DIPYLIDIUM IN DOGS AND CATS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510311258
Livia dos Santos Vieira1
Bernardo Barcelos Coutinho1
Gabriel Carvalho de Almeida1
Vívian da Silva Souza Marins1
Orientadora: Luciana de Lima Bezerra2
RESUMO
A dipilidiose, causada pelo cestódeo Dipylidium caninum, é uma parasitose intestinal frequente em cães e gatos, transmitida pela ingestão de pulgas infectadas. Embora muitas vezes seja assintomática, pode gerar prurido anal, alterações gastrointestinais e perda de peso, além de representar risco zoonótico, principalmente em crianças. Este trabalho teve como objetivo analisar aspectos clínicos, diagnósticos, terapêuticos e epidemiológicos da infecção em animais de companhia e suas implicações para a saúde pública. A metodologia consistiu em uma revisão narrativa de literatura, realizada nas bases SciELO, PubMed e Scopus, considerando o período de 2015 a 2025, com inclusão de artigos originais, revisões e diretrizes internacionais, e exclusão de estudos sem revisão por pares ou anteriores a 2015. Os resultados apontam que, apesar de não ser uma parasitose de alta gravidade, o D. caninum mantém relevância devido à sua ampla distribuição, aos relatos de resistência a fármacos e ao potencial zoonótico. Conclui se que o controle eficaz exige medidas integradas de vermifugação, manejo de pulgas e monitoramento constante.
Palavras-chave: Dipylidium caninum; cães e gatos; zoonoses; parasitologia veterinária.
ABSTRACT
Dipylidiosis, caused by the cestode Dipylidium caninum, is a common intestinal parasitosis in dogs and cats, transmitted through the ingestion of infected fleas. Although often asymptomatic, it may lead to anal pruritus, gastrointestinal changes, and weight loss, besides posing a zoonotic risk, especially in children. This study aimed to analyze the clinical, diagnostic, therapeutic, and epidemiological aspects of the infection in companion animals and its implications for public health. The methodology consisted of a narrative literature review, using SciELO, PubMed, and Scopus databases, covering the period from 2015 to 2025, including original articles, reviews, and international guidelines, and excluding studies without peer review or prior to 2015. The results indicate that, although not considered a severe parasitosis, D. caninum remains relevant due to its wide distribution, reports of drug resistance, and zoonotic potential. It is concluded that effective control requires integrated measures involving deworming, flea management, and continuous monitoring in veterinary health programs.
Keywords: Dipylidium caninum; dogs and cats; zoonoses; veterinary parasitology.
1. INTRODUÇÃO
A parasitose intestinal em animais de companhia é um problema recorrente na clínica veterinária, com repercussões não apenas para a saúde animal, mas também para a saúde pública. Entre os principais agentes envolvidos destaca-se Dipylidium caninum, um cestódeo amplamente distribuído no mundo, que tem como hospedeiros definitivos cães e gatos e que pode, eventualmente, infectar seres humanos, sobretudo crianças (Rousseau et al., 2022). A infecção, frequentemente assintomática, é favorecida pela presença de ectoparasitas, como pulgas do gênero Ctenocephalides, responsáveis por veicular a forma larval infectante (Labuschagne et al., 2018).
A transmissão ocorre quando cães e gatos ingerem pulgas infectadas durante a lambedura ou o ato de coçar, permitindo que o parasita atinja o intestino delgado e complete seu ciclo (Beugnet et al., 2018). Esse processo reforça a importância do controle integrado de endo e ectoparasitas, uma vez que a prevenção da dipilidiose depende diretamente da redução da infestação por pulgas e piolhos.
Do ponto de vista clínico, embora muitos animais infectados permaneçam assintomáticos, alguns podem apresentar sinais inespecíficos como prurido anal, diarreia intermitente, emagrecimento e desconforto abdominal. A visualização de proglotes móveis semelhantes a grãos de arroz nas fezes ou na região perianal é frequentemente o indicativo mais evidente da presença do parasita (Morelli et al., 2024). Em casos graves, especialmente em filhotes ou animais debilitados, a dipilidiose pode impactar o crescimento e a qualidade de vida. Para além do âmbito veterinário, a zoonose ganha relevância porque infecções humanas têm sido documentadas em diversos países, incluindo casos no Brasil (Benítez-Bolívar et al., 2022; Jiang et al., 2017).
