O “PAESISMO” EM CONSTRUÇÃO: PRAGMATISMO GERENCIAL E NARRATIVA POLÍTICA NO BRASIL PÓS-POLARIZAÇÃO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512240708


Marcos Paulo Alves de Freitas1


RESUMO 

Este artigo analisa a emergência da narrativa política denominada “Paesismo”,  associada à gestão do prefeito Eduardo Paes no Rio de Janeiro (2021-2025). Partindo do  contexto da intensa polarização nacional entre lulismo e bolsonarismo, investiga-se como  um discurso centrado no pragmatismo gerencial, na eficiência administrativa e na  conciliação transversal é formulado como proposta de superação do conflito político.  

A análise, de caráter qualitativo e baseada em estudo de caso, focaliza três  dimensões: (1) o modelo de gestão pautado por resultados; (2) a estratégia de  comunicação e obras de impacto simbólico; e (3) a articulação política ambidestra.  Conclui-se que o “Paesismo” se constitui menos como uma ideologia consolidada e mais  como uma narrativa política em formação, cuja viabilidade futura depende de sua  capacidade de converter a eficiência gerencial em um projeto nacional com identidade  própria, superando os riscos da despolitização e da ambiguidade programática. 

PALAVRAS-CHAVE: Paesismo; Eduardo Paes; Polarização Política; Pragmatismo;  Gestão Pública; Narrativa Política. 

ABSTRACT 

This article analyzes the emergence of the political narrative called “Paesism,” associated  with the administration of Mayor Eduardo Paes in Rio de Janeiro (2021-2025). Starting  from the context of the intense national polarization between Lulaism and Bolsonaroism,  it investigates how a discourse centered on managerial pragmatism, administrative  efficiency, and transversal conciliation is formulated as a proposal to overcome political  conflict. 

The analysis, of a qualitative nature and based on a case study, focuses on three  dimensions: (1) the results-oriented management model; (2) the communication strategy  and works of symbolic impact; and (3) the ambidextrous political articulation. It  concludes that “Paesismo” is less of a consolidated ideology and more of a political  narrative in formation, whose future viability depends on its ability to convert managerial efficiency into a national project with its own identity, overcoming the risks of  depoliticization and programmatic ambiguity. 

1. INTRODUÇÃO 

 A Constituição de 1988, conhecida como Bíblia Constitucional, trouxe avanços  em relação aos direitos fundamentais e à consolidação do estado democrático de direito (FREITAS, 2022), consagrando o pluripartidarismo. Porém, atualmente parte dos  atores políticos, com amplo apoio popular, passaram a contestar esses ideários,  sendo proposto uma divisão na sociedade entre lulismo e bolsonarismo. O sistema  político brasileiro, desde a redemocratização, tem sido marcado por ciclos de  polarização.  

O período recente (2018-2024) aprofundou uma clivagem do tipo “nós versus  eles” (MOUFFE, 2015), materializada na disputa entre os polos lulista e bolsonarista.  Este cenário de antagonismo, que ameaça os fundamentos do agonismo democrático, tem  gerado espaço para a emergência de discursos que se apresentam como “terceiras vias”  ou alternativas de conciliação nacional. 

Neste contexto, surge no debate público o termo “Paesismo”, uma construção  narrativa que toma como referência empírica a gestão do prefeito Eduardo Paes à frente  da cidade do Rio de Janeiro, particularmente em seu quarto mandato (2021-2025). 

Diferentemente de ideologias políticas tradicionais, o “Paesismo” se propõe como  um pragmatismo gerencial, priorizando a eficiência na entrega de serviços públicos, a  articulação técnica e a conciliação política transversal como valores centrais. 

O objetivo deste artigo busca analisar a construção da narrativa do “Paesismo”,  identificando seus pilares discursivos e práticos, e avaliando seus limites e potenciais  como proposta política no cenário brasileiro contemporâneo. 

