MICRONUTRIENTES COMO ESTIMULADORES DO CRESCIMENTO NO DESENVOLVIMENTO DE MUDAS DE CAFÉ ARÁBICA (COFFEA ARABICA) APÓS O TRANSPLANTE

MICRONUTRIENTS AS GROWTH STIMULATORS IN THE DEVELOPMENT OF ARABICA COFFEE (COFFEA ARABICA) SEEDLINGS AFTER TRANSPLANTING

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512091914


Fernando Salviano Gomes
Vanessa Tiemi Katagiri
Orientador: Prof. Mateus Fernandes Matos


Resumo: O café arábica (Coffea arabica) é uma das culturas mais importantes no cenário agrícola mundial, sendo valorizado por sua qualidade e sabor. O sucesso no estabelecimento das mudas após o transplantio depende de diversos fatores, entre eles a nutrição adequada com micronutrientes como o boro (B) e o zinco (Zn), essenciais para o desenvolvimento radicular e a adaptação das plantas ao novo ambiente. Diante disso, o objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da aplicação de diferentes doses de boro e zinco no crescimento radicular e no desenvolvimento inicial de mudas de café arábica. O experimento foi realizado em ambiente controlado, utilizando vasos com solo do tipo Latossolo Vermelho Distrófico, preenchidos com mudas da cultivar Arara no estádio de 4 a 8 pares de folhas. Os tratamentos consistiram em quatro doses dos micronutrientes (0%, 50%, 100% e 300% da recomendação), aplicadas via solo, em delineamento de blocos ao acaso com cinco repetições. Foram avaliadas a altura da planta, número de folhas, diâmetro do caule e massa fresca total, e os dados foram analisados por ANOVA e regressão linear. Os resultados indicaram que apenas a altura das plantas foi significativamente influenciada pelas doses aplicadas, com tendência de crescimento proporcional à quantidade de micronutrientes, enquanto as demais variáveis não apresentaram diferenças estatísticas. Conclui-se que a aplicação de boro e zinco pode estimular o crescimento vegetativo inicial, especialmente em altura, mas não é suficiente, isoladamente, para promover mudanças expressivas em outros parâmetros morfológicos sob as condições avaliadas.

Palavras-chave: Boro; Morfologia; Micronutrientes; Zinco.

Abstract: Arabica coffee (Coffea arabica) is one of the most important crops in the global agricultural landscape, valued for its quality and flavor. The successful establishment of seedlings after transplanting depends on several factors, among which adequate nutrition with micronutrients such as boron (B) and zinc (Zn) stands out, as they are essential for root development and plant adaptation to new environments. Therefore, the objective of this study was to evaluate the effects of different doses of boron and zinc on root growth and early development of Coffea arabica seedlings. The experiment was conducted in a controlled environment using pots filled with dystrophic Red Latosol soil and seedlings of the Arara cultivar at the 4 to 8 fully developed leaf pair stage. Treatments consisted of four doses of micronutrients (0%, 50%, 100%, and 300% of the recommended rate), applied to the soil in a randomized block design with five replications. The evaluated variables were plant height, number of leaves, stem diameter, and total fresh mass, with data analyzed using ANOVA and linear regression. Results showed that only plant height was significantly influenced by the applied doses, with a growth trend proportional to the micronutrient levels, while the other variables showed no statistical differences. It was concluded that the application of boron and zinc can stimulate initial vegetative growth, particularly plant height, but is not sufficient, by itself, to promote significant changes in other morphological parameters under the evaluated conditions.

Keywords: Boron; Morphology; Micronutrients; Zinc.

1 INTRODUÇÃO

O café, uma das principais culturas agrícolas do mundo, desempenha um papel crucial na economia global, sendo cultivado predominantemente em regiões tropicais e subtropicais (Mesquita et al., 2016). Dentre as diversas espécies cultivadas, Coffea arabica destaca-se como a mais relevante, devido à sua qualidade superior, sabor mais suave e alta demanda no mercado internacional (Lima Filho, 1991). A produção de C. arabica é fortemente influenciada por fatores agronômicos e ambientais, sendo que a eficiência no manejo da cultura impacta diretamente a produtividade e a qualidade dos grãos (Marana et al., 2008).

