DISPONIBILIDADE HÍDRICA E REGULADORES VEGETAIS NA GERMINAÇÃO DE SEMENTES DE ALGODÃO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202507181812


Leyzen Iran Carneiro Nora
João Gabriel Sversut Sucena Rasga
Valdecir Calça Junior
Elisangela Clarete Camili


RESUMO 

Pertencente à família Malvaceae, o algodão (Gossypium hirsutum L.) é uma das principais culturas agrícolas globais, com grande importância estratégica tanto para a indústria têxtil quanto para a pecuária. O sucesso dessa cultura depende diretamente do bom estabelecimento inicial das plantas no campo, etapa que começa com a germinação das sementes. Nesse contexto, a água exerce um papel fundamental, sendo responsável por atuar como meio de transporte de ions e compostos essenciais ao metabolismo e ao desenvolvimento da semente. O regulador vegetal Stimulate® (cinetina 0,09 g L-1, ácido giberélico 0,05 g L-1 e ácido 4-indol3-ilbutírico 0,05 g L-1) atua diretamente na aceleração e uniformização do processo germinativo, melhorando o desenvolvimento inicial das plântulas. Neste estudo analisou-se germinação de sementes de algodão diante de diferentes volumes de água e doses do regulador vegetal, com o objetivo se determinar o máximo potencial de formação de plântulas normais. Os materiais utilizados foram sementes das variedades TMG 22 GLTP, TMG 44 B2RF e FM 912 GLTP RM, todas previamente submetidas a tratamento industrial para armazenamento. A pesquisa foi realizada no Laboratório de Sementes da Faculdade de Agronomia e Zootecnia em Cuiabá/MT. Os testes foram conduzidos entre 19 de março a 10 de abril de 2025 onde verificou-se a qualidade fisiológica das sementes por meio do teste de germinação em rolo de papel. Os tratamentos consistiram em combinações de quatro volumes de água (1,9; 2,1; 2,3 e 2,5 vezes o peso do papel germitest) com três doses de Stimulate® (0; 10 e 20 mL kg⁻¹semente), totalizando 12 tratamentos. A variedade TMG 22 GLTP teve elevada germinação associado a alta uniformidade entre tratamentos, a variedade TMG 44 B2RF, teve seu máximo expressado no fator 2,3 e a variedade FM 912 GLTP RM, teve seu máximo expressado no fator 2,5. Para as variedades o regulador melhorou os resultados nos tratamentos de menor desempenho fisiológico.  

Palavras-chave: Gossypium hirsutum L. 1; Qualidade fisiológica 2; Stimulate® 3. 

ABSTRACT 

Belonging to the Malvaceae family, cotton (Gossypium hirsutum L.) is one of the main global agricultural crops, with strategic importance for both the textile industry and livestock farming. The success of this crop depends directly on the proper initial establishment of plants in the field, a stage that begins with seed germination. In this context, water plays a fundamental role, acting as a transport medium for ions and compounds essential to the metabolism and development of the seed. The plant growth regulator Stimulate® (containing 0.09 g L⁻¹ of kinetin, 0.05 g L⁻¹ of gibberellic acid, and 0.05 g L⁻¹ of 4-indole-3-butyric acid) directly promotes the acceleration and uniformity of the germination process, improving the initial development of seedlings. This study analyzed the germination of cotton seeds under different water volumes and doses of the plant regulator, aiming to determine the maximum potential for normal seedling formation. The materials used were seeds from the varieties TMG 22 GLTP, TMG 44 B2RF, and FM 912 GLTP RM, all previously treated industrially for storage. The research was conducted at the Seed Laboratory of the Faculty of Agronomy and Animal Science in Cuiabá, Mato Grosso, Brazil. The tests were carried out from March 19 to April 10, 2025, evaluating the physiological quality of the seeds through the germination test using paper roll methodology. The treatments consisted of combinations of four water volumes (1.9; 2.1; 2.3; and 2.5 times the weight of the germitest paper) with three Stimulate® doses (0; 10; and 20 mL kg⁻¹ seed), totaling 12 treatments. The variety TMG 22 GLTP showed high germination associated with great uniformity among treatments. TMG 44 B2RF achieved its maximum performance at the 2.3 factor, while FM 912 GLTP RM performed best at the 2.5 factor. For all varieties, the regulator improved results in treatments with lower physiological performance. 

Keywords: Gossypium hirsutum L. 1; Physiological quality 2; Stimulate® 3.  

1 INTRODUÇÃO 

O algodão (Gossypium hirsutum L.) é uma cultura amplamente cultivada em escala mundial, sendo o Brasil o terceiro maior produtor e o maior exportador de fibra. Trata-se de uma grande cultura, com forte presença em diversos setores, especialmente no têxtil e no pecuário, além da participação, ainda que em menor escala, na produção de biocombustíveis.  

Sua fibra de alta qualidade exerce papel indispensável na confecção de tecidos utilizados em vestuários, artigos domésticos e aplicações industriais. O caroço é usado para a extração de óleo, ao mesmo tempo que produz torta e farelo que servem como fonte de proteína para a formulação de ração para ruminantes, enquanto o principal subproduto o capulho serve como suplemento energético, também servindo ao mesmo propósito da torta e do farelo de algodão. 

Por ser uma cultura dinâmica, o algodão possui elasticidade de uso, uma vez que não depende apenas de um setor econômico, algo característico de outras grandes culturas como a soja e o milho. Porém, essa dinamicidade aliada ao alto valor agregado nos produtos, eleva o custo e o risco da exploração agrícola, justificando o elevado capital investido pelas grandes empresas no desenvolvimento de novas biotecnologias, defensivos químicos, promotores e reguladores vegetais e os complementares biológicos. 

No Brasil o estado com maior área de cultivo é o Mato Grosso, tendo 73,87% da área destinada a produção de algodão do Brasil. Da safra 2022/2023 para a safra 2023/2024 houve incremento de 21,57% na área de cultivo no Mato Grosso, aumentando em 14,22% a produção de pluma e 13,99% de caroço. Esse aumento expressivo ocorreu devido à redução das áreas de cultivo de soja e milho, mais uma vez prejudicadas pelo evento climático El Ninõ. As previsões para a safra 2024/2025 são de aumento de 2,97% da área de produção, com redução da produtividade de caroço em 2,56%, tendo uma projeção de aumento de 0,34% na produção em relação à safra anterior, e para a produção de fibra estima-se aumento de 0,38%. 

O sucesso da cultura do algodão começa ainda na fase de germinação das sementes, que representa um momento decisivo para o estabelecimento da lavoura. Uma semente com alta germinação e vigor proporciona crescimento uniforme de plantas, possuindo maior capacidade de dominância inicial sobre as plantas daninhas, favorecendo a produtividade e reduzindo falhas no estande. 

Em um sistema de produção eficiente, a homogeneidade no desenvolvimento das plantas proporciona vantagens fitotécnicas significativas, como a sincronização das fases fenológicas, maior aproveitamento dos recursos naturais (água, luz e nutrientes) e maior facilidade no manejo das culturas, desde o controle de plantas daninhas até a colheita mecanizada. Nesse contexto, a avaliação da uniformidade de germinação torna-se uma ferramenta essencial para assegurar o desempenho agronômico desejado. Ao associar volumes de água à aplicação de doses de regulador vegetal nos testes de germinação, não apenas se assegura condições ideais para a germinação da semente, como também se permite uma avaliação mais precisa do potencial fisiológico do material genético analisado. A germinação de sementes em condições laboratoriais representa uma etapa fundamental para a avaliação do vigor e da qualidade fisiológica das sementes, sendo diretamente influenciada por fatores como temperatura, oxigênio e, especialmente, a disponibilidade hídrica, seja por excesso ou falta. 

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 

O algodão (Gossypium hirsutum L.), pertencente à família Malvaceae, possui uma longa história que se entrelaça com o desenvolvimento de diversos povos. Fragmentos de algodão com mais de 4.000 anos foram encontrados nas ruínas de Mohenjo-Daro, no atual Paquistão e, a disseminação do algodão pelo mundo foi intensificada pelos árabes, que também criaram o termo al-quTum sendo este a origem dos nomes cotton e algodão (AMPA, 2025).   

Das mais de 50 espécies botânicas conhecidas, apenas quatro foram domesticadas ao longo da história, sendo elas G. hirsutum, G. barbadense, G. herbaceum e G. arboreum. Acredita-se que G. hirsutum e G. barbadense, descendem de um ancestral africano comum, o G. herbaceum africanum, portador de fibras nas sementes (EMBRAPA ALGODÃO, 2004). 

Estudos genéticos ao longo do último século confirmaram que as espécies do Novo Mundo surgiram por meio da hibridação entre espécies diplóides do Velho Mundo e espécies silvestres americanas, resultando em algodoeiros alotetraplóides com 26 cromossomos. Das seis espécies alotetraplóides conhecidas, destaca-se G. hirsutum (América Central) que corresponde por mais de 90% da produção mundial de algodão, sendo uma planta de fibra média em comprimento, finura e resistência (Hu, 2019). Há cerca de 2.500 cultivares em uso em mais de cem países, distribuídas entre sete raças geográficas: latifolium (que inclui as cultivares modernas, originárias do México e da Guatemala), morrillii, richmandi, palmeri, punctatum, yucatanense e marie-galante, essa última presente no Nordeste brasileiro, onde está o algodoeiro mocó, notável por suas sementes nuas, sem línter, assim como em alguns tipos de G. Barbadense (Kohel, 1974; EMBRAPA ALGODÃO, 2004). 

O regulador vegetal Stimulate®, composto por cinetina, ácido giberélico e ácido 4indol-3-ilbutírico, tem sido amplamente utilizado na agricultura para promover a germinação e o desenvolvimento inicial das plântulas. Em sementes de algodão, sua aplicação favorece a divisão celular, o alongamento e o crescimento radicular, resultando em maior uniformidade e vigor na emergência. Estudos indicam que os efeitos do Stimulate® são mais evidentes em sementes com menor desempenho fisiológico, contribuindo para plântulas mais robustas e adaptadas a condições ambientais adversas. Quando corretamente aplicado, o produto pode ainda reduzir a necessidade de outros insumos, colaborando com práticas agrícolas mais sustentáveis e eficientes (SANTOS, 2004). 

A água desempenha um papel fundamental no processo de germinação das sementes, atuando como ativadora do metabolismo celular. Sua absorção inicia eventos bioquímicos essenciais, como a reativação enzimática, a mobilização de reservas e a expansão celular. Além disso, a água funciona como meio de transporte para nutrientes e fitohormônios, viabilizando a difusão de substratos e produtos das reações metabólicas. Durante a embebição, promove a hidratação dos tecidos e ativa enzimas responsáveis pela degradação das reservas acumuladas no endosperma ou cotilédones, permitindo a nutrição do embrião e o subsequente crescimento da plântula.No caso do algodão (Gossypium hirsutum L.), que apresenta tegumento espesso e estrutura morfofisiológica mais complexa, a uniformidade e a disponibilidade hídrica tornam-se ainda mais determinantes para o êxito da germinação. A adequada oferta de água influencia diretamente a velocidade e a eficiência do processo germinativo, afetando a formação de plântulas vigorosas e bem estabelecidas. Dessa forma, o manejo correto da umidade no ambiente de germinação é essencial para garantir o desempenho fisiológico das sementes e o sucesso da implantação da cultura no campo (PESKE, 2011) 

 A cotonicultura brasileira passou por uma significativa transformação, destacando-se a migração da produção das regiões Sul e Sudeste para o Cerrado do Centro-Oeste, especialmente o estado de Mato Grosso. Essa mudança foi impulsionada por fatores como clima favorável, desenvolvimento de cultivares adaptadas, topografia adequada e avanços tecnológicos, incluindo a mecanização (EMBRAPA ALGODÃO, 2004). Atualmente o Mato Grosso seguido pela Bahia lideram a produção nacional de algodão, com o primeiro contendo 73,87% da área plantada do país, e o estado baiano com 17,31%. Na safra 2023/24, o estado do Mato Grosso alcançou uma produção de 2,67 milhões de toneladas de pluma, correspondente a 72,55% da pluma produzida no Brasil. Além disso, o Mato Grosso exportou 182.140 toneladas de algodão em um único mês, correspondendo a 66,32% das exportações brasileiras do produto (ABAPA, 2024; ABRAPA, 2024). 

3 MATERIAL E MÉTODOS 

O trabalho experimental foi conduzido nas dependências do Laboratório de Sementes da Faculdade de Agronomia e Zootecnia, localizado no campus de Cuiabá/MT.  

Para a condução dos ensaios, foram utilizadas sementes de algodão das variedades TMG 22 GLTP, TMG 44 B2RF e FM 912 GLTP RM, safra 2023/2024. As sementes foram classificadas por peneira apropriada para a espécie, oriundas de lotes distintos fornecidos por empresas obtentoras devidamente registradas. As sementes apresentavam tratamento industrial para armazenamento, composto por Fludioxonil, Metalaxil-M, Thiabendazol, Deltametrina, Pirimifós-Metílico, Polioxietileno Alquil Fenol Éter, Talco e Prothiconazole. A recepção das sementes ocorreu no dia 05 de março de 2025, as quais estavam embaladas em sacos de papel kraft. 

Os testes foram conduzidos no período de  19 de março a 10 de abril de 2025. 

Inicialmente foram determinados o teor de água e o peso de mil sementes. 

3.1 Avaliações pre-liminares (qualidade fisiológica) 

Inicialmente, ao receber os lotes de sementes das três variedades de algodão (TMG 22 GLTP, TMG 44 B2RF e FM 912 GLTP RM) foram homogeneizados para garantir uniformidade entre as amostras destinadas a cada tratamento, sendo 3 amostras por variedade. 

Determinação do teor de água 

A determinação do teor de água foi realizada pelo método da estufa a 105 ± 3 ºC. Três repetições de 4,5 gramas de sementes inteiras de cada variedade, foram pesadas em recipientes metálicos não corrosivos com tampas ajustadas. Após 30 minutos de estabilização da temperatura, as amostras, sem tampa, foram posicionadas na prateleira central da estufa, onde permaneceram por 24 horas. Encerrado o período, os recipientes foram imediatamente tampados, transferidos para um dessecador até o completo resfriamento e, em seguida, novamente pesados para o cálculo do teor de água. O teor de água das sementes é um parâmetro fundamental para a conservação da qualidade fisiológica durante o armazenamento. Para as sementes de algodão, recomenda-se que esse teor permaneça abaixo de 10%. Nessas condições, o período de armazenamento seguro não deve ultrapassar oito meses, uma vez que teores superiores de umidade favorecem a deterioração acelerada das sementes, podendo comprometer significativamente a capacidade de germinação em um curto intervalo de tempo (QUEIROGA e BELTRÃO, 1999). 

O cálculo para a obtenção do teor de água das sementes, foi baseado na fórmula apresentada nas RAS:    

A mensuração do peso de mil sementes (PMS) foi realizada conforme metodologia estabelecida pelas Regras para Análise de Sementes (RAS, 2009). O procedimento consistiu em pesar oito repetições de 100 sementes puras de cada uma das variedades de algodão a serem avaliadas. Inicialmente, foram selecionadas manualmente as sementes puras, livres de impurezas, fragmentos e danos visíveis. As sementes foram contadas com o auxílio de um contador de 50 sementes, garantindo precisão e uniformidade entre as repetições. Em seguida, cada repetição de 100 sementes foi pesada individualmente em balança analítica com precisão de 0,001 g.  

O cálculo para a obtenção do peso de mil sementes, foi baseado na fórmula fornecida pela RAS:   

O resultado da determinação é calculado multiplicando-se por 10 o peso médio obtido das repetições de 100 sementes, no caso de o coeficiente de variação for inferior a 4%. 

  Tratamento das sementes  

As sementes de cada variedade de algodão foi dividida em três partes iguais. Em todos os tratamentos, foi aplicado 1 mL de água destilada diretamente sobre as sementes antes da aplicação do Stimulate®, visando maior uniformidade do produto sobre as sementes. O tratamento consistiu em colocar as sementes mais a dose do produto, em sacos de plástico, seguido de movimentos circulares simulando um tratador de sementes automático por um período de 1 minuto.  

1. T1: 1,9 vezes o peso do papel germitest em água.   

2. T2: 2,1 vezes o peso do papel germitest em água.  

3. T3: 2,3 vezes o peso do papel germitest em água.  

4. T4: 2,5 vezes o peso do papel germitest em água.  

5. T5: 1,9 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 10 mL kg-1 semente.  

6. T6: 2,1 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 10 mL kg-1 semente.  

7. T7: 2,3 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 10 mL kg-1 semente. 

8. T8: 2,5 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 10 mL kg-1 semente. 

9. T9: 1,9 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 20 mL kg-1 semente.

10. T10: 2,1 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 20 mL kg-1 semente.

11. T11: 2,3 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 20 mL kg-1 semente. 

12. T12: 2,5 vezes o peso do papel germitest em água + Stimulate® 20 mL kg-1 semente. 

3.2 Avaliações 

Para a condução do teste de germinação, foram utilizados papéis germitest esterilizados, água destilada, sacos de plástico, câmara BOD com temperatura controlada a 25 °C e fotoperíodo de 12 horas, além de semeador de acrílico, pinça e balança de precisão. Inicialmente, foi separado 4 conjuntos de 108 folhas, os papéis secos foram pesados para determinação do volume de água a ser adicionada a cada conjunto, considerando os quatro tratamentos referentes às quantidades de água, sendo: 1,9, 2,1, 2,3 e 2,5 vezes a massa do papel seco.  

O teste foi conduzido pelo método “entre papéis”, no qual duas folhas de papel foram colocadas abaixo das sementes e uma acima. Cada tratamento foi composto por quatro repetições de 50 sementes. Após a semeadura, os rolos foram acondicionados em sacos plásticos e mantidos na câmara BOD por um período de 12 dias.  

A análise final da germinação foi efetuada no décimo segundo dia considerando plântulas normais. Seguindo os critérios estabelecidos pela RAS, considera-se plântula normal aquela que apresenta raiz primária, hipocótilo, cotilédones e gema apical bem desenvolvidos, proporcionais, sadios e funcionalmente adequados. Essas plântulas podem estar completamente intactas ou apresentar pequenos defeitos que não comprometem seu desenvolvimento, como um cotilédone levemente danificado ou um hipocótilo discretamente curvado. Em contrapartida, plântulas anormais são aquelas sem potencial para se desenvolver em plantas normais, devido à ausência ou dano grave em estruturas essenciais, como raiz primária atrofiada, hipocótilo rompido, cotilédones destruídos, gema apical necrosada ou presença de fungo 

Conjuntamente, avaliou-se diariamente a protrusão da raiz primária de mais de 2 mm, para o cálculo da velocidade de germinação. A avaliação foi realizada até o quarto dia, com observações em intervalos de 24 horas, a fim de se determinar a velocidade de germinação. Essa análise permitiu uma compreensão do ritmo da germinação ao longo do tempo e, com os dados foi calculado o índice de velocidade de germinação (IVG), de acordo com a metodologia 

descrita por Maguire (1962):  

Figura 1. Teste de germinação de sementes de algodão (Gossypium hirsutum L.) em papel germitest. 22/03/2025, Cuiabá-MT. 

Com foco na formação de plântulas normais, foi feita a análise nos dias 4, 6, 8, 10 e 12, após a montagem do experimento, por conta do lento desenvolvimento de plântulas normais. Essa abordagem proporcionou uma análise detalhada da evolução do processo germinativo, distinguindo as primeiras fases de germinação da formação mais consolidada das plântulas normais. Com os resultados foi calculado o tempo médio de germinação (TMG), de acordo com a fórmula: 

O experimento foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado, submetido a análise estatística pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 

As amostras utilizadas neste estudo apresentaram teores de água de 9,08% (TMG 22 GLTP), 9,70% (TMG 44 B2RF) e 10,27% (FM 912 GLTP). Isso indica que as sementes se encontravam em condições próximas às adequadas para o armazenamento, sem comprometer a integridade dos resultados experimentais.  

Em relação ao peso de mil sementes das três variedades de semente, a variedade FM 912 GLTP RM, o peso foi de 102,45 gramas a cada mil sementes com coeficiente de variação de 1,472%, para a variedade TMG 22 GLTP, o peso foi de 81,24 gramas a cada mil sementes com coeficiente de variação de 1,086%; para a variedade TMG 44 B2RF, o peso foi de 76,88 gramas a cada mil semente com coeficiente de variação de 1,562%. 

Com base nos resultados obtidos (Tabela 1), observa-se que os tratamentos apresentaram excelente resultados e com alta uniformidade entre tratamentos, não diferindo estatisticamente entre si na maior parte dos casos, com exceção dos tratamentos, T4 (2,5x água e 0 mL de Stimulate® kg-1 semente) que apresentou o menor valor de índice de velocidade de germinação (IVG), embora semelhante aos demais e o tratamento T1 (1,9x água e 0 mL de Stimulate® kg-1 semente) apresentou o menor valor de índice de tempo médio de formação de plântula normal (TMFP). Considerando a germinação, todos os tratamentos desta variedade (TMG22) superaram a exigência mínima de germinação de 75%. 

Tabela 1 – Germinação (G), índice de velocidade de germinação (IVG) e índice tempo médio de formação de plântula normal (TMFP) de sementes de algodão (Gossypium hirsutum L.) da variedade TMG 22 GLTP tratadas com Stimulate® e diferentes níveis de água. Cuiabá/MT. 2025. 

Figura 2. Contagem final das sementes da variedade TMG 22 GLTP, no décimo segundo dia, T1 a esquerda, T5 no centro e T9 à direita. 02/04/2025, Cuiabá – MT. 

No caso das sementes da variedade TMG 44 B2RF, dentre os tratamentos avaliados (Tabela 2), o T3 (2,3x água e 0 mL de Stimulate® kg-1 semente), T7 (2,3x água e 10 mL de Stimulate® kg-1 semente) e T11 (2,3x água e 20 mL de Stimulate® kg-1 semente) destacaram com os melhores desempenhos fisiológicos, atingindo percentuais de germinação de 88,5, 81,0 e 85,0, respectivamente. Esses valores representam uma média de 84,83%, superando em 9,83% o mínimo exigido de 75% para a comercialização de sementes de algodão no Brasil. Além do bom desempenho germinativo, os tratamentos T11 e T12 também apresentaram os melhores tempos médios de formação de plântulas normais, com 20,09 e 20,86, respectivamente. Esse resultado evidencia não apenas uma germinação satisfatória, mas também com maior uniformidade e rapidez no estabelecimento das plântulas, fatores essenciais para o sucesso da lavoura no campo. Por outro lado, o tratamento T1 (1,9x água e 0 mL de Stimulate® kg-1 semente) obteve o pior desempenho, com germinação de 77%, IVG de 26,13 e TMFP de 17,13, reforçando a limitação fisiológica das sementes em condições de menor disponibilidade de água. Esse padrão se repetiu nos tratamentos T5 e T9, que apresentaram valores abaixo da média geral, indicando que o déficit de água, combinados à ausência de regulador, podem comprometer o desempenho fisiológico das sementes. Para os tratamentos T4, T8 e T12, ocorreu algo que reforça a necessidade do uso do regulador para expressar a qualidade fisiológica real das sementes, tendo gradativo aumento nos parâmetros diante do aumento da dose de Stimulate®. 

Tabela 2 – Germinação (G), índice de velocidade de germinação (IVG) e índice tempo médio de formação de plântula normal (TMFP) de sementes de algodão (Gossypium hirsutum L.) da variedade TMG 44 B2RF tratadas com Stimulate® e diferentes níveis de água. Cuiabá/MT. 2025. 

Figura 3. Contagem final das sementes da variedade TMG 44 B2RF, no décimo segundo dia, T3 na parte superior, T7 no centro e T11 na parte inferior. 02/04/2025, Cuiabá – MT. 

Em relação à variedade FM 912 GLTP RM, de acordo com os dados apresentados na Tabela 3, os melhores desempenhos foram observados nos tratamentos T4 (2,5x água e 0 mL de Stimulate® kg-1 semente), T8 (2,5x água e 10 mL de Stimulate® kg-1 semente) e T12 (2,5x água e 20 mL de Stimulate® kg-1 semente), os quais atingiram percentuais de germinação de 81%, 77% e 82%, respectivamente. Esses valores destacam o T12 como o tratamento de melhor desempenho geral, com germinação superior e maiores índices de velocidade de germinação (IVG = 29,63) e de tempo médio de formação de plântula normal (TMFP = 18,71). O resultado observado para o T12 evidencia a eficácia do uso do regulador vegetal Stimulate® na dose de 20 mL de Stimulate® kg-1 semente, aliado a um maior volume de água (2,5x), promovendo não apenas maior germinação, mas também mais uniformidade e rapidez na formação das plântulas. Por outro lado, os tratamentos T5 (1,9x água e 10 mL de Stimulate® kg-1 semente) e T9 (1,9x água e 20 mL de Stimulate® kg-1 semente) apresentaram desempenho inferior, com germinação de 58,5% e 58%, respectivamente, e os menores índices de tempo médio de formação de plântula normal (TMFP), indicando que a aplicação do regulador em volumes baixos de água pode limitar sua eficácia, ou até mesmo comprometer a qualidade fisiológica das sementes. Além disso, a comparação entre os tratamentos com diferentes doses de Stimulate® em 2,5 x de água demonstra que o aumento progressivo da dose resultou em melhor desempenho fisiológico, culminando nos melhores resultados de T12, o que sugere um efeito positivo da sinergia entre maior hidratação e regulador vegetal para esta variedade.

Tabela 3 – Germinação (G), índice de velocidade de germinação (IVG) e t índice tempo médio de formação de plântula normal (TMFP), de sementes de algodão (Gossypium hirsutum L.) da variedade FM 912 GLTP RM tratadas com Stimulate® e diferentes níveis de água. Cuiabá/MT. 2025. 

Figura 4. Contagem final das sementes da variedade FM 912 GLTP RM, no décimo segundo dia, T4 na parte superior, T8 no centro e T12 na parte inferior. 02/04/2025, Cuiabá – MT. 

A condução precisa de testes de germinação em sementes de algodão depende diretamente da correta escolha do fator de multiplicação, que deve considerar as características físicas e fisiológicas do material em análise. Neste estudo, verificou-se que sementes com maior massa e tamanho apresentaram uma exigência proporcionalmente superior de água para expressarem seu potencial germinativo. Essa maior demanda hídrica está relacionada ao fato de que sementes mais volumosas requerem um volume total de água maior para que a embebição atinja de forma eficaz todas as suas estruturas internas, permitindo o desencadeamento adequado dos processos metabólicos associados à germinação. Os testes foram conduzidos dentro da faixa recomendada de 2 a 3 vezes o peso da amostra para o volume de água. Dentro desse intervalo, os resultados demonstraram que sementes com maior peso de mil sementes (PMS) responderam melhor a volumes mais próximos do limite superior da faixa, favorecendo uma germinação mais uniforme e eficiente. Isso indica que, mesmo respeitando os parâmetros técnicos estabelecidos, o ajuste fino do volume de água deve ser realizado com base nas características físicas de cada lote, otimizando a resposta fisiológica das sementes. Quanto ao uso do bioestimulante Stimulate® (cinetina 0,09 g L⁻¹, ácido giberélico 0,05 g L⁻¹ e ácido indolbutírico 0,05 g L⁻¹), observou-se que seu efeito foi mais evidente nos tratamentos com menor potencial germinativo inicial, contribuindo para leves melhorias na uniformidade ou na velocidade de formação de plântulas. Em cultivares com maior desempenho fisiológico, como a TMG 22 GLTP, o produto não apresentou diferenças estatísticas em relação ao controle. Ainda assim, sua aplicação pode representar uma estratégia complementar em lotes mais desuniformes ou com desempenho inferior, desde que associada a um manejo hídrico adequado.  

Portanto, os resultados obtidos reforçam a importância de um manejo criterioso do volume de água utilizado nos testes de germinação, adaptando-se às particularidades físicas de cada lote de sementes. Essa abordagem técnica assegura maior confiabilidade nos dados laboratoriais e amplia a correlação com a emergência e o vigor em campo. 

Gráfico 1. Percentual de germinação (%) em função das doses de Stimulate® e fator de água para variedades de algodão. Fonte: Elaboração própria. 

Gráfico 2. Germinação de sementes de algodão (%) conforme a relação água/papel e doses de Stimulate® por variedade de algodão. Fonte: Elaboração própria. 

Os gráficos mostram o comportamento germinativo das cultivares TMG22, TMG44 e FM912 em função de diferentes doses do regulador vegetal Stimulate e variações na relação água x papel. A TMG22 manteve altos índices de germinação em todas as condições, sem diferenças estatísticas entre as doses, o que evidencia seu alto vigor e estabilidade, mesmo sem tratamento. Ainda assim, destacou-se em comparação às demais cultivares. A TMG44 apresentou resposta mais evidente ao regulador vegetal, com melhor desempenho em doses mais altas e em condições de umidade intermediária, sugerindo maior dependência do estímulo em ambientes mais favoráveis. A FM912 foi a cultivar mais sensível, com baixos percentuais de germinação nas doses de 0 e 10 mL, mas respondeu positivamente à aplicação de 20 mL de Stimulate, especialmente na relação água x papel de 2,5, onde atingiu seu melhor resultado. De forma geral, os dados indicam que o uso do regulador vegetal tem maior impacto em cultivares de menor vigor, enquanto cultivares como a TMG22 mantêm desempenho elevado independentemente do tratamento aplicado 

5 CONCLUSÃO 

A resposta à relação água x papel variou conforme o peso das sementes, com melhor desempenho em 2,1x para as mais leves, 2,3x apresentando resultados intermediários e estáveis, e 2,5x favorecendo as mais pesadas. A associação com Stimulate® contribuiu para a melhora da germinação nas sementes de menor potencial germinativo. 

REFERÊNCIAS 

ABAPA – Associação Baiana dos Produtores de Algodão. Bahia encerra plantio de algodão com crescimento de 9,3% de área. Disponível em: https://abapa.com.br/noticias/bahiaencerra-plantio-de-algodao-com-crescimento-de-93-de-area/ Acesso em: 09 abr. 2025. 

ABRAPA – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão. Safra brasileira de algodão 2024/2025 deverá ser 8% maior. Disponível em: https://abrapa.com.br/2024/09/19/safrabrasileira-de-algodao-2024-2025-devera-ser-8-maior-e-brasil-pode-manter-a-liderancaglobal-nas-exportacoes/? Acesso em: 09 abr. 2025. 

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