REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202507181758
Lucas Diego do Rosário Reis
Francineudes Pinto do Carmo Lemos
Edinolia Ferreira Maia
Thiago Mendes Diniz
Killmy Allysson Aragão Sousa
Andressa Rodrigues Silva
Loidiana da Silva Maia Alves
1. INTRODUÇÃO
A infância é considerada uma das fases mais importantes do desenvolvimento humano, pois é nesse período que se estruturam as bases físicas, cognitivas e comportamentais que acompanharão o indivíduo por toda a vida (CARVALHO, 2023). Quanto a isso, Ramos (2023) complementa que entre os aspectos mais relevantes para o desenvolvimento saudável da criança, destaca-se a alimentação, cuja qualidade e equilíbrio têm influência direta sobre o crescimento, o aprendizado, a prevenção de doenças e a construção de hábitos saudáveis.
Para Silva (2024), a escola é um espaço privilegiado para a formação de hábitos que se estendem por toda a vida. Entre os pilares fundamentais para o desenvolvimento integral da criança está a alimentação saudável, que não apenas contribui para o crescimento físico, mas também influencia diretamente o desempenho cognitivo, o bem-estar emocional e a prevenção de doenças.
De acordo com Costa (2021), promover uma alimentação adequada na escola vai além de oferecer alimentos nutritivos no cardápio. Trata-se de um processo educativo que envolve professores, profissionais da saúde, merendeiras, gestores, estudantes e suas famílias.
Diante desse cenário, insere-se o Programa Saúde na Escola (PSE), sendo uma estratégia intersetorial que visa à articulação entre as políticas públicas de saúde e educação, com o propósito de fortalecer o desenvolvimento integral dos estudantes da rede pública de ensino. Instituído em 2007 por meio de uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação, o programa tem como foco principal a promoção da saúde e a prevenção de agravos entre crianças, adolescentes e jovens no ambiente escolar.
O PSE parte do entendimento de que a escola é um espaço privilegiado para a construção de práticas de promoção à saúde, visto que é ali que os estudantes passam grande parte do seu tempo e onde é possível atuar de forma contínua e sistemática (RIBEIRO, 2022). Por meio dele, equipes da atenção básica em saúde desenvolvem atividades integradas ao cotidiano escolar, abordando temas como alimentação saudável, saúde bucal, saúde mental, prevenção ao uso de álcool e outras drogas, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), combate ao mosquito Aedes aegypti, dentre outros.
Outro aspecto relevante é o fortalecimento dos vínculos entre a escola, a família e os profissionais de saúde, o que favorece uma atuação mais abrangente e humanizada. Ao envolver a comunidade escolar no cuidado com a saúde, o PSE promove a corresponsabilidade e o empoderamento dos sujeitos no processo de cuidado, contribuindo para a construção de uma cultura de prevenção.
Frente a esse cenário, a Unidade Básica de Saúde (UBS), articula-se como peça ímpar na promoção de saúde dentro do ambiente escolar, onde busca ações de conscientização dos educandos sobre temas centrais para prevenção de doenças. Segundo Santos (2023), a presença da equipe da UBS nas escolas permite uma atuação preventiva eficaz, por meio de ações educadoras em saúde, dessa maneira, a atuação da UBS no contexto escolar fortalece a integralidade do cuidado e amplia o acesso das crianças e adolescentes aos serviços de saúde.
Atrelado a ações de saúde da criança, observa-se a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) que representa um marco importante para o fortalecimento da atenção primária à saúde infantil no Brasil, com o objetivo promover o cuidado integral e contínuo às crianças, considerando seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Sobre isso, Santos (2021) complementa que a PNAISC estabelece a necessidade de articulação entre os diversos pontos da Rede de Atenção à Saúde, reforçando a atuação multiprofissional e a participação da família no cuidado.
O papel do enfermeiro e demais profissionais da saúde na escola também é estratégico. Ao atuarem como educadores em saúde, esses profissionais podem desenvolver projetos que dialoguem com o universo infantil, promovendo o aprendizado por meio de histórias, brincadeiras, jogos e práticas que valorizem o saber popular e o conhecimento científico.
A atuação do enfermeiro no âmbito da PSE é essencial, sendo esse profissional capacitado para realizar ações educativas, desenvolver estratégias lúdicas e propor intervenções que articulem o saber científico com a realidade vivenciada pelas crianças (DE OLIVEIRA BASTOS, 2021).
