O IMPACTO DA RELIGIÃO NA FORMAÇÃO DO CONCEITO DE GÊNERO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510101001


Maria Eduarda Bronholo Dzim
Ana Bela dos Santos


RESUMO: O presente estudo investiga a produção e a regulação das normas de gênero nos campos religiosos,  analisando como instituições e práticas espirituais moldam subjetividades, corpos e comportamentos. A partir das  perspectivas de Judith Butler, Pierre Bourdieu e Michel Foucault, examina-se o poder simbólico e discursivo  exercido pelas tradições religiosas, bem como a performatividade de gênero, evidenciando que normas e  expectativas não são naturais, mas construídas e reiteradas socialmente. A pesquisa destaca ainda que, embora  haja mecanismos de coerção e hierarquia, os sujeitos também elaboram estratégias de resistência e agência,  negociando papéis e significados. O estudo busca compreender a complexidade das relações entre poder, gênero  e religiosidade, revelando tensões entre dominação, conformidade e possibilidades de subversão nas práticas e  interpretações religiosas. 

Palavras-chave: Gênero. Performance. Religião. Poder Simbólico. 

ABSTRACT: This study investigates the production and regulation of gender norms within religious fields, analyzing  how institutions and spiritual practices shape subjectivities, bodies, and behaviors. From the perspectives of Judith  Butler, Pierre Bourdieu, and Michel Foucault, it examines the symbolic and discursive power exercised by religious  traditions, as well as the performativity of gender, highlighting that norms and expectations are not natural but  socially constructed and reiterated. The research also emphasizes that, although mechanisms of coercion and  hierarchy exist, individuals develop strategies of resistance and agency, negotiating roles and meanings. The study  aims to understand the complexity of the relationships between power, gender, and religiosity, revealing tensions  between domination, conformity, and possibilities of subversion in religious practices and interpretations. 

Keywords: Gender. Performance. Religion. Symbolic Power. 

1 INTRODUÇÃO 

A relação entre religião, gênero e subjetividade constitui um campo central para  a compreensão de como as normas sociais se consolidam e se naturalizam. As  instituições religiosas desempenham um papel fundamental na normatização dos  corpos e das identidades de gênero, apresentando comportamentos e papéis  socialmente prescritos como naturais ou moralmente desejáveis. Tal processo  contribui para a manutenção de hierarquias sociais e para a reprodução de  desigualdades, influenciando a percepção que os indivíduos têm de si e do outro. 

Neste contexto, o poder simbólico apresenta-se como um conceito-chave para  analisar a atuação da religião. Para Bourdieu (2005), esse poder opera de forma  legítima e naturalizada, permitindo a internalização de normas e a reprodução de  hierarquias sem coerção explícita. No campo religioso, ele legitima modelos de  masculinidade e feminilidade, regula comportamentos e orienta a construção da  subjetividade, consolidando normas de gênero como elementos aparentemente  universais e inquestionáveis. 

Além disso, a perspectiva performativa de gênero proposta por Butler permite compreender que essas normas são reiteradamente construídas e reforçadas, mas  também estão abertas à contestação e à ressignificação. O ideal do eu, conforme  abordagens psicanalíticas, reforça a internalização desses padrões ao funcionar como  referência moral e normativa na vida do sujeito, orientando julgamentos de adequação ou culpa em relação às expectativas sociais e religiosas (Freud, 1923/2012). 

Diante do exposto, este projeto busca investigar o modo como o campo  religioso atua como produtor de gênero, articulando poder simbólico, normatividade e  subjetividade, contribuindo para a manutenção de uma ordem social hierarquizada. A  pesquisa pretende, assim, compreender os mecanismos por meio dos quais práticas,  discursos e rituais religiosos participam da construção e legitimação de papéis de  gênero, situando-se na interseção entre sociologia, teoria social e psicanálise. 