O uso de praziquantel continua sendo o método terapêutico mais eficaz, embora relatos recentes de resistência em algumas regiões chamem a atenção para a necessidade de monitoramento contínuo (Oehm et al., 2024). Além disso, o diagnóstico coproparasitológico e, mais recentemente, os testes de detecção de coproantígenos têm aprimorado a sensibilidade da identificação da infecção, permitindo uma intervenção mais precoce e efetiva (Elsemore et al., 2023; Little et al., 2023). Nesse contexto, estudos epidemiológicos e de vigilância são essenciais para entender a dinâmica da transmissão e subsidiar práticas de prevenção.
A presente investigação justifica-se pela relevância de compreender a dinâmica da dipilidiose em cães e gatos e suas implicações zoonóticas. Embora seja considerada uma parasitose de baixa gravidade, sua prevalência, a possibilidade de resistência ao tratamento e o risco de transmissão a humanos ampliam sua importância clínica e de saúde pública. Surge, assim, a seguinte problemática: como avançar nas estratégias de prevenção e controle da dipilidiose em animais de companhia, considerando o impacto dessa zoonose na saúde coletiva?
O objetivo deste trabalho é analisar a ocorrência e os aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos relacionados ao Dipylidium caninum em cães e gatos, destacando também suas implicações zoonóticas. Pretende-se discutir as abordagens atuais de controle e tratamento, com base em evidências científicas recentes, enfatizando a necessidade de estratégias integradas para a saúde animal e humana.
A metodologia adotada consiste em uma revisão bibliográfica narrativa, com foco em artigos científicos publicados entre 2015 e 2025. Foram utilizados descritores como “Dipylidium caninum”, “dogs”, “cats”, “zoonosis” e “praziquantel resistance” nas bases de dados SciELO, PubMed e Scopus. Como critérios de inclusão, consideraram-se estudos originais, revisões sistemáticas e diretrizes internacionais que abordassem aspectos clínicos, diagnósticos, terapêuticos e epidemiológicos do parasita em cães, gatos e humanos.
2. Materiais e Métodos
O presente estudo foi delineado como uma revisão bibliográfica narrativa, modalidade que possibilita examinar de forma crítica e reflexiva os trabalhos acadêmicos já publicados sobre determinado tema, sem se restringir a protocolos tão rígidos quanto aqueles das revisões sistemáticas. A escolha por essa abordagem justifica-se pelo objetivo de reunir, analisar e discutir a produção científica recente acerca da infecção por Dipylidium caninum em cães e gatos, reconhecendo não apenas os avanços, mas também os desafios relacionados ao diagnóstico, tratamento, prevenção e implicações zoonóticas. Dessa forma, foi possível construir uma visão mais ampla e integrada do problema, fundamental para compreender a sua relevância tanto na clínica veterinária quanto na saúde pública (Rousseau et al., 2022).
A coleta do material bibliográfico ocorreu no período compreendido entre março e agosto de 2025, de modo a garantir atualidade e rigor na seleção dos trabalhos. Para a busca, foram utilizadas três bases de dados reconhecidas internacionalmente pela indexação de publicações científicas de qualidade: SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed e Scopus. Essas plataformas foram escolhidas porque contemplam, em conjunto, literatura nacional e internacional, cobrindo áreas como parasitologia veterinária, saúde animal, saúde coletiva e epidemiologia.
Os descritores empregados na pesquisa foram definidos a partir de termos consagrados na literatura e relacionados diretamente ao objeto de estudo. Em português, foram utilizados: “Dipylidium caninum”, “cães”, “gatos”, “zoonoses” e “antiparasitários”. Em inglês, os descritores aplicados foram: “Dipylidium caninum”, “dogs”, “cats”, “zoonoses”, “praziquantel resistance” e “One Health”. A escolha de termos bilíngues ampliou o alcance das buscas, permitindo identificar trabalhos publicados em diferentes contextos geográficos e linguísticos. Para potencializar a recuperação de informações, foram empregados operadores booleanos como AND e OR, combinando os descritores em diferentes arranjos. Essa estratégia de busca aumentou a abrangência do levantamento, reduzindo a chance de exclusão de estudos relevantes (Morelli et al., 2024).
