REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511272258
Adenilson de Brito Filho
Orientadora: Prof.ª Lucia Aparecida Ancelmo
RESUMO
Com o objetivo de investigar o impacto do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores, um tema de crescente relevância no cenário corporativo contemporâneo, especialmente após a adoção do trabalho remoto impulsionado pela pandemia da COVID-19, este estudo analisa, por meio de uma revisão bibliográfica, os principais fatores que influenciam a produtividade e o bem-estar dos trabalhadores em ambientes remotos, bem como as vantagens e desvantagens percebidas por indivíduos e organizações. Serão exploradas as relações entre flexibilidade, autonomia, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e os desafios associados ao isolamento e à gestão do tempo. A pesquisa também aborda a possibilidade do modelo de trabalho híbrido como uma solução estratégica para otimizar os benefícios do home office, mitigando seus aspectos negativos. O objetivo é fornecer uma análise que contribua para a compreensão e aprimoramento das práticas de trabalho remoto e híbrido, identificando diretrizes para uma gestão eficaz no contexto das relações de trabalho.
Palavras-chave: Home Office; Trabalho Remoto; Produtividade; Satisfação do Colaborador; Gestão de Pessoas.
ABSTRACT
In order to investigate the impact of home office on employee productivity and satisfaction, a topic of increasing relevance in the contemporary corporate landscape, especially after the adoption of remote work driven by the COVID-19 pandemic, this study analyzes, through a bibliographic review, the main factors influencing the productivity and well-being of workers in remote environments, as well as the advantages and disadvantages perceived by individuals and organizations. The relationships between flexibility, autonomy, work-life balance, and the challenges associated with isolation and time management will be explored. The research also addresses the possibility of the hybrid work model as a strategic solution to optimize the benefits of home office, mitigating its negative aspects. The objective is to provide an analysis that contributes to the understanding and improvement of remote and hybrid work practices, identifying guidelines for effective management within the context of labor relations.
Keywords: Home Office; Remote Work; Productivity; Employee Satisfaction; Work-Life Balance; People Management.
INTRODUÇÃO
A modalidade de trabalho conhecida como home office, teletrabalho ou trabalho remoto, conceito que, embora, aparenta-se não ser tão recente, já possui traços de ser uma modalidade usada há décadas atrás, porém esta experimentou uma aceleração sem precedentes em sua adoção no mundo todo a partir de 2020, impulsionada pela pandemia de COVID-19. A necessidade de distanciamento social, obrigada pelo Estado, e a rápida evolução das tecnologias de informação e comunicação transformaram o ambiente de trabalho, deslocando milhões de profissionais dos escritórios tradicionais para seus lares.
Essa transição abrupta gerou uma série de discussões e estudos sobre os múltiplos impactos dessa modalidade, tanto para as organizações quanto para os colaboradores. Compreender seus impactos, tanto na produtividade quanto na satisfação dos trabalhadores tornou-se crucial para empresas que buscam e terão que se adaptarem a um cenário de trabalho em constante mudanças e para profissionais que almejam otimizar seu bem-estar e desempenho.
Diante desse cenário, surge a seguinte questão de pesquisa: Quais são os principais impactos do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores e como esses impactos podem ser gerenciados para otimizar o desempenho e o bem-estar no ambiente de trabalho?
A relevância deste estudo se encontra na necessidade de compreender e sistematizar o conhecimento sobre o home office, uma modalidade de trabalho que ficou e que continua a moldar o futuro das relações de trabalho. Para as empresas, a compreensão dos impactos do tema abordado é fundamental para a formulação de políticas eficazes de gestão de pessoas, que promovam um ambiente de trabalho saudável e produtivo. Para os colaboradores, este estudo oferece dicas de como ter maior rendimento enquanto em trabalho remoto e mostrar seus desafios, para que assim possam ser desenvolvidas estratégias pessoais de autogestão e bem-estar. Além disso, a pesquisa contribui para a literatura acadêmica em Administração, oferecendo uma análise atualizada sobre um tema de grande pertinência social e econômica.
O objetivo geral deste trabalho é analisar o impacto do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores, identificando os fatores que influenciam esses aspectos e propondo diretrizes para uma gestão eficaz dessa modalidade de trabalho.
Para alcançar este objetivo, foram definidos os seguintes objetivos específicos: identificar os principais benefícios e desafios do home office para a produtividade dos colaboradores; avaliar como o home office afeta a satisfação dos trabalhadores, considerando aspectos como flexibilidade, autonomia e equilíbrio entre vida pessoal e profissional; discutir a relação entre o home office e o bem-estar psicológico dos colaboradores, incluindo o estresse e o isolamento social; explorar o papel do modelo de trabalho híbrido como uma alternativa para otimizar os resultados do home office; e sintetizar as melhores práticas de gestão para organizações que adotam ou pretendem adotar o home office ou o modelo híbrido.