2 FERRAMENTAS PARA UMA ANÁLISE CRÍTICA: GÊNERO, PODER E PERFORMATIVIDADE 

No campo dos estudos de gênero, a filósofa Judith Butler insere-se como uma  figura proeminente na discussão sobre a constituição das identidades. Em sua obra  Problemas de Gênero (1990), ela formula uma crítica incisiva aos pressupostos  essencialistas que sustentam a ideia de gênero como um atributo natural, fixo e  biologicamente determinado. Para a autora, o gênero não deve ser compreendido  como uma essência imutável, mas como uma construção política e social que opera  por meio da repetição normativa de atos performativos, profundamente enraizados em uma configuração de poder. Suas práticas reiteradas instituem e sustentam a matriz de uma estrutura binária heteronormativa, que delimita corpos e subjetividades (Reis,  2014). 

A compreensão de gênero, no campo teórico de Butler, está atrelada ao  conceito de performatividade, o qual implica que o gênero seria resultante de uma  série de atos, gestos e práticas reiteradas que atuam na produção e sustentação de  uma identidade estável. Essa repetição ritualizada não decorre da expressão de um  sujeito pré-existente, mas do próprio processo de constituição do sujeito. A distinção  originalmente formulada entre sexo e gênero, a fim de salientar o caráter culturalmente constituído do gênero em oposição ao sexo como dado biológico, é confrontada pela  autora. Butler (2018, p. 23) propõe que o próprio sexo se constituiria como uma categoria construída, interpretada e organizada culturalmente, e não como uma “facticidade anatômica pré-discursiva”. 

Entende-se que o gênero não seria apenas uma inscrição cultural sobre um corpo biologicamente dado, mas o próprio aparato discursivo e cultural que produz o  corpo. A naturalização de um sistema de binarismo sexual não se estabelece como  um reflexo de uma realidade biológica, mas como um efeito da construção cultural do  gênero, cujas normas agem para manter a estabilidade e a coerência simbólica entre  sexo e gênero impostas pelo sistema heteronormativo (Rodrigues, 2005). 

Esse processo não se limita a reproduzir passivamente normas, mas atua na  produção da ilusão de uma identidade coerente e substancial. A suposta estabilidade  entre sexo, gênero e desejo é um efeito continuamente regulado por práticas sociais  que reforçam as normas da matriz binária. Implica-se, assim, que a coerência entre  corpo, gênero e desejo, apresentada como algo natural e estável, é, na verdade, uma  ilusão produzida performativamente (Butler, 2018). 

A noção de gênero como performance desvela uma construção normativa,  instável e relacional, capaz de subverter as normas hegemônicas da lógica binária e  promover a fluidez das identidades, ampliando a compreensão de ‘homem’ e ‘mulher’  para além de critérios anatômicos e incorporando uma pluralidade de corporalidades  e posições identitárias múltiplas (Reis, 2014). Butler apresenta o gênero como um  processo dinâmico e socialmente construído, cuja repetição naturaliza normas ao  mesmo tempo em que permite sua subversão. Bourdieu, por sua vez, complementa  essa análise, evidenciando que a consolidação dessas normas se sustenta pelo poder  simbólico. 

O conceito de poder simbólico, em Bourdieu, refere-se à capacidade de  instaurar, por meio da enunciação, uma visão de mundo socialmente legitimada. Ao  ser reconhecida como legítima, essa visão consolida-se como realidade social,  constituindo não apenas uma descrição do real, mas uma produção simbólica que  organiza percepções e orienta a compreensão que os sujeitos têm de si mesmos e do  mundo. Trata-se de um poder de ‘fazer ver e fazer crer’, capaz de confirmar ou  transformar representações e práticas, atuando de forma velada e eficaz enquanto os sujeitos percebem as classificações sociais, categorias e nomes como naturais, não  reconhecendo sua arbitrariedade histórica e legitimando-as (Bourdieu, 2005). 

O poder simbólico não reside nas palavras em si, mas na relação entre quem  as pronuncia e quem as reconhece, apoiando-se em estruturas sociais que conferem  autoridade e legitimidade a determinadas posições. Um mesmo discurso adquire  significados distintos conforme a posição social de seu emissor, constituindo-se em  capital simbólico quando socialmente reconhecido. Os símbolos exercem um papel integrador, promovendo consenso e coesão social, e, simultaneamente, distintivo,  delimitando fronteiras entre grupos e sustentando hierarquias. Todo ato comunicativo  possui uma dimensão política, pois veicula relações de poder implícitas ao converter  relações de força em relações de sentido, legitimando visões de mundo e  naturalizando divisões sociais, em uma constante disputa entre grupos e agentes  especializados (Santos, 2024). 

