REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511251550
Rita de Cássia Fonseca
Eloana Huk
RESUMO
A sustentabilidade e as questões climáticas assumiram centralidade no cenário corporativo global, impulsionadas por regulamentações mais rigorosas e pela crescente pressão de investidores e consumidores por transparência e responsabilidade socioambiental. Nesse contexto, a IFRS Foundation lançou as normas IFRS S1 e IFRS S2, que estabelecem diretrizes para a divulgação de informações sobre sustentabilidade e clima, buscando padronizar relatórios corporativos e aprimorar a comparabilidade das informações. O presente estudo tem como objetivo geral analisar como pequenas empresas fornecedoras podem iniciar o processo de adequação às exigências dessas normas, considerando suas limitações financeiras, operacionais e técnicas. Para alcançar esse propósito, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica e documental, com base em publicações recentes. Os resultados apontam que, embora as pequenas empresas enfrentem desafios expressivos — especialmente a escassez de recursos e de conhecimento técnico —, é possível desenvolver estratégias graduais de conformidade, como a adoção de indicadores simplificados, o investimento em capacitação interna e a formação de parcerias setoriais. Constatou-se, ainda, que a adoção parcial das IFRS S1 e S2 contribui para fortalecer a competitividade, ampliar o acesso a novos mercados e consolidar práticas empresariais mais sustentáveis, promovendo o alinhamento dessas organizações às demandas globais de governança e sustentabilidade.
Palavras-chave: Sustentabilidade corporativa. Normas IFRS S1 e S2. Pequenas empresas fornecedoras. Relatórios de sustentabilidade. ESG.
ABSTRACT
Sustainability and climate issues have taken center stage in the global corporate landscape, driven by stricter regulations and increasing pressure from investors and consumers for transparency and socio-environmental responsibility. In this context, the IFRS Foundation launched IFRS S1 and IFRS S2 standards, which establish guidelines for the disclosure of sustainability and climate information, seeking to standardize corporate reporting and improve the comparability of information. This study aims to analyze how small supplier companies can begin the process of adapting to the requirements of these standards, considering their financial, operational, and technical limitations. To achieve this purpose, the research adopts a qualitative and exploratory approach, based on a bibliographic and documentary review of recent publications. The results indicate that, although small companies face significant challenges—especially the scarcity of resources and technical knowledge—it is possible to develop gradual compliance strategies, such as the adoption of simplified indicators, investment in internal training, and the formation of sectoral partnerships. It was also found that the partial adoption of IFRS S1 and S2 contributes to strengthening competitiveness, expanding access to new markets, and consolidating more sustainable business practices, promoting the alignment of these organizations with global governance and sustainability demands.
Keywords: Corporate sustainability. IFRS S1 and S2 standards. Small business suppliers. Sustainability reporting. ESG.
1. INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, a sustentabilidade e as questões climáticas ganharam relevância no cenário global, tanto em termos de regulamentações quanto de exigências por parte de investidores e consumidores. Conforme Oliari (2024), “a procura por informações sólidas e comparáveis tornou-se um desafio latente para empresas, investidores e demais stakeholders”. Nesse contexto, a International Financial Reporting Standards (IFRS) Foundation lançou as normas IFRS S1 e IFRS S2, voltadas à divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade e ao clima.
Essas normas foram desenvolvidas com o propósito de fornecer dados mais completos, consistentes e comparáveis sobre o impacto das empresas em questões ambientais, sociais e de governança (ESG), fortalecendo a transparência e a tomada de decisões financeiras. A IFRS S1 estabelece requisitos gerais para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, enquanto a IFRS S2 foca especificamente nas divulgações climáticas.
Embora direcionadas principalmente a grandes corporações, essas normas reverberam por toda a cadeia produtiva, impactando também as pequenas empresas fornecedoras de insumos, que passam a ser cobradas por práticas alinhadas às diretrizes de sustentabilidade. As grandes empresas, ao implementarem as IFRS S1 e S2, acabam exigindo de seus fornecedores a adoção de medidas sustentáveis para garantir a conformidade com as regulamentações e a manutenção de parcerias comerciais.
Entretanto, as pequenas empresas enfrentam desafios significativos ao tentar se adequar a essas exigências, como a escassez de recursos financeiros e humanos e o conhecimento técnico limitado sobre as práticas requeridas. Nesse cenário, emerge a seguinte questão de pesquisa: como as pequenas empresas fornecedoras podem iniciar sua adaptação às normas de sustentabilidade impostas pelas IFRS S1 e S2, considerando suas limitações operacionais e financeiras?
