REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510131041
Neura Mora
Patrícia Fernanda Morés Pastre
Sandra Mara Gosenheimer
Resumo
O coordenador pedagógico é um profissional fundamental no processo educativo por ser ponto de referência para todos os segmentos da escola. Sua ação possibilita construir uma visão crítico-reflexiva no espaço escolar, de modo a promover a melhoria da qualidade do ensino. O texto pretende desenvolver uma análise referente à construção de políticas públicas, tendo como foco principal a teoria da atuação e o papel dos contextos no trabalho dos coordenadores pedagógicos. Têm por objetivo refletir sobre a função do profissional coordenador pedagógico e pesquisar sobre as contribuições que a teoria da atuação de Ball, Maguire e Braun (2016) apresentam, apontando para uma possibilidade de transformação nos contextos. A intenção é desenvolver uma análise da importância da ação destes profissionais, os coordenadores pedagógicos, com base no texto do capítulo 02, a teoria da atuação nas investigações sobre políticas educacionais, dos autores Altair Alberto Fávero, Antônio Pereira dos Santos e Junior Bufon Centenaro, publicado na coletânea Leituras sobre Pesquisa em Política Educacional e a Teoria da Atuação. Buscamos assim, evidenciar a importância do coordenador pedagógico como aquele profissional que atua para transformar, desenvolvendo um trabalho de excelência na escola.
Palavras-chave: Políticas educacionais; Coordenador pedagógico; Teoria da Atuação; Contextos escolares.
Introdução
Este artigo procura desenvolver análises referentes à construção de políticas públicas consistentes, tendo como foco a teoria da atuação e o papel dos contextos no trabalho dos coordenadores pedagógicos1. Tal análise não se traduz tarefa simples, ao contrário, demanda entendimento das diversas situações e interações complexas, advindas de uma série de fatores estruturantes e conceituais, apresentados por autores diversos.
Atualmente, a educação vive tempos difíceis, de grandes incertezas e desafios aos profissionais da educação, já que se apresentam inúmeros discursos, que acabam se refletindo em práticas sem efeito e sem valor pedagógico. É o que Nóvoa (2009) intitula como efeito da moda, que seria a pior maneira de enfrentar os debates educativos, onde textos, artigos e teses repetem os mesmos conceitos, as mesmas ideias, as mesmas propostas. Desta forma, refletir sobre a função do profissional coordenador pedagógico e pesquisar sobre as contribuições que a teoria da atuação de Ball, Maguire e Braun (2016) apresentam, torna evidente uma possibilidade de transformação nos contextos.
Os coordenadores pedagógicos que trabalham diretamente com a formação dos professores são intelectuais cuja função é a de serem intérpretes e críticos da cultura com a responsabilidade e o privilégio de agir sobre a formação de todas as dimensões da sociedade, haja vista que são produtores de políticas. Em Vasconcelos (2002, p. 88) “O coordenador pedagógico é […] um intelectual orgânico no grupo, sua práxis, portanto, comporta as dimensões reflexiva, organizativa, conectiva, interventiva e avaliativa”. Sendo assim, a intenção é desenvolver uma análise da importância da ação destes profissionais, os coordenadores pedagógicos, com base no texto do capítulo 02, denominado de A teoria da atuação nas investigações sobre políticas educacionais, escrito por Fávero; Santos; Centenaro (2022) e publicado na coletânea Leituras sobre Pesquisa em Política Educacional e a Teoria da Atuação.
A questão central que orienta o presente estudo é: qual a função do coordenador pedagógico na escola e qual a importância de sua atuação qualificada nos contextos que se apresentam, de forma a contribuir para a busca de inserção de políticas públicas educacionais e desta forma promover uma educação de qualidade e mais humanizadas? Quais as possíveis contribuições da teoria da atuação na qualificação do trabalho destes profissionais?
Este trabalho é um estudo qualitativo e bibliográfico, utilizando o método descritivo e analítico como forma de pesquisa. O artigo está organizado em: análise da função do profissional coordenador pedagógico no contexto escolar; na sequência, análise da possível contribuição da teoria da atuação como forma de qualificar o trabalho dos coordenadores pedagógicos; e as considerações finais.
A função do profissional coordenador pedagógico no contexto escolar
No estudo “A teoria da atuação nas investigações sobre políticas educacionais”, Fávero; Santos e Centenaro (2022) discorrem sobre a abordagem pós-estruturalista do ciclo de política de Ball e Richard Bowe, que, na ótica de Mainardes (2006, p. 49), destaca a “[…] natureza complexa e controversa da política educacional, enfatiza os processos micropolíticos e a ação dos profissionais que lidam com as políticas no nível local e indica a necessidade de se articularem os processos macro e micro da análise de políticas educacionais”.
De acordo com Mainardes (2006, p. 50), quando relata que esses contextos são interrelacionados, não tem uma dimensão temporal ou sequencial e não são etapas lineares, pois cada um apresenta arenas, lugares e grupos de interesse e também envolve disputas e embates e nessa perspectiva, a abordagem do ciclo de políticas de Ball e Bowe concentra-se na análise da “[…] formação do discurso da política e sobre a interpretação ativa que os profissionais que atuam no contexto da prática fazem para relacionar os textos da política à prática” (FÁVERO; SANTOS; CENTENARO, 2022, p. 35).
A teoria da atuação desenvolvida por Ball, Maguire e Braun (2016), é compreendida como complementar ao ciclo de políticas, mais precisamente naquilo que se refere à análise do contexto da prática. Assim, as proposições da teoria da atuação ocorrem para que possamos compreender a política para além da sua implementação, pois os processos políticos que precisam ser considerados, ocorrem não apenas dentro das escolas, como também em seu entorno.
A partir destas considerações, é possível vislumbrar a importância da função do coordenador pedagógico na escola, de modo a descortinar as questões referentes ao trabalho e relações que ocorrem no espaço escolar, que não pode ser neutro, mas sim, espaço de discussão sobre políticas públicas que transformam a práxis pedagógica e a gestão escolar.
Ressaltando que o trabalho do coordenador pedagógico tem por objetivo potencializar o processo de aprendizagem dos estudantes e aprimorar o fazer pedagógico dos professores, o que muitas vezes é prejudicado pelo excesso de atribuições ou atividades puramente administrativas repassadas a este profissional. Estas tarefas não condizem com a sua real função, que é de coordenar a construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, sendo mediador no processo ensino (professores) e aprendizagem (estudantes), ou seja, aspectos pedagógicos devem ser o foco do trabalho deste profissional.
A expressão ‘colocar em ação’, não se traduz como um simples momento, mas sim como “um processo emoldurado por fatores institucionais envolvendo uma gama de atores” (LOPES, 2016, p. 5). Assim, é nesta instituição, a escola, que o coordenador pedagógico estará atuando, ou deveria estar, de forma a ser um articulador que promove reflexões sobre políticas educacionais e sua relação direta com o processo ensino e aprendizagem.
Para tanto, é fundamental este profissional ter clareza sobre sua função, de forma a que não permita ser um “faz tudo” na escola, um profissional sempre presente para atuar nas emergências ou situações administrativas que não fazem parte de suas atribuições. Sem clareza das suas atribuições, o que ocorre é que, por parte dos profissionais da escola, e até mesmo do próprio coordenador pedagógico, se recai em um trabalho superficial, sem valor pedagógico e que tem poucos resultados no contexto das relações de qualidade entre todos os agentes da escola.
É possível considerar o papel do coordenador pedagógico como articulador do processo educativo, sendo que para tal, necessita de formação pedagógica continuada e permanente, com possibilidades de trocas de experiências, e também de acompanhamento sistemático do seu trabalho na escola. Pois, como poderá o profissional coordenador pedagógico propor ou sugerir ao docente, dar suporte, se o mesmo não detém conhecimentos aprofundados, embasamento teórico e boas práticas de intervenção pedagógica de forma a proporcionar mediações significativas com professores e estudantes?
Propostas teóricas de diversos autores têm dado relevância ao importante papel do coordenador pedagógico como articulador nas relações educativas escolares, em sua função pedagógica e formativa. O profissional coordenador pedagógico precisa ter valorizada a especificidade de sua função, de modo a melhor coordenar, articular, formar e transformar, buscando desta forma melhorias da educação básica e dando significação a sua função. Nesta concepção, para o trabalho refletir no estudante, o coordenador pedagógico tem papel fundamental como articulador de todo um processo de formação e organização do trabalho educativo escolar realizado nas unidades escolares, de acompanhar o professor em suas atividades de planejamento, fornecer subsídios para atualizarem-se e aperfeiçoarem-se constantemente.
