O IMPACTO FINANCEIRO DA CINOTECNIA NO COMBATE AO CRIME ORGANIZADO: AVALIAÇÃO DO CUSTO-BENEFÍCIO DO SISTEMA DE MANUTENÇÃO DE CÃES DA PMPR

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202601311116


Marcelo Henrique Hoiser
Matheus Henrique de Oliveira Lomba


RESUMO

O presente artigo analisa a eficiência econômica do Sistema de Manutenção de Cães (SMC) da Polícia Militar do Paraná (PMPR), utilizando o cálculo do Retorno sobre o Investimento (ROI) como ferramenta de gestão pública. A pesquisa contextualiza a evolução da cinotecnia na corporação e se fundamenta na Teoria Econômica do Crime de Gary Becker para justificar a análise do combate ao crime sob o prisma econômico. Metodologicamente, o estudo adotou um viés conservador para mensurar o custo anual de investimento, totalizando R$ 25.695.767,80, valor que abrange desde a remuneração do efetivo de 167 policiais até custos com alimentação e saúde de 141 semoventes. Em contrapartida, os ganhos foram mensurados pelo prejuízo estimado ao crime organizado em 2025, que atingiu o recorde de R$ 522.127.871,84. Os resultados demonstram um ROI de aproximadamente 1.937,96%,evidenciando que para cada real investido no sistema, houve um retorno de quase 20 reais em apreensões. Conclui-se que o emprego de cães policiais na PMPR, é uma estratégia de alta viabilidade financeira e operacional, essencial para o sufocamento do crime organizado no Estado do Paraná.

Palavras-chave: Cães Policiais; Retorno sobre investimento; Prejuízo ao Crime.

ABSTRACT

This article analyzes the economic efficiency of the Dog Maintenance System (SMC) of the Paraná Military Police (PMPR), utilizing the Return on Investment (ROI) calculation as a public management tool. The research contextualizes the evolution of police k9 operations within the corporation and is based on Gary Becker’s Economic Theory of Crime to justify the analysis of crime-fighting through an economic lens. Methodologically, the study adopted a conservative bias to measure the annual investment cost, totaling R$ 25.695.767,80—a value that encompasses everything from the remuneration of the 167-officer personnel to the food and health costs of 141 canines. In contrast, gains were measured by the estimated loss to organized crime in 2025, which reached a record R$ 522,127,871.84. The results demonstrate an ROI of approximately 1.937,96%, evidencing that for every real invested in the system, there was a return of nearly 20 reais in seizures. It is concluded that the employment of police dogs in the PMPR is a strategy of high financial and operational viability, essential for suffocating organized crime in the Paraná State.

Keywords: Police Dogs; Return on Investment; Loss to Organized Crime.

1  INTRODUÇÃO

Cães são parceiros da humanidade de incontáveis maneiras, no entanto, é por meio de seu faro aguçado que a relação homem-cão se tornou mais profícua. Micheletti et al. (2016) exploraram os aspectos biológicos e a versatilidade operacional do faro canino. Seu repertório de funções é diversificado, incluindo a detecção de minas terrestres, substâncias ilícitas como drogas, armas, contrabando de animais silvestres, apoio em investigações criminais e missões de busca e resgate. Atualmente, o emprego de cães para tais propósitos possui reconhecimento e aplicação internacional.

Na Polícia Militar do Paraná (PMPR) cães policiais vêm sendo empregados desde a década de 1970, em diversas modalidades de emprego, em apoio às missões de segurança pública. A primeira cadela policial da PMPR era da raça Pastor Alemão, cujo nome era Tatiana, a qual  atuou na modalidade de  “Rádio Patrulhamento com Cães”, em cujo emprego  o cão policial era treinado para guarda e proteção, tendo sido o seu treinamento iniciado em 14 de dezembro de 1971 (Correa, 2021), data considerada como o início das Operações com Cães na PMPR. Durante quase seis anos, as atividades com cães funcionavam sem qualquer regulamentação institucional.

