REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511251442
Julia Vicente Hass
Carla Bueno Medina
Adriana Berleze
Nadia Cristina Valentini
Resumo
Esta revisão narrativa analisou a produção científica sobre o desempenho das habilidades motoras fundamentais e o engajamento de crianças com sobrepeso e obesidade nas aulas de Educação Física escolar, destacando implicações pedagógicas para o professor. Os estudos mostram que essas crianças tendem a apresentar menor proficiência motora, menor envolvimento em atividades de maior intensidade e maior vulnerabilidade ao desinteresse e à auto exclusão, fatores agravados pelo aumento da inatividade física e pela exposição a ambientes obesogênicos.
A literatura evidencia que o desenvolvimento motor depende diretamente da qualidade das oportunidades de movimento oferecidas na escola e das estratégias didáticas utilizadas. Intervenções pedagógicas planejadas, que incluem adaptação de tarefas, desafios graduais, uso de feedback positivo, promoção de clima motivacional orientado à maestria e ampliação do tempo de prática efetiva, demonstram efeitos positivos sobre desempenho motor, motivação, percepção de competência e participação ativa. Os resultados reforçam que a Educação Física escolar constitui um espaço privilegiado para favorecer experiências motoras significativas e contribuir para hábitos saudáveis. Conclui-se que o professor desempenha papel central ao planejar práticas inclusivas e sensíveis às necessidades de crianças com sobrepeso e obesidade, promovendo engajamento, autonomia, desenvolvimento motor e um estilo de vida fisicamente ativo.
1. Introdução
A trajetória do desenvolvimento motor é caracterizada por mudanças de comportamento ao longo da vida. Essas mudanças ocorrem direcionadas por características individuais, pelas experiências vivenciadas pela criança e pela especificidade e complexidade das atividades propostas nas aulas de educação física (BRONFENBRENNER, 1996; NEWELL, 1986). No ambiente escolar, essas interações se manifestam de forma evidente, uma vez que a escola é um espaço privilegiado para promover o desenvolvimento integral da criança. A Educação Física, por meio de atividades planejadas e significativas, cria condições para que os fatores biológicos e ambientais atuem de maneira positiva no processo de aprendizagem motora. Assim, as transformações observadas na infância estão fortemente relacionadas ao desenvolvimento físico, social, cognitivo e motor, dimensões diretamente contempladas nas práticas pedagógicas da Educação Física.
Na dimensão física, é durante o crescimento, por meio de mudanças em peso e estatura, que se desenvolve a imagem corporal e as experiências vivenciadas nas aulas de Educação Física contribuem para a formação de sentimentos positivos sobre o próprio corpo, influenciando preferências e atitudes diante das atividades. Na dimensão social, a infância representa um período de intensas mudanças de comportamento e atitudes, fortemente influenciadas pelas respostas e interações com colegas e professores, especialmente nas situações de jogos recreativos e esportivos. Na dimensão cognitiva as aulas de Educação Física são um espaço rico em oportunidades para o exercício de funções cognitivas superiores de resolução de problemas, tomada de decisão, atenção e funções executivas (controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva); as quais de forma interdependente possibilitam a interação com o contexto e a realização de tarefas complexas. No domínio motor, as aulas de Educação Física são o contexto ideal para proporcionar experiências de movimento que favoreçam a prontidão, aquisição e o domínio de novas habilidades essenciais para as brincadeiras infantis, os grandes jogos e o esporte, como correr, saltar, chutar, arremessar e quicar. O aprimoramento dessas habilidades depende da variedade e da qualidade das experiências que a criança vivencia (PAPALIA & OLDS, 2000; BEE, 1996), e a Educação Física tem papel fundamental nesse processo ao garantir oportunidades de movimento diversificadas e desafiadoras.
Para que a trajetória de desenvolvimento ocorra de forma apropriada, é fundamental que vivencie as mais variadas formas de experiências motoras (SANTOS, DANTAS & OLIVEIRA, 2004). Reforçando a importância do movimento e do jogo ativo nas aulas de Educação Física, permitindo à criança conquistar o domínio do corpo nas mais variadas habilidades motoras fundamentais em vivências motoras lúdicas e desafiadoras. Crianças com proficiência motora nas mais variadas habilidades motoras fundamentais apresentam níveis elevados de engajamento e participação nas atividades propostas nas aulas, e consequentemente, maior adesão futura nas práticas motoras que asseguram a qualidade de vida (VALENTINI, 2002).
