O IMPACTO DAS SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS BASEADAS EM LENDAS AMAZÔNICAS NA ALFABETIZAÇÃO DE ESTUDANTES DO 4º ANO EM MANAUS-AM

THE IMPACT OF TEACHING SEQUENCES BASED ON AMAZONIAN LEGENDS ON THE LITERACY OF 4TH-GRADE STUDENTS IN MANAUS-AM

EL IMPACTO DE LAS SECUENCIAS DIDÁCTICAS BASADAS EN LEYENDAS AMAZÓNICAS EN LA ALFABETIZACIÓN DE ESTUDIANTES DE 4º GRADO EN MANAUS-AM

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511071230


Hérica Cristina da Silva Pinto1


Resumo

O artigo investiga os efeitos pedagógicos da aplicação de sequências didáticas fundamentadas em lendas amazônicas no processo de alfabetização de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental em duas escolas públicas de Manaus (AM), no contexto pós-pandêmico. A pesquisa, de natureza exploratória e abordagem quali-quantitativa, envolveu 81 estudantes e quatro docentes do CETI Cínthia Régia Gomes do Livramento e da Escola Estadual Ernane Nascimento Simão. As atividades foram organizadas em três etapas: diagnóstico inicial, aplicação de sequências didáticas e avaliação final, utilizando seis lendas regionais (Iara, Curupira, Vitória-Régia, Boto, Mandioca e Guaraná) como eixo de leitura, escrita e expressão artística. A análise dos dados, com base em Bardin (2016), revelou evolução significativa: o índice de alunos alfabetizados aumentou de 63% para 90%, com avanços visíveis na produção textual, fluência leitora e engajamento. Os resultados indicam que o uso das lendas amazônicas ressignificou o ensino da leitura, transformando-o em prática cultural e identitária, conforme os pressupostos de Freire (1996) e Rojo (2013). A experiência demonstrou ainda potencial para promover uma alfabetização intercultural, valorizando saberes locais e fortalecendo o protagonismo infantil. Conclui-se que o ensino contextualizado e ancorado na cultura regional contribui para o desenvolvimento linguístico, afetivo e social dos alunos, reafirmando a importância de metodologias que integrem oralidade, literatura e identidade amazônica no processo de alfabetização.

Palavras-chave: Alfabetização; Lendas Amazônicas; Cultura Regional; Leitura; Educação Amazônica.

Abstract

This article investigates the pedagogical effects of implementing teaching sequences based on Amazonian legends in the literacy process of 4th-grade students in two public schools in Manaus (AM) in the post-pandemic context. The research, exploratory in nature with a quali-quantitative approach, involved 81 students and four teachers from CETI Cínthia Régia Gomes do Livramento and Escola Estadual Ernane Nascimento Simão. The activities were organized in three stages initial diagnosis, application of teaching sequences, and final evaluation using six regional legends (Iara, Curupira, Vitória-Régia, Boto, Mandioca, and Guaraná) as the axis for reading, writing, and artistic expression. Data analysis, based on Bardin (2016), revealed significant progress: the literacy rate increased from 63% to 90%, with visible improvements in text production, reading fluency, and engagement. The results indicate that the use of Amazonian legends redefined reading instruction, transforming it into a cultural and identity-based practice, in line with the assumptions of Freire (1996) and Rojo (2013). The experience also demonstrated potential to promote intercultural literacy, valuing local knowledge and strengthening children’s protagonism. It is concluded that contextualized teaching anchored in regional culture contributes to students’ linguistic, affective, and social development, reaffirming the importance of methodologies that integrate orality, literature, and Amazonian identity in the literacy process.

Keywords: Literacy; Amazonian Legends; Regional Culture; Reading; Amazonian Education.

Resumen

El artículo investiga los efectos pedagógicos de la aplicación de secuencias didácticas basadas en leyendas amazónicas en el proceso de alfabetización de estudiantes de 4º grado de Educación Primaria en dos escuelas públicas de Manaos (AM), en el contexto pos pandémico. La investigación, de carácter exploratorio y enfoque cuali-cuantitativo, involucró a 81 estudiantes y cuatro docentes del CETI Cínthia Régia Gomes do Livramento y de la Escuela Estatal Ernane Nascimento Simão. Las actividades se organizaron en tres etapas, diagnóstico inicial, aplicación de secuencias didácticas y evaluación final utilizando seis leyendas regionales (Iara, Curupira, Vitória-Régia, Boto, Mandioca y Guaraná) como eje de lectura, escritura y expresión artística. El análisis de datos, basado en Bardin (2016), reveló una evolución significativa: el índice de estudiantes alfabetizados aumentó del 63% al 90%, con avances visibles en la producción de textos, la fluidez lectora y el compromiso. Los resultados indican que el uso de las leyendas amazónicas resignificó la enseñanza de la lectura, transformándola en una práctica cultural e identitaria, conforme a los supuestos de Freire (1996) y Rojo (2013). La experiencia también demostró potencial para promover una alfabetización intercultural, valorando los saberes locales y fortaleciendo el protagonismo infantil. Se concluye que la enseñanza contextualizada y anclada en la cultura regional contribuye al desarrollo lingüístico, afectivo y social de los estudiantes, reafirmando la importancia de metodologías que integren oralidad, literatura e identidad amazónica en el proceso de alfabetización.

Palabras clave: Alfabetización; Leyendas Amazónicas; Cultura Regional; Lectura; Educación Amazónica.

1. Introdução

Este artigo apresenta um recorte da tese de doutorado apresentada a Universidad de la Integración de Lás Americas (UNIDA), que pesquisou as lendas amazônicas como narrativas simbólicas no imaginário do neo leitor. O processo de alfabetização constitui um dos maiores desafios da educação brasileira, sobretudo no contexto amazônico, onde as realidades socioculturais e geográficas impõem limites e possibilidades singulares ao ensino. 

As profundas transformações ocasionadas pela pandemia da Covid-19 (2020-2022) impactaram de maneira significativa o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita dos estudantes, especialmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, período decisivo para a consolidação da alfabetização. O retorno às aulas presenciais, após quase três anos de ensino remoto, revelou lacunas expressivas na aprendizagem e uma visível desmotivação dos alunos para a leitura, exigindo dos educadores novas estratégias pedagógicas capazes de reavivar o interesse e a participação ativa dos estudantes no processo educativo (PINTO, 2024).

Nesse cenário, o presente estudo tem como eixo central a aplicação de sequências didáticas baseadas em lendas amazônicas como instrumento metodológico para fortalecer o hábito da leitura e aprimorar a escrita de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental em duas escolas públicas da cidade de Manaus, Amazonas. A escolha pelo gênero “lendas amazônicas” fundamenta-se na compreensão de que o imaginário regional é um elemento vivo da cultura local e, quando incorporado ao processo de ensino-aprendizagem, promove o reconhecimento da identidade cultural dos alunos e o engajamento na construção do conhecimento.

A Amazônia, rica em diversidade cultural e simbólica, oferece um vasto repertório de narrativas míticas transmitidas pela oralidade. Essas histórias, povoadas por figuras como o Curupira, a Iara, o Boto, a Vitória-Régia e outros seres encantados, constituem uma herança simbólica que ultrapassa o campo da tradição popular e se insere como potente ferramenta educativa. Segundo Loureiro (2001), o mito e o poético são expressões estéticas de um imaginário que preserva a memória coletiva e possibilita a compreensão do homem amazônico e de sua relação com o mundo. Assim, ao trazer as lendas para o ambiente escolar, o professor propicia ao aluno o contato com uma forma de literatura que dialoga com seu contexto, despertando a curiosidade, a sensibilidade e o prazer pela leitura.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) reforça que a área de Linguagens, nos anos iniciais, deve possibilitar o desenvolvimento das práticas de leitura e escrita por meio de experiências significativas, que integrem o repertório sociocultural dos estudantes e ampliem suas formas de expressão. Nesse sentido, a utilização das lendas amazônicas como eixo de trabalho pedagógico favorece o cumprimento dessas diretrizes, pois valoriza os saberes locais e contribui para a formação de leitores críticos, autônomos e criativos.

A investigação partiu da constatação, feita por professores das escolas participantes, de que os alunos apresentavam sérias defasagens no domínio da leitura e escrita, consequência direta do período pandêmico e das limitações impostas pelo ensino remoto. Muitos estudantes retornaram à escola com níveis de proficiência abaixo do esperado para o 4º ano, manifestando ainda desinteresse pelas atividades de leitura. Frente a esse diagnóstico, a pesquisa buscou compreender de que maneira a incorporação do imaginário amazônico, através das lendas, poderia contribuir para a superação dessas lacunas e para a retomada do prazer de aprender.

O problema central da pesquisa, portanto, pode ser assim formulado: como o uso das lendas amazônicas, por meio de sequências didáticas, pode contribuir para o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita dos alunos do 4º ano do Ensino Fundamental em escolas públicas de Manaus?

O estudo tem como objetivo geral apresentar e analisar o uso do gênero lendas amazônicas como instrumento facilitador do fortalecimento do hábito de leitura e aprimoramento da escrita em turmas do 4º ano do Ensino Fundamental, após o período pandêmico. Entre os objetivos específicos, destacam-se: (a) desenvolver e aplicar sequências didáticas fundamentadas nas lendas regionais, voltadas à promoção da leitura significativa; (b) avaliar as transformações no desempenho dos estudantes ao longo da aplicação; e (c) compreender as percepções dos professores sobre o impacto dessa metodologia no processo de alfabetização.

A pesquisa justifica-se pela necessidade de rediscutir práticas pedagógicas contextualizadas e culturalmente situadas, capazes de dialogar com a realidade dos alunos amazônicos e de contribuir para a formação de leitores sensíveis à própria identidade regional. Além disso, o estudo propõe reflexões sobre o papel do professor como mediador de experiências culturais e sobre a importância da escola como espaço de valorização da cultura local e de reconstrução do vínculo dos estudantes com o conhecimento.

Assim, ao articular o campo da alfabetização com o patrimônio simbólico da Amazônia, este trabalho reafirma a perspectiva freireana de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra (FREIRE, 1996), reconhecendo que o processo de alfabetizar deve emergir das vivências e da cultura dos sujeitos. Ao transformar as lendas em instrumentos de aprendizagem, a escola assume uma função emancipadora, permitindo que o aluno se veja como protagonista de sua própria história e de sua própria leitura de mundo.

2. Referencial Teórico

2.1 As Lendas Amazônicas e o Valor da Cultura Local

As lendas amazônicas constituem um dos mais expressivos patrimônios culturais da região, preservando na oralidade o conjunto de saberes, crenças e representações do povo caboclo. Essas narrativas, segundo Câmara Cascudo (2002), emergem da convivência do homem com a floresta, com seus rios e animais, e expressam o modo como o sujeito amazônico percebe o mundo e atribui sentido à sua existência. As histórias, transmitidas de geração em geração, condensam experiências, medos, esperanças e valores éticos que compõem o imaginário coletivo da Amazônia.

Durand (1997) destaca que os mitos e lendas estão vinculados aos gestos e símbolos primordiais da humanidade, sendo manifestações da imaginação criadora que estrutura a cultura. No contexto amazônico, tais narrativas mantêm-se vivas como vestígios de uma memória ancestral, capazes de despertar o encantamento e o pertencimento cultural entre os alunos. Loureiro (2001) complementa que o mito e o poético, na literatura amazônica, atuam como espelhos do imaginário, expressando “a ambígua identidade entre o ser e o não ser” e revelando uma profunda dimensão estética e simbólica da vida regional.

Ao serem incorporadas ao ambiente escolar, as lendas possibilitam que os estudantes reconheçam o valor de suas raízes e desenvolvam, de forma lúdica e reflexiva, competências de leitura e escrita. Jabouille (1994) afirma que o mito é uma narrativa coletiva, dotada de ação e personagens memoráveis, cuja função é conservar e transmitir o patrimônio simbólico de uma comunidade. Nesse sentido, as lendas amazônicas transcendem o folclore: constituem uma pedagogia da cultura e uma via de formação identitária.