A possibilidade da criação do Sistema de Manutenção de Cães (SMC) para atividade de polícia e segurança pública se deu com a edição do Decreto Estadual nº 3.373 de 1977 e a sua regulamentação foi por meio da Portaria do Comando-Geral nº 903/77, que criou o Regulamento do Sistema de Manutenção de Cães (ZANCAN, 2018). Desde então, as Operações com Cães no âmbito da PMPR apresentam constante evolução. Se no início, o foco principal era a atividade de guarda e proteção, hoje cerca de 90% dos cães do SMC atuam na detecção de drogas e armas de fogo, atividade em que não há equipamento capaz de desempenhar com a mesma precisão, velocidade e assertividade dos cães. Jantorno et. al. (2020), realizaram um estudo de revisão abrangente sobre o emprego de cães de faro de drogas. Um dos dados mais importantes para este artigo, foi obtido pela comparação do custo de cães de faro com de outras ferramentas de fiscalização, conforme segue:

Por exemplo, uma ferramenta usada em vigilância não invasiva, mas sem a precisão de um cão detector, é o scanner, e no mercado brasileiro, existem vários tipos de scanners que vão de US$ 70.000,00 a US$ 357.000,00, enquanto um bom cão de detecção pode ser adquirido por cerca de US$ 6.000,00. Além disso, ao contrário de um scanner, um cão possui mobilidade muito superior em todo tipo de ambiente (Jantorno et. al., 2020, p. 2.).

A Portaria do Comando Geral nº 903/1977, após algumas atualizações, veio a se tornar a de nº751/2015 (Paraná, 2015) a qual estabeleceu que a coordenação do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR, será realizada pelo comandante da atual à Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC), que é uma Unidade especializada e subordinada ao Comando de Missões Especiais da PMPR. A Portaria estabelece que a Companhia Independente de Operações com Cães é a difusora da doutrina de emprego dos cães subordinados ao SMC, e que o coordenador desse sistema deve estabelecer as normas e quesitos para a certificação dos cães da Corporação.

Atualmente, o Sistema de Manutenção de Cães é formado pela CIOC, por vinte e oito canis setoriais subordinados a Organizações Policiais Militares (OPMs) de área e especializadas e dois binômios destacados em operação através do Projeto K9. Em 2026, a expectativa é de que sejam ativados mais seis binômios destacados com a efetivação completa do Projeto K9. O sistema conta com 167 policiais militares, sendo 22 oficiais e 145 praças, e 141 cães em atividade (CIOC, 2025), cabe ressaltar que dentre os oficiais, seis estão lotados na CIOC e prestam serviços dedicados exclusivamente em atividades relativas ao SMC, enquanto treze trabalham em Unidades de área ou especializadas, respondendo cumulativamente por outras funções atinentes às suas Unidades.

1.1  FORMAÇÃO, CERTIFICAÇÃO E EMPREGO DOS CÃES DE DETECÇÃO

A capacidade olfativa dos cães de detecção é inquestionável, sabe-se que a quantidade de células olfativas dos cães policiais varia entre 200 e 300 milhões, número, cerca de quarenta vezes mais do que a média dos seres humanos. O treinamento constante, aliado à especificidade biológica, resulta em excelente grau de assertividade no desempenho de atividades de detecção (ANDRADE; SILVA, 2025). O processo de formação de um cão policial de faro de entorpecentes e armas de fogo compreende a seleção de filhotes, testes de impulso, ambientação, socialização, estímulos constantes aos instintos de caça e presa, apresentação de odores alvos, treinamentos em ambientes reais e operações reais como cão secundário (PARANÁ, 2025). Por força da Diretriz nº 016/2022 do Comando-Geral da PMPR, cães da PMPR são impossibilitados de operar sem a Certificação regulamentada por tal normativa. Dada a exigência da certificação, cães em formação ou sem certificação somente podem atuar em equipes com pelo menos um cão certificado, como cão em treinamento. O processo de formação ensinado nos cursos de Cinotecnia Policial da PMPR é dividido em quatro fases, sendo que o cão avança à próxima fase caso tenha cumprido o Objetivo de Aprendizagem Desejado (DLO) previsto para a fase em que se encontra. A imagem a seguir demonstra o ciclo a ser aplicado.

