O PAPEL DO PSICÓLOGO BRANCO NO ATENDIMENTO DE PACIENTES NEGROS: REFLEXÕES SOBRE BRANQUITUDE E ÉTICA CLÍNICA NAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510311633


SARAIVA, Camila Ferreira1
UGO, Sandra Regina Damasio2
NETO, Zeno Germano3
FEITOSA, Ainá Barbosa4


Resumo

O presente trabalho investiga a atuação do psicólogo branco frente ao racismo estrutural na clínica com pacientes negros. A pesquisa busca compreender como a branquitude influencia a prática clínica, refletindo sobre privilégios, preconceitos e responsabilidades éticas na relação terapêutica. Por meio de revisão sistemática da literatura, são analisados estudos que abordam estratégias de manejo antirracista, construção de vínculos clínicos respeitosos e a necessidade de autorreflexão do psicólogo. O estudo reforça a importância da formação contínua e da responsabilidade ética do psicólogo branco na promoção de uma clínica inclusiva e sensível às experiências raciais dos pacientes.

Palavras-chave: Clínica antirracista, Psicologo Branco, Paciente negro, Branquitude.

Abstract

This study investigates the role of the white psychologist in the face of structural racism in clinical practice with Black patients. The research aims to understand how whiteness influences clinical practice, reflecting on privileges, prejudices, and ethical responsibilities in the therapeutic relationship. Through a systematic literature review, studies addressing antiracist management strategies, the construction of respectful clinical bonds, and the need for the psychologist’s self-reflection are analyzed. The study emphasizes the importance of continuous training and the ethical responsibility of white psychologists in promoting an inclusive clinical practice that is sensitive to patients’ racial experiences.

Keywords: Antiracist clinic; White psychologist; Black patient; Whiteness.

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho busca investigar como o psicólogo branco atua no atendimento de pacientes negros e, principalmente, como questões raciais e sociais atravessam essa prática clínica.  Com base nessa questão, surge o seguinte questionamento: como o psicólogo branco pode conduzir o manejo clínico de pacientes negros de forma ética e sensível, levando em consideração as particularidades raciais e culturais, sem desconsiderar a subjetividade do paciente diante das desigualdades sociais e do racismo estrutural?

A obra Tornar-se Negro, de Neusa Santos Souza (1983), é fundamental para refletirmos sobre como o racismo atravessa e impacta a construção da identidade negra. A autora ressalta que a discriminação racial não apenas molda a subjetividade dos indivíduos, mas também exerce um impacto considerável em suas experiências, inclusive no campo terapêutico. O seu trabalho nos permite refletir sobre os desafios que os pacientes negros enfrentam e a importância de um acolhimento que valorize essas vivências.

Para reforçar essa visão, a ideia de racismo estrutural, apresentada por Silvio Almeida (2019), amplia essa discussão ao destacar o quão profundamente o racismo está arraigado nas instituições e na dinâmica da sociedade. Esta perspectiva é fundamental para compreender o impacto dessas dinâmicas na vida dos indivíduos negros e, por consequência, como essas questões podem afetar o ambiente terapêutico.

As reflexões de Grada Kilomba (2019) também trazem contribuições significativas para entender as conexões entre saber, poder e o silenciamento das vozes negras no âmbito psicológico. Sua obra provoca uma análise crítica sobre como o discurso psicológico, ao ignorar as vivências subjetivas das pessoas negras, pode, ainda que de forma não intencional, reforçar desigualdades raciais. Nesse sentido, este trabalho também se apoia nas diretrizes do Conselho Federal de Psicologia (CFP), em especial nas Resoluções nº 018/2002 e nº 018/2021, que tratam diretamente das relações étnico-raciais na prática profissional. Além disso, são considerados os documentos do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas – CREPOP, uma iniciativa do Sistema Conselhos de Psicologia, fundamentais para orientar uma atuação ética, comprometida com os direitos humanos e com a promoção da equidade racial. Entre esses documentos estão as Relações Raciais: Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) (2017).