A literatura regional, portanto, torna-se uma ferramenta potente de ensino, pois promove o encontro entre o conhecimento escolar e o universo cultural do aluno. Como defende Carvalho (2022), as narrativas míticas impulsionam o espírito criador e a imaginação simbólica, possibilitando ao estudante ressignificar sua realidade e compreender-se como sujeito histórico e cultural. Essa perspectiva dialoga com a concepção de Paulo Freire (1996), segundo a qual a leitura do mundo antecede a leitura da palavra — e é nesse encontro com o universo simbólico da própria comunidade que o educando encontra sentido para aprender.

2.2 A Oralidade, o Imaginário e o Ensino da Leitura

A oralidade é um dos pilares do processo educativo e da transmissão de saberes na Amazônia. Segundo Loureiro (2001), o narrador amazônico desempenha papel fundamental na preservação das histórias e na perpetuação do imaginário regional, funcionando como mediador entre o real e o mítico. A contação de histórias, ao ser incorporada como prática pedagógica, reativa a imaginação infantil e estimula o pensamento criativo, tornando o aprendizado mais significativo.

Para Mielietinsky (1987), o imaginário popular é o espaço onde o maravilhoso e o cotidiano se entrelaçam, transformando experiências simples em narrativas cheias de simbolismo e aprendizado moral. Esse potencial educativo justifica o uso das lendas na alfabetização, pois permite que a criança estabeleça conexões entre o texto, o contexto e o mundo em que vive.

Na visão de Bachelard (1996), o devaneio poético é uma das expressões mais autênticas da imaginação humana, porque “protege o psiquismo” e oferece ao sujeito uma via de criação e de liberdade. Essa imaginação criadora, quando estimulada em sala de aula, torna-se um mecanismo para o desenvolvimento das habilidades linguísticas, cognitivas e afetivas do aluno. Assim, as lendas amazônicas não apenas alfabetizam, mas também humanizam, permitindo que o estudante se reconheça nas narrativas e compreenda a relação entre cultura, linguagem e identidade.

2.3 A Leitura na BNCC e a Formação do “Neo Leitor”

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) define a leitura como prática social e cultural que envolve o desenvolvimento de múltiplas competências linguísticas, estéticas e críticas. No campo da alfabetização, a BNCC orienta que os estudantes, ao final do 3º ano do Ensino Fundamental, dominem o sistema alfabético e compreendam textos de diferentes gêneros, promovendo a ampliação do repertório cultural e o prazer de ler.

Nesse contexto, o professor é um mediador fundamental da experiência leitora. Conforme Rojo (2013), cabe ao educador planejar situações didáticas que promovam a interação entre o aluno, o texto e o contexto sociocultural, favorecendo o letramento crítico e plural. A partir dessa perspectiva, as sequências didáticas baseadas em lendas amazônicas representam uma metodologia coerente com as competências gerais da BNCC, pois articulam linguagem, cultura e identidade.

Kleiman (2008) reforça que o ensino da leitura deve priorizar práticas que deem sentido à palavra escrita e estimulem o aluno a produzir significados a partir de suas próprias vivências. Nessa mesma linha, Cosson (2006) propõe a sequência básica de letramento literário, em que o texto literário é usado como eixo de formação do leitor, e não apenas como material de leitura passiva. Aplicar esse modelo ao contexto amazônico, com narrativas regionais, amplia o sentido de pertencimento e fortalece o vínculo entre literatura e experiência social.

Assim, o “neo leitor” amazônico conceito abordado por Pinto (2024) é aquele que ressurge no contexto pós-pandêmico, desafiado a reconstruir o prazer da leitura e da escrita por meio da cultura que o representa. Trata-se de um leitor que aprende a ler o mundo pela lente da própria floresta, reconhecendo-se nas palavras que contam sua história.

