REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510310612
Julia Leite Cechinato, Andryelle Ribeiro de Carvalho, Ana Laura Cipriano Silva, Maria Eduarda Louzada Simão, Mariana Pegorin Ferrari, Gabrielly Almeida Batista, Gabrielly de Lima Andrade, Isabella Zanda Marins, Heloisa Marcelgo Rosin, Maria Fernanda Leite.
RESUMO
Introdução: A experiência traumática no parto é definida como um evento que ocorre durante o trabalho de parto ou no momento do parto que envolve real ou temida lesão física ou morte da mulher ou do recém-nascido. Objetivos: Entender os danos causados pela violência cometida em salas de parto no psicológico das parturientes e como esses efeitos podem influenciar em sua vida materna. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, transversal, de abordagem quantitativa, realizado a partir de um questionário elaborado pelas pesquisadoras, aplicado pelo google forms, apresentado ao público feminino, maiores de 18 anos e que tenham passado pela experiência do parto, seja ele cesariana ou natural. Será divulgado em redes sociais a fim de conseguir a maior quantia possível de respostas, assim analisar os índices e estudar os efeitos que a violência ou a experiência traumática no parto possam causar na saúde materna. Considerações finais: conhecer essas e muitas outras práticas traumáticas que levam à problemas na saúde da mulher, não só física, mas principalmente mental, pode ser um diferencial no atendimento de mulheres em tais situações.
Palavras-chave: Violência obstétrica. Trauma no parto. Saúde mental materna.
1. INTRODUÇÃO
1.1 MOMENTO DO TRABALHO E PARTO
O momento de conhecer o filho que gerou durante meses é de grande expectativa e emoção. A ansiedade em se transformar mãe, se tornar uma versão de mulher diferente aumenta a cada mês que se passa de gestação, carregando consigo o medo de como serão as experiências que vivenciará até esse momento: o tão esperado parto. As mães sonham com um momento mágico, com tudo que planejaram, algumas: música, a pessoa que ama ao lado; já outras: o silêncio e hospitais renomados. Mas todas tem um mesmo desejo em comum: profissionais que as acolham, as entendam e principalmente as respeitem.
1.2 EXPERIÊNCIA TRAUMÁTICA
A experiência traumática no parto é definida como “um evento que ocorre durante o trabalho de parto ou no momento do parto que envolve real ou temida lesão física ou morte da mulher ou do recém-nascido. Durante esse evento, a puérpera experimenta medo intenso, desamparo, perda de controle e horror” (BECK, 2004, pag. 28).
O parto traumático acontece devido ações chamadas de violências obstétricas, que podem acontecer desde o pré-natal até o puerpério. A violência obstétrica pode manifestar-se de diversas formas: negligência, com a omissão de cuidados, abuso psicológico e verbal, evidenciados por ameaças, humilhação, ironias, coerção, julgamentos, xingamentos, comentários desrespeitosos, culpabilização da mulher, violência moral, relacionada à conduta profissional, como não reconhecer a mulher como protagonista do parto, violência física evidenciada pela recusa de alívio da dor, manipulação excessiva do corpo da mulher, procedimentos invasivos desnecessários, litotomia, amniotomia, episiotomia para fins de treinamento, manobra de Kristeller, enemas, medicalização excessiva, violência institucional como peregrinação por serviços de saúde, falta de estrutura adequada, proibição de acompanhante, falta de privacidade e violência sexual, como assédio e estupro (D’OLIVEIRA; DINIZ; SCHRAIBER, 2002; WOLFF; WALDOW, 2008; SANTOS; SOUZA, 2015; MARTINS; BARROS, 2016; ZANARDO et al., 2017).
Como resultado de ter vivenciado tal evento traumático, a primeira emoção enfrentada pelas mulheres geralmente é o constrangimento, seguido por episódios de violência psicológica e agressões verbais. A partir desse cenário, a angústia tende a se intensificar, levando ao desenvolvimento de sentimentos de inferioridade, medo e insegurança. Esses sentimentos são muitas vezes exacerbados pela humilhação perpetrada pelos profissionais de saúde, contribuindo para a criação e reforço de percepções de incapacidade, inadequação e impotência na mulher e em relação ao seu corpo (SILVA et al., 2017).
De acordo com Antunes & Patrocínio (2007), o período gestacional causa importante vulnerabilidade emocional em que sentimentos ambivalentes são vivenciados. Portanto, os eventos acontecidos, principalmente os traumáticos, como é o caso da violência obstétrica aplicada em salas de parto, tendem a ser ainda mais nocivas à saúde mental materna, trazendo possíveis danos psicológicos pós nascimento do RN que podem se tornar duradouros.