Enquanto Bourdieu evidencia a dimensão simbólica do poder e a naturalização  das hierarquias, Foucault amplia a análise ao mostrar como tais mecanismos se  inscrevem nos corpos e nas condutas, regulando práticas sociais por meio de  discursos e normas. 

Os mecanismos de poder, na análise de Foucault, articulam-se de modo a  regular, disciplinar e normalizar tanto os corpos quanto às condutas sexuais. O poder,  mais do que simples repressão explícita, manifesta-se por meio da produção  discursiva, na elaboração de normas sociais e na articulação de instituições que  determinam o reconhecimento social daquilo que deve ser considerado legítimo ou  desviante (Foucault, 2018). 

O sexo já não se configura como manifestação espontânea, restringindo-se a  espaços socialmente legitimados, sobretudo à família conjugal, voltada à função  reprodutiva. Práticas divergentes dessa norma são invisibilizadas e submetidas a  restrições morais e sociais, instaurando hierarquias que, sob a aparência de  naturalidade, estabelecem-se como produtos de construções sociais (Nascimento,  2005). 

Para Foucault, o discurso sobre a sexualidade é um mecanismo central de  controle social, operando de forma sutil e moldando condutas individuais por meio do  silenciamento e da naturalização de normas que definem o que pode ser dito e  desejado. O poder, portanto, não age apenas pela força, mas manifesta-se ao se  inscrever diretamente nos corpos e nas práticas. Nesse processo, o corpo e a  sexualidade tornam-se territórios de exercício de poder. A repressão, no entanto, é  produtiva, criando espaços de resistência e a possibilidade de subversão. Assim, a  sexualidade é, simultaneamente, um objeto e um instrumento do poder: um campo de  dominação e, ao mesmo tempo, de transformações (Foucault, 2018). 

Na concepção freudiana, discorre-se sobre o conceito de ideal do Eu, que  corresponde a uma instância psíquica constituída no interior do eu e que desempenha um duplo papel: como modelo idealizado a ser alcançado e como instância que exerce a função crítica de julgamento da conduta do sujeito. Sua formação decorre,  sobretudo, da experiência edípica, na qual a criança, confrontada com a impossibilidade de satisfazer seus desejos incestuosos, depara-se com a  necessidade de renunciar a esses objetos de amor (Chemama, 1995). 

A partir da renúncia a objetos perdidos, sobretudo às figuras parentais, o ideal  do eu emerge como uma instância que incorpora seus traços e se torna uma extensão da autoridade familiar. Essa estrutura atua de forma ambivalente: proíbe desejos e, ao mesmo tempo, impulsiona a busca pela perfeição, manifestando-se na consciência moral e na autocrítica (Freud, 1923/2012). 

Para Freud, a autoridade internalizada transcende o âmbito individual e  constitui a vida coletiva, estendendo-se às instituições sociais e religiosas. A religião,  ao simbolizar o divino como figura paterna benevolente e punitiva, institui normas que  o sujeito introjeta, regulando condutas e julgamentos. Demarcada pela culpa e pelas  demandas de pureza e submissão, a experiência religiosa evidencia o ideal do eu  como instância reguladora, em continuidade com o vínculo parental. O vínculo  originalmente estabelecido com os pais desdobra-se em obediência a um código  transcendente, representando a autoridade internalizada. Assim, religião, moralidade  e laços sociais compartilham uma mesma origem na renúncia edípica e na  constituição do ideal do eu (Freud, 1923/2012). 

A atuação religiosa ultrapassa a orientação de práticas externas, intervindo na  vida psíquica e reforçando o ideal do eu como regulador das tensões entre desejo e  norma. Embora essa instância seja fundamental para o convívio social, pode tornar-se fonte de sofrimento psíquico ao se manifestar de forma severa e punitiva (Torres, 2012). 