Este trabalho está estruturado em capítulos que abordam a revisão de literatura, a metodologia, a análise dos resultados e as considerações finais, culminando com as referências bibliográficas.
MATERIAIS E MÉTODOS
Para a elaboração deste Trabalho de Conclusão de Curso, foi adotada uma abordagem metodológica de natureza qualitativa e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica de caráter narrativo. Este método foi escolhido para permitir uma análise teórica mais fluida das diversas perspectivas e achados relacionados ao impacto do home office.
A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, pois busca compreender em profundidade os fenômenos estudados, as percepções e as experiências dos indivíduos e organizações em relação ao home office. A abordagem qualitativa permite explorar as complexidades do tema, capturando nuances que métodos quantitativos poderiam negligenciar. Além disso, é uma pesquisa exploratória, uma vez que visa proporcionar maior familiaridade com o problema, tornando-o mais explícito e construindo hipóteses. Este tipo de pesquisa é particularmente útil em áreas onde o conhecimento ainda está em desenvolvimento ou onde há necessidade de novas perspectivas.
A coleta de dados foi realizada por meio de uma revisão bibliográfica abrangente, focando em fontes acadêmicas e científicas. As bases de dados consultadas incluíram SciELO (Scientific Electronic Library Online), Google Scholar e repositórios institucionais de universidades, como o Repositório da Universidade de Lisboa (ULisboa) e o Repositório Institucional do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). Os termos de busca utilizados, em português e inglês, incluíram: “home office”, “trabalho remoto”, “teletrabalho”, “produtividade”, “satisfação do colaborador”, “work-life balance”, “equilíbrio vida-trabalho”, “desafios home office”, “modelo híbrido”. A combinação desses termos foi realizada com o uso de operadores booleanos, principalmente o “AND” e o “OR”, para refinar a busca. Por exemplo, foram utilizadas combinações como: “(home office” OR “trabalho remoto” OR “teletrabalho”) AND “(produtividade” OR “satisfação do colaborador”). O uso desses operadores permitiu uma busca ampla e direcionada, garantindo a recuperação de documentos relevantes.
Os documentos foram selecionados com base nos seguintes critérios de inclusão: relevância temática, qualidade metodológica, atualidade, priorizando estudos pós- 2019 para refletir o cenário pandêmico e pós-pandêmico, e idioma português e inglês.
Inicialmente, a busca retornou um volume expressivo de publicações. Após a leitura preliminar dos títulos e resumos e a aplicação dos critérios de exclusão (como estudos anteriores a 2019 ou que não abordavam diretamente a produtividade e satisfação), foram pré-selecionados 25 trabalhos. Por fim, após a leitura integral e verificação da aderência aos objetivos específicos deste TCC, a amostra final constituiu-se de 16 referências bibliográficas que embasaram a análise.
A análise de conteúdo foi a técnica empregada para examinar os dados, permitindo a categorização das informações nas seguintes categorias temáticas, que serão detalhadas no capítulo de resultados: produtividade, satisfação, equilíbrio vida-trabalho, desafios do home office e Modelo de trabalho híbrido.
REVISÃO DE LITERATURA
A revisão bibliográfica a seguir explora os principais estudos e perspectivas sobre o impacto do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores, abordando desde a conceituação e evolução do trabalho remoto até suas implicações mais complexas no bem-estar e desempenho profissional. A análise crítica da literatura existente permite construir uma base teórica sólida para a compreensão do fenômeno do trabalho remoto e suas consequências para o ambiente corporativo e para a vida dos trabalhadores.
O home office, teletrabalho ou trabalho remoto, embora não seja uma modalidade de trabalho recente, ganhou proeminência e adoção massiva a partir de 2020, impulsionada pela pandemia de COVID-19. Essa transição foi facilitada e, em muitos casos, tornada possível, pelas tecnologias de informação e comunicação (TICs) e por novas abordagens administrativas. Taschetto e Froehlich (2019) analisam as vantagens que levariam as organizações a preferirem o teletrabalho, sendo: aumento da produtividade; redução dos custos; melhora da qualidade de vida; redução de gastos com transporte; melhor aproveitamento do tempo dos trabalhadores para desenvolver as funções de trabalho. Em relação aos desafios para a organização, observaram-se: custo com implantação; vulnerabilidade das informações sigilosas; dificuldade da empresa em capacitar seus gestores para gerenciar os teletrabalhadores; recrutar e selecionar profissionais com capacitação adequada; dificuldade em usar a mesma tecnologia dentro e fora da empresa (TASCHETTO; FROEHLICH, 2019).
