ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: INTEGRAÇÃO DE CONCEITOS E PRÁTICAS PARA UMA EDUCAÇÃO TRANSFORMADORA NO BRASIL

LITERACY AND LETRAMENTO: INTEGRATING CONCEPTS AND PRACTICES FOR TRANSFORMATIVE EDUCATION IN BRAZIL

ALFABETIZACIÓN Y LETRAMIENTO: INTEGRACIÓN DE CONCEPTOS Y PRÁCTICAS PARA UNA EDUCACIÓN TRANSFORMADORA EN BRASIL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512221030


Roberta Cláudia Doralice Honorato1
Orientadora: Profa. Rozineide Iraci Pereira da Silva2


RESUMO

Este artigo aborda as diferenças e inter-relações entre alfabetização e letramento no contexto educacional brasileiro, enfatizando suas implicações para a prática pedagógica e a formação cidadã. A alfabetização é compreendida como o processo de aquisição do sistema alfabético de escrita, essencial para o desenvolvimento inicial das habilidades de leitura e escrita. Já o letramento transcende esse aspecto técnico, englobando as práticas sociais, culturais e contextuais que conferem significado ao uso da linguagem escrita no cotidiano. Com base nas contribuições teóricas de Angela Kleiman e em estudos recentes, o texto analisa os desafios enfrentados pelas escolas brasileiras, onde as abordagens pedagógicas frequentemente priorizam métodos mecanicistas, desconectados das vivências socioculturais dos estudantes. Ressalta-se, ainda, a relevância da formação docente na promoção de práticas pedagógicas que integrem alfabetização e letramento, especialmente diante das demandas contemporâneas, como os multiletramentos, que incluem a interpretação e produção de textos em diferentes linguagens e plataformas digitais. Além disso, o artigo destaca a necessidade de políticas públicas que garantam equidade no acesso à educação de qualidade.

Palavras-chave: Alfabetização. Letramento. Práticas Pedagógicas. Multiletramentos. Educação Inclusiva.

ABSTRACT

This article examines the differences and interrelations between literacy and letramento (a Portuguese term for literacy practices) within the Brazilian educational context, emphasizing their implications for pedagogical practices and citizenship development. Literacy is understood as the process of acquiring the alphabetic writing system, essential for the initial development of reading and writing skills. In contrast, letramento transcends this technical aspect, encompassing the social, cultural, and contextual practices that give meaning to the use of written language in everyday life. Drawing on the theoretical contributions of Angela Kleiman and recent studies, the text analyzes the challenges faced by Brazilian schools, where pedagogical approaches often prioritize mechanistic methods disconnected from students’ sociocultural realities. The article also highlights the importance of teacher training in fostering pedagogical practices that integrate literacy and letramento, particularly in addressing contemporary demands such as multiliteracies, which include interpreting and producing texts across different languages and digital platforms. Furthermore, it underscores the need for public policies that ensure equity in access to quality education.

Keywords: Literacy. Letramento. Pedagogical Practices. Multiliteracies. Inclusive Education.

RESUMEN

Este artículo aborda las diferencias e interrelaciones entre alfabetización y letramento en el contexto educativo brasileño, enfatizando sus implicaciones para la práctica pedagógica y la formación ciudadana. La alfabetización se entiende como el proceso de adquisición del sistema alfabético de escritura, esencial para el desarrollo inicial de las habilidades de lectura y escritura. En cambio, el letramento trasciende este aspecto técnico, abarcando las prácticas sociales, culturales y contextuales que dan significado al uso del lenguaje escrito en la vida cotidiana. Basado en las contribuciones teóricas de Angela Kleiman y estudios recientes, el texto analiza los desafíos enfrentados por las escuelas brasileñas, donde los enfoques pedagógicos a menudo priorizan métodos mecanicistas desconectados de las vivencias socioculturales de los estudiantes. Se destaca también la importancia de la formación docente en la promoción de prácticas pedagógicas que integren alfabetización y letramento, especialmente frente a las demandas contemporáneas como los multiletramientos, que incluyen la interpretación y producción de textos en diferentes lenguajes y plataformas digitales. Asimismo, el artículo destaca la necesidad de políticas públicas que garanticen la equidad en el acceso a una educación de calidad.

