GESTÃO DE ESTOQUE NO SETOR PÚBLICO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES NA EFICIÊNCIA LOGÍSTICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512091318


José Milton da Silva1
Ana Carolina Beltrão Peixoto2


Resumo

Introdução: A gestão de estoques no setor público é estratégica para a eficiência no uso dos recursos públicos, mas enfrenta desafios logísticos, organizacionais e tecnológicos que comprometem a qualidade dos serviços prestados. Sua importância cresce diante da necessidade de melhorar a governança e racionalizar custos em um contexto de alta demanda social e restrições orçamentárias. Objetivo: Analisar os desafios na gestão de estoques no setor público, identificando oportunidades para melhorar a eficiência logística. Metodologia: A metodologia baseou-se na utilização de bases de dados eletrônicos, sendo feita uma revisão integrativa de literatura e estudo descritivo com abordagem qualitativa, elaborado por meio do levantamento de periódicos da Scientific Electronic Library (SciELO), utilizando critérios de inclusão que privilegiaram artigos publicados nos últimos quatro anos, com foco em estudos aplicados à realidade da administração pública. A seleção dos materiais considerou a relevância, atualidade e aderência ao tema proposto, permitindo a construção de um panorama crítico e atualizado sobre a temática. Resultados e Discussão: Foram identificadas dificuldades como a falta de integração de sistemas, gestão inadequada de recursos humanos e uso limitado de tecnologias. Oportunidades incluem adoção de práticas integradas e maior capacitação, além do uso de tecnologias para otimizar processos. Considerações: Depreende-se que a gestão de estoques no setor público precisa de melhorias por meio de tecnologias, integração de sistemas e capacitação, o que resultará em maior eficiência e melhores serviços à sociedade.

Descritores: Gestão de Estoques. Setor Público. Eficiência Logística. Inovação Tecnológica. Otimização de Recursos.

Abstract

Introduction: Inventory management in the public sector is strategic for ensuring the efficient use of public resources, yet it faces logistical, organizational, and technological challenges that compromise the quality of services provided. Its importance is heightened by the need to improve governance and rationalize costs in a context of high social demand and budget constraints. Objective: Analyze the challenges of inventory management in the public sector, identifying opportunities to improve logistical efficiency. Methodology: The methodology was based on the use of electronic databases, conducting an integrative literature review and a descriptive study with a qualitative approach. This was carried out by surveying journals from the Scientific Electronic Library (SciELO), using inclusion criteria that prioritized articles published in the last four years, focusing on studies applied to the reality of public administration. The selection of materials considered relevance, timeliness, and alignment with the proposed topic, allowing for the construction of a critical and up-to-date overview of the subject. Results and Discussion: Challenges identified include lack of system integration, inadequate human resource management, and limited use of technology. Opportunities include the adoption of integrated practices, greater staff training, and the use of technology to optimize processes. Conclusion: It can be inferred that inventory management in the public sector requires improvements through the adoption of technologies, system integration, and capacity building, which will result in greater efficiency and better services for society.

Keywords: Inventory management. Public Sector. Logistics Efficiency. Technological Innovation. Resource optimization.

1. INTRODUÇÃO

A gestão de estoques no setor público tem se mostrado um desafio crescente, especialmente em um cenário de demandas sociais cada vez mais complexas e de recursos financeiros limitados. Ao contrário do setor privado, onde a competitividade e a busca por lucro impulsionam constantemente a eficiência, o setor público enfrenta uma dinâmica diferente (JANUÁRIO; MARQUEZ, 2025). Sua principal missão é fornecer serviços essenciais à população, o que implica garantir o fornecimento adequado de materiais e insumos e assegurar que esses recursos sejam alocados de maneira eficaz. No entanto, a gestão inadequada de estoques frequentemente compromete a qualidade desses serviços, tornando-se um obstáculo para o cumprimento das metas estabelecidas (VEIGA et al., 2024). 

A complexidade dessa gestão decorre, em grande parte, da diversidade de áreas e setores que precisam ser atendidos, como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura (VEIGA et al., 2024). Cada setor apresenta particularidades quanto aos materiais e insumos necessários, o que torna ainda mais desafiadora a tarefa de planejar e controlar os estoques. Além disso, fatores como o crescimento populacional, o aumento da urbanização e as constantes mudanças nas políticas públicas acrescentam camadas de complexidade, exigindo uma gestão mais estratégica e adaptada à realidade de cada região (SANTANA, 2024).

Outro aspecto relevante é a burocracia presente nos processos de compras e distribuição de materiais (PORTO et al., 2023). Embora os controles e a regulamentação sejam essenciais para evitar desperdícios e corrupção, a excessiva formalização pode resultar em lentidão e ineficiência. O setor público, muitas vezes, é refém de sistemas de gestão tradicionais, que não acompanham a rapidez e a flexibilidade exigidas atualmente. Como consequência, processos que deveriam ser dinâmicos e eficientes acabam estagnados, prejudicando a entrega dos serviços à população (MUNIZ, 2023). Por outro lado, o setor público possui vantagens estruturais que, se bem exploradas, podem gerar benefícios em larga escala. Uma dessas vantagens é o potencial de aplicar soluções que impactam positivamente a coletividade e geram benefícios sociais amplos (BIDÓIA, 2025). Ao contrário do setor privado, cujo foco principal é o lucro individual ou corporativo, o setor público pode priorizar o bem-estar social como objetivo central de sua logística. Isso significa que, quando há uma gestão eficiente de estoques, os ganhos não se limitam a um único segmento de mercado, mas se espalham por toda a sociedade. 

