RESILIENCE TOWARDS OCCUPATIONAL STRESS IN THE EDUCATIONAL CONTEXT: PRECEPTS AND CONCEPTS
RESILIENCIA ANTE EL ESTRÉS LABORAL EN EL CONTEXTO EDUCATIVO: PRECEPTOS Y CONCEPTOS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510291514
Rosa Maria Braga Lopes de Moura
Cristiane Rodrigues da Silva
Cibele Vieira Florindo de Castro
Marfiza Negrine Fernandez
Margareth Cristine dos Santos Teixeira
Maria Eduarda Domingues Sperotto
Renata dos Anjos Velho
Selenia Zunino Buchvaitz
Simone de Freitas Cruz
Cinthia Fernanda Gonçalves da Silva
RESUMO
A docência configura-se como uma atividade de alta complexidade, caracterizada por inúmeras demandas, pressões institucionais e exigências emocionais recorrentes. O estresse no ambiente de trabalho estão associados a desvalorização, o salário de baixa qualidade e a carga horária excessiva, indisciplina dos discentes e a interferência dos pais bem como da gestão escolar na autonomia docente ocasionando alta incidência de estresse, ansiedade, depressão e burnout. Portanto, a primeira situação-problema é de ordem quantitativa que diz respeito ao excesso de trabalho dos docentes. O segundo fator, de ordem qualitativa, diz respeito à falta de realização desses profissionais. Sendo assim, o problema de pesquisa do presente estudo é elencado em duas subsequentes questões: “Quais fatores estão associados ao estresse disfuncional docente” ? e “Como manter a saúde mental no contexto ocupacional” ? A hipótese para responder ao problema de pesquisa, é o gerenciamento do estresse disfuncional através do desenvolvimento da competência socioemocional -resiliência – e as práticas de mindfulness para o controle cognitivo das emoções. Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa e exploratória de natureza descritiva do tipo estudo de caso que objetivou analisar o estresse ocupacional docente. Para tanto, o método da coleta de dados utilizado foi um questionário adaptado sobre “Saúde Mental e Trabalho”. Por meio de entrevistas semiestruturadas, buscou-se compreender as causas, manifestações e repercussões do sofrimento físico e emocional vivenciado pelos docentes. Diante do exposto, o objetivo do presente estudo é investigar os principais fatores que aumentam os níveis de estresse ocupacional bem como as contribuições da neurociência da resiliência em prol da saúde mental no contexto educacional.
Palavras-chave: Adoecimento. Docente. Estresse. Ocupacional.
ABSTRACT
Teaching is a highly complex activity, characterized by numerous demands, institutional pressures, and recurring emotional demands. Stress in the workplace is associated with devaluation, low-quality salaries, excessive workloads, student indiscipline, and interference from parents and school administration in teacher autonomy, leading to a high incidence of stress, anxiety, depression, and burnout. Therefore, the first problem situation is quantitative, concerning teacher overwork. The second factor, qualitative, concerns the lack of fulfillment of these professionals. Therefore, the research problem of this study is listed in two subsequent questions: “What factors are associated with dysfunctional stress in teachers?” and “How can we maintain mental health in the occupational context?” The hypothesis to answer this research problem is the management of dysfunctional stress through the development of socioemotional competence (resilience) and mindfulness practices for cognitive control of emotions. This is a qualitative, exploratory, descriptive case study that aimed to analyze occupational stress among teachers. The data collection method used was an adapted questionnaire on “Mental Health and Work.” Through semi-structured interviews, we sought to understand the causes, manifestations, and repercussions of the physical and emotional distress experienced by teachers. Given the above, the objective of this study is to investigate the main factors that increase occupational stress levels, as well as the contributions of the neuroscience of resilience to mental health in the educational context.
Keywords: Illness. Teacher. Stress. Occupational.
