REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512081054
Gabriela Pereira de Figueiredo1
Grazielle Borges2
Isabella de Sousa Bispo3
Luiza Patrícia da Silva4
Míriam Daizi Ferreira da Silva5
Kátia Maria de Moura Evêncio6
Resumo
O presente trabalho discute a importância do uso de fantoches como recurso pedagógico para a contação de histórias, com o objetivo de despertar a imaginação e aumentar o envolvimento das crianças nas atividades propostas. O projeto foi desenvolvido como requisito na disciplina “Práticas em Espaços Escolares”, a partir de uma abordagem de pesquisa-ação, realizada em uma instituição de Educação Infantil municipal de Picos, com crianças participantes do pré-escolar, em que a intervenção pedagógica ocorreu simultaneamente à observação e registro das atividades. A proposta revelou-se significativa ao observar o envolvimento das crianças durante a confecção dos fantoches e na elaboração das histórias, evidenciando curiosidades, entusiasmo e interesse nas interações com os personagens apresentados. A atividade destina-se a docentes e estudantes que atuam diretamente com crianças, proporcionando a oportunidade de fortalecer vínculos afetivos e favorecer o aprendizado por meio de experiências lúdicas. Além disso, contribui para que os profissionais vivenciem a leitura de forma interativa e criativa, aprofundando sua prática pedagógica e ampliando as possibilidades de mediação no processo educativo.
Palavras-chave: fantoches; recurso pedagógico; educação infantil.
Introdução
A contação de histórias é uma prática pedagógica que desperta a imaginação, a criatividade e a sensibilidade das crianças. No ambiente escolar, esse recurso é de grande importância por favorecer a construção do aprendizado de forma lúdica, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo e imaginativo das crianças.
Nesse contexto, observou-se que, em uma sala do Pré II, Infantil 5, foi considerado que a estratégia de contar histórias despertava maior interesse e participação das crianças, uma vez que a falta de atenção e interação eram dificuldades que abrangiam a turma. Diante disso, o que o pedagogo poderia fazer para diminuir a dificuldade das crianças em serem participativas?
Portanto, foi realizado um projeto de intervenção vinculado à disciplina “Práticas em espaços escolares”, ministrada na Universidade Estadual do Piauí no 4° período, no primeiro semestre do ano de 2025, entrelaçado ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) utilizando fantoches como instrumento para o envolvimento dos alunos na contação de história. Dessa forma, a atividade “Explorando a imaginação: mãos que contam histórias” teve como objetivo utilizar a contação de histórias como proposta pedagógica para, por meio do brincar, estimular a imaginação e o envolvimento das crianças, favorecendo a concentração e a interação durante o desenvolvimento da atividade.
Metodologia
O projeto “Explorando a imaginação: mãos que contam histórias” foi desenvolvido na disciplina “Práticas em Espaços Escolares”7, a partir de uma abordagem de pesquisa-ação, em que a intervenção pedagógica ocorreu simultaneamente à observação e registro das atividades. A pesquisa, orientada pela professora ministrante da citada disciplina, foi realizada em uma instituição de Educação Infantil municipal de Picos, com crianças matriculadas entre 5 e 6 anos, participantes do pré-escolar, totalizando 12 crianças. As histórias escolhidas, incluindo contos de folclore, fábulas e narrativas infantis, foram selecionadas considerando sua relevância para a faixa etária, interesses e contexto cultural das crianças. A intervenção ocorreu por meio de contação de histórias dramática e informal, utilizando fantoches, palco e música de fundo, de forma a envolver as crianças, prender sua atenção e promover sua participação ativa. Durante a atividade, as histórias foram adaptadas conforme a resposta do grupo, criando um ambiente acolhedor e estimulante, favorecendo o desenvolvimento do lúdico, da imaginação e da interação das crianças no contexto educativo.
A Mediação Social no Aprendizado
Executar projetos da Educação Infantil produz aprendizagens enriquecedoras, o docente obtém maior desenvoltura para realizar as atividades diárias, sobretudo no envolvimento e empolgação das crianças ao estarem diante daquilo que mais lhes chamam atenção. Dessa forma, criar cenários, introduzir histórias, e se colocar o mais próximo das crianças possibilita fortalecer vínculos afetivos, estimular a imaginação e promover a participação ativa no processo de aprendizagem, transformando a contação de histórias em um momento lúdico, seguro e significativo. Essa aproximação afetiva e pedagógica pode ser melhor compreendida à luz da teoria sociocultural de Vygotsky, que enfatiza a importância da interação no processo de aprendizagem.
Lev Vygotsky enfatiza, em sua abordagem sociocultural, o papel das interações sociais no aprendizado, introduzindo o conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP) – o intervalo entre o que a criança realiza sozinha e o que ela alcança com a ajuda de um mediador mais experiente (Vygotsky, 1978). Na contação de histórias, o educador ou o grupo atua precisamente nessa zona, transformando a narrativa oral em uma experiência colaborativa que expande as capacidades cognitivas e linguísticas da criança. Durante uma sessão de contato, perguntas abertas e cenários incentivam a participação ativa, promovendo a internalização de linguagem e conceitos sociais. Crianças que interagem nesse contexto desenvolvem habilidades de escuta e expressão oral, construindo diálogos que nutrem a empatia e a cooperação. Assim, a prática de Vygotsky revela a contação não como um ato isolado, mas como uma ferramenta dialógica que tece laços comunitários, preparando a criança para contextos sociais mais amplos.
Além das interações sociais e do desenvolvimento cognitivo destacados por Vygotsky, a contação de histórias também cumpre uma função afetiva e simbólica, como aponta Zilberman, ao permitir que a criança processe emoções e construa resiliência. Zilberman, concebe as histórias como espaços de mediação simbólica que permitem à criança processar emoções e conflitos internos de maneira segura e criativa (Zilberman, 2003). Na educação infantil, a contação de histórias resgata o imaginário como contraponto à rotina formal, oferecendo narrativas que espelham as vivências cotidianas e auxiliam na regulação emocional. Contos tradicionais, com seus heróis e dilemas morais, convidam a criança a identificar-se com personagens, explorando temas como amizade, perda e superação. Essa aprendizagem simbólica, segundo Zilberman, enriquece o desenvolvimento afetivo, ajudando a criança a nomear sentimentos e a construir resiliência. Em salas de aula, essa abordagem não só estimula a criatividade, mas também integra o emocional ao cognitivo, formando indivíduos mais integrados e sensíveis ao mundo ao seu redor.
Portanto, a contação de histórias na Educação Infantil se configura como uma prática pedagógica essencial, que articula aprendizado, afetividade e mediação do docente. Ao atuar de forma próxima às crianças, o educador promove segurança, engajamento e participação ativa, enquanto as narrativas possibilitam desenvolvimento cognitivo, linguístico e socioemocional. A integração das perspectivas de Vygotsky e Zilberman evidencia que essa metodologia não se limita a um momento lúdico, mas constitui um espaço de mediação simbólica, diálogo e construção de vínculos, preparando as crianças para interações sociais mais amplas e para o exercício de sua criatividade, empatia e resiliência.
Resultados e Discussões
O projeto foi desenvolvido pelo grupo de acadêmicas com o objetivo de estimular a imaginação das crianças por meio da contação de histórias com fantoches. O material foi todo confeccionado pelo próprio grupo e resultou em momentos de grande interação e diversão com os pequenos. Durante a atividade, cada criança teve a oportunidade de participar ativamente da criação dos fantoches, escolhendo cores, nomes e ajudando a imaginar as histórias que queriam contar com seus colegas. Essa participação ativa tornou a experiência ainda mais envolvente e significativa. O trabalho foi enriquecedor para ambos os lados: para as crianças, proporcionou histórias cativantes e o exercício da criatividade; para as acadêmicas, foi uma oportunidade de vivenciar a leitura de forma lúdica, estimulando a imaginação e aprofundando a prática pedagógica.
Como produto final, foi criado um baú das memórias que carrega toda a simbologia daquele momento especial. Nele foram guardadas fotos do processo e os fantoches confeccionados, simbolizando a importância da experiência e a construção coletiva. A proposta revelou-se significativa, uma vez que no decorrer da atividade foi possível observar o envolvimento e entusiasmo pela forma lúdica como foram contadas as histórias através dos fantoches, conseguindo prender a atenção das crianças por mais tempo, o que contribuiu para um maior envolvimento da turma que participaram de forma ativa de todas as etapas, demonstrando interesse e curiosidade em interagir com os personagens apresentados. Foi perceptível que a proposta favoreceu o desenvolvimento da imaginação, da expressão oral e da capacidade de socialização entre elas. Observamos que, a atividade contribuiu para que eles além de escutarem as histórias, desejarem também participar contando elas.
Além dos avanços que foram percebidos em relação às crianças, a experiência nos proporcionou contribuições significativas no sentido da formação docente. No início do planejamento da proposta, surgiram inseguranças quanto ao desenvolvimento da atividade, se ela realmente atrairia a atenção das crianças e se elas de fato participariam e receberiam da forma como desejávamos. Entretanto, durante a prática, essa tornou-se enriquecedora pela forma como foi executada, contribuindo e nos mostrando a importância do planejamento das atividades adaptadas às necessidades específicas das crianças visando amenizar as dificuldades que são encontradas. Além disso, pudemos ver na prática como a utilização dos recursos lúdicos favorecem o envolvimento da turma. Dessa forma, a experiência demonstrou-se não apenas um momento de aprendizagem dos alunos, mas também uma oportunidade de evolução da nossa prática pedagógica.
Considerações Finais
Diante do exposto ao longo deste trabalho, conclui-se que o estudo permitiu compreender a relevância da contação de histórias como evidência que as práticas lúdicas ampliam o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social das crianças. O método de apoio escolhido pelo grupo para desenvolver a intervenção permitiu que os resultados fossem alcançados através do objetivo de despertar nas crianças o interesse pela participação ativa, chegando assim, na conclusão de que a utilização dos fantoches potencializou ainda mais os benefícios dessa prática pedagógica.
Os resultados obtidos mostram a relevância da ludicidade no processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Kishimoto (2011), o lúdico favorece a construção do conhecimento ao permitir que a criança experimente, crie e interaja de forma significativa com o mundo ao seu redor. Nesse sentido, a utilização dos fantoches funcionou como mediação lúdica que ampliaram a interação entre o educador e criança, tornando a narrativa mais envolvente. Por meio desses objetos, a criança é convidada a participar ativamente, incentivando a imaginação, a expressão oral e a comunicação não verbal. Além disso, os fantoches facilitam a construção de vínculos afetivos e a expressão de emoções, criando um ambiente em que a criança possa explorar sentimentos e situações diferentes presentes nas histórias. Assim, a contação de histórias com o uso de fantasias não apenas enriquece o processo de aprendizagem, mas também fortalece a dimensão afetiva da criança, consolidando-se como uma estratégia necessária para uma educação infantil integral.
A realização da atividade também se mostrou significativa para a nossa formação docente. A experiência permitiu compreender, na prática, a importância do planejamento intencional e da mediação pedagógica adequada às especificidades da Educação Infantil, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades de improvisação, adaptação e criatividade, fundamentais no cotidiano escolar. Pimenta (2012) enfatiza que a identidade docente se constrói na articulação entre teoria e prática, sendo fortalecida pelas experiências concretas no campo escolar. Assim, a prática não apenas enriqueceu a trajetória acadêmica, mas também reafirmou a relevância da ludicidade como instrumento pedagógico e da docência como profissão que se constitui no movimento entre o saber, o fazer e o refletir. Este é um trabalho indicado para os profissionais da Educação Infantil, Anos Iniciais e acadêmicos de licenciatura.
A seguir, fotos do projeto:
Figura 1 – Baú de Memórias – Produto usado como objeto de estudo no projeto de intervenção.

Fonte: produzido pelas autoras para o projeto “Explorando a Imaginação: Mãos que contam histórias” (2025).
Figura 2 – Fotos e fantoches como recursos de recordação e aprendizado

Fonte: produzido pelas autoras para o projeto “Explorando a Imaginação: Mãos que contam histórias” (2025).
Figura 3 – Confecção dos fantoches usados no trabalho

Fonte: autoras do projeto “Explorando a Imaginação: Mãos que contam histórias” (2025).
Figura 4 – Palco do projeto, montado para a contação de histórias.

Fonte: produzido pelas autoras para o projeto “Explorando a Imaginação: Mãos que contam histórias” (2025).
7Ministrada pela professora Dra. Kátia M. Moura Evêncio, em 2025.1, no curso de Pedagogia – UESPI/Picos.
Referências
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
PIMENTA, Selma Garrido. Formação de professores: identidade e saberes da docência. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2012.
VIGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola hoje. São Paulo: Global, 2006.
1Graduanda em Pedagogia, Universidade Estadual do Piauí, Campus de Picos. gabrielafigueiredo@aluno.uespi.br
2Graduanda em Pedagogia, Universidade Estadual do Piauí, Campus de Picos. grazielleborges@aluno.uespi.br
3Graduanda em Pedagogia, Universidade Estadual do Piauí, Campus de Picos. isabellabispo@aluno.uespi.br
4Graduanda em Pedagogia, Universidade Estadual do Piauí, Campus de Picos. luizasilva0001@aluno.uespi.br
5Graduanda em Pedagogia, Universidade Estadual do Piauí, Campus de Picos. miriamsilva@aluno.uespi.br
6Doutora em Educação, professora na Universidade Estadual do Piauí, Campus de Picos. katiamaria@pcs.uespi.br