2.4 Pandemia, Tecnologia e os Novos Desafios da Alfabetização

A pandemia da Covid-19 impôs uma ruptura drástica nas práticas educativas. O ensino remoto revelou desigualdades profundas de acesso e participação, especialmente na Amazônia, onde a conectividade e os recursos tecnológicos são limitados. Conforme aponta Pinto (2024), o afastamento prolongado da escola produziu lacunas severas na aprendizagem, particularmente nas habilidades de leitura e escrita.

Moran (2018) observa que, diante desses desafios, é preciso repensar a função das tecnologias não apenas como instrumentos de ensino, mas como mediadores culturais capazes de integrar o aluno ao conhecimento de forma criativa e significativa. Nesse sentido, as sequências didáticas com lendas amazônicas representaram, na pesquisa, uma alternativa metodológica híbrida, que conciliou práticas tradicionais de oralidade com atividades multimodais (desenhos, vídeos, dramatizações e textos), favorecendo o engajamento dos estudantes.

Além disso, a pandemia evidenciou a importância da dimensão afetiva e cultural na educação. Segundo Freire (1996), ensinar exige esperança e compromisso ético com o ato de aprender; e nesse processo, o resgate do imaginário cultural se apresenta como via de reconexão do sujeito com o mundo e com o prazer de aprender.

Portanto, o uso pedagógico das lendas amazônicas articula tradição e inovação, oralidade e tecnologia, cultura e alfabetização, configurando-se como uma resposta metodológica contextualizada às novas demandas da escola pós-pandêmica.

3. Metodologia

A pesquisa caracterizou-se como exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa e quantitativa, visando compreender o impacto do uso das lendas amazônicas no processo de alfabetização de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental. O estudo foi conduzido pela professora-pesquisadora, que atuou como observadora participante durante o desenvolvimento das atividades.

O campo empírico compreendeu duas escolas públicas da rede estadual de Manaus (AM), o CETI Cínthia Régia Gomes do Livramento e a Escola Estadual Ernane Nascimento Simão, ambas localizadas na zona Leste da cidade. Participaram da pesquisa 81 alunos do 4º ano e quatro professores regentes, selecionados por apresentarem turmas com defasagens de aprendizagem em leitura e escrita após o ensino remoto decorrente da pandemia.

A investigação foi estruturada em três etapas sequenciais:

  1. Diagnóstico inicial, com aplicação de testes de leitura e escrita para identificar o nível de alfabetização;
  2. Implementação das sequências didáticas, elaboradas a partir de seis lendas amazônicas (Iara, Curupira, Vitória-Régia, Boto, Mandioca e Guaraná), envolvendo leitura compartilhada, interpretação, dramatização e produção textual;
  3. Avaliação final, que comparou os resultados de desempenho e coletou as percepções docentes por meio de entrevistas e questionários semiestruturados. 

Os instrumentos de coleta incluíram avaliações diagnósticas, diários de campo, registros fotográficos e entrevistas narrativas. Os dados foram analisados segundo o método de análise de conteúdo de Bardin (2016), articulando dimensões qualitativas (percepções e atitudes) e quantitativas (progressão do desempenho).

4. Resultados e Discussão

A aplicação das sequências didáticas baseadas em lendas amazônicas revelou-se uma prática pedagógica eficaz para o fortalecimento da leitura e da escrita em turmas do 4º ano do Ensino Fundamental. A análise dos dados quantitativos e qualitativos demonstrou avanços significativos no desempenho dos alunos e transformações perceptíveis no engajamento com as práticas de leitura.

Os resultados iniciais das avaliações diagnósticas mostraram que cerca de 65% dos alunos das duas escolas participantes apresentavam dificuldades na leitura e escrita, permanecendo nos níveis pré-silábico e silábico-alfabético. Após a implementação das três sequências didáticas, observou-se uma evolução gradual, atingindo 90% de alunos alfabetizados ao final do processo.

Essa progressão foi especialmente visível nas atividades de produção textual, nas quais os estudantes passaram de pequenos registros fragmentados para a elaboração de textos coesos, criativos e com domínio básico das convenções da escrita. Tal avanço confirma a hipótese de que o uso das lendas amazônicas enquanto prática de letramento cultural favorece a aprendizagem significativa e contextualizada, conforme propõe Freire (1996), ao destacar que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”.

