REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511251450
Rita de Cássia Fonseca
Beatriz de Farias
RESUMO
Este estudo analisou a contribuição estratégica dos relatórios de sustentabilidade para a integração dos princípios ESG (Ambiental, Social e Governança) à gestão corporativa e seu alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. Abordou-se a evolução histórica dos relatórios, a identificação dos principais indicadores utilizados e a relação entre a transparência desses documentos e o desempenho sustentável das empresas. A metodologia adotada foi qualitativa e exploratória, baseada em revisão de literatura e análise documental de artigos científicos, relatórios corporativos e publicações institucionais. A coleta de dados ocorreu entre 2019 e 2025 em bases como Google Acadêmico e SciELO, com foco em ESG, ODS e contabilidade sustentável. Os resultados evidenciam a progressiva institucionalização dos relatórios de sustentabilidade como ferramentas estratégicas de comunicação e gestão. Empresas com relatórios mais transparentes tendem a obter maior confiança dos stakeholders, fortalecer a reputação e melhorar o desempenho geral. Contudo, a pesquisa reitera que a falta de padronização global na divulgação das informações ESG persiste como desafio. A limitação reside no uso exclusivo de fontes secundárias. Recomenda-se a adoção de padrões internacionais como IFRS S1 e S2 e investimento na capacitação de profissionais contábeis. Implica-se que relatórios transparentes promovem accountability corporativa, fomentam práticas de gestão mais inclusivas e responsáveis, e fortalecem o engajamento social em prol do desenvolvimento sustentável. O artigo contribui para o debate sobre a função estratégica da contabilidade na integração ESG e no fortalecimento da governança responsável, destacando a conexão entre o reporting transparente e o avanço da Agenda 2030.
PALAVRAS CHAVES: Relatórios de Sustentabilidade, ODS, ESG, Contabilidade Sustentável.
ABSTRACT
This study analyzes the strategic contribution of sustainability reports to the integration of Environmental, Social, and Governance (ESG) principles into corporate management and their alignment with the 2030 Agenda’s Sustainable Development Goals (SDGs). It discusses the historical evolution of sustainability reporting, identifies the main indicators used, and examines the relationship between the transparency of these documents and the sustainable performance of companies. The methodology adopted was qualitative and exploratory, based on a literature review and documentary analysis of scientific articles, corporate reports, and institutional publications. Data were collected between 2019 and 2025 from databases such as Google Scholar and SciELO, focusing on ESG, SDGs, and sustainable accounting. The results show the progressive institutionalization of sustainability reports as strategic communication and management tools. Companies with more transparent reports tend to gain greater stakeholder confidence, strengthen their reputation, and improve overall performance. However, the research reiterates that the lack of global standardization in the disclosure of ESG information remains a challenge. The main limitation lies in the exclusive use of secondary sources. The adoption of international standards such as IFRS S1 and S2 and investment in the training of accounting professionals are recommended. It is implied that transparent reports promote corporate accountability, foster more inclusive and responsible management practices, and strengthen social engagement in favor of sustainable development. This article contributes to the debate on the strategic role of accounting in ESG integration and in strengthening responsible governance, highlighting the connection between transparent reporting and the advancement of the 2030 Agenda.
KEYWORDS: Sustainability Reports, SDGs, ESG, Sustainable Accounting.
1. INTRODUÇÃO
A crescente conscientização global sobre os desafios ambientais e sociais, aliada à percepção de que o modelo econômico tradicional não é mais sustentável, impulsionou uma transformação significativa no ambiente corporativo. “A busca por um desenvolvimento que atenda às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades” (ONU, 1987) tem levado as empresas a incorporarem a sustentabilidade em suas estratégias e operações. Nesse contexto, os princípios ESG (Ambiental, Social e Governança) emergiram como um framework fundamental para avaliar e gerenciar o desempenho das organizações sob uma ótica mais abrangente e responsável.
A contabilidade, tradicionalmente focada em aspectos financeiros, tem sido desafiada a expandir seu escopo para abarcar e mensurar os impactos das atividades corporativas nas dimensões ambiental e social. A contabilidade sustentável surge como a disciplina capaz de integrar esses elementos, fornecendo dados e informações que transcendem o balanço patrimonial e a demonstração de resultados. Essa expansão é necessária para que as empresas possam comunicar seus esforços em sustentabilidade de forma transparente e credível, e para que os stakeholders possam tomar decisões mais informadas.
Os relatórios de sustentabilidade, como Balanços Sociais, Relatos Integrados e, mais recentemente, as divulgações alinhadas às normas do International Sustainability Standards Board (ISSB), representam a materialização desses esforços de reporting não financeiro. Ao longo das últimas décadas, observou-se uma evolução notável na sofisticação e na padronização desses relatórios (Higgins; Larrinaga, 2014; Larrinaga; Bebbington, 2021). Contudo, apesar do avanço, a qualidade, a comparabilidade e a relevância das informações ainda são pontos de contínuo aprimoramento, especialmente diante da complexidade inerente à mensuração e divulgação de temas como emissões de gases de efeito estufa, diversidade no ambiente de trabalho ou práticas anticorrupção.
Diante desse cenário, questiona-se: Qual a contribuição dos relatórios de sustentabilidade para a integração das estratégias ESG à gestão corporativa e seu alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030? Compreender essa dinâmica é fundamental para o avanço das práticas de governança responsável e para a estratégia da contabilidade na promoção do desenvolvimento sustentável.
Este estudo justifica-se pela crescente demanda por transparência e accountability por parte dos stakeholders, que consideram o retorno financeiro assim como o impacto social e ambiental das empresas. A relevância teórica reside em aprofundar a discussão sobre a função da contabilidade como ferramenta estratégica na gestão da sustentabilidade, enquanto a relevância prática se manifesta na oferta de ideias para empresas, reguladores e profissionais contábeis na elaboração e utilização de relatórios de sustentabilidade mais eficazes.