O desenvolvimento e o estabelecimento do café, especialmente no processo de transplantio das mudas, são fatores determinantes para o sucesso da produção (Malavolta; Vitti; Oliveira, 1997). Durante o transplantio, as mudas de café sofrem uma série de desafios, como o choque do transporte, adaptação ao novo ambiente e a integração ao solo local (Marana et al., 2008). Nesse contexto, o crescimento inicial e a formação de um sistema radicular vigoroso são essenciais para que as plantas estabeleçam uma boa conexão com o solo e adquiram os nutrientes e a água necessários para o seu desenvolvimento (Marschner, 2022).

Os micronutrientes desempenham um papel fundamental no crescimento vegetal, sendo indispensáveis para diversos processos bioquímicos e fisiológicos (Malavolta, Vitti e Oliveira, 1997). No cafeeiro, em especial, o zinco (Zn) e o boro (B) destacam-se por sua importância no desenvolvimento radicular. O zinco está envolvido na síntese de proteínas, na ativação de enzimas metabólicas e na produção de auxinas, hormônios vegetais que promovem o alongamento celular (Marschner, 2022). O boro, por sua vez, participa da formação e estabilidade das paredes celulares, do transporte de carboidratos e da divisão celular. A deficiência de qualquer um desses elementos pode comprometer significativamente o crescimento e a resistência das mudas, dificultando o estabelecimento radicular e a adaptação ao ambiente pós-transplante (Magalhães e Souza, 1987).

O crescimento radicular é um dos aspectos mais críticos para o estabelecimento bem-sucedido das plantas de café, especialmente após o transplante. A qualidade e a extensão do sistema radicular determinam a capacidade da planta de absorver água e nutrientes essenciais, fatores que influenciam diretamente seu desenvolvimento e a resistência ao estresse. Raízes bem desenvolvidas são fundamentais para a sobrevivência das mudas, pois permitem uma exploração mais eficiente do solo, mesmo em condições de limitação hídrica ou nutricional (Liu e Hou, 2018). Além disso, um sistema radicular robusto proporciona maior ancoragem e estabilidade à planta, reduzindo o risco de acamamento ou danos causados por condições climáticas adversas, como ventos fortes ou chuvas intensas (Jasen e Potters, 2017).

O problema de pesquisa que norteia o estudo é: de que maneira a aplicação dos micronutrientes zinco e boro influencia o desenvolvimento radicular e a adaptação de mudas de Coffea arabica após o transplante, e em que medida esses elementos contribuem para a resistência a estresses abióticos e a otimização da produtividade da cultura?

Diante disso, o objetivo geral do estudo é avaliar a influência da aplicação de boro e zinco no crescimento radicular e desenvolvimento inicial de mudas após o transplantio.

2 Desenvolvimento

2.1 Café arábica

O café arábica (Coffea arabica L.) desempenha um papel central na economia agrícola brasileira, representando cerca de 70% da produção mundial de café. O Brasil lidera a produção global, sendo responsável por aproximadamente 79% da área cultivada com essa espécie no país, o que equivale a 1,43 milhões de hectares. Em 2022, a estimativa de produção brasileira foi de 55 milhões de sacas de 60 kg, das quais 38 milhões corresponderam ao café arábica, evidenciando sua predominância na cafeicultura nacional (CONAB, 2022). 

Além de sua relevância econômica, o café arábica possui características agronômicas superiores, como maior qualidade sensorial e menor teor de cafeína em comparação ao robusta. Essas qualidades conferem ao arábica um valor comercial mais elevado, sendo preferido nos mercados internacionais de cafés especiais. No Brasil, a produção de arábica concentra-se em regiões de altitudes elevadas, como Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, onde as condições climáticas favorecem o cultivo de grãos de alta qualidade (Camargo et al., 2021). 

A sustentabilidade na produção de café arábica tem ganhado destaque, com iniciativas voltadas para a melhoria da qualidade do grão e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis. Essas ações visam não apenas atender às exigências do mercado, mas também promover o bem-estar dos produtores e a conservação ambiental. Estudos indicam que a avaliação da sustentabilidade nas propriedades cafeeiras é fundamental para identificar desafios e implementar estratégias que melhorem o desempenho socioeconômico e ambiental das lavouras (Silva et al., 2024). 

Historicamente, o café arábica foi introduzido no Brasil no século XVIII e se tornou um dos principais produtos de exportação do país. A partir de 1880, sua produção expandiu-se significativamente nas regiões de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, consolidando o Brasil como líder mundial na produção e exportação de café. Atualmente, o país é responsável por cerca de 70% das exportações globais de café, refletindo a importância histórica e econômica do arábica na formação da economia brasileira (Associação Brasileira da Indústria de Café, 2022). 

O melhoramento genético do café arábica tem sido crucial para o desenvolvimento da cafeicultura brasileira. Pesquisadores como Alcides Carvalho e Carlos Arnaldo Krug desempenharam papéis fundamentais nesse processo, desenvolvendo variedades mais produtivas e resistentes a doenças. Esses avanços contribuíram para o aumento da produtividade e da qualidade do café brasileiro, consolidando sua posição no mercado internacional (IAC, 2023). 

Assim, o café arábica tem grande importância para a economia e cultura do Brasil. Sua produção não apenas impulsiona a economia agrícola, mas também promove práticas sustentáveis e contribui para o desenvolvimento social nas regiões produtoras. A contínua valorização da qualidade e sustentabilidade na produção de arábica é essencial para manter a competitividade do Brasil no cenário global do café (Souza et al., 2023).

2.2 Desenvolvimento inicial do café

O desenvolvimento inicial do cafeeiro arábica, particularmente no período póstransplante, é uma fase crítica que demanda atenção especial ao manejo nutricional. Além dos macronutrientes, os micronutrientes desempenham papéis essenciais no desenvolvimento inicial do cafeeiro. Elementos como ferro (Fe), zinco (Zn), cobre (Cu), manganês (Mn) e boro (B) são requeridos em pequenas quantidades, mas são fundamentais para processos fisiológicos vitais. Por exemplo, o ferro é essencial na fotossíntese e biossíntese de proteínas e clorofila, enquanto o zinco participa como ativador de várias enzimas, como a RNA polimerase, interferindo nos processos de síntese proteica (Taiz & Zeiger, 2013).

É importante ressaltar que o manejo nutricional deve ser adaptado às condições específicas de cada região e tipo de solo. A análise de solo e foliar é uma ferramenta essencial para determinar as necessidades nutricionais das plantas e ajustar as doses de fertilizantes de forma precisa. Além disso, práticas como a calagem e o uso de matéria orgânica podem melhorar a disponibilidade de nutrientes e promover um ambiente favorável ao desenvolvimento das mudas (Malavolta, 2006).

2.3 Micronutrientes 

Os micronutrientes, embora requeridos em menores quantidades pelas plantas, desempenham funções vitais no desenvolvimento e na produtividade do cafeeiro arábica. Elementos como ferro (Fe), cobre (Cu), manganês (Mn), zinco (Zn), boro (B) e molibdênio (Mo) são essenciais para processos fisiológicos e bioquímicos fundamentais, incluindo a fotossíntese, a síntese de proteínas, a divisão celular e a resistência a estresses bióticos e abióticos. A deficiência desses nutrientes pode comprometer significativamente o crescimento vegetativo e reprodutivo da planta, afetando a formação de folhas, flores e frutos, além de reduzir a qualidade da bebida produzida (Taiz & Zeiger, 2013).