Com base nessa problemática, o objetivo geral deste estudo é investigar como as pequenas empresas fornecedoras podem iniciar o processo de adequação às normas IFRS S1 e S2, levando em conta suas restrições e propondo estratégias práticas e acessíveis para facilitar essa transição.
Para alcançar tal objetivo, o artigo propõe três eixos analíticos: compreender os principais requisitos das normas IFRS S1 e S2 e seus impactos sobre a divulgação de informações de sustentabilidade e clima; analisar os desafios enfrentados pelas pequenas empresas no processo de adaptação às exigências das grandes corporações; e, por fim, propor estratégias viáveis e adaptadas à realidade das pequenas empresas, que possibilitem iniciar o processo de adequação e ampliar sua competitividade no mercado.
A relevância deste estudo reside no fato de que a sustentabilidade e as questões climáticas ocupam hoje posição central nas discussões corporativas e acadêmicas, impulsionadas por regulamentações internacionais e pela crescente demanda por práticas empresariais transparentes e responsáveis. Assim, compreender como pequenas empresas podem alinhar-se a essas novas exigências contribui para preencher uma lacuna na literatura, oferecendo um referencial teórico atualizado, assim como subsídios práticos que podem orientar políticas públicas, ações de apoio e estratégias empresariais voltadas à transição sustentável.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Sustentabilidade corporativa e ESG
A sustentabilidade é um conceito amplamente discutido nas últimas décadas, relacionado ao desenvolvimento sustentável e à busca por equilíbrio entre os aspectos ambientais, sociais e econômicos. Trata-se de um conjunto de ideias, estratégias e práticas ecologicamente corretas, economicamente viáveis, socialmente justas e culturalmente diversas, que visam assegurar que o progresso humano ocorra sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades (Sachs, 1993).
De acordo com Sachs (1993), a sustentabilidade deve ser compreendida como um processo multidimensional, que envolve dimensões ecológicas, sociais, políticas, culturais e temporais. Pereira Neto e Cândido (2020) complementam que os indicadores utilizados para avaliar a sustentabilidade variam de acordo com o contexto social e econômico de cada organização e com as transformações do desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, a sustentabilidade se consolida como um princípio orientador da gestão empresarial contemporânea.
Etimologicamente, o termo sustentável deriva do latim sustentare, que significa “sustentar”, “apoiar” ou “conservar”, e remete à ideia de continuidade e equilíbrio. Segundo o portal Brasil Escola (2023), há distinção entre os conceitos de “sustentável” — que indica a possibilidade de sustentação — e “sustentado”, que expressa uma sustentação já alcançada. Assim, a sustentabilidade pode ser classificada em três dimensões principais: ambiental, social e econômica, cada uma com objetivos complementares.
A sustentabilidade ambiental e ecológica refere-se à manutenção dos ecossistemas e à preservação dos recursos naturais, garantindo qualidade de vida às populações e harmonia entre o desenvolvimento humano e o meio ambiente (Sartori; Latronico; Campos, 2014). Essa dimensão busca reduzir o desperdício, promover o uso de energias limpas e renováveis, e incentivar práticas como reciclagem, consumo consciente e preservação de áreas verdes.
Já a sustentabilidade social tem como finalidade promover o bem-estar e o equilíbrio social, por meio de ações que reduzam desigualdades e melhorem as condições de vida da população. Iniciativas como programas de inclusão, investimentos em educação e saneamento básico, incentivo à cultura e apoio à qualificação profissional são exemplos de práticas que fortalecem essa dimensão (Leite; Oliveira; Lima, 2018).
Por sua vez, a sustentabilidade econômica diz respeito à viabilidade financeira das atividades produtivas, garantindo que o desenvolvimento ocorra sem gerar impactos negativos irreversíveis ao meio ambiente. Essa dimensão envolve o uso racional dos recursos, o incentivo à inovação tecnológica sustentável e a busca por modelos de negócio que conciliem rentabilidade e responsabilidade socioambiental (Costa, 2020).
No contexto corporativo, a sustentabilidade está diretamente ligada à responsabilidade social empresarial e à vantagem competitiva. Como destacam Sartori, Latronico e Campos (2014), a adoção de práticas sustentáveis fortalece a reputação da empresa, melhora seu relacionamento com os stakeholders e gera oportunidades de diferenciação no mercado. Dessa forma, as organizações que integram a sustentabilidade à sua estratégia de negócios passam a ser reconhecidas como empresas comprometidas com o futuro, o que repercute positivamente em sua imagem e desempenho econômico.
