REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512091843
Lázaro Teixeira Trindade
RESUMO:
O presente trabalho examina a presença-ausência do paradigma utópico na Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA) entre os anos de 1988 e 2000. Ele sintetiza os resultados da pesquisa homônima situando a interpretação bíblica na aporética entre Utopia e Teologia da Libertação. O trabalho possui três momentos. Primeiro descrever-se-á a metodologia utilizada na pesquisa. Os resultados desta serão assunto do segundo momento. Por fim, o terceiro momento esboçará o conceito de utopia que advém da RIBLA e suas características fundamentais. Disso concluir-se-á que a utopia não é somente algo acrescentado desde fora da interpretação bíblica: há na exegese da RIBLA um momento utópico.
Palavras-chave: Bíblia; Presença-Ausência; RIBLA; Teologia da Libertação; Utopia
1. INTRODUÇÃO
Qual a influência de um conceito ou paradigma extrabíblico na interpretação das Escrituras? Existem critérios pelos quais pode-se definir quais deles são aptos ou não para o trabalho exegético? De fato, desde os Santos Padres, a Teologia e a Exegese serviram-se de tais conceitos e paradigmas para auscultar e falar da Revelação de Deus. Em continuidade com esta tradição, a Teologia da Libertação se apropriou do paradigma utópico para explicitar a ação de Deus e sua práxis libertadora em terras latino-americanas.
O uso do paradigma utópico não é consenso na Teologia da Libertação. Para uns a utopia é força de esperança, para outros, rompe com a originalidade histórica do Cristianismo. A problemática insere-se na polêmica relação entre cristianismo e marxismo. A Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da Libertação” (1984) chama a atenção para a apropriação acrítica do instrumental marxista que reduz à aspectos puramente imanentes os componentes fundamentais da Revelação Cristã (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, 1984, p. 29).
Interpretando esta Instrução Lima Vaz defende a incompatibilidade radical entre utopia-marxismo e cristianismo. Ao se propor como motor da história a utopia nega o Evento Cristo como “lugar” hermenêutico fundamental da Teologia Cristã da História e encerra a dialética história e meta-história num nível da imanência fazendo com que não se consiga perceber a salvação de Deus no tempo e no espaço (LIMA VAZ, 1984, p. 10-13).
Por seu turno, Libânio (1989a, p. 92-100) mostra que o paradigma utópico é algo constitutivo do homem. A utopia é a face imanente da Esperança Cristã não fechando o homem a dimensão meta-histórica e transcendente. Neste sentido, utopia e cristianismo não são incompatíveis (Ibid., p. 104). Hinkelammert (2013, p. 20), neste sentido, chama atenção para a “ingenuidade anti-utópica”: pois uma sociedade sem utopias já é uma utopia. A isso, soma-se o desencanto das novas gerações que – mesmo perdendo a dimensão de futuro – anseiam por transformações radicais, isto é, por utopias (ALMEIDA, 2018, p. 27).
Este trabalho transpõe essa questão para o campo da exegese. Aqui se analisará a influência da utopia na exegese bíblica latino-americana tomando como base uma revista paradigmática nesta relação entre os anos de 1988 e 2000: a Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA). Esta consiste num periódico de leitura popular da Bíblia que emergiu das experiências de fé das comunidades de todo continente. A RIBLA é uma revista de intercâmbio entre biblistas, comunidades e toda a sociedade. Sua intenção primeira é incentivar a centralidade da Palavra de Deus na vida de fé dos cristãos latino-americanos.
Assim, o uso do paradigma utópico, ajuda ou atrapalha a reflexão exegética? Esta é a questão que guiará este trabalho. Aqui demonstrar-se-á a tese de que somente uma autocrítica da exegese utópica pode tornar o uso deste paradigma viável. Tal crítica revela o mais originário da utopia com sua potência simbólica e mítica possibilitando o diálogo entre a bíblia e a realidade da América Latina.