RESUMEN
La docencia es una actividad altamente compleja, caracterizada por numerosas exigencias, presiones institucionales y demandas emocionales recurrentes. El estrés laboral se asocia con la devaluación, salarios bajos, cargas de trabajo excesivas, indisciplina estudiantil e interferencia de padres y administradores escolares en la autonomía docente, lo que genera una alta incidencia de estrés, ansiedad, depresión y agotamiento profesional. Por lo tanto, el primer problema es cuantitativo y se refiere a la sobrecarga de trabajo docente. El segundo factor, cualitativo, se refiere a la falta de realización personal de estos profesionales. Por lo tanto, el problema de investigación de este estudio se resume en dos preguntas: “¿Qué factores se asocian con el estrés disfuncional en el profesorado?” y “¿Cómo podemos mantener la salud mental en el contexto laboral?”. La hipótesis para responder a este problema de investigación es la gestión del estrés disfuncional mediante el desarrollo de la competencia socioemocional (resiliencia) y prácticas de atención plena para el control cognitivo de las emociones. Se trata de un estudio de caso cualitativo, exploratorio y descriptivo que tuvo como objetivo analizar el estrés laboral en el profesorado. El método de recolección de datos utilizado fue un cuestionario adaptado sobre “Salud Mental y Trabajo”. Mediante entrevistas semiestructuradas, buscamos comprender las causas, manifestaciones y repercusiones del malestar físico y emocional que experimentan los docentes. Por lo anterior, el objetivo de este estudio es investigar los principales factores que incrementan los niveles de estrés laboral, así como las contribuciones de la neurociencia de la resiliencia a la salud mental en el contexto educativo.
Palabras clave: Enfermedad. Docente. Estrés. Ocupacional.
INTRODUÇÃO
O estresse profissional ou ocupacional é entendido como a interação de condições laborais e de características do indivíduo, de tal modo que as exigências que lhe são criadas ultrapassam a capacidade de enfrentamento (GOMES, 2008). Entretanto, os transtornos psíquicos parecem ser a principal causa dos afastamentos do trabalho (GASPARINI, 2005). Tal dado é preocupante e coloca em evidência a necessidade de investigação sobre o estresse, pois este pode ser deflagrador dessas disfunções.
Anualmente, segundo o levantamento da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), mais de 150 mil professores da rede pública brasileira foram afastados de suas funções por motivos relacionados à saúde mental.
Segundo a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), o Brasil é o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão. Quando esse quadro se cruza com o ambiente escolar, um dos mais estressantes segundo estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o resultado é alarmante: 72% dos docentes relatam já ter sentido sinais de esgotamento ou colapso mental.
Os seres humanos são muito suscetíveis ao contexto social, às regras, aos padrões e aos valores de outras pessoas que afetam diretamente nosso jeito de pensar, sentir e agir. Indubitavelmente, o conhecimento sobre o comportamento humano favorece nossa cognição social, sendo que aprofunda os processos mentais pelos quais a pessoa compreende a si mesma, aos outros e às situações sociais (GAZZANIGA, 2005).
De acordo com Damásio (1996), o controle homeostático, impulsos e instintos são o cerne da regulação biológica, na qual as emoções e sentimentos também são atuantes. Portanto, percebe-se que a regulação do corpo, a sobrevivência e a mente estão extremamente relacionados. O hipotálamo está localizado acima da hipófise, ocupando uma posição ventral do diencéfalo ao redor do terceiro ventrículo. Pode ser dividido em três zonas longitudinais: periventricular, medial e lateral. A zona periventricular do hipotálamo está envolvida com o controle do sistema endócrino, por meio da secreção de hormônios pela neurohipófise, tais como o hormônio antidiurético (ADH) e a ocitocina.
O termo resiliência surgiu, originário do latim resilio que significa “ser elástico”. Esse surgimento no cenário científico moderno, compôs o vocabulário da física e da engenharia (TIMOSHEIBO, 1983).
A neurociência da resiliência é um campo de estudo promissor que busca compreender os mecanismos cerebrais envolvidos na capacidade de uma pessoa lidar com adversidades e se recuperar de situações estressantes. Através da neurociência, é possível desenvolver estratégias e intervenções para fortalecer a resiliência e promover o bem-estar emocional. Compreender como o cérebro está envolvido na resiliência e como podemos fortalecer essa capacidade é fundamental para lidar de forma mais eficaz com os desafios da vida e promover uma sociedade mais saudável e resiliente.
Para Seligman (2000), a resiliência está relacionada à compreensão dos riscos e fatores de proteção, podendo ser transformado na capacidade de o ser humano não adoecer, mesmo quando exposto a condições prejudiciais à saúde e ao desenvolvimento. Desse modo, com o incentivo da investigação das motivações do ser humano, o construto resiliência começou a ser investigado sob a ótica do desenvolvimento humano.