Nas últimas décadas, o debate sobre sustentabilidade corporativa ganhou destaque com a ascensão do conceito de ESG (Environmental, Social and Governance). Esse conjunto de práticas refere-se à incorporação de critérios ambientais, sociais e de governança à gestão empresarial, de modo a avaliar o impacto das operações e a transparência dos processos organizacionais (DELOITTE, 2023). Para Sartori, Latronico e Campos (2014), o ESG tornou-se um diferencial competitivo e um instrumento de mensuração da maturidade das empresas em relação à sustentabilidade.
As práticas ESG têm levado as organizações a repensar seus modelos de gestão, buscando equilibrar lucro, propósito e responsabilidade social. Entre as principais ações sustentáveis recomendadas estão: evitar o desperdício de água, utilizar fontes de energia renovável, preservar áreas verdes, racionalizar o uso de recursos minerais, incentivar a produção de alimentos orgânicos, realizar coleta seletiva e priorizar produtos biodegradáveis (Redalyc, 2013).
A aplicação de estratégias sustentáveis demonstra-se primordial para a preservação ambiental e para a melhoria da qualidade de vida, o fortalecimento da competitividade e o atendimento às exigências de investidores e consumidores. Como reforça Costa (2020), as empresas que alinham sustentabilidade e inovação tendem a obter melhores resultados de longo prazo, ampliando sua capacidade de adaptação e consolidando-se como agentes de transformação em direção a um modelo econômico mais responsável.
Assim, a sustentabilidade corporativa, alicerçada nos princípios ESG, configura-se como uma ferramenta estratégica fundamental para o posicionamento das empresas em um mercado cada vez mais orientado pela transparência, pela ética e pela busca de equilíbrio entre desenvolvimento e preservação ambiental.
2.2 O tripé da sustentabilidade
O conceito de sustentabilidade é amplamente sustentado por três pilares principais: o ambiental, o social e o econômico. Esses elementos formam a base do chamado tripé da sustentabilidade (triple bottom line), amplamente discutido na literatura como um modelo capaz de promover o equilíbrio entre o crescimento econômico, a responsabilidade social e a preservação ambiental (Sartori; Latronico; Campos, 2014). Alguns autores ainda acrescentam os aspectos culturais e tecnológicos como dimensões complementares à manutenção da sustentabilidade, uma vez que o desenvolvimento sustentável depende também da inovação e da valorização da diversidade sociocultural.
De acordo com Boff (2017, p. 45), “o tripé da sustentabilidade é um modelo que sugere que, para alcançar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, é necessário equilibrar e integrar três dimensões fundamentais: social, ambiental e econômica”. Nesse sentido, a sustentabilidade corporativa exige das empresas uma atuação integrada, em que a preservação ambiental, o bem estar social e a viabilidade econômica sejam tratadas de forma interdependente.
A Figura 1 apresenta o modelo do tripé da sustentabilidade, que propõe que o alcance de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável depende do equilíbrio e da integração entre três dimensões fundamentais: ambiental, social e econômica.
Figura 1 – Tripé da Sustentabilidade

Ser ecologicamente correto significa reconhecer o meio ambiente como parte de qualquer atividade humana. Essa postura está relacionada diretamente ao pilar ambiental do tripé da sustentabilidade, que pressupõe a preservação dos recursos naturais para garantir tanto o presente quanto o futuro. A sociedade e as organizações devem adotar práticas que minimizem o desgaste dos ecossistemas, assegurando a renovação dos recursos e a mitigação dos impactos negativos sobre o meio ambiente.
O pilar econômico do tripé está associado à viabilidade financeira das atividades humanas e empresariais. Segundo a definição da TOTVS (2024), a sustentabilidade econômica representa a capacidade de uma atividade gerar retornos financeiros suficientes para sua continuidade no longo prazo, sem comprometer o meio ambiente ou a sociedade. Assim, as empresas devem buscar o equilíbrio entre lucro, eficiência e responsabilidade socioambiental, mantendo-se economicamente sustentáveis e, ao mesmo tempo, comprometidas com a preservação ambiental e o bem-estar social.
O pilar social, por sua vez, diz respeito à justiça social e à valorização da qualidade de vida. Ser socialmente justo significa garantir que as ações empresariais considerem o público-alvo, assim como o desenvolvimento pessoal e profissional dos funcionários, fornecedores e comunidades envolvidas. Conforme destaca Medeiros (2023, p. 110), “o meio ambiente equilibrado, mais do que um conceito, é Lei. Uma empresa que vai além, buscando novas ideias, contribui de forma significativa com a sustentabilidade”.