Os critérios de inclusão foram cuidadosamente estabelecidos para garantir consistência e pertinência ao corpo documental selecionado. Foram considerados elegíveis artigos originais, revisões sistemáticas, relatos de caso e diretrizes internacionais que abordassem de forma direta o Dipylidium caninum em cães, gatos ou seres humanos. Além disso, estipulou-se que os estudos deveriam ter sido publicados no período de 2015 a 2025, em idiomas como português, inglês ou espanhol, o que assegurou a análise de produções recentes e acessíveis à comunidade científica.
Como critérios de exclusão, foram descartadas publicações anteriores a 2015, por não refletirem a atualização necessária ao tema; trabalhos sem revisão por pares, por não atenderem ao rigor científico mínimo; documentos de caráter opinativo ou com evidências frágeis, como editoriais sem fundamentação empírica; e materiais provenientes de blogs, pré-prints, enciclopédias virtuais e sites de caráter não acadêmico. Essa decisão seguiu as orientações da própria Revista Mosaico, que não admite o uso dessas fontes como referências válidas em artigos científicos.
Após a triagem inicial, os artigos que atendiam aos critérios foram organizados em um banco de dados pessoal do pesquisador. Para cada estudo selecionado, foram registrados elementos essenciais, como: autor, ano de publicação, periódico, objetivos do trabalho, metodologia empregada e principais resultados. Esse processo de sistematização teve como finalidade não apenas organizar o material, mas também permitir uma análise comparativa entre os diferentes achados.
A análise dos resultados foi conduzida de forma qualitativa e interpretativa, priorizando a integração dos conteúdos e a identificação de tendências ou pontos críticos que atravessam a literatura recente. Essa leitura ampliada possibilitou reconhecer avanços importantes, como o desenvolvimento de métodos diagnósticos mais sensíveis, a exemplo dos testes de coproantígenos, que têm se mostrado eficazes para a detecção precoce de infecções (Elsemore et al., 2023; Little et al., 2023). Além disso, a revisão permitiu identificar preocupações emergentes, como os relatos de resistência ao praziquantel em determinados contextos, apontando para a necessidade de estratégias complementares de manejo (Oehm et al., 2024).
Portanto, os materiais e métodos empregados neste estudo proporcionaram uma leitura abrangente e crítica sobre o tema, valorizando o rigor metodológico na seleção das fontes e, ao mesmo tempo, permitindo a construção de uma narrativa integradora. Essa escolha metodológica revelou-se adequada por contemplar a complexidade da dipilidiose, doença que exige uma abordagem multidisciplinar para compreender sua relevância na saúde animal e suas implicações na saúde pública.
3. Resultados e Discussão
3.1 Morfologia e ciclo biológico
O Dipylidium caninum é um cestódeo amplamente conhecido por sua morfologia peculiar e pelo ciclo biológico dependente de hospedeiros intermediários. Seu corpo é alongado e segmentado, podendo atingir dezenas de centímetros em infecções intensas. O escólex, localizado na região anterior, apresenta quatro ventosas e um rostro retrátil armado com ganchos quitinosos, estruturas que garantem a fixação do parasita na mucosa intestinal do hospedeiro definitivo. A partir dessa região desenvolvem-se proglotes imaturos, que amadurecem progressivamente até se tornarem grávidos, carregando cápsulas ovígeras repletas de ovos embrionados. Esses proglotes, ao serem eliminados nas fezes, constituem a principal forma de disseminação ambiental do parasita (Rousseau et al., 2022).
O ciclo de vida do D. caninum exige a participação de pulgas, especialmente do gênero Ctenocephalides, e, em menor escala, de piolhos mastigadores como Trichodectes canis. As larvas de pulgas ingerem ovos presentes no ambiente, que evoluem até a fase de cisticercoide dentro do inseto. Quando cães ou gatos ingerem acidentalmente pulgas adultas infectadas durante a lambedura ou mastigação, o cisticercoide é liberado e se desenvolve no intestino delgado, reiniciando o ciclo (Labuschagne et al., 2018).