Na percepção de Rocha (2008) a profissão docente enfrenta altas exigências tais como ritmo de trabalho acelerado, desempenho por produtividade, falta de autonomia, baixa remuneração, exigências de trabalho, desvalorização, desqualificação social e excesso de esforço físico e mental; todas essas demandas se interligam em um mundo que se globaliza, tenciona-se e exige flexibilidade constante, além do docente ter que dar conta de novas tecnologias na sua práxis.
Nesse cenário, os profissionais da educação encontram-se em uma situação constante e recorrente de vulnerabilidade reverberando na saúde mental. Ainda assim, espera-se que o docente mantenha uma postura equilibrada, empática e assertiva, o que contribui para ampliar a sobrecarga emocional e mental associada ao exercício da docência (AGYAPONG et al., 2022; MA et al., 2023).
Nos estudos de Cortez et al., (2017) indicam crescimento do adoecimento docente relacionado ao trabalho e ao sofrimento psíquico. Os autores ressaltam que se deve compreender os elementos relacionados à saúde no trabalho do professor de forma multideterminada. No entanto, apresentam pontos que convergem em diferentes estudos, tais como: a intensificação da jornada de trabalho; a desarticulação das políticas que legislam sobre o tema, pois perpetua-se a construção de um ciclo de adoecimento físico e mental, intensificado pelo sofrimento que leva à desestruturação psíquica e outros problemas aos docentes.
O adoecimento docente tem se configurado como um fenômeno crescente na realidade das escolas públicas brasileiras, especialmente no ensino fundamental. A sobrecarga de trabalho, as condições precárias de infraestrutura, a violência simbólica e o baixo reconhecimento profissional compõem um cenário que impacta diretamente a saúde física e mental dos professores (CODO, 2006; TARDIF, 2012).
Nas últimas décadas, o ensino público tem sido atravessado por políticas de avaliação em larga escala, metas de desempenho e burocratização do cotidiano escolar, elementos que intensificam o trabalho e minam o sentido da docência (DEJOURS, 2015; NÓVOA, 2017).
Estudos recentes apontam para o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais entre docentes da rede pública, configurando um problema de saúde coletiva (MARTINS et al., 2024; SANTOS, 2022; SILVA, 2023).
Araújo e Colaboradores (2019) destacam um processo de intensificação do trabalho, relacionando-o à precarização econômica e precarização das condições de trabalho e modelos de gestão flexível que alteram as rotinas laborais e as formas de controle. Esses, entre outros fatores, geram repercussões na saúde física e mental e no desempenho profissional docente.
Para os especialistas, a quantidade de trabalho desenvolvida, a falta de reconhecimento, o declínio no discurso de autoridade e a falta de autonomia são alguns dos fatores que podem estar ligados ao maior adoecimento dos docentes. No entendimento de Ribeiro do Instituto de Psicologia (IP) da USP, ao analisar possibilidades para as causas desse adoecimento é preciso partir do pressuposto que não são apenas condições preexistentes dos docentes que pioram sua saúde mental. Atualmente, existe um declínio no discurso de autoridade, que reverbera na valorização do docente como profissional. Além disso, a valorização da opinião pública e o ataque à ideia do conhecimento, estremeceram a posição de autoridade desses profissionais, inclusive dos docentes – que muitas vezes ocupam um espaço de pouca legitimidade e sofrem ataques.
De acordo com o autor supramencionado, uma forma de melhorar a condição de trabalho dos docentes está na tentativa de restituir a autonomia e respeito. Desse modo, é importante que um trabalho colaborativo entre docentes, gestores educacionais, pais e instâncias políticas seja realizado para que todos os grupos se sintam contemplados e as decisões sejam tomadas de forma conjunta.
Agyapong et al. (2024) aponta que o burnout configura-se como uma forma de disforia ocupacional comum em profissões de serviços humanos, como a docência, caracterizadas por intenso envolvimento interpessoal.
Ryff (2002) distingue bem estar – hedónico e eudaimonia – a partir de pesquisas sobre bem estar subjetivo (BES) e bem estar psicológico (BEP), constituindo expressões amplamente adotadas nesse campo de estudos. Em estudo posterior, Ryff (2004) demonstrou que maiores níveis de bem estar eudaimônico estava associado positivamente ao bom colesterol, a menor risco de doença cardiovascular, melhor regulação neuroendócrina, melhor sono reparador e a menores níveis da IL-6 citocina no plasma, associada a diversos processos inflamatórios crônicos. Sendo assim, a relação entre indivíduo e trabalho sugere a busca de um equilíbrio entre atividade desenvolvida e seus resultados no indivíduo, uma vez que pode interferir significativamente no bem estar com consequente impacto na qualidade de vida.