Além do ganho técnico na alfabetização, notou-se um aumento expressivo do interesse dos alunos pela leitura. Durante as dramatizações e recontos orais, as crianças demonstraram envolvimento e prazer em participar, o que reforça o valor das narrativas regionais como mediadoras afetivas no processo educativo. Moran (2018) observa que o aprendizado se torna mais efetivo quando o estudante se sente emocionalmente implicado nas atividades e o caráter simbólico das lendas favoreceu justamente essa imersão.

Os dados qualitativos, obtidos por meio de observações e entrevistas com os professores, indicaram que a inserção das lendas no currículo resgatou o vínculo cultural dos alunos com o ambiente amazônico. Muitos estudantes reconheceram nas histórias elementos familiares, como o rio, a floresta, os animais e as tradições contadas pelos avós. Esse reconhecimento foi decisivo para que o ato de ler ganhasse sentido, conectando o texto escrito ao universo simbólico da vida cotidiana.

Segundo Loureiro (2001), o imaginário amazônico traduz-se em uma estética do pertencimento, na qual o mito atua como mediador entre o ser humano e a natureza. Essa perspectiva é fundamental para compreender por que as lendas, ao serem trabalhadas pedagogicamente, não apenas alfabetizam, mas também formam sujeitos conscientes de sua cultura e identidade.

Rojo (2013) e Cosson (2006) reforçam que a leitura literária deve ser compreendida como prática social, promotora de letramento crítico e intercultural. Nesse sentido, as sequências didáticas permitiram integrar literatura, oralidade e produção textual, favorecendo a formação do chamado “neo leitor amazônico” (PINTO, 2024) aquele que se alfabetiza a partir da própria cultura, ressignificando sua experiência de mundo.

Os professores participantes relataram que a metodologia “despertou a curiosidade” e “motivou a turma a participar das leituras com entusiasmo”, apontando também que os alunos “passaram a criar textos com mais imaginação e espontaneidade” (PINTO, 2024, p. 148). Essas falas demonstram a efetividade das lendas como gatilhos simbólicos para a criatividade e o engajamento linguístico.

Os resultados também indicaram que o trabalho com as lendas amazônicas contribuiu para o replanejamento das práticas pedagógicas dos professores, que passaram a perceber o valor do repertório cultural local como ferramenta didática. As formações promovidas no decorrer da pesquisa enfatizaram a importância de metodologias interdisciplinares e contextualizadas, aproximando o ensino de língua portuguesa da realidade sociocultural dos alunos.

Essa reflexão está em consonância com as orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), que defende a articulação entre linguagem, cultura e identidade no desenvolvimento das competências comunicativas. O ensino de leitura, quando situado em contextos significativos, promove a autonomia intelectual e o reconhecimento do aluno como sujeito cultural ativo.

A experiência com as sequências didáticas também reforçou a necessidade de formação docente contínua e sensível às especificidades regionais. Como observa Freire (1996), ensinar é um ato político e cultural: o educador precisa compreender o contexto em que o aluno está inserido para que o processo de ensino-aprendizagem seja transformador. Nesse caso, o reconhecimento das lendas como patrimônio simbólico e pedagógico da Amazônia consolidou-se como estratégia didática inovadora e de forte impacto social.

Os dados finais sugerem que a aprendizagem ocorreu de modo mais autônomo e prazeroso quando os alunos puderam relacionar as lendas ao seu cotidiano. As produções textuais demonstraram maior domínio da ortografia, ampliação de vocabulário e uso mais consistente de conectivos e pontuação.

Esses resultados corroboram a concepção de Ausubel (2003) sobre a aprendizagem significativa, que ocorre quando o novo conhecimento se ancora em estruturas cognitivas pré-existentes neste caso, as experiências culturais e simbólicas da Amazônia. O uso das lendas, portanto, não apenas facilitou a alfabetização, mas promoveu uma aprendizagem com sentido, afetividade e identidade.