Esse processo demonstra que a dipilidiose depende intimamente da presença de ectoparasitas no ambiente. Portanto, não basta apenas o tratamento farmacológico dos animais infectados, sendo necessário incluir medidas de manejo ambiental e controle de pulgas para interromper o ciclo. Além disso, estudos moleculares recentes têm mostrado a existência de genótipos distintos mais adaptados a cães ou a gatos, sugerindo que a diversidade genética pode influenciar a dinâmica da transmissão (Beugnet et al., 2018). Assim, compreender a biologia do parasita é essencial para formular estratégias eficazes de prevenção e controle.
3.2 Epidemiologia e distribuição
A dipilidiose é uma parasitose de ampla distribuição geográfica, presente em diferentes continentes e adaptada a variados contextos ambientais. A prevalência do Dipylidium caninum em cães e gatos está fortemente associada à presença de pulgas, que funcionam como hospedeiros intermediários indispensáveis ao ciclo. Em regiões tropicais e subtropicais, como a América Latina, a abundância desses insetos, favorecida por altas temperaturas e umidade, explica a maior frequência de diagnósticos clínicos e laboratoriais (Rousseau et al., 2022). No Brasil, estudos apontam prevalências que podem variar de 2% a 15% em cães atendidos em clínicas e centros de zoonoses, dependendo da região avaliada, do acesso a medidas preventivas e do nível de conscientização dos tutores.
Na Europa, relatos mais expressivos concentram-se em países mediterrâneos, como Espanha e Itália, onde o clima quente e úmido favorece a manutenção de populações de pulgas durante grande parte do ano. Na Ásia, registros em países como Índia, China e Japão confirmam que o parasita permanece relevante, especialmente em áreas urbanas com falhas no controle de ectoparasitas (Beugnet et al., 2018). Em regiões rurais, a situação tende a ser mais grave, pois a convivência entre animais de companhia, animais de criação e populações de cães errantes cria ambientes propícios à circulação contínua do parasita.
Os achados moleculares recentes, que identificaram diferenças genéticas entre isolados de D. caninum provenientes de cães e de gatos. Essa diversidade sugere a existência de linhagens adaptadas a cada espécie, com possível impacto sobre a epidemiologia local e a resposta aos tratamentos convencionais (Beugnet et al., 2018). Em síntese, a distribuição da dipilidiose reflete não apenas fatores climáticos e biológicos, mas também condições socioeconômicas, acesso a antiparasitários e práticas de manejo. Por isso, seu controle deve ser pensado de forma integrada, considerando tanto a realidade ambiental quanto as desigualdades sociais que influenciam a prevenção.
3.3 Aspectos clínicos
A dipilidiose em cães e gatos, na maioria dos casos, é uma parasitose de curso silencioso. Muitos animais infectados não apresentam sinais clínicos evidentes, o que contribui para a subnotificação e dificulta a identificação precoce da doença. Entretanto, quando a carga parasitária é elevada ou o hospedeiro apresenta fragilidade imunológica, alguns sintomas podem surgir e comprometer a qualidade de vida dos animais. Entre os sinais mais relatados estão o prurido anal, caracterizado pelo ato de arrastar a região perianal no chão, diarreia intermitente, desconforto abdominal e perda de peso. Em filhotes, a infecção pode estar associada ao atraso no crescimento e a quadros de debilidade geral, uma vez que a presença do parasita interfere na absorção de nutrientes (Rousseau et al., 2022).
A eliminação de proglotes móveis junto às fezes, frequentemente identificados pelos tutores como pequenos grãos de arroz que se deslocam na região perianal ou na cama dos animais. Esse sinal é considerado uma das manifestações mais características da infecção e muitas vezes é o primeiro indício levado ao consultório veterinário. Apesar disso, é importante salientar que a presença de proglotes pode ser intermitente, o que explica porque alguns animais parasitados não demonstram esse achado clínico em todas as observações (Morelli et al., 2024). Nos casos mais graves, principalmente em animais jovens, debilitados ou com infecções múltiplas, podem ocorrer vômitos, distensão abdominal e anorexia. A sintomatologia, por ser inespecífica, pode facilmente ser confundida com outras doenças gastrointestinais, como giardíase, coccidiose ou verminoses por nematoides. Esse quadro reforça a importância de não basear o diagnóstico apenas na clínica, mas de associar exames complementares. Em síntese, os aspectos clínicos da dipilidiose variam desde infecções subclínicas até quadros que comprometem significativamente o bem-estar animal, justificando a necessidade de atenção constante por parte dos médicos-veterinários e tutores.