Palabras clave: Alfabetización. Letramento. Prácticas Pedagógicas. Multiletramientos. Educación Inclusiva.

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o debate em torno da alfabetização e do letramento tem se intensificado no campo educacional brasileiro, impulsionado por transformações sociais, culturais e tecnológicas que desafiam as práticas escolares tradicionais. A alfabetização, tradicionalmente compreendida como o processo de aprendizagem do sistema alfabético de escrita, permanece como etapa fundamental do ingresso do sujeito na cultura escrita. No entanto, essa visão técnica e restrita tem sido constantemente questionada por pesquisadores que defendem uma concepção mais ampla do processo de inserção na linguagem escrita, ancorada nas práticas sociais de leitura e escrita, como é o caso do letramento (KLEIMAN, 2007; SOARES, 2020).

Embora a distinção entre esses dois conceitos já esteja consolidada na literatura acadêmica, ela ainda não se traduz de forma efetiva nas práticas pedagógicas cotidianas de muitas escolas brasileiras, especialmente na educação básica. Em diversos contextos escolares, o ensino da leitura e da escrita continua sendo guiado por métodos centrados na repetição e na memorização, desconsiderando os contextos socioculturais dos estudantes e os múltiplos sentidos da linguagem (SILVA; BORGES, 2021). Essa abordagem tecnicista compromete não apenas o desenvolvimento das habilidades linguísticas dos alunos, mas também o potencial emancipador da educação como prática social transformadora (FREIRE, 1996).

A literatura aponta que a dissociação entre alfabetização e letramento pode acentuar desigualdades educacionais, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social, onde o acesso a práticas de letramento fora do ambiente escolar é mais restrito. Dessa forma, torna-se essencial que a escola assuma o papel de promotora de práticas pedagógicas significativas, que articulem o ensino técnico da leitura e escrita com os usos sociais e culturais da linguagem. Essa perspectiva pressupõe o reconhecimento da diversidade cultural dos estudantes e das múltiplas formas de produção de sentido presentes nas comunidades (COSTA; ALMEIDA, 2021; PEREIRA; NASCIMENTO, 2022).

Nesse contexto, destaca-se também a importância da formação docente como fator determinante para a implementação de práticas integradoras. Muitos professores ainda enfrentam dificuldades em distinguir alfabetização e letramento em sua prática cotidiana, o que revela lacunas na formação inicial e continuada. Estudos recentes indicam que a formação centrada apenas na estrutura normativa da língua é insuficiente para preparar o professor para os desafios da sala de aula contemporânea, que exige sensibilidade pedagógica, competência teórica e capacidade de dialogar com os contextos socioculturais dos alunos (FERREIRA; SANTOS, 2023; FERNANDES; OLIVEIRA, 2023).

A emergência dos multiletramentos, conceito que incorpora diferentes linguagens, mídias e práticas discursivas contemporâneas amplia ainda mais o escopo da discussão. Os multiletramentos propõem uma abordagem pedagógica voltada à diversidade cultural e à multimodalidade textual, exigindo da escola a adoção de estratégias que articulem leitura, escrita, tecnologias e participação crítica (ROJO; MOURA, 2019; KLEIMAN, 2020). Tais exigências reforçam a necessidade de que a alfabetização seja entendida não como um fim em si mesma, mas como parte de um processo formativo mais amplo, capaz de preparar os sujeitos para atuar de forma crítica na sociedade.

Diante desse panorama, este artigo tem como objetivo analisar as distinções e as articulações entre alfabetização e letramento no contexto educacional brasileiro, com base nas contribuições de Angela Kleiman e de outros autores nacionais. Busca-se compreender como essas categorias se relacionam com a formação docente, com as práticas pedagógicas e com as políticas públicas voltadas à educação. Além disso, o texto propõe discutir de que forma os conceitos de letramento crítico e multiletramentos podem contribuir para a construção de uma escola mais inclusiva, democrática e socialmente relevante.

MÉTODOS

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, com enfoque teórico e bibliográfico, voltada à análise conceitual e crítica dos temas alfabetização, letramento, multiletramentos e formação docente no contexto educacional brasileiro. A investigação foi orientada por uma abordagem interpretativa, que busca compreender e discutir os sentidos atribuídos a essas categorias na literatura acadêmica nacional, com ênfase nas implicações pedagógicas e sociais dessas concepções.

Foram selecionadas fontes secundárias de natureza científica, incluindo artigos publicados em periódicos acadêmicos da área da educação, livros e capítulos de livros de autores referência no campo dos estudos do letramento, como Kleiman (2007; 2020), Soares (2020), Rojo e Moura (2019), Freire (1996), entre outros. A escolha do material bibliográfico priorizou obras publicadas nas duas últimas décadas, com foco nas produções brasileiras, buscando refletir os avanços, desafios e tendências atuais do debate educacional.

A seleção das obras seguiu critérios de relevância temática, atualidade e representatividade teórica. Os textos foram acessados em bases como Scielo, Google Scholar, Redalyc, além de catálogos de editoras acadêmicas reconhecidas. Foram priorizadas publicações que abordassem a articulação entre alfabetização e letramento, o papel da formação docente, os impactos das desigualdades educacionais e as contribuições dos multiletramentos para a prática pedagógica. Também foram considerados estudos que analisam as políticas públicas voltadas à educação básica no Brasil, especialmente em contextos de vulnerabilidade.

O procedimento metodológico envolveu a leitura analítica e interpretativa dos textos selecionados, com identificação de categorias recorrentes, convergências teóricas e posicionamentos críticos sobre o ensino da linguagem escrita nas escolas. A partir dessa análise, buscou-se elaborar uma síntese argumentativa que articulasse os principais aportes conceituais encontrados, visando construir um referencial teórico robusto para a discussão proposta no artigo.

Por se tratar de um estudo de cunho teórico, que utiliza exclusivamente fontes secundárias disponíveis publicamente, esta pesquisa não exigiu submissão a comitê de ética, conforme disposto na Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde. Todos os autores citados foram devidamente referenciados, respeitando os princípios éticos e acadêmicos da produção científica.

RESULTADOS

A análise dos estudos selecionados para esta pesquisa revelou que a compreensão dos conceitos de alfabetização e letramento, embora já bastante discutida na literatura educacional brasileira, ainda não se traduz de forma efetiva nas práticas pedagógicas adotadas em muitas escolas. Observou-se que a alfabetização, geralmente concebida como o processo técnico de apropriação do sistema alfabético de escrita, ainda predomina nos currículos e métodos de ensino, frequentemente dissociada do letramento, que representa a inserção significativa dos sujeitos nas práticas sociais mediadas pela linguagem escrita (KLEIMAN, 2007).

Os autores analisados são unânimes em apontar que essa separação entre alfabetização e letramento resulta em um ensino fragmentado, que não contempla as múltiplas dimensões do uso da linguagem na vida cotidiana. A predominância de práticas escolarizadas centradas na repetição, memorização e reprodução de códigos linguísticos reflete uma concepção restrita de alfabetização, descolada da realidade sociocultural dos alunos (SILVA; BORGES, 2021). Tal abordagem, além de ineficaz no desenvolvimento de competências críticas, tende a acentuar desigualdades educacionais, especialmente em contextos de vulnerabilidade.

Diversas pesquisas destacam que a superação dessa dicotomia exige a adoção de uma pedagogia integradora, que articule alfabetização e letramento como processos complementares e interdependentes. Oliveira e Ramos (2022), por exemplo, enfatizam que o ensino da língua escrita deve ser compreendido como um fenômeno cultural, no qual a decodificação e a codificação devem estar contextualizadas em práticas sociais significativas. Os autores argumentam que o domínio técnico da escrita não basta para garantir a participação ativa dos sujeitos na sociedade, sendo necessário desenvolver também competências interpretativas, discursivas e críticas.

Nesse sentido, os estudos mostram que a articulação entre alfabetização e letramento é capaz de promover o desenvolvimento de sujeitos autônomos e conscientes, com capacidade de refletir sobre seu entorno e intervir nele de maneira transformadora. Ferreira e Santos (2023) reforçam essa visão ao apontar que as práticas pedagógicas que integram esses dois conceitos ampliam as possibilidades de aprendizagem, pois dialogam com as vivências e os repertórios culturais dos alunos. Para os autores, a escola deve ser um espaço onde se aprende a ler e escrever não apenas para atender a exigências formais, mas para exercer a cidadania de forma crítica e ativa.

Outro resultado importante identificado na literatura refere-se às dificuldades enfrentadas pelos docentes na implementação de práticas pedagógicas integradoras. De acordo com Costa e Almeida (2021), grande parte dos professores ainda apresenta insegurança conceitual em relação à diferença entre alfabetização e letramento, o que compromete a eficácia das estratégias utilizadas em sala de aula. Essa limitação está diretamente relacionada à formação inicial e continuada dos educadores, que muitas vezes privilegia o ensino normativo da língua em detrimento de uma abordagem que contemple a diversidade cultural, os multiletramentos e a leitura crítica do mundo (FREIRE, 1996).

Nesse contexto, destaca-se também o papel das políticas públicas na indução de práticas educativas mais abrangentes. Fernandes e Oliveira (2023) argumentam que a pressão por resultados em avaliações padronizadas, como o SAEB, tem contribuído para a manutenção de metodologias tecnicistas, focadas no ensino da leitura e da escrita de forma descontextualizada. Para os autores, é fundamental que os programas governamentais considerem a complexidade do processo de letramento e valorizem a pluralidade de práticas linguísticas existentes nas diferentes regiões do país.

A incorporação do conceito de multiletramentos à educação brasileira também emergiu como um resultado relevante. Estudos como os de Rojo e Moura (2019) demonstram que os multiletramentos ampliam a compreensão da linguagem ao incluir diversas formas de expressão verbais, visuais, digitais, midiáticas como componentes legítimos do processo de letramento. Essa abordagem reflete as mudanças sociais, culturais e tecnológicas do século XXI, marcadas pela multiplicidade de textos e linguagens aos quais os estudantes estão expostos cotidianamente.

Os multiletramentos, portanto, exigem que a escola se reinvente, incorporando práticas pedagógicas que dialoguem com as novas formas de comunicação. Santos e Lima (2023), ao investigarem experiências com tecnologias digitais em escolas públicas, constataram que o uso de recursos como redes sociais, blogs, vídeos e plataformas digitais favorece o engajamento dos alunos e contribui para o desenvolvimento de competências comunicativas e interpretativas mais complexas. Os autores alertam, no entanto, para a necessidade de formar professores para atuar nesse novo cenário, pois o uso pedagógico das tecnologias ainda é um desafio em muitas instituições.

A análise também revelou que a articulação entre alfabetização, letramento e multiletramentos contribui significativamente para a formação da cidadania crítica. De acordo com Freire (1996), ensinar a ler e escrever é, antes de tudo, ensinar a ler o mundo. Essa leitura do mundo está intrinsecamente relacionada à capacidade de compreender textos e contextos, identificar discursos hegemônicos e construir narrativas próprias. Costa e Almeida (2021) reforçam essa ideia ao defenderem que o letramento crítico possibilita aos sujeitos questionarem as estruturas sociais e participarem ativamente da transformação da realidade.

Os estudos também evidenciam que práticas pedagógicas baseadas no letramento crítico podem ser especialmente eficazes em contextos de desigualdade social, onde a escola representa muitas vezes o único espaço de acesso à cultura letrada. Pereira e Nascimento (2022), ao analisarem práticas de letramento em comunidades periféricas, destacam que o uso de gêneros textuais próximos à realidade dos alunos como músicas, histórias orais, cartas, notícias locais contribui para o fortalecimento da identidade cultural e para o desenvolvimento da autoestima dos estudantes.

Ainda no que diz respeito à promoção da equidade educacional, os resultados indicam que a integração entre alfabetização e letramento deve ser acompanhada de investimentos em infraestrutura, formação docente e valorização das práticas pedagógicas contextualizadas. Fernandes e Oliveira (2023) argumentam que políticas educacionais que não consideram as especificidades regionais e socioculturais tendem a reproduzir desigualdades, ao padronizar o ensino da linguagem e desconsiderar a pluralidade de práticas letradas existentes no país.

Por fim, é importante ressaltar que a análise dos estudos mostrou uma tendência crescente de valorização de projetos interdisciplinares como estratégia de articulação entre letramento e outros campos do conhecimento. Tais projetos, ao abordarem temas sociais, ambientais e culturais, permitem que a leitura e a escrita sejam utilizadas como instrumentos de investigação e intervenção na realidade. Ferreira e Santos (2023) destacam que a interdisciplinaridade favorece a construção de sentidos mais amplos para os conteúdos escolares e fortalece o vínculo entre os alunos e o processo de aprendizagem.

Em síntese, os resultados obtidos por meio da revisão bibliográfica evidenciam que há um movimento crescente na literatura educacional brasileira em prol de uma abordagem integrada entre alfabetização e letramento, com ênfase na formação crítica dos sujeitos. No entanto, persistem desafios significativos relacionados à formação docente, à cultura escolar e às políticas públicas, que precisam ser enfrentados para que essa integração se efetive nas práticas educativas. A valorização dos multiletramentos, da diversidade cultural e do letramento crítico desponta como caminho promissor para a construção de uma educação mais justa, inclusiva e transformadora, capaz de preparar os estudantes para os desafios do mundo contemporâneo (ROJO; MOURA, 2019; KLEIMAN, 2020; SANTOS; LIMA, 2023).

DISCUSSÃO

A análise teórica realizada neste estudo evidencia que a separação entre alfabetização e letramento tem representado uma das principais fragilidades das práticas pedagógicas no Brasil, contribuindo para a manutenção de modelos educacionais centrados em abordagens tecnicistas e descontextualizadas. A concepção de alfabetização ainda dominante em muitas escolas brasileiras restringe-se à aquisição do sistema alfabético de escrita, com ênfase na codificação e decodificação de símbolos, desconsiderando as práticas sociais de leitura e escrita às quais os sujeitos estão cotidianamente expostos (KLEIMAN, 2007). Essa visão estreita compromete a formação plena dos estudantes, na medida em que não considera o letramento como uma dimensão essencial para a apropriação crítica da linguagem e para o exercício da cidadania.

Autores como Silva e Borges (2021) destacam que a ênfase exclusiva em métodos de alfabetização que valorizam a repetição mecânica, a memorização e a padronização dos processos linguísticos revela uma concepção limitada de educação, que ignora os contextos culturais e sociais em que os sujeitos estão inseridos. Essa perspectiva desconsidera a pluralidade de práticas letradas existentes nas comunidades e perpetua um modelo escolar que, em vez de dialogar com a realidade dos alunos, impõe uma normatividade que frequentemente reforça desigualdades já estabelecidas. Para superar essa limitação, é necessário compreender a alfabetização e letramento como processos integrados, capazes de potencializar o desenvolvimento linguístico, cognitivo e crítico dos estudantes.

De acordo com Oliveira e Ramos (2022), a articulação entre alfabetização e letramento exige uma mudança de paradigma na prática pedagógica, pois pressupõe que o ensino da língua escrita não se resume ao domínio técnico do código, mas envolve também a capacidade de produzir, interpretar e transformar discursos inseridos em contextos reais de uso. A escola, nesse sentido, deve assumir seu papel como espaço de produção de sentidos, onde o texto é trabalhado não apenas como estrutura linguística, mas como ferramenta para a construção de significados sociais e culturais. Tal abordagem exige que os professores estejam preparados para reconhecer e valorizar os diferentes repertórios letrados que os alunos trazem de seus contextos de origem.

A formação docente é um dos pontos centrais identificados na literatura como um fator limitador da implementação de práticas pedagógicas integradoras. Ferreira e Santos (2023) alertam para o fato de que muitos professores ingressam no magistério com uma compreensão fragmentada sobre os conceitos de alfabetização e letramento, o que os impede de desenvolver metodologias que promovam a articulação entre essas duas dimensões. Isso ocorre, em grande parte, devido a uma formação inicial focada em conteúdos normativos e desvinculada da realidade escolar, o que dificulta a aplicação de abordagens que considerem a diversidade linguística e cultural dos estudantes. Além disso, os programas de formação continuada muitas vezes não oferecem suporte suficiente para que os docentes reflitam criticamente sobre sua prática e ampliem sua compreensão teórica sobre os processos de leitura e escrita.

Nesse cenário, a proposta de letramento crítico, defendida por autores como Freire (1996) e retomada por Costa e Almeida (2021), surge como uma alternativa pedagógica potente. O letramento crítico pressupõe que os sujeitos não apenas aprendam a ler e escrever, mas também desenvolvam a capacidade de interpretar o mundo e agir sobre ele. Essa concepção amplia o papel da escola, que passa a ser vista como espaço de formação política e ética, onde os alunos são incentivados a refletir sobre suas condições de existência e a buscar formas de transformação social. Segundo Freire (1996), a leitura da palavra deve estar sempre vinculada à leitura do mundo, numa perspectiva que valorize a experiência dos sujeitos e promova a construção coletiva do conhecimento.

A discussão sobre o letramento também precisa considerar os impactos das transformações tecnológicas e culturais ocorridas nas últimas décadas. Rojo e Moura (2019) destacam que os processos de letramento hoje envolvem múltiplas linguagens e mídias, exigindo que a escola amplie sua compreensão sobre o que significa ser letrado em um mundo digital e multimodal. Os multiletramentos, conceito desenvolvido a partir dos estudos do Grupo de Nova Londres e aprofundado no Brasil por autores como Rojo e Kleiman (2020), referem-se à capacidade de interpretar e produzir textos em diferentes formatos escritos, visuais, audiovisuais e digitais, ampliando o escopo das práticas pedagógicas e aproximando o ensino da realidade dos alunos.

A incorporação dos multiletramentos no currículo escolar representa um avanço importante na direção de uma educação mais inclusiva e conectada aos desafios contemporâneos. Santos e Lima (2023) demonstram, em sua pesquisa com escolas públicas brasileiras, que o uso de tecnologias digitais, como blogs, vídeos e redes sociais, contribui significativamente para o engajamento dos estudantes e para o desenvolvimento de competências comunicativas mais amplas. Contudo, os autores também ressaltam que a simples introdução de tecnologias não garante a efetividade dessas práticas; é necessário que os professores estejam preparados para planejar atividades que promovam a reflexão crítica e o uso ético e consciente desses recursos. Esse aspecto evidencia novamente a centralidade da formação docente como condição para a implementação de práticas pedagógicas inovadoras.

Outro ponto recorrente nos estudos analisados refere-se às desigualdades educacionais que atravessam o sistema escolar brasileiro. Dados do INEP e análises como as de Fernandes e Oliveira (2023) indicam que as escolas localizadas em áreas periféricas e rurais enfrentam condições estruturais precárias, falta de recursos didáticos e ausência de políticas públicas consistentes que promovam a equidade no acesso à educação de qualidade. Essas condições afetam diretamente a capacidade dessas instituições de oferecerem práticas pedagógicas que articulem alfabetização e letramento, perpetuando ciclos de exclusão que atingem principalmente os estudantes de classes populares.

Para enfrentar esse cenário, é fundamental que as políticas educacionais deixem de priorizar exclusivamente os resultados quantitativos em avaliações externas e passem a valorizar processos formativos mais amplos, que considerem as especificidades culturais, regionais e sociais dos alunos. Como argumentam Costa e Almeida (2021), uma educação verdadeiramente inclusiva deve reconhecer a pluralidade de saberes presentes nas comunidades e construir pontes entre esses saberes e os conhecimentos escolares. Nesse sentido, projetos interdisciplinares, que articulem leitura, escrita e temas de relevância social, têm se mostrado estratégias eficazes para promover o envolvimento dos estudantes e ampliar suas possibilidades de aprendizagem.

A escola, portanto, precisa se constituir como um espaço de diálogo, onde os sujeitos possam partilhar experiências, construir saberes coletivamente e desenvolver competências para atuar de forma crítica na sociedade. Essa perspectiva é sustentada por Pereira e Nascimento (2022), que analisam práticas de letramento em contextos periféricos e destacam a importância de valorizar os repertórios culturais dos estudantes como ponto de partida para o processo educativo. Ao reconhecer as vivências dos alunos como legítimas e relevantes, o professor potencializa a aprendizagem e contribui para a construção de uma identidade escolar mais inclusiva e significativa.

Nesse cenário, o letramento deixa de ser apenas uma habilidade funcional e passa a ser compreendido como um direito social é uma ferramenta de emancipação. Como defendem Kleiman (2007) e Freire (1996), aprender a ler e escrever é também aprender a pensar criticamente, a questionar as estruturas de poder e a reivindicar transformações. Isso implica que a escola assuma seu papel como agente de justiça social, promovendo práticas que ampliem o acesso à cultura escrita e favoreçam o desenvolvimento de sujeitos capazes de atuar com autonomia e responsabilidade.

Assim, ao articular alfabetização, letramento e multiletramentos, a escola contribui para a formação de cidadãos plenos, preparados para os desafios de uma sociedade em constante transformação. Para que essa articulação seja efetiva, é necessário investir na formação docente, no fortalecimento das políticas públicas educacionais e na valorização das práticas pedagógicas que dialogam com a diversidade e a complexidade do mundo contemporâneo. A construção de uma educação transformadora depende da superação das dicotomias que ainda persistem no campo educacional e da adoção de abordagens integradoras que respeitem a singularidade de cada sujeito e promovam a equidade no processo de ensino-aprendizagem (FERNANDES; OLIVEIRA, 2023; FERREIRA; SANTOS, 2023; ROJO; MOURA, 2019).

CONCLUSÃO

A distinção entre alfabetização e letramento, bem como sua articulação, constitui um aspecto fundamental para a superação de práticas pedagógicas reducionistas ainda presentes em muitas escolas brasileiras. A partir da análise teórica realizada, fica evidente que a alfabetização, entendida como o domínio técnico da leitura e da escrita, deve ser acompanhada de uma abordagem que valorize os usos sociais da linguagem e promova a participação crítica dos sujeitos nas diversas esferas da vida.

As contribuições de Angela Kleiman e de outros autores analisados demonstram que o letramento amplia a função da escola para além da transmissão de conteúdos, situando-a como espaço de formação cidadã, crítica e transformadora. Nesse sentido, práticas pedagógicas que integrem alfabetização e letramento mostram-se essenciais para responder às demandas de uma sociedade marcada pela diversidade cultural, pelas desigualdades educacionais e pelos desafios impostos pelas novas tecnologias.

A formação docente, por sua vez, precisa ser reestruturada para contemplar não apenas os aspectos técnicos da língua, mas também sua dimensão social, cultural e crítica. Investir na qualificação de professores, na produção de materiais didáticos contextualizados e no fortalecimento de políticas públicas voltadas à equidade educacional é indispensável para garantir uma educação de qualidade para todos.

Conclui-se, portanto, que promover uma educação que articule alfabetização e letramento de forma integrada é um passo decisivo para formar leitores e escritores autônomos, conscientes e capazes de transformar suas realidades. A escola, ao assumir esse compromisso, fortalece sua função social e contribui para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva.

REFERÊNCIAS

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SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2020.


1Graduada em letras-inglês pela Fundação de Ensino Superior de Olinda -Funeso União de Escolas Superiores da Funeso-UNESF. Pós graduação Lato Sensu. Especialização em Liguística Aplicada à Língua portuguesa. Mestrado em Ciências da Educação pela Universidad Evangélica Del Paraguay (Língua Portuguesa). Graduada em Pedagogia pela Faculdade Educação Da LAPA -FAEL. ATUALMENTE TERMINANDO DOUTORADO EM CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO PELA CHRISTIAN BUSINESS SCHOOL-CBS.
2PhD. Doutora em Ciências da Educação, professora orientadora da CHRISTIAN BUSINESS SCHOOL-CBS, rozineide.pereira1975@gmail.com.