Essas três dimensões — ambiental, social e econômica — estão interligadas e formam um sistema de interdependência, no qual a sustentabilidade depende do equilíbrio entre elas. Sachs (1993) ressalta que a sustentabilidade é um processo multidimensional e dinâmico, que envolve aspectos ecológicos, econômicos, políticos, culturais, sociais, temporais e espaciais. Pereira Neto e Cândido (2020) reforçam que as dimensões da sustentabilidade variam conforme as transformações sociais e o contexto de desenvolvimento, o que torna fundamental considerar as particularidades de cada organização ou território.
Além disso, conforme apresentado no Quadro 1, somente a integração dessas diferentes dimensões — ambiental, social e econômica — permite alcançar plenamente o conceito de sustentabilidade. O quadro ilustra como cada dimensão se traduz em ações práticas dentro das empresas, organizações e políticas públicas.
Quadro 1 – Integração das diferentes dimensões da sustentabilidade

Assim, compreender e aplicar o tripé da sustentabilidade no ambiente corporativo implica reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento sustentável só é alcançado quando o progresso econômico ocorre de maneira socialmente justa e ambientalmente equilibrada. O desafio das empresas, portanto, é incorporar práticas e estratégias que conciliem prosperidade, ética e preservação, promovendo um modelo de gestão voltado à longevidade organizacional e ao bem estar coletivo.
2.3 Normas IFRS S1 e S2
A ocorrência sucessiva de desastres ambientais e climáticos ampliou o foco global sobre a sustentabilidade e a necessidade de práticas empresariais mais responsáveis. Nesse contexto, o reporte transparente, sólido e comparável dos resultados da agenda ambiental e social das empresas tornou-se imprescindível para o relacionamento com stakeholders — especialmente investidores e órgãos reguladores. No entanto, a variedade de frameworks utilizados para a elaboração de relatórios de sustentabilidade dificultava a comparação entre empresas e, em muitos casos, mascarava a real situação das organizações, permitindo omissão de informações relevantes e comprometendo a credibilidade dos dados apresentados (DELOITTE, 2023).
Com o objetivo de resolver essa lacuna informacional e atender às demandas de órgãos internacionais, como o Conselho de Estabilidade Financeira do G20, o G7 e a International Organization of Securities Commissions (IOSCO), a International Financial Reporting Standards (IFRS) Foundation criou, em 2021, o International Sustainability Standards Board (ISSB). O objetivo do ISSB é padronizar a apresentação de relatórios de sustentabilidade, promovendo a comparabilidade, a transparência e a credibilidade das informações financeiras relacionadas a fatores climáticos, ambientais, sociais e de governança (Lebreiro, 2023; Trevisan, 2024).
Em 2023, durante a IFRS Foundation Conference, em Londres, foram lançadas as normas IFRS S1 e IFRS S2, marcos importantes para a padronização dos relatórios de sustentabilidade. Essas normas foram elaboradas a partir de consultas públicas internacionais e incorporam conceitos técnicos da Estrutura Internacional para Relato Integrado (IR), das Normas SASB (Sustainability Accounting Standards Board) e das diretrizes do Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD) (Grant Thornton, 2024).
2.3.1 Estrutura e objetivos das normas IFRS S1 e S2
A IFRS S1 estabelece requisitos gerais para a divulgação de informações sobre sustentabilidade, abrangendo aspectos como governança, estratégia, riscos e oportunidades relacionados ao desempenho sustentável das empresas. Essa norma visa garantir que as informações financeiras e não financeiras sejam reportadas de forma integrada, coerente e comparável entre diferentes organizações (APSIS CARBON, 2025).
Por outro lado, a IFRS S2 foca especificamente nas divulgações relacionadas ao clima, detalhando riscos e oportunidades decorrentes de impactos climáticos — como emissões de gases de efeito estufa, uso de energia e vulnerabilidades climáticas que possam afetar diretamente a saúde financeira das organizações. Essa norma também prevê a divulgação de metas climáticas, métricas de desempenho ambiental e estratégias de mitigação.
Segundo Trevisan (2024), “a padronização trazida pelas normas ‘S’ aos relatórios de sustentabilidade permite comparar o desempenho das empresas quanto à sustentabilidade, além de aumentar a transparência e a credibilidade na implementação das agendas ESG”. Assim, as IFRS S1 e S2 reforçam o compromisso global das corporações com a governança e a prestação de contas.
