo para descanso e lazer (Gráfico 18), sugerindo que os profissionais assumiram a responsabilidade por sua atualização muitas vezes às custas de seu tempo pessoal e bem-estar. Conforme observado por Santos (2021), este resultado reforça a necessidade de políticas institucionais de educação continuada que complementem e apoiem os esforços individuais, distribuindo de forma mais equilibrada a responsabilidade pela capacitação profissional entre organizações e colaboradores, especialmente em um contexto de transformação digital acelerada que exige atualização constante.
Gráfico 36 – Preparação para mudanças futuras

Fonte: Dados da pesquisa (Google Forms, 2025).
Os resultados demonstram que a maioria significativa dos profissionais (83,3%) considerase mais preparada para enfrentar mudanças repentinas após as experiências vivenciadas durante a pandemia, enquanto 16,7% avaliam estar parcialmente preparados. É relevante destacar que nenhum profissional declarou sentir-se despreparado para futuras transformações. Este achado revela um importante legado positivo do período pós pandêmico: o desenvolvimento de resiliência e capacidade adaptativa por parte dos profissionais contábeis. A experiência prática em lidar com mudanças abruptas, a adaptação forçada às tecnologias digitais e a reorganização das rotinas de trabalho parecem ter conferido maior confiança aos profissionais para enfrentar futuros cenários de transformação. No entanto, a existência de uma parcela considerável (16,7%) que se sente apenas parcialmente preparada, associada à ausência de respostas na categoria “não preparado”, sugere uma confiança cautelosa rather than uma segurança plena. Conforme observado por Ferreira (2022), a percepção de vulnerabilidade persiste mesmo entre profissionais experientes, especialmente quando as organizações não oferecem suporte estrutural contínuo para o desenvolvimento de competências.
Este resultado final do estudo indica que, apesar dos desafios e impactos negativos na qualidade de vida identificados ao longo da pesquisa, a experiência pandêmica deixou como saldo positivo o fortalecimento da capacidade adaptativa dos profissionais, preparando-os melhor para futuras mudanças no setor contábil, ainda que permaneça a necessidade de maior suporte organizacional e políticas estruturadas de capacitação contínua.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo investigar os impactos das mudanças nas rotinas contábeis no período pós-pandêmico sobre a qualidade de vida dos profissionais da área, considerando aspectos como produtividade, bem-estar, estresse e satisfação no trabalho. Os resultados demonstraram que a pandemia de COVID-19 atuou como um acelerador de transformações significativas no setor contábil, promovendo a adoção de tecnologias digitais, a reorganização dos modelos de trabalho e a redefinição das relações profissionais.
As hipóteses que norteiam esta pesquisa foram parcialmente confirmadas. A primeira hipótese (H1), que previa aumento da carga de trabalho e impactos negativos na qualidade de vida, encontrou respaldo nos relatos de sobrecarga, prazos mais curtos, elevação do estresse e dificuldades de conciliar vida pessoal e profissional. Por outro lado, a segunda hipótese (H2), que sugeria ganhos em autonomia, flexibilidade e produtividade com a implementação de modelos híbridos e remotos, também se confirmou, embora esses benefícios tenham vindo acompanhados de desafios, como a diluição dos limites entre vida pessoal e profissional e a exigência de disponibilidade constante.
Um ponto central que emergiu do estudo foi o paradoxo vivido pelos profissionais: enquanto a digitalização e a flexibilidade trouxeram ganhos em eficiência e produtividade, também impuseram pressões adicionais que afetaram o bem-estar mental e a qualidade de vida. Aspectos como sensação de desvalorização, falta de suporte organizacional e tempo insuficiente para descanso e lazer foram apontados como fatores críticos que limitaram os benefícios das novas práticas de trabalho. Observou-se, ainda, que profissionais com maior acesso a recursos tecnológicos, suporte institucional e capacitação prévia adaptaram-se com mais facilidade e alcançaram resultados mais positivos, enquanto aqueles com menor suporte enfrentaram maiores desafios e impactos mais severos na saúde mental.
A partir desses resultados, destacam-se implicações práticas importantes: escritórios e empresas contábeis devem desenvolver políticas de gestão de pessoas que integrem inovação tecnológica e bem-estar profissional. Entre as recomendações estão a implementação de programas de capacitação contínua em ferramentas digitais, definição clara de limites entre jornada de trabalho e vida pessoal mesmo em modelos híbridos, promoção de ações de saúde mental, como acompanhamento psicológico e gestão do estresse, e valorização profissional por meio de reconhecimento e suporte institucional.
Quanto às limitações, destaca-se o tamanho reduzido da amostra, restrita a profissionais do estado do Ceará, o que impede a generalização dos resultados para o contexto nacional.
Além disso, a natureza transversal da pesquisa não permite estabelecer relações de causa e efeito nem acompanhar tendências de longo prazo. Pesquisas futuras podem ampliar a amostra para outras regiões do Brasil, comparar diferentes perfis e portes de empresas, realizar estudos longitudinais sobre a evolução da qualidade de vida e das rotinas contábeis, e investigar estratégias de resiliência adotadas pelos profissionais.
Conclui-se que, as transformações desencadeadas pela pandemia representam um marco na história da contabilidade, inaugurando uma era de maior digitalização, flexibilidade e adaptabilidade. Para que essas mudanças sejam sustentáveis e humanas, é fundamental que os avanços tecnológicos caminhem lado a lado com o cuidado com os profissionais que os implementam. O futuro da profissão contábil dependerá não apenas da eficiência operacional, mas também da capacidade de equilibrar inovação com qualidade de vida, garantindo que o progresso técnico não se sobreponha ao bem-estar e à dignidade daqueles que constituem a base do setor.
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1Discente do Curso de Bacharelado em Ciências Contábeis da Universidade Estadual do Ceará (UECE). E-mail: amandasantospaivaasp25@gmail.com
2Docente do Curso de Bacharelado em Ciências Contábeis da UECE. Mestre em Logística e Pesquisa Operacional (UFC). e-mail: rosangela.nunes@uece.br