3.4 Diagnóstico
O diagnóstico da dipilidiose em cães e gatos combina a observação clínica com exames laboratoriais específicos. Tradicionalmente, a forma mais comum de identificação é a visualização dos proglotes móveis, semelhantes a grãos de arroz, presentes nas fezes ou aderidos à região perianal. Esse achado, frequentemente relatado pelos tutores, constitui um sinal característico, mas sua ausência não descarta a infecção, já que a eliminação pode ocorrer de forma intermitente (Morelli et al., 2024).
No âmbito laboratorial, os exames coproparasitológicos convencionais, como o método de flotação, apresentam limitações na detecção dos ovos de Dipylidium caninum. Isso ocorre porque os ovos geralmente permanecem agrupados dentro das cápsulas ovígeras e nem sempre são liberados de forma a serem identificados ao microscópio. Assim, a sensibilidade desse tipo de exame é considerada baixa, especialmente em infecções discretas (Rousseau et al., 2022).
Nos últimos anos, avanços importantes foram registrados com o desenvolvimento de testes imunológicos, em especial os que detectam coproantígenos. Esses exames aumentam a sensibilidade do diagnóstico, permitindo identificar infecções mesmo em animais assintomáticos ou com baixa carga parasitária. Pesquisas recentes demonstraram que tais testes podem se tornar ferramentas úteis tanto para a prática clínica quanto para estudos epidemiológicos, auxiliando no monitoramento da prevalência da doença em diferentes regiões (Elsemore et al., 2023; Little et al., 2023).
Técnicas de biologia molecular, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), têm sido aplicadas para diferenciar genótipos de D. caninum, oferecendo informações adicionais sobre a diversidade genética do parasita e possíveis implicações clínicas (Beugnet et al., 2018). Dessa forma, observa-se uma evolução no diagnóstico da dipilidiose, que passa de métodos essencialmente observacionais para estratégias mais sofisticadas, capazes de proporcionar maior precisão e contribuir para a definição de condutas terapêuticas e preventivas mais eficazes.
3.5 Tratamento e resistência
O tratamento da dipilidiose em cães e gatos baseia-se principalmente no uso do praziquantel, fármaco de eleição pela sua eficácia contra cestódeos e segurança em animais de companhia. A administração pode ser realizada em dose única oral ou injetável, apresentando bons resultados na eliminação dos parasitas adultos do intestino. Alternativamente, o epsiprantel também pode ser utilizado, oferecendo ação semelhante. Em casos de reinfecção, recomenda-se repetir a administração de acordo com a orientação do médico-veterinário (Rousseau et al., 2022).
O sucesso terapêutico não depende apenas da vermifugação, já que a infecção está diretamente ligada à presença de pulgas, que atuam como hospedeiros intermediários. Sem o controle simultâneo desses ectoparasitas, é comum que os animais se reinfectem logo após o tratamento, o que gera a falsa impressão de falha medicamentosa. Por essa razão, protocolos terapêuticos eficazes incluem a associação da vermifugação ao controle ambiental e ao uso de antiparasitários externos, como coleiras, pipetas ou comprimidos específicos para pulgas (Morelli et al., 2024).
Nos últimos anos, relatos de resistência ao praziquantel têm chamado a atenção da comunidade científica. Estudos realizados na Europa descreveram casos de insucesso terapêutico, sugerindo o surgimento de cepas menos sensíveis ao fármaco (Oehm et al., 2024). Da mesma forma, experimentos laboratoriais indicam que o uso contínuo e indiscriminado do praziquantel pode exercer pressão seletiva, favorecendo a sobrevivência de parasitas resistentes (Chelladurai; Kifleyohannes; Brewer, 2018). Esse cenário levanta preocupações sobre a eficácia futura do medicamento e evidencia a necessidade de novas pesquisas para o desenvolvimento de alternativas terapêuticas.
Embora o praziquantel continue sendo a principal ferramenta no combate ao D. caninum, seu uso deve ser acompanhado de medidas integradas de prevenção. O controle das pulgas e a conscientização dos tutores são essenciais para evitar reinfecções e reduzir a pressão seletiva que pode acelerar a resistência, garantindo maior eficácia e sustentabilidade no manejo da parasitose.