5. Análise Crítica dos Dados

A leitura crítica dos dados obtidos na pesquisa evidencia que o impacto das sequências didáticas baseadas em lendas amazônicas ultrapassa o campo do desempenho linguístico, alcançando dimensões socioculturais, simbólicas e formativas do processo educativo. Embora os resultados quantitativos indiquem avanços expressivos com a elevação de 63% para 90% no número de alunos alfabetizados, é na dimensão qualitativa que se revelam os aspectos mais profundos da aprendizagem e da formação do leitor.

Os dados demonstram que a introdução das lendas amazônicas no ensino da leitura rompeu com práticas tradicionalmente mecanicistas e descontextualizadas, centradas na repetição de códigos linguísticos. Ao contrário, a abordagem adotada colocou o aluno como sujeito cultural ativo, cuja leitura emerge de experiências simbólicas significativas. Essa transformação metodológica reflete o que Freire (1996) denomina de práxis educativa libertadora, na qual o conhecimento nasce do diálogo entre a cultura do aluno e o conteúdo escolar.

A leitura deixou de ser mera decodificação e passou a ser interpretação do mundo, como evidenciado nas produções textuais dos estudantes, que recontaram as lendas com interpretações próprias, inserindo elementos da vida cotidiana no rio, no bairro, na família, na escola. Esse movimento reforça a ideia de Durand (1997) de que o imaginário é uma forma de “organização simbólica da experiência humana”, permitindo ao sujeito compreender e transformar sua realidade.

Outro aspecto relevante emergente dos dados é o fortalecimento do protagonismo infantil. As crianças não apenas participaram das leituras, mas também se tornaram autoras de novos textos, ampliando o repertório narrativo e linguístico. O projeto culminou na elaboração do livro coletivo Meu Primeiro Livro de Lendas Amazônicas, resultado concreto do processo de autoria compartilhada.

Essa experiência ilustra o que Cosson (2006) chama de letramento literário, no qual a leitura literária é usada como eixo formador, desenvolvendo no estudante a capacidade de se ver como produtor de sentido e de cultura. Na perspectiva de Rojo (2013), esse processo constitui uma prática de letramento social, pois integra o sujeito ao seu meio simbólico e amplia suas formas de expressão e pertencimento.

A análise dos textos produzidos mostra ainda que a escrita passou a refletir maior domínio gramatical, uso mais consistente de conectivos e estruturação de ideias com coesão e coerência. No entanto, mais do que progresso linguístico, observou-se uma mudança de atitude: os alunos passaram a reconhecer a leitura como prática prazerosa e significativa.

Os dados também revelam que o trabalho com as lendas amazônicas favoreceu uma alfabetização intercultural, na qual os saberes locais e as narrativas regionais dialogam com o conhecimento escolar. Essa integração corrobora a proposta de Candau (2016), para quem a educação deve reconhecer a pluralidade cultural e promover aprendizagens que valorizem os diferentes modos de ser e saber.

A abordagem intercultural contribuiu para o fortalecimento da identidade amazônica dos estudantes, que passaram a se perceber como herdeiros e transmissores de um patrimônio simbólico. Essa consciência cultural emergente indica que a alfabetização, quando enraizada no contexto sociocultural do aluno, cumpre um papel político e emancipador reafirmando a concepção freireana de que o ato de ler é também um ato de libertação.

Entretanto, a análise crítica também aponta que a adoção de práticas pedagógicas culturalmente contextualizadas ainda enfrenta barreiras estruturais, como a escassez de formação docente continuada voltada para o uso de saberes regionais, a falta de materiais didáticos contextualizados e as limitações tecnológicas de muitas escolas públicas da Amazônia.

Embora os resultados sejam amplamente positivos, é necessário reconhecer que o estudo envolveu um número reduzido de escolas e turmas, o que limita a generalização dos dados. Além disso, o tempo relativamente curto das intervenções (três sequências didáticas) não permitiu observar os efeitos de longo prazo sobre o desempenho dos alunos.