A articulação entre as contribuições de Judith Butler, Pierre Bourdieu, Michel Foucault e Sigmund Freud permite analisar a relação entre religião e gênero. Em  Butler, as normas de gênero regulam a coerência social, mas também possibilitam  subversão e ressignificação. Bourdieu evidencia como o poder simbólico naturaliza hierarquias no campo religioso. Foucault mostra os mecanismos de poder que  disciplinam corpos e discursos, gerando dominação e resistência. Por fim, Freud  elucida a internalização psíquica dessas normas, que, embora reguladoras, podem  gerar conflitos. Assim, é possível compreender como religião e gênero se entrelaçam  na produção de subjetividades e práticas sociais, permitindo a identificação tanto dos  dispositivos de poder que asseguram a normatividade, quanto das lacunas que possibilitam contestação e ressignificação. 

3. O CAMPO RELIGIOSO COMO PRODUTOR DE GÊNERO 

O campo religioso, consolidado como instituição social, exerce uma constante  influência sobre a vivência e a performance subjetiva dos sujeitos no aspecto social.  Suas narrativas dispõem de um papel central na normatização dos corpos e das identidades de gênero, delineando padrões de conduta e operando como aspecto  determinante no desenvolvimento do sujeito. 

A religião manifesta-se tanto como instrumento de comunicação quanto de produção de conhecimento, permitindo um acordo entre o sentido dos signos e o  sentido do mundo e promovendo um senso de coerência na interpretação da realidade  pelos indivíduos. Desempenha funções de integração social e lógica das ideias e  símbolos, distinguindo o sagrado do profano, e exerce um papel político ao conservar a ordem social, não apenas por regras explícitas, mas também por meio de um poder simbólico sutil que molda crenças e comportamentos (Pereira, 2008). 

Considerando-se a perspectiva de Pierre Bourdieu, o poder simbólico se dá como instrumento de dominação, legitimando normas e hierarquias sociais sem  coerção explícita. No campo religioso, esse poder delimita comportamentos e  identidades de gênero considerados corretos, promovendo práticas de submissão e distinção social. Ao apresentar determinadas condutas como moralmente exemplares,  a religião favorece a internalização dessas normas pelos sujeitos. Esse processo não  se restringe à regulação de comportamentos externos, mas molda a subjetividade e orienta a autoimagem. A percepção do outro também é influenciada, consolidando  normas de gênero como elementos naturais (Bourdieu, 2005). 

Isso permite compreender a religião não apenas como reguladora de condutas,  mas como produtora de um sistema simbólico que naturaliza hierarquias e distinções de gênero, evidenciando a eficácia sutil das instituições religiosas na reprodução das estruturas sociais e na manutenção da ordem social. Para além de uma esfera de fé ou espiritualidade, a religião, enquanto espaço de produção social, serve como instrumento de poder simbólico que naturaliza normas de gênero, estrutura a hierarquização social e influencia a constituição subjetiva dos sujeitos (Bourdieu,  2007). 

No sujeito, o ideal do eu auxilia a conceber o modo como a internalização das  normas religiosas se torna parte do núcleo da identidade. A religião, ao instituir modelos que promovem aspectos de perfeição como conduta desejável, torna-se um  referencial para o julgamento e a avaliação moral do próprio comportamento. Ao se  confrontarem com esse ideal, os sujeitos experienciam sentimentos de adequação,  culpa ou inadequação, internalizando a normatividade religiosa e reforçando a  conformidade com os padrões de gênero prescritos. A religião atua como mediadora  entre a norma social e a experiência subjetiva, consolidando a disciplina simbólica por  meio de práticas cotidianas que regulam corpos, comportamentos, desejos, atitudes  e identidades (Freud, 1923/2012). 