Posteriormente a um evento traumático quando se deveria ser de felicidade, entrega e respeito pela vontade, limite físico e mental materno; o constrangimento emerge como a primeira experiência enfrentada pelas mulheres, seguido pela imposição de violência psicológica e agressões verbais. A partir desse cenário, observa-se uma intensificação da angústia, culminando no desenvolvimento de sentimentos como inferioridade, medo e insegurança, perpetrados pela humilhação praticada pelos profissionais de saúde. Como consequência, ocorre a criação e fortalecimento dos sentimentos de incapacidade, inadequação e impotência tanto na esfera pessoal da mulher quanto em relação ao seu corpo (SILVA et al., 2017).
1.3 – VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA
A violência obstétrica é o tipo de violência mais silenciada pela sociedade, constitui um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo já que se encontram lacunas na punição de atos traumáticos na vida gestacional. Isso impede que mulheres que tenham tido seu parto idealizado vivido de forma desumana e desagradável, gerando efeitos em sua saúde mental de maneira transitória ou permanente, tenham seus direitos e justiça resguardados. Outro desafio enfrentado é a falta de informação acerca do tema, já que este é pouco falado. Mulheres que não sabem identificar seus direitos e profissionais de saúde que praticam atos nem sempre conscientes que podem levar a posteriores problemas psicológicos nas parturientes (DEMÉTRIO; BRUSTOLIN, 2022; MARTÍN-BADIA; OBREGÓN-GUTIERRÉZ; GOBERNA-TRICAS, 2021).
Os estudos conduzidos por Blainey e Slade (2015) e por Simpson e Catling (2016) indicam que mulheres que tenham vivenciado traumas durante o parto, onde se sentiram violadas pela equipe encarregada de oferecer suporte em um momento de fragilidade, podem enfrentar dificuldades adicionais ao buscar manter uma ligação profunda com o bebê.
“Na hora que você estava fazendo, você não tava gritando desse jeito, né?”;
“Não chora não, porque ano que vem você tá aqui de novo.”;
“Se você continuar com essa frescura, eu não vou te atender.”;
“Na hora de fazer, você gostou, né?”;
“Cala a boca! Fica quieta, senão vou te furar todinha.” (REDE PARTO DO PRINCÍPIO, 2012).
Essas são algumas das frases ouvidas por mulheres que sonharam com um momento de encontro com seu filho de maneira mágica e respeitosa. E receberam em um dos momentos mais importantes de sua vida: traumas e dor.
Por esse viés, é de extrema importância a atual pesquisa, que se justifica por estudar os efeitos que tais experiências de violência obstétrica ocorridas no momento do parto, configurando-se como traumáticas, na saúde mental materna e seus reflexos na vida mãe-bebê.
Faz-se parte da investigação entender os tipos de atos cometidos na sala de parto, bem como saber como estes acontecem e as possíveis causas para o aumento exponencial de mulheres que enfrentam tais problemas psicológicos decorrentes destes eventos.
2 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Entender os danos causados pela violência cometida em salas de parto no psicológico das parturientes e como esses efeitos podem influenciar em sua vida materna.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Identificar fatores socioeconômicos como predisposição bem como: idade das mulheres que mais sofrem com atos traumáticos no parto, se a classe social destas influências no tratamento, bem como se a incidência de casos de violência é maior no sistema público ou privado, ou mesmo, se este fator não tem interferência;
- Desmembrar quais são os atos mais cometidos na prática de violência física, moral, psicológica;
- Quantificar o quanto a experiência dada por estas mulheres como traumáticas influenciaram em sua saúde mental e se isto ocasionou ou não danos na relação mãe- filho posteriormente.
2.1 OBJETIVO GERAL: Analisar a influência das experiências traumáticas durante o parto na saúde mental materna, focando em como esses eventos impactam o bemestar psicológico das mães e suas implicações a longo prazo.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
- Identificar os tipos de experiências traumáticas durante o parto relatadas por mulheres e suas características.
- Avaliar a relação entre essas experiências traumáticas e indicadores de saúde mental materna, como sintomas de depressão, ansiedade e estresse póstraumático.
- Investigar o impacto das experiências traumáticas no vínculo mãe-bebê e na adaptação ao papel materno.
- Propor estratégias de intervenção e suporte psicológico para mulheres que vivenciam traumas durante o parto, com base nas evidências encontradas.
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O momento do parto, do encontro da mãe e do filho após todo o processo de gestação, desde o início dos tempos é considerado um momento único, de entrega, amor e felicidade. Traz para a mulher um novo sentido da vida, o de se tornar mãe. O trabalho de parto, até o século XIX acontecia em domicílio, dentro do contexto familiar, sem ambientes hospitalares e sua prática era feita por parteiras, proporcionando assim maior conforto e afetividade no processo (LEAL et al., 2018).
Desde o século XX, o momento do parto tem tido influência pela evolução tecnