REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510210716
Ivaneide da Costa Carvalho1
José Amauri Siqueira da Silva2
Resumo
A pandemia de Covid-19 impôs uma reconfiguração urgente das práticas educacionais, exigindo dos professores e gestores o uso de tecnologias e metodologias inovadoras para assegurar a continuidade do ensino. Este artigo tem como objetivo analisar as experiências exitosas de escolas estaduais do Amazonas durante o ensino remoto emergencial, destacando as práticas criativas desenvolvidas pelos docentes e a utilização de ferramentas tecnológicas acessíveis. A pesquisa baseia-se em abordagem qualitativa, fundamentada em estudo de caso múltiplo realizado em cinco escolas da rede estadual. Os resultados revelam que, mesmo diante das dificuldades estruturais, as instituições desenvolveram estratégias pedagógicas inovadoras, utilizando recursos como WhatsApp, rádio, televisão e pen drives para manter o vínculo com os estudantes. Conclui-se que o contexto pandêmico, embora desafiador, proporcionou o desenvolvimento de competências digitais e metodológicas significativas, consolidando novas perspectivas para o ensino híbrido e inclusivo.
Palavras-chave: Inovação pedagógica; Ensino remoto; Tecnologias educacionais; Prática docente; Amazonas.
Abstract
The Covid-19 pandemic required an urgent reconfiguration of educational practices, demanding that teachers and school managers use innovative technologies and methodologies to ensure learning continuity. This paper aims to analyze successful experiences of public schools in Amazonas, Brazil, during emergency remote teaching, highlighting creative strategies developed by teachers and the use of accessible technological tools. The research is based on a qualitative approach, through a multiple case study involving five state schools. Results show that, despite structural limitations, institutions developed innovative pedagogical strategies using resources such as WhatsApp, radio, television, and flash drives to maintain student engagement. It is concluded that the pandemic context, although challenging, fostered significant digital and methodological competencies, consolidating new perspectives for inclusive and hybrid education.
Keywords: Pedagogical innovation; Remote teaching; Educational technology; Teaching practice; Amazonas.
1 Introdução
A emergência sanitária causada pela pandemia de Covid-19 forçou a suspensão das atividades presenciais nas escolas brasileiras e exigiu uma resposta imediata do sistema educacional. O ensino remoto emergencial (ERE), embora improvisado, tornou-se o principal meio de continuidade pedagógica durante o isolamento social.
No estado do Amazonas, as dificuldades geográficas e tecnológicas não impediram que professores e gestores desenvolvessem práticas criativas e inovadoras, adaptadas às condições locais. As experiências vividas durante esse período transformaram a forma de ensinar e aprender, revelando o potencial das tecnologias educacionais mesmo em contextos de vulnerabilidade.
Este artigo busca compreender como ocorreram essas inovações tecnológicas e metodológicas, evidenciando estratégias que permitiram a manutenção do vínculo escolar e o desenvolvimento de competências digitais em docentes e discentes.
2 Fundamentação Teórica
2.1 Inovação pedagógica e tecnologia na educação
A inovação educacional é entendida como um processo de transformação intencional das práticas pedagógicas, mediado por novas tecnologias, metodologias e valores. Segundo Moran (2015), inovar na educação significa integrar tecnologia, emoção e colaboração em ambientes de aprendizagem flexíveis e criativos.
Kenski (2012) destaca que a inovação não depende apenas da introdução de ferramentas digitais, mas da capacidade de repensar os métodos de ensino e de promover a aprendizagem significativa. Assim, o professor assume o papel de mediador, articulando diferentes linguagens e recursos tecnológicos para potencializar o protagonismo discente.
2.2 O ensino remoto emergencial e a criatividade docente
O conceito de ensino remoto emergencial (Hodges et al., 2020) difere do ensino a distância tradicional por sua natureza transitória e adaptativa. Durante a pandemia, a improvisação tornou-se inevitável, e os educadores precisaram encontrar soluções rápidas para manter o contato com seus alunos.
Estudos de Almeida (2021) e Valente (2020) indicam que o contexto pandêmico estimulou a criatividade docente, levando ao uso de ferramentas simples — como WhatsApp, Google Forms e videochamadas — em atividades pedagógicas significativas. No Amazonas, essas estratégias foram cruciais para reduzir o impacto da exclusão digital e social.
3 Metodologia
A pesquisa baseia-se em abordagem qualitativa com delineamento de estudo de caso múltiplo, conforme os princípios de Yin (2015). Foram analisadas cinco escolas estaduais do Amazonas, localizadas em contextos urbanos e ribeirinhos.
As técnicas de coleta de dados incluíram entrevistas semiestruturadas com gestores e professores, análise documental de planos pedagógicos e observação indireta de práticas docentes mediadas por tecnologia.
A análise dos dados seguiu o método de análise de conteúdo proposto por Bardin (2011), permitindo a categorização de práticas inovadoras, recursos tecnológicos utilizados e percepções dos participantes sobre os impactos pedagógicos do ensino remoto.
4 Resultados e Discussão
4.1 Uso de tecnologias acessíveis
As escolas enfrentaram escassez de equipamentos e conexões de internet, o que levou à adoção de tecnologias simples e acessíveis. O WhatsApp tornou-se o principal meio de comunicação entre professores e alunos. Professores enviavam áudios explicativos, videoaulas curtas e materiais em PDF, enquanto os estudantes devolviam atividades por fotos.
Além disso, rádios comunitárias e transmissões televisivas do programa Aula em Casa foram amplamente utilizadas, permitindo o acesso de famílias sem internet. Em alguns locais, professores gravaram aulas em pen drives e distribuíram aos alunos sem conectividade, demonstrando criatividade e compromisso com o aprendizado.
4.2 Estratégias metodológicas inovadoras
Os docentes criaram dinâmicas interativas adaptadas ao contexto remoto. Em turmas de ensino fundamental, atividades lúdicas foram aplicadas com músicas e dramatizações gravadas em vídeo. No ensino médio, projetos interdisciplinares sobre saúde e prevenção da Covid-19 promoveram o protagonismo estudantil.
Essas práticas reforçam o que Moran (2015) e Valente (2020) denominam de “aprendizagem significativa mediada por tecnologia”, em que a mediação docente é essencial para transformar limitações em oportunidades criativas.
4.3 Formação docente e aprendizado digital
A pandemia forçou a aceleração da alfabetização digital entre os professores. A maioria dos entrevistados relatou que aprendeu a utilizar ferramentas digitais de forma autônoma ou colaborativa com colegas. Essa autoformação representa um avanço importante, pois consolidou a cultura de compartilhamento e experimentação pedagógica.
Segundo Kenski (2012), a inovação tecnológica só é sustentável quando acompanhada por formação continuada — um aspecto que as escolas amazonenses passaram a priorizar após a experiência pandêmica.
4.4 Engajamento e vínculos afetivos
Os professores destacaram que o vínculo afetivo foi um fator decisivo para o sucesso das estratégias remotas. Mesmo sem presença física, o contato constante via mensagens, áudios e vídeos fortaleceu o sentimento de pertencimento dos alunos.
Essa dimensão humana, frequentemente esquecida nos debates sobre tecnologia, foi fundamental para manter a motivação dos estudantes em um período de isolamento e incerteza.
A experiência comprova que a inovação pedagógica não depende apenas de recursos sofisticados, mas do compromisso ético e emocional dos educadores com seus alunos.
5 Conclusão
As experiências analisadas evidenciam que, mesmo em condições adversas, as escolas do Amazonas foram capazes de desenvolver práticas inovadoras, adaptando-se criativamente às limitações impostas pela pandemia.
O uso de ferramentas simples, aliado à disposição dos professores em aprender e inovar, revelou um potencial transformador para a educação pública. O ensino remoto emergencial, ainda que temporário, provocou uma revolução silenciosa na prática pedagógica, ampliando a reflexão sobre o papel da tecnologia na construção de uma escola mais inclusiva e humana.
Recomenda-se que as políticas públicas valorizem essas experiências, promovendo programas permanentes de formação digital docente, acesso à internet e incentivo à inovação pedagógica. As lições do período pandêmico devem ser integradas ao planejamento educacional futuro, contribuindo para consolidar o ensino híbrido como estratégia sustentável e equitativa.
Referências
ALMEIDA, M. E. B. Formação de professores e práticas pedagógicas inovadoras com tecnologias. São Paulo: Cortez, 2021.
BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
CRESWELL, J. W. Research design: qualitative, quantitative and mixed methods approaches. 4. ed. Thousand Oaks: Sage, 2014.
HODGES, C. et al. The difference between emergency remote teaching and online learning. Educause Review, 2020.
KENSKI, V. M. Educação e tecnologias: o novo ritmo da informação. Campinas: Papirus, 2012.
MORAN, J. M. Ensinar e aprender com tecnologias. Campinas: Papirus, 2015.
UNICEF. Educação e pandemia: impactos e caminhos para o futuro. Brasília: UNICEF Brasil, 2021.
VALENTE, J. A. Aprendizagem ativa e tecnologias digitais. Campinas: Papirus, 2020.
YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.
1Doutoranda em Ciências da Educação – Universidad UNADES, Asunción, Paraguai.
2Orientador – Doutor em Ciências da Educação, Universidad UNADES, Asunción, Paraguai.