Historicamente, o teletrabalho surgiu na década de 1970, com o termo cunhado por Jack Nilles, como uma alternativa para reduzir o movimento de deslocamento casa-trabalho em meio à crise do petróleo (ROCHA, 2018). Foi a partir dos anos 2000, com o avanço da internet e das ferramentas de colaboração digital, que sua adoção começou a crescer de forma mais consistente. A pandemia, no entanto, agiu como um catalisador, forçando empresas de diversos setores a implementar o trabalho remoto em larga escala, o que gerou um volume sem precedentes de pesquisas e discussões sobre o tema. A compreensão de sua evolução é crucial para analisar seus impactos atuais e futuros.
A produtividade no home office é um dos aspectos mais debatidos e estudados, com resultados que variam dependendo do contexto, da cultura organizacional e das características individuais dos colaboradores. Diversos autores apontam para um aumento da produtividade em regime remoto. Miceli (2020), por exemplo, sugere um aumento de 15% a 30% na produtividade do colaborador durante a pandemia. Gajendran e Harrison (2007), em uma meta-análise de 46 estudos, concluíram que o teletrabalho pode elevar a produtividade de 20% a 40%, o que equivale a um ou dois dias úteis adicionais de trabalho por semana.
Essa perspectiva é reforçada por um estudo de Bloom (2024) na Universidade de Stanford, considerado um dos maiores sobre o tema, que concluiu que funcionários em regime híbrido são tão produtivos quanto seus pares que trabalham integralmente no escritório. Bloom (2024, p. 920) afirma categoricamente que “a hybrid schedule with two days a week working from home does not damage performance”.
Os fatores que contribuem para esse aumento de produtividade incluem a redução do tempo de deslocamento, que libera horas para o trabalho ou para atividades pessoais, e a maior autonomia e flexibilidade de horário, que permitem aos colaboradores gerenciarem suas tarefas de forma mais eficiente e adaptada ao seu ritmo individual.
A capacidade de concentração em um ambiente mais controlado e com menos interrupções também é frequentemente citada como um benefício. A ausência de interrupções constantes, comuns em escritórios abertos, pode favorecer o foco e a execução de tarefas que exigem maior concentração (DIAS; SILVA, 2020). Além disso, a possibilidade de personalizar o ambiente de trabalho em casa, ajustando às preferências individuais, pode otimizar o conforto e, consequentemente, a produtividade.
No entanto, a produtividade no home office não é um fenômeno homogêneo e pode ser influenciada por diversos fatores. A falta de infraestrutura adequada em casa, como internet de qualidade ou um espaço de trabalho ergonômico, pode prejudicar o desempenho. Distrações domésticas, como a presença de familiares ou a dificuldade em separar a vida pessoal da profissional, também podem impactar negativamente (DIAS; SILVA, 2020).
Bridi et al. (2020) alertam que, apesar do aumento da produtividade, a modalidade pode trazer desvantagens que levam à perda de qualidade do trabalho prestado. Maghlaperidze et al. (2021) apontam que o efeito do trabalho remoto na economia e nos negócios pode ser ambíguo, dependendo de como é gerenciado, destacando a importância de uma gestão eficaz para mitigar os riscos e maximizar os benefícios.
A satisfação dos colaboradores no home office é um aspecto complexo, influenciado por uma série de variáveis. A flexibilidade e a autonomia são consistentemente apontadas como os principais impulsionadores da satisfação. O trabalho remoto permite aos trabalhadores mais controle sobre seu desempenho laboral, facilitando a conciliação de necessidades profissionais e pessoais. Schall (2019) observa que a flexibilidade de horários e a autonomia sobre o ambiente de trabalho são fatores cruciais para a satisfação dos teletrabalhadores. A redução do estresse e do tempo gasto com deslocamentos, bem como a possibilidade de dedicar mais tempo a atividades de lazer e convívio familiar, contribuem significativamente para a melhoria da qualidade de vida e, consequentemente, para a satisfação (Sobratt, 2020). A pesquisa da SOBRATT (2020) revelou que 76% dos entrevistados concordam que o home office contribui para a satisfação geral, principalmente pela melhoria da qualidade de vida.