Figura 1 — Estrutura dos ciclos de treinamento dos cães em formação.

Fonte: Apostila do VII Curso de Cinotecnia Policial Militar-PMPR.

Na PMPR, o processo de formação dura cerca de 18 meses, sendo que ao final do processo, o cão passa pela prova de certificação e, caso logre êxito, é autorizado a trabalhar em missões reais. Além dos cães formados na CIOC e nos canis setoriais, há também os cães de compra que são fornecidos aptos ao serviço policial, os quais são testados por comissão composta por oficiais e praças cinotécnicos e avaliados durante 60 dias,  pela equipe de treino, formação e manutenção do treinamento da CIOC, aplicando-os em diversos ambientes e situações operacionais reais. Caso sejam aprovados, são direcionados aos policiais que os conduzirão na atividade fim. Todos os cães de detecção são submetidos a uma nova certificação assim que cessa a validade da certificação vigente. A certificação tem validade de 18 meses para cães da CIOC e de Canis Setoriais e de 12 meses para cães de binômios destacados do Projeto K9 (PARANÁ, 2025). A validade visa a manutenção do treinamento, preparo físico e capacidade operativa dos cães e de seus condutores.

Dadas as especificidades da atuação dos canis setoriais que variam conforme área de atuação, modalidade de emprego e missão principal da Unidade, constata- se uma razoável variedade nas formas de emprego dos cães da PMPR em operações em todo o Estado. Dessa forma, os cães precisam ser testados nos principais cenários em que serão aplicados em operações. Por tal motivo, a certificação abrange quatro provas específicas nos seguintes cenários: busca veicular, busca em bagagens, busca em ambientes internos (edificações) e busca em ambientes externos. Para ser aprovado, o cão deve atingir a pontuação mínima de 70% em cada uma das provas (PARANÁ, 2022).

1.2  A NECESSIDADE DE UMA ANÁLISE ECONÔMICA DO COMBATE AO CRIME ORGANIZADO

A análise de desempenho das forças de segurança pública é comumente feita através de números brutos de ocorrências, em que os resultados positivos se refletem na diminuição da incidência de determinados delitos (como homicídios e roubos, por exemplo). Essa análise, no entanto, apresenta limitações quando o tipo penal analisado não permite uma quantificação exata de suas vítimas, a exemplo do contrabando e do tráfico de drogas. O aumento de ocorrências relacionadas a esses tipos penais não reflete necessariamente uma piora na segurança pública, mas a maior eficiência das forças de segurança no combate ao crime organizado. Nesse sentido, torna-se inviável estipular quais os benefícios tangíveis para a sociedade e que sejam reflexo direto de cada apreensão de entorpecentes e armas de fogo, tendo em vista o potencial lesivo desses materiais. Não há, por exemplo, uma metodologia validada de como estimar quantas vidas deixarão de ser ceifadas por meio da apreensão de um fuzil pelas forças de segurança, ou mesmo quantos jovens não terão contato com a droga que saiu de circulação numa apreensão. Uma coisa é pacífica: há benefícios inegáveis para a coletividade quando ocorre essa repressão criminosa. É válido também argumentar que uma menor oferta de entorpecentes aos usuários pode refletir na diminuição de gastos públicos com saúde para esse público, entre outros diversos benefícios intangíveis. Robert Trojanowicz (1994), classifica as drogas como um Vetor de Medo, destacando que o tráfico e o consumo de drogas em áreas residenciais destroem a qualidade de vida. Ainda, o autor sustenta que a desordem social propiciada pelas drogas impede que crianças brinquem nas ruas e que idosos circulem, o que desumaniza o ambiente urbano.

Para analisar o custo-benefício de um Sistema que foca principalmente na repressão imediata ao crime organizado, agindo em especial contra o tráfico de drogas, faz-se necessária a adoção de critérios objetivos, ainda que para tanto, efeitos positivos evidentes, porém intangíveis precisem ser retirados da equação.

Gary Becker (1968) foi pioneiro em propor uma análise do crime focada, entre outras coisas, em aspectos econômicos. Becker não atribui ao criminoso características irracionais, mas argumenta que o criminoso baseia suas decisões fazendo uma análise que leva em conta os riscos e os benefícios do cometimento do delito. Quanto maiores forem os possíveis benefícios e menores os prejuízos, maior a probabilidade do cometimento do delito. Nesse sentido, punições mais severas e perdas financeiras consideráveis tendem a ter efeitos sensíveis na diminuição do crime. No Brasil, é comum os órgãos de segurança pública atribuírem às apreensões valores estimados do prejuízo ao crime organizado. Tais valores levam em consideração informações de inteligência sobre os preços dos produtos apreendidos no mercado ilegal para estimar o impacto financeiro da ação no combate ao crime organizado.

O Informativo de ocorrências com emprego de cães de 2025 (PARANÁ, 2026) trouxe os números totais de apreensões de entorpecentes, armas de fogo, munições e veículos recuperados, além do número de ocorrências atendidas, número de pessoas presas e o prejuízo estimado ao crime organizado. Ainda, há no documento imagens de ocorrências destaques com seus descritivos. No documento, chegou-se ao valor de R$ 522.127.871,84 (quinhentos e vinte e dois milhões, cento e vinte sete mil, oitocentos e setenta e um reais e oitenta e quatro centavos) de prejuízo estimado ao Crime Organizado. Cabe salientar que para o cálculo do prejuízo ao crime organizado, realizado pela Companhia Independente de Operações com Cães e divulgado pela PMPR (PARANÁ, 2026), foram levados em consideração apenas os itens supracitados. Depreende-se então que algumas apreensões que também representam prejuízo ao crime organizado, como apreensões de carga de contrabando e descaminho, não foram contabilizadas, o que torna o cálculo estimado bastante conservador.

2  DESENVOLVIMENTO

Para uma avaliação da eficiência econômica no setor público, em especial em serviços relativos à segurança pública, faz-se necessária a adaptação de métricas originalmente desenvolvidas para o mercado corporativo. Nesse sentido, o presente estudo propõe uma adaptação do cálculo do Retorno sobre Investimento (ROI), métrica consolidada na gestão industrial por Donaldson Brown no século XX, na Dupont. Um dos principais pontos de apoio nas tomadas de decisões sobre investimento de capital, o ROI tem sua fórmula de cálculo baseada na divisão das receitas obtidas pelo custo de investimento, tendo como resultado uma porcentagem (LIRA, 2018).

Utilizando-se a ideia proposta por Becker (1968) de que eventuais prejuízos financeiros aumentam o custo do delito, o prejuízo financeiro estimado ao crime organizado entra na proposta do estudo no lugar dos valores arrecadados. Para tanto, a fórmula proposta do cálculo do ROI do Sistema de Manutenção com Cães é a seguinte:

O cálculo permitirá uma estimativa em reais do quanto se é dado de prejuízo ao crime organizado em comparação ao custo do Sistema de Manutenção de Cães.

2.1  O CÁLCULO DO CUSTO DO SMC

Em 2021, a então Cadete 3º PM Amanda Marques Alves inovou ao propor um cálculo que abrangesse o custo total de um filhote em formação em comparação ao custo da aquisição de um cão pronto. O referido trabalho trouxe dados importantes para o cálculo do custo total da, à época, Companhia de Operações com Cães. Em seu estudo, a autora chegou ao valor de manutenção geral mensal das instalações de R$ 106,15 (cento e seis reais e quinze centavos) por cão. (ALVES, 2021), conforme quadro a seguir.

Figura 2 — Quadro demonstrativo do custo de manutenção geral por semovente canino

Fonte: Alves (2021).

Tendo em vista que o referido quadro leva em consideração valores do ano de 2021, faz-se necessária a devida correção monetária. Neste estudo, escolheu-se o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), para base de cálculo. Considerando o período de janeiro de 2021 a dezembro de 2025, a variação acumulada encontrada foi de 33,85%, chegando-se ao valor do custo de manutenção geral das instalações por cão de R$ 142,08 (cento e quarenta e dois reais e oito centavos). Considerando que o sistema atualmente conta com 141 cães, o custo estimado de manutenção geral mensal das instalações do Sistema de Manutenção com Cães é de R$ 20.033,28 (vinte mil e trinta e três reais e vinte e oito centavos). Como o cálculo proposto leva em consideração o valor anual, chega-se ao valor de R$ 240.399,36 (duzentos e quarenta mil, trezentos e noventa e nove reais e trinta e seis centavos) de custo anual das instalações do Sistema de Manutenção de Cães.

Alves (2021) traz outro dado relevante no presente estudo, o custo médio com cuidados veterinários. Apesar do estudo levar em consideração especificamente cães filhotes, utilizar-se-á como parâmetro o mesmo valor corrigido monetariamente pelo IPCA, tendo em vista o perfil conservador do cálculo e levando-se em consideração que, em média, os gastos recorrentes com saúde são maiores em cães em formação. Desta forma, o valor proposto pelo estudo de Alves (2021) de R$ 100,49 (cem reais e quarenta e nove centavos), reajustado em 33,85% chega em R$ 134,50 (cento e trinta e quatro reais e cinquenta centavos). Aplicando-se a mesma metodologia do cálculo de custo das instalações do SMC, chega-se a um investimento anual de R$ 227.583,92 (duzentos e vinte e sete mil, quinhentos e oitenta e três reais e noventa e dois centavos) para a preservação da higidez do efetivo de semoventes caninos.

No ano de 2025, o Estado do Paraná realizou a compra de 30 novas viaturas para uso específico de equipes de Operações com cães, das quais 16 foram direcionadas para o Sistema de Manutenção de Cães da PMPR e o restante para as demais forças de segurança.  Conforme Contrato de compra nº 0149/2025 (PARANÁ, 2025), disponível no portal de transparência, o valor unitário de compra de cada viatura específica para o trabalho de operações com cães foi de R$ 305.861,89 (trezentos e cinco mil, oitocentos e sessenta e um reais e oitenta e nove centavos), e o valor total direcionado ao SMC através da compra dessas viaturas foi de R$ 4.893.790,24 (quatro milhões, oitocentos e noventa e três mil, setecentos e noventa e vinte e quatro centavos).

Outro fator a ser levado em consideração para o cálculo do custo estimado anual do SMC é a alimentação dos cães. No portal de transparência é possível encontrar o contrato de fornecimento de ração e petiscos para os cães do Sistema de Manutenção de Cães. No contrato citado, o preço do quilograma da ração contratada é de R$ 13,45 (treze reais e quarenta e cinco centavos). (PARANÁ, 2025). Salienta-se que a ração fornecida é do tipo super premium, com valor energético de 3800 a 4000 kcal/kg. Considerando a predominância de cães de trabalho de grande porte, o estudo propôs o cálculo da necessidade energética diária utilizando como parâmetro um cão ativo de 30 kg. Tem-se então como cálculo da necessidade energética de manutenção (NEM), em cães ativos:

Chega-se a uma necessidade média de 1666 kcal/dia. Dividindo-se a NEM pelo valor energético da ração (3800 kcal/kg como parâmetro), tem-se a quantidade média de ração diária necessária por cão:

O resultado se aproxima de 440g ao dia de ração por cão do SMC. Assim, para se chegar ao custo anual estimado com ração, é necessário multiplicar a estimativa de ração diária consumida por 365 dias do ano e posteriormente por seu valor em kg. Da seguinte forma:

Ou seja, o custo estimado de alimentação anual do SMC no presente estudo é de R$ 304.569,87 (trezentos e quatro mil, quinhentos e sessenta e nove reais e oitenta e sete centavos).

Por fim, dentre os critérios utilizados para a estimativa do custo anual do SMC, o que mais impacta o presente cálculo é o custo anual com remuneração do efetivo. É importante salientar que apesar de estarem inseridos no Sistema, alguns dos policiais acumulam funções diversas em suas Organizações Policiais Militares (OPMs), em especial os oficiais não classificados na CIOC. No entanto, a fim de manter o presente cálculo o mais conservador possível, optou-se por manter no cálculo todos os oficiais e praças que, de alguma forma, integram o SMC.

A carreira dos policiais militares do Paraná possui duas formas de escalonamento, uma vertical que compreende os postos e graduações e outra horizontal, na qual o policial aumenta sua remuneração a cada sete anos de serviço. Essa segunda compreende cinco classes, a última compreendendo militares com 28 ou mais anos de serviço. Para fins de cálculo, optou-se por aplicar a classe III (de 14 a 21 anos de serviço), a qual compreende o “meio” da carreira dos militares estaduais. Para tanto, adotaram-se as seguintes remunerações para o cálculo do custo anual com efetivo: Soldado 1ª Classe – R$ 7.094,07; Cabo – R$ 7.374,30; 3º Sargento – R$ 8.303,38; 2º Sargento – R$ 8.728,15; 1º Sargento – R$ 9.282,53; Subtenente – R$ 11.887,36; Aspirante-a-Oficial – R$ 8.280,91; 2º Tenente – R$ 16.398,16; 1º Tenente – R$ 18.798,04; Capitão – R$ 27.077,66; Major – R$ 28.411,61 (PARANÁ, 2025). Na análise do quantitativo de policiais do SMC, fornecido pela CIOC, em cada posto ou graduação chegou-se ao seguinte quadro:

Quadro 1 — Quantitativo de Policiais do SMC por postos e graduações

Qtd.POSTO OU GRADUAÇÃORemuneração Classe IIIRemuneração mensal x Qtd.
1MajorR$ 28.411,61R$ 28.411,61
5CapitãoR$ 27.077,66R$ 135.388,30
91º TenenteR$ 18.798,04R$ 169.182,36
32º TenenteR$ 16.398,16R$ 49.194,48
1Aspirante-a-OficialR$ 8.280,91R$ 8.280,91
2SubtenenteR$ 11.887,36R$ 23.774,72
51º SargentoR$ 9.282,53R$ 46.412,65
42º SargentoR$ 8.728,15R$ 34.912,60
163º SargentoR$ 8.303,38R$ 132.854,08
55CaboR$ 7.374,30R$ 405.586,50
66Soldado 1ª ClasseR$ 7.094,07R$ 468.208,62
TotalTotal remuneração mensal
167R$ 1.502.206,83

Fonte: Os autores (2026)

Para o cálculo do custo com remuneração de pessoal anual é necessário considerar o décimo terceiro salário e o terço de férias, chegando-se à seguinte equação:

O valor total a ser considerado como custo anual de remuneração do pessoal é de R$ 20.029.424,40 (vinte milhões, vinte e nove mil quatrocentos e vinte e quatro reais e quarenta centavos).

Finalizando o cálculo do custo do investimento, propõe-se somar os custos anuais estimados com manutenção geral das instalações, custos anuais estimados com cuidados veterinários, custos anuais estimados com ração e custos anuais estimados com remuneração de pessoal. Da seguinte forma:

Chegando-se, de forma estimada, ao valor do Custo de Investimento anual do SMC em R$ 25.695.767,80 (vinte e cinco milhões, seiscentos e noventa e cinco um mil, setecentos e sessenta e sete e oitenta centavos).