Para responder à questão de pesquisa e atingir o objetivo geral, este trabalho está estruturado em cinco partes, além desta introdução e das referências: Na sequência e revisado o referencial teórico, abordando a contabilidade sustentável, os pilares ESG, a transparência e a accountability, e o alinhamento com os ODS. A seção 3 detalha a metodologia de pesquisa, caracterizando-a como qualitativa e exploratória, baseada em revisão de literatura e análise documental. Na Seção 4 é apresentada a análise e discussão dos resultados, sintetizando os achados dos quadros sobre a evolução dos relatórios e os indicadores ESG em alinhamento com a teoria. Por fim, são apresentadas as considerações finais, resumindo as principais conclusões e suas implicações.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A sustentabilidade nas organizações passou a representar uma exigência estratégica. O conceito de ESG representa uma evolução no modo como os stakeholders avaliam as organizações. Higgins e Larrinaga (2014) destacam que os relatórios de sustentabilidade se tornaram práticas institucionalizadas em grandes empresas. Larrinaga e Senn (2021) defendem que a construção de normas de reporte ambiental fortalece a legitimidade organizacional.
2.1. Contabilidade e Sustentabilidade: Uma Perspectiva Histórica e Conceitual
A crescente conscientização sobre os impactos das atividades humanas no meio ambiente e na sociedade impulsionou o desenvolvimento de novos paradigmas para a gestão e a mensuração do desempenho corporativo. Nesse contexto, a contabilidade sustentável emerge como uma disciplina fundamental, expandindo o escopo tradicional da contabilidade para abranger, além dos aspectos financeiros, as dimensões ambientais e sociais das operações empresariais.
A gênese da contabilidade sustentável está intrinsecamente ligada à evolução do próprio conceito de sustentabilidade no ambiente corporativo. Inicialmente, a preocupação empresarial com o meio ambiente era, em grande parte, reativa e focada na conformidade com regulamentações e na mitigação de danos. Contudo, ao longo do tempo, a compreensão da sustentabilidade evoluiu para uma visão mais holística, que integra aspectos econômicos, ambientais e sociais, reconhecendo a interdependência entre eles. Conforme Macedo (2004, p. 22) aponta, “o conceito de responsabilidade social tem se tornado um fator decisivo para a sobrevivência das organizações e para sua legitimidade perante a sociedade”, demonstrando uma compreensão precoce da necessidade de as empresas irem além do lucro financeiro.
A contabilidade, como sistema de informação e controle, foi desafiada a se adaptar a essa nova realidade, buscando capturar e comunicar os impactos não financeiros das organizações. Segundo Ribeiro (2012, p. 5), “a contabilidade ambiental, como um braço da contabilidade social, surge da necessidade de se evidenciar informações relativas às questões ambientais que envolvem as organizações”. Essa afirmação destaca o caráter instrumental da contabilidade em fornecer transparência sobre o desempenho ambiental e, por extensão, social das empresas.
As primeiras iniciativas de relatórios de natureza não financeira, como o Balanço Social, representam marcos importantes nessa trajetória. O Balanço Social, popularizado no Brasil a partir da década de 1990, com a iniciativa do sociólogo Herbert de Souza (Betinho) e posteriormente da Associação Brasileira de Contadores (IBRACON) e do Instituto Ethos, tinha como objetivo principal a divulgação de informações sobre o desempenho social da empresa em relação a seus colaboradores, à comunidade e ao meio ambiente. Essas iniciativas visavam, conforme Porto (s.d., p. 1), “promover uma divulgação mais coerente e efetiva”, buscando construir confiança com as partes interessadas.
Essas primeiras incursões no campo da contabilidade não financeira pavimentaram o caminho para o reconhecimento de que a sustentabilidade não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas um fator estratégico que influencia o desempenho financeiro, a reputação e a longevidade das organizações. A contabilidade, ao incorporar essas dimensões, torna-se uma ferramenta indispensável para a gestão sustentável, permitindo a identificação de riscos, a avaliação de oportunidades e a comunicação de valor aos stakeholders.
2.2. A Evolução dos Relatórios de Sustentabilidade
A trajetória dos relatórios corporativos de natureza não financeira é marcada por uma evolução contínua, que transcende as primeiras iniciativas do Balanço Social para culminar nos complexos relatórios de sustentabilidade e no relato integrado. Essa progressão reflete uma crescente demanda por transparência e accountability por parte das organizações, impulsionada por stakeholders diversos, incluindo investidores, reguladores, consumidores e a sociedade civil.
Nesse cenário de crescente institucionalização, a atribuição dos frameworks e normas tornou-se central para guiar e padronizar a elaboração dos relatórios:
- Global Reporting Initiative (GRI): Como o framework mais difundido globalmente, a GRI estabeleceu um conjunto de padrões universais e tópicos específicos que permitem às organizações reportar seus impactos mais significativos. Seus padrões são amplamente reconhecidos por sua abrangência e pela capacidade de fornecer uma visão detalhada do desempenho de sustentabilidade de uma empresa.
- Sustainability Accounting Standards Board (SASB): Diferentemente da GRI, o SASB foca em informações materialmente relevantes para investidores, desenvolvendo padrões específicos para 77 setores da economia. Seu objetivo é fornecer métricas que sejam financeiramente relevantes e comparáveis entre empresas do mesmo setor, auxiliando na tomada de decisão de investimento.
- Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD): Com foco nos riscos e oportunidades relacionados ao clima, o TCFD oferece recomendações para a divulgação de informações financeiras climáticas. Sua estrutura em quatro pilares (Governança, Estratégia, Gestão de Riscos e Métricas e Metas) visa aumentar a transparência sobre como as empresas gerenciam as questões climáticas.
