O SOFRIMENTO PSÍQUICO DE FAMILIARES FRENTE À DEPENDÊNCIA QUÍMICA: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510251938


José Lindenbergue Guarin1
Victor Augusto Souza Guariento2
Karem Dato Silva Pinto3


RESUMO

O sofrimento psíquico vivenciado por familiares de pessoas com dependência química representa uma dimensão ainda pouco explorada na literatura brasileira, embora configure uma problemática de saúde pública crescente. Esta pesquisa teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão sistemática descritiva, os impactos emocionais, psicológicos e relacionais experimentados por familiares de dependentes químicos, bem como as estratégias de acolhimento propostas nos estudos recentes. Foram selecionados doze artigos publicados entre 2018 e 2023, disponíveis em texto completo nas bases SciELO, PePSIC, LILACS, CAPES e Google Acadêmico, que abordavam diretamente o sofrimento psíquico familiar. Os resultados foram organizados em quatro categorias temáticas: (1) padrões relacionais e codependência; (2) sobrecarga emocional e sintomatologia; (3) estigma, gênero e dinâmica familiar; e (4) estratégias de enfrentamento e intervenções. Os achados apontam para uma recorrência de sintomas de ansiedade, depressão, culpa, vergonha e autonegligência, associados à codependência e à sobrecarga emocional. Entre as estratégias mais eficazes destacam-se a escuta empática, os grupos de apoio e o fortalecimento da autonomia familiar. Conclui-se que o sofrimento psíquico dos familiares exige reconhecimento clínico e políticas públicas que ampliem o foco do cuidado para além do usuário, compreendendo o núcleo familiar como sujeito legítimo de atenção.

Palavras-chave: Sofrimento psíquico; Dependência química; Familiares; Codependência; Intervenções psicossociais.

ABSTRACT

The psychological suffering experienced by family members of people with chemical dependence remains an underexplored topic in Brazilian literature, despite its growing impact as a public health issue. This study aimed to analyze, through a descriptive systematic review, the emotional, psychological, and relational impacts experienced by relatives of substance users, as well as the support strategies proposed in recent research. Twelve articles published between 2018 and 2023 were selected from SciELO, PePSIC, LILACS, CAPES, and Google Scholar databases. The findings were organized into four thematic categories: (1) relational patterns and codependency; (2) emotional overload and symptomatology; (3) stigma, gender, and family dynamics; and (4) coping strategies and psychosocial interventions. Results indicate recurrent symptoms of anxiety, depression, guilt, shame, and self-neglect associated with codependent relationships and chronic emotional overload. The most effective interventions include empathic listening, support groups, and family autonomy strengthening. It is concluded that family members’ suffering requires clinical recognition and public policies that extend the focus of care beyond the substance user, treating the family nucleus as a legitimate subject of care.

Keywords: Psychological suffering; Chemical dependence; Family members; Codependency; Psychosocial interventions.

INTRODUÇÃO  

 A dependência química constitui um fenômeno multifacetado que ultrapassa a dimensão individual do sujeito usuário, afetando intensamente o sistema familiar e social em que está inserido. Estima-se que, para cada pessoa em uso problemático de substâncias, ao menos cinco familiares sejam impactados emocional e psicologicamente, experimentando sentimentos de impotência, medo e frustração (UNODC, 2021). No Brasil, estudos da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ, 2019) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD, 2020) indicam a prevalência crescente do consumo abusivo de substâncias psicoativas, sobretudo álcool e maconha, evidenciando o caráter epidêmico da questão.

 O sofrimento psíquico dos familiares de pessoas com dependência química manifesta-se por sintomas como ansiedade, depressão, insônia, fadiga e isolamento social, frequentemente associados à codependência, isto é, à tendência de o familiar dedicar-se de modo excessivo ao cuidado do outro, em detrimento de suas próprias necessidades (SILVA; CORRÊA, 2022). Tais manifestações ocorrem, em grande parte, pela ausência de suporte institucional e pela invisibilidade do sofrimento familiar nos serviços de saúde mental, que priorizam o atendimento ao usuário da substância, relegando a família a um papel secundário (BESSA et al., 2021).

 Segundo Costa et al. (2022), a convivência prolongada com o dependente químico pode levar o familiar a desenvolver comportamentos de vigilância, controle e autoculpa, gerando esgotamento emocional e sintomas psicossomáticos. Assim, o adoecimento da família não se restringe à sobrecarga prática, mas alcança dimensões subjetivas e relacionais profundas, exigindo uma abordagem psicossocial que reconheça o familiar como sujeito de direito e alvo legítimo de cuidado.

 A presente pesquisa, portanto, tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão sistemática descritiva, os efeitos emocionais e relacionais da dependência química sobre familiares, bem como as estratégias de acolhimento e enfrentamento propostas na literatura científica recente. Com base em estudos publicados entre 2018 e 2023, busca-se compreender de que forma a codependência, a sobrecarga emocional e o estigma social se articulam na construção do sofrimento psíquico familiar e quais intervenções têm se mostrado mais eficazes para sua mitigação.  Ao reunir as principais evidências sobre o tema, o estudo pretende contribuir para a ampliação do olhar clínico e institucional da Psicologia e de áreas afins, fortalecendo práticas interdisciplinares e políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental e do bem-estar familiar. Com isso, reconhece-se a importância de deslocar o foco exclusivo do usuário para uma perspectiva integral que contemple também a rede de vínculos que o cerca.

REFERENCIAL TEÓRICO

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA COMO FENÔMENO RELACIONAL

 A dependência química deve ser compreendida como um fenômeno que ultrapassa a dimensão individual e se estende para o campo das relações familiares, sociais e afetivas. No contexto da Psicologia e das ciências da saúde, entende-se que o uso abusivo de substâncias psicoativas interfere na dinâmica dos vínculos, gerando desequilíbrios emocionais, rupturas comunicacionais e padrões de convivência disfuncionais (PAZ; COLOSSI, 2013).

 A abordagem sistêmica contribui para essa compreensão ao propor que a drogadição pode funcionar como um sintoma do sistema familiar, refletindo desajustes estruturais e afetivos que mantêm a família em uma homeostase patológica. O dependente, nesse sentido, ocupa um papel regulador, absorvendo tensões e conflitos que, de outro modo, poderiam desestabilizar o grupo (FALLER, 2019). Tal dinâmica, ao mesmo tempo em que permite a continuidade das relações, gera sofrimento psíquico intenso nos familiares, que se veem presos a papéis ambíguos de controle, cuidado e culpa.

 De acordo com Bessa, Santos e Freitas (2021), o impacto da dependência química não se limita às consequências diretas do uso, mas inclui o adoecimento emocional dos familiares, que frequentemente experimentam sentimentos de impotência e desesperança diante das recaídas e do estigma social. Assim, compreender a dependência química como fenômeno relacional implica deslocar o foco da análise do indivíduo para o sistema de relações que o sustenta, abrindo espaço para intervenções psicossociais mais amplas e eficazes.

A CODEPENDÊNCIA: UM ADOECIMENTO SILENCIOSO

 Entre os conceitos mais recorrentes na literatura sobre o tema, destaca-se a codependência, compreendida como um padrão relacional disfuncional caracterizado pela tendência de um indivíduo colocar as necessidades do outro acima das suas, anulando gradualmente sua autonomia emocional e psicológica (COSTA et al., 2022). Trata-se de uma forma de adoecimento relacional que, embora não possua status de categoria diagnóstica, é amplamente reconhecida nas práticas clínicas e nos estudos sobre famílias afetadas pela dependência química (SILVA; CORRÊA, 2022).  O familiar codependente apresenta uma combinação de comportamentos e afetos, como vigilância constante, autoculpa, hipersensibilidade às recaídas do dependente e necessidade de controle. Essa configuração emocional leva ao esgotamento físico e psíquico, reforçando o ciclo de sofrimento e disfunção familiar (BESSA et al., 2021). Conforme Fiorentini et al. (2021), a codependência expressa um modo de vinculação marcado pelo medo da perda, pela idealização do controle e pela crença de que o amor pode curar o outro.

 A literatura recente enfatiza que a codependência deve ser vista como objeto de cuidado clínico legítimo, e não como mera consequência da dependência do outro. A falta de reconhecimento institucional e social desse sofrimento tem levado familiares a buscar amparo em espaços alternativos, como grupos de apoio e comunidades religiosas, onde encontram acolhimento e sentido de pertencimento (COSTA et al., 2022). A atenção psicológica, nesse cenário, deve priorizar a reconstrução da autonomia, a ressignificação de papéis e o fortalecimento do autocuidado.

EFEITOS PSICOSSOCIAIS DO SOFRIMENTO FAMILIAR E AS FORMAS DE ENFRENTAMENTO

 O sofrimento psíquico dos familiares de dependentes químicos manifesta-se de maneira complexa, envolvendo dimensões emocionais, cognitivas e sociais. Segundo Rodrigues et al. (2018), sentimentos de culpa, vergonha e frustração são recorrentes, assim como sintomas de ansiedade, depressão e distúrbios psicossomáticos. A ausência de redes de apoio e a estigmatização social agravam o quadro, contribuindo para o isolamento e a desesperança (FIORIENTINI et al., 2021).

 As evidências científicas apontam que a sobrecarga emocional recai especialmente sobre mulheres — mães, esposas e filhas — que assumem papéis de cuidadoras primárias (NASCIMENTO et al., 2019). Essas mulheres enfrentam jornadas duplas de trabalho, violência simbólica e, em alguns casos, física, o que acentua seu sofrimento e reduz sua capacidade de buscar ajuda. O sofrimento, portanto, não se configura apenas como reação individual, mas como produto de uma estrutura social e familiar que ainda invisibiliza o papel do cuidador.

 Diante desse cenário, autores como Siqueira et al. (2019) e Quintas et al. (2020) defendem a necessidade de intervenções psicossociais centradas na família, com foco na escuta empática, no fortalecimento da autonomia e na psicoeducação. Os grupos de apoio emergem como uma das estratégias mais eficazes para o enfrentamento, pois possibilitam o compartilhamento de experiências e a reconstrução de vínculos. Costa et al. (2022) acrescentam que a espiritualidade, quando integrada de modo não dogmático, atua como recurso de resiliência e sentido, favorecendo a reorganização subjetiva e relacional.

 Assim, compreender os efeitos psicossociais do sofrimento familiar significa reconhecer a interdependência entre indivíduo e contexto, articulando ações que envolvam cuidado, acolhimento e políticas públicas voltadas não apenas ao dependente, mas também ao seu núcleo de convivência.

METODOLOGIA 

A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão sistemática descritiva, de natureza básica e abordagem qualitativa, com finalidade exploratória e descritiva. Esse tipo de estudo busca reunir, organizar e interpretar evidências científicas de modo narrativo e compreensivo, sem a pretensão de generalização estatística (PRODANOV; FREITAS, 2013; LIMA; MIOTO, 2007).

A revisão foi desenvolvida em sete etapas: (1) definição da pergunta de pesquisa; (2) escolha das bases de dados; (3) busca com descritores específicos; (4) triagem por títulos e resumos; (5) leitura integral dos textos elegíveis; (6) extração e categorização dos dados; e (7) análise e síntese descritiva dos resultados.

As bases utilizadas foram SciELO, PePSIC, LILACS/BVS, Portal de Periódicos CAPES e Google Acadêmico, contemplando publicações entre 2018 e 2023, em idioma português, disponíveis em texto completo e revisadas por pares. Foram empregados os descritores combinados: “dependência química” OR “uso de substâncias” AND “familiares” AND (“sofrimento psíquico” OR “codependência”).

Os critérios de inclusão envolveram: (a) estudos empíricos ou revisões narrativas com foco no sofrimento psíquico dos familiares de dependentes químicos; (b) publicações no período definido; (c) acesso integral gratuito. Foram excluídos textos teóricos sem evidências empíricas, duplicados e documentos institucionais.

A busca inicial identificou 28 estudos, dos quais 11 foram selecionados para leitura completa. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, 5 artigos compuseram o corpus final desta revisão. A análise seguiu os procedimentos da análise de conteúdo temática (BARDIN, 2016), permitindo a construção de quatro categorias interpretativas: padrões relacionais e codependência, sobrecarga emocional e sintomatologia, estigma e gênero e estratégias de enfrentamento e intervenções.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos cinco estudos selecionados evidencia que o sofrimento psíquico dos familiares de dependentes químicos é um fenômeno relacional, de natureza cumulativa e multifatorial, marcado por sentimentos de culpa, medo, impotência e desgaste emocional. As pesquisas analisadas apontam que a convivência prolongada com o uso de substâncias impacta a saúde mental dos cuidadores e altera a estrutura e os papéis dentro do grupo familiar (COSTA et al., 2022; SILVA; CORRÊA, 2022; FIORIENTINI et al., 2021; NASCIMENTO et al., 2019; SIQUEIRA et al., 2019).