Adota-se uma abordagem qualitativa, através de estudo de caso instrumental  (STAKE, 1994). A análise baseia-se em: (a) exame de discursos públicos e documentos  da gestão municipal; (b) revisão de reportagens e entrevistas com secretários-chave (fontes primárias); e (c) contextualização à luz de teóricos da democracia e do conflito  político, como Bobbio (2000) e Mouffe (2015). 

2. DEMOCRACIA, CONFLITO E GOVERNANÇA 

2.1. A Crise do Modelo Representativo e a Polarização 

Bobbio (2000) alerta que a democracia não sobrevive apenas pelo voto, mas  pela adesão às regras do jogo e pela aceitação do dissenso. A patologização  do conflito, transformando o adversário em inimigo, mina esses fundamentos. A Constituição de 1988, conhecida como Bíblia Constitucional, trouxe avanços em relação aos direitos fundamentais e à consolidação do estado  democrático de direito, consagrando o pluripartidarismo. Porém, atualmente  parte dos atores políticos, com amplo apoio popular, passaram a contestar esses ideários, sendo proposto uma divisão na sociedade entre lulismo e  bolsonarismo. 

2.2. Antagonismo vs. Agonismo 

Chantal Mouffe (2015) distingue o antagonismo (relação  nós/eles, onde o “outro” é um inimigo a ser destruído) do agonismo  (onde o “outro” é um adversário legítimo, cujos direitos são  reconhecidos dentro do espaço democrático). O discurso “paesista”  se propõe explicitamente a restaurar um registro agonístico. Num  contexto onde vivemos uma vida real e outra que se soma a essa  através de uma divisão social entre a esquerda e a direita, do  conflito ideológico, de uma sociedade multifacetada – existe um  agente político na cidade do Rio de Janeiro com capacidade e  expertise para unificar a nação. 

2.3. A Autoridade Racional-Legal e o Gerencialismo

A ênfase na competência técnica e na eficiência  administrativa remete à tipologia weberiana da dominação legal racional (WEBER, 1999), na qual a autoridade emana de  procedimentos e competências formalmente estabelecidos, em  detrimento do carisma puro ou da tradição. Neste ínterim, surge no  Rio de Janeiro a partir de 2020 um agente político, que consegue  representar não só uma cidade do Brasil, mas toda a nação. O  prefeito Eduardo Paes começa a governar a Prefeitura da Cidade  do Rio de Janeiro de forma magistral.  

Revolucionando a Cidade do Rio de Janeiro, criando  vários projetos de consolidação da cidade como ente federativo  com mais importância na República, sendo palco de mega shows e  local de eventos multinacionais, como convenções internacionais. 

3. ANÁLISE: OS TRÊS PILARES DA NARRATIVA “PAESISTA”

3.1. O Pilar Gerencial: Eficiência e Resultados como Legitimidade 

 A Gestão da Pandemia na atuação da Secretaria Municipal de Saúde, sob o  comando de Daniel Soranz, é apresentada como emblemática. A campanha de  vacinação rápida e baseada em evidências científicas (SORANZ, 2024) foi utilizada  como prova de eficácia técnica frente à hesitação federal, Soranz participou da elaboração  e implementação do Plano de Contingência do Município do Rio de Janeiro para o  enfrentamento da Covid-19.  

Ele esteve à frente das campanhas de vacinação na cidade, incentivando a  imunização da população, incluindo a repescagem para vacinar crianças e a defesa do  passaporte vacinal.  A Recuperação Fiscal na gestão do secretário Pedro Paulo, que reverteu um déficit  bilionário, constrói a narrativa do administrador competente que “faz a máquina  funcionar”. Sua atuação foi marcada pela transição de um cenário de déficit bilionário  para a estabilização das contas públicas em 2025. No início da gestão, identificou um  déficit projetado de R$ 10 bilhões para 2021 e apenas 12 milhões em caixa. Formulou e implementou 44 decretos emergenciais para reduzir gastos com a máquina pública,  incluindo o corte de despesas administrativas pela metade. Coordenou a elaboração do  plano de metas da prefeitura, que previa investimentos de R$ 14 bilhões para a retomada  da cidade. Ao deixar o cargo em abril de 2022 para retornar à Câmara, entregou a  prefeitura com cerca de R$ 9 bilhões em caixa, revertendo a crise de liquidez anterior. 