O ideal do eu religioso intervém como mediador entre a normatividade social e  a experiência individual, consolidando a internalização dos padrões de gênero como  normas naturais. Essa internalização é reforçada por práticas religiosas reiteradas,  pela autoridade de líderes espirituais e por rituais de pertencimento, que fortalecem o  modelo de conduta desejável. No âmbito de gênero, isto implica que os sujeitos  assumam e desempenhem papéis socialmente prescritos e se vinculem a um  sentimento de responsabilidade e comprometimento moral, evidenciando como a  disciplina simbólica da religião se torna constitutiva da subjetividade (Torres, 2012). 

A eficácia dessas normas — ao conceber o sexo como função simbólica  equivalente a um mandamento ou preceito — depende funcionalmente de sua constante reiteração e referência à lei, bem como da repetição pelos sujeitos. Uma norma permanece vigente enquanto é reconhecida e seguida; na ausência desse reconhecimento, sua função reguladora se esvai (Pereira, 2008). 

Enquanto sistema simbólico, a religião estrutura a sociedade e a visão de mundo por meio de um princípio de divisão. Ao criar categorias antagônicas, a religião  estabelece um consenso acerca dos significados e das normas que orientam as relações sociais. Essa estrutura cumpre uma função política, pois sua eficácia reside  na capacidade de legitimar hierarquias e consolidar o poder. A religião alcança essa  consagração da ordem social ao transformar elementos arbitrários em verdades  absolutas, conferindo valor e sentido ao estilo de vida de determinados grupos e,  assim, reforçando seu capital simbólico e material (Bourdieu, 2007). 

Sua atuação se dá na naturalização de construções sociais historicamente  situadas, apresentando papéis de gênero como resultados de determinações  transcendentais ou expressões de uma ordem divina. Práticas, valores e identidades  ligados à masculinidade e à feminilidade consolidam-se como verdades universais,  reproduzindo hierarquias e desigualdades na estrutura social. Ao legitimar hábitos de  grupos ou classes dominantes, a religiosidade reforça a binariedade de gênero,  transformando-a em paradigma ético e existencial. Nesse processo, regula não  apenas comportamentos, mas também expectativas sobre ações por meio de  dispositivos simbólicos e doutrinários. Apesar de sua arbitrariedade histórica, essas  normas adquirem consistência material e reconhecimento institucional, consolidando-se como forças reguladoras da vida social e produtoras de gênero (Bourdieu, 2005). 

Essa operação simbólica confere legitimidade a modelos hierárquicos de  masculinidade e feminilidade, inseridos em uma articulação na qual o poder masculino se eleva à condição de norma social e moral. A instituição religiosa, nesse contexto, não se limita a sancionar a legitimação da autoridade masculina nas esferas familiar, política e espiritual, mas também exerce um papel regulador sobre os corpos e os desejos, valendo-se de doutrinas, rituais e mecanismos disciplinares (Pereira, 2008). 

Além disso, ao se analisar tal articulação, concebe-se que, ao se instituir como um sistema de produção simbólica, a religião contribui para a manutenção de uma  ordem social na qual determinados estilos de vida, associados a grupos dominantes,  são sacralizados e instituídos como norma. Ela age não apenas como reflexo de uma  realidade social, mas como força ativa em sua constituição, sendo uma instância  central na consolidação dos regimes de gênero que determinam o que é permitido,  desejável ou condenável em uma dada sociedade (Bourdieu, 2007).

4 A PERFORMANCE DE GÊNERO EM DISPUTA: ANÁLISES DO CONTEXTO BRASILEIRO 

A noção de performance de gênero, conforme elaborada por Judith Butler  (2018), possibilita a compreensão de gênero como um aspecto que transcende o  entendimento de uma essência fixa, constituindo-se em uma estrutura reiterada por  práticas discursivas e sociais. No contexto brasileiro, essa concepção se articula com  disputas simbólicas e políticas, frequentemente mediadas por discursos religiosos que  reforçam normas tradicionais de masculinidade e feminilidade. Assim, religião e  gênero aparecem como categorias simbólicas e sociais, entrelaçadas na experiência  dos sujeitos, influenciando suas práticas no exercício de identidades (Butler, 2018). 