3.6 Implicações zoonóticas e saúde pública
O Dipylidium caninum é capaz de infectar seres humanos, especialmente crianças, que estão mais expostas ao contato próximo com animais domésticos e apresentam maior risco de ingerirem acidentalmente pulgas infectadas. Os casos humanos são relativamente raros, mas vêm sendo documentados em diferentes regiões do mundo. Relatos da Ásia, Europa e América Latina descrevem quadros caracterizados por dor abdominal, diarreia e eliminação de proglotes móveis nas fezes, o que costuma causar grande preocupação entre familiares (Jiang et al., 2017; Benítez-Bolívar et al., 2022).
Na maioria das vezes, a dipilidiose em humanos apresenta curso benigno, resolvido com o uso de anti-helmínticos adequados, mas sua ocorrência reforça a importância de estratégias preventivas. A infecção humana é um indicador direto da falha no controle de pulgas em animais de companhia, demonstrando que medidas básicas de manejo ainda não são implementadas de forma eficaz em determinados contextos. Além disso, a zoonose reforça a necessidade de compreender a dipilidiose sob a perspectiva de saúde única (One Health), que integra a saúde animal, humana e ambiental como partes de um mesmo sistema (Portokalidou et al., 2019).
Do ponto de vista da saúde pública, a dipilidiose ganha relevância porque evidencia a interdependência entre práticas de cuidado veterinário e bem-estar humano. Crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas representam grupos de maior vulnerabilidade, tornando essencial a vigilância epidemiológica e a educação em saúde voltada aos tutores. Nesse sentido, a conscientização sobre a importância da vermifugação periódica e do controle rigoroso de pulgas contribui não apenas para o bem-estar dos animais, mas também para a proteção da população humana. Assim, ainda que rara em humanos, a dipilidiose deve ser considerada uma zoonose de impacto potencial, cujo enfrentamento requer abordagem integrada entre medicina veterinária e saúde coletiva.
3.7 Controle integrado e medidas preventivas
O controle da dipilidiose exige uma abordagem integrada, já que a simples administração de vermífugos não é suficiente para interromper o ciclo do Dipylidium caninum. Como a transmissão depende da ingestão de pulgas infectadas, a prevenção precisa contemplar tanto o tratamento dos animais quanto o manejo ambiental. Nesse sentido, o uso de antiparasitários externos, como coleiras impregnadas, pipetas tópicas e comprimidos de ação sistêmica contra pulgas, é considerado essencial para reduzir a infestação e, consequentemente, o risco de infecção (Rousseau et al., 2022).
A higienização do ambiente doméstico também desempenha papel importante. Larvas de pulgas se desenvolvem em locais com acúmulo de poeira, pelos e matéria orgânica, como tapetes, frestas de piso e camas de animais. A limpeza frequente, associada ao uso de aspiradores e à lavagem de cobertores e mantas, ajuda a reduzir a carga ambiental de vetores. Em locais com surtos recorrentes, pode ser necessário o uso de inseticidas específicos para ambientes internos e externos, sempre com orientação profissional (Morelli et al., 2024).
Outro ponto fundamental é a conscientização dos tutores. Muitos proprietários acreditam que a vermifugação periódica é suficiente para manter seus animais livres da parasitose, ignorando o papel central das pulgas no ciclo. Campanhas educativas, conduzidas por médicos-veterinários e instituições de saúde pública, devem reforçar a importância de medidas combinadas, destacando que a prevenção é a forma mais eficaz e econômica de controle.
O manejo integrado da dipilidiose deve unir o uso racional de fármacos, o controle ambiental rigoroso e a educação em saúde. Essa combinação não apenas reduz a prevalência da parasitose em cães e gatos, mas também diminui o risco zoonótico, promovendo maior segurança para animais e humanos dentro do conceito de saúde única (One Health).