O engajamento nas atividades está diretamente relacionado às conquistas das crianças (ASHY; LEE & LANDIN, 1998; SILVERMAN, 1985), e essas conquistas dependem das experiências em diferentes contextos — sobretudo o escolar — que estimulam a aquisição e o aperfeiçoamento de habilidades motoras (KREBS, 2003). Assim, o engajamento da criança nas aulas de Educação Física não depende apenas da atividade proposta, mas também de um ambiente de apoio as conquistas, de reconhecimento dos esforços pessoais e da continuidade da proposta pedagógica que atenda as necessidades de todas as crianças (VALENTINI; RUDISILL & GOODWAY, 1999a, 1999b; WENGER, 1998). Para compreender plenamente os fatores que influenciam o desenvolvimento infantil, é indispensável olhar para a criança em seus principais contextos de desenvolvimento e a escola é um desses contextos.
Entretanto, durante o processo de desenvolvimento, algumas crianças têm mais dificuldades na aquisição de habilidades motoras e evidenciam atrasos, decorrentes de fatores genéticos, endócrinos e/ou ambientais, o que leva a um engajamento pobre nas aulas de Educação Física. Tanto os fatores biológicos quanto os ambientais podem alterar o curso das mudanças (CLARK & WHITALL, 1989). Nesta perspectiva, o contexto escolar, em especial as aulas de Educação Física, é determinante para o desenvolvimento e para a construção de um estilo de vida saudável de vida, especialmente para crianças com sobrepeso e obesidade. Para essas crianças, as vivências motoras tendem a ser limitadas e muitas vezes levando crianças a autoexclusão das atividades (BERLEZE & HAEFFNER, 2002); o que reforça o papel da Educação Física escolar como espaço de inclusão, estímulo e superação de barreiras motoras. A dificuldade motora deve ser reconhecida e trabalhada sistemática e pedagogicamente, com a colaboração de todos os agentes educacionais. Muitas vezes, a única forma de promover avanços significativos no desenvolvimento motor é fortalecer os ambientes de aprendizagem escolar e as possibilidades de movimentos oferecidos nas aulas de Educação Física.
Destaca-se ainda que atualmente a redução das oportunidades de movimento e o aumento de comportamentos sedentários, como o tempo excessivo em frente as telas, têm impactado o desenvolvimento infantil e contribuído para o aumento dos índices de sobrepeso e obesidade (MEDINA & VALENTINI, 2025), além de impactar negativamente o desenvolvimento socioemocional, aumentando o risco de depressão e ansiedade (MUPPALLA et al., 2023). Dessa forma, a redução do tempo de tela pode ser considerada um fator de proteção relevante para a prevenção do sobrepeso e da obesidade em crianças e adolescentes (MEDINA & VALENTINI, 2025).
Para essas crianças, ressalta-se a importância de estratégias educativas implementadas no ambiente escolar, desde os primeiros anos, para promover o engajamento nas diferentes tarefas, as aquisições de habilidades motoras e os hábitos saudáveis (BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022). Neste cenário, torna-se essencial valorizar as atividades corporais infantis e o papel do professor de Educação Física como mediador do desenvolvimento motor e da formação de hábitos saudáveis. As práticas pedagógicas devem ser planejadas de forma intencional, buscando aumentar o dinamismo das rotinas e promover atividades que integrem aspectos motores, cognitivos e sociais (VALENTINI & RUDISILL, 2006; VALENTINI et al., 2017). As estratégias pedagógicas implementadas na Educação Física escolar devem considerar a observação, a avaliação e a intervenção pedagógica sistemática (KNUDSON & MORRISON, 2001). Um planejamento sistemático é essencial para que o processo educativo seja eficaz, respeitando o ritmo de cada criança e favorecendo o progresso motor contínuo.