A disponibilidade adequada desses micronutrientes no solo é crucial para o bom desempenho do cafeeiro. Práticas como a análise periódica do solo e das folhas permitem monitorar os níveis nutricionais e ajustar as adubações de forma precisa. Além disso, a escolha de fontes de fertilizantes apropriadas e a aplicação no momento correto são estratégias importantes para garantir a absorção eficiente desses elementos pelas plantas. A adoção de um manejo nutricional equilibrado contribui para o aumento da produtividade e para a obtenção de grãos de café de alta qualidade (Cantarella et al., 2007).

Assim, os micronutrientes desempenham papéis indispensáveis na fisiologia do cafeeiro arábica. A atenção ao fornecimento adequado desses elementos, por meio de práticas de manejo nutricional bem planejadas, é fundamental para assegurar o desenvolvimento saudável das plantas e a produção de grãos de alta qualidade. Dentre esses micronutrientes, o zinco e o boro merecem destaque especial devido à sua importância em processos específicos do crescimento e reprodução do cafeeiro, os quais serão abordados em tópicos subsequentes (Malavolta, 2006).

2.3.1 Zinco

O zinco (Zn) é um micronutriente essencial para o cafeeiro arábica, desempenhando papéis cruciais em diversos processos fisiológicos. Atua como cofator de várias enzimas, incluindo a RNA polimerase, influenciando a síntese de proteínas e o metabolismo celular. Além disso, é fundamental na formação do triptofano, precursor do ácido indol acético (AIA), um hormônio regulador do crescimento vegetal que atua no alongamento celular e no desenvolvimento de tecidos vegetais (Taiz & Zeiger, 2013).

A deficiência de zinco no cafeeiro manifesta-se inicialmente nas folhas mais jovens, que apresentam clorose internerval, tornando-se estreitas, retorcidas, coriáceas e quebradiças. Os internódios tornam-se encurtados, e as gemas apicais podem morrer, resultando em plantas com aspecto de “pescoço pelado” ou “roseta” (Malavolta et al., 1997). Além disso, observa-se redução na produção de flores e frutos, comprometendo a produtividade da lavoura (Matiello, 2014).

Os solos mais suscetíveis à deficiência de zinco são aqueles de textura arenosa e pH elevado, que dificultam a disponibilidade do nutriente. Fatores como altas doses de fósforo e calagem excessiva também podem reduzir a absorção de zinco pelas raízes (Cantarella et al., 2007).

Para corrigir a deficiência de zinco, recomenda-se a aplicação de fontes como sulfato de zinco ou nitrato de zinco, tanto via solo quanto foliar. A adubação foliar é eficiente, especialmente em solos com alta retenção de zinco, como os argilosos, enquanto a aplicação via solo é indicada para solos com menor capacidade de troca catiônica (Matiello, 2014).

É importante monitorar os teores de zinco no solo e nas folhas para ajustar as práticas de manejo. Teores foliares entre 10 e 20 mg/dm³ são considerados adequados, enquanto no solo, níveis acima de 3 mg/dm³ são desejáveis para garantir a disponibilidade do nutriente. A deficiência desse micronutriente compromete significativamente a produção e a qualidade dos grãos, sendo essencial um manejo adequado para suprir as necessidades nutricionais da planta (Malavolta et al., 1997).

2.3.2 Boro

O boro (B) é um micronutriente essencial para o cafeeiro arábica, desempenhando papéis fundamentais em diversos processos fisiológicos. Embora não seja componente direto de enzimas, o boro atua como um elemento estruturante nas paredes celulares, influenciando a integridade e a rigidez das células vegetais. Além disso, o boro está envolvido na síntese de ácidos nucleicos, na translocação de açúcares e na formação de lignina, substância que confere resistência mecânica às plantas (Marschner, 1995). 

A deficiência de boro no cafeeiro manifesta-se inicialmente nas folhas mais jovens, que apresentam sintomas como necrose nas extremidades, deformações e clorose. Além disso, observa-se redução na produção de flores e frutos, comprometendo a produtividade da lavoura. Esses sintomas podem ser exacerbados em solos com pH elevado ou em condições de alta umidade, que favorecem a lixiviação do boro (Malavolta et al., 1997).