A adoção das normas também tem impacto direto na atração de investimentos sustentáveis, pois facilita o acesso das empresas a financiamentos verdes e promove maior confiança entre investidores e instituições financeiras. Além disso, a uniformização dos relatórios permite uma melhor avaliação dos riscos ESG, fortalecendo a governança corporativa e a competitividade no mercado global (CEBDS, 2023).
2.3.2 A aplicação das normas IFRS S1 e S2 no Brasil
As normas IFRS S1 e S2 representam um avanço significativo para a governança corporativa e já foram adotadas por mais de 130 países, incluindo o Brasil. Para coordenar essa implementação, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) criou, em 2022, o Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), com a função de emitir orientações técnicas e pareceres sobre a adoção das normas no país (LEBREIRO, 2023).
O CBPS é composto por representantes do CFC, da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), do Instituto de Auditoria Independente do Brasil (Ibracon), da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), da B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) e da Fipecafi, além de representantes de investidores institucionais.
O Brasil foi o primeiro país a adotar oficialmente os padrões do ISSB, por meio da Resolução n.º 193/2023 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que determina que empresas de capital aberto, fundos de investimento e securitizadoras elaborem e divulguem relatórios de informações financeiras de sustentabilidade conforme as IFRS S1 e S2.
Desde janeiro de 2025, a adoção dessas normas é voluntária, sendo recomendada a asseguração externa limitada até dezembro de 2025. A partir de 2026, a CVM tornará obrigatória a divulgação dos relatórios de sustentabilidade de acordo com os padrões internacionais, exigindo asseguração razoável por auditoria independente. Essa exigência representa uma mudança estrutural na forma como as empresas brasileiras reportam seus desempenhos ESG e um passo importante para alinhar o país às melhores práticas internacionais de transparência e governança (DELOITTE, 2023).
Além de promover a credibilidade e a confiabilidade das informações prestadas, as IFRS S1 e S2 incentivam as empresas a revisar seus controles internos, aprimorar processos de coleta de dados e estabelecer métricas claras para o acompanhamento de metas ambientais e sociais. Grant Thornton (2024) recomenda que as organizações adotem uma abordagem gradual, com formação de equipes multidisciplinares dedicadas à gestão de sustentabilidade e à integração de políticas ESG à contabilidade financeira.
A normatização dos relatórios de sustentabilidade representa, portanto, uma evolução na governança corporativa e um marco na consolidação da responsabilidade socioambiental corporativa no Brasil. Ainda que implique ajustes significativos nos sistemas contábeis e de gestão, sua implementação tende a posicionar as empresas em um nível mais elevado de competitividade, tanto no mercado nacional quanto internacional.
2.4 Desafios e Impactos das Normas de Sustentabilidade nas Pequenas Empresas
A adoção das normas IFRS S1 e IFRS S2 representa um avanço significativo para a transparência corporativa, porém impõe grandes desafios às micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Embora as exigências sejam direcionadas principalmente às grandes corporações, seus efeitos se estendem por toda a cadeia produtiva, alcançando os pequenos fornecedores que, para manter contratos com clientes de maior porte, precisam alinhar-se às novas práticas de sustentabilidade (LEITE; OLIVEIRA; LIMA, 2018).
Segundo o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS, 2023), a adequação às normas internacionais demanda uma estrutura de governança consolidada, com processos de controle, mensuração e divulgação de indicadores ESG. No entanto, a maioria das pequenas empresas não dispõe de recursos financeiros, tecnológicos ou humanos suficientes para essa adaptação.
O artigo Inovação, produtividade e sustentabilidade: reflexões a partir do Programa Brasil Mais Produtivo na Região Sul do Brasil (REVISTA CAPITAL CIENTÍFICO, UNICENTRO, 2024) reforça que, apesar de muitas MPMEs começarem a incorporar práticas sustentáveis, essas ações costumam ser secundárias diante das limitações financeiras e operacionais. A prioridade recai sobre a sobrevivência do negócio, e não sobre o investimento em estratégias ambientais e sociais de longo prazo.
O impacto da pandemia da COVID-19 agravou ainda mais esse cenário. De acordo com o Sebrae (2020), das 17,2 milhões de micro e pequenas empresas brasileiras, 31 % precisaram alterar suas operações e 4,2 milhões já se encontravam em situação financeira precária antes mesmo da crise. Esses números demonstram a vulnerabilidade estrutural das MPMEs, que enfrentam dificuldades até mesmo para manter fluxos de caixa saudáveis, o que torna ainda mais desafiador o investimento em relatórios e métricas de sustentabilidade.