- IFRS S1 (General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information) e IFRS S2 (Climate-related Disclosures): Desenvolvidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), esses padrões representam um esforço global para criar uma base comum de relatórios de sustentabilidade para o mercado de capitais. A IFRS S1 estabelece os requisitos gerais, enquanto a IFRS S2 foca nas divulgações climáticas, visando aprimorar a comparabilidade e a qualidade das informações para investidores.
Apesar dos avanços na padronização e na abrangência dos relatórios, o debate sobre o “greenwashing” e a busca por maior credibilidade persistem. O “greenwashing” refere-se à prática de empresas que divulgam informações ambientais ou sociais de forma enganosa ou exagerada, com o objetivo de construir uma imagem de sustentabilidade sem que haja um compromisso real com as práticas. Porto (s.d., p. 1), ao discutir a legibilidade dos relatórios, enfatiza que “a clareza e a acessibilidade das informações são cruciais para que os relatórios cumpram sua função de comunicação efetiva e não se tornem meros instrumentos de marketing“. A busca por maior credibilidade, portanto, envolve a conformidade com frameworks e a autenticidade das informações e a demonstração de impactos reais.
A evolução dos relatórios de sustentabilidade pode ser sumarizada conforme o Quadro 1:
Quadro 1: Evolução dos Relatórios de Sustentabilidade
| Período | Fase |
| Década de 1970 | Relatórios Sociais e Balanço Social |
| Fim da Década de 1980 | Foco Ambiental e Surgimento da DVA |
| Meados da Década de 1990 | Integração Inicial de aspectos éticos |
| 1997 em Diante | Criação da GRI e Consolidação |
| Anos 2010 em Diante | Relato Integrado e Expansão ESG |
| Atualidade e Futuro Próximo | Obrigatoriedade e IFRS S1/S2 |
A evolução dos relatórios de sustentabilidade representa uma trajetória marcante de como as organizações têm aprimorado a comunicação de seus impactos e compromissos com a sustentabilidade. Desde a década de 1970 até o cenário contemporâneo, essa jornada é marcada por fases distintas que refletem a crescente demanda por transparência e responsabilidade corporativa.
O ponto de partida, na década de 1970, viu o surgimento dos relatórios sociais, primariamente focados em aspectos humanos e comunitários das organizações. Nesse contexto, o Balanço Social despontou como uma ferramenta pioneira, especialmente na Europa, com o objetivo de divulgar o desempenho social das empresas e a distribuição da riqueza gerada.
No fim da década de 1980, a emergência das preocupações ambientais globais levou ao desenvolvimento dos relatórios ambientais. Estes documentos direcionavam o olhar para os impactos ecológicos das atividades empresariais, incluindo saúde e segurança no trabalho. Embora ainda carecessem de padronização, representaram um avanço significativo na prestação de contas. Complementarmente, a Demonstração de Valor Adicionado (DVA) começou a ganhar relevância, oferecendo uma perspectiva sobre a riqueza produzida pela empresa e sua distribuição entre os diversos agentes econômicos, embora não fosse um relatório de sustentabilidade em sentido estrito.
A meados da década de 1990 caracterizou-se pela tentativa de integrar os aspectos éticos, sociais e ambientais nos relatórios anuais. Empresas começaram a conceber a sustentabilidade de forma mais abrangente, buscando refletir o que viria a ser conhecido como o “tripé da sustentabilidade” – econômico, social e ambiental – em suas divulgações, apesar dos desafios iniciais de harmonização.
Um marco para a padronização global ocorreu em 1997, com a fundação da Global Reporting Initiative (GRI). A GRI estabeleceu as diretrizes e os padrões universais para relatórios de sustentabilidade, elevando o nível de comparabilidade, transparência e detalhe das informações, o que impulsionou a formalização e a profissionalização desse tipo de reporte em escala global.
Os anos 2010 em diante testemunharam uma significativa expansão e diversificação no campo dos relatórios. Houve a ascensão do Relato Integrado (IR), uma abordagem inovadora que busca demonstrar a capacidade da organização de criar valor a longo prazo por meio da interconexão estratégica entre o desempenho financeiro e os capitais não financeiros (seis capitais). Simultaneamente, ocorreu um aumento substancial na adoção de padrões ESG, com a GRI mantendo sua influência e outras estruturas, como o TCFD e o SASB, ganhando proeminência.
No cenário atual e para o futuro próximo, a tendência é de maior obrigatoriedade e regulamentação dos relatórios de sustentabilidade financeira. O Brasil, ao oficializar a adoção de padrões globais de reporte ESG com obrigatoriedade a partir de 2026, sinaliza uma era de maior conformidade e responsabilização. A introdução das normas IFRS S1 e IFRS S2 pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) representa um passo fundamental para criar uma base global comum de divulgação de sustentabilidade, visando a informação para o investidor e uma maior integração com os relatórios financeiros tradicionais.
2.3. Indicadores ESG: Definição e Aplicações
A crescente relevância da sustentabilidade corporativa tem sido impulsionada, em grande parte, pela adoção e exigência dos critérios ESG. Estes pilares representam uma estrutura fundamental para avaliar e reportar o desempenho das organizações em relação a fatores ambientais, sociais e de governança, complementando as métricas financeiras tradicionais. A compreensão de cada pilar, a seleção de indicadores pertinentes e a relação com frameworks globais são cruciais para a gestão estratégica da sustentabilidade e para a comunicação transparente aos stakeholders.
2.3.1. Definição e Importância dos Pilares Ambiental, Social e Governança (ESG)
Os critérios ESG funcionam como lentes pelas quais investidores, reguladores, consumidores e outras partes interessadas avaliam a sustentabilidade e o impacto de longo prazo de uma empresa. Cada pilar abrange um conjunto específico de responsabilidades e métricas:
- Pilar Ambiental (E – Environmental): Refere-se ao impacto de uma empresa no meio ambiente natural. Abrange a gestão de recursos naturais, controle de emissões de gases de efeito estufa (GEE), consumo de energia e água, proteção da biodiversidade e estratégias de adaptação às mudanças climáticas. A relevância deste pilar reside na mitigação dos riscos ambientais e na busca por práticas que promovam a resiliência ecológica e a eficiência no uso de recursos.
- Pilar Social (S – Social): Diz respeito à forma como uma empresa gerencia suas relações e impacto nas pessoas, incluindo funcionários, fornecedores, clientes e as comunidades onde opera. As questões abordadas compreendem direitos humanos, condições de trabalho justas, promoção da diversidade e inclusão, saúde e segurança ocupacional, privacidade de dados e satisfação do cliente (Pires; Oliveira; Serralvo, 2024). Este pilar é base para a manutenção da licença social para operar, a construção de uma reputação sólida e a atração e retenção de talentos.
- Pilar Governança (G – Governance): Trata da liderança de uma empresa, de sua estrutura organizacional, dos direitos dos acionistas e da transparência de suas práticas. Inclui temas como a composição e independência do conselho de administração, políticas de remuneração de executivos, ética e conformidade, combate à corrupção, auditorias internas e externas, e gestão de riscos (Thistlethwaite; Menzies, 2016). Uma governança sólida é a pedra angular para a implementação eficaz das estratégias ambientais e sociais, garantindo a responsabilização e a tomada de decisões íntegras e éticas.
A importância conjunta dos pilares ESG é evidenciada pela sua capacidade de fornecer uma visão holística do valor de uma empresa. Organizações com fortes desempenhos ESG tendem a apresentar maior resiliência a crises, menor custo de capital, melhor reputação e maior capacidade de inovação, atraindo um número crescente de investidores conscientes e stakeholders engajados (Van Der Lugt; Van De Wijs; Petrovics, 2020). Essa relevância também é observada na crescente demanda por relatórios que atendam a esses critérios, influenciando o perfil dos profissionais da contabilidade (Vargas, 2024).
2.3.2. Exemplos de Indicadores-Chave para Cada Pilar
A mensuração do desempenho ESG é realizada por meio de indicadores que quantificam as ações e os impactos da empresa em cada pilar. A seleção desses indicadores deve ser estratégica, baseada na relevância para o setor de atuação da organização e para seus objetivos estratégicos.
Indicadores Ambientais (E):
- Emissões de GEE (Escopos 1, 2 e 3): Volume total de gases de efeito estufa emitidos direta e indiretamente pelas operações da empresa.
- Consumo de água: Volume de água captado e consumido (em m³), com detalhamento por fonte.
- Geração de resíduos: Peso total de resíduos gerados (em toneladas), com indicação do percentual destinado à reciclagem, reutilização ou descarte apropriado.
- Consumo de energia: Total de energia consumida (em MWh), destacando o percentual proveniente de fontes renováveis.
Indicadores Sociais (S):
- Taxa de acidentes de trabalho: Número de acidentes com afastamento por milhão de horas trabalhadas, indicando a segurança do ambiente laboral.
- Diversidade no quadro de funcionários: Percentual de representatividade de mulheres, minorias étnicas e pessoas com deficiência em diferentes níveis hierárquicos (Nascimento et al., 2022).
- Investimento em treinamento e desenvolvimento: Horas de treinamento por funcionário e o montante de investimento em programas de capacitação.
- Satisfação do cliente: Índice de satisfação do cliente, como o Net Promoter Score (NPS).
Indicadores de Governança (G):
- Independência do conselho: Percentual de membros independentes no conselho de administração, promovendo decisões imparciais.
- Diversidade do conselho: Proporção de gêneros e backgrounds variados entre os membros do conselho.
- Políticas anticorrupção: Existência e eficácia de códigos de conduta, políticas de compliance e canais de denúncia para garantir a integridade.
- Remuneração baseada em desempenho ESG: Percentual da remuneração de executivos vinculado ao atingimento de metas ESG.
- Transparência nas divulgações: Pontuação em rankings de governança corporativa ou aderência a padrões de reporte reconhecidos, como os da GRI e ISSB (Mariosa et al., 2024).
2.3.3. A Relação dos Indicadores ESG com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
Os indicadores ESG possuem uma intrínseca sinergia com os ODS da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Os ODS, compostos por 17 objetivos e 169 metas, oferecem um framework universal para o desenvolvimento sustentável, abordando desafios globais que vão desde a erradicação da pobreza e da fome até a proteção do planeta e a promoção da paz e da prosperidade (Oliveira, 2024; Vicente et al., 2025). As empresas que adotam e reportam seu desempenho com base nos princípios ESG contribuem diretamente para o avanço dos ODS.
O Quadro 2 sintetiza os principais indicadores ESG, ilustrando a diversidade de métricas e sua relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Quadro 2: Relação entre ESG e os ODS:
| Pilar ESG | Exemplo de Indicador Chave | Breve Descrição | ODS Relacionados |
| Ambiental (E) | Emissões de GEE (Escopos 1, 2 e 3) | Volume total de gases de efeito estufa (CO2e) emitidos direta e indiretamente. | ODS 13: Ação Contra a Mudança Global do Clima ODS 7: Energia Limpa e Acessível |
| Consumo de Água | Volume de água captado, consumido e efluentes descartados (em m³). | ODS 6: Água Potável e Saneamento ODS 12: Consumo e Produção Responsáveis | |
| Geração de Resíduos | Peso total de resíduos gerados (em toneladas), com detalhamento do percentual reciclado, reutilizado ou aterrado. | ODS 12: Consumo e Produção Responsáveis |
| Consumo de Energia e Fontes Renováveis | Total de energia consumida (MWh) e percentual de energia proveniente de fontes renováveis. | ODS 7: Energia Limpa e Acessível ODS 13: Ação Contra a Mudança Global do Clima | |
| Gerenciamento de Biodiversidade | Áreas impactadas ou protegidas, ações de conservação. | ODS 14: Vida na Água ODS 15: Vida Terrestre | |
| Social (S) | Taxa de Acidentes de Trabalho | Número de acidentes com ou sem afastamento por milhão de horas trabalhadas. | ODS 3: Saúde e Bem-Estar ODS 8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico |
| Diversidade e Inclusão | Percentual de representatividade de diferentes grupos (gênero, raça, pessoas com deficiência) em vários níveis hierárquicos (Nascimento et al., 2022). | ODS 5: Igualdade de Gênero ODS 10: Redução das Desigualdades | |
| Investimento em Treinamento e Desenvolvimento | Horas de treinamento por funcionário, investimento em capacitação. | ODS 4: Educação de Qualidade ODS 8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico | |
| Engajamento Comunitário e Investimento Social | Valor investido em projetos sociais, número de beneficiados diretos e indiretos (Pires; Oliveira; Serralvo, 2024). | ODS 1: Erradicação da Pobreza ODS 11: Cidades e Comunidades Sustentáveis | |
| Satisfação do Cliente | Índices de satisfação (e.g., NPS – Net Promoter Score), reclamações e feedbacks. | ODS 12: Consumo e Produção Responsáveis (no sentido de consumo ético e responsável) | |
| Governança (G) | Independência e Diversidade do Conselho | Percentual de membros independentes e proporção de gêneros/diversidade no conselho de administração (lopes et al., 2024). | ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes |
| Políticas Anticorrupção e Ética | Existência e eficácia de códigos de conduta, canais de denúncia, treinamentos de compliance. | ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes | |
| Remuneração Vinculada a Desempenho ESG | Percentual da remuneração de executivos atrelada a metas de sustenta bilidade. | ODS 8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico (em contexto de governança justa) | |
| Gestão de Riscos e Oportunidades | Estruturas e processos para identificar, avaliar e gerenciar riscos e oportunidades ESG. | ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes | |
| Transparência e Qualidade do Reporte | Aderência a padrões de divulgação (GRI, ISSB), frequência e abrangência dos relatórios (Lopes et al., 2024). | ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes |
2.4. Transparência dos Relatórios de Sustentabilidade e o Alinhamento com os ODS
A eficácia dos relatórios de sustentabilidade vai além da mera compilação de dados ESG; ela reside na sua capacidade de serem transparentes e de comunicarem de forma clara o comprometimento e as contribuições da organização para o desenvolvimento sustentável. A transparência e a accountability são pilares para a construção de confiança e a demonstração de um alinhamento genuíno com as metas globais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
2.4.1. A Transparência na Construção de Confiança e Reputação
A transparência nos relatórios de sustentabilidade é fundamental para a construção de um relacionamento sólido com os stakeholders. Ao divulgar informações de forma clara, completa e verificável, as empresas demonstram responsabilidade e ética, elementos essenciais para a formação da confiança e a preservação da reputação (Motta Morisue; Ribeiro; Penteado, 2012). A ausência de transparência, por outro lado, pode gerar dúvidas, minar a credibilidade e até mesmo levar a acusações de greenwashing, prejudicando a imagem da organização.
Relatórios transparentes não se limitam a apresentar dados positivos; eles também abordam desafios, riscos e oportunidades, oferecendo uma visão equilibrada do desempenho. Essa honestidade reforça a autenticidade das iniciativas de sustentabilidade da empresa, permitindo que stakeholders formem uma avaliação mais justa e informada sobre o seu compromisso e progresso (Cho et al., 2015). A transparência, portanto, torna-se um ativo intangível valioso, diferenciando as empresas no mercado e fortalecendo sua posição frente a investidores, consumidores e reguladores que valorizam a responsabilidade corporativa.
2.4.2. Como a Divulgação de Informações (e sua Qualidade/Legibilidade) Impacta o Desempenho Financeiro e Não Financeiro
A qualidade e a legibilidade dos relatórios de sustentabilidade têm um impacto direto tanto no desempenho financeiro quanto no não financeiro das empresas.
Impacto no Desempenho Financeiro: A divulgação transparente e de alta qualidade de informações ESG pode levar a diversos benefícios financeiros. Primeiramente, atrai investimentos. Fundos e investidores institucionais estão cada vez mais direcionando capital para empresas com fortes práticas ESG, buscando mitigar riscos e identificar oportunidades de longo prazo (Van Der Lugt; Van De Wijs; Petrovics, 2020). Relatórios claros e compreensíveis facilitam a análise desses investidores, reduzindo assimetrias de informação e potencialmente diminuindo o custo de capital para a empresa. Além disso, a boa reputação advinda da transparência pode resultar em maior lealdade de clientes e, consequentemente, em um aumento nas vendas e participação de mercado (Batistella; Mazzioni; Dal Magro, 2020). Por outro lado, a falta de transparência ou a divulgação de informações inconsistentes podem afastar investidores e gerar sanções regulatórias, afetando negativamente o desempenho financeiro.
Impacto no Desempenho Não Financeiro: No que tange ao desempenho não financeiro, a qualidade e legibilidade dos relatórios influenciam diretamente a reputação da empresa, o engajamento dos stakeholders e a gestão de riscos. Relatórios bem elaborados e de fácil compreensão, como os discutidos por Porto (2020) em seu estudo sobre legibilidade no setor público, permitem que um público mais amplo entenda as iniciativas de sustentabilidade da organização. Isso fortalece o relacionamento com a comunidade, melhora a imagem corporativa e aumenta a atração e retenção de talentos (Pires; Oliveira; Serralvo, 2024).
A legibilidade é um fator chave, pois informações densas e complexas, mesmo que completas, podem não ser eficazes se não forem compreendidas pelos seus públicos-alvo (Porto, 2020). A clareza na comunicação dos dados ambientais, sociais e de governança é necessária para que os relatórios sirvam de ferramenta de diálogo e influência.