Um estudo de Cardoso et al. (2025) identificou uma relação positiva entre a produtividade e a satisfação no home office, sugerindo que colaboradores mais produtivos tendem a ser mais satisfeitos. No entanto, a mesma pesquisa refutou a hipótese de que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional mediaria essa relação, indicando que a percepção de equilíbrio pode não se traduzir diretamente em maior satisfação. Isso sugere que outros fatores, como o ambiente de trabalho e a flexibilidade de horário, podem ter um peso maior na satisfação geral (Graça, 2021).
No entanto, a dificuldade em estabelecer limites claros pode levar à sobrecarga de trabalho e ao esgotamento (Liu; Lo, 2018). A constante conectividade, facilitada pelas tecnologias, pode fazer com que o colaborador trabalhe mais horas e esteja sempre disponível, mesmo fora do horário laboral (Madden; Jones, 2008). Essa invasão do trabalho na vida pessoal pode gerar estresse e insatisfação, especialmente quando não há um gerenciamento eficaz do tempo e das expectativas. A falta de um ambiente físico de trabalho delimitado pode dificultar a desconexão, levando a um prolongamento da jornada e a uma sensação de estar sempre “ligado” ao trabalho.
Embora o home office ofereça inúmeros benefícios, ele também apresenta desafios e desvantagens que precisam ser gerenciados. A falta de visibilidade e interação presencial, bem como a menor socialização com superiores e pares, são frequentemente citadas como desvantagens. Isso pode resultar na perda de oportunidades de networking, dificultar o crescimento profissional e impactar o senso de pertencimento à equipe e à organização (Ceribeli; Mignacca, 2019).
O isolamento social, a dificuldade de comunicação e a falta de suporte técnico adequado também são desafios relevantes (Silva; Dourado, 2021). A comunicação assíncrona, embora eficiente para algumas tarefas, pode prejudicar a troca rápida de informações e a resolução colaborativa de problemas, impactando a coesão da equipe. Além disso, a ausência de um ambiente de trabalho formal pode levar a problemas de saúde física e mental, como sedentarismo, má postura e aumento dos níveis de estresse e ansiedade, se não houver um cuidado ativo com a ergonomia e o bem-estar.
Diante dos desafios do home office integral, o modelo de trabalho híbrido surge como uma alternativa promissora, buscando combinar os benefícios do trabalho remoto com as vantagens do trabalho presencial. Bloom (2024) destaca que o modelo híbrido é uma solução “ganha-ganha-ganha”, beneficiando empresas, funcionários e a sociedade como um todo.
As empresas economizam em custos imobiliários e aumentam a retenção de talentos, enquanto os funcionários desfrutam de maior flexibilidade e qualidade de vida. A sociedade, por sua vez, se beneficia da redução do trânsito e da poluição. O modelo híbrido permite que os colaboradores mantenham a flexibilidade e a autonomia do home office, ao mesmo tempo em que preservam a interação social, a colaboração e a cultura organizacional do ambiente de trabalho presencial.
A implementação de um modelo híbrido eficaz, no entanto, requer um planejamento cuidadoso, com políticas claras sobre os dias de trabalho presencial e remoto, e investimentos em tecnologia para garantir uma comunicação fluida entre as equipes. A flexibilidade na escolha dos dias de trabalho presencial e remoto, aliada a um ambiente de trabalho que promova a colaboração e a interação social nos dias de escritório, pode otimizar os benefícios de ambas as modalidades, minimizando seus respectivos desafios. Este modelo, portanto, representa uma evolução natural do trabalho remoto, buscando um equilíbrio mais sustentável e produtivo para o futuro do trabalho.
Contrariamente a alguns achados, a dissertação de Graça (2021) apontou para uma menor satisfação no regime de trabalho remoto em comparação com o presencial, apesar da maior produtividade. Essa aparente contradição pode ser explicada pela falta de interação social, o isolamento e a menor conexão com a cultura organizacional, aspectos que são valorizados no ambiente de trabalho presencial (Boonen, 2003). A ausência de contato face a face com colegas e superiores pode levar à perda de oportunidades de networking e crescimento profissional, gerando insatisfação (Ceribeli; Mignacca, 2019). A socialização e o senso de pertencimento são elementos importantes para a satisfação, e a ausência de um ambiente físico compartilhado pode comprometer esses aspectos.