A fim de alcançar esse propósito, foi realizada uma revisão sistemática da literatura, analisando os estudos que tratam desse tema. A expectativa é que essa pesquisa some ao debate sobre relações étnico-raciais na Psicologia e possa expandir práticas mais éticas e comprometidas com a realidade social no campo clínico.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

O atendimento clínico a pacientes negros exige do psicólogo branco não apenas competência técnica, mas uma postura crítica diante do racismo estrutural que atravessa o fazer psicológico. Trata-se de um compromisso político com a desconstrução da branquitude, da falsa neutralidade e do epistemicídio, que impõem o silenciamento e a patologização do sujeito negro no campo da saúde mental. Não é apenas um desafio técnico, mas um compromisso político que demanda consciência das desigualdades históricas e das violências simbólicas presentes no campo da saúde mental. O racismo estrutural não é algo isolado ou residual, mas sim um elemento central nas práticas e instituições psicológicas, que acabam reproduzindo a invisibilidade, o silenciamento e a patologização do sujeito negro. Por isso, esta fundamentação teórica reúne as contribuições de importantes autores para compreender e enfrentar esse desafio, propondo uma clínica antirracista que reconheça o papel do psicólogo branco na desconstrução da branquitude.

O ponto de partida teórico está em Tornar-se negro (1983), de Neusa Santos Souza, que oferece uma análise profunda dos impactos subjetivos do racismo na vida do indivíduo negro. Souza mostra como a alienação racial é imposta de forma violenta por uma sociedade estruturada pela branquitude, criando uma cisão dolorosa entre o “eu desejado” (branco e socialmente aceito) e o “eu real” (negro e rejeitado).

“É que o ideal do Ego do negro, que é em grande parte constituído pelos ideais dominantes, é branco. E ser branco lhe é impossível” (Souza, 1983, p. 40)

Essa dissociação da identidade gera um sofrimento psíquico frequentemente invisibilizado pela clínica tradicional, que é predominantemente branca e desprovida de uma escuta racializada. Para o psicólogo branco, essa realidade exige uma sensibilidade crítica que vá além da empatia superficial, incorporando a consciência das violências simbólicas internalizadas pelo paciente negro e seus efeitos na dinâmica subjetiva.

No aprofundamento desse debate, Grada Kilomba, em Memórias da plantação (2019), amplia a reflexão ao denunciar o epistemicídio causado pela colonialidade do saber. Kilomba destaca como os saberes não brancos são sistematicamente excluídos dos espaços acadêmicos e clínicos, configurando uma violência epistêmica estrutural que dificulta o reconhecimento e a elaboração das experiências de dor racial, como aponta Kilomba:

Em termos psicanalíticos, isso permite que os sentimentos positivos em relação a si mesma/o permaneçam intactos – branquitude como a parte “boa” do ego – enquanto as manifestações da parte “má” são projetadas para o exterior e vistas como objetos externos e “ruins”. No mundo conceitual branco, o sujeito negro é identificado como o objeto “ruim”, incorporando os aspectos que a sociedade branca tem reprimido […] (Kilomba, 2019, p. 37)

A teoria de Grada Kilomba sobre a projeção do “mal” no corpo negro dialoga diretamente com a análise de Neusa Souza, que evidencia como essa violência simbólica estrutura a subjetividade negra a partir de uma cisão interna entre um “eu desejado” branco e um “eu real” negro, rejeitado socialmente. Ambas mostram como o racismo opera não apenas no campo social, mas atravessa a constituição psíquica dos sujeitos, produzindo sofrimento mental profundo. Essa exclusão epistemológica reforça a urgência de um posicionamento crítico do psicólogo branco contra as epistemologias coloniais presentes na clínica, abrindo caminho para epistemologias antirracistas que valorizem os saberes e narrativas do sujeito negro.

Sueli Carneiro, em sua obra A Construção do Outro como Não-Ser como Fundamento do Ser (2005), revela como a subjetividade negra é historicamente construída como um “não-ser”, um processo de negação ontológica que sustenta simbolicamente a identidade branca enquanto ser pleno e universal. Carneiro utiliza o conceito de biopoder para mostrar que essa desumanização estrutural é central na manutenção das desigualdades raciais, implicando uma exclusão epistêmica que silencia os saberes negros e desqualifica a experiência racializada. Nesse contexto, Carneiro afirma:

A unidade resultante do dispositivo enquanto técnica disciplinar e do biopoder como regulador da vida e da morte é o dispositivo de racialidade/biopoder que abarca tanto a produção de indivíduos e sujeitos coletivos subalternos, quanto o controle e/ou extinção dos corpos racializados considerados descartáveis. (Carneiro, 2005, p. 324)

Esse dispositivo opera não apenas em níveis institucionais e políticos, mas também no campo psíquico, estruturando modos de subjetivação atravessados por violência e exclusão. É nesse contexto que se articulam as reflexões de Souza e Kilomba. Ambas evidenciam como o sujeito negro é forjado a partir de uma cisão subjetiva dolorosa: enquanto Neusa revela os efeitos da alienação racial e a construção de um “eu desejado” branco em conflito com o “eu real” negro, Kilomba por sua vez, explica como a branquitude se organiza a partir da preservação de um “ego bom”, ao qual são atribuídas qualidades positivas, enquanto os aspectos considerados indesejáveis, o “ego mau”, são projetados para fora, sendo atribuídos aos corpos negros. Essa interlocução teórica reforça a urgência de uma clínica antirracista, em que o psicólogo branco reconheça sua responsabilidade ética e política na desconstrução dessas violências simbólicas, rompendo com a falsa neutralidade e valorizando os saberes e narrativas do sujeito negro.

Cida Bento, em Pacto narcísico da branquitude (2022), usa a expressão “pacto narcísico” para descrever um acordo inconsciente entre pessoas brancas, que visa preservar seu privilégio racial, evitando o enfrentamento das desigualdades e dos conflitos raciais. Esse pacto está fundamentado em um autoengano, onde a branquitude se vê como neutra e universal, ocultando sua posição central e privilegiada na estrutura social.

“Pactos feitos para se manter em situação de privilégio, higienizados da usurpação que os constituiu” (Bento, 2022).

Bento desloca o foco para a responsabilidade dos sujeitos brancos e destaca o papel das instituições, especialmente acadêmicas e profissionais, que naturalizam esses privilégios ao silenciar tais conflitos e mascarar o racismo sob a aparência de neutralidade científica e ética. Essa lógica reforça o silêncio e a negação do racismo, dificultando a responsabilização e a mudança. O conceito de pacto narcísico dialoga com as análises de Santos, Kilomba e Carneiro, pois a branquitude, em sua tentativa de preservar privilégios, busca manter o sujeito negro como o “ego mau” e o “eu real” rejeitado, ao passo que sustenta o “eu desejado” branco e o “ego bom” da branquitude. Essa dinâmica resulta na construção do negro como um “não-ser”, conforme a definição de Carneiro, mantendo a negação ontológica do sujeito negro como fundamento simbólico da identidade branca e da manutenção das desigualdades raciais. Assim, a análise de Bento é essencial para entender que o psicólogo branco não age isoladamente, mas está inserido numa engrenagem institucional racializada que exige uma desconstrução crítica constante. Sua reflexão convoca o profissional clínico a assumir uma postura ética ativa, tanto no nível individual quanto institucional, desafiando práticas e discursos que reproduzem a exclusão racial.

A essa crítica institucional, soma-se a análise de Silvio Almeida, em Racismo estrutural (2019), que oferece um arcabouço teórico fundamental para compreender o racismo em sua dimensão sistêmica. Embora Almeida não trate diretamente do papel do psicólogo, suas reflexões podem ser implicadas na atuação do profissional branco na clínica. Almeida alerta que o racismo não pode ser reduzido a falhas morais ou desvios individuais (ou seja, atitudes preconceituosas de pessoas isoladas), mas deve ser compreendido em três níveis interligados: o racismo individual, que se manifesta nas ações e preconceitos pessoais; o racismo institucional, que se reproduz nas normas, práticas e políticas das organizações e instituições; e o racismo estrutural, que é a sobreposição e a articulação desses elementos em um sistema social que perpetua desigualdades raciais profundas. Nesse contexto, o racismo individualista por parte dos psicólogos brancos pode se manifestar de forma sutil, como na minimização das experiências de racismo do paciente, na neutralidade ilusória que evita o diálogo sobre raça, e em interpretações que desconsideram o impacto social do racismo na subjetividade do paciente negro. Além disso, Almeida destaca: “[…] as instituições moldam o comportamento humano, tanto do ponto de vista das decisões e do cálculo racional, como dos sentimentos e preferências” (Silvio, 2017).

O que implica que o psicólogo branco, ao estar inserido em uma instituição marcada por padrões eurocêntricos e racistas, pode, mesmo sem consciência, reproduzir o racismo institucional por meio de suas práticas e decisões clínicas. Sua perspectiva jurídico-política evidencia que o combate ao racismo exige uma reformulação profunda das bases institucionais, políticas e culturais que o sustentam. Na prática clínica, isso exige do psicólogo branco ultrapassar a empatia individual e assumir um compromisso político e uma crítica institucional que promovam a transformação das práticas, rompendo com protocolos eurocêntricos e a falsa neutralidade, evitando a reprodução do status quo racial e  contribuindo para a construção de uma psicologia antirracista e socialmente engajada.

Complementando essa crítica às estruturas de poder, Gayatri Spivak, em Pode o subalterno falar? (2010), é fundamental para pensar as dinâmicas de silenciamento na clínica contemporânea. Spivak denuncia como o discurso ocidental muitas vezes fala em nome do outro, desautorizando sua fala e anulando sua singularidade. O “subalterno”, figura central em sua análise, é aquele cuja voz é sistematicamente sequestrada por paradigmas dominantes que se apresentam como universais. No contexto clínico, esse alerta significa o risco do psicólogo branco interpretar o sofrimento do paciente negro por categorias homogêneas e desracializadas, apagando as marcas da discriminação, das microagressões cotidianas e das experiências históricas de exclusão. Essa lógica de colonização discursiva aparece, por exemplo, quando o sofrimento racial é reduzido a diagnósticos genéricos, como ansiedade ou depressão, sem dar espaço para as particularidades do que é ser negro numa sociedade estruturalmente racista. O paciente pode se sentir inibido em compartilhar suas vivências por medo de ser visto como exagerado ou hipersensível, o que revela a ausência de um espaço de escuta acolhedor e validante. Esse cenário mostra como a negação do lugar de fala e o impulso de falar pelo outro dificultam uma relação terapêutica genuinamente ética e empática.

Aprofundando o debate sobre silenciamento e representatividade, Djamila Ribeiro, em O que é lugar de fala? (2017), reforça essa discussão ao enfatizar o reconhecimento do lugar de fala do sujeito negro como base para um diálogo ético e autêntico. Ribeiro destaca que o lugar de fala não é apenas uma posição social, mas um saber legítimo, fundamentado na experiência concreta de opressão e resistência: “Pensar lugar de fala seria romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado, um movimento no sentido de romper com a hierarquia, muito bem classificada por Derrida como violenta” (Ribeiro, 2017).

Para o psicólogo branco, isso implica respeitar a autoridade do paciente negro sobre sua própria narrativa, evitando substituí-la ou deslegitimá-la. Essa reflexão dialoga diretamente com a crítica de Spivak ao silenciamento do subalterno e ecoa as análises de Kilomba sobre a desconstrução das epistemologias coloniais, reafirmando a necessidade de uma escuta antirracista que valorize o protagonismo do sujeito negro.

No debate sobre privilégios e desconstrução, Lia Vainer Schucman, em O Branco e a Branquitude: Letramento Racial e Formas de Desconstrução do Racismo (2020), contribui decisivamente para repensar a prática clínica a partir do conceito de letramento racial. Schucman define o letramento racial como um processo crítico de conscientização da branquitude enquanto posição racial privilegiada que permanece invisível e se apresenta como universal. Nesse sentido, sua obra dialoga com a análise de Cida Bento, ao indicar que o psicólogo branco deve reconhecer e desconstruir seu lugar privilegiado para evitar reproduzir violências simbólicas na clínica. Mais do que reconhecer esse lugar, o psicólogo branco precisa ter a coragem ética de se desfazer de sua posição no pacto narcísico da branquitude, pacto este que sustenta sua neutralidade ilusória às custas da negação do outro, como bem explica Carneiro ao falar da negação ontológica que sustenta simbolicamente a identidade branca enquanto ser universal.  Assim, a educação racial crítica torna-se ferramenta indispensável para romper o pacto narcísico e impulsionar práticas clínicas realmente antirracistas.

No livro Raça e subjetividade: do campo social ao clínico (2014), coautoria com Monica Mendes Gonçalves, Schucman aprofunda essa análise ao afirmar que o racismo não é apenas um fenômeno social, mas um conteúdo psíquico estruturante, que permeia processos de subjetivação e transferências no âmbito clínico. Essa perspectiva conecta-se diretamente com a obra de Neusa Santos Souza, que evidencia o sofrimento psíquico derivado da invisibilidade racial na clínica tradicional. Schucman e Gonçalves propõem incorporar a dimensão racial como um aspecto epistemológico e prático essencial para a clínica contemporânea, exigindo do psicólogo branco uma postura aberta para reconhecer o impacto do racismo no inconsciente do paciente.

A clínica, nesse sentido, deve se colocar como parte do movimento dialético entre as posições de sujeito e objeto da história, essa dupla posição que todo sujeito histórico ocupa, e radicalmente vivenciada pelas pessoas negras, cuja posição frente ao racismo não pode ser totalmente ativa, mas não deve jamais ser totalmente passiva, cuja emancipação deve ser o horizonte. É tarefa de qualquer perspectiva e prática clínica que se pretenda ética e tecnicamente competente, implicar-se como espaço de suporte a este processo (Gonçalves; Schucman, 2014, p. 120).

Dessa forma, a contribuição de Schucman e Gonçalves aponta para a urgência de uma clínica que não apenas reconheça o racismo como estruturante da subjetividade, mas que também se comprometa eticamente com sua desconstrução. Isso exige do psicólogo branco uma implicação ativa na escuta racializada, abrindo espaço para uma prática que acolha a dor psíquica do sujeito negro e caminhe em direção à sua emancipação.

Em parceria com Hildeberto Martins, Schucman desenvolve, em A Psicologia e o Discurso Racial sobre o Negro (2017), uma análise crítica histórica contundente à Psicologia enquanto ciência racializada. Os autores mostram como o discurso psicológico tradicional ajudou a construir a imagem do negro como um objeto inferiorizado, patologizando sua identidade e desumanizando sua existência. Essa historicidade da ciência psicológica conecta-se com as críticas de Kilomba à colonialidade do saber e com a denúncia de Spivak sobre a colonização discursiva. Schucman e Martins propõem um deslocamento epistemológico radical: a Psicologia precisa deixar de tratar o negro como objeto para reconhecê-lo como sujeito político, dotado de saberes próprios, abrindo caminho para uma clínica descolonial.

Além dessas contribuições, merece destaque o trabalho de Iray Carone e Silva Bento em Psicologia social do racismo: Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil?, que investiga os mecanismos sociais e psicológicos que sustentam a branquitude e os processos de branqueamento no Brasil. Bento destaca:

Patto chama nossa atenção para o fato de que estas são as bases de uma psicologia que se faz presente até hoje, que explica as condições dos que vivem em desvantagem, tidos como perdedores a partir de distúrbios ou deficiências presentes em seu aparato físico ou psíquico, absolutamente naturalizados (Bento, 2016).

As autoras mostram como a branquitude se mantém por meio de práticas cotidianas e institucionais que naturalizam o privilégio branco e invisibilizam as experiências negras. Essa análise amplia a crítica estrutural ao racismo, incorporando as especificidades históricas brasileiras e enriquecendo o debate sobre as responsabilidades do psicólogo branco na clínica nacional. Trata-se, novamente, da reafirmação do pacto narcísico da branquitude, conceito citado por Bento (2022), no qual o silêncio, a negação e a suposta neutralidade operam como estratégias psíquicas e institucionais de manutenção do privilégio racial. Tal leitura também converge com o conceito de letramento racial proposto por Schucman, ao evidenciar a urgência de uma conscientização crítica do lugar racial ocupado pelo psicólogo branco. Ao mesmo tempo, dialoga com a tese de Sueli Carneiro sobre a construção do negro como um “não-ser”, já que o apagamento da experiência negra na clínica reforça a negação ontológica que sustenta simbolicamente a identidade branca como ser pleno e universal.

O Conselho Federal de Psicologia, por meio de documentos como o “Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) na relação com a população negra” (CREPOP/CFP, 2017) e das Resoluções nº 018/2002 e nº 018/2021, tem avançado na formalização de diretrizes para um exercício profissional antirracista. Essas normativas reconhecem o racismo como um determinante social da saúde mental e convocam a Psicologia a repensar suas práticas diante das relações raciais, da historicidade do racismo e da urgência pela equidade. A Resolução CFP nº 018/2002, por exemplo, já chamava atenção para a necessidade de considerar as especificidades étnico-raciais nos atendimentos, sendo aprofundada em 2021 com o reforço da responsabilidade ética da categoria no enfrentamento do racismo. Essas orientações dialogam diretamente com os apontamentos de autores como Schucman (2020) e Silvio Almeida (2018), pois tiram a Psicologia da ilusão da neutralidade e reforçam o imperativo de uma atuação comprometida com os direitos humanos, justiça racial e reparação histórica. Nesse sentido, o Conselho Federal de Psicologia reforça a dimensão normativa e ética dessa agenda, indicando que a Psicologia precisa avançar para desconstruir práticas racializadas e construir uma clínica inclusiva, comprometida com a justiça social.

Este referencial teórico não apenas fundamenta a necessidade de um posicionamento crítico do psicólogo branco, mas também convoca a uma transformação profunda da clínica, da formação profissional e das instituições psicológicas. Ao reconhecer o sujeito negro em toda a sua complexidade, resistência e saberes, o psicólogo branco assume um papel ativo na construção de uma prática clínica que vá além da reprodução das opressões, estabelecendo-se como um espaço legítimo de emancipação, escuta racializada e reparação simbólica.

Neusa Santos Souza desvela os impactos psíquicos do racismo na constituição do sujeito negro; Grada Kilomba denuncia a violência epistêmica e os silenciamentos da colonialidade; Cida Bento e Lia Vainer Schucman, em diferentes artigos, aprofundam a análise do pacto narcísico da branquitude e seus mecanismos de autopreservação; Silvio Almeida evidencia o racismo estrutural como matriz do poder social; Gayatri Spivak e Djamila Ribeiro problematizam o lugar de fala e a importância da escuta racializada; Sueli Carneiro ressalta a resistência política e o protagonismo negro; Iray Carone e Maria Aparecida Silva Bento destacam a urgência da psicologia antirracista para romper com práticas excludentes; por fim, os documentos do CFP orientam o compromisso ético-político do psicólogo branco na clínica antirracista.

 Portanto, desconstruir a branquitude e incorporar uma perspectiva antirracista na clínica psicológica são imperativos éticos e políticos para enfrentar o racismo estrutural. Essa jornada exige coragem, compromisso e responsabilidade dos profissionais, mas abre caminho para uma psicologia socialmente mais relevante, capaz de exercer seu poder transformador e contribuir efetivamente para a justiça social.

3. METODOLOGIA

Para compreender os principais desafios e práticas relacionados ao manejo clínico de psicólogos brancos no atendimento a pacientes negros, foi adotada uma abordagem que inclui tanto a revisão sistemática da literatura quanto a análise dos dados provenientes de estudos acadêmicos. Inserido no campo da pesquisa qualitativa, o estudo é de caráter descritivo e exploratório, visando investigar as contribuições, lacunas e tendências na produção científica sobre o tema, conforme as orientações metodológicas de Elizabeth Batista Pinto (2005).

A metodologia corresponde a um estudo bibliográfico, do tipo revisão sistemática, possibilitando a inclusão de estudos empíricos e teóricos para uma compreensão completa do fenômeno analisado. Enquadra também dados da literatura teórica e empírica, incorporando um “vasto leque de propósitos: definição de conceitos, revisão de teorias e evidências, e análise de problemas metodológicos de um tópico particular” (Souza et al., 2010, p.102).

O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases de dados SciELO, PePSIC, CAPES e LILACS, possibilitando a busca por estudos publicados no cenário nacional, disponíveis na íntegra, em livre acesso. Os descritores utilizados foram: “Psicólogo branco”, “Clínica antirracista”, “Paciente negro” e “Branquitude”, combinados com “Psicologia” por meio do operador booleano AND.

Quadro 1 – Relatório das babes de dados.

Fonte: elaborado pela autora, 2025.

       Foram analisados 44 artigos selecionados a partir de um total de 723. Destes, 44 foram considerados relevantes; contudo, após uma leitura mais aprofundada, 39 foram descartados por não se adequarem plenamente à temática da clínica, e 2 eram repetidos. Restaram, portanto, 5 artigos que retratam propriamente o tema da pesquisa, encontrados a partir das palavras-chave “clínica antirracista”, “Branquitude” e “paciente negro”. Essa estratégia permitiu evidenciar de forma clara as principais contribuições, lacunas e contradições relacionadas ao manejo clínico de psicólogos brancos no atendimento a pacientes negros, fornecendo uma base sólida para a discussão teórica e para reflexões sobre práticas éticas e antirracistas na Psicologia Clínica.

       Figura 1 – Fluxograma das etapas para a seleção dos artigos desta revisão, 2025.

Fonte: elaborado pela autora, 2025.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os dados culminaram na seleção de 5 (cinco) artigos, os quais foram analisados com base nas informações coletadas para responder à pesquisa intitulada: “O papel do psicólogo branco no atendimento de pacientes negros: reflexões sobre branquitude e ética clínica nas relações étnico-raciais”.

Quadro 2 – Publicações encontradas entre os anos de 2019 à 2025.

Fonte: elaborado pela autora, 2025.

Os estudos de Hilário e Lima (2023) indicam que a branquitude, enquanto construto simbólico de poder, manifesta-se no setting terapêutico e orienta as percepções, os afetos e as interpretações do psicólogo branco. Essa constatação converge com as reflexões de Souza (1983), que já denunciava o sofrimento psíquico decorrente da alienação racial, e estabelece um diálogo com Kilomba (2019), ao descrever o mecanismo inconsciente de projeção pelo qual a branquitude aloca nos corpos negros o aspecto “mau” que busca negar em si mesma. Desse modo, evidencia-se que a neutralidade racial na teoria e na prática clínica é uma ficção: a ausência de reconhecimento do próprio lugar de privilégio pelo psicólogo pode culminar na reprodução das violências simbólicas que o paciente busca elaborar.

Essa recusa em reconhecer a posição racial é definida por Bento (2022) como o “pacto narcísico da branquitude”, um acordo tácito que visa preservar o conforto psíquico e os privilégios raciais. O pacto, conforme delineado por Bento, complementa a análise de Kilomba, visto que ambos demonstram que a branquitude se sustenta pela negação de sua implicação no sofrimento alheio.  Hilário e Lima, reforçam que tal postura, quando transposta para a clínica, compromete o vínculo terapêutico e perpetua o silenciamento do paciente negro. Em contrapartida, quando o profissional branco se engaja na autorreflexão e se dispõe ao desconforto (reconhecendo as tensões raciais que atravessam sua escuta), o atendimento adquire maior sensibilidade, legitimidade e acolhimento.

Tavares e Kuratani (2019) oferecem uma contribuição basilar ao demonstrarem como o reconhecimento das repercussões do racismo viabiliza uma experiência clínica reparadora. Em seus estudos com mulheres negras, o processo de “tornar-se negra” é vivenciado como um movimento de cura e resgate identitário. Essa escuta racializada, longe de fragilizar a neutralidade técnica, a fortalece, pois legitima a dor do sujeito e rompe com o padrão de invisibilização. Tal prática confirma o que Ribeiro (2017) descreve como a necessidade de garantir o lugar de fala do sujeito oprimido (compreendido não como concessão, mas como reconhecimento de sua autoridade sobre a própria narrativa). Na clínica, isso implica construir um espaço para que o paciente negro possa se expressar sem ser traduzido ou filtrado por um olhar branco normativo.

Os trabalhos de Gerra et al. (2021) e Hohendorff, Polli e Weiss (2023) convergem nesse horizonte ao defenderem uma ocupação antirracista e decolonial do espaço psicológico. Suas análises revelam que a formação em Psicologia ainda carrega heranças coloniais e eurocêntricas, o que restringe a capacidade dos profissionais brancos de apreender o sofrimento racial em sua profundidade. Essa lacuna formativa (já denunciada por Almeida, 2019, como produto do racismo estrutural) não apenas restringe a prática clínica, mas reitera a percepção de que o sofrimento racial é periférico ou secundário. A ausência de letramento racial, portanto, não constitui uma falha individual, mas um reflexo das estruturas de poder que moldam a própria ciência psicológica.