A absorção de boro pelas raízes ocorre principalmente na forma de ácido bórico (H₃BO₃), sendo um processo passivo que depende do fluxo de massa. No entanto, a translocação do boro dentro da planta é limitada, o que significa que a deficiência pode afetar primeiramente as partes mais novas da planta, como folhas e flores, antes de se manifestar em outras áreas (Marschner, 1995). 

Para corrigir a deficiência de boro, recomenda-se a aplicação de fontes como o bórax (Na₂B₄O₇·10H₂O) ou ácido bórico (H₃BO₃), tanto via solo quanto foliar. A adubação foliar é eficiente, especialmente em solos com alta retenção de boro, como os argilosos, enquanto a aplicação via solo é indicada para solos com menor capacidade de troca catiônica (Malavolta et al., 1997) 

É importante monitorar os teores de boro no solo e nas folhas para ajustar as práticas de manejo. Teores foliares entre 20 e 40 mg/kg são considerados adequados, enquanto no solo, níveis acima de 0,5 mg/kg são desejáveis para garantir a disponibilidade do nutriente (Marschner, 1995).

3 METODOLOGIA

O experimento foi conduzido em vasos plásticos com capacidade de 4 litros, totalizando 20 unidades. Cada vaso foi preenchido com solo coletado de um barranco, classificado como Latossolo Vermelho Distrófico. O solo passou por peneiramento com o objetivo de garantir sua uniformidade e eliminar impurezas, estabelecendo condições adequadas para o crescimento inicial das mudas.

O ensaio foi realizado em ambiente controlado, de modo a minimizar interferências externas e prevenir estresses abióticos durante o período de desenvolvimento. A irrigação foi realizada de forma regular e criteriosa, com o objetivo de manter a umidade do solo próxima a 90% da capacidade de campo. Esse controle foi fundamental para evitar déficits hídricos, assegurando condições ideais ao desenvolvimento das plantas.

Foram utilizadas mudas da cultivar Arara de café arábica (Coffea arabica), transplantadas no estádio de 4 a 8 pares de folhas completamente desenvolvidas. Para suprir as exigências nutricionais das plantas, os micronutrientes zincos (Zn) e boro (B) foram fornecidos por meio de sulfato de zinco e ácido bórico, respectivamente. A aplicação foi realizada via solo, diretamente no sulco de plantio.

As dosagens utilizadas seguiram as recomendações descritas na Tabela 1.

Tabela 1. Descrição dos tratamentos aplicados no experimento, São Gotardo, MG, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

O delineamento experimental adotado foi o de blocos ao acaso (DBC), com quatro tratamentos e cinco repetições, totalizando 20 unidades experimentais. Cada tubete correspondeu a uma unidade experimental.

As avaliações de crescimento das mudas foram realizadas em um único momento, considerando as seguintes variáveis: altura da planta, número de folhas, diâmetro do caule e massa fresca total. O experimento foi conduzido até que as mudas alcancem tamanho adequado para a mensuração dessas variáveis.

A altura das plantas foi aferida com fita métrica, do nível do solo até o ponto mais alto da parte aérea. O número de folhas foi contado manualmente, com o auxílio de lupa para maior precisão na identificação de folhas recém-formadas. O comprimento da raiz foi medido na base da planta, utilizando paquímetro digital, como indicador do desenvolvimento estrutural. A massa fresca total foi obtida por pesagem imediata das plantas inteiras após a retirada do solo e limpeza, sem a realização de secagem, em balança analítica de precisão.

Todas as medições foram realizadas de forma padronizada, no mesmo momento, a fim de evitar variações associadas ao crescimento contínuo das plantas.

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância (ANOVA), adotando-se nível de significância de 5%. As médias dos tratamentos foram comparadas por meio de análise de regressão linear, visando avaliar a resposta das mudas às doses aplicadas. As análises estatísticas foram realizadas com o auxílio do software SISVAR (Ferreira, 2014).

