OS PRINCÍPIOS E PRÁTICAS PARA HOSPITALIDADE NO TURISMO SUSTENTÁVEL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510100916


Heyder Henrique de Castro Fonseca


Resumo

O turismo sustentável deixou de ser um diferencial, tornando-se requisito para empresas que se aventuram no mercado profissional da hospitalidade. Documentos institucionais (UN Tourism/UNWTO, UNCTAD, GSTC) e a literatura setorial (World Sustainable Hospitality Alliance; Cornell Hotel Sustainability Benchmarking), apresentam conceitos, tendências e impactos, levando em conta os princípios de gestão. Indicadores operacionais integram-se à hotelaria, sendo eles: energia, água, resíduos, emissões, compras e trabalho locais, engajamento comunitário, bem como diretrizes de certificação confiável alinhada aos padrões do Conselho Global de Turismo Sustentável (Global Sustainable Tourism Council – GSTC). Sob essa perspectiva apresentam-se práticas ilustrativas e uma discussão crítica sobre desafios de implementação que culminam em recomendações para uma hospitalidade que equilibre responsabilidade ambiental, inovação e viabilidade econômica.

Palavras-chave: turismo; turismo sustentável; desenvolvimento sustentável; responsabilidade ambiental.

Abstract
Sustainable tourism has moved beyond a market differentiator to become a structural requirement for firms operating in professional hospitality. Drawing on institutional documents (UN Tourism/UNWTO, UNCTAD, GSTC) and sector literature (World Sustainable Hospitality Alliance; Cornell Hotel Sustainability Benchmarking), this article reviews concepts, emerging trends, and impacts through the lens of management principles. It integrates operational indicators for hospitality—energy, water, waste, greenhouse-gas emissions, local purchasing and employment, and community engagement—and discusses reliable certification guidelines aligned with the Global Sustainable Tourism Council (GSTC) standards. From this perspective, the paper presents illustrative practices and a critical discussion of implementation challenges, culminating in recommendations for a hospitality model that balances environmental responsibility, innovation, and economic feasibility.

Keywords: tourism; sustainable tourism; sustainable development; environmental responsibility.

Introdução

A atividade turística tem capacidade ímpar de gerar empregos na economia global, não obstante, atrai investimento e dinamiza cadeias locais. Entretanto, quando o crescimento da atividade não é orgânico ou é gerido inadequadamente produz externalidades ambientais como a pressão hídrica e energética, resíduos e perda de biodiversidade. As externalidades não são apenas ambientais, podendo manifestar-se no Âmbito sociocultural (espetacularização de práticas maléficas, sobrecarga de sítios patrimoniais) e econômico (dependência setorial, sazonalidade, vulnerabilidade a choques). Nesse contexto, o turismo sustentável não pode ser apenas um adorno reputacional, mas uma condição intrínseca à atividade turística. Nos ditames da definição adotada no sistema da ONU, a questão está ao redor do turismo que leva em conta os impactos econômicos e socioambientais, presentes e futuros, atendendo às necessidades de visitantes.

Recentemente, organismos internacionais convergiram na prática dessa ambição sustentável. No ano de 2024, Organização Mundial do Turismo (UN Tourism) e Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and Development – UNCTAD) lançaram diversos Princípios Orientadores para Investimento Sustentável em Turismo, fornecendo um quadro estratégico para alinhar o acúmulo de capital, governança e os impactos às metas de sustentabilidade e necessidades do setor. O documento tem por escopo orientar políticas públicas e privadas, direcionando o investimento para além do lucro de curto prazo, levando ao fortalecimento e preservação das comunidades e patrimônios para que se avance na ação climática.

No âmbito prático, o Global Sustainable Tourism Council (GSTC) consolidou padrões universais (antigos “critérios”) organizados em quatro pilares — gestão sustentável; impactos socioeconômicos; impactos culturais; impactos ambientais — que servem como base para políticas de monitoramento e certificação confiável.

Conceitos e fundamentos do turismo sustentável

Turismo é o deslocamento voluntário de visitantes para fora do seu ambiente habitual por período inferior a um ano, para lazer, negócios ou outras finalidades não laborais no destino; essa atividade motiva interações complexas com recursos naturais, sociais e culturais, como o sistema de transporte, hospedagem e governança. Em paralelo, o desenvolvimento sustentável, busca satisfazer necessidades do presente sem comprometer futuras gerações — em específico, no turismo, pode ser verificado no tríplice resultado (ambiental, social e econômico). O entendimento prático do tripé exige metas e indicadores verificáveis – que sejam públicos e comparáveis, em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável/ODS (especialmente ODS 8, 12 e 14) e com padrões reconhecidos. 