A Coordenação Governamental na figura do secretário Edson Menezes simboliza  a integração e a superação de obstáculos burocráticos, conectando planejamento e  execução, cuidando do que está entre a ideia e a entrega, conectando as pontas entre o  planejamento e a execução, entre as decisões estratégicas da gestão e as necessidades  reais de cada território. Atua-se para garantir que as políticas públicas da cidade sejam  implementadas de maneira integrada, promovendo sinergia entre secretarias,  subprefeituras e autarquias. Segundo Menezes, a missão da secretaria é “destravar  projetos estruturantes e garantir que o que foi planejado chegue efetivamente até o  cidadão. (MENEZES, 2025). 

3.2. O Pilar Simbólico-Comunicativo: Obras como Meta-Narrativa 

Os Projetos Âncora como iniciativas como o complexo “Praça Onze Maravilha”  (G1, 2025) e o parque temático “Terra Prometida” (TRAVEL, 2025) não são apenas  intervenções urbanas. Atuam como símbolos materiais da narrativa de transformação,  renovação e inclusão de diferentes segmentos (evangélicos, comunidades negras).  A Comunicação de Resultados e ênfase constante na “entrega” e no “concreto”  busca estabelecer uma nova métrica de avaliação política, distinta da leitura ideológica. É importante apontar agora as realizações mais marcantes nesse último governo como  os parques o Rio de Janeiro inaugurou e revitalizou vários parques, com destaque para o  Parque Realengo Susana Naspolini (2024), Parque Carioca Pavuna (2024), Parque Rita  Lee (parte do Olímpico, 2024) e o Parque Piedade Arlindo Cruz, que transformou o  antigo campus da Gama Filho (2025), além do projeto futuro do Parque do Porto,  visando a expansão de áreas verdes e lazer na cidade. Implementação do programa  “Bairro Maravilha” em diversas comunidades das Zonas Norte e Oeste, com obras de  pavimentação e saneamento, transformando áreas que sofriam com barro e poeira. 

3.3. O Pilar Político: A Articulação Transversal como Estratégia

A ambidestria política e o apoio declarado ao presidente Lula (PT)  concomitantemente às negociações com o Partido Liberal (PL) (CBN, 2025) opera uma  prática política distinta. Ela rejeita a leitura ideológica rígida em favor de um  pragmatismo de coalizão, buscando governabilidade em um ambiente fragmentado. 

O Federalismo Cooperativo na Prática: A atuação durante a pandemia,  respaldada por decisões do STF (2020; 2021), exemplifica como a gestão adotou uma  postura proativa de cooperação e conflito com outros entes, preenchendo lacunas  percebidas. 

4. DISCUSSÃO: LIMITES E TENSÕES DA NARRATIVA 

4.1. O Dilema da Despolitização 

Ao priorizar a técnica e o gerencialismo, a narrativa “paesista” corre o risco de  esvaziar o debate sobre projetos de sociedade, tratando a política como um problema de  gestão, e não de escolhas coletivas e conflito distributivo (às quais Mouffe atribui  centralidade). 

4.2. A Sustentabilidade da Coalizão Pragmática 

Coalizões baseadas puramente em interesses circunstanciais e eficiência são  inerentemente instáveis. A ausência de um núcleo programático ou identitário claro  pode fragilizar a construção a longo prazo. 

4.3. Da Narrativa Local ao Projeto Nacional  

O grande salto discursivo do “Paesismo” é extrapolar um modelo de gestão municipal  bem-sucedido para uma proposta nacional. Esta transposição não é automática e  enfrenta o desafio de escalar soluções e lidar com conflitos estruturais (como reforma  tributária, política ambiental) que vão além do escopo da administração local. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O “Paesismo” analisado neste artigo se revela um fenômeno político  significativo do Brasil contemporâneo. Mais do que uma ideologia, é uma narrativa  política em ativa construção, que responde à crise do agonismo democrático propondo o  pragmatismo gerencial e a conciliação técnica como antídotos. 

Sua força reside em capitalizar o cansaço com a polarização e a demanda por  gestão competente, utilizando resultados concretos de uma administração municipal  como sua principal prova de conceito. 

Seu principal desafio, contudo, é transcender essa etapa. Para se consolidar  como uma alternativa política nacional viável. Precisará enfrentar o dilema de como  transformar seu método de governar em um projeto de país que ofereça não apenas  eficiência, mas também sentido e identidade para uma sociedade profundamente  cindida, sem recair nas armadilhas da despolitização ou da ambiguidade.  

Este estudo abre caminho para pesquisas futuras que acompanhem a trajetória  dessa narrativa e sua recepção pelo eleitorado em diferentes escalas da federação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

BOBBIO, N. O futuro da democracia. 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal (STF). Vacinas: Lewandowski autoriza importação  por estados e municípios se Anvisa descumprir prazos. Notícias STF, 17 dez. 2020.  Disponível em: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=457459&ori= 1. Acesso em: 26 mar. 2025. 

FREITAS, M.P. Uberização: a desconstrução dos valores sociais do trabalho. Itajaí:  Editora Tabebuia, pág.13, 2022. 

G1. STF autoriza estados e municípios a comprar vacinas contra Covid se União  descumprir plano. G1 Política, 23 fev. 2021. Disponível  em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/02/23/stf-tem-maioria-para-permitir que-estados-e-municipios-comprem-vacinas-contra-covid-19-se-uniao-descumprir planejamento.ghtml. Acesso em: 26 mar. 2025. 

G1 RIO. Revitalização da Praça Onze prevê fim do viaduto e espaço cultural. G1 Rio,  20 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de janeiro/noticia/2025/11/20/praca-onze-maravilha-conheca-o-projeto.ghtml. Acesso  em: 26 mar. 2025. 

MENEZES, E. De vendedor de vassouras a secretário governamental, Edson Menezes é  peça-chave na Prefeitura do Rio. Entrevista concedida a Notícia Preta. 16 ago. 2025.  Disponível em: https://noticiapreta.com.br/edson-menezes-de-vendedor-de vassouras-a-secretario-no-rio/. Acesso em: 19 dez. 2025. 

MOUFFE, C. Sobre o político. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

SORANZ, D. Entrevista com Daniel Soranz: Políticas Públicas de Saúde. Podcast  Quem te Representa, 04 abr. 2024. Disponível  em: https://quemterepresenta.com.br/entrevista-com-daniel-soranz-politicas publicas-de-saude/. Acesso em: 26 mar. 2025. 

STAKE, R. E. Case studies. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Ed.). Handbook of  qualitative research. Thousand Oaks: Sage, 1994. p. 236-247. 

TRAVEL. Rio de Janeiro terá parque temático inspirado na Terra Prometida. Travel.com.br, 10 jan. 2025. Disponível  em: https://travel.com.br/novidades/rio-de-janeiro-tera-parque-tematico-inspirado na-terra-prometida/. Acesso em: 26 mar. 2025. 

WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. v. 1. 4.  ed. Brasília: Editora UnB, 1999.


1Advogado; Doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ. Professor da UniCBE.  Professor da Universidade Candido Mendes. Professor da Fundação Educacional  Unificada Campograndense. Autor do livro: Uberização: A desconstrução dos valores sociais do trabalho publicado pela Editora Tabeibuia em 2022. E-mail: marcpaf3@gmail.com