Exemplos incluem a rápida distribuição de medicamentos em crises sanitárias, a entrega oportuna de materiais escolares ou a reposição estratégica de equipamentos de segurança pública. Além disso, o setor público pode se beneficiar de sua capacidade de mobilizar recursos institucionais e intersetoriais, além de acessar políticas públicas de financiamento e apoio à inovação, o que facilita a implementação de soluções tecnológicas em larga escala.  A adoção de novas tecnologias, como sistemas de informação integrados e métodos de gestão mais modernos, pode revolucionar o controle de estoques, promovendo o uso mais racional dos recursos. No entanto, o caminho até a efetiva implementação dessas inovações é repleto de desafios, como a resistência à mudança e a falta de capacitação dos servidores públicos (SANTANA, 2024).

O conceito de eficiência logística no setor público envolve a redução de custos e a melhoria da qualidade dos serviços oferecidos. Uma gestão de estoques eficaz pode significar a diferença entre uma resposta rápida e eficiente a uma crise de saúde pública ou a demora na distribuição de materiais essenciais para a educação e a segurança (GARCIA et al., 2023). Assim, a logística pública deve ser vista como uma ferramenta estratégica para a implementação de políticas públicas, capaz de garantir não apenas a quantidade, mas também a qualidade dos recursos destinados aos diversos setores da administração. Além disso, a gestão de estoques no setor público exige um planejamento minucioso, o controle constante de entradas e saídas, a correta previsão de demanda e a avaliação contínua dos processos (JANUÁRIO; MARQUEZ, 2025). Muitas vezes, a falta de uma visão integrada entre os órgãos governamentais e a ausência de sistemas de monitoramento em tempo real agravam a situação, tornando a tarefa ainda mais difícil e propensa a erros (PORTO et al., 2023).

Apesar desses obstáculos, a busca por melhorias na gestão pública de estoques oferece oportunidades valiosas. A implementação de tecnologias como sistemas de inventário em nuvem, o uso de inteligência artificial para previsão de demandas futuras e a capacitação contínua dos profissionais envolvidos são algumas das soluções que podem tornar a gestão mais eficiente (ALENCAR, 2024). Com uma abordagem mais moderna e integrada, o setor público pode reduzir desperdícios, melhorar o atendimento ao cidadão e otimizar os escassos recursos financeiros (AZEVEDO, 2024). A crescente pressão por maior eficiência administrativa exige um esforço contínuo para identificar e superar os obstáculos existentes. Por isso, a gestão de estoques no setor público precisa ser repensada com uma abordagem que valorize a inovação, a integração de processos e a transparência. Somente assim será possível atender de maneira mais eficaz às necessidades da população, garantindo que os recursos públicos sejam utilizados de forma racional e com o máximo de impacto positivo (SANTANA, 2024). 

A modernização, apoiada por novas tecnologias e práticas inovadoras, pode otimizar recursos, reduzir desperdícios e melhorar a resposta ao cidadão. Para alcançar essas melhorias, será necessário superar a resistência à mudança, promover a capacitação dos servidores e integrar os processos logísticos de forma mais inteligente e colaborativa (BIDÓIA, 2025). Dadas as considerações introdutórias, a questão central deste estudo foi formulada da seguinte maneira: como a adoção de tecnologias pode transformar a gestão de estoques no setor público? Assim, este estudo propõe analisar os desafios existentes na gestão de estoques no setor público, identificando as oportunidades que o uso de tecnologias pode oferecer para melhorar a eficiência logística.

2. METODOLOGIA

A metodologia baseou-se na utilização de bases de dados eletrônicos, sendo feita uma revisão integrativa de literatura e estudo descritivo com abordagem qualitativa, elaborado por meio do levantamento de periódicos da Scientific Electronic Library (SciELO), utilizando critérios de inclusão que privilegiaram artigos publicados nos últimos quatro anos, com foco em estudos aplicados à realidade da administração pública. A seleção dos materiais considerou a relevância, atualidade e aderência ao tema proposto, permitindo a construção de um panorama crítico e atualizado sobre a temática. A busca pelos estudos foi conduzida na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), escolhida por sua ampla cobertura de publicações científicas na área das ciências sociais aplicadas e administração pública. 

Para a seleção dos artigos, foram definidos os seguintes critérios de inclusão: (i) artigos publicados entre 2020 e 2024; (ii) textos disponíveis na íntegra e em português; (iii) estudos com foco direto na gestão de estoques ou na logística aplicada ao setor público. Já os critérios de exclusão foram: (i) artigos duplicados; (ii) estudos com foco exclusivo no setor privado; e (iii) publicações que não apresentassem resultados ou discussões relevantes para os objetivos da pesquisa. Foram utilizados como descritores de busca combinados os seguintes termos: “gestão de estoques”, “setor público”, “administração pública”, “logística pública” e “eficiência operacional”. Os termos foram inseridos no campo de busca com o uso de operadores booleanos (AND e OR), a fim de ampliar a cobertura e a relevância dos resultados. Após a triagem inicial e leitura dos títulos e resumos, os artigos selecionados foram lidos na íntegra para análise crítica do conteúdo.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 Mecanismos para a Eficiência Logística na Administração Pública

A gestão de estoques no setor público apresenta peculiaridades que a distinguem significativamente das práticas adotadas no setor privado (Bidóia, 2025). Enquanto empresas privadas operam sob forte pressão competitiva, buscando maximizar lucros e satisfazer clientes com eficiência, o setor público se estrutura em torno da prestação de serviços essenciais à população, o que exige um enfoque distinto (Garcia et al., 2023). Nesse contexto, a administração de estoques vai além de uma simples atividade operacional: trata-se de uma função estratégica para garantir o funcionamento de serviços como saúde, educação e segurança. Por exemplo, durante a pandemia de COVID-19, muitos órgãos públicos enfrentaram grandes desafios logísticos para garantir o abastecimento de insumos médicos, revelando a importância crítica da gestão de estoques em momentos de crise sanitária. No entanto, a ausência de incentivos à inovação, somada à rigidez normativa e à fragmentação organizacional, limita o desempenho logístico da máquina pública, gerando atrasos, desperdícios e ineficiências generalizadas (Alencar, 2024). 

Um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023) mostrou que mais de 60% dos municípios brasileiros ainda utilizam sistemas manuais ou não integrados para o controle de estoques. Um dos principais entraves identificados na literatura especializada refere-se à desarticulação entre os diferentes setores da administração pública (Muniz, 2023). A fragmentação administrativa dificulta a comunicação e a troca de informações entre órgãos que, muitas vezes, atuam de forma isolada na gestão de seus próprios estoques (Garcia et al., 2023). Tal falta de integração leva à duplicidade de compras, ao acúmulo desnecessário de itens e, por vezes, à ausência de insumos básicos em áreas prioritárias. A inexistência de sistemas integrados de controle impossibilita a criação de uma base de dados confiável e em tempo real, prejudicando o planejamento logístico e a tomada de decisões. Assim, o planejamento torna-se reativo, baseado em urgências e improvisos, em vez de ser proativo e orientado por evidências (Azevedo, 2024). 

A incorporação de tecnologias digitais na gestão de estoques no setor público, conforme apontado por Azevedo (2024), é um passo fundamental para modernizar processos e superar desafios históricos de fragmentação e falta de integração. Sistemas informatizados que permitam a análise em tempo real e o uso de inteligência artificial para previsão de demandas representam um avanço estratégico, capaz de antecipar necessidades e reduzir custos operacionais. No entanto, a eficácia dessas soluções depende diretamente do investimento concomitante em capacitação dos servidores, para que os dados coletados sejam utilizados de forma proativa e orientada por evidências, superando a cultura reativa comum na administração pública (Santana, 2024). A fragmentação organizacional, destacada por Muniz (2023) e Garcia et al. (2023), continua sendo um entrave substancial para a eficiência logística. O estabelecimento de parcerias internas e a centralização das informações logísticas são essenciais para eliminar sobreposições e redundâncias. Veiga et al. (2024) ressaltam que a integração sistêmica dos processos e a criação de plataformas únicas interligadas promovem maior visibilidade e controle, permitindo um planejamento mais racional e a redução de desperdícios. Além disso, essa articulação favorece a negociação coletiva com fornecedores, potencializando a economia de escala e o aprimoramento dos processos de compra. 

No que tange à segurança e transparência, Alencar (2024) enfatiza a importância da governança pública rigorosa para assegurar a lisura e eficiência na gestão dos estoques. A implementação de sistemas integrados, com registros imutáveis e auditáveis, como o uso de blockchain sugerido por Azevedo (2024), promove não apenas a confiabilidade das informações, mas também reforça o controle social. Isso é vital para prevenir desvios, fraudes e o uso inadequado dos recursos públicos, aumentando a confiança da população nos serviços oferecidos. O alinhamento da logística com o planejamento estratégico das políticas públicas é outra dimensão fundamental para a eficiência (Garcia et al., 2023). Januário e Marquez (2025) destacam que a logística deve estar integrada às metas governamentais, de modo que o orçamento e os processos logísticos respondam às prioridades reais da sociedade, assegurando a continuidade dos serviços essenciais. Essa perspectiva permite que a gestão dos estoques seja encarada como um instrumento de políticas públicas, e não apenas como um mecanismo burocrático. 

Quanto aos impactos econômicos, Santana (2024) mostra que a adoção de práticas eficientes na logística pode gerar economias expressivas para a máquina pública, liberando recursos que podem ser revertidos em melhorias sociais. Além disso, a melhoria da eficiência logística impacta diretamente a qualidade do atendimento à população, principalmente em áreas prioritárias como saúde e educação. Apesar dos avanços possíveis, Alencar (2024) e Muniz (2023) ressaltam que barreiras político-administrativas – como burocracia excessiva, falta de continuidade entre gestões e interferências políticas – ainda dificultam a implementação de mudanças estruturais na logística pública. A superação desses desafios demanda compromisso das lideranças, formação continuada dos servidores e uma cultura organizacional voltada para a inovação e para o planejamento de longo prazo. No campo da capacitação, Januário e Marquez (2025) apontam a necessidade de programas permanentes que qualifiquem os profissionais responsáveis pela logística, garantindo conhecimentos técnicos atualizados e maior profissionalização. A experiência do município de Belo Horizonte (Prefeitura de Belo Horizonte, 2023), que reduziu custos com capacitação específica, serve como modelo de boas práticas, demonstrando que investimento em pessoas resulta em ganhos operacionais e melhoria dos serviços.

Outro fator recorrente que limita a eficiência na gestão de estoques é a ausência de capacitação específica entre os servidores públicos que atuam nessa área (Santana, 2024). Frequentemente, os profissionais responsáveis pela logística não possuem formação adequada ou contínua, sendo deslocados para a função por critérios administrativos, e não técnicos. A alta rotatividade de pessoal, bastante comum no setor público, também contribui para a perda de conhecimento institucional, dificultando a consolidação de boas práticas. Sem uma equipe qualificada, torna-se difícil implementar rotinas modernas de controle, como previsão de demanda, rotatividade de estoques e análise de custos logísticos. Um exemplo prático é o caso do município de Belo Horizonte (MG), que, após implementar um programa de capacitação específica para servidores da área de logística, conseguiu reduzir em 25% os custos com compras emergenciais em um período de dois anos (Prefeitura de Belo Horizonte, 2023). Portanto, a profissionalização da gestão logística deve ser vista como um requisito fundamental para o aprimoramento dos serviços públicos (Januário; Marquez, 2025). 

No campo tecnológico, muitos órgãos ainda operam com sistemas defasados, manuais ou que não dialogam entre si (Azevedo, 2024). Essa realidade inviabiliza o controle em tempo real dos estoques e compromete a agilidade nas decisões. A adoção de tecnologias como softwares de gestão integrada (ERP), inteligência artificial (IA) para previsão de consumo e blockchain para rastreabilidade pode revolucionar a gestão pública de estoques. Por exemplo, a Prefeitura de Curitiba (PR) implementou um sistema de ERP que integra os estoques de todas as secretarias municipais, reduzindo em 30% os prazos de atendimento às requisições internas (Curitiba, 2024). No caso da IA, a aplicação de algoritmos de previsão de demanda permite antecipar picos de consumo, como o aumento de materiais hospitalares em épocas de surtos. Já o blockchain pode ser utilizado para criar um registro imutável de todas as movimentações de estoque, aumentando a segurança e a transparência. 

Para que a transformação digital seja efetiva, é preciso superar essas barreiras por meio de planejamento estratégico, capacitação técnica e gestão da mudança. A literatura consultada aponta que um dos pilares para a melhoria da eficiência logística no setor público é a integração sistêmica dos processos (Veiga et al., 2024). A criação de plataformas únicas, interligadas entre os diversos setores da administração, permitiria maior visibilidade sobre os estoques disponíveis, a demanda projetada e os fluxos de distribuição. Um exemplo de sucesso é o sistema LOGBRAS, adotado em alguns estados brasileiros, que permite a gestão integrada dos estoques de saúde em tempo real, resultando em uma redução média de 15% nas perdas por vencimento de medicamentos. Com o apoio de sistemas de informação robustos e indicadores de desempenho logístico, seria possível antecipar necessidades, reduzir desperdícios e melhorar o tempo de resposta às demandas sociais.

 A eficiência logística na administração pública também está diretamente relacionada à gestão do tempo como recurso estratégico, especialmente no que tange aos fluxos de requisição, aprovação e entrega de materiais. Azevedo (2024) aponta que a morosidade nos trâmites administrativos compromete significativamente a capacidade de resposta dos órgãos públicos diante de demandas urgentes. Muitas vezes, processos de aquisição e movimentação de estoques enfrentam etapas excessivas de verificação e autorização, sem que haja mecanismos claros de priorização conforme a criticidade da demanda. A implantação de fluxos automatizados e hierarquizados, por meio de sistemas de gestão integrados, pode reduzir esse tempo ocioso e aumentar a agilidade operacional, sem abrir mão do controle e da legalidade. Além disso, é fundamental reconhecer o papel das infraestruturas físicas – como armazéns, almoxarifados e centros de distribuição – no desempenho logístico do setor público. 

Garcia et al. (2023) observam que muitos órgãos ainda operam em estruturas precárias, sem climatização, organização espacial adequada ou controle de acesso, o que compromete tanto a conservação dos materiais quanto a segurança das operações. A modernização da infraestrutura física, aliada à padronização dos espaços de estocagem, favorece a aplicação de princípios como layout funcional, localização estratégica e ergonomia, reduzindo perdas e otimizando o uso do espaço público. Um aspecto ainda pouco explorado na literatura aplicada à logística pública é o uso de dados geoespaciais para o planejamento da distribuição de insumos. Veiga et al. (2024) destacam que ferramentas de georreferenciamento, quando associadas aos sistemas de gestão logística, permitem identificar padrões territoriais de consumo, gargalos de distribuição e áreas de vulnerabilidade. Com base nesses dados, é possível desenvolver rotas inteligentes de abastecimento e políticas de regionalização de estoques, descentralizando a armazenagem de determinados produtos e melhorando a capilaridade do atendimento público, especialmente em regiões periféricas e rurais. A padronização de processos logísticos entre diferentes esferas e setores da administração pública representa outro desafio importante. 

A ausência de um protocolo unificado de gestão de estoques contribui para a heterogeneidade de práticas e dificulta a consolidação de dados em nível nacional (Muniz, 2023). A implementação de manuais operacionais padronizados, elaborados com base nas melhores práticas já consolidadas, permitiria maior uniformidade nos procedimentos, independentemente do porte do órgão ou da localidade. Essa padronização também facilita auditorias, comparações de desempenho e treinamentos, criando uma cultura logística mais sólida e institucionalizada. A cultura organizacional, por sua vez, exerce influência direta sobre a efetividade das iniciativas de modernização logística. Segundo Alencar (2024), a resistência a mudanças, especialmente entre servidores mais antigos, pode comprometer a adoção de novas tecnologias ou metodologias. A transformação logística, portanto, precisa vir acompanhada de uma gestão da mudança bem estruturada, que envolva campanhas de sensibilização, formação contínua e criação de incentivos institucionais para a inovação. 

A valorização dos profissionais logísticos, com reconhecimento por desempenho e participação em decisões estratégicas, contribui para um ambiente mais receptivo às transformações. Um ponto frequentemente negligenciado nas análises sobre logística pública é a gestão de contratos com fornecedores, que tem impacto direto na disponibilidade e qualidade dos estoques. Januário e Marquez (2025) destacam que contratos mal formulados, com cláusulas genéricas ou sem metas de desempenho claras, geram insegurança jurídica e dificultam a responsabilização em caso de descumprimento. A inclusão de indicadores logísticos contratuais, como tempo de entrega, taxa de não conformidade e nível de serviço, permite uma fiscalização mais eficaz e promove uma relação mais equilibrada entre a administração pública e os fornecedores. Também é relevante a área da logística emergencial, voltada ao atendimento de situações de calamidade, surtos epidemiológicos ou colapsos de infraestrutura. A pandemia de COVID-19 revelou, como bem observou Bidóia (2025), a fragilidade de muitos sistemas públicos na mobilização rápida de insumos em grande escala. A construção de planos logísticos de contingência, com estoques reguladores, fornecedores previamente cadastrados e protocolos de ativação imediata, é essencial para que o setor público tenha capacidade de resposta célere em situações de risco. Tais planos devem ser testados periodicamente, com simulações que envolvam todos os níveis de governo.

A experiência de alguns municípios e estados que implementaram sistemas interligados serve de exemplo de como a tecnologia pode gerar resultados concretos e mensuráveis quando bem aplicada (Santana, 2024). Outro aspecto identificado como oportunidade promissora é o estabelecimento de parcerias entre governos, universidades e centros de pesquisa, com o objetivo de desenvolver soluções logísticas específicas para o setor público (Azevedo, 2024). A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, tem desenvolvido projetos de otimização logística em parceria com órgãos públicos locais, visando melhorias na distribuição de materiais hospitalares. A construção de núcleos de excelência em logística, com foco na capacitação e na disseminação de boas práticas, pode atuar como motor da inovação institucional. Além disso, programas de incentivo à modernização, como editais de fomento tecnológico e acordos de cooperação técnica, são caminhos viáveis para viabilizar a transformação digital nos estoques públicos (Veiga et al., 2024). 

Iniciativas assim podem romper com o ciclo de estagnação, promovendo um salto qualitativo na gestão dos insumos públicos. A gestão de estoques eficiente é mais do que uma questão de economia ou organização interna: ela tem impacto direto e visível na vida dos cidadãos (Garcia et al., 2023). Quando bem estruturada, possibilita respostas rápidas em situações de crise, como surtos de doenças ou desastres naturais, assegura o fornecimento contínuo de medicamentos, materiais escolares, equipamentos de segurança e outros insumos essenciais (Bidoia, 2025). Por outro lado, uma má gestão pode comprometer a oferta de serviços básicos, prejudicando justamente os segmentos mais vulneráveis da população (Muniz, 2023). Por isso, a logística pública precisa ser entendida como um componente estratégico da governança, com potencial para transformar a prestação de serviços e gerar maior confiança social nas instituições (Alencar, 2024).

3.2 Governança Logística e Controle de Estoques na Administração Pública

A gestão de estoques no setor público precisa, cada vez mais, ser pensada sob a ótica da governança pública, que envolve não apenas eficiência operacional, mas também responsabilidade, transparência e sustentabilidade na utilização dos recursos. Nessa óptica, o controle de estoques deixa de ser uma função meramente técnica para ocupar lugar de destaque na estrutura de governança institucional (PORTO et al., 2023). Isso significa que decisões sobre compras, armazenamento e distribuição de bens devem ser orientadas por políticas públicas que considerem critérios de economicidade, equidade e impacto social. Um exemplo prático é o caso do Governo do Estado do Ceará, que implementou um sistema de governança logística com metas de desempenho para todas as secretarias estaduais, gerando uma economia de mais de R$ 30 milhões em compras de materiais ao longo de três anos (Governo do Ceará, 2023). Ao incorporar essa visão, os gestores passam a assumir um papel ativo na construção de uma administração pública mais estratégica e conectada às necessidades reais da população (Garcia et al., 2023).

A sustentabilidade, por sua vez, tem ganhado espaço como diretriz essencial na logística pública. A adoção de práticas sustentáveis no controle de estoques implica reduzir desperdícios, racionalizar consumo e planejar aquisições de forma inteligente, evitando excessos ou obsolescência de materiais. Em áreas como a saúde e a educação, por exemplo, onde muitos itens têm validade limitada, a ausência de planejamento pode levar à inutilização de insumos antes mesmo de serem utilizados, o que representa não apenas uma perda financeira, mas também um retrocesso ético diante das carências sociais (MUNIZ, 2023). Implementar políticas de reaproveitamento, logística reversa e digitalização de processos contribui para uma atuação mais ecológica e eficiente da gestão pública. O projeto “Escola Sustentável”, realizado em São Paulo, é um exemplo de como a logística de materiais escolares pode ser planejada para evitar desperdícios, com reaproveitamento de estoques de anos anteriores (São Paulo, 2024).

A consolidação de uma governança logística eficaz passa, também, pela estruturação de comitês intersetoriais de decisão, compostos por representantes das áreas de compras, planejamento, controle interno, almoxarifado e gestão financeira. Porto et al. (2023) ressaltam que a ausência de canais institucionais de diálogo entre esses setores gera decisões fragmentadas, resultando em compras desalinhadas com a real necessidade de uso ou em estoques acumulados sem critério técnico. A criação de fóruns permanentes de alinhamento logístico fortalece o planejamento estratégico, aumenta a previsibilidade da demanda e reduz a ocorrência de compras emergenciais, que tendem a ser mais onerosas e menos transparentes. Além disso, é essencial incorporar à governança logística o conceito de custo total de propriedade (TCO – Total Cost of Ownership), que permite avaliar os impactos de uma aquisição ao longo de todo o seu ciclo de vida. Garcia et al. (2023) destacam que a administração pública tende a concentrar-se apenas no preço unitário do produto, ignorando custos adicionais como transporte, armazenamento, manutenção, descarte e obsolescência. Ao adotar uma abordagem de TCO, os gestores passam a considerar a eficiência de forma mais abrangente, escolhendo soluções que, embora mais caras no momento da compra, geram menor impacto financeiro e operacional ao longo do tempo. 

É importante focar no papel da digitalização documental e do registro automatizado de movimentações, como condição essencial para a rastreabilidade e a confiabilidade dos dados logísticos. Azevedo (2024) observa que a digitalização não apenas reduz o risco de extravio de informações, mas também facilita auditorias, cruzamento de dados e identificação de irregularidades. Em muitos órgãos, o controle de estoques ainda é realizado de forma manual ou sem padronização, o que compromete a acuracidade dos inventários e dificulta a detecção de desvios. A implantação de sistemas integrados com autenticação digital, assinaturas eletrônicas e banco de dados centralizado é um caminho promissor para assegurar a integridade dos processos. No campo da ética administrativa, Muniz (2023) chama atenção para os riscos de uso político ou clientelista dos estoques públicos, especialmente em períodos eleitorais ou em contextos de fragilidade institucional. O controle rigoroso da entrada e saída de bens públicos, aliado à fiscalização por órgãos de controle e à participação ativa da sociedade civil, é essencial para garantir que os insumos públicos atendam, de fato, às finalidades sociais previstas. Estabelecer protocolos de entrega com georreferenciamento, sistemas de prestação de contas descentralizados e relatórios públicos pode reduzir a margem para desvios e aumentar a responsabilização dos gestores. 

A padronização dos catálogos de materiais também desponta como ferramenta importante para a governança logística. Segundo Veiga et al. (2024), a diversidade excessiva de itens, com descrições ambíguas e códigos diferentes para produtos semelhantes, dificulta o controle, o planejamento de compras e o compartilhamento de dados entre órgãos distintos. A criação de um catálogo nacional padronizado, por meio do qual todos os entes públicos passem a nomear e classificar insumos de forma unificada, contribuiria para uma melhor integração federativa, além de facilitar a análise comparativa de preços e o controle das aquisições em larga escala. A interligação entre governança logística e segurança sanitária também deve ser considerada. Alencar (2024) argumenta que a falta de um planejamento logístico coordenado entre as esferas de governo e os setores responsáveis pela saúde compromete a capacidade de resposta do Estado diante de surtos e emergências sanitárias. 

Um modelo de governança eficiente precisa garantir a manutenção de estoques reguladores, prever rotas alternativas de abastecimento em situações de bloqueio logístico e estabelecer acordos prévios com fornecedores estratégicos. Dessa forma, a logística deixa de ser uma atividade reativa para se tornar parte integrante da vigilância e da proteção coletiva. A valorização institucional da área logística depende, ainda, da sua inserção nos planos de desenvolvimento de pessoal e de carreiras específicas no serviço público. Conforme defendem Januário e Marquez (2025), sem a criação de trilhas profissionais voltadas à especialização logística, a área tende a ser ocupada por servidores de forma transitória e sem formação técnica adequada. Essa precarização funcional prejudica a continuidade administrativa e compromete a adoção de soluções inovadoras. Programas de formação continuada, certificações técnicas e o fortalecimento dos setores de logística nos organogramas das instituições públicas são caminhos eficazes para garantir profissionalismo e estabilidade. 

Um elemento que merece destaque no contexto da governança logística é a prestação de contas à sociedade, um dos pilares do controle social. A sociedade civil tem o direito de saber como e onde os recursos públicos estão sendo aplicados. Isso inclui o acompanhamento de estoques, o controle de insumos adquiridos e a distribuição de bens públicos (Garcia et al., 2023). Portais de transparência, dashboards de acesso público e relatórios periódicos são ferramentas que aproximam o cidadão da administração e aumentam a confiança nas instituições. O portal “Painel de Compras”, do Governo Federal, é um exemplo de plataforma que permite à população acompanhar aquisições públicas em tempo real (Azevedo, 2024). Mais do que um dever legal, a transparência nesse campo representa um avanço cultural no modo como o Estado se relaciona com os recursos que são, em última instância, de todos. No âmbito da governança federativa, a coordenação entre os entes da federação (municípios, estados e União) também se mostra crucial para a eficiência da gestão de estoques. 

Atualmente, a falta de articulação entre essas esferas leva a redundâncias, lacunas e desperdícios logísticos. Um município pode ter estoques excedentes enquanto outro carece de materiais essenciais, simplesmente por falta de comunicação ou de um sistema nacional de integração logística. A criação de plataformas compartilhadas, consórcios intermunicipais e políticas públicas de cooperação logística são alternativas que podem otimizar o uso coletivo de recursos, especialmente em regiões com menor capacidade técnica e orçamentária (ALENCAR, 2024). A relação entre a gestão de estoques e os indicadores de desempenho público é outro ponto que precisa ser mais bem explorado pela administração pública. Diferente do setor privado, onde métricas de desempenho são constantemente analisadas, o setor público muitas vezes não utiliza indicadores logísticos com a devida regularidade ou profundidade. O uso de algoritmos de previsão de demanda, associados a sistemas informatizados de controle, possibilita identificar sazonalidades, tendências de consumo e padrões de reposição, permitindo decisões mais precisas e alinhadas com a realidade das unidades usuárias. Isso é especialmente relevante em contextos como o da saúde, onde a oscilação no consumo de medicamentos pode ocorrer de forma abrupta. 

Uma área estratégica frequentemente ignorada na lógica da governança logística é a gestão de ativos imobilizados e patrimoniais, que, muitas vezes, coexistem nos mesmos sistemas de controle de estoque. Alencar (2024) chama atenção para a confusão recorrente entre materiais de consumo e bens permanentes, o que leva a erros de classificação, baixa rastreabilidade e subutilização de recursos. O fortalecimento das diretrizes técnicas sobre catalogação, além da integração entre os setores de patrimônio e almoxarifado, permite um mapeamento mais acurado dos recursos disponíveis e contribui para decisões mais sustentáveis de alocação e redistribuição interna de bens públicos. Segundo Veiga et al. (2024), os órgãos públicos frequentemente trabalham de forma isolada, mesmo enfrentando desafios logísticos similares. A criação de redes intergovernamentais para compartilhamento de experiências bem-sucedidas pode reduzir o tempo de aprendizado institucional, padronizar soluções e promover inovações com menor risco. Fóruns, congressos e plataformas virtuais de colaboração logística pública são instrumentos que favorecem esse intercâmbio, promovendo uma lógica de cooperação em lugar da fragmentação. A qualidade das informações registradas nos sistemas de controle de estoques é outro ponto-chave para o funcionamento da governança logística. Conforme apontado por Azevedo (2024), falhas como duplicidade de registros, inconsistência entre entradas e saídas e ausência de atualização em tempo real prejudicam a confiabilidade dos dados e comprometem decisões estratégicas. 

A padronização dos lançamentos, a definição de responsáveis técnicos e a aplicação periódica de auditorias internas são práticas fundamentais para assegurar a integridade das bases de dados. Além disso, indicadores de qualidade informacional podem ser incluídos nos relatórios de desempenho para monitorar e corrigir desvios. A integração entre governança logística e processos licitatórios é outra dimensão que merece atenção. Muniz (2023) enfatiza que, muitas vezes, os setores de logística não participam da fase de planejamento das licitações, o que gera aquisições incompatíveis com a capacidade de armazenamento, com os padrões de consumo ou com as especificações técnicas necessárias. Ao envolver gestores logísticos desde a fase inicial de planejamento da contratação pública, é possível reduzir retrabalho, evitar compras superdimensionadas e assegurar maior aderência entre demanda real e objeto licitado. Tal participação ativa torna os processos de compras mais precisos e as entregas mais eficientes. A governança logística também se fortalece com a institucionalização de sistemas de feedback contínuo, tanto entre os setores internos quanto junto aos usuários finais. Januário e Marquez (2025) defendem que, para além dos indicadores operacionais tradicionais, é preciso coletar e analisar percepções qualitativas dos servidores e beneficiários dos insumos públicos. Sistemas simples de avaliação de satisfação, formulários pós-distribuição e mecanismos de denúncia de falhas logísticas promovem um ciclo de aperfeiçoamento constante, em que os dados coletados alimentam correções e melhorias nos processos de aquisição, estocagem e distribuição. 

Em uma abordagem mais ampla, Porto et al. (2023) sugerem que a governança logística deve dialogar com os princípios da governança participativa, abrindo espaços para que a sociedade civil organizada contribua para a formulação e fiscalização das políticas de controle de estoques. Conselhos de políticas públicas, audiências públicas temáticas e grupos consultivos com representantes da comunidade podem ser mecanismos eficazes de escuta ativa, especialmente quando se trata da distribuição de bens essenciais. Essa participação fortalece a legitimidade das decisões e reforça a função social da logística como instrumento de acesso equitativo a direitos. Azevedo (2024) e Alencar (2024) chamam atenção para a fragilidade institucional dos programas logísticos, muitas vezes descontinuados a cada ciclo eleitoral. Para mitigar esse problema, é fundamental estabelecer planos de ação plurianuais, alinhados aos instrumentos oficiais de planejamento (como PPA e LDO), bem como regulamentar a logística pública por meio de normas técnicas e decretos que não dependam da vontade exclusiva dos gestores de ocasião. A institucionalização é o caminho para garantir que a eficiência logística não seja um projeto de governo, mas sim uma política de Estado.

Medidas como giro de estoque, tempo de reposição, índice de perdas e nível de atendimento ao usuário final são essenciais para avaliar a eficiência da logística pública. Por exemplo, o Estado do Paraná implementou um sistema de indicadores de desempenho logístico nas unidades de saúde, resultando na melhoria dos índices de abastecimento de medicamentos (Paraná, 2023). A partir desses dados, é possível identificar gargalos, planejar melhorias e justificar a alocação de recursos com base em evidências objetivas, fortalecendo o processo de tomada de decisão e o controle institucional (Veiga et al., 2024). Um componente complementar da governança logística é a gestão de riscos, que ainda é pouco estruturada na maior parte dos órgãos públicos. Desastres naturais, pandemias, crises econômicas ou rupturas de fornecimento são eventos que impactam diretamente a disponibilidade de estoques e a capacidade de resposta do Estado.Um sistema público de estoques eficiente deve prever cenários de crise e contar com protocolos de contingência, além de reservas técnicas bem distribuídas para garantir o funcionamento dos serviços em momentos críticos. 

A experiência da Defesa Civil de Santa Catarina, que mantém estoques estratégicos de emergência para situações de enchentes e deslizamentos, é um exemplo de boas práticas de gestão de riscos logísticos (Santa Catarina, 2023). A resiliência logística, portanto, passa a ser um diferencial estratégico na administração pública, protegendo a população em situações de vulnerabilidade (Porto et al., 2023). Para além dos aspectos técnicos e operacionais, a construção de uma cultura organizacional voltada à excelência logística é um desafio a ser enfrentado. Em muitos órgãos públicos, a área de logística ainda é vista como um setor de apoio secundário, o que reduz sua importância nos processos decisórios. É necessário que a alta gestão reconheça a logística como elemento central da política pública, investindo na valorização profissional, na autonomia dos gestores e no fortalecimento institucional das áreas responsáveis. Essa mudança cultural, embora gradual, é fundamental para consolidar práticas sustentáveis, integradas e de alto desempenho na gestão dos estoques públicos (Januário; Marquez, 2025).

4. CONSIDERAÇÕES

Ao longo deste estudo, observou-se que os desafios enfrentados nessa área são diversos e complexos, abrangendo desde a fragmentação dos sistemas de informação e a burocratização excessiva até a ausência de capacitação dos profissionais envolvidos e a resistência à inovação tecnológica. Tais obstáculos comprometem o desempenho logístico do Estado, acentuam o desperdício de insumos e dificultam o atendimento adequado às demandas sociais. 

Também foram evidenciadas inúmeras oportunidades para transformar essa realidade por meio da modernização dos processos logísticos, da integração sistêmica entre os entes federativos e da adoção de tecnologias inovadoras, como sistemas de gestão em nuvem, inteligência artificial e plataformas de transparência. Além disso, destaca-se a importância de incorporar princípios de governança pública, sustentabilidade e controle social à gestão de estoques, ampliando o seu impacto positivo sobre a efetividade das políticas públicas e a confiança dos cidadãos nas instituições estatais. É importante reconhecer que a gestão de estoques vai além da atividade técnica de armazenamento e distribuição de bens. Ela representa um campo de decisão estratégica que, quando bem estruturado, fortalece a capacidade do Estado em responder com agilidade, eficiência e responsabilidade às necessidades da sociedade.

Ademais, a articulação entre os níveis de governo e a adoção de políticas cooperativas e integradas representam um caminho promissor para mitigar desigualdades regionais e otimizar o uso dos estoques públicos, especialmente em contextos de escassez e emergência. Como resposta da pergunta de pesquisa – “como a adoção de tecnologias pode transformar a gestão de estoques no setor público?” –, considera-se que a tecnologia atua como elemento catalisador dessa transformação ao oferecer soluções que integram dados, automatizam processos, aprimoram o planejamento e fortalecem o controle institucional. Logo, a adoção planejada e estratégica dessas tecnologias pode redefinir os padrões de eficiência, qualidade e responsabilidade na gestão de estoques públicos, promovendo um salto qualitativo na administração pública brasileira.

REFERÊNCIAS:

  1. ALENCAR, Marisa de Sousa; LOPES, Verônica Maria Neto; DAMASCENO, Marli Ferreira de Carvalho. Gestão de Estoques no Refeitório de um Campus do Instituto Federal do Piauí: Uma Abordagem a Partir da Curva ABC. Cadernos Cajuína, [s.l.], v. 9, n. 5, p. e249516, 2024. DOI: 10.52641/cadcajv9i5.622. Disponível em: https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/622
  1. AZEVEDO, S. G. Análise da Gestão de Estoques na Administração Pública: Um Estudo de Caso em uma Secretaria de um Município do Rio Grande do Norte. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Administração) – Centro de Ciências Humanas, Sociais e Agrárias – Departamento de Ciências Sociais Aplicadas – Universidade Federal da Paraíba, Bananeiras – Paraíba, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/32901
  1. BIDÓIA, F. A. Reestruturação do Modelo de Gestão de Estoques em uma Indústria Metalúrgica do Norte do Paraná. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Engenharia de Produção) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Londrina, 2025. Disponível: http://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/handle/1/36456
  1. GARCIA et al. A importância da gestão de estoque no resultado das organizações. 2023. Artigo científico (Técnico em Administração Integrado ao Médio) – Etec Profa. Anna de Oliveira Ferraz, Araraquara, 2023. Disponível em: https://ric.cps.sp.gov.br/handle/123456789/18872
  1. GODOY et al. Aplicação da Gestão de Estoque na Empresa Enxovais Dona Zulmira. 2023. 53 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso Técnico em Administração) – Etec Prof. Alfredo de Barros Santos, Guaratinguetá, SP, 2023. Disponível em: https://ric.cps.sp.gov.br/handle/123456789/15222
  1. JANUÁRIO, B. V.; MARQUEZ, J. A. R. Gestão de Estoque em Pequenas Empresas: Uma Oportunidade Para A Terceirização. Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro, [s.l.], v. 1, n. 1, p. 1–14, 2025. DOI: 10.61164/remunom. v1i1.3275. Disponível em: http://revista.unipacto.com.br/index.php/multidisciplinar/article/view/3275
  1. MUNIZ, R. S. Gestão de Estoques em uma Franquia de Produtos Naturais. 22 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Administração), Universidade Federal do Pampa, Santana do Livramento, 2023. Disponível em: https://dspace.unipampa.edu.br/handle/riu/8277
  1. PORTO et al. Gestão de Estoque Aplicada na Fábrica Bibelli Pelúcias. 2023. 71 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso Técnico em Administração) – Etec Prof. Alfredo de Barros Santos, Guaratinguetá, SP, 2023. Disponível em: https://ric.cps.sp.gov.br/handle/123456789/15164
  1. SANTANA, D. E. S. Implementação de um Sistema Integrado de Gestão de Estoque para o Departamento de TI da Prefeitura de Penedo/AL. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Sistemas de Informação) – Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Penedo – Alagoas, 2024. Disponível em: https://ud10.arapiraca.ufal.br/repositorio/publicacoes/5711
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1Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL, AL, Brasil
E-mail: milton_leonardo2012@hotmail.com
2Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL, AL, Brasil
E-mail: anacarolina.beltrao@uneal.edu.br