Com base nos achados, foi possível organizar os resultados em quatro categorias temáticas: padrões relacionais e codependência, sobrecarga emocional e sintomatologia, estigma e gênero e estratégias de enfrentamento e intervenções. Cada uma representa um eixo interpretativo que contribui para compreender as formas de sofrimento e as possibilidades de cuidado.

Autor/AnoTipo de EstudoObjetivoPrincipais Resultados
COSTA et al. (2022)QualitativoAnalisar percepção de codependência e estratégias de enfrentamento de familiares de usuários de drogasIdentifica sentimentos de culpa, controle e vigilância; grupos de apoio e espiritualidade reduzem sobrecarga emocional.
SILVA; CORRÊA (2022)QualitativoInvestigar os efeitos psicológicos em familiares de dependentes químicosEvidencia sintomas de ansiedade, depressão e adoecimento psicossomático decorrentes da convivência prolongada.
FIORIENTINI et al. (2021)QualitativoExaminar sintomas de desequilíbrio e o papel do grupo familiar no tratamentoObserva sobrecarga emocional, inversão de papéis e melhora após inserção em grupos terapêuticos.
NASCIMENTO et al. (2019)QualitativoCompreender a experiência de mulheres com companheiros alcoólicosDescreve sofrimento psíquico, violência simbólica e desgaste conjugal; gênero como fator agravante.
SIQUEIRA et al. (2019)QualitativoAnalisar o cuidado com familiares em serviços CAPS ADReforça a importância da escuta qualificada e das práticas intersetoriais de acolhimento.

PADRÕES RELACIONAIS E CODEPENDÊNCIA

A codependência é a categoria mais recorrente entre os estudos, configurando-se como eixo estruturante do sofrimento familiar. Conforme Costa et al. (2022), os familiares desenvolvem comportamentos de controle e vigilância em relação ao dependente, acreditando que podem impedir recaídas ou “salvá-lo” por meio de cuidado extremo. Essa dinâmica leva à perda progressiva de autonomia emocional, à negação das próprias necessidades e à cristalização de papéis disfuncionais dentro da família.

Silva e Corrêa (2022) acrescentam que a convivência com o dependente químico costuma gerar um ciclo de ansiedade, culpa e impotência, em que o familiar assume responsabilidade pelo uso do outro. Esse padrão relacional é descrito como um adoecimento silencioso, pois ocorre dentro do ambiente doméstico e raramente recebe reconhecimento clínico. A literatura indica que a codependência deve ser tratada como uma condição de sofrimento psíquico legítima, passível de intervenção terapêutica e de acolhimento psicossocial.

SOBRECARGA EMOCIONAL E SINTOMATOLOGIA

O sofrimento psíquico também se expressa por meio da sobrecarga emocional, especialmente entre os familiares que assumem papel de cuidador principal. Fiorientini et al. (2021) identificaram sintomas de ansiedade, depressão, fadiga e insônia como reações frequentes entre mães e esposas de usuários de substâncias. Esses sintomas se agravam diante da falta de apoio institucional e da sobreposição de responsabilidades domésticas e afetivas.

Além do cansaço físico e mental, os familiares experimentam sentimentos de impotência e desesperança, o que tende a reduzir sua motivação para buscar ajuda.

Nascimento et al. (2019) observaram que a sobrecarga é maior em contextos de vulnerabilidade social e quando o dependente é o provedor financeiro da família. Nesses casos, o sofrimento adquire um caráter crônico e pode evoluir para quadros psicossomáticos.

Os estudos convergem ao afirmar que a atuação da Psicologia deve contemplar o cuidado do cuidador, com ênfase em práticas de psicoeducação, escuta empática e orientação para o autocuidado, a fim de evitar o colapso emocional do sistema familiar.

ESTIGMA E GÊNERO

O estigma social é apontado como um fator que intensifica o sofrimento dos familiares e dificulta o acesso aos serviços de saúde mental. Conforme Siqueira et al. (2019), o julgamento moral em torno da dependência química faz com que as famílias evitem buscar ajuda por medo de discriminação, reproduzindo um ciclo de silêncio e isolamento. O estigma é frequentemente direcionado às mulheres cuidadoras, que são socialmente responsabilizadas pelo comportamento do dependente.