O estudo empírico de Farias, Falcke e Serralta (2022) reforça esse diagnóstico ao evidenciar que muitos psicólogos, mesmo bem-intencionados, respondem a questões raciais pautados pela desejabilidade social, adotando discursos antirracistas sem questionar suas crenças e seus afetos internalizados. Essa postura, que mantém a aparência de neutralidade, corrobora o mecanismo de autopreservação da branquitude apontado por Bento (2022) e Kilomba (2019). A negação do conflito racial interno obstrui o avanço da clínica e bloqueia o potencial transformador do vínculo terapêutico.

Ao colocar os estudos em diálogo, emerge uma compreensão compartilhada: o papel ético do psicólogo branco consiste em reconhecer-se como sujeito racializado e eticamente implicado na reprodução ou desconstrução do racismo. Quando essa consciência é estabelecida, o manejo clínico se torna mais ético e sensível, possibilitando o acolhimento do paciente negro em sua totalidade (subjetiva, social e histórica). Na ausência dessa consciência, o setting terapêutico tende a replicar as exclusões do mundo social, perpetuando a solidão e o silenciamento racial.

Os resultados evidenciam que, apesar do avanço teórico do campo, persistem lacunas significativas: poucos estudos descrevem estratégias práticas ou protocolos específicos para formação e supervisão antirracista. Não obstante, verifica-se um diálogo profícuo entre os autores revisados e os pensadores que embasam este trabalho. Souza (1983), Kilomba (2019), Bento (2022), Schucman (2020) e Almeida (2019) convergem para a mesma direção assinalada pelos artigos analisados: a desconstrução da branquitude é um processo clínico e político que demanda formação crítica, autorreflexão contínua e compromisso ético com a reparação simbólica do sofrimento racial.

Portanto, os estudos aqui examinados reforçam que o psicólogo branco não é um observador neutro das dinâmicas raciais; ele é parte delas. Seu papel, diante do racismo estrutural, é o de agente de transformação: um profissional que reconhece seus privilégios, questiona as bases eurocentradas de sua formação e constrói, em conjunto com o paciente negro, um espaço de escuta horizontal, legítima e emancipadora. Nessa postura ética e comprometida, a clínica se estabelece como um território de resistência e reconstrução do humano.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise realizada evidencia a urgência de repensar o papel do psicólogo branco diante das dinâmicas raciais que atravessam a clínica. Ao reconhecer que o racismo estrutura não apenas as relações sociais, mas também os modos de escuta, percepção e intervenção psicológica, este trabalho contribui para deslocar a prática terapêutica de uma posição de aparente neutralidade para uma postura ética, politicamente implicada e comprometida com a reparação simbólica do sofrimento racial.

A relevância deste estudo reside em sua capacidade de provocar um movimento reflexivo na própria categoria profissional, incentivando psicólogos e psicólogas a questionarem o lugar de onde falam e escutam. Ao tensionar a branquitude como estrutura de poder, o trabalho propõe um exercício constante de autorreflexão e responsabilização, condição fundamental para a construção de vínculos terapêuticos genuínos e emancipadores. Trata-se, portanto, de uma contribuição não apenas teórica, mas também formativa e ética, voltada à transformação das práticas psicológicas e à ampliação do horizonte crítico da profissão.

Entretanto, o estudo também revela lacunas importantes: ainda há escassez de pesquisas empíricas que abordem a prática clínica sob perspectiva antirracista e decolonial, bem como de diretrizes institucionais voltadas à formação e supervisão comprometidas com essa pauta. Tais ausências indicam a necessidade de um investimento contínuo em estudos que articulem teoria, clínica e política, possibilitando o desenvolvimento de metodologias de intervenção mais sensíveis à realidade racial brasileira.

Assim, este trabalho não se encerra em si mesmo; antes, inaugura e reforça um campo de debate que precisa ser continuamente aprofundado. O enfrentamento da branquitude na clínica não é um ponto de chegada, mas um percurso ético em constante construção. Que as reflexões aqui apresentadas possam inspirar novas pesquisas, práticas e políticas que consolidem uma Psicologia verdadeiramente plural, comprometida com a justiça racial e com a reconstrução de uma escuta que reconheça e acolha a humanidade em todas as suas cores.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. 1. ed. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

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1Faculdade Católica de Rondônia,
camila.saraiva@sou.fcr.edu.br

2Faculdade Católica de Rondônia,
sandra.ugo@sou.fcr.edu.br

3zeno.souza@fcr.edu.br

4Faculdade Católica de Rondônia,
aina.feitosa@fcr.edu.br