Abordagens metodológicas no ensino da Educação Física que enfatizam a centralidade do aluno no processo de aprendizagem (BANDURA, 1974; VYGOTSKY, 1978) e que considerem a necessidade de motivar a criança para a maestria de diferentes habilidades (BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022; DE SOUZA, NOBRE & VALENTINI, 2023; NOBRE, NOBRE & VALENTINI, 2024; PICK & VALENTINI, 2022) tem inspirado a implementação de currículos que destacam o papel ativo do aprendiz e o valor da motivação na superação de desafios motores. Contextos motivacionais nas aulas de Educação Física que priorizam o domínio das habilidades e a autonomia da criança, estimulando o engajamento motor e a busca pela melhora do desempenho são efetivos em prover a aprendizagem, o fortalecimento da percepção de competência, autoestima e autoconceito, e de laços sociais, bem como sentimentos de pertencimento (BANDEIRA et al, 2017; SOUSA et al, 2016; NOBRE & VALENTINI, 2019; ZANELLA et al, 2016). Tais contextos também favorecem o envolvimento ativo nas tarefas e o prazer pelo movimento especialmente para crianças com maiores dificuldades de movimento, incluindo as crianças com sobrepeso e obesidade (BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022).
2. Método
Esta revisão narrativa teve como objetivo descrever e interpretar, de forma integrativa, a produção científica acerca do desempenho das habilidades motoras fundamentais e do engajamento nas aulas de Educação Física escolar de crianças com sobrepeso e obesidade, destacando as implicações pedagógicas para o professor e as estratégias de ensino voltadas à inclusão, à participação e ao desenvolvimento motor. A escolha pela revisão narrativa justifica-se por permitir a integração e a análise crítica de estudos com diferentes delineamentos, focando especialmente evidências que dialogam com a prática docente e com o planejamento das aulas de Educação Física, sem a obrigatoriedade de seguir protocolos sistemáticos rígidos de inclusão e exclusão.
A coleta de dados dos artigos científicos foi realizada entre março e julho de 2025, utilizando as bases Google Scholar, ISI, PubMed e SciELO, considerando publicações compreendidas entre os anos de 2000 e 2025. Os termos de busca empregados foram: “habilidades motoras fundamentais & obesidade/sobrepeso”, “desenvolvimento motor & obesidade/sobrepeso”, “engajamento & obesidade/sobrepeso”, “habilidades motoras fundamentais & Educação Física escolar”, “engajamento & Educação Física escolar”, “obesidade/sobrepeso & Educação Física escolar”. Esses termos foram selecionados de forma a garantir que os estudos localizados dialogassem diretamente com o contexto da Educação Física e com práticas docentes voltadas ao desenvolvimento motor e à participação ativa das crianças. O critério de inclusão para os livros consistiu em serem obras publicadas na área do desenvolvimento motor e do desenvolvimento humano.
Foram incluídos artigos publicados em português e inglês, que investigassem crianças de 4 a 12 anos e abordassem o codesenvolvimento motor infantil, o engajamento nas aulas ou aspectos relacionados à participação e ao desempenho motor em contextos escolares; além de livros sobre desenvolvimento motor e humano que pudessem subsidiar reflexões pedagógicas relevantes para a atuação do professor de Educação Física. Excluíram-se artigos de opinião, editoriais e duplicados. Ao final do processo, foram selecionados 46 artigos, 1 guia de recomendações e 14 livros de desenvolvimento motor/humano, com os quais foi possível construir uma síntese orientada não apenas para a compreensão científica do tema, mas também para a elaboração de considerações práticas e estratégias aplicáveis ao cotidiano das aulas de Educação Física.
O foco desta revisão, portanto, não se limita à caracterização das habilidades motoras e do engajamento, mas inclui a identificação de estratégias pedagógicas, adaptações metodológicas e recomendações práticas que possam apoiar professores de Educação Física na condução de aulas mais inclusivas e efetivas para crianças com sobrepeso e obesidade
3. Desenvolvimento
3.1. Obesidade Infantil na Escola: Indicadores Nutricionais, Determinantes e Contribuições da Educação Física para a Promoção da Saúde
Um dos temas mais debatidos na área da Educação Física Escolar, devido ao seu papel determinante no desenvolvimento infantil, é a nutrição. No contexto escolar, compreender o estado nutricional dos alunos é fundamental para orientar práticas pedagógicas que promovam saúde, movimento e autonomia corporal. A obesidade infantil constitui área central de interesse entre educadores uma vez que esta é considerada uma doença multifatorial, envolve riscos como hipertensão, diabetes, disfunções neuroendócrinas, alterações lipídicas, câncer, problemas cardiovasculares e em algumas situações alterações comportamentais. Para o professor de Educação Física, compreender a complexidade dessa condição é essencial para planejar aulas que incentivem o movimento, a autonomia motora e hábitos saudáveis desde a infância.