Nascimento et al. (2019) observam que as mulheres vivenciam uma dupla carga: além de lidarem com o adoecimento do parceiro, enfrentam o preconceito da comunidade e a falta de amparo institucional. O sofrimento feminino, nesses contextos, é naturalizado, reforçando papéis de subordinação e autoculpa. Assim, a dimensão de gênero é um componente essencial para compreender as formas de sofrimento e a invisibilidade social das cuidadoras.

Para a Psicologia, o enfrentamento do estigma requer práticas clínicas e comunitárias que promovam o reconhecimento da família como sujeito de cuidado e desconstruam a visão moralista da dependência química.

ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO E INTERVENÇÕES

As estratégias de enfrentamento identificadas na literatura se concentram em três eixos principais: grupos de apoio, psicoeducação e espiritualidade. De acordo com Costa et al. (2022) e Fiorientini et al. (2021), os grupos de apoio oferecem espaço de escuta e compartilhamento de experiências, permitindo aos familiares reconhecerem seus limites e elaborarem estratégias coletivas de cuidado.

A psicoeducação, segundo Siqueira et al. (2019), é uma ferramenta fundamental para fortalecer o repertório emocional dos familiares, ensinando técnicas de comunicação, manejo de recaídas e autocuidado. Já a espiritualidade aparece como um recurso simbólico e afetivo importante, atuando na reconstrução do sentido de vida e no fortalecimento da esperança, principalmente entre as mulheres cuidadoras (COSTA et al., 2022).

Em conjunto, essas práticas contribuem para a reorganização subjetiva e relacional da família, além de reforçarem o papel da rede de atenção psicossocial (RAPS) como espaço de acolhimento integral. O reconhecimento da dor do familiar e a ampliação do suporte institucional são apontados como condições essenciais para a eficácia terapêutica e para a redução do sofrimento psíquico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 O presente estudo teve como objetivo compreender o sofrimento psíquico dos familiares de pessoas com dependência química, analisando as principais manifestações emocionais e as estratégias de enfrentamento propostas na literatura recente. A partir da revisão sistemática descritiva de cinco estudos publicados entre 2018 e 2023, verificou-se que o sofrimento familiar é um fenômeno complexo, que envolve dimensões psicológicas, relacionais e sociais, exigindo uma abordagem de cuidado ampliada.

 Os resultados demonstram que a codependência constitui o eixo central do adoecimento emocional, caracterizando-se por relações marcadas pelo controle, pela autoculpa e pela perda da autonomia afetiva. Somam-se a isso sintomas de ansiedade, depressão, insônia e esgotamento, frequentemente associados à sobrecarga emocional. O estigma social e a desigualdade de gênero agravam ainda mais o quadro, uma vez que as mulheres cuidadoras são as principais afetadas e as mais desassistidas pelas políticas públicas.

 As evidências indicam que a escuta empática, a psicoeducação, os grupos de apoio e o fortalecimento da espiritualidade são estratégias eficazes para a promoção do bem-estar emocional dos familiares. Tais práticas favorecem o desenvolvimento da autonomia e o reconhecimento do familiar como sujeito legítimo de cuidado, rompendo com a lógica de atendimento centrado exclusivamente no usuário da substância.

 Em conclusão, a atenção à saúde mental de familiares de dependentes químicos representa um desafio ético e clínico para a Psicologia e para as políticas públicas de saúde. O fortalecimento das redes de apoio, a formação de profissionais sensíveis ao sofrimento familiar e a inclusão de planos terapêuticos integrados são medidas indispensáveis para a efetivação de um cuidado verdadeiramente integral.  Em termos científicos e sociais, este estudo contribui para o reconhecimento do sofrimento psíquico familiar como um campo de investigação e intervenção legítimo, reafirmando a importância da atuação interdisciplinar e da construção de políticas que contemplem tanto o dependente quanto aqueles que o cercam.

REFERÊNCIAS

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016.

COSTA, Fabiana P. da et al. Percepção de codependência e estratégias de enfrentamento de familiares de usuário de drogas. Psicologia: Saberes e Práticas, Canoas, v. 5, n. 3, p. 1–15, 2022. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177093X2022000300003. Acesso em: 2 out. 2025.

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PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013.

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¹Faculdade Católica de Rondônia,
jose.guarin@sou.fcr.edu.br
²Faculdade Católica de Rondônia,
victor.guariento@sou.frc.edu.br
³Faculdade Católica de Rondônia,
karem.dato@sou.fcr.edu.br