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 1 apresenta os resultados da análise de variância (ANOVA) para a variável altura da parte aérea das mudas de café arábica, submetidas a diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco, em condições controladas no município de São Gotardo, MG, no ano de 2025.

Tabela 2 – Análise de variância da altura de parte aérea em função das diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco: São Gotardo, MG, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

Observa-se que houve diferença estatisticamente significativa entre os tratamentos aplicados, conforme indicado pelo valor de p (Pr > Fc = 0,0020), inferior ao nível de significância adotado de 5%. O teste F revelou efeito das doses de boro e zinco sobre a altura da parte aérea, com F calculado (Fc) de 7,774, o que demonstra que a aplicação dos micronutrientes influenciou de forma relevante o crescimento das mudas nesse parâmetro. O coeficiente de variação (CV) foi de 4,94%, indicando boa precisão experimental, e a média geral obtida foi de 16,37 cm.

Considerando a significância observada, torna-se necessário avaliar o comportamento da variável em função das doses aplicadas, a fim de identificar tendências de resposta das mudas ao aumento da concentração dos micronutrientes. Para isso, será apresentado, a seguir, o gráfico 1 da análise de regressão correspondente à variável altura da parte aérea.

Gráfico 1 – Altura de parte aérea de mudas de café arábica em função de diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco em experimento realizado em São Gotardo, MG, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

A análise de regressão para a variável altura da parte aérea das mudas de café arábica revelou uma relação quadrática significativa entre as doses de ácido bórico e sulfato de zinco aplicadas ao solo. Conforme o gráfico apresentado, observa-se um incremento na altura das mudas até a dose correspondente a 100% da recomendação, seguido por uma queda no crescimento nas doses mais elevadas.

Do ponto de vista fisiológico, tanto o zinco (Zn) quanto o boro (B) desempenham papéis fundamentais no crescimento vegetal. O zinco está diretamente relacionado à síntese de auxinas, especialmente o ácido indolacético (AIA), que regula a expansão celular e a dominância apical, impactando diretamente a altura das plantas (Alloway, 2008). Já o boro é essencial na integridade da parede celular, na divisão celular e na mobilidade de açúcares, sendo crucial em tecidos meristemáticos e no crescimento de novas estruturas vegetativas (Taiz et al., 2017). 

Contudo, a queda observada na altura das plantas sob a dose de 300% pode ser atribuída ao fenômeno de toxicidade nutricional. Excesso de zinco pode interferir na absorção de outros nutrientes como ferro (Fe) e manganês (Mn), comprometendo o metabolismo geral da planta (Marschner, 2012). Além disso, níveis elevados de boro podem causar desorganização do sistema vascular, necrose em tecidos jovens e interrupção da divisão celular, levando à redução do crescimento (Marschner 2012). 

A Tabela 3 apresenta os resultados da análise de variância (ANOVA) para a variável comprimento total de raízes das mudas de café arábica, submetidas a diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco, em condições controladas no município de São Gotardo, MG, no ano de 2025.

Tabela 3 – Análise de variância do comprimento total de raízes em função das diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco: São Gotardo, MG, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

A análise de variância apresentada na Tabela 3 mostra que não houve diferença estatisticamente significativa entre as doses de ácido bórico e sulfato de zinco para a variável comprimento das raízes das mudas de café arábica (Pr > Fc = 0,788). O valor de F calculado (Fc = 0,352) foi muito inferior ao valor crítico para significância ao nível de 5%, indicando que a aplicação dos micronutrientes, nas proporções avaliadas, não influenciou de forma relevante essa variável morfológica.

Essa ausência de resposta estatística significativa pode estar relacionada ao fato de que o desenvolvimento radicular, sobretudo em termos de diâmetro, pode demandar um período mais prolongado para apresentar diferenças visíveis em função do fornecimento de micronutrientes. Resultados similares foram observados por Honda Filho (2022), ao avaliar o enraizamento de miniestacas de café arábica submetidas à presença de boro e zinco em solução com AIB. O autor observou que, embora B e Zn tenham promovido crescimento radicular, esse efeito se expressou mais fortemente em condições específicas, como alta concentração de sacarose e manutenção da área foliar remanescente. Isso sugere que, isoladamente, a aplicação de micronutrientes pode não ser suficiente para induzir mudanças significativas em certas características morfofisiológicas, como o espessamento de raízes, especialmente em estágios iniciais de desenvolvimento ou sob condições ambientais controladas e favoráveis.

Assim, os resultados obtidos corroboram a conclusão de Honda Filho (2022), de que a atuação de micronutrientes como o boro e o zinco sobre o sistema radicular depende não apenas de sua presença, mas também de fatores adicionais, como o status nutricional da planta, a atividade hormonal (como o AIB), o aporte energético (sacarose) e o equilíbrio entre estímulo de crescimento vegetativo e radicular.

Tabela 4 – Análise de variância do número de folhas em função das diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco: São Gotardo, MG, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

A Tabela 4 apresenta os resultados da análise de variância relativos ao número de folhas das mudas de Coffea arabica submetidas a diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco, resultado semelhante ao parâmetro diâmetro de raíz. Os resultados indicam ausência de efeito estatisticamente significativo (Pr > Fc = 0,715), com valor de F = 0,458 abaixo do limiar crítico para p= 5%. 

Essa ausência de resposta no número de folhas pode ser explicada pela dinâmica fisiológica da planta: o efeito de micronutrientes como boro e zinco tende a se manifestar primeiramente na qualidade foliar — teor nutricional, composição bioquímica, metabolismo enzimático — antes de refletir em variáveis quantitativas, como o número de folhas. Isso foi evidenciado por Inthasan et al. (2021) em estudo realizado na Tailândia, que identificou aumento na concentração foliar de Zn e B e melhoria na produtividade, mas não destacou efeitos diretos no número de folhas por planta

Tabela 5 – Análise de variância da massa fresca em função das diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco: São Gotardo, MG, 2025.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025

A Tabela 5 apresenta os resultados da análise de variância para a variável massa fresca total das mudas de Coffea arabica em diferentes doses de ácido bórico e sulfato de zinco. Os resultados tambem revelaram ausência de efeito estatisticamente significativo (Pr > Fc = 0,837), com o valor de F obtido (0,283) abaixo do nível crítico a 5%.

Estudos similares reforçam essa interpretação. Em pesquisa conduzida na Etiópia por Tesfaye et al. (2019), realizou-se experimento em vasos com aplicação de diferentes doses de nitrogênio, boro e zinco em mudas jovens de café, avaliando também variáveis relacionadas à massa fresca e biomassa total. Embora alguns efeitos positivos tenham sido observados em combinação com nitrogênio e em estádios mais avançados de crescimento, as aplicações isoladas de boro ou zinco não ocasionaram aumentos significativos na massa fresca total nos estádios iniciais (Tesfaye et al., 2019).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nos resultados obtidos, verifica-se que a aplicação de diferentes doses de boro e zinco influenciou significativamente apenas a altura da parte aérea das mudas de Coffea arabica, indicando que esses micronutrientes, quando aplicados em proporções adequadas, podem estimular o crescimento vegetativo inicial da planta. As demais variáveis analisadas — diâmetro de raízes, número de folhas e massa fresca total — não apresentaram diferenças estatísticas significativas, sugerindo que, isoladamente, os micronutrientes não foram suficientes para promover alterações mensuráveis nessas características sob as condições avaliadas.

Esses achados reforçam a importância do equilíbrio nutricional no desenvolvimento inicial do cafeeiro, destacando que a resposta fisiológica às aplicações de micronutrientes pode variar conforme o parâmetro analisado e o estágio fenológico da planta. Portanto, a utilização de boro e zinco deve considerar não apenas as doses, mas também estratégias integradas de manejo nutricional e estímulos complementares.

REFERÊNCIAS

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