Do ponto de vista epidemiológico, a obesidade apresenta crescimento alarmante, inicialmente observado em países desenvolvidos, mas rapidamente expandido para contextos como o Brasil. A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (ABESO, 2019) indica prevalência preocupantes para crianças e jovens brasileiros: Para crianças entre 5 e 10 anos, 16,33% têm sobrepeso, 9,38% obesidade dentre os quais 5,22% obesidade grave, ou seja aproximadamente 25% das crianças nesta faixa etária tem problemas com excesso de peso. Entre adolescentes, nas idades de 10 a 19 anos, 18% têm sobrepeso, 9,53% têm obesidade e dentre estes 3,98% com obesidade grave; ou seja, aproximadamente 30% dos jovens têm excesso de peso. Fatores como inatividade, tempo excessivo em telas (TWENGE & CAMPBELL, 2018), insegurança urbana, transporte motorizado e alimentação inadequada contribuem para a ampliação do tempo da criança dentro de casa, redução das brincadeiras ao ar livre e consequentemente o aumento do sobrepeso e obesidade. Observa-se, portanto, nas últimas décadas, uma transição nutricional marcada pela redução de déficits nutricionais em parte da população, o aumento de alimentos calóricos com baixo valor nutricional, o avanço alarmante do lazer passivo com uso de telas e a diminuição de atividades físicas rigorosas na infância. Tal cenário mundial evidencia a necessidade de ações escolares sistematizadas, especialmente na Educação Física, visando promoção da saúde, ampliação do repertório motor e incentivo à prática regular de atividade física.
Destaca-se que o período crítico para detecção precoce do excesso de peso é a infância, sobretudo entre as idades de 4 e 8 anos (WISEMANDLE et al., 2000), momento no qual a escola e, principalmente, a Educação Física têm maior potencial de prevenção e cuidado. Nesse sentido, o papel da Educação Física Escolar torna-se decisivo para organizar propostas pedagógicas que aumentem a quantidade, a qualidade e o sentido das experiências corporais. O professor de Educação Física, articulado com outros educadores no contexto escolar, pode promover mudanças de hábitos alimentares, incorporação de exercícios regulares de intensidade adequado para cada período do desenvolvimento e suporte emocional para essas crianças.
3.2. As habilidades motoras fundamentais e o crítico papel da educação física escolar no cuidado da criança com sobrepeso e obesidade
As habilidades motoras fundamentais são consideradas a base dos movimentos especializados necessários para a participação com êxito em esportes, lutas e danças (GALLAHUE & OZMUN, 2001; GALLAHUE, OZMUN & GOODWAY, 2013; HAYWOOD & GETCHELL, 2004, 2016). No contexto escolar, essa etapa é especialmente sensível, já que é durante as vivências pedagógicas, em especial nas aulas de Educação Física, que muitas crianças têm suas principais oportunidades de explorar e aperfeiçoar habilidades motoras fundamentais. A proficiência nessas habilidades depende diretamente (a) das oportunidades para a prática sistemática e de qualidade no cotidiano escolar, (b) da instrução qualificada do professor, e (c) de estímulos adequados e desafiadores (COSTA et al., 2014; FOLLETO; PEREIRA & VALENTINI, 2016; KEULEN et al., 2016; PALMA, PEREIRA & VALENTINI, 2014; PIFFERO & VALENTINI, 2010; VALENTINI, 1999; VALENTINI & RUDISILL, 2004a, 2004b). Com uma participação efetiva nas atividades implementadas na Educação Física escolar a criança poderá conquistar um padrão motor adequado para sua idade de forma consistente e competente, o que permitirá a participação em esporte organizado, jogos e brincadeiras.
Quando se trata de crianças com sobrepeso e obesas essas oportunidades no contexto escolar são ainda mais relevantes pois essas crianças são mais vulneráveis e em geral tem menores oportunidades de se engajarem em esportes no contraturno escolar, (BERLEZE, 2002; BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022; ZANELLA et al., 2016). As experiências motoras oferecidas neste ambiente escolar, que considera as possíveis dificuldades dessas crianças, são fundamentais para que elas adquiram as competências necessárias para utilizar essas habilidades em diferentes contextos com autonomia, garantindo a participação em atividades esportivas que promovam o desenvolvimento integral, que promovam a qualidade de vida, fortaleçam a motivação e as percepções positivas sobre suas próprias habilidades (VALENTINI & RUDISILL, 2006).
Entretanto, na atualidade, a obesidade é fator contundente associado aos atrasos motores de crianças (BERLEZE, HAEFFNER & VALENTINI 2007; BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022). Frente esta realidade, programas têm sido implementados para detectar as dificuldades motoras nas variadas habilidades motoras fundamentais nesta população com metas de prevenção e compensação, enfatizando a escola com contexto crítico no combate a obesidade infantil. De forma geral, esses programas têm como desfechos primários potencializar o desenvolvimento de habilidades motoras e aumentar o engajamento das crianças em práticas que suportem a aquisição de novas habilidades. Resultados positivos têm sido reportados nesses programas para crianças com sobrepeso e obesidade no fortalecimento das percepções de competência (CLIFF et al., 2007), no aumento nos níveis de engajamento nas atividades físicas (BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022; FITZGIBBON et al, 2005; REILLY et al., 2006), na melhora da qualidade de vida de curto e longo prazo (POETA et al., 2013), no compromisso e prazer na atividade (GRIFFIN, MEANEY & HART, 2013) e no desempenho motor proficiente nas mais variadas habilidades motoras (BERLEZE, 2002; BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022; ZASK et al, 2012). Esses resultados reforçam fortemente os benefícios de programas específicos desenvolvidos no ambiente escolar e nas aulas de educação física para propiciar a todas as crianças oportunidades concretas e efetivas de aquisição e expansão de um repertório motor diversificado. Os resultados reforçam também a importância de integrar a criança com sobrepeso e obesidade de forma efetiva nas aulas de Educação Física, uma vez que essas crianças estão predispostas a desenvolverem doenças crônicas-degenerativas (cardíacas, diabetes, hipertensão, entre outras) e talvez a escola seja o único espaço para tal práticas.
Consequentemente, as abordagens escolares frente à obesidade infantil devem priorizar ações preventivas que incluem o aprendizado de habilidades motoras fundamentais com o paralelo ao fortalecimento de habilidades sociais e emocionais, para a promoção do desenvolvimento integral. Para tanto é essencial que crianças com sobrepeso e obesidade sejam inseridas rotineiramente em experiências motoras diversificadas nas aulas de Educação Física, atividades que estimulem capacidades cardiorrespiratórias e força muscular podem inclusive reduzir a manifestação de predisposições genéticas relacionadas ao índice de massa corporal elevado (COOPER et al, 2015; TODENDI et al., 2021). Além disso, esses programas tendem a ser mais efetivos quando combinam a implementação de estratégias que auxiliem as crianças a lidarem com ambientes obesogênicos (ELMESMERI, et al., 2018). Esses programas escolares, principalmente implementados nos anos iniciais, tem potencial de aumentar o envolvimento e o prazer nas atividades físicas. Quando implementadas na escola, tais abordagens contribuem para ampliar o engajamento dos estudantes, aprimorar suas habilidades e fortalecer a relação positiva com a prática corporal e integrar essas crianças em práticas motoras regulares.
3.3. Educação Física Escolar e Obesidade Infantil: Determinantes do Engajamento e da Participação Ativa
Incentivar o interesse pela prática motora desde a infância é fundamental, especialmente no ambiente escolar, onde a Educação Física contribui para prevenir, manter e aprimorar as capacidades físicas e apoiar o desenvolvimento integral da criança. Quando a redução de peso é necessária, torna-se indispensável promover mudanças amplas nos hábitos de vida, incluindo alimentação e rotina de movimentação. O engajamento nas aulas de Educação Física, aliado à reeducação alimentar, é essencial para favorecer a participação ativa, bem como a manutenção e/ou redução do peso corporal. As aulas de Educação Física assumem papel central no estímulo à participação regular das crianças em atividades físicas, favorecendo aprendizagens significativas e uma melhor qualidade de vida.