Os Padrões do GSTC articulam esse arcabouço em quatro pilares. A função não se limita a “boas práticas ambientais”: requer governança, transparência, monitoramento e melhoria contínua, além de auditoria competente quando aplicados em esquemas de certificação. O programa institucional do GSTC distingue padrões reconhecidos (GSTC-Recognized) e esquemas/acreditação para certificadoras, visando integridade e comparabilidade. 

Demanda e perfil dos turistas 

Pesquisas setoriais indiciam grande crescimento no foco à sustentabilidade por parte dos turistas. A Sustainable Travel 2024 (Boooking.com), em relatório recente, demonstrou que a maioria dos viajantes valorizam por opções sustentáveis, inobstante barreiras que vão desde informações insuficientes, custo excessivo ou verossimilhança nas alegações da hospedagem. Esses fatores reforçam a necessidade de padronização de métricas e certificação confiável para reduzir a assimetria de informação no ato da reserva, fator que causa insegurança no consumidor, tanto para destinos quanto para meios de hospedagem, 

Todavia, do lado da oferta, a padronização dos indicadores na hotelaria avançou substancialmente com o advento dos Universal Sustainability KPIs, pela World Sustainable Hospitality Alliance. O KPIs, podem ser entendidos como um núcleo inicial de métricas ESG para consumo de energia e água, gestão de resíduos e emissões de gases de efeito estufa, concebido para assegurar o relato consistente, comparável e passível de verificação independente em escala setorial.

Síntese crítica dos impactos do setor turístico

Caso haja má gestão, o turismo é uma atividade capaz de exacerbar pressões ambientais, fazendo com que aumente a demanda por água e energia, além de geração de resíduos, poluição e fragmentação de habitats.
A tensão de culturas locais – perda de autenticidade, sobrecarga de sítios históricos – e a fragilização da economia, causada principalmente pela dependência setorial, podem ser sinais de má gestão na prática turística.
Contudo, se a prática for bem elaborada e com monitoramento adequado, o turismo pode trazer diversos benefícios, dentre eles a distribuição de renda local, valorização de patrimônios, o impulsionamento de encadeamentos produtivos e a promoção da eficiência por meio de inovações tecnológicas.
Os pilares para mecanismos do GSTC, combinados com a KPIs universais na hotelaria, oferecem um ponto de partida comum para mensurar tais efeitos e limitar gereewashing (prática de marketing enganosa a qual empresas buscam se promover como ambientalmente sustentáveis apesar de não serem).

Métricas e metas para princípios orientadores para a hospitalidade sustentável 

É proposto que cada empreendimento siga um ciclo de gestão que se inicia na governança e finda na verificação independente, resultando em coerência entre ambição estratégica e desempenho. A sustentabilidade é parte importante e compõe o núcleo da estratégia, com responsabilidades definidas, revisão anual em objetivos claros por exemplo, diminuir consumo de energia e de água por hóspede-noite — com suporte de auditorias internas regulares (GSTC). Em seguida, o planejamento deve considerar riscos físicos e de transição — ondas de calor, eventos extremos, estresse hídrico, precificação de carbono e exigências de fornecedores — com reflexos no CAPEX e nos planos de continuidade operacional, em linha com os princípios para investimento sustentável em turismo (UNCTAD/UN Tourism). No plano operativo, deve ser priorizada a eficiência de recursos e economia circular: prevenção de resíduos, reuso e reciclagem, eliminação de plásticos descartáveis e medição setorizada de água e energia; automação predial (BMS), sensores de presença, calibração sazonal de setpoints, reuso de águas cinzas e compras de menor impacto reduzem custos e emissões, com reporte padronizado pelos Universal Sustainability KPIs (World Sustainable Hospitality Alliance). A criação de valor local — por meio de compras e empregos qualificados no território, rodas de diálogo e participação desde o planejamento — reforça legitimidade social e atende aos pilares socioeconômico e cultural (GSTC). A proteção do patrimônio material e imaterial, em conjunto com a gestão de capacidade de carga, previne espetacularização e degradação de sítios, conforme critérios específicos para hotéis e destinos (GSTC). Transparência é condição primordial para confiança: metas, métodos e resultados devem ser noticiados publicamente e devem ser comparados, preferencialmente com verificação terceirizada, observando os referenciais GSTC-Recognized e as diretrizes de acreditação para evitar constatações imprecisas (GSTC). Por fim, a melhoria constante depende de tecnologia e dados: sensores, submedição, análises preditivas e aplicativos de engajamento ao hóspede, com acompanhamento por indicadores de intensidade (por hóspede-noite ou m²-ano) e objetivos anuais de redução, contextualizadas por benchmarks setoriais como o Cornell Hotel Sustainability Benchmarking (CHSB) (Greenview/Cornell).

Práticas aplicadas em hotelaria e hospitalidade

Energia. Deve-se priorizar eficiência no HVAC (chillers eficientes, recuperação de calor), iluminação LED, sensores de ocupação e sistemas de gestão predial (BMS). Objetivos comuns incluem reduzir kWh por hóspede-noite e aumentar o uso de energia renovável (no local ou via contratos). A diminuição de consumo costuma ser mensurável em curto período de tempo quando há submedição e commissioning adequados. 

Água. Em regiões com estresse hídrico, aeradores, descargas de baixo volume, reuso de águas cinzas para irrigação e detecção de vazamentos são prioridade. A métrica central é litros por hóspede-noite; a gestão por ponto de uso (quartos, lavanderia, cozinha, áreas externas) permite resultados rápidos. 

Resíduos. Para além da segregação, o destaque deve estar em prevenção na fonte: revisão de embalagens, compras a granel, substituição de amenities de uso único por refil durável, e compostagem quando aplicável. A métrica recomendada é a taxa de desvio de aterro combinada à intensidade de resíduos por hóspede-noite

Compras e cadeia de suprimentos. Políticas de compras que favorecem fornecedores locais e regionais, com critérios socioambientais e de qualidade, reduzem a pegada de transporte e dão força a economias locais. É útil definir percentuais-meta do gasto operacional com fornecedores locais e documentar processos de due diligence

Arquitetura e operação. Projetos bioclimáticos, sombreamento, ventilação natural e paisagismo com espécies nativas reduzem a carga térmica e o consumo de água para irrigação; telhados verdes e superfícies refletivas são estratégias complementares. Critérios do GSTC para hotéis incluem diretrizes sobre espécies exóticas/invasoras e integração paisagística. 

Experiência do hóspede e engajamento. Transparência em informação de impacto (p.ex., consumo do quarto em tempo real), opções de mobilidade de baixo carbono e programas interpretativos (cultura, natureza) agregam ao valor percebido e alinham comportamento de uso com os objetivos do hotel. Relatórios anuais de grandes OTAs e coalizões do setor indicam que clareza de informação ajuda a transformar intenção em escolha efetiva. 

Certificação e padrões internacionais

A certificação é o caminho, mas não o fim. Em mercados maduros, cadeias B2B e licitações públicas agregam valor a padrões alinhados ao GSTC, que funcionam como “metrolinguagem” comum e reduzem as diferenças de informação. Importa distinguir:

  1. Padrões reconhecidos (GSTC-Recognized) — confirmam que o conteúdo está de acordo com os Padrões GSTC.
  2. Esquemas de certificação acreditados — garantem a competência do processo de auditoria e, com isso, maior integridade.
    O objetivo é evitar selos superficiais, garantindo auditoria competente, periodicidade e tratamento de não conformidades

Para destinos, ações como os Dez Princípios para Destinos Sustentáveis (World Economic Forum) oferecem orientação de política e meios para planejamento e comportamento coletivo, articulando-se com os pilares do GSTC. 

Evidências e lições de casos (ilustrativas)

Privando nomes comerciais, para evitar exposição, três ensinamentos gerais resultam de experiências documentadas e de benchmarks setoriais:

1 — Submedição e tuning operacional entregam resultados rápidos. Propriedades que optam por aderir a submedidores por sistema e realizam ajustes finos (commissioning, setpoints, curvas de bomba/ventilação) tendem a experienciar as maiores diminuições no primeiro ano, principalmente em climas quentes e úmidos. A série CHSB evidencia como a intensidade energética difere por tipologia e região, viabilizando metas realistas por peer group

2 — Água é risco material em muitos destinos. Em contextos de escassez hídrica, litros por hóspede-noite é indicador crítico. O uso de aeradores, o reuso de águas cinzas e a detecção de vazamento costumam diminuir o consumo sem prejudicar a experiência, e os KPIs universais aconselham monitoramento mensal padronizado. 

3 — Informação confiável influencia reserva. Pesquisas com hóspedes mostram que transparência e comparabilidade de informações sustentáveis aumentam a chance de escolha por opções com melhor desempenho, especialmente entre viajantes mais jovens, embora haja barreiras de custo e de confiança. A divulgação anual da Booking e ações de padronização do setor demonstram procura por dados consistentes

Desafios e discussão crítica

Custo inicial e retorno percebido. Investimentos em medição, automação e retrofit defrontam a crítica do payback. Apesar disso, quando se trabalha com intensidades (kWh/L por hóspede-noite) e se aproveitam ganhos operacionais (OPEX), o retorno tende a ser mais rápido do que o considerado sem dados. Benchmarks como o CHSB auxiliam a integrar business cases realistas. 

Capacitação e execução. A escassez de mão de obra especializada para operar BMS, analisar dados e dirigir auditorias internas é comum. Programas de capacitação e parcerias técnicas com entidades do setor são de suma importância para superar isto. 

Greenwashing e proliferação de selos. A presença de selos sem auditoria competente mina a confiança. É aconselhável adotar padrões alinhados ao GSTC e, quando possível, buscar certificação com acreditação reconhecida. 

Escalabilidade e equidade. Ações viáveis em grandes resorts podem não corresponder diretamente a pousadas pequenas ou destinos remotos. Políticas públicas — inclusive as orientadas pelos Princípios de Investimento Sustentável — devem centralizar incentivos, assistência técnica e financiamento de transição para PMEs e territórios periféricos. 

Dados comparáveis. Sem métricas padronizadas e verificáveis, a comparação entre empreendimentos permanece pouco confiável. Os Universal KPIs e a integração com relatórios corporativos (p.ex., grandes plataformas de viagens) são métodos concretos para comparabilidade e transparência

Conclusão e recomendações

O turismo sustentável é uma necessidade para a sobrevivência competitiva e a legitimidade do setor. A hospitalidade do futuro se sustentará em três eixos:

  1. Governança e integridade: política, metas, dados auditáveis e certificação alinhada ao GSTC;
  2. Eficiência e inovação: medição setorizada, automação, reuso de água, prevenção de resíduos, renováveis e melhoria persistente;
  3. Valor territorial e cultura: compras e trabalho locais, proteção do patrimônio, conversas com comunidades e transparência com hóspedes.

Recomenda-se, de forma objetiva: (a) integrar sustentabilidade à estratégia e ao orçamento; (b) implementar indicadores de intensidade (energia, água, resíduos, emissões) e metas anuais públicas; (c) usar benchmarks setoriais (CHSB) para equilibrar ambição; (d) ter como prioridade padrões e certificações alinhados ao GSTC; (e) engajar comunidades e fornecedores em contratos com critérios socioambientais; (f) buscar incentivos e financiamento de acordo com os Princípios de Investimento Sustentável; (g) capacitar equipes e comunicar com responsabilidade, diminuindo o say–do gap dos hóspedes por meio de informação confiável no ponto de decisão. 

Referências

UN Tourism / UNWTO & UNCTAD. Guiding Principles for Sustainable Investment in Tourism (PDF oficial). 2024–2025. UN Trade and Development (UNCTAD)

UNCTAD. Guiding Principles for Sustainable Investment in Tourism (página oficial). 2025. UN Trade and Development (UNCTAD)

UN Tourism / UNWTO. Sustainable tourism — definição institucional (ONU/SDGs). Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

GSTC. GSTC Standards (Criteria) — quatro pilares e base para certificação. Atualizado 2025. GSTC

GSTC. GSTC-Recognized Standards — distinções e integridade. 2025. GSTC

GSTC. Accreditation/Manual — regras para reconhecimento de padrões e acreditação de certificadoras. 2021. GSTC

GSTC. Industry Criteria for Hotels — detalhamento operativo (biodiversidade, espécies invasoras etc.). 2025.

GSTCWorld Sustainable Hospitality Alliance. Universal Sustainability KPIs for Hospitality — visão geral (PDF) e anúncio (site). 2024. World Sustainable Hospitality Alliance+1

Booking.com. Sustainable Travel Report 2024press e síntese; confiança e informação como barreiras. 2024. news.booking.com+1

Booking Holdings. 2024 Sustainability Report — iniciativas de transparência e colaboração setorial. 2025. Booking Holdings –
Cornell / Greenview. Hotel Sustainability Benchmarking (CHSB) 2024 — index e relatório. 2024–2025. Greenview+1

World Economic Forum. Ten Principles for Sustainable Destinations — orientação de política para destinos. 2022.