2. METODOLOGIA
A metodologia aplicada para a realização da pesquisa consistiu numa análise e sistematização conceitual do paradigma utópico presente nos trinta e sete números da RIBLA entre os anos de 1988 e 2000. Primeiro analisou-se como a Utopia está presente-ausente nos textos da RIBLA identificando as principais citações e qual o lugar do lexema “utopia” na hermenêutica dos teólogos bíblicos. Em seguida, essas recorrências foram organizadas e sistematizadas em categorias que manifestassem o que os autores entendem por utopia.
Sendo assim, a pesquisa não toma uma definição a priori de utopia para depois perscrutar se ela aparece ou não na RIBLA. Por isso, trabalha-se aqui com a expressão “paradigma utópico” e não com o conceito de utopia. O primeiro indica um certo horizonte de sentido, não unívoco, pelo qual os autores leem a realidade. O segundo denota uma compreensão mais delimitada e definida desde fora da pesquisa.
Na análise, optou-se por uma leitura cronológica do material enfatizando as recorrências lexicais do termo “utopia” e seus afins. Logo, não é objeto dessa pesquisa empreender uma exegese direta dos textos bíblicos, nem se usará desta para corrigir ou legitimar a “exegese” da RIBLA. Não obstante, a pesquisa se valerá de categorias filosóficas e teológicas que advém do status quaestionis da utopia principalmente na América Latina.
O conceito de utopia na RIBLA será esboçado somente no momento da sistematização. Neste momento, as várias citações foram agrupadas segundo três critérios: (1) se são de interpretação bíblica ou de teologia sistemática, (2) se possuem uma visão positiva ou negativa do termo utopia. Por último, e mais importante, (3) se tomam a utopia como uma “forma” (gênero literário) ou como “conteúdo” dos textos bíblicos e sistemáticos. Além disso, uma atenção especial fora dada ao v. 24 (1996) da revista. Totalmente dedicado à utopia, ele marca uma evolução do paradigma na RIBLA.
A partir destes critérios, a pesquisa discute em que medida a utilização do paradigma utópico é ou não plausível para a teologia bíblica latino-americana. Nesta perspectiva, confrontou-se o conceito de utopia que emergiu da análise e sistematização da RIBLA com algumas categorias exegético-teológicas fundamentais tais como a Esperança Cristã. De tal confronto emergem os limites e as possibilidades da relação entre utopia e teologia da libertação.
Este artigo em questão possui dois momentos: o primeiro apresenta as principais recorrências do lexema utopia nos 37 volumes da RIBLA destacando os artigos de exegese bíblica e “realidade pastoral”. O segundo momento esboçará as linhas fundamentais do conceito de utopia presente na RIBLA: força dinamizadora, resistência crítica e ligação com as culturas populares.
3. RESULTADOS
O termo “utopia” é citado 424 vezes nos 37 volumes pesquisados da RIBLA (1988-2000). Ele aparece em todos os volumes, com exceção dos vv. 5-6, 17 e 20. Além disso, o v. 24 (1996) é totalmente dedicado à utopia. Neste sentido, percebe-se que a exegese da RIBLA é marcada pelo paradigma utópico. Nas primeiras linhas da revista, a utopia emerge como uma mediação hermenêutica decisiva para leitura bíblica na América Latina (SCHWANTES, 1988a, p. 5). Tal leitura da Bíblia se dá de dois modos: na RIBLA, (1) nos artigos de interpretação bíblica e (2) em textos que refletem situações da atualidade pastoral.