O interesse da criança pela prática motora, determinante para que ela se envolva nas atividades propostas e desenvolva habilidades de forma significativa, pode depender de múltiplos fatores: (a) as experiências motoras e oportunidades oferecidas nas aulas; (b) o contexto sociocultural em que está inserida, dado que toda atividade de domínio motor se desenvolve dentro dos limites e práticas do grupo social; (c) as conquistas e progressos percebidos nas atividades; (da qualidade do engajamento nas aulas, que possibilita construir padrões auto referenciados de conquistas; e (e) as estratégias motivacionais adotadas pelo professor de Educação Física (VALENTINI & RUDISILL, 2004a, 2004b). Essas experiências são essenciais para que a aprendizagem seja significativa, ou seja para que a criança demonstre disposição para aprender; compressão para usar os recursos de aprendizagem que são relevantes para ela; e capacidade de estabelecer relações entre conteúdos já aprendidos com novos conteúdos (KREBS, 2003; VALENTINI & TOIGO, 2006). Ao considerar o potencial de desenvolvimento da criança com sobrepeso e obesidade, o professor de Educação Física cria condições para que elas persistam nas atividades, adquiram novas habilidades e desenvolvam autonomia (VALENTINI, 2002; BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022; PICK & VALENTINI, 2022).
Destaca-se ainda que o tempo, a intensidade e a adequação do engajamento são elementos decisivos que influenciam a qualidade da aprendizagem (GRAHAM; HOLT-HALE; PARKER, 1992; RINK, FRENCH & GRAHAM, 1996). O tempo de prática efetiva, no qual o aluno está engajado motoramente, sem esperas em filas, determinam o quanto a criança aprende. Ao longo das aulas de Educação Física crianças com sobrepeso, mas especialmente as com obesidade, tendem a participar menos e predominantemente em níveis leves ou moderados de esforço enquanto crianças eutróficas tendem a praticar atividades intensas (BRACCO et al., 2002; FERNANDES et al., 2006; SIMONS-MORTON, TAYLOR & HUANG, 1994). Em contrapartida, quando são adotadas estratégias específicas voltadas para tarefas desafiadoras, reorganização do espaço das aulas, como o uso de estações e diferentes tarefas, e aumento do tempo de prática física intensa, observa-se um maior nível de engajamento das crianças com sobrepeso e obesidade acompanhado de uma redução drástica do tempo ocioso nas aulas de Educação Física (CARNIEL & TOIGO, 2003; FERNANDES et al., 2006; BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022). Outro fator relevante, neste contexto é que o aumento de feedbacks positivos, corretivos e descritivos aumentavam significativamente o engajamento motor dos alunos na prática, inclusive das crianças com sobrepeso e obesidade (BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022; ZANELLA et al, 2016).
O engajamento efetivo ocorre quando as atividades são significativas para a criança, permitindo continuidade e persistência (BRONFENBRENNER, 1996). Quando o professor estabelece um clima de maestria, quando as crianças eram envolvidas de maneira adequada nas tarefas motoras e vivenciavam situações de sucesso, o engajamento aumenta de forma semelhante indiferente às características físicas e níveis de habilidades de cada criança. Para todas as crianças participar de propostas que promovem escolhas, tomada de decisão, desafios progressivos e reforço da competência é essencial para ampliar o engajamento — de maneira semelhante ao que ocorre quando o indicador é objetivo (como acelerometria) quando se trata de evidências qualitativas, como mudanças de comportamento (BERLEZE & VALENTINI, 2021, 2022).
Crianças com sobrepeso e obesidade aumentam o engajamento nas tarefas, diminuem os comportamentos disruptivos, demonstram envolvimento adequado — frequência e qualidade emocional quando vivenciam oportunidades de sucesso em diferentes tarefas. Programas escolares implementados nas aulas de educação são um meio eficaz para favorecer o desenvolvimento motor de todas as crianças e podem romper o ciclo negativo de inatividade física–déficits motores– frustração–aumento da inatividade e ganho de peso de crianças com sobrepeso e obesidade.
4. Recomendações para a Educação Física Escolar
Os resultados desta revisão evidenciam que o desempenho motor e o engajamento de crianças com sobrepeso e obesidade estão fortemente associados às experiências proporcionadas nas aulas de Educação Física. Para o professor, isso implica a necessidade de organizar práticas que reconheçam as desigualdades motoras e motivacionais, evitando comparações que reforcem estigmas ou acentuem sentimentos de incompetência.