2.2  O PREJUÍZO ESTIMADO AO CRIME ORGANIZADO

No primeiro ano completo desde a criação da Companhia Independente de Operações com Cães, o Sistema de Manutenção de Cães da PMPR apresentou recorde histórico no prejuízo estimado ao crime organizado. O Informativo de Ocorrências com Emprego de Cães 2025 (PARANÁ, 2026) divulgou os valores totais das apreensões de entorpecentes, armas de fogo e munições, além do número de ocorrências atendidas e a quantidade de pessoas presas. Em 2025, o SMC esteve presente em apreensões que totalizaram mais de 143 toneladas de entorpecentes, 405 armas de fogo, 5193 munições e 1541 pessoas presas. O órgão informou que o prejuízo estimado ao crime organizado foi de R$ 522.127.871,84 (quinhentos e vinte e dois milhões, cento e vinte e sete mil, oitocentos e setenta e um reais e oitenta e quatro centavos).

Figura 3 — Resultados SMC 2025

Fonte: Paraná (2026).

2.3  CÁLCULO DO ROI DO SMC

Uma vez consolidados os valores a serem utilizados como Custo anual de investimentos no SMC e do prejuízo estimado ao Crime Organizado, passa a ser possível o cálculo do Retorno sobre Investimento (ROI). O cálculo do ROI permite o entendimento da viabilidade ou não da manutenção de um investimento. Quando positivo (ROI > 0), a indicação é de que o investimento gera lucro. Quando se fala em segurança pública, a noção de lucro esbarra em benefícios intangíveis e no fato de que parte do que se apreende não gera e nem pode gerar retorno direto para o Estado, como é o caso das apreensões de drogas. Parte dessas apreensões, no entanto, podem gerar retorno direto ao Estado, como veículos em bom estado apreendidos, dinheiro, entre outros bens que venham a ser utilizados pelas instituições do Estado. No presente estudo, optou-se por entender como ganho para fins de cálculo do ROI, o prejuízo estimado ao Crime Organizado, tendo em vista o foco do SMC na repressão imediata ao Crime Organizado, em especial ao tráfico de drogas. Dessa forma, chegou-se aos seguintes valores:

O Retorno Sobre Investimento do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR em 2025 é de aproximadamente 1937,960%. Isso significa, dentre outras coisas, que a cada real que é investido no SMC, o Sistema apreendeu quase 20 reais, o que por si só já é suficiente para depreender a viabilidade do Sistema de Manutenção de Cães da PMPR. Apesar do viés conservador da metodologia utilizada, fica evidente que o investimento nas Operações com Cães traz resultados extremamente positivos.

3  DISCUSSÃO

No livro Cocaína: a rota caipira, o jornalista Allan de Abreu (2017) cita por diversas vezes os prejuízos do crime organizado com as apreensões, que por vezes seriam mais significativas para os traficantes até mesmo do que a prisão. Gary Becker (1968) também aponta para a preocupação do criminoso com relação ao custo do delito. Nesse sentido, analisar como ganho o prejuízo gerado ao crime organizado é plausível e se apresenta como uma forma eficiente de se mensurar, ainda que de forma conservadora, a importância de um segmento institucional no combate ao Crime Organizado. O Sistema de Manutenção de Cães da PMPR apresenta resultados expressivos na repressão imediata ao Crime Organizado, em especial nos crimes de tráfico de drogas, contrabando e descaminho.

Abreu (2017) cita que o Paraná possui papel importante na rota utilizada para o tráfico bilionário de cocaína, tanto por ser o local de início da rota, utilizada nos anos 70 e 80 para o contrabando de café para o Paraguai, quanto pela possibilidade logística de distribuição para a Europa. O porto de Paranaguá é citado como um dos destinos finais da cocaína que entra via transporte terrestre no país, para ser distribuído através de navios. A fiscalização especializada, em especial nas rodovias que ligam a região de fronteira ao resto do estado, se apresenta como meio eficaz no combate ao tráfico internacional de drogas. O uso do cão nesse tipo de operações é fundamental, tanto pela agilidade, quanto pela capacidade de encontrar entorpecentes e armas de fogo em locais ocultos.