Nos artigos de interpretação bíblica, o maior uso do lexema “utopia” corresponde à hermenêutica do Antigo Testamento (AT). A “utopia” está relacionada a expressões como “vida abundante”, “terra que corre leite e mel”, “Promessa” e “Aliança”. A utopia remete à espera da ação de Deus na vida do povo de Israel, em especial do campesinato, destinatários e partícipes da utopia (MESTERS, 1996, p. 102). De maneira geral, os textos do AT traduzem o desejo de libertação popular que os autores da RIBLA nomearam de “utopia”. Neste sentido, a profecia é a porta-voz da utopia, como afirma Croatto (2000, p. 24):
A ideia central é destacar que na redação dos mesmos, os autores queriam, em última instância, gerar uma utopia de libertação, de realização de seus destinatários judeus como povo em sua terra, a utopia de um futuro em nova aliança sem retorno a infidelidade, mas sim com recuperação econômica, política e religioso-cultural1.
Assim, o vocábulo designa o conteúdo da mensagem profética e veterotestamentária tornando-se instrumento de fidelidade e resistência pela qual o Povo de Deus se opunha a seus opressores. Nesta perspectiva os autores da RIBLA leem os grandes símbolos da história de Israel em chave utópica como por exemplo a figura de Sião-Jerusalém (Is 66) e a Lei do Jubileu (Lv 25). Na maioria das vezes este uso é positivo, em outros casos, o vocábulo é usado de maneira pejorativa como propõe Galazzi (1992, p. 94): “uma utopia anacrônica e nunca realizada”.
Em ambos os casos o paradigma utópico emerge como uma solução exegética para as questões bíblicas. Aqui a utopia emerge como um gênero literário. Ela suscita a imaginação crítica e criativa gera novas maneiras de pensar e de agir (ZAVATIERO, 1989, p. 24). Através da utopia os autores transitam entre as narrativas veterotestamentárias e a realidade das comunidades latino americanas. Esta abordagem se repete na maioria dos textos. Não obstante, é notável a ausência do lexema utopia na exegese do bloco sapiencial.
Por seu turno, na exegese do Novo Testamento (NT) o lexema está ligado às realidades como o Reino de Deus, a esperança, a ressurreição e ao “novo céu e nova terra”. Além disso, também a prática e a pessoa de Jesus manifestam uma utopia de vida nova (GONZALO, 1994, p. 96). Além disso, para os autores da RIBLA, a imagem da Igreja presente em Mt 18 é também uma utopia que guia as primeiras comunidades. Esta utopia orienta as igrejas: o importante não é a realização da “utopia”, mas estar caminhando na direção histórica e evangélica impelida por ela (RICHARD, 1997, p. 6-8).
A exegese da 1 e 2Pd enfatiza a manutenção da utopia como “resistência”. Neste sentido, a utopia alimenta as esperanças da comunidade frente às dificuldades da fé como o retardo da parousia e a relação daquela com os poderes civis. Do “reino da utopia” retira-se as energias necessárias para o aqui e o agora das comunidades. Tal movimento é atualizado para o contexto da modernidade:
A proposta da modernidade é um regime de eficiência, produtividade e avanço tecnológico. É a negação de outros valores como a arte, a dignidade da pessoa humana, a necessidade não só de produzir, mas de distribuir com justiça. Porém, é sobretudo a morte dos sonhos, a negação dos ideais e a orfandade da utopia […]. Negar a utopia de uma sociedade nova é matar a possibilidade de resistência. Anunciá-la é ao contrário negar o fracasso do Reino de Deus e pinçar a esperança construtiva dos cristãos (RODRIGUEZ, 1992, p. 54)2.
De maneira geral, os autores da RIBLA procedem relacionando e identificando no texto bíblico os anseios e projetos das primeiras comunidades, isto é, “suas utopias”. Também aqui opera-se uma atualização da mensagem mostrando que as “utopias bíblicas” correspondem às utopias da comunidade Latino-Americana. Não obstante, é notável a ausência do lexema utopia na interpretação dos textos paulinos e joaninos. Nos escritos paulinos, as poucas menções identificam utopia e esperança no contexto do retardo da parousia. Já nos escritos joaninos, o lexema liga-se à exegese do Ap.