Desse modo, a implementação das IFRS S1 e S2 nas pequenas empresas enfrenta barreiras reais, como escassez de capital, falta de qualificação técnica e pressão por resultados imediatos. Ainda assim, é importante destacar que o movimento global pela sustentabilidade tem incentivado a criação de mecanismos de apoio, parcerias setoriais e capacitações coletivas, que visam incluir essas empresas no processo de transição verde e na nova economia de baixo carbono.
2.5 Adaptação às Normas de Sustentabilidade: Estratégias e Boas Práticas
A adequação das pequenas empresas às normas IFRS S1 e S2 deve ocorrer de maneira gradual e estratégica, respeitando suas limitações operacionais e financeiras. Grant Thornton (2024) recomenda a adoção de um plano de transição escalonado, que inclua o levantamento de dados relevantes, a definição de indicadores simplificados e a integração progressiva das práticas ESG ao planejamento estratégico das organizações.
Entre as principais estratégias de adaptação destacam-se:
1. Capacitação e sensibilização interna – promover treinamentos para gestores e colaboradores sobre os princípios ESG e as exigências das normas IFRS, fomentando a cultura de responsabilidade socioambiental (COSTA, 2020);
2. Adoção de indicadores simplificados – implementar métricas acessíveis para acompanhar consumo de energia, gestão de resíduos e condições de trabalho, priorizando dados mensuráveis e relevantes para a realidade da empresa (REDALYC, 2013);
3. Parcerias com entidades setoriais e cooperativas – buscar apoio técnico e operacional em associações empresariais, federações e órgãos de fomento, que podem oferecer consultorias e cursos de capacitação;
4. Uso de tecnologias acessíveis – empregar softwares gratuitos ou de baixo custo para registro e acompanhamento de indicadores de sustentabilidade;
5. Elaboração de relatórios simplificados – ainda que não totalmente compatíveis com as IFRS S1 e S2, esses relatórios contribuem para fortalecer a transparência e a comunicação com stakeholders.
Além disso, conforme ressaltam Pereira Neto e Cândido (2020), as empresas devem adaptar suas práticas sustentáveis ao contexto social e territorial em que estão inseridas, valorizando a economia local e o relacionamento com as comunidades. Dessa forma, mesmo as micro e pequenas empresas podem avançar na implementação das normas, promovendo inovação, engajamento e legitimidade social.
A adoção gradual de práticas sustentáveis e o desenvolvimento de relatórios simplificados funcionam, portanto, como porta de entrada para a conformidade regulatória e podem gerar benefícios tangíveis, como redução de custos operacionais, aumento da eficiência energética e fortalecimento da imagem institucional.
2.6 Contribuições para a Competitividade e Sustentabilidade na Cadeia Produtiva
A incorporação das normas IFRS S1 e S2 pelas pequenas empresas fornecedoras, promove a conformidade regulatória e impulsiona a competitividade e a sustentabilidade em toda a cadeia produtiva. Segundo Apsis Carbon (2025), a transparência das informações de sustentabilidade permite que grandes corporações escolham parceiros alinhados a suas metas ESG, o que gera oportunidades de mercado para pequenas empresas comprometidas com a responsabilidade socioambiental.
As práticas sustentáveis, quando integradas à estratégia empresarial, aumentam a credibilidade e o valor da marca, favorecendo o acesso a novos contratos e linhas de financiamento verde. A adequação às IFRS S1 e S2 reforça o posicionamento competitivo das MPMEs, que passam a ser vistas como parceiras confiáveis e sustentáveis no longo prazo (TREVISAN, 2024).
Além disso, as normas favorecem o fortalecimento das relações interorganizacionais, uma vez que exigem cooperação entre empresas de diferentes portes para atingir metas conjuntas de sustentabilidade. Esse processo estimula a aprendizagem coletiva, a padronização de boas práticas e a melhoria contínua dos processos produtivos (PEREIRA NETO; CÂNDIDO, 2020).
Ao adotar práticas sustentáveis e se alinhar às exigências das IFRS S1 e S2, as pequenas empresas contribuem para um modelo de desenvolvimento mais equitativo e resiliente, em que o crescimento econômico ocorre sem comprometer os recursos ambientais e sociais. Assim, as normas não devem ser vistas apenas como uma obrigação regulatória, mas como um instrumento de transformação e modernização da gestão empresarial, capaz de gerar valor compartilhado para toda a cadeia produtiva.