O G1 Paraná (2026, 23 de janeiro) divulgou dados fornecidos pelo SINESP que indicaram que o Paraná foi o Estado que mais apreendeu drogas no Brasil, com cerca de 566 toneladas de entorpecentes apreendidas. Este fato por si só corrobora a importância estratégica do Estado no combate ao tráfico de drogas. Na mesma reportagem, aparece na segunda colocação Mato Grosso do Sul com 435 toneladas apreendidas, seguido por São Paulo com 162 toneladas e Santa Catarina na quarta posição com 135 toneladas. Com 167 policiais e 141 cães, o Sistema de Manutenção de Cães da PMPR apreendeu mais toneladas de entorpecentes que 23 dos 26 Estados brasileiros e que o Distrito Federal.

O presente estudo comprovou que o emprego do cão em operações policiais é uma excelente área para que se direcionem os investimentos de Segurança Pública. O cálculo do estudo teve viés conservador, pois contabilizou inclusive gastos com pessoal que atua cumulativamente em mais funções em suas Organizações Policiais Militares e desconsiderou apreensões de cigarros contrabandeados e produtos de descaminho, apreensões essas que são corriqueiras, tendo em vista o uso das mesmas rotas pelo Crime Organizado para cometimento dos três tipos penais. Mesmo com a análise conservadora, restou evidente que o retorno mensurável que o Sistema de Manutenção com Cães gera é bastante elevado, apreendendo cerca de vinte e cinco reais a cada real investido.

Para além do tangível, o trabalho de repressão com apreensões traz benefícios na redução da violência, sufocamento financeiro das Organizações Criminosas, reduz a oferta de entorpecentes ao usuário final e reduz a quantidade de armas ilegais nas mãos dos criminosos. A importância do SMC no combate ao crime organizado é evidente e, de certa forma, difícil de se mensurar por completo; porém, encontrar uma forma objetiva de se calcular a eficiência de um serviço público pode significar, no futuro, um melhor direcionamento dos recursos públicos, que são finitos, a fim de que se tenha órgãos de segurança pública eficazes tanto na preservação da ordem pública, quanto na repressão das organizações criminosas.

4  CONCLUSÃO

A análise da eficiência econômica do Sistema de Manutenção de Cães da Polícia Militar do Paraná, fundamentada na teoria econômica do crime de Gary Becker, comprova que o emprego de cães de detecção se mostra como uma das estratégias com excelente custo-benefício no combate ao crime organizado no Estado. Através de uma metodologia conservadora, este estudo identificou que o investimento realizado no ano de 2025 de aproximadamente R$ 25,6 milhões no sistema gera um retorno social e operacional incontestável.

Os resultados alcançados em 2025, analisados em comparação com o valor do investimento no mesmo ano apontam para um ROI de 1937,96%, ou seja, cada real investido na manutenção de cães e policiais envolvidos no SMC resulta em quase 20 reais de prejuízo direto às organizações criminosas por meio de apreensões de drogas, armas e munições. Além do aspecto financeiro mensurável, a utilização de cães de detecção oferece uma precisão e velocidade operativa que não encontram paralelo em tecnologias atuais, sendo essencial para a repressão imediata ao tráfico de drogas, entre outros delitos.

Embora os resultados alcançados em 2025 já demonstrem uma performance histórica, com um prejuízo estimado ao crime organizado superior a 522 milhões de reais, ainda há um horizonte significativo para o crescimento do emprego de cães nas diversas missões da Polícia Militar do Paraná. A comprovada eficiência na fiscalização, aliada ao baixo custo de investimento, que representa apenas uma fração do retorno financeiro obtido através das apreensões, sugere que o fortalecimento das estratégias de segurança pública estadual estão ligados diretamente ao fortalecimento do Sistema de Manutenção de Cães.

REFERÊNCIAS

ABREU, Allan de. Cocaína: a rota caipira. Rio de Janeiro: Record, 2017. 753 p.

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