4.1 O CORPO E A VESTIMENTA 

O corpo, compreendido como campo simbólico e culturalmente construído,  constitui um espaço onde normas, valores e disputas de poder se inscrevem e se  materializam. Para além de sua dimensão biológica, ele se constitui como território  em que forças sociais regulam condutas e produzem sentidos. Ao reproduzir normas  e hierarquias sociais, o corpo também se configura como espaço de fissuras e  possibilidades de ressignificação, emergindo como local estratégico para a inscrição  e contestação das relações de poder (Bourdieu, 2005). 

No contexto da regulação e disputa das normas de gênero, a vestimenta atua  como extensão material do corpo, externalizando-se como instrumento de expressão  de identidade e regulação social. Roupas, adornos e marcas corporais naturalizam  padrões de gênero, disciplinam comportamentos e traduzem expectativas morais,  espirituais e sociais em signos visíveis. Eles articulam campos simbólicos de  negociação, obediência e resistência, permitindo que sujeitos religiosos desempenhem papéis e constituam identidades. Esses sujeitos atuam dentro dos limites normativos, da mesma maneira que negociam e contestam esses mesmos limites, materializando práticas de poder (Bourdieu, 2007). 

No meio evangélico pentecostal, espera-se que a figura da mulher assuma uma  performance de ternura, docilidade e sacrifício, manifestada por meio de prescrições sobre sua aparência. Há a demanda de conservar o que é apresentado como aparência adequada, e o estímulo para que suas vestimentas sejam adequadas, “favorecendo o que as mulheres ‘têm de bom’ e disfarçando suas ‘vantagens’ [partes  do corpo mais avantajadas]” (Rosas, 2023).  

Isso reforça o estabelecimento de um vínculo entre a identidade feminina e o  cuidado de si, entendido como responsabilidade moral e espiritual. O zelo pelo corpo  e pela aparência, entretanto, manifesta-se de forma ambivalente, tanto como uma  expressão de autonomia e autocuidado, quanto como um mecanismo simbólico de  imposição de normas de feminilidade e moralidade, legitimadas como aspecto de uma  vontade divina. 

Em religiões de matriz africana, sobretudo no candomblé, a relação com o  corpo assume distintos contornos. Embora as vestimentas utilizadas em rituais sejam  uma demarcação de pertencimento e poder, um elemento pontual de regulação  simbólica é a menstruação, que designa os lugares e as funções que podem ser  ocupados no espaço espiritual. Assumindo significados diversos de interpretação,  pode ser entendida como força vital vinculada à capacidade de gerar vida, como  momento de vulnerabilidade, como fator de restrição à participação em determinados  ritos ou como um aspecto de impureza que justifica interditos ritualísticos. A  vestimenta, portanto, atua como prolongamento do corpo, articulando normas  simbólicas e possibilitando variações interpretativas sobre poder, gênero e  espiritualidade. Em consonância a isso, está a pluralidade de significados atribuídos  aos orixás, bem como o modo com que a materialidade do corpo se entrelaça com  práticas simbólicas e culturais (Medeiros, 2024). 

No Islã, a vestimenta também se torna um marcador fundamental. O hijab,  frequentemente estigmatizado pelo olhar ocidental como símbolo de repressão,  adquire, sob um viés de ressignificação, significados de devoção, pertencimento  comunitário e afirmação identitária para as mulheres muçulmanas. Torna-se, portanto,  um elemento que, para além de um adorno, inscreve-se como prática de fé e  resistência a representações coloniais que construíram a figura da mulher muçulmana  como passiva, subjugada e sexualmente reprimida, funcionando como um  prolongamento do corpo e como instrumento de agência. O corpo coberto, nesse  sentido, gera disputas tanto internas quanto externas: internamente, atribui-se-lhe um  caráter de obediência religiosa; externamente, apresenta-se como alvo de estigmas  sociais e políticos. Embora distintos, esses contextos assumem o corpo feminino  como um terreno privilegiado de regulação simbólica e de inscrição de normas de  gênero, na disputa por reconhecimento social e religioso, articulando identidade, poder e agência (Paiva; Barbosa, 2020). 

4.2 HIERARQUIA E PAPÉIS DE LIDERANÇA 

A hierarquia religiosa se apresenta como um campo que evidencia tanto a  reprodução da autoridade masculina quanto as formas de participação feminina. No  pentecostalismo, a figura da mulher adquire um papel de centralidade no cuidado  espiritual e na transmissão da moralidade familiar; entretanto, sua atuação frequente  ocorre sob a sombra da autoridade masculina, que a orienta e legitima. Ao ocupar  espaços de liderança, sua legitimidade é condicionada ao “ministério do casal”, no qual a presença do parceiro reforça a ideia de complementaridade subordinada. 

Mesmo nos contextos em que a mulher assume papel ativo, sua autonomia na  estrutura institucional permanece limitada pelo discurso da submissão ao homem,  interpretado como desígnio divino (Rosas, 2023). 

No contexto do candomblé, embora a organização hierárquica estabeleça uma  diferenciação de funções segundo o gênero, ela difere em sua configuração. Ainda  que as mulheres estejam presentes no desempenho da maior parte das funções  rituais, o desempenho de atividades como os cultos divinatórios e a imolação de  animais ainda lhes é vetado. Tais restrições evidenciam o estabelecimento da  menstruação e do corpo feminino como elementos de diferenciação hierárquica. No  entanto, apesar dessas limitações, as ialorixás (mães de santo) exercem um papel  central de autoridade e prestígio, o que demonstra que a liderança feminina pode se  consolidar com legitimidade, ainda que atravessada por regras específicas. Isso apresenta um contraste com o modelo pentecostal, no qual a liderança feminina é mais rigidamente condicionada à figura masculina (Medeiros, 2024). 

No Islã, as atribuições hierárquicas se articulam a papéis complementares de  gênero: o homem é estabelecido como provedor e a mulher como responsável pelo  cuidado doméstico. Entretanto, tal divisão não implica a exclusão absoluta da  participação feminina em atividades financeiras ou comunitárias, e exemplos  proféticos sustentam a partilha das tarefas domésticas (Paiva; Barbosa, 2020). Dessa  forma, embora se replique um padrão de autoridade masculina como norma, o  contexto islâmico não se configura como uma exclusão absoluta, apresentando  espaços de negociação cuja extensão varia conforme o contexto social e histórico.

4.3 SEXUALIDADE E CONTROLE 

Constituído como um dos campos mais fortemente regulados pelas tradições  religiosas, a sexualidade se apresenta como instrumento de disciplina e legitimação  das normas de gênero.  

No pentecostalismo, essa regulação incide sobre a virgindade pré-marital, a  fidelidade conjugal e a indissolubilidade do matrimônio, sendo o homoerotismo  condenado como abominação. Nesse contexto, a figura feminina é associada à  abnegação e ao sacrifício, reforçando a moralidade sexual como uma responsabilidade atribuída prioritariamente às mulheres. O “dispositivo da perfeição”,  descrito por McRobbie (2015), ilustra tal processo como um mecanismo de  autorregulação no qual as próprias mulheres internalizam e reproduzem normas  opressivas, transformando-as em projetos de vida sob a aparência de escolha, mas  que reproduzem estruturas de poder e controle social (Rosas, 2023). 

Em contraste com a rigidez normativa do pentecostalismo, as religiões de  matriz africana não regulam a sexualidade com a mesma ênfase. Embora a  sexualidade não seja o foco principal, o corpo feminino, em especial a menstruação,  desempenha papel central na definição de limites rituais e simbólicos. A multiplicidade  de significados reflete uma flexibilidade normativa, em contraste com a rigidez moral  do pentecostalismo, onde a sexualidade feminina é estruturada de forma uniforme e  hierarquizada (Medeiros, 2024). 

No Islã, o casamento ocupa um papel central na regulação da sexualidade, e as relações sexuais são permitidas exclusivamente dentro desse vínculo. O princípio da virgindade é exigido de ambos os sexos, assim como a interdição de contatos  físicos antes do matrimônio. Diferentemente do modelo pentecostal, suas normas não  configuram uma submissão feminina unilateral. Dessa forma, a sexualidade é  moralmente regulada, mas não reduzida apenas ao feminino, configurando-se como  um dever moral compartilhado e permitindo um espaço relativo de agência e  negociação, ainda que dentro de limites prescritivos (Paiva; Barbosa, 2020).

4.4 AGÊNCIA E RESISTÊNCIA 

Embora as tradições religiosas estejam permeadas por fortes dispositivos de  regulação e controle, é fundamental destacar que tais estruturas determinam de forma  absoluta o comportamento dos indivíduos, que não se limitam a uma posição estática de passividade. Os sujeitos religiosos atuam de maneira ativa na negociação, ressignificação e contestação das normas, demonstrando que fé e obediência coexistem com estratégias de agência, resistência e ressignificação no interior das práticas religiosas (Bourdieu, 2007). 

No meio evangélico pentecostal, a figura da mulher assume o protagonismo do cuidado espiritual e da construção da moralidade, ainda que esteja inserida em discursos de submissão. A agência feminina possui um caráter de ambivalência, pois  as mulheres não apenas reproduzem normas, mas também as ressignificam,  buscando nelas formas de afirmação subjetiva, protagonismo comunitário e influência  simbólica (Rosas, 2023). 

Em meio às religiões de matriz africana, a crítica de Oyěwùmí (2021) à  imposição ocidental do gênero permite compreender como as mulheres podem  resistir a categorias coloniais e reinterpretar seu papel (Medeiros, 2024). A  multiplicidade de significados atribuídos à menstruação exemplifica essa flexibilidade,  onde um mesmo fenômeno pode ser mobilizado ora para justificar exclusões, ora para legitimar maior proximidade com os ancestrais e fortalecimento espiritual. Tal  pluralidade abre espaço para negociações e resistências internas. 

No Islã, o hijab constitui um dos principais símbolos de agência. Embora frequentemente estigmatizado como imposição, ele é reivindicado por mulheres muçulmanas como expressão de devoção e identidade, contrapondo-se a representações e narrativas coloniais que as reduzem a figuras passivas.  

Isso se reflete no modo como o construto da “mulher muçulmana com hijab”  alimenta e fortalece as agendas coloniais sobre os corpos. Do mesmo modo, práticas  como a dança do ventre, reinterpretadas no espaço doméstico, revelam estratégias  de ressignificação da feminilidade e da sexualidade, deslocando-as do olhar público  para contextos de intimidade e escolha (Paiva; Barbosa, 2020).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise dos diferentes contextos religiosos mostra que o corpo e suas  expressões — em vestimentas, gestos e práticas — constituem superfícies de disputa  simbólica, articulando normas, poder e agência. As vestimentas e rituais vão além de funções estéticas ou espirituais, configurando-se como instrumentos materiais de regulação, identificação e resistência. Em tradições como o pentecostalismo, o candomblé e o Islã, essas práticas disciplinam e conferem sentido aos papéis de gênero, influenciando a conformação de identidades e condutas. Assim, a religião  atua simultaneamente como mecanismo de reprodução de normas e hierarquias e como espaço de negociação e contestação, permitindo ajustes contextuais na  performance de gênero. 

A regulação da sexualidade, por sua vez, manifesta-se de maneiras diversas:  no pentecostalismo, a responsabilidade moral recai fortemente sobre a mulher; no  candomblé, a sexualidade é articulada de forma mais plural e situacional; e no Islã, o  controle é distribuído entre os gêneros. Tais variações demonstram que os  mecanismos de poder religioso não são homogêneos e que o exercício do controle  sobre corpos e identidades de gênero assume formas específicas conforme os  contextos simbólicos e institucionais. 

Os sujeitos não se limitam a internalizar normas, mas participam ativamente  da produção e contestação das expectativas de gênero, articulando estratégias de  resistência e negociação diante das prescrições religiosas. Para Butler, as normas de  gênero são performativamente constituídas, de modo que a repetição de atos tanto  sustenta quanto abre possibilidades de subversão. Assim, evidenciam-se as complexas relações entre poder, normas de gênero, corpo e subjetividade, revelando a contínua negociação entre coerção simbólica, agência e construção identitária nos  campos religiosos 

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