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, baseada em revisão bibliográfica e documental. A análise é conduzida de forma interpretativa, relacionando os conceitos de sustentabilidade corporativa, ESG e as exigências das IFRS S1 e S2 ao contexto das pequenas empresas fornecedoras.
Este estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamentada em pesquisa bibliográfica e documental. O caráter qualitativo justifica-se pela necessidade de compreender, de forma interpretativa, como as pequenas empresas fornecedoras podem se adaptar às normas IFRS S1 e IFRS S2, considerando suas limitações financeiras, operacionais e estruturais. Segundo Gil (2019) e Marconi e Lakatos (2021), esse tipo de abordagem é adequado quando se busca analisar fenômenos complexos, interpretando relações, significados e impactos sem recorrer a dados estatísticos.
A pesquisa foi desenvolvida em três etapas principais. A primeira consistiu na análise das normas IFRS S1 e S2 e de seus requisitos de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima. A segunda etapa buscou identificar os desafios enfrentados pelas pequenas empresas para se adequarem às exigências dessas normas, especialmente quanto à disponibilidade de recursos, pessoal qualificado e estrutura de gestão. Por fim, a terceira etapa consistiu na proposição de estratégias de adaptação e boas práticas que possam auxiliar as pequenas empresas a iniciar o processo de conformidade, considerando experiências relatadas em estudos e documentos técnicos.
Foram utilizadas como fontes de informação livros, artigos científicos, relatórios técnicos e documentos institucionais emitidos por órgãos como a International Financial Reporting Standards (IFRS) Foundation, o International Sustainability Standards Board (ISSB), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), além de publicações de consultorias como Deloitte, LEBREIRO, Grant Thornton e CEBDS. Os materiais foram selecionados com base em critérios de relevância, atualidade e credibilidade, privilegiando produções entre os anos de 2020 e 2025.
A análise dos dados foi conduzida por meio da análise de conteúdo, conforme Bardin (2016), a fim de identificar categorias temáticas e recorrências nas fontes consultadas. As principais categorias analisadas foram: sustentabilidade e fatores ESG nas pequenas empresas; estrutura e aplicabilidade das normas IFRS S1 e S2; desafios de adaptação e estratégias de adequação; e contribuições para a competitividade e sustentabilidade organizacional.
Portanto, esta metodologia permite compreender de maneira crítica o impacto das normas IFRS S1 e S2 sobre as pequenas empresas fornecedoras, bem como identificar caminhos viáveis para sua implementação gradual, oferecendo uma base teórica sólida para futuras pesquisas empíricas sobre o tema.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados da pesquisa evidenciam que a adoção das normas IFRS S1 e IFRS S2 pelas pequenas empresas fornecedoras representa tanto um desafio estrutural quanto uma oportunidade estratégica de fortalecimento organizacional. A análise bibliográfica e documental revelou que, embora essas normas tenham sido concebidas para grandes corporações, seus efeitos se estendem a toda a cadeia produtiva, pressionando as pequenas empresas a adequarem suas práticas de governança, transparência e sustentabilidade.
Em primeiro lugar, identificou-se que as principais barreiras enfrentadas pelas pequenas empresas são de natureza financeira, técnica e operacional. A limitação de capital impede investimentos em tecnologias de mensuração e controle ambiental; a carência de profissionais qualificados dificulta a elaboração de relatórios de sustentabilidade; e a falta de planejamento de longo prazo restringe a capacidade de incorporar métricas ESG em suas estratégias (LEITE; OLIVEIRA; LIMA, 2018; CEBDS, 2023). Esses fatores indicam que, para a maioria das micro e pequenas empresas, a conformidade total com os padrões internacionais ainda é um desafio distante.
Contudo, os resultados também apontam estratégias viáveis de adaptação, que podem ser implementadas gradualmente, sem comprometer a viabilidade econômica dessas organizações. Entre elas, destacam-se:
(a) a utilização de indicadores simplificados para mensurar consumo de energia, emissões e práticas trabalhistas;
(b) a formação de parcerias com entidades setoriais e órgãos de fomento, para acesso a capacitação técnica e consultorias especializadas; e
(c) o uso de tecnologias acessíveis, como softwares gratuitos de controle de emissões e gestão de resíduos. Essas ações permitem que as empresas avancem em direção à sustentabilidade mesmo com recursos limitados (GRANT THORNTON, 2024; Costa, 2020).