O home office borra as fronteiras entre a vida pessoal e profissional, tornando o conceito de equilíbrio entre vida pessoal e profissional (Work-Life Balance) mais desafiador. Nesse contexto, o conceito de Work-Life Flow (WLF), ou Integração Vida Trabalho, ganha relevância. Wells et al. (2023) propõem o WLF como uma alternativa ao Work-Life Balance, argumentando que é impossível separar completamente as duas esferas, pois elas possuem uma relação iterativa. O WLF reconhece a sinergia entre as duas esferas e sugere que a satisfação é alcançada quando o indivíduo consegue integrar de forma fluida as demandas de ambas. Eles afirmam que “the WLF concept merges elements stemming from flow theory and recognizes potential conflicts while focusing on enriching processes that cater to all aspects of an individual’s life” (WELLS et al., 2023, p. 751).
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise dos resultados da revisão bibliográfica revela um cenário complexo e multifacetado sobre o impacto do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores. A aplicação da Análise de Conteúdo permitiu a categorização dos achados da literatura nas categorias temáticas definidas na metodologia, conforme detalhado a seguir:
Produtividade: Os excertos analisados indicam que a produtividade no home office é majoritariamente percebida como positiva. A maioria dos estudos, como os de Miceli (2020) e Gajendran e Harrison (2007), sugere um aumento na produtividade, atribuído principalmente à redução do tempo de deslocamento e à maior capacidade de concentração em um ambiente controlado (DIAS; SILVA, 2020). A pesquisa de Bloom (2024) reforça essa visão ao demonstrar que o modelo híbrido não prejudica o desempenho. No entanto, é crucial reconhecer que a produtividade não é universalmente positiva, sendo afetada por fatores como a infraestrutura doméstica e a autodisciplina do colaborador. Os excertos que abordam a falta de infraestrutura e as distrações domésticas (DIAS; SILVA, 2020) foram enquadrados nesta categoria, indicando a dualidade do impacto.
Satisfação e Bem-Estar: Esta categoria englobou os achados relacionados à percepção de bem-estar e contentamento do colaborador. A satisfação é impulsionada pela flexibilidade e autonomia (SCHALL, 2019), contribuindo para a melhoria da qualidade de vida (SOBRATT, 2020). Contudo, a satisfação pode ser comprometida pela falta de interação social e o isolamento, conforme observado por Graça (2021). O desafio do equilíbrio entre vida pessoal e profissional é central, com o conceito de Work-Life Flow (WLF) emergindo como uma abordagem mais realista para a integração das esferas (WELLS et al., 2023). Os trechos que mencionam a menor satisfação no remoto devido à falta de socialização (Boonen, 2003; Ceribeli; Mignacca, 2019) foram alocados nesta categoria.
Modelo Híbrido: Os excertos que tratam de soluções e tendências foram agrupados nesta categoria. O modelo híbrido surge como uma solução estratégica para mitigar os aspectos negativos do home office, combinando a flexibilidade do trabalho remoto com a interação social e o senso de pertencimento do trabalho presencial (BLOOM, 2024).
A análise de conteúdo permitiu, portanto, ir além da simples descrição dos achados, interpretando o sentido subjacente dos textos e organizando-os de forma coerente com as categorias temáticas propostas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente Trabalho de Conclusão de Curso buscou analisar o impacto do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores, identificando os fatores que influenciam esses aspectos e propondo diretrizes para uma gestão eficaz dessa modalidade de trabalho (Objetivo Geral).
Em resposta à questão de pesquisa – Quais são os principais impactos do home office na produtividade e satisfação dos colaboradores e como esses impactos podem ser gerenciados para otimizar o desempenho e o bem-estar no ambiente de trabalho? – a revisão bibliográfica demonstrou que o home office apresenta um impacto dual. Por um lado, eleva a produtividade e a satisfação devido à maior autonomia, flexibilidade e redução de deslocamento. Por outro lado, impõe desafios como o isolamento social, a dificuldade de desconexão e a necessidade de infraestrutura adequada. O gerenciamento eficaz desses impactos reside na adoção de um modelo híbrido bem estruturado, que equilibra a flexibilidade do remoto com a interação social do presencial.
A pesquisa demonstrou que a produtividade tende a aumentar devido à maior autonomia e à redução de interrupções. A satisfação, por sua vez, é fortemente influenciada pela flexibilidade e pela melhoria na qualidade de vida. Contudo, os desafios relacionados ao isolamento social, à dificuldade de desconexão e à necessidade de infraestrutura adequada não podem ser negligenciados.
O modelo de trabalho híbrido se apresenta como a alternativa mais promissora, capaz de equilibrar os benefícios do trabalho remoto com a necessidade humana de interação social e pertencimento.
Sugere-se que futuras pesquisas explorem a fundo o conceito de Work-Life Flow (WLF) no contexto brasileiro e investiguem o impacto de diferentes modelos de gestão de desempenho no ambiente de trabalho híbrido.
REFERÊNCIAS
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