Para Ball, Maguire e Braun (2016), a teoria da atuação tem sua importância e estas políticas devem ser compreendidas como processo – produção e transformação na identidade dos indivíduos e no conhecimento. Na teoria de atuação, existe a reunião de dinâmicas psicossociais, históricas e contextuais para produzir ações e atividades políticas (FÁVERO; SANTOS; CENTENARO, 2022).
No processo cotidiano, o modo de pensar, de ser e de agir deve estar alicerçado na criticidade e na resistência. Pensar no coletividual, termo proposto por Stetsenko (2022), remete à atuação social individual e coletiva. Assim, o papel do coordenador pedagógico perpassa pela proposta de debates e análises sobre a realidade social. Para formar indivíduos éticos, é preciso antes de tudo comprometimento com a educação, começando pelos processos de formação, via reflexão sobre as interações que oportunizam a construção de valores e de resistência, elementos constituintes de uma vida mais digna e justa, de todos aqueles que compõem o espaço escolar.
Nessa perspectiva, a escola para cumprir com sua função social necessita ter profissionais preparados, que conheçam “[…] os modos de construção do saber […]” (MELLOUKI; GAUTHIER, 2004, p. 558) e não permitam dinâmicas submissas, mas sim, que possam estar atuando de fato em seus contextos escolares.
É evidente que uma formação continuada e melhor profissionalização, exige muito mais que alguns dias de preparação (início do ano letivo e recesso escolar), destacando ainda que, por vezes, o burocrático e administrativo demanda muito tempo e prevalece em detrimento ao pedagógico. Ademais, acrescentamos a importância da presença do coordenador pedagógico como instigador da capacitação docente, para administrar as constantes mudanças no contexto escolar que são influenciadas externamente e internamente diante da atuação das políticas educacionais.
Assim, é essencial criar espaços para compartilhar experiências, com ambientes favoráveis para a troca de ideias e formação de grupos de estudo, para partilhar reflexões coletivas, garantir segurança e apoio, na busca de alternativas para os problemas enfrentados no cotidiano da escola. Ao possibilitar estudos reflexivos por meio de teorias (Teoria da Atuação), é possível articular e estimular os processos educativos que favorecem a qualidade educacional.
A formação continuada traz à tona a importância do coordenador pedagógico como mediador e articulador neste processo, que deve (re)contextualizar a prática. Refletir sobre a realidade é demonstrar resistência diante de políticas pensadas fora do contexto escolar e apresentadas de forma pronta. De acordo com Mellouki; Gauthier (2004, p. 563) o que está em jogo é o resultado final que a escola produz:
[…] os tipos de homem e de mulher que saem todos os anos de seu interior. Será que foram socializados para que possam integrar-se em sua coletividade? Será que possuem os conhecimentos, os saberes e as habilidades úteis à sua inserção na estrutura profissional? São pessoas conscientes da importância do papel de cidadãos que têm de desempenhar na sociedade civil? Tem um comportamento autônomo e são solidários com os seus?
Neste sentido, os momentos de estudo com análise do contexto são cruciais para perceber se a escola está cumprindo com sua função social e se reconhece seu caráter mobilizador. As políticas educacionais precisam ser interpretadas com a participação de todos os sujeitos que integram a escola. Para Gatti (2010, p. 1375), a formação continuada deve ser pensada “[…] a partir da função social própria à escolarização – ensinar às novas gerações o conhecimento acumulado e consolidar valores e prática coerente com nossa vida civil”.
São indispensáveis formações frequentes e planejadas para analisar situações cotidianas do espaço escolar (fazer relatos, observações da história local, troca de experiências). Tal postura, por parte do profissional coordenador pedagógico, busca estratégias para superar desafios cotidianos de forma coletiva e não aceitar passivamente as políticas educacionais ou ainda interpretá-las de forma arbitrária.
Para garantir o currículo, com práticas de sistematização de saberes e qualidade de ensino na escola, o papel do coordenador pedagógico ainda é intervir no cotidiano escolar propiciando um movimento de reflexão entre os conteúdos através de atividades com orientações didáticas, com práticas inovadoras e materiais de apoio necessários aos processos de avaliação e períodos de planejamento, pois é fundamental termos clareza que a aprendizagem não se concretiza em razão dos improvisos.
Conforme ressalta Fávero, Santos e Centenaro (2022, p. 38) “[…] pesquisas e estudos realizados por Sthephen Ball e colaboradores, podem ser considerados potentes e produtivos não só para pensar os estudos curriculares, mas também para refletir sobre as políticas educacionais de modo geral”. Sendo assim, acreditamos na função do coordenador pedagógico, como articulador e facilitador da participação e engajamento de todos os segmentos da escola, para organizar coletivamente, a partir da compreensão do seu universo escolar, uma escola com ações fundamentadas e que propiciem sentidos de aprendizados e de modo democrático.
Estes profissionais, os coordenadores pedagógicos, poderão ser “[…] agentes sociais escolares que colocam as políticas em ação. Ao fazê-lo, interpretam e recriam a política a partir de suas histórias de vida, suas experiências profissionais e as condições objetivas do contexto onde atuam.” (PAVEZI, 2018, p. 4).
Além de evidente, a importância da atuação qualificada por parte dos coordenadores pedagógicos, a partir da análise dos contextos, fica também o questionamento: os processos educativos em escolas que não possuem este importante profissional, o coordenador pedagógico, ficam prejudicadas em seu coletivo? Quais possibilidades de atuação no contexto por parte de todos os segmentos no sentido que seja viabilizado este profissional em seu quadro efetivo? A teoria da atuação de Ball, Maguire e Braun (2016) pode estar contribuindo de forma significativa para a construção de uma Educação de fato democrática, com reflexos pertinentes em todo processo educativo?
Possíveis contribuições da teoria da atuação para qualificar o trabalho dos coordenadores pedagógicos
A teoria da atuação ressalta a importância do contexto tanto na formação como na atuação dos profissionais em educação e pode propiciar ao coordenador pedagógico ampliar o pensamento crítico que alarga a compreensão e mobiliza a atuação dos sujeitos envolvidos. O entendimento desta teoria por parte dos coordenadores pedagógicos, que são articuladores e também responsáveis pelos momentos de estudo, reflexão e formação na escola, pode contribuir para melhorias no processo educativo.
Desse modo, alguns cuidados que todo profissional precisa ter ao investir em uma atuação com análise dos contextos, segundo Pavezi, é evitar o reducionismo das análises, observar a teoria de atuação como política de análise e formular questões amplas e problemáticas que possam auxiliar e facilitar a exploração do contexto da prática. (FÁVERO; SANTOS; CENTENARO, 2022). Assim, o olhar ampliado do coordenador pedagógico em relação às situações escolares que se apresentam poderá contribuir para um trabalho educacional de qualidade.
A teoria da atuação possibilita uma análise ampla e contextualizada das políticas educacionais em geral. Neste sentido, Pavezi (2018, p. 13) afirma que “A principal contribuição da teoria da atuação é indicar que as políticas são colocadas em ação em contextos específicos, por atores que as interpretam e as traduzem de formas diversas.” No contexto da prática, a política produz consequências que podem representar transformações importantes ao serem compreendidas, trabalhadas e reformuladas nas escolas.
Para tanto, é fundamental a formação continuada e permanente dos profissionais da educação, sendo preponderante o coordenador pedagógico ter este acesso, pois trabalham diretamente com os professores, alunos e comunidade escolar.
Fávero e Sartori (2022, p. 42) destacam a “Imprescindibilidade de formação continuada aos profissionais da educação, para ampliar a visão do e sobre o campo de atuação do coordenador pedagógico”, ou seja, fundamental um processo formativo que possa potencializar e qualificar o trabalho deste profissional. Ainda Fávero e Sartori (2020) com base em Christov (2012) ressaltam que, em sua atuação, o coordenador pedagógico necessita: conhecer o contexto em que a escola se insere; ter ciência que ele não é o único responsável pelas transformações na escola, visualizar ações passíveis de concretização. E dentro destas questões, é imprescindível que o profissional da educação tenha adequadas condições de trabalho, recursos financeiros e envolvimento individual e coletivo dos atores educacionais da escola.
A atuação do coordenador pedagógico, através de um trabalho pautado no respeito à história local e à autonomia do profissional da educação, conhecendo e valorizando os saberes e os compromissos na escola, permite redesenhar os seus contextos específicos, em um processo participativo, criativo e possibilitador de mudanças. Tudo isso a partir do que é verdadeiramente o ambiente escolar, encarando de fato as realidades que se apresentam, pois é conhecendo que se pode transformar.
E é aqui que entra a função do coordenador pedagógico, como o profissional que, conhecendo o contexto em que trabalha, atua de modo a contribuir com o processo ensino e aprendizagem colaborando com os professores, com a gestão escolar e com os estudantes. Fávero e Sartori (2020, p. 38) ressaltam que “[…] a formação continuada é fundamental a todos os profissionais da educação ou áreas afins, implica ser entendida como processo permanente do vir a ser, ou seja, do ser e estar constantemente formando-se e reformando-se”.
A atuação do coordenador pedagógico, a partir do contexto em que está inserido, de modo a oportunizar a participação ativa e construção coletiva de saberes importantes e significativos, é primordial. Todo este trabalho necessita de profissionais preparados, com conhecimento. Formação continuada que é muito mais que “pacotes de treinamento” ou “encontros” e, “[…] estar em constante formação ou construção, pois nenhum processo formativo inicial consegue dar conta da complexidade da profissão” (CONSÁLTER, FÁVERO e TONIETO, 2019, p. 02-03).
De acordo com a LDB – Lei de Diretrizes e Bases, Lei nº 9394/96, em seu art.12, inciso I, “[…] os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica” (BRASIL, 1996).
Para tanto, sobre organização escolar indica-se que é uma:
Tarefa ampla, complexa e nova, que requer que as escolas, os sistemas de ensino se direcionem, se organizem, se equipem para isso; revejam sua organização e se organizem de um modo novo. Esse novo precisa ser construído a partir do já existente, pelos atores da Educação – os profissionais, os alunos, as famílias. (PIMENTA, 2013, p.79).
Assim, o coordenador pedagógico enquanto parte de uma equipe gestora têm papel importante na parceria com os professores, para planejar e organizar ações fazendo com que possam ressignificar suas práticas. Outro aspecto é estimular a participação dos estudantes na tomada de decisões e realizando incentivo junto aos pais para que acompanhem o desempenho escolar dos filhos.
Além disso,
O método da práxis pedagógica, caracterizado pela autoformação e formação coletiva, compreende um processo metodológico de observação da prática, por sua vez registrada e refletida de forma sistemática. Dessa forma, o processo de investigação revela-se ao mesmo tempo em um processo também de formação, pois na medida em que os professores investigam e refletem sobre suas práticas, também transformam-se. (CONSÁLTER; FÁVERO; TONIETO, 2019, p. 10).
Nesse sentido, focamos o quanto se faz necessário o planejamento participativo e coletivo no âmbito da escola, mediado pelo coordenador pedagógico, uma vez que, perpassam os vários órgãos colegiados e permite o processo de definição das prioridades pedagógicas, reflexões e avaliações das ações construídas e reconstruídas, além das relações estabelecidas e realizadas na comunidade escolar.
Nesta abordagem, é imprescindível que o coordenador pedagógico promova por meio da interação entre os pares, a troca de experiências diversificadas e enriquecedoras e instigue-os a possibilitar atividades levando em conta o contexto local para que o aluno perceba a importância do saber e sinta prazer em realizá-las, assim assegurando a apropriação e a construção de conceitos científicos nas diversas áreas do conhecimento, que proporcionarão mudanças qualitativas na comunidade escolar e na sociedade.
É imprescindível dispor nas escolas do profissional coordenador pedagógico, atuando criticamente em seu contexto escolar, de modo a dinamizar todo um processo formativo. Através de estratégias de formação poderá realizar provocações, interpretar e implementar as políticas a partir de prioridades e possibilidades de aplicabilidade dentro da realidade escolar.
Com uma gestão democrática, melhor atenderá aos professores, que por consequência melhor estarão atuando nas salas de aula, promovendo desta forma a aprendizagem dos alunos. Fávero e Tonieto (2010) trazem à tona que, por vezes, há preocupação com o domínio do conhecimento científico dos professores e outras, com técnicas, métodos e estratégias de ensino. Ainda, perguntam se é possível pensar o “como ensinar” sem saber “o que ensinar”? E, se é possível ensinar algo sem saber como?
Assim, esse questionamento nos remete para:
A relação entre conteúdo e método diz respeito não somente à dimensão formativa do professor para desempenhar a sua função de docente, mas também ao modo como o professor, na condição de responsável pela condução do processo de ensino e aprendizagem, organiza a sua prática pedagógica com base nessa relação. (FÁVERO; TONIETO, 2010, p. 21).