3.8 Perspectivas futuras e lacunas de pesquisa
Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento da dipilidiose, ainda existem lacunas significativas que precisam ser exploradas pela comunidade científica. A dependência quase exclusiva do praziquantel como fármaco de eleição levanta preocupações, especialmente diante dos relatos de resistência em diferentes regiões (Oehm et al., 2024). Isso evidencia a necessidade de desenvolvimento de novos princípios ativos ou terapias alternativas que possam ser empregados em casos de falha medicamentosa. Pesquisas nesse campo são fundamentais para evitar um cenário semelhante ao já observado com outros parasitas que desenvolveram resistência a antiparasitários de uso contínuo (Chelladurai; Kifleyohannes; Brewer, 2018). No campo do diagnóstico, os métodos tradicionais, embora úteis, apresentam limitações, principalmente em infecções discretas. A introdução de testes baseados em coproantígenos e técnicas de biologia molecular, como a PCR, trouxe melhorias consideráveis, mas o acesso a esses recursos ainda é restrito em muitos países, especialmente naqueles em desenvolvimento (Elsemore et al., 2023). Nesse sentido, um desafio futuro é a ampliação do acesso a ferramentas diagnósticas mais sensíveis e a padronização de protocolos que possam ser aplicados tanto na rotina clínica quanto em estudos epidemiológicos. Outra perspectiva importante refere-se à vigilância integrada sob o enfoque de saúde única (One Health). Programas que monitorem a prevalência da dipilidiose em diferentes regiões, associando dados sobre infecção em animais, presença de vetores e risco zoonótico, são necessários para compreender melhor a dinâmica da doença e orientar políticas de saúde pública. Além disso, investir em educação e conscientização dos tutores deve permanecer como prioridade, pois a prevenção ainda é a forma mais eficaz de controle.
Portanto, os próximos passos na abordagem da dipilidiose incluem inovação terapêutica, ampliação do diagnóstico, fortalecimento da vigilância epidemiológica e integração de esforços entre profissionais da saúde animal e humana. Só assim será possível reduzir a relevância clínica e zoonótica do D. caninum de forma duradoura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo sobre o Dipylidium caninum em cães e gatos demonstrou que, apesar de ser uma parasitose frequentemente subestimada, ela permanece relevante tanto na clínica veterinária quanto na saúde pública. A análise do ciclo biológico, da epidemiologia e dos aspectos clínicos permitiu compreender que a presença do parasita está diretamente relacionada às condições de manejo dos animais e à infestação por pulgas, fator determinante para sua manutenção nas populações de animais de companhia.
Observou-se que os avanços diagnósticos, especialmente os testes de coproantígenos, representam um marco importante na identificação precoce da infecção, possibilitando maior precisão clínica e epidemiológica. Por outro lado, a literatura aponta para preocupações quanto ao surgimento de resistência ao praziquantel, o que exige atenção e incentiva a busca por novas estratégias terapêuticas. Assim, a dipilidiose se apresenta como um desafio contínuo, que não pode ser reduzido a protocolos isolados de vermifugação, mas deve ser enfrentado com medidas de prevenção mais amplas.
Outro ponto que merece destaque é o potencial zoonótico do parasita. Mesmo que as infecções em humanos sejam raras e, em geral, de baixa gravidade, o risco de transmissão reforça a necessidade de abordagem integrada entre medicina veterinária, saúde humana e cuidados ambientais. A perspectiva da saúde única, que entende a conexão entre animais, pessoas e ecossistemas, mostra-se essencial para reduzir os impactos da doença e evitar sua perpetuação em ambientes domésticos.
Dessa forma, as considerações finais indicam que o enfrentamento do D. caninum requer estratégias multidisciplinares, envolvendo médicos-veterinários, tutores e profissionais de saúde pública. A combinação de diagnóstico sensível, tratamento eficaz, controle ambiental e educação dos tutores é o caminho mais promissor para garantir bem-estar animal e proteção da população humana. O fortalecimento de políticas de prevenção e a continuidade das pesquisas sobre resistência e novas formas de intervenção representam perspectivas necessárias para o futuro.
Referências:
BENITEZ-BOLIVAR, P. et al. 2022. Morphological and molecular characterization of Dipylidium caninum infecting an infant in Colombia: a case report. Parasites & Vectors, v. 15, art. 463. Disponível em: https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13071-022-05573-4. Acesso em: 29 ago. 2025.
BEUGNET, F. et al. 2018. Analysis of Dipylidium caninum tapeworms from dogs and cats, or their respective fleas – Part 2: Distinct canine and feline host association with two different Dipylidium caninum genotypes. Parasite, v. 25, p. 31. Disponível em: https://www.parasite journal.org/articles/parasite/full_html/2018/01/parasite180005/parasite180005.html. Acesso em: 29 ago. 2025.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). 2023. Dog and Cat Tapeworm (Dipylidium caninum) – About. Disponível em: https://www.cdc.gov/parasites/dipylidium/about.html. Acesso em: 29 ago. 2025.
CHELLADURAI, J. J.; KIFLEYOHANNES, T.; BREWER, M. T. 2018. Praziquantel resistance in the zoonotic cestode Dipylidium caninum. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, v. 99, n. 5, p. 1201–1205. Disponível em: https://www.ajtmh.org/abstract/journals/tpmd/99/5/article-p1201.xml. Acesso em: 29 ago. 2025.
COMPANION ANIMAL PARASITE COUNCIL (CAPC). 2025. Dipylidium caninum. Disponível em: https://capcvet.org/guidelines/dipylidium-caninum. Acesso em: 29 ago. 2025.
ELSEMORE, D. R. et al. 2023. Immunoassay for detection of Dipylidium caninum coproantigen in dogs and cats. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation, v. 35, n. 6, p. 671–678. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/10406387231189193. Acesso em: 29 ago. 2025.
ESCCAP – EUROPEAN SCIENTIFIC COUNSEL COMPANION ANIMAL PARASITES. 2021. Modular Guide Series — Worm Control in Dogs and Cats (MG1), 3ª ed., upload em 18 mai. 2021. Disponível em: https://www.esccap.org/uploads/docs/uoayqf2a_0461_ESCCAP_MG1__English_20210518.pdf. Acesso em: 29 ago. 2025.
ESCCAP – EUROPEAN SCIENTIFIC COUNSEL COMPANION ANIMAL PARASITES. 2025. Worm Control in Dogs and Cats (GL1), 7ª ed., versão 20, upload em 1 jul. 2025. Disponível em: https://www.esccap.org/uploads/docs/vp2gim8y_0778_ESCCAP_GL1__English_2025_v20.pdf. Acesso em: 29 ago. 2025.
JIANG, P. et al. 2017. A Human Case of Zoonotic Dog Tapeworm, Dipylidium caninum, in China. Korean Journal of Parasitology, v. 55, n. 1, p. 61–64. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5365269/. Acesso em: 29 ago. 2025.
LABUSCHAGNE, M. et al. 2018. Analysis of Dipylidium caninum tapeworms from dogs and cats, or their respective fleas – Part 1: Molecular characterization and genetic differentiation of Dipylidium caninum. Parasite, v. 25, p. 30. Disponível em: https://www.parasite journal.org/articles/parasite/full_html/2018/01/parasite180011/parasite180011.html. Acesso em: 29 ago. 2025.
LITTLE, S. E. et al. 2023. Diagnosis of canine intestinal parasites: Improved detection of Dipylidium caninum infection through coproantigen testing. Veterinary Parasitology, v. 324, 110073. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304401723002042. Acesso em: 29 ago. 2025.
MORELLI, S. et al. 2024. Comparison of diagnostic methods for laboratory diagnosis of the zoonotic tapeworm Dipylidium caninum in cats. Veterinary Parasitology, v. 331, 110274. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304401724001638. Acesso em: 29 ago. 2025.
OEHM, A. W. et al. 2024. First report of apparent praziquantel resistance in Dipylidium caninum in Europe. Parasitology, v. 151, n. 5, p. 523–528. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/parasitology/article/first-report-of-apparent praziquantel-resistance-in-dipylidium-caninum-ineurope/B3B4EB04D06E383659B6FCC2A157CA7A. Acesso em: 29 ago. 2025.
PORTOKALIDOU, S. et al. 2019. Dipylidium caninum Infection in Children: Clinical Presentation and Therapeutic Challenges. Pediatric Infectious Disease Journal, v. 38, n. 7, p. e157–e159. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30408000/. Acesso em: 29 ago. 2025.
ROUSSEAU, J.; CASTRO, A.; NOVO, T.; MAIA, C. 2022. Dipylidium caninum in the twenty first century: epidemiological studies and reported cases in companion animals and humans. Parasites & Vectors, v. 15, n. 131. Disponível em: https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13071-022-05243-5. Acesso em: 29 ago. 2025.
1Graduação de Medicina veterinária, Campus Saquarema- RJ. Pela Universidade de Vassoura
2Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Doutorado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa
