LINGUISTIC PREJUDICE IN BRAZIL: SOCIAL, EDUCATIONAL IMPACTS AND PATHS TO INCLUSION
PREJUICIO LINGÜÍSTICO EN BRASIL: IMPACTOS SOCIALES, EDUCATIVOS Y CAMINOS HACIA LA INCLUSIÓN
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512221010
Roberta Cláudia Doralice Honorato1
Orientadora: Profa. Rozineide Iraci Pereira da Silva2
RESUMO
Este artigo discute o preconceito linguístico no Brasil, examinando suas raízes históricas, suas manifestações cotidianas e seus impactos sociais, educacionais e culturais. Trata-se de uma pesquisa teórica, fundamentada na perspectiva da sociolinguística crítica, com base em autores como Bagno, Faraco e Bortoni-Ricardo. Argumenta-se que a imposição da norma-padrão como única forma legítima de expressão contribui para a estigmatização de falantes de variedades linguísticas populares, sobretudo entre estudantes e populações periféricas. Esse processo aprofunda desigualdades sociais, afetando a autoestima, o desempenho escolar e o acesso a oportunidades profissionais. O estudo aponta caminhos para o enfrentamento do problema, como a adoção de práticas pedagógicas inclusivas, a formação docente voltada à diversidade linguística e a implementação de políticas públicas que valorizem o pluralismo linguístico no país. Conclui-se que o reconhecimento da diversidade linguística é condição essencial para uma educação mais democrática e para a construção de uma sociedade justa e inclusiva.
Palavras-chave: preconceito linguístico; educação inclusiva; diversidade linguística.
ABSTRACT
This article discusses linguistic prejudice in Brazil by examining its historical roots, daily manifestations, and social, educational, and cultural impacts. The research is theoretical in nature and grounded in critical sociolinguistics, drawing on authors such as Bagno, Faraco, and Bortoni-Ricardo. It argues that the imposition of the standard norm as the only legitimate form of language contributes to the stigmatization of speakers of non-standard varieties, especially students and peripheral communities. This process reinforces social inequalities, affecting self-esteem, academic performance, and access to professional opportunities. The study proposes responses such as inclusive pedagogical practices, teacher education focused on linguistic diversity, and public policies that promote linguistic pluralism in Brazil. It concludes that recognizing linguistic diversity is essential to achieving democratic education and building a fair and inclusive society.
Keywords: linguistic prejudice; inclusive education; linguistic diversity.
RESUMEN
Este artículo aborda el prejuicio lingüístico en Brasil, analizando sus raíces históricas, sus manifestaciones cotidianas y sus impactos sociales, educativos y culturales. La investigación es de carácter teórico y se apoya en la sociolingüística crítica, con base en autores como Bagno, Faraco y Bortoni-Ricardo. Se argumenta que la imposición de la norma estándar como única forma legítima de expresión favorece la estigmatización de hablantes de variedades populares, especialmente estudiantes y poblaciones periféricas. Este fenómeno refuerza las desigualdades sociales, afectando la autoestima, el rendimiento académico y el acceso a oportunidades laborales. El estudio propone como estrategias de enfrentamiento la adopción de prácticas pedagógicas inclusivas, la formación docente orientada a la diversidad lingüística y la implementación de políticas públicas que valoren el pluralismo lingüístico en el país. Se concluye que el reconocimiento de la diversidad lingüística es fundamental para una educación democrática y la construcción de una sociedad más justa e inclusiva.
Palabras clave: prejuicio lingüístico; educación inclusiva; diversidad lingüística.
INTRODUÇÃO
A linguagem é um dos principais instrumentos de construção da realidade social, de produção de sentidos e de afirmação da identidade individual e coletiva. No entanto, em sociedades marcadas por desigualdades estruturais, como é o caso do Brasil, a língua também se torna um terreno de disputa simbólica e política. Nesse contexto, o preconceito linguístico emerge como uma forma de discriminação muitas vezes invisível, mas profundamente enraizada nas práticas sociais, educacionais e institucionais. Trata-se do julgamento negativo dirigido a indivíduos ou grupos com base em sua forma de falar, especialmente quando esta diverge da norma-padrão do português, socialmente legitimada como modelo de prestígio.
O preconceito linguístico está intimamente ligado à história de formação social e cultural do Brasil, marcada por processos de colonização, escravização e silenciamento de populações subalternizadas. Desde os tempos coloniais, a imposição da língua portuguesa como idioma oficial implicou a exclusão sistemática de outras formas de expressão, como as línguas indígenas, africanas e, posteriormente, as variedades populares urbanas e rurais do português brasileiro. Essa imposição construiu uma ideologia linguística que valoriza a norma-padrão como única forma correta e legítima de uso da língua, enquanto rebaixa todas as demais como erros, desvios ou sinais de inferioridade social (Bagno, 1999; Faraco, 2008).
A naturalização dessa ideologia normativa se manifesta em diversas situações cotidianas: no riso diante de sotaques regionais, na correção humilhante de alunos por parte de professores, na exigência velada de “boa dicção” em processos seletivos e até mesmo no conteúdo de livros didáticos e provas escolares. Esses comportamentos, embora muitas vezes tratados como banais, exercem efeitos concretos na vida dos falantes, afetando sua autoestima, sua inserção social e suas oportunidades educacionais e profissionais (Silva; Gonçalves, 2022; Martins; Freitas, 2021).
A escola, instituição que deveria acolher a diversidade linguística como riqueza cultural, tem historicamente desempenhado papel central na reprodução do preconceito linguístico. Isso ocorre, em grande parte, pela ausência de uma formação docente sólida no campo da sociolinguística, bem como pela persistência de práticas pedagógicas que priorizam exclusivamente a norma culta em detrimento de uma abordagem dialógica, crítica e inclusiva da linguagem. A correção gramatical descontextualizada, a desvalorização da oralidade popular e a promoção da norma-padrão como único modelo de sucesso comunicativo ainda são práticas frequentes em contextos escolares, o que contribui para a marginalização linguística de estudantes de classes populares e periféricas (Bortoni-Ricardo, 2004; Rodrigues; Pereira, 2021).
Ademais, o preconceito linguístico articula-se a outras formas de opressão, como o racismo, o classismo e o preconceito regional, tornando-se uma expressão de desigualdades históricas mais amplas. A fala do sujeito passa a ser não apenas um meio de comunicação, mas um marcador identitário que o posiciona socialmente. Nesse sentido, a discriminação linguística opera como uma tecnologia de poder, regulando o acesso a espaços de prestígio e legitimidade simbólica (Freitag et al., 2023; Gomes; Nascimento, 2022).
Considerando esse panorama, o presente artigo tem como objetivo analisar criticamente o preconceito linguístico no Brasil, com ênfase em suas raízes ideológicas, suas manifestações cotidianas e seus efeitos na vida social e educacional dos indivíduos. Com base em uma abordagem teórica da sociolinguística crítica, busca-se compreender o papel da linguagem na produção e reprodução das desigualdades sociais, bem como apontar caminhos para o enfrentamento do problema por meio de práticas pedagógicas inclusivas, formação docente e políticas públicas que valorizem a pluralidade linguística. Ao fazer isso, pretende-se contribuir para uma reflexão mais profunda sobre os desafios da educação linguística em uma sociedade democrática, plural e desigual como a brasileira.
MÉTODOS
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, de caráter bibliográfico e interpretativo, com base em aportes da sociolinguística crítica. A investigação concentra-se na análise de produções teóricas e acadêmicas que abordam o preconceito linguístico no Brasil, buscando identificar suas manifestações, implicações sociais e educacionais, bem como as possibilidades de enfrentamento a partir de práticas pedagógicas e políticas públicas inclusivas.
A opção por uma abordagem qualitativa justifica-se pela natureza do objeto de estudo, que envolve representações sociais, discursos, ideologias e práticas simbólicas relacionadas à linguagem. Diferentemente de métodos quantitativos, que se baseiam em mensuração estatística, a abordagem qualitativa permite compreender os significados atribuídos às práticas linguísticas e aos processos de exclusão simbólica produzidos pelo preconceito linguístico. Conforme Chizzotti (2006), a pesquisa qualitativa visa interpretar os fenômenos em seus contextos sociais, valorizando as experiências, os sentidos e os valores construídos pelos sujeitos envolvidos.
A pesquisa foi conduzida por meio de levantamento, leitura crítica e análise de obras clássicas e contemporâneas da área da sociolinguística brasileira, com ênfase em estudos que articulam linguagem, ideologia, educação e exclusão social. Foram utilizadas, como fontes principais, as produções de autores como Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Stella Maris Bortoni-Ricardo, bem como estudos recentes de Silva e Gonçalves (2022), Martins e Freitas (2021), Gomes e Nascimento (2022), entre outros pesquisadores que vêm discutindo o tema à luz dos debates atuais sobre diversidade, justiça social e direitos linguísticos.
O critério de seleção das obras fundamentou-se na relevância acadêmica dos autores, no reconhecimento das publicações na área de Letras e Linguística, e na pertinência temática em relação aos objetivos da pesquisa. Foram privilegiados trabalhos publicados nos últimos cinco anos, sem desconsiderar obras fundacionais indispensáveis para o campo, a fim de garantir uma perspectiva tanto histórica quanto atualizada sobre o problema investigado.
A análise dos textos foi realizada a partir de uma leitura crítica e interpretativa, orientada pelos pressupostos da análise do discurso crítica, conforme proposto por Fairclough (2001), adaptada à realidade sociolinguística brasileira. Essa abordagem permite compreender como os discursos sobre a linguagem operam na constituição de desigualdades sociais e como os mecanismos de poder se manifestam na imposição de uma norma linguística hegemônica. A análise também levou em conta a articulação entre linguagem e outras dimensões sociais, como classe, raça, território e escolarização.
Embora o estudo não envolva coleta de dados empíricos em campo, ele contribui para a compreensão do fenômeno com base em evidências já documentadas na literatura acadêmica. A escolha pela pesquisa bibliográfica permitiu acessar um volume expressivo de reflexões, diagnósticos e propostas que vêm sendo produzidos no Brasil, especialmente em contextos educacionais marcados por desigualdade. Assim, o trabalho assume um papel reflexivo e propositivo, ao sistematizar criticamente os achados teóricos e oferecer subsídios para a formação docente, a elaboração de políticas públicas e o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas.
O rigor metodológico foi garantido pelo cruzamento de fontes, pela análise comparativa de argumentos e pela constante problematização das ideias apresentadas nos textos, sempre considerando o contexto social de produção e os posicionamentos teóricos dos autores. Desse modo, busca-se garantir não apenas a coerência interna da análise, mas também a relevância social da discussão proposta.
Em suma, os procedimentos metodológicos adotados possibilitam compreender o preconceito linguístico como fenômeno complexo, multidimensional e historicamente construído, cuja superação exige reflexão crítica, compromisso ético e ação transformadora nos campos da linguagem, da educação e da cultura.
RESULTADOS
Os resultados obtidos por meio da análise bibliográfica da produção acadêmica dos últimos cinco anos demonstram a permanência e a intensificação do preconceito linguístico como um fenômeno estrutural no Brasil, com incidência relevante em ambientes escolares, espaços culturais, meios de comunicação e no mercado de trabalho. A literatura recente confirma que a desvalorização de variedades linguísticas não conformes à norma-padrão ainda é prática comum, sendo responsável por prejuízos à autoestima de falantes, exclusão educacional e discriminação simbólica. As investigações destacam, com frequência, que a escola continua sendo o principal espaço institucional de reprodução desse preconceito, ao mesmo tempo em que apresenta potencial para sua superação.
Em pesquisas realizadas entre 2020 e 2023, foi identificada a predominância de práticas pedagógicas normativas nas salas de aula da educação básica, em que o uso exclusivo da norma-padrão é reforçado por professores e materiais didáticos, em detrimento das demais formas legítimas de expressão oral e escrita dos alunos (SILVA; GONÇALVES, 2022; SOUSA et al., 2023). Observou-se que construções linguísticas como “nós vai” ou “os menino”, típicas de variedades populares do português falado, são constantemente corrigidas sem a devida explicação linguística, reforçando uma ideia de erro e inferioridade, o que afeta diretamente o engajamento e o desempenho escolar dos estudantes.
Estudos de caso desenvolvidos em escolas da rede pública municipal de diversas regiões do país revelam que muitos professores não se sentem preparados para lidar com a diversidade linguística presente em sala de aula. Isso se deve, segundo os próprios educadores entrevistados, à ausência de conteúdos voltados à sociolinguística em sua formação inicial e continuada (RODRIGUES; PEREIRA, 2021). Além disso, os livros didáticos utilizados nas redes públicas, mesmo após revisões recentes, ainda abordam de forma limitada ou superficial a questão da variação linguística, privilegiando a norma-padrão como modelo exclusivo.
Outro aspecto recorrente nos resultados é a percepção negativa que os próprios estudantes têm de suas formas de falar. Pesquisas com alunos do ensino fundamental e médio apontam que muitos deles associam sua variedade linguística ao “erro”, “falta de cultura” ou “fala feia”, o que demonstra a internalização do estigma linguístico (OLIVEIRA; LIMA, 2020). Em contextos onde a diversidade étnico-cultural é maior — como escolas situadas em comunidades quilombolas, indígenas ou periféricas urbanas — essa autopercepção tende a ser ainda mais acentuada.
As investigações também apontam a manutenção do preconceito linguístico no ambiente profissional. Estudos qualitativos indicam que a forma de falar continua sendo utilizada, mesmo que de maneira velada, como critério de seleção em entrevistas de emprego e como justificativa para a não contratação de candidatos (MARTINS; FREITAS, 2021). Características como sotaque regional, uso de gírias ou construções não padrão são vistas por recrutadores como indicativos de baixa escolarização ou inaptidão, independentemente da formação acadêmica do candidato.
Além do contexto escolar e do mercado de trabalho, os resultados também abrangem a análise de manifestações culturais e midiáticas. Pesquisas recentes indicam que programas de televisão, novelas, comerciais e conteúdos de redes sociais reproduzem estereótipos linguísticos de forma recorrente, associando variações do português a figuras cômicas, ignorantes ou caricaturais (CASTRO; LUZ, 2019). Esse tipo de representação contribui para a legitimação do preconceito linguístico como algo “natural” ou “aceitável” socialmente.
Ainda sobre a mídia, foi identificado que há baixa representatividade de formas não padrão em contextos jornalísticos, educacionais e institucionais. A linguagem formal e normativa é predominante nesses espaços, o que contribui para a invisibilização das demais variedades e para a consolidação da ideia de que apenas uma forma de falar é adequada e aceitável (FERREIRA; RIBEIRO, 2022).
Por outro lado, os estudos também identificaram algumas iniciativas que buscam valorizar a diversidade linguística. Projetos pedagógicos que envolvem o uso de literatura de cordel, música popular, produção de podcasts com fala regionalizada e rodas de conversa sobre linguagem têm sido desenvolvidos em algumas escolas, com resultados positivos no que se refere ao engajamento dos alunos e ao respeito às suas identidades linguísticas (ALMEIDA; SANTOS, 2023). No entanto, essas experiências ainda são pontuais e, geralmente, dependem da iniciativa individual de educadores ou instituições específicas, sem apoio das redes públicas de ensino de forma sistemática.
Em relação às políticas públicas, os resultados indicam que, embora os documentos oficiais — como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — reconheçam a importância da diversidade cultural e linguística, isso não se traduz de maneira clara em diretrizes pedagógicas específicas que orientem as práticas dos docentes. A ausência de instrumentos avaliativos e de formação continuada voltados ao respeito às variações linguísticas é apontada como uma das principais lacunas a serem preenchidas (CUNHA; LEMOS, 2021).
Outra constatação relevante é a ampliação, nos últimos anos, do debate sobre preconceito linguístico para além das variações do português falado. Foram encontradas produções acadêmicas que abordam o apagamento de línguas indígenas, a desvalorização da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e o estigma em torno de falas de imigrantes e refugiados, o que demonstra que o campo de investigação sobre discriminação linguística está se expandindo e ganhando novos contornos (GOMES; NASCIMENTO, 2022).
Por fim, os resultados revelam que, embora exista maior conscientização por parte de pesquisadores, educadores e ativistas sobre o tema, o preconceito linguístico ainda está longe de ser erradicado no Brasil. A literatura recente reforça que ele continua sendo uma prática cotidiana, muitas vezes invisível, mas que tem efeitos concretos na exclusão, na segregação e na marginalização de grupos sociais específicos.
DISCUSSÃO
O preconceito linguístico se manifesta como um mecanismo silencioso de exclusão, estruturado socialmente e reproduzido por instituições que deveriam, em tese, promover a equidade, como a escola. A sua reprodução cotidiana demonstra que não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma prática sistemática e institucionalizada que reflete hierarquias sociais, culturais e econômicas. A insistência na norma-padrão como forma única e legítima de expressão linguística segue sendo uma prática dominante nos ambientes escolares, contribuindo para o apagamento de identidades linguísticas diversas e para o reforço de estigmas associados às formas populares de falar.
Estudos realizados em contextos escolares demonstram que a oralidade de estudantes oriundos de classes populares é frequentemente corrigida ou deslegitimada sem qualquer contextualização pedagógica, reforçando a ideia de erro e inferioridade. Em muitas situações, construções como “a gente vai” ou “nós foi” são automaticamente corrigidas sem uma abordagem crítica ou explicação sociolinguística, o que gera sentimentos de inadequação e reforça a autopercepção negativa dos alunos em relação à sua fala (Silva e Gonçalves, 2022).
Essa dinâmica pedagógica não ocorre apenas por desconhecimento, mas reflete uma formação docente ainda alicerçada em modelos normativos de ensino da língua. Muitos professores não recebem, durante sua formação inicial, conteúdos suficientes sobre variação linguística, sociolinguística crítica ou direitos linguísticos. Com isso, acabam reproduzindo em sala de aula as mesmas concepções excludentes que internalizaram ao longo de suas próprias trajetórias escolares (Rodrigues e Pereira, 2021). Essa ausência de preparo impossibilita a construção de práticas educativas que valorizem a pluralidade linguística e contribui para a reprodução do fracasso escolar entre alunos que não dominam a variedade linguística hegemônica.
Além das práticas pedagógicas, o preconceito linguístico também se manifesta nas representações sociais amplamente disseminadas pelos meios de comunicação. Análises de programas de televisão, propagandas e conteúdos humorísticos revelam que sotaques regionais e variedades populares do português são frequentemente associados à ignorância, à comicidade ou à marginalidade. Essas representações reforçam estereótipos e contribuem para consolidar, no imaginário coletivo, a ideia de que apenas a fala próxima à norma-padrão é digna de prestígio social (Castro e Luz, 2019). A mídia, portanto, exerce um papel decisivo na legitimação do preconceito, ao apresentar como normais atitudes discriminatórias travestidas de humor ou crítica cultural.
No ambiente profissional, a linguagem também funciona como um marcador simbólico de pertencimento ou exclusão. A forma de falar continua sendo utilizada como critério, mesmo que informal, para seleção ou rejeição de candidatos em entrevistas de emprego. Sotaques, gírias e estruturas não padrão são frequentemente interpretados como sinais de baixa escolaridade ou pouca competência, independentemente da formação acadêmica do indivíduo (Martins e Freitas, 2021). Essa dinâmica reforça desigualdades estruturais e limita o acesso de determinados grupos sociais a posições de prestígio e melhor remuneração.
Embora haja uma crescente presença do debate sobre diversidade linguística nas universidades e em produções acadêmicas, os dados mostram que as iniciativas de enfrentamento ao preconceito linguístico nas escolas públicas ainda são pontuais, muitas vezes restritas a projetos desenvolvidos por professores individualmente. Atividades que valorizam a fala do aluno, como a produção de cordel, slam, contação de histórias regionais e músicas populares, têm demonstrado efeitos positivos na valorização das identidades linguísticas, mas permanecem sem o suporte de políticas públicas contínuas (Almeida e Santos, 2023).
Esse descompasso entre a produção acadêmica e as práticas institucionais revela a fragilidade das políticas linguísticas educacionais. Documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhecem, em seus princípios, a importância da diversidade cultural e linguística, mas não estabelecem diretrizes claras sobre como essa diversidade deve ser acolhida na prática pedagógica (Cunha e Lemos, 2021). A ausência de orientações explícitas sobre o tratamento das variedades linguísticas na escola cria um vácuo que é preenchido, muitas vezes, pela tradição normativa.
Outro ponto que merece destaque é a ampliação do entendimento sobre preconceito linguístico. Se antes o debate se concentrava na oposição entre norma-padrão e variedades populares do português, hoje ele se expande para abarcar também a marginalização de línguas indígenas, de sinais (LIBRAS), e de imigrantes. Essa ampliação do escopo fortalece o campo da justiça linguística e evidencia que a luta contra o preconceito é, também, uma luta por direitos linguísticos — uma dimensão ainda pouco discutida em contextos educacionais brasileiros (Gomes e Nascimento, 2022).
Pesquisadores têm alertado para a importância de uma nova abordagem crítica do ensino da língua portuguesa, que não apenas ensine a norma-padrão como ferramenta útil para determinados contextos, mas que também promova o letramento sociolinguístico. Isso implica trabalhar em sala de aula a consciência crítica sobre as diferentes variedades da língua, suas funções, legitimidade e relação com o poder social. Essa abordagem está alinhada com o chamado ativismo sociolinguístico da “quarta onda”, que articula ciência linguística e justiça social, e defende práticas de ensino comprometidas com equidade e inclusão (Freitag et al., 2023).
Além da escola, a mídia e as políticas públicas precisam desempenhar um papel mais ativo no combate ao preconceito linguístico. Campanhas educativas, maior representatividade de falas regionais e minoritárias na televisão e reconhecimento das línguas originárias como patrimônio nacional são passos fundamentais para que se avance na construção de uma sociedade que valorize sua própria diversidade. Como alertam Ferreira e Ribeiro (2022), tratar a língua como bem comum e reconhecer o direito à fala como um direito humano são medidas urgentes para a superação de estruturas excludentes.
É necessário também reconhecer que o preconceito linguístico está relacionado com outras formas de discriminação, como o racismo, o classismo e o preconceito regional. A fala é, muitas vezes, usada como marcador identitário, e as atitudes linguísticas carregam julgamentos sociais mais amplos. Dessa forma, combater o preconceito linguístico exige um olhar interseccional, capaz de compreender como múltiplas formas de opressão se articulam e se reforçam mutuamente.
Em síntese, a discussão sobre preconceito linguístico no Brasil, à luz das evidências recentes, mostra que a sua superação depende de ações coordenadas nas esferas educacional, cultural, política e midiática. O reconhecimento da diversidade linguística como riqueza e patrimônio simbólico é o primeiro passo para romper com a lógica excludente que historicamente marcou a formação social brasileira. Avançar nessa direção requer o compromisso coletivo de professores, gestores, formuladores de políticas públicas, comunicadores e toda a sociedade civil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O preconceito linguístico permanece como um dos mais silenciosos e, ao mesmo tempo, persistentes mecanismos de exclusão social no Brasil. Embora tenha sido amplamente discutido na literatura acadêmica desde os anos 1990, os resultados e análises deste estudo mostram que suas manifestações continuam fortemente presentes nos mais diversos contextos, especialmente na escola, no mercado de trabalho e nos meios de comunicação. A imposição da norma-padrão como único modelo legítimo de expressão não apenas restringe as possibilidades de comunicação de grande parte da população, mas reforça hierarquias simbólicas que associam determinadas formas de falar à ignorância, à incivilidade ou à falta de competência.
Ao longo do artigo, foi possível demonstrar, com base em publicações dos últimos cinco anos, que as práticas pedagógicas seguem amplamente normativas. A escola, apesar de seu potencial emancipador, ainda é um dos principais espaços de reprodução do preconceito linguístico. Professores, muitas vezes sem formação específica em sociolinguística ou direitos linguísticos, tendem a corrigir de forma autoritária as variedades linguísticas dos alunos, reforçando a percepção de que há uma forma “certa” de falar, enquanto as demais seriam equivocadas ou inferiores (Silva; Gonçalves, 2022). Esse processo acaba por afetar não apenas o desempenho acadêmico dos estudantes, mas também sua autoestima, identidade e percepção de pertencimento.
Paralelamente, o mercado de trabalho e os meios de comunicação também operam como arenas onde o preconceito linguístico se manifesta de maneira sutil, porém efetiva. Fala-se de forma “adequada” como um critério informal de empregabilidade, sendo que construções sintáticas, sotaques regionais e expressões populares frequentemente funcionam como marcadores de exclusão (Martins; Freitas, 2021). Na mídia, reforça-se o estereótipo do falante popular como cômico, ignorante ou caricato, o que contribui para legitimar, perante o senso comum, a ridicularização de modos de falar que fogem à norma-padrão (Castro; Luz, 2019).
Apesar do cenário crítico, há também sinais de avanço. O crescimento do ativismo sociolinguístico nos últimos anos identificado como a “quarta onda” por Freitag et al. (2023) tem contribuído para colocar a diversidade linguística no centro de debates sobre justiça social, educação inclusiva e direitos culturais. Esse movimento articula a produção acadêmica com ações práticas em escolas, comunidades e plataformas digitais, promovendo o reconhecimento das variações linguísticas como expressões legítimas de identidade, cultura e resistência. Iniciativas pontuais em escolas públicas, como o uso de gêneros discursivos populares, rodas de conversa e projetos de valorização da oralidade, apontam caminhos possíveis para a transformação do ensino de língua portuguesa (Almeida; Santos, 2023).
Ainda assim, os desafios são grandes. Falta articulação entre esses projetos e as políticas públicas de educação, que continuam oferecendo poucas diretrizes efetivas sobre como lidar com a diversidade linguística no currículo e na avaliação escolar (Cunha; Lemos, 2021). A ausência de formação docente continuada e de materiais didáticos sensíveis à variação linguística dificulta a superação do modelo tradicional, que segue centrado na norma culta como padrão absoluto.
É necessário, portanto, compreender que o enfrentamento do preconceito linguístico vai além da correção de práticas escolares ou da elaboração de novos materiais. Trata-se de uma mudança de paradigma: reconhecer que toda língua é plural, dinâmica e profundamente marcada por fatores sociais, regionais e históricos. Isso exige uma educação linguística que forme cidadãos críticos, capazes de refletir sobre os usos da linguagem e sobre o lugar que ela ocupa nas relações de poder.
Conclui-se, assim, que combater o preconceito linguístico é lutar por uma sociedade mais justa, plural e democrática. A valorização das diversas formas de falar deve ser entendida como um direito linguístico fundamental, vinculado à dignidade dos sujeitos e ao reconhecimento de suas identidades culturais. Que a escola, os meios de comunicação, o mundo do trabalho e as instituições públicas possam se comprometer com essa agenda, promovendo o respeito à diversidade linguística como princípio ético, político e pedagógico.
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1Graduada em letras-inglês pela Fundação de Ensino Superior de Olinda -Funeso União de Escolas Superiores da Funeso-UNESF. Pós graduação Lato Sensu. Especialização em Liguística Aplicada à Língua portuguesa. Mestrado em Ciências da Educação pela Universidad Evangélica Del Paraguay (Língua Portuguesa). Graduada em Pedagogia pela Faculdade Educação Da LAPA -FAEL. ATUALMENTE TERMINANDO DOUTORADO EM CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO PELA CHRISTIAN BUSINESS SCHOOL-CBS.
2PhD. Doutora em Ciências da Educação, professora orientadora da CHRISTIAN BUSINESS SCHOOL-CBS, rozineide.pereira1975@gmail.com.