Diante do exposto, o como ensinar e o que ensinar são importantes no processo educativo e perpassam pelo trabalho do coordenador pedagógico para não ser uma dimensão didática vazia ou um fim em si mesmo.
Fávero e Tonieto (2010, p. 53) também ressaltam que:
A resolução de tal problemática está na adoção de uma postura baseada na “interação dialógica” do professor com os educandos e dos educandos com os seus próprios colegas. Essa interação, entretanto, não se dá no vazio, ocorre à luz de conteúdos a serem aprendidos e problematizados. Cabe, no entanto, perguntar, o professor ensina aquilo que não sabe? Parece que a resposta é negativa. O professor ensina aquilo que sabe e, por isso mesmo, desafia os educandos na busca de um modo mais apurado de compreensão do mundo. Ele tem uma visão clara e coerente de como ocorre a produção do conhecimento e de qual é o modo mais adequado de conduzir esse processo.
Assim, se o professor ensina o que sabe, quando se fala sobre formação continuada, qual o perfil desta formação? Quais competências são priorizadas? Qual o olhar do coordenador pedagógico para que a formação dos professores se paute no conteúdo e no método? E, como o coordenador pedagógico é formado para esta função?
Fávero e Tonieto (2010) apresentam reflexões sobre as competências disciplinares e didáticas necessárias para os professores e que, além disso, são essenciais questões práticas e teóricas atreladas ao espaço escolar. E tão importante ainda, abordam sobre a formação permanente de professores para superar a visão técnico-especialista para favorecer a formação de professor reflexivo. Também se inclui aqui, a formação permanente do coordenador pedagógico para superar a visão de que formação boa é aquela que apenas apresenta sugestões para a sala de aula.
O professor prático-reflexivo, nesse sentido, é aquele profissional que consegue tornar sua prática, seu fazer, objeto de estudo e investigação. A ação pedagógica é fonte de produção de conhecimento na medida em que consegue dialogar com os saberes elaborados, sejam eles de cunho técnico ou de fundamentação, por meio do processo de reflexão sobre o fazer e no fazer. (FÁVERO; TONIETO, 2010, p. 64).
Portanto, o coordenador pedagógico pode incentivar o professor a ser reflexivo e pensar sobre as ações, ou seja, repensar sua práxis. A formação docente continuada proposta pelo coordenador pedagógico é um dos pontos centrais que necessitam ser enfrentados para contribuir com a qualidade educacional.
Considerações finais
A atuação do coordenador pedagógico nos espaços escolares, como parte de uma gestão escolar organizada e democrática, permite um processo educativo de qualidade. Dentro desse contexto, é imprescindível que possa estar em constante processo de reflexão, analisando situações e intenções acerca de teorias atuais e significativas para a Educação. Enquanto profissionais é necessário contribuirmos sempre para que o debate que busca a melhoria na qualidade do trabalho do profissional coordenador pedagógico nas escolas ocorra, pois é sua função ensinar-educando, já que sem os conhecimentos fundamentais para a interpretação do mundo, não existe real formação de valores e do exercício da cidadania (GATTI, 2010).
Portanto, a presença do coordenador pedagógico enquanto parte da gestão escolar em todas as unidades escolares, se traduz primordial, sendo que a teoria da atuação, com seu caráter de potência analítica e dimensão contestadora (LOPES, 2016) no contexto em que está inserido pode contribuir para qualificar o trabalho cotidiano deste profissional.
Nas unidades escolares em que estes fatores não são compreendidos ou levados em consideração, ou ainda, onde não há coordenador pedagógico em seu quadro de profissionais, constitui-se um grande desafio das políticas públicas em Educação, que poderia ser atenuado, se viabilizado este profissional em todas as unidades escolares.
Afinal, como ser resistência e construir políticas públicas de educação, com análise e atuação nos contextos, se não há na escola equipe completa de profissionais para articular e dar aporte aos segmentos da escola pública? Consideramos fundamental o coordenador pedagógico estar presente no quadro de profissionais de todas as unidades escolares, já que a aplicabilidade de uma teoria da atuação juntamente com o gestor escolar, é possível, e estará contribuindo muito para a construção coletiva e democrática de políticas públicas importantes para a Educação.