Mesmo assim, a análise das evidências indica que a metodologia proposta possui grande potencial replicável, especialmente em contextos amazônicos urbanos e ribeirinhos, onde o vínculo entre cultura e aprendizagem pode ser explorado de forma mais ampla. Do ponto de vista pedagógico, a pesquisa demonstra que o ensino da leitura e da escrita precisa incorporar dimensões afetivas e culturais, respeitando o universo simbólico dos alunos. Como destaca Moran (2018), aprender é integrar razão e emoção, teoria e prática, tradição e inovação exatamente o que ocorreu nas atividades com as lendas, que aliaram oralidade ancestral e recursos modernos, como dramatizações, vídeos e ilustrações digitais.

A análise final dos dados sugere que o impacto mais profundo do projeto não se restringe aos alunos, mas se estende à formação e reflexão dos professores. A experiência provocou um repensar das práticas de ensino, levando os docentes a reconhecer o valor pedagógico do imaginário e da cultura regional.

Esse movimento de ressignificação profissional reforça o pensamento de Nóvoa (2017), que defende a necessidade de uma formação docente situada, construída a partir das práticas e experiências vividas no contexto escolar. Ao perceberem que a cultura amazônica pode ser conteúdo e metodologia, os professores passaram a compreender-se como mediadores culturais e não apenas transmissores de conteúdos.

Em síntese, os dados indicam que o uso das lendas amazônicas como estratégia de alfabetização promoveu uma reconfiguração simbólica do processo educativo, em que a leitura deixou de ser exercício técnico para tornar-se prática cultural, afetiva e libertadora.

6. Conclusão

Os resultados da pesquisa confirmam que o uso de sequências didáticas baseadas em lendas amazônicas constitui uma metodologia eficaz e culturalmente significativa para o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A partir da integração entre oralidade, literatura e identidade regional, foi possível observar não apenas avanços técnicos no processo de alfabetização, mas também transformações afetivas e simbólicas que reforçam o vínculo entre o aluno e o ato de aprender.

A análise dos dados revelou uma progressão substancial nos níveis de alfabetização com elevação de 63% para 90% de alunos alfabetizados ao longo das três etapas e um evidente crescimento na autonomia leitora e na produção textual. Entretanto, mais do que índices quantitativos, o estudo evidencia que o ensino pautado na cultura amazônica permite ressignificar o processo educativo, tornando a leitura uma prática viva, contextualizada e identitária.

A inserção das lendas amazônicas no espaço escolar reafirma a importância de uma pedagogia intercultural (CANDAU, 2016), que valoriza os saberes locais e dialoga com a diversidade cultural da Amazônia. Essa abordagem amplia o alcance da alfabetização, pois articula o conhecimento formal com o imaginário popular, aproximando o estudante de suas origens e promovendo a formação de leitores críticos e sensíveis à própria cultura.

Além disso, a experiência contribuiu para o repensar das práticas docentes, evidenciando que o professor é mediador de culturas e criador de pontes entre o saber tradicional e o saber científico. A formação continuada, neste contexto, deve contemplar a valorização dos repertórios regionais como elementos estruturantes do currículo e da prática pedagógica.

Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados apontam para a necessidade de incluir materiais didáticos contextualizados, capazes de refletir a diversidade cultural amazônica e de promover uma alfabetização significativa e equitativa. Investir em propostas pedagógicas que reconheçam o imaginário amazônico como recurso educativo é, portanto, investir em uma escola mais inclusiva, representativa e humanizadora.

Conclui-se que alfabetizar na Amazônia é também contar e recontar histórias que moldam identidades, despertam o prazer pela leitura e reafirmam o direito à palavra como ato de pertencimento e emancipação. As lendas amazônicas, quando resgatadas como práticas pedagógicas, revelam-se mais do que narrativas folclóricas, são ferramentas de libertação simbólica, de reconstrução da esperança e de reinvenção do ensino na floresta.

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1Doutora em Ciências da Educação, Universidad de La Integración de Las Américas (UNIDA). E-mail: hcristina.sp@gmail.com