2.4.3. A Relação entre Relatórios Transparentes e o Alinhamento aos ODS
A transparência dos relatórios de sustentabilidade é um catalisador fundamental para demonstrar e fortalecer o alinhamento das empresas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU.
Quando uma empresa divulga de forma transparente seus impactos, metas e progresso em relação aos indicadores ESG, ela automaticamente está fornecendo dados que podem ser mapeados e correlacionados com os ODS (Oliveira, 2024; Vicente et al., 2025). Essa correlação não é apenas uma formalidade; ela permite que a organização:
- Identifique Contribuições Diretas: Relatórios claros facilitam a identificação de como as ações da empresa contribuem para metas específicas dos ODS. Por exemplo, a redução de emissões (ESG Ambiental) contribui diretamente para o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima), enquanto programas de diversidade (ESG Social) apoiam o ODS 5 (Igualdade de Gênero) e o ODS 10 (Redução das Desigualdades) (Nascimento et al., 2022).
- Comunique o Impacto Global: Ao vincular indicadores ESG aos ODS, a empresa eleva a narrativa de seus relatórios, demonstrando como suas operações locais ou setoriais estão inseridas e contribuem para uma agenda de desenvolvimento global (Lopes et al., 2024). Isso confere maior propósito e ressonância às suas iniciativas de sustentabilidade.
- Engaje Stakeholders: Relatórios transparentes sobre o alinhamento com os ODS engajam uma gama mais ampla de stakeholders, incluindo governos, ONGs e agências de desenvolvimento, que veem a contribuição empresarial como vital para o atingimento das metas da Agenda 2030.
3. METODOLOGIA
Este capítulo detalha o delineamento metodológico adotado para o desenvolvimento da presente pesquisa, cujos objetivos foram analisar a contribuição dos relatórios de sustentabilidade para o desenvolvimento sustentável, por meio da contabilidade sustentável, e o alinhamento das práticas empresariais aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.
3.1. Delineamento da Pesquisa
A pesquisa classifica-se como qualitativa, uma vez que busca compreender fenômenos complexos em seu contexto natural, explorando as nuances e os significados atribuídos às práticas de contabilidade e reporting de sustentabilidade. Conforme Creswell (2014), a abordagem qualitativa é adequada para investigar processos e aprofundar a compreensão de um tema, o que é básico para analisar a dinâmica da evolução e aplicação dos relatórios de sustentabilidade nas organizações.
Quanto ao seu propósito, a pesquisa possui caráter exploratório. Estudos exploratórios são empregados quando o tema é relativamente novo ou quando se busca obter uma compreensão mais aprofundada sobre um determinado fenômeno, auxiliando na formulação de hipóteses e no desenvolvimento de ideias (Gil, 2017). No contexto da contabilidade sustentável e da sua interface com os ODS, a natureza exploratória permitiu investigar a evolução das práticas, identificar indicadores emergentes e compreender as estratégias de comunicação, fornecendo uma base para futuras investigações mais aprofundadas.
3.2. Procedimentos e Coleta de Dados
Os procedimentos de pesquisa foram baseados em:
- Revisão de Literatura: Foi realizada uma revisão sistemática da literatura para fundamentar o referencial teórico. Esta etapa compreendeu a busca e análise de artigos científicos, livros, teses e dissertações que abordam a contabilidade sustentável, os relatórios de sustentabilidade, os indicadores ESG, a transparência, a accountability e o alinhamento com os ODS. A revisão de literatura permitiu identificar as discussões conceituais, as tendências de pesquisa e as lacunas existentes sobre o tema.
- Análise Documental: A coleta de dados empíricos foi realizada por meio de análise documental. Essa técnica consiste na investigação de documentos oficiais e não oficiais, que servem como fonte primária ou secundária de informações (Cellard, 2014). Foram analisados relatórios corporativos de sustentabilidade (incluindo relatórios GRI, integrados, anuais com seções de sustentabilidade) e publicações institucionais (como guias, frameworks de reporting de órgãos reguladores e associações setoriais). A análise documental permitiu observar as práticas reais de divulgação das informações de sustentabilidade pelas empresas e a evolução dessas práticas ao longo do tempo.
A coleta de dados abrangeu o período entre 2019 e 2025, com o intuito de capturar as tendências mais recentes e as inovações no campo da sustentabilidade e do reporting ESG, período marcado pela intensificação da agenda climática e social, e pela consolidação dos ODS como um framework global.
As principais bases de dados utilizadas para a busca de artigos científicos foram:
- Google Acadêmico: Dada a sua abrangência e acesso a uma vasta gama de publicações acadêmicas em diversas áreas.
- SciELO (Scientific Electronic Library Online): Focada em periódicos científicos da América Latina, Caribe, Espanha e Portugal, o que é relevante para contextualizar as práticas e a literatura na região.
As palavras-chave empregadas na busca foram: “ESG”, “ODS”, “contabilidade sustentável”, “relatórios de sustentabilidade”, “transparência corporativa” e “prestação de contas em sustentabilidade”. A combinação dessas palavras-chave em diferentes arranjos (e.g., “ESG e ODS”, “contabilidade sustentável e relatórios”) otimizou a recuperação de artigos relevantes para o escopo da pesquisa.
3.3. Procedimentos de Análise dos Dados
A análise dos dados coletados, tanto da revisão de literatura quanto da análise documental, concentrou-se nos seguintes aspectos:
- (i) Identificação dos indicadores ESG utilizados: Esta etapa envolveu a categorização e o mapeamento dos principais indicadores ambientais, sociais e de governança reportados pelas organizações, conforme exemplificado no Quadro 2. A análise buscou compreender a abrangência e a profundidade das métricas adotadas, bem como a sua evolução em conformidade com os padrões internacionais.
- (ii) Nível de transparência das informações: Foi avaliado o grau de clareza, completude, comparabilidade e fidedignidade das informações divulgadas nos relatórios. A análise considerou aspectos como a adoção de padrões reconhecidos (GRI, ISSB), a explicitação das metodologias de mensuração e a presença de auditorias independentes, elementos cruciais para a construção de confiança (Thistlethwaite; Menzies, 2016).
- (iii) Análise das estratégias de comunicação com stakeholders: Observou-se como as empresas utilizam os relatórios para dialogar com seus diversos públicos (investidores, clientes, funcionários, comunidade), incluindo o uso de linguagem acessível (Porto, 2020). Verificou-se também a forma como o alinhamento aos ODS é comunicado, transformando as contribuições pontuais em parte de uma narrativa mais ampla de impacto global (Oliveira, 2024; Vicente et al., 2025).
A abordagem metodológica empregada permitiu compreender como a contabilidade, por meio dos relatórios de sustentabilidade, tem sido usada como uma ferramenta estratégica para a divulgação de dados e para impulsionar a gestão da sustentabilidade nas organizações e fortalecer seus esforços de alinhamento e contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados demonstram que a trajetória do reporting de sustentabilidade reflete uma crescente complexidade e uma demanda cada vez maior por informações que transponham a dimensão puramente financeira, ecoando a necessidade de uma contabilidade mais abrangente e impactante.
4.1. A Evolução do Reporting de Sustentabilidade como Reflexo de Demandas Sociais e Ambientais
A cronologia apresentada no Quadro 1, que se inicia com os relatórios sociais na década de 1970 e culmina na obrigatoriedade e no foco em IFRS S1/S2 no futuro próximo, evidencia uma adaptação contínua das práticas corporativas às pressões dos stakeholders e às transformações do cenário socioambiental. Inicialmente, a preocupação com o Balanço Social em países como a França (Higgins; Larrinaga, 2014) demonstra um reconhecimento precoce das responsabilidades sociais das empresas, embora com foco mais restrito. Essa fase inicial, ainda que embrionária, já apontava para a necessidade de prestação de contas sobre aspectos não financeiros, conforme salientado por Ribeiro (2012) ao discutir as oportunidades para a contabilidade ambiental.
O surgimento dos relatórios ambientais no final da década de 1980 e a integração inicial de aspectos éticos, sociais e ambientais em meados da década de 1990, conforme apontado por Larrinaga e Bebbington (2021), marcam a transição de uma visão fragmentada para uma abordagem mais holística. A Demonstração de Valor Adicionado (DVA), nesse período, embora não seja um relatório de sustentabilidade per se, já contribuía para a transparência do valor gerado e sua distribuição, tangenciando o impacto socioeconômico das organizações.
A criação da Global Reporting Initiative (GRI) em 1997 emerge como um ponto de inflexão decisivo. A GRI padronizou a estrutura de relatórios e conferiu maior credibilidade e comparabilidade às divulgações (Mariosa et al., 2024). Essa institucionalização, que Vargas (2024) associa às exigências contemporâneas da contabilidade, reflete a maturidade do campo, onde as empresas passaram a reconhecer o valor estratégico de um reporting formal e abrangente. O Quadro 2 corrobora essa necessidade de padronização, ao apresentar indicadores específicos para cada pilar ESG, demonstrando a granularidade necessária para atender às diretrizes da GRI e outras estruturas de reporte.
A inclusão do Relato Integrado (IR) a partir dos anos 2010, como detalhado no Quadro 1, sinaliza uma busca por uma visão mais estratégica da criação de valor, conectando explicitamente o desempenho financeiro e não financeiro por meio dos seis capitais. Essa abordagem reforça a noção de que a sustentabilidade não é um add-on, mas parte intrínseca da estratégia de negócios, como discutido por Porto (2020) ao analisar a legibilidade desses relatórios. O Quadro 2, ao ilustrar a diversidade de indicadores ambientais (e.g., emissões de GEE, consumo de água), sociais (e.g., diversidade e inclusão, engajamento comunitário) e de governança (e.g., independência do conselho, políticas anticorrupção), demonstra como essas métricas formam a base para a narrativa de criação de valor no Relato Integrado. A expansão dos padrões ESG e o alinhamento com as melhores práticas globais consolidam a ideia de que o desempenho em sustentabilidade é um diferencial competitivo (Van Der Lugt; Van De Wijs; Petrovics, 2020).
4.2. Transparência e Accountability como Fatores Determinantes do Desempenho e Alinhamento aos ODS
A análise aprofundada dos mecanismos de transparência e accountability nos relatórios de sustentabilidade revela sua função estratégica na construção de confiança e reputação. Como enfatizado por Motta Morisue, Ribeiro e Penteado (2012), a transparência é o alicerce para que as empresas demonstrem sua responsabilidade diante dos stakeholders. A contraparte da transparência é a accountability, que se manifesta na prestação de contas e na responsabilização pelos resultados divulgados (Thistlethwaite; Menzies, 2016). Os padrões mencionados no Quadro 1, como GRI e ISSB (com IFRS S1 e S2), são fundamentais para conferir maior credibilidade e verificabilidade às informações, combatendo o risco de greenwashing e fortalecendo a reputação, um ponto corroborado pela importância da qualidade do reporte, conforme apresentado no Quadro 2 sob os indicadores de governança.
O impacto da qualidade e legibilidade da divulgação de informações nos desempenhos financeiro e não financeiro é substancial. Relatórios bem elaborados, que apresentam dados compreensíveis e transparentes – como os exemplificados pelos diversos indicadores no Quadro 2 –, tendem a atrair investimentos de capital responsável, reduzir o custo de capital e fortalecer a lealdade do cliente (Batistella; Mazzioni; Dal Magro, 2020; Van Der Lugt; Van De Wijs; Petrovics, 2020). No âmbito não financeiro, a clareza e a acessibilidade da informação, como analisado por Porto (2020) em seu estudo sobre legibilidade no setor público, aprimoram a reputação corporativa, o engajamento dos stakeholders e a capacidade de atrair e reter talentos (Pires; Oliveira; Serralvo, 2024).