Além dos aspectos operacionais, a pesquisa evidenciou que o alinhamento às normas IFRS S1 e S2 pode gerar ganhos competitivos significativos. As pequenas empresas que adotam práticas de sustentabilidade e reportam suas ações com transparência são mais propensas a manter contratos com grandes corporações, captar investimentos e fortalecer sua imagem perante consumidores e investidores (APSIS CARBON, 2025). Assim, a adequação gradual às normas pode ser interpretada como uma obrigação regulatória, assim como um diferencial estratégico capaz de impulsionar a competitividade na cadeia produtiva.
Outro resultado relevante é a constatação de que a integração entre práticas ESG e desempenho financeiro tende a reforçar a sustentabilidade de longo prazo. Conforme Trevisan (2024) e LEBREIRO (2023), empresas que internalizam os princípios ESG em seus processos decisórios tendem a apresentar maior resiliência diante de crises econômicas e ambientais. Isso indica que a adoção das normas IFRS S1 e S2, mesmo em escala reduzida, pode contribuir para o fortalecimento institucional das pequenas empresas e para o desenvolvimento sustentável local.
Por fim, os resultados reforçam a importância de políticas públicas de apoio à implementação das IFRS S1 e S2 entre micro e pequenas empresas, com foco em capacitação, incentivos fiscais e mecanismos de crédito verde. Essas medidas podem facilitar a transição para modelos de negócio mais sustentáveis e alinhados às exigências globais de transparência e governança.
Dessa forma, a pesquisa oferece subsídios teóricos e práticos que podem orientar gestores e formuladores de políticas a compreender os desafios enfrentados por pequenas empresas e a desenvolver estratégias de inclusão sustentável nas cadeias produtivas. A adequação gradual às normas IFRS S1 e S2, além de favorecer a competitividade e a credibilidade, contribui para a construção de uma economia mais equilibrada, ética e ambientalmente responsável.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar como as pequenas empresas fornecedoras podem iniciar o processo de adequação às normas IFRS S1 e IFRS S2, considerando suas limitações operacionais, técnicas e financeiras. Partindo de uma abordagem qualitativa e exploratória, a pesquisa demonstrou que, embora essas normas tenham sido desenvolvidas para grandes corporações, seus efeitos são amplamente sentidos em toda a cadeia produtiva, especialmente entre os fornecedores que precisam alinhar suas práticas às exigências das empresas contratantes.
Constatou-se que a adoção das normas “S” representa as um avanço na padronização das informações de sustentabilidade, assim como uma oportunidade de fortalecimento institucional. As pequenas empresas que buscam compreender e aplicar, ainda que de forma parcial, os princípios estabelecidos pelas IFRS S1 e S2, tendem a ampliar sua competitividade, fortalecer sua imagem corporativa e garantir maior permanência em mercados cada vez mais exigentes quanto à transparência e responsabilidade socioambiental.
Os resultados indicam que o principal desafio para as micro e pequenas empresas reside na escassez de recursos e de capacitação técnica, o que dificulta a elaboração de relatórios de sustentabilidade e o cumprimento integral das exigências normativas. Contudo, a adoção gradual e estratégica dessas práticas — por meio de indicadores simplificados, parcerias institucionais, capacitação de pessoal e uso de tecnologias acessíveis — mostra-se uma alternativa viável e eficaz para a realidade desse segmento.
A análise reforça que a integração entre sustentabilidade, governança e desempenho econômico é um fator considerável para o desenvolvimento organizacional de longo prazo. Ao incorporar práticas ESG e alinhar-se às normas internacionais, as pequenas empresas contribuem para o cumprimento das metas globais de desenvolvimento sustentável, promovendo um modelo de negócio mais ético, transparente e resiliente.
Conclui-se, portanto, que a implementação das IFRS S1 e S2, mesmo que em estágios iniciais, constitui um caminho promissor para a transformação sustentável das cadeias produtivas. As empresas que compreenderem essa adequação como investimento — não somente como obrigação — estarão mais preparadas para enfrentar os desafios do mercado contemporâneo e contribuir de forma efetiva para uma economia de baixo carbono, inclusiva e socialmente justa.
Por fim, recomenda-se que futuras pesquisas aprofundem a análise empírica sobre a aplicação prática dessas normas, considerando estudos de caso em diferentes setores produtivos. Tais investigações poderão evidenciar com maior precisão os impactos econômicos e sociais da adoção das IFRS S1 e S2 e subsidiar políticas públicas e estratégias empresariais voltadas à inserção das pequenas empresas no movimento global de transição sustentável.
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