Relatórios recentes demonstraram respostas moleculares alteradas que contribuíram para a hipótese de que a plasticidade neural disfuncional intensifica a instalação dos transtornos psiquiátricos relacionados ao estresse. O estresse crônico afeta a neuroplasticidade ressaltando a importância de reconhecer o estresse como um problema de saúde e buscar apoio para a motivação, a criatividade e o gerenciamento do tempo para potencializar a rotina escolar com o propósito de mitigar os efeitos do estresse.
Um dos exemplos mais bem caracterizados de plasticidade estrutural alterada em resposta ao estresse é a atrofia dos neurônios do hipocampo (McEWEN, 1999). O estresse de restrição repetido resulta em atrofia dos dendritos dos neurônios piramidais CA3 no hipocampo, medida como uma diminuição no número e comprimento dos dendritos apicais (WOOLEY, 1990).
Na percepção de Castro (2023), o primeiro passo para diminuir o estresse disfuncional é a autoconsciência necessária para conhecer o perfil de trabalho, como os horários mais produtivos e que o profissional tem mais disposição. O segundo aspecto, é o autogerenciamento denominado autorregulação. Tendo em vista essas considerações, o tema é sobre como ter a habilidade de escolher a forma de reagir às emoções e como não responder impulsivamente a situações estressantes. Na automotivação, é necessário encontrar maneiras para relaxar que sejam pessoalmente significativas, pois o que funciona para uma pessoa, pode não funcionar para outra. Resiliência é uma das habilidades comportamentais mais valorizadas no ambiente de trabalho. Além disso, enfatiza a importância da auto responsabilidade, em que as pessoas assumem a responsabilidade por suas ações e emoções.
Na sequência, de acordo com a autora, o quarto aspecto abordado é a empatia, que busca entender as emoções dos outros, respeitar os espaços e abrir espaço para que os outros errem e aprendam. Por fim, saber se relacionar bem e gerenciar as emoções, facilita na conexão com as pessoas de forma produtiva no ambiente de trabalho. Assim, a habilidade social é fundamental para o trabalho em equipe e para a construção de uma carreira sólida.
A prática de mindfulness provoca mudanças neuroplásticas no cérebro, impactando sua estrutura e função tais como o aumento na massa cinzenta do hipocampo, redução da amígdala e melhora nas redes neurais de atenção e regulação emocional com redução do estresse. De acordo com a neurocientista, o mindfulness pode aumentar a atividade do córtex subgenual, uma área do cérebro envolvida no controle cognitivo das emoções.
Tendo em vista as considerações supracitadas, o objetivo do presente estudo é investigar os principais fatores que aumentam os níveis de estresse dos docentes bem como as contribuições da neurociência da resiliência em prol da saúde mental no contexto educacional. Nesse viés, justifica-se a relevância desta temática para estudos posteriores bem como para a criação de políticas de apoio e intervenção.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa e exploratória de natureza descritiva do tipo estudo de caso que objetivou analisar o estresse ocupacional docente. Para tanto, o método da coleta de dados utilizado foi um questionário adaptado sobre Saúde Mental e Trabalho.
Por meio de entrevistas semiestruturadas, buscou-se compreender as causas, manifestações e repercussões do sofrimento físico e emocional vivenciado pelos docentes.
O estudo foi realizado em uma escola pública municipal de ensino fundamental na cidade de Rio Grande (RS). Participaram 20 docentes — dezoito mulheres e dois homens — com idades entre 42 e 58 anos e tempo de docência variando entre 14 e 25 anos. A pesquisa seguiu os princípios éticos da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, com garantia de anonimato.
Os dados foram analisados segundo a análise de conteúdo de Bardin (2011), permitindo a identificação de categorias emergentes relacionadas ao sofrimento docente, condições de trabalho e estratégias de enfrentamento.
Antes da formação, os entrevistados relataram comprometimento com o trabalho e que valorizam a profissão. Por outro lado, os obstáculos mais significativos são a falta de valorização como baixos salários; desinteresse dos alunos; a falta de recursos adequados e a sobrecarga de trabalho com implicações na saúde física e emocional.