Entender a necessidade de compreender cada escola, como de fato é, valores, crenças, hábitos e costumes é valorizar o contexto histórico e social. O coordenador pedagógico atuante e que compreende estas questões, pode oportunizar a todos os segmentos escolares a compreensão de que “As escolas não são uma peça só, elas são redes precárias de grupos diferentes e sobrepostas de pessoas, de artefatos e de práticas” (BALL, MAGUIRE E BRAUN, 2016 apud FÁVERO; SANTOS; CENTENARO, 2022, p. 40).
Esta compreensão abre pautas de lutas e articulações inspiradas na teoria da atuação, pois possibilita, como ressalta Lopes (2018, p. 05), “[…] compreender as políticas como plurais, multifacetadas, construídas discursivamente de forma não coerente e não coesa”.
Isto permite observar e ressaltar a importância da atuação do coordenador pedagógico, bem como de todos os sujeitos envolvidos no cotidiano das escolas. Importante também é oportunizar a estes profissionais a continuidade de seus estudos através de formação continuada e permanente, pois que é o profissional da escola que possui função formadora, articuladora e transformadora dos espaços escolares, em contextos distintos, viabilizando qualificação dos sujeitos.
Sartori e Fávero (2020, p. 57) destacam que:
[…] todo o professor tem papel social de ser transformador, então, o coordenador pedagógico precisa enfrentar os desafios e tornar-se o protagonista da formação continuada na escola, buscando atuar de forma participativa, colaborativa, democrática numa relação respeitosa e de parceria, em que o trabalho dele (coordenador) seja realizado com e não para os docentes.
Sendo assim, a possibilidade de transformar o nosso espaço em um local de trocas, de partilhas e de vivências com significação, poderá contribuir para a transformação do fazer do coordenador pedagógico na escola e na educação. Dessa forma, Nussbaum (2015, p. 8), ressalta que: “Essas competências estão ligadas às humanidades e às artes: a capacidade de pensar criticamente, a capacidade de transcender os compromissos locais e abordar as questões mundiais como um ‘cidadão do mundo’; e, por fim, a capacidade de imaginar com simpatia, a situação difícil em que o outro se encontra”.
Promover e propor uma educação democrática e emancipadora, com todo o trabalho escolar bem planejado e com sentido, onde o coordenador pedagógico possa estar viabilizando no espaço escolar esta construção, de “cidadão do mundo” é necessário. Um cidadão que além de conhecimentos, seja empático, inclusivo, crítico e com capacidade para contribuir ativamente na construção de uma sociedade mais humana e com princípios éticos fundamentais.
Por fim, Dewey (1979, p. 106) fala que a educação deve ser vista como “[…] a expansão das aptidões do indivíduo” para uma pluralidade de objetivos determinados onde o ideal democrático de educação deve assegurar facilidades escolares e diminuir as desigualdades. Dessa forma, que todo trabalho desenvolvido seja de qualidade e que cada coordenador pedagógico compreenda seu importante papel de promotor de meios para que professores e alunos possam, através do conhecimento, ter sucesso, no seu trabalho, na escola e na vida. Fávero e Tonieto (2010) acrescentam que para alunos serem protagonistas e professores organizadores e orientadores do processo é imprescindível uma interação dialógica.
As análises do texto, pautadas na Teoria da Atuação de Ball, S. J.; Maguire, M.; Braun (2016) e nos autores como, Evandro Consálter (2019); Altair Alberto Fávero (2010, 2019, 2020); Carina Tonieto (2010); Jerônimo Sartori (2019); Alice Casimiro Lopes (2016); Antônio Nóvoa (2009) possibilitam repensar a atuação do coordenador pedagógico nas escolas com seu poder mobilizador. E, mudanças são possíveis sim, para potencializar a ação das políticas educacionais.
Não se pode recair em um discurso vazio, mas aguçar o olhar para as transformações na função do coordenador pedagógico e da sua atuação propriamente dita no cotidiano escolar que perpassa pelo trabalho com outros profissionais da escola, principalmente os professores, quanto aos métodos utilizados e as dimensões ética e política. Há um caminho para percorrer, e o coordenador pedagógico pode guiar este percurso.
1No Estado de Santa Catarina o coordenador pedagógico é o profissional concursado como: Especialista em Assuntos Educacionais: Orientador Educacional, Supervisor Escolar e Administrador Escolar, e os Assistentes Técnicos Pedagógicos – ATPs.
Referências
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