Diante disso, o presente artigo tem como objetivo relatar uma experiência vivenciada durante o estágio supervisionado em saúde da criança, realizada em uma escola comunitária da educação infantil, que teve como foco a promoção da alimentação saudável por meio de atividades lúdicas e educativas.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um relato de experiência, com abordagem qualitativa e descritiva, que tem como foco um projeto de intervenção realizado pelos discentes de enfermagem durante o estágio Supervisionado em Saúde da Criança e do Adolescente, vinculado ao Programa Saúde na Escola (PSE).
A ação foi desenvolvida por acadêmicos de Enfermagem em uma escola comunitária da educação infantil no município de Paço do Lumiar/MA, em parceria com a Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada nessa mesma região.
A execução do projeto ocorreu no dia 25 de março de 2025 e teve como objetivo promover a saúde infantil por meio de atividades educativas voltadas para a prevenção de doenças e a promoção de hábitos saudáveis entre as crianças da educação infantil.
A ferramenta utilizada foi a de intervenção prática, onde os acadêmicos de Enfermagem participaram de ações educativas voltadas à promoção de saúde e prevenção de doenças. A atividade desenvolvida na escola envolveu o tema da alimentação saudável. Para facilitar a compreensão dos alunos, foram adotadas metodologias lúdicas, roda de conversa e dinâmica
Uma das atividades lúdicas desenvolvidas pelos estagiários consistiu na adaptação da tradicional brincadeira “Céu e Terra”. A proposta original, que envolve a divisão do espaço físico em dois quadrantes por uma linha central — com comandos orais determinando em qual lado a criança deve se posicionar — foi ressignificada com o objetivo de promover a educação em saúde voltada para a alimentação saudável.
Para tanto, utilizou-se uma fita adesiva como marcação no chão, delimitando dois espaços: um identificado com a placa “Saudável” e o outro com a placa “Não saudável”. Durante a atividade, o estagiário apresentava diferentes alimentos, variando entre opções naturais, como frutas, e industrializadas. Ao ouvir o nome do alimento anunciado em voz alta pelo estagiário, os educandos deveriam se deslocar rapidamente para o lado correspondente, sinalizando se consideravam aquele alimento saudável ou não. A dinâmica permitiu uma abordagem lúdica e interativa, estimulando o raciocínio crítico das crianças acerca de suas escolhas alimentares.
Os dados foram coletados através de observações diretas das atividades, registros em diário de campo e discussões supervisionadas com os preceptores. A pesquisa foi realizada de acordo com a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, e como não envolveu dados sensíveis, não houve necessidade de aprovação por um Comitê de Ética.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A experiência de promoção da saúde voltada à alimentação saudável para crianças da Educação Infantil revelou-se extremamente rica e significativa, tanto para os profissionais/estagiários envolvidos quanto para os próprios alunos. A atividade foi desenvolvida em uma instituição comunitária de ensino, com crianças com idades entre 01 e 05 anos. A proposta pedagógica baseou-se em práticas lúdicas, interativas e educativas, de modo a favorecer a construção de hábitos alimentares saudáveis desde a primeira infância.
Desde o início das atividades, foi possível observar que, de modo geral, as crianças já apresentavam hábitos alimentares considerados saudáveis. Muitas delas relataram consumir frutas e legumes diariamente e demonstraram familiaridade com alimentos naturais. Esse dado foi notado durante as conversas espontâneas, rodas de diálogo e momentos de partilha, o que facilitou a abordagem das temáticas propostas. Diferente de outras experiências descritas na literatura, onde há resistência inicial e necessidade de correção de hábitos inadequados (MILANE, 2023), neste caso específico, o trabalho se direcionou mais para o reforço positivo e para a valorização da alimentação como parte de uma vida saudável.
Um aspecto bastante interessante que emergiu espontaneamente das interações foi a associação que as crianças faziam entre alimentação saudável e a força dos super-heróis. Muitas afirmavam que “comer cenoura dá força igual ao super-homem” ou que “banana ajuda a correr igual ao Flash”. Essa associação simbólica revelou-se extremamente potente do ponto de vista pedagógico, pois permitiu que os educadores explorassem o tema de forma ainda mais próxima do universo infantil. De acordo com Benz (1998), a aprendizagem se dá a partir da mediação cultural, e a linguagem simbólica dos super-heróis foi um recurso facilitador para conectar o conteúdo nutricional à realidade da criança.
A ludicidade esteve presente em todas as etapas, e a participação das crianças foi ativa e entusiasmada. Observou-se que, ao nomear os alimentos como “superforça da cenoura”, “poder da maçã” ou “energia do arroz e feijão”, elas internalizavam os conceitos de maneira mais significativa.
Durante essas atividades, surgiu também uma importante demonstração de consciência crítica por parte das crianças. Em uma das rodas de conversa, uma aluna comentou: “pirulito faz mal pro dente”, o que gerou um diálogo coletivo sobre os alimentos que “não têm superpoderes”, ou que até “enfraquecem a força”. Essa fala espontânea evidenciou que, além do incentivo aos bons hábitos, as crianças também já têm alguma noção dos impactos negativos de alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar
Essa estratégia está alinhada com os princípios da educação alimentar e nutricional na infância, que defendem a integração entre o conhecimento científico e o contexto sociocultural da criança (RIBEIRO, 2022). Ao invés de impor regras ou restringir comportamentos, a proposta valorizou o diálogo, a curiosidade e o prazer de comer bem. Além disso, ao relacionar os alimentos a personagens do imaginário infantil, a experiência favoreceu o desenvolvimento da autonomia e da autoestima, elementos fundamentais no processo educativo.
Embora não tenha sido realizada uma sondagem prévia, o acompanhamento contínuo das crianças e a escuta ativa durante as atividades permitiram observar seus hábitos e percepções sobre o tema. A ausência dessa etapa inicial não comprometeu a efetividade da ação, uma vez que a abordagem flexível e centrada na criança favoreceu a adaptação contínua das estratégias pedagógicas conforme as respostas do grupo.
Contudo, um dos desafios encontrados foi manter o foco das crianças por longos períodos, uma vez que a faixa etária exige dinamismo e alternância constante de estímulos. A criatividade dos estagiários, nesse contexto, foi essencial para garantir o envolvimento do grupo e o alcance dos objetivos. Outra limitação foi a falta de tempo para aprofundar alguns temas, o que reforça a importância de incorporar a educação alimentar de forma contínua no currículo da Educação Infantil.
De modo geral, os resultados da experiência foram extremamente positivos, evidenciando que trabalhar a alimentação saudável desde os primeiros anos escolares, com abordagens lúdicas e simbólicas, é uma estratégia eficaz para fortalecer hábitos saudáveis de forma prazerosa. A associação com super herois mostrou-se uma ferramenta poderosa para dar sentido às escolhas alimentares das crianças, tornando o tema atraente, compreensível e parte de sua rotina imaginativa e real.
4. CONCLUSÃO
A experiência de promoção da alimentação saudável com crianças da Educação Infantil demonstrou ser uma estratégia eficaz e significativa para o fortalecimento de hábitos alimentares positivos desde os primeiros anos de vida. Por meio de atividades lúdicas, interativas e adaptadas ao universo infantil, foi possível não apenas reforçar práticas alimentares já existentes, como também ampliar o repertório de conhecimentos das crianças sobre os benefícios de uma alimentação equilibrada.
Destaca-se, nesse contexto, o papel fundamental da ludicidade, especialmente a associação feita pelas crianças entre os alimentos saudáveis e os superpoderes dos super-heróis. Essa construção simbólica permitiu uma aproximação natural e prazerosa com os alimentos naturais, favorecendo a internalização de conceitos de saúde de forma espontânea e significativa. A fala de uma criança ao afirmar que “pirulito faz mal pro dente” evidencia que elas também conseguem reconhecer os malefícios de certos alimentos e refletir criticamente sobre suas escolhas.
Ainda que não tenha sido realizada uma sondagem prévia, a escuta ativa e a observação constante dos educadores permitiram compreender as percepções e os hábitos alimentares das crianças, possibilitando intervenções alinhadas com suas vivências e interesses. A participação das famílias também se mostrou importante no processo, reforçando a ideia de que a promoção da saúde na infância deve envolver todos os atores do ambiente escolar e familiar.
Essa experiência também deixa uma mensagem importante para os demais estagiários da área da educação e da saúde: trabalhar com crianças pequenas exige sensibilidade, criatividade e escuta ativa. Ao promover a alimentação saudável de forma lúdica, descobrimos que aprender pode — e deve — ser prazeroso. Cada atividade proposta, cada fala espontânea das crianças e cada troca com a equipe escolar contribuiu não apenas para o aprendizado delas, mas também para o nosso crescimento pessoal e profissional. O estágio é um espaço de vivência real, onde teoria e prática se encontram (QUALHO, 2021).
Conclui-se, portanto, que ações de educação alimentar na Educação Infantil são essenciais para a formação de indivíduos mais conscientes, críticos e saudáveis. Ao integrar temas de saúde ao cotidiano escolar de forma leve, criativa e afetiva, contribui-se para o desenvolvimento integral da criança e para a construção de uma cultura alimentar mais saudável e sustentável.
5. REFERÊNCIAS
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