Nos artigos de exegese bíblica, o termo utopia exerce a mediação entre a Palavra de Deus e a atualidade. Tal caráter deve-se a presença da utopia na Bíblia e a presença da Bíblia nas utopias populares. A leitura utópica das Escrituras indica um “para onde” a ser percorrido criando novas maneiras de compreender, viver e esperar (RICHARD, 1988, p. 14). Num primeiro momento, a utopia é conteúdo comum entre as Escrituras e as comunidades. Ela é uma realidade para ou pelo qual tendem a Bíblia e a Teologia Latino Americana. Noutro momento, ela é forma literária comum à Bíblia e a realidade e, portanto, mediação hermenêutica.
A utopia enquanto conteúdo fica mais nítida nos artigos que aqui são nomeados de “atualidade pastoral”. Tais artigos não se detêm na exegese de um texto bíblico, mas comentam, à luz da teologia, algum acontecimento ocorrido nas comunidades da América Latina. Mesmo em menor número, estes textos enfatizam a importância da utopia. Ao comentar os 500 anos da colonização do continente Americano, Severino Croatto vê na imaginação utópica, o caminho para projetar tempos melhores (CROATTO, 1992, p. 48). Além disso, para estes autores o que sustenta e mantém a perseverança das comunidades é a utopia que elas comportam.
Pois a utopia levanta energias ocultas que os pobres não quiseram entregar a seus dominadores. A sua inteligência encontra refúgio e apoio na utopia para não se deixar conquistar pelo dominador. A utopia não se realizará tal qual, mas graças à utopia os pobres salvam uma parte de sua força de humanidade, o que lhes permite trabalhar para derrubar o reino dos seus dominadores e suscitar um projeto alternativo que lhes pareça superior à desordem estabelecida (COMBLIN, 1989, p. 41- 42).
Neste sentido, a utopia comporta o resquício de humanidade daqueles mais pobres e oprimidos. Pode-se dizer que ela é a dignidade deles: o que os faz “humanos”. Por isso, os artigos apontam para a fundamental manutenção da utopia (RODRIGUEZ, 1992, p. 45). Aqui fala-se de utopia das CEBs em sua luta e organização popular (PIXLEY, 1991, p. 91). A própria ressurreição emerge “como força de utopia que impele os povos a continuar lutando” (RAMIREZ, 1988, p. 59-60). Assim, nenhuma situação pode ser mudada ou transformada se não é antes sonhada ou planejada.
Não obstante, alguns autores mencionam a utopia de forma negativa. Neste caso, entende-se a utopia como algo “ilusório” ou como fruto da ideologia de Mercado. Nesse contexto, Miguéz (1998, p. 6) afirma que a “vida plena não é uma utopia”, mas é o que orienta a vida dos homens no concreto, na economia real e no imperfeito da existência. Ora, tais acenos para a face negativa do lexema “utopia” sinalizam para uma inflexão da relação utopia e RIBLA ocorrida a partir da RIBLA v. 24 subintitulada “redimensionado nossa utopia”.
A intenção deste volume é “ir das grandes utopias para as pequenas esperanças” (SCHWANTES, 1996, p. 205). Essa diretriz mostra que o conteúdo da “utopia” na RIBLA passa a valorizar as pequenas mudanças ao invés das grandes revoluções. É uma utopia que toma corpo à medida que é pensada e sonhada (ARANGO, 1996, p. 8). Ora, isto é capital porque relativiza o uso do paradigma utópico: “nenhuma utopia pode ser absolutizada, é preciso sempre resguardar um nascimento, dores de parto, de ver o mundo pela primeira vez” (PEREIRA, 1996, p. 24).
Com isso, nota-se que alguns dos autores da RIBLA não tomam apressadamente o lexema utopia. Eles operam uma autocrítica da “exegese utópica”. O melhor testemunho disso consiste no artigo de Francisco Archila intitulado Voltar a ser criança, uma bela utopia (Mc 10,13-16). O autor percebe que 1) é necessário questionar o paradigma de onde se pensa e se assume as utopias e 2) o uso do paradigma utópico não atrapalha a exegese, mas sim a racionalização da utopia. Isto não permite que o exegeta escute e penetre verdadeiramente na simbólica bíblica. Pois, como exegetas:
Consideramos as utopias que nos alimentaram durante as décadas passadas (sociedade nova, homens novos, socialismo, etc.) como as únicas válidas e pertinentes no momento histórico e, de passagem, desconhecemos, negamos e condenamos, a partir de nossa racionalidade o potencial e o horizonte utópico presente em nossas culturas populares (ARCHILA, 1996, p. 55).
Uma vez que a sociedade moderna “pode explicar a utopia” (Ibid., p. 55), a proposta do autor é, através das culturas populares, recuperar e redimensionar o caráter simbólico e mítico das utopias: “que faça justiça àquelas dimensões profundas do ser humano” (Ibid., p. 57). Tal exegese simbólica transparece em si mesma uma dimensão utópica que alimenta a esperança das comunidades. Note-se aqui, que não é a utopia emerge como uma mediação desde fora das escrituras e da realidade, mas aparece como a estrutura de ambas: como forma literária.
Em suma, a RIBLA interpreta as Escrituras e a Pastoral usando o paradigma utópico. Percebe-se, porém, que o uso deste lexema não é unívoco, tão pouco, há uma definição explícita de utopia que envolva a maioria dos artigos da revista. Nota-se, contudo, que o lexema utopia é usado como conteúdo e como gênero literário. Por isso, num esforço de sistematização, esboçar-se-á os invariantes da utopia na RIBLA a partir destas duas categorias. Eis a questão que guiará a discussão: “o paradigma utópico usado na RIBLA contribui ou atrapalha a reflexão exegético-pastoral?”.
4. DISCUSSÃO
Diante destes resultados destacam-se dois modos da presença do paradigma utópico na RIBLA: a utopia conteúdo e como gênero literário. Estas duas formas revelam três características da utopia. Assim, o paradigma utópico é (1) força dinamizadora e crítica, (2) lugar de resistência e (3) está ligada às culturas populares. Tais características compõem o núcleo conceitual da utopia que será examinado por meio da discussão a seguir. Além disso, se analisará o significado da pontual ausência da utopia em alguns volumes e artigos da RIBLA.
A maioria dos artigos toma a utopia como um conteúdo dos textos bíblicos. Isso significa que o texto bíblico aponta uma realidade, realizável ou não, que anima as comunidades. Aqui o paradigma utópico é tomado em sentido lato. Ela é o para onde, a realidade que almejam as comunidades cristãs. Por isso, fala-se que a ressurreição, o “novo céu e a nova terra”, entre outras realidades “estão no horizonte como força de utopia” (RAMIREZ, 1988, p. 59-60).
Por um lado, o uso da utopia em sentido lato permite a atualização dos conteúdos bíblicos para a vida da comunidade. Por outro, o paradigma utópico é assumido sem nenhuma ou com pouca criticidade. Neste sentido, não se sabe se é a utopia que exerce a mediação para o texto bíblico ou vice-versa. A utopia emerge como um modo de explicar uma determinada perícope para a comunidade. Logo, o paradigma utópico está presente não porque a bíblia é “utópica”, mas porque as comunidades o são. Eis porque a leitura popular da bíblia:
Provém da prática da comunidade e a ela se direciona. São as lutas pela terra e pelo teto as que, entre nós, puxam, animam as redescobrir a história bíblica. É a opressão da mulher pobre e a espoliação da classe trabalhadora que direcionam a ótica de leitura. Reivindicam uma interpretação que parta do concreto e do social, das dores e utopias da gente latino-americana (SCHWANTES, 1988b, p. 81).
Ora, isso não invalida a exegese da RIBLA, do contrário, situa-a num contexto. Do mesmo modo, o trecho acima revela que o uso do paradigma utópico não é meramente ideológico. A utopia compõe o Sitz im Leben (ambiente vital) dos autores e das comunidades envolvidos na RIBLA de 1988 a 2000. Por isso, a exegese da RIBLA opera uma fusão de horizontes (GADAMER, 2003, p. 404) por meio do paradigma utópico. Além disso, o uso da utopia não é ideológico na revista, porque muitos artigos assumem a utopia como gênero literário.
Como gênero literário a utopia é assumida em sentido stricto. Neste caso, a utopia é a forma que envolve uma determinada realidade. Neste sentido, os textos bíblicos irrigam a imaginação das comunidades propiciando novas maneiras de pensar, sonhar e de agir. O caso paradigmático disso na RIBLA é a exegese de Lv 25 (GALLAZZI, 1999, p. 71): da mesma forma que a obra de Morus indicava o Estado com a legislação perfeita, Lv 25 apresenta literariamente a lei do jubileu que, mesmo não existindo, pauta o ideal de vida do povo de Israel. Por mais que o gênero utópico não seja um gênero bíblico, a utopia como gênero literário reconhece que a exegese parte da Escritura.
Isso implica renunciar o caráter ideológico da utopia, filho da racionalização da mesma operado pelas teorias da modernidade (capitalismo e socialismo). O gênero literário chama atenção para o caráter mítico e simbólico da utopia. Como afirma Pablo Richard (1988, p. 14) a utopia compõe o sentido espiritual da leitura bíblica que indica para onde se deve caminhar. Não obstante é preciso se perguntar: por que optar pelo gênero utópico? Inclusive alguns autores o assumem em detrimento dos gêneros bíblicos (CROATTO, 2000, p. 26).
Nisso se explica a grande ausência do lexema em questão na exegese dos textos sapienciais, paulinos e joaninos. Ora, os primeiros enfatizam sabedoria para a vida no aqui e agora. Paulo é o autor que mais desenvolve o tema da Esperança Cristã. A seu tempo, os Escritos Joaninos acentuam o conhecimento-amor de Jesus a Testemunha do Pai e não tanto a dinâmica do Reino como nos sinóticos.
A ausência do lexema gera duas hipóteses que aqui não poderão ser resolvidas: (1) ou não há compatibilidade entre o gênero utópico e os blocos acima descritos ou (2) os gêneros bíblicos descritos já englobam a utopia e o Sitz im Leben das comunidades latino-americanas. Em todo caso, enquanto conteúdo e enquanto gênero literário, o conceito de utopia aparece na RIBLA como (1) força dinamizadora de (2) resistência crítica (3) ligada às culturas populares.
Como força dinamizadora a utopia movimenta as comunidades impelindo a ação e a transformação histórica. Tanto os povos bíblicos quanto às culturas latino-americanas manifestam esta característica. Só pode haver transformação histórica na medida em que essa é planejada, sonhada, isto é, torna-se utopia. Por isso, a utopia não é a salvação social, antes ele emerge como “medida” pela qual se pode julgar os ataques contra a vida promovidos pela ordem vigente, ao passo que se sonha sociedades mais humanas (PIXLEY, 1994, p. 15). Isso se dá questionando e indo de encontro as figuras históricas de opressão e violência.
Eis porque a utopia é também resistência crítica. Ela é resistência (1) contra a opressão e (2) contra a desesperança. Dá utopia nascem as energias necessárias para permanecer na vida cristã mesmo quando as condições sociais são adversas. Neste sentido, a utopia mantém aberta a possibilidade de mudança e transformação. Tal resistência incomoda o status quo e por isso é crítica: ao passo que nega o regime de opressão, ela propõe novos caminhos. Enquanto resistência a utopia converte-se em “espiritualidade” (SARAIVA, 1992, p. 7).
Ora, tal espiritualidade só existe num ethos concreto, ou seja, nas culturas populares. A utopia que prega a RIBLA não é aquela do socialismo/comunismo ou do capitalismo fundada em bases racionais. O paradigma utópico presente na RIBLA aposta no intercâmbio entre as culturas originárias da bíblia e da América Latina. Somente nas das culturas populares é possível atingir o sentido bíblico como dinamizador de utopias (ARCHILA, 1996, p. 58). Logo, é a exegese simbólica da bíblia que revela a utopia e não o contrário. Tal perspectiva é fundamental para uma autocrítica das utopias.
Por fim, percebe-se que a utopia em si não atrapalha a reflexão exegético-pastoral advinda da RIBLA. A principal razão disso é que o paradigma utópico compõe o Sitz em Leben dos autores e das comunidades do continente latino-americano. Como tal, a interpretação da bíblia deve ser vista como uma exegese contextual, ou uma “leitura popular”. Não obstante, falta por parte dos autores da revista uma maior explicitação disso, bem como, uma autocrítica do uso do paradigma utópico na interpretação do texto bíblico. Acredita-se que a autocrítica eliminaria as equivocidades e explicitaria o que se entende por utopia na RIBLA.
5. CONCLUSÃO
Em suma, diante dos resultados e da discussão apresentados pode-se afirmar que a exegese da RIBLA é eminentemente utópica. Há no método de interpretação dos autores um “momento” onde o paradigma utópico se faz presente de forma determinante. Tal momento transita na posição do paradigma como conteúdo ou como gênero literário. Sendo assim, quais as relevâncias e limites da presença da utopia na leitura popular da Bíblia na revista?
A presença da utopia é relevante porque constitui uma presença atual e eficaz na leitura bíblica latino-americana. Por meio da utopia, o sentido bíblico ganha vida no meio da comunidade e a impele à vida Cristã. Isso fomenta a imaginação criativa fazendo com que estas comunidades possam resistir em contextos de crise (RICHARD, 1988, p. 15). Além disso, o paradigma utópico é imagem para uma realidade maior: o texto bíblico não fala de Deus por meio de argumentos, mas narra Sua presença na história do Povo. Ora, e isso é feito por meio da única linguagem que o homem pode compreender: a linguagem humana.
Logo, enquanto linguagem humana, a utopia é um meio válido para a comunicação da Palavra de Deus. Ela não é só a face secular da Esperança Cristã (LIBÂNIO, 1989b, p. 181), mas constitui um dos meios pelos quais a Esperança pode se narrar. Neste sentido, a utopia é um convite para perscrutar o sentido mais originário do texto bíblico em seu conteúdo e sua forma. Ao mesmo tempo, ela é um modo de perscrutar o sentido mais originário da cultura latino-americana como seus mitos e símbolos fundadores.
Não obstante o uso do paradigma utópico apresenta limites. Isso porque há sempre o risco de se esquecer quem opera a mediação: é a utopia que é mediação para a bíblia ou a bíblia para a utopia? Ora, se a última opção prevalece pode-se encerrar todo o conteúdo da Palavra de Deus no horizonte da história instrumentalizando a Palavra de Deus. Além disso, toda exegese utópica tem de se confrontar com a negatividade intrínseca da utopia: pois o fim de toda utopia é a sua destruição. Há sempre um “nada” no final das utopias enquanto a ação de Deus tende sempre a uma consumação.
Assim, a utopia tornar-se-ia uma força dinamizadora para o nada, uma resistência pela resistência, uma apologia sem sentido às culturas populares. Se somente um conteúdo a utopia não foge da “armadilha racionalista” implicando naquilo que hoje se constata como desencanto pós-moderno ou fim das “meta-narrativas”. Por isso, faz-se necessária a autocrítica da exegese utópica. Mesmo que utopia e cristianismo não sejam a priori incompatíveis, cabe ao exegeta explicitar seus pressupostos e assumi-los de forma consciente e consequente.
1Nossa tradução.
2Nossa tradução
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