Na sequência, foi realizado 4 encontros com carga horária de 20 horas distribuídas entre roda de conversa, relato de experiência e palestras sobre neuroplasticidade e suas implicações frente ao estresse disfuncional e o gerenciamento do estresse e seus desdobramentos na saúde física e emocional tendo em vista os conhecimentos advindos da neurociência da resiliência – campo de estudo que busca compreender como o cérebro e o sistema nervoso estão envolvidos na capacidade de um indivíduo lidar com adversidades e se recuperar de situações estressantes bem como os mecanismos cerebrais envolvidos nesta habilidade comportamental.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O estresse envolve o aumento da ativação psicológica e física exigida pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal ativado, que é incompatível com o sono normal. Com isso, os profissionais docentes são mais suscetíveis aos efeitos negativos do estresse ocupacional, ou seja, menos resilientes, podendo sofrer distúrbios biológicos ou comportamentais (SOUSA, 2015).
A exposição prolongada ao estresse pode levar à atrofia do hipocampo, uma região do cérebro essencial para a memória. Além disso, pode prejudicar a concentração, reduzir a capacidade de tomada de decisão e aumentar o risco de transtornos como ansiedade e depressão.
O estresse ao desencadear uma resposta inflamatória no corpo, aumenta o risco de doenças neurodegenerativas. Portanto, a inflamação pode comprometer a neuroplasticidade bem como a interferência na qualidade do sono ao elevar os níveis de cortisol agravando os problemas cognitivos.
Na percepção de Zhang (2020), o adoecimento psíquico está relacionado à exposição recorrente aos estressores aumentando significativamente os fatores de risco. Tendo em vista que quanto maiores forem os axônios que conectam um neurônio a outro, que ligam o córtex pré-frontal à amígdala, mais resiliente é a pessoa. Ao inibir a amígdala, o córtex pré-frontal consegue acalmar os sinais associados às emoções negativas, permitindo que o cérebro planeje e atue de forma efetiva, sem ser distraído pelas emoções negativas. Dessa forma o indivíduo tem maiores condições de recuperar-se após as adversidades.
Para Davidson (2013), a resiliência é marcada por maior ativação no lado esquerdo do córtex pré-frontal em comparação com o direito. Segundo ele, o córtex pré-frontal é a sede da atividade cognitiva de mais alta ordem do discernimento, do planejamento e de outras funções executivas. Durante suas pesquisas foi levantada a possibilidade de que o córtex pré-frontal esquerdo talvez inibisse a amígdala, facilitando assim a recuperação após as adversidades.
Este pensamento surgiu com base nos grandes feixes de neurônios que ligam determinadas regiões do córtex pré-frontal à amígdala. A utilização da ressonância magnética permitiu que nos dias de hoje fosse entendido que, quanto maior for a massa branca (os axônios que conectam um neurônio a outro) que liga o córtex pré-frontal à amígdala, mais resiliente é a pessoa. Inibindo a amígdala, o córtex pré-frontal consegue acalmar os sinais associados às emoções negativas, permitindo que o cérebro planeje e atue de forma efetiva, sem ser distraído pelas emoções negativas (DAVIDSON, 2013).
Os resultados dos exames de ressonância magnética, demonstraram que quanto maior for a massa branca que liga o córtex pré-frontal à amígdala, mais resiliente é o indivíduo. Desse modo, ao inibir a amígdala, o córtex pré-frontal consegue diminuir os sinais associados às emoções negativas, permitindo que o cérebro planeje a regulação eficaz dessas emoções (DAVIDSON, 2013).
Taboada (2006) explica que a resiliência é capacidade de ressignificação e superação diante das adversidades da vida, e trazendo assim, a adaptação mais saudável a esse contexto. Com relação ao estresse, por exemplo, os autores afirmam que o indivíduo deixa de culpar os outros e passa a responsabilizar-se por aquilo que está acontecendo.
Em relação aos fatores protetivos associados à resiliência e à saúde, o trabalho em equipe eficiente trará inúmeros resultados, incluindo relacionamentos interpessoais agradáveis, habilidades e cooperação coletiva, fornecendo assim um bem-estar profissional. Essa situação oferece grande potencial e capacidade para o apoio de supervisores e colegas de trabalho, que compartilham da experiência em conjunto (CORREIO, 2016).
Mello (2011) assevera que a resiliência não é apenas uma competência comportamental que nasce com o indivíduo, uma vez que se constitui como um processo individual, social, ambiental, espiritual vivido ao longo do desenvolvimento, sendo esse multifacetado, dinâmico e flexível.
A resiliência é muito mais que superar adversidades, pois envolve um processo constante de construção que é ativado, após um evento traumático. É um processo determinado pela construção de si, ao longo da vida, reconhecendo-se que existem fatores externos e internos que permitem a potencialização das capacidades que possibilitam o desenvolvimento de perspectivas positivas sobre si e sobre a realidade. O fato de estar nesse mundo implica viver situações difíceis e crescer requer resolver situações de conflito e de crise durante a existência. Assim, resiliência significa ressignificar o evento danoso que causou o abalo, avaliando-o como uma oportunidade de desenvolvimento e individuação e como uma chance de fortalecer o elo com a vida. Sendo assim, posturas vitimizadas podem ser alteradas por posturas otimistas em relação ao futuro (ARAUJO, 2011).
Alguns dos principais temas de pesquisa incluem a influência dos genes na resiliência, o papel dos neurotransmissores na regulação emocional, os efeitos do estresse crônico no cérebro e as intervenções terapêuticas para fortalecer a resiliência. Essas pesquisas têm o objetivo de fornecer novas informações e estratégias para promover a resiliência e o bem-estar emocional.
Em momentos desfavoráveis da prática profissional, é fundamental estabelecer meios altruístas na busca de apoio entre os membros da equipe e compartilhar experiências em momentos desfavoráveis para estimular a vida, podem prevenir a exposição aos fatores de risco associados à saúde mental (SUN et al., 2020).
Com base nessas afirmações, cabe ressaltar a importância de trabalhar a capacidade resiliente dos docentes sendo que vivências relacionadas ao trabalho podem levar ao adoecimento psíquico.
Os docentes que participaram do estudo adotaram a prática de mindfulness. Cabe ressaltar que não ocorreu essa prática na formação, por outro lado, o conhecimento abordado foi norteador para despertar o interesse dos participantes com o propósito de potencializar a saúde mental.
A prática consistente de mindfulness resulta em neuroplasticidade devido ao aumento da produção do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Uma das melhores revelações documentadas na literatura científica sobre o BDNF é o aumento da espessura cortical, principalmente no córtex pré-frontal e no córtex cingulado anterior (ACC). Além disso, o ACC está envolvido em aspectos críticos da atenção e autorregulação. Portanto, a atenção plena fortalece as partes do cérebro essenciais para manter o controle sobre a fisiologia do estresse e das respostas emocionais. Nesse viés, algumas situações estressoras podem ser passíveis de mudanças; isso ocorre no momento em que identificam suas necessidades e a expressam com intuito de melhorar seu contexto de trabalho através da preocupação com o ensino e da qualidade das tarefas que executam (CALDERONE, 2024).
A análise das entrevistas revelou os eixos centrais do estresse docente: Os participantes relataram acúmulo de funções, excesso de turmas e demandas burocráticas, bem como a função de mediadores e gestores de conflitos. Esses achados dialogam com Tardif (2012), que destaca a complexidade crescente do trabalho docente e a tendência à intensificação laboral.
Os docentes descreveram sentimentos de impotência diante da indisciplina, falta de apoio da gestão e ausência de reconhecimento social em consonância com a afirmação de Dejours (2015) que o sofrimento no trabalho surge quando há descompasso entre o esforço do trabalhador e o reconhecimento recebido, gerando frustração e adoecimento psíquico.
Pesquisas recentes também confirmam que o esvaziamento simbólico da docência tem levado à desmotivação e ao aumento de licenças médicas por depressão e ansiedade (SANTOS, 2022; MARTINS et al., 2024).
Entre os 20 participantes, 18 relataram já ter sido afastados por motivos de saúde. Os diagnósticos mais comuns incluíram síndrome de burnout, ansiedade generalizada, hipertensão arterial e distúrbios do sono. Esses resultados corroboram com as análises de Esteve (1999) e, posteriormente de Codo (2006) que associam o burnout docente à desumanização das relações escolares e ao enfraquecimento do prazer de ensinar.
No contexto do ensino fundamental, o sofrimento é agravado pelo contato cotidiano com realidades sociais complexas, indisciplina e carências estruturais.
Conforme Nóvoa (2017), o docente trabalha em uma “escola do mal-estar”, marcada pela contradição entre o desejo de educar e a impotência diante das condições de trabalho.
A análise realizada demonstrou que o estresse ocupacional docente está associado a sobrecarga de trabalho, exigências emocionais constantes, conflitos interpessoais e carência de suporte institucional adequado. Esses fatores afetam diretamente a saúde mental dos docentes, comprometendo o desempenho profissional, as relações interpessoais no ambiente escolar e a qualidade do processo de ensino-aprendizagem.
No estudo de Correio (2016) sobre os fatores protetivos associados à resiliência, o autor pontuou que o trabalho em equipe eficiente e justo trará inúmeros resultados, incluindo relacionamentos interpessoais agradáveis, habilidades e cooperação coletiva, fornecendo assim um bem-estar profissional. Essa situação oferece grande potencial e capacidade para o apoio de supervisores e colegas de trabalho, que compartilham da experiência em conjunto.
Segundo Sun et al., (2020), em momentos desfavoráveis da prática profissional, é fundamental estabelecer meios altruístas na busca de apoio entre os membros da equipe e compartilhar experiências em momentos desfavoráveis para estimular a vida, podem prevenir a exposição aos fatores de risco associados à saúde mental. Com base nessas afirmações, cabe refletir sobre a importância de se trabalhar a capacidade resiliente sendo que vivências relacionadas ao trabalho podem levar ao adoecimento psíquico.
O estresse profissional no ensino fundamental da escola pública é resultado de um conjunto de fatores interligados: intensificação do trabalho, desvalorização profissional, ausência de apoio institucional e fragilidade das políticas de cuidado. Os vinte casos analisados revelam que o sofrimento docente não se restringe à dimensão individual, mas constitui um problema coletivo e estrutural da educação pública.
O presente estudo foi realizado com um número restrito de docentes. Apesar desta limitação, os resultados corroboram com os dados já divulgados na literatura científica recente acerca do estresse ocupacional docente. Assim sendo, espera-se que esta pesquisa tenha problematizado a realidade docente bem como as intervenções que visem mudanças no contexto laboral.
Por fim, ocorreu o relato de experiências dos participantes e o impacto promissor ocasionado pelas mudanças no comportamento docente devido ao conhecimento adquirido na formação continuada.
Após a formação, os docentes pontuaram os benefícios do conhecimento adquirido e, principalmente, das mudanças comportamentais para o gerenciamento do estresse disfuncional intitulado como “estresse ocupacional”. Desse modo, o gerenciamento do estresse ocupacional advindos da prática de Mindfulness bem como das contribuições da neurociência da resiliência revelam-se um campo profícuo a ser investigado devido à variedade de comprovações e possibilidades de estudos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A valorização simbólica e material do docente deve ser entendida como condição essencial para a qualidade do ensino e para a sustentabilidade cognitiva, emocional e comportamental do educador. Além disso, é importante um trabalho colaborativo entre docentes, gestores educacionais, pais e instâncias políticas seja realizado para que todos os grupos se sintam contemplados e as decisões sejam tomadas de forma conjunta.
Tendo em vista o absenteísmo dos profissionais da educação, torna-se necessário que atuações multifocais sejam realizadas para amenizar os fatores de risco. Apesar da inegável contribuição da neurociência da resiliência para a compreensão do comportamento humano, ainda há de se estabelecer muito mais pontes para formar uma base confiável de conhecimento sobre o comportamento humano. Para além disso, observa-se no contexto atual, fragilidades emocionais, inseguranças e incertezas que convocam os docentes a exercerem a competência socioemocional intitulada “resiliência”. No contexto educacional, as evidências sugerem que a resiliência pode ser melhorada através de fatores protetivos influenciados por desafios que sustentam sua capacidade de adaptação diante das adversidades. Afinal, a resiliência não é inata, no entanto, pode ser desenvolvida e fortalecida em ambientes colaborativos.
Por fim, conclui-se que, à medida que o mercado de trabalho valoriza cada vez mais habilidades comportamentais, essas se tornam imperativas para o gerenciamento efetivo do estresse ocupacional. Sendo assim, o presente estudo de caso, reforça a urgência de repensar o papel deste profissional e de investir em políticas públicas que reconheçam o caráter humano e relacional da docência.
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