Finalmente, a análise dos quadros reforça que a relação entre relatórios transparentes e o alinhamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é intrínseca e estratégica. O Quadro 2 mapeia explicitamente como cada indicador ESG se conecta a ODS específicos, fornecendo uma ferramenta prática para as empresas demonstrarem seu impacto global. Por exemplo, a divulgação de emissões de GEE (Pilar Ambiental) não é apenas um dado isolado, mas uma contribuição mensurável para o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima). Da mesma forma, programas de diversidade (Pilar Social), como os exemplificados no Quadro 2, contribuem diretamente para o ODS 5 (Igualdade de Gênero) e o ODS 10 (Redução das Desigualdades) (Nascimento et al., 2022). O Quadro 1, ao destacar a ascensão dos padrões de reporte alinhados com ESG e ODS, evidencia a crescente demanda por essa correlação.
Essa correlação entre indicadores ESG e ODS permite que as organizações não apenas reportem seu desempenho de forma estruturada, mas também comuniquem como suas operações e estratégias estão alinhadas com e contribuem para a resolução de desafios globais (Oliveira, 2024; Vicente et al., 2025). Relatórios que explicitam essa conexão elevam a narrativa de sustentabilidade da empresa, como agente de mudança positiva no contexto da Agenda 2030 (Lopes et al., 2024; Vargas, 2024). A transparência, nesse sentido, não é um fim em si mesma, mas um meio poderoso para validar o comprometimento das empresas com o desenvolvimento sustentável global e para impulsionar a tomada de decisões informadas por parte de todos os stakeholders.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa teve como objetivo analisar a contribuição dos relatórios de sustentabilidade para o desenvolvimento sustentável, por meio da contabilidade sustentável, alinhando as práticas empresariais aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. Ao longo deste estudo, explorou-se a evolução do reporting de sustentabilidade, a relevância dos indicadores ESG e a intrínseca relação entre transparência e o alinhamento com os ODS. A partir da análise do referencial teórico e dos elementos discutidos nos capítulos anteriores, emergem as seguintes considerações finais, que sintetizam os principais achados e as implicações práticas e teóricas da investigação:
Primeiramente, a contabilidade sustentável, por meio dos relatórios de sustentabilidade, revela-se um instrumento indispensável para a integração efetiva dos princípios ESG à gestão corporativa. A trajetória histórica do reporting, detalhada no Quadro 1, demonstra uma transição de abordagens fragmentadas para uma visão sistêmica da sustentabilidade, culminando na emergência de estruturas como as normas IFRS S1 e S2. Essa evolução sublinha que a contabilidade transcende sua função meramente financeira, tornando-se uma ferramenta estratégica vital para incorporar as dimensões ambiental, social e de governança (ESG) no cerne da gestão e da tomada de decisões empresariais. A capacidade de mensurar e reportar esses aspectos, como visto nos exemplos de indicadores do Quadro 2, permite às organizações atenderem a exigências regulatórias e gerar valor de forma mais abrangente e resiliente.
Em segundo lugar, evidenciou-se que relatórios de sustentabilidade bem elaborados são catalisadores essenciais para o fortalecimento do relacionamento com stakeholders, a melhoria da reputação corporativa e a promoção de um desempenho sustentável. A transparência e a accountability são pilares para a construção de confiança, conforme discutido ao longo do estudo e reforçado por autores como Motta Morisue, Ribeiro e Penteado (2012) e Thistlethwaite e Menzies (2016). A clareza na divulgação de métricas ESG – desde o consumo de água e a gestão de resíduos até a diversidade no quadro de funcionários e a independência do conselho – não só facilita a avaliação do desempenho por parte de investidores e consumidores, mas também demonstra o comprometimento genuíno da organização. A qualidade e a legibilidade desses relatórios, como analisado por Porto (2020), impactam diretamente na capacidade da empresa de atrair capital responsável, fortalecer a lealdade do cliente e atrair talentos, contribuindo para um ciclo virtuoso de valorização e crescimento sustentável.
Em terceiro lugar, recomenda-se veementemente a adoção e a conformidade com padrões internacionais de reporte, como as normas IFRS S1 e IFRS S2, como um caminho fundamental para a harmonização e comparabilidade das informações de sustentabilidade. A padronização global é decisiva para mitigar assimetrias informacionais, combater o greenwashing e permitir que os stakeholders realizem comparações significativas entre as empresas. A emergência desses padrões, destacados no Quadro 1 e abordados por Mariosa et al. (2024), reflete uma maturidade do campo da sustentabilidade, exigindo dos profissionais da contabilidade, como ressalta Vargas (2024), um investimento contínuo em formação e atualização para operar nesse novo e complexo cenário informacional.
A contabilidade desempenha função importante e estratégica, atuando como uma conexão entre as práticas de governança corporativa e o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na organização.
Ao fornecer dados verificáveis e estruturados sobre o desempenho ESG, a contabilidade capacita a governança a tomar decisões mais informadas e responsáveis. O alinhamento explícito dos indicadores ESG com os ODS, como ilustrado detalhadamente no Quadro 2, permite que as empresas demonstrem de forma tangível como suas operações e estratégias contribuem para metas globais de desenvolvimento, como a ação climática (ODS 13) ou a igualdade de gênero (ODS 5), conforme destacam Oliveira (2024) e Vicente et al. (2025). Essa função da contabilidade transcende o mero registro de transações, posicionando o contador como um agente de transformação para a transparência, a accountability e, em última instância, para a promoção de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável na sociedade contemporânea.
REFERÊNCIAS
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