Professores desempenham papel decisivo na criação de ambientes que favoreçam a participação e o senso de pertencimento. Estratégias como adaptação das tarefas motoras, valorização de progressos individuais, diversificação de materiais, oferta de desafios graduais e uso de feedback positivo configuram ações-chave para ampliar a motivação e a confiança das crianças com excesso de peso. Além disso, práticas pedagógicas que priorizam cooperação em vez de competição contribuem para reduzir a exposição negativa e fortalecer o engajamento sócio emocional.
Outro aspecto relevante diz respeito à necessidade de compreender as barreiras externas às aulas, incluindo fatores psicossociais, dificuldades motoras prévias e experiências anteriores de fracasso ou exclusão. A atuação docente, portanto, deve integrar elementos de acolhimento, sensibilidade às diferenças corporais e promoção da autonomia, garantindo que todas as crianças percebam as aulas de Educação Física como um espaço seguro, estimulante e significativo para o desenvolvimento motor e emocional.
Assim, esta revisão reforça que o professor de Educação Física tem papel central na mitigação dos efeitos do sobrepeso e da obesidade sobre o desenvolvimento motor e a participação escolar, desde que utilize estratégias pedagógicas fundamentadas em evidências e orientadas para a inclusão e valorização das diferenças. Portanto fundamentados na literatura e nos resultados apresentados, é possível sistematizar algumas recomendações fundamentais para práticas eficazes no contexto escolar:
1. Promover ambientes motivacionais focados na maestria, garantindo que todas as crianças, independentemente do peso e das habilidades, vivenciem situações de sucesso motor.
2. Diversificar e ampliar as oportunidades motoras, utilizando estações, materiais variados e tarefas progressivamente desafiadoras, favorecendo a prática ativa e contínua.
3. Organizar o tempo pedagógico para maximizar o engajamento, reduzindo filas e tempos ociosos e aumentando o tempo de prática efetiva, especialmente em atividades de intensidade moderada a vigorosa.
4. Oferecer feedbacks positivos, descritivos e corretivos, reconhecendo esforços e progressos individuais, contribuindo para fortalecer a percepção de competência e o engajamento motor.
5. Identificar precocemente atrasos motores e oferecer intervenções sistemáticas que favoreçam o desenvolvimento das habilidades motoras fundamentais, principalmente entre crianças com sobrepeso e obesidade.
6. Integrar aspectos motores, cognitivos e socioemocionais, garantindo práticas que estimulem resolução de problemas, cooperação, tomada de decisão e autonomia.
7. Estabelecer parcerias interdisciplinares com professores de outras áreas, nutricionistas e equipes pedagógicas, potencializando ações educativas voltadas à alimentação saudável, rotina ativa e construção de estilos de vida positivos.
8. Valorizar a inclusão e combater práticas discriminatórias, assegurando que crianças com sobrepeso e obesidade tenham oportunidades reais de participar e se desenvolver no contexto escolar, fortalecendo vínculos, pertencimento e autoconfiança.
Essas recomendações reforçam a importância de uma Educação Física escolar planejada, sensível às diferenças individuais e orientada por evidências, capaz de contribuir efetivamente para o desenvolvimento motor, social, cognitivo e emocional de todas as crianças, com destaque para aquelas em maior risco de exclusão e vulnerabilidade.
5. Considerações Finais
A obesidade infantil, associada a fatores biológicos, ambientais e comportamentais, representa um dos principais desafios contemporâneos para o desenvolvimento integral das crianças. No contexto escolar, especialmente nas aulas de Educação Física, observa-se que crianças com sobrepeso e obesidade tendem a apresentar menores oportunidades de participação motora, níveis reduzidos de engajamento e maior propensão à autoexclusão. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que intervenções sistemáticas, que incluem vivências motoras diversificadas, clima motivacional para a maestria e práticas pedagógicas centradas no aluno, contribuem significativamente para melhorar o engajamento, as percepções de competência, o prazer pela prática e o desempenho motor dessas crianças. Esses resultados reforçam que a escola — e particularmente a Educação Física — constitui um ambiente privilegiado para promover experiências motoras de qualidade, capazes de romper ciclos negativos associados à inatividade, baixa competência motora, frustração e ganho de peso. Ao oferecer propostas que integram desafios progressivos, apoio socioemocional, organização pedagógica adequada e incentivo à autonomia, o professor de Educação Física contribui diretamente para a promoção de hábitos de vida saudáveis, inclusão motora e fortalecimento da autoestima, especialmente entre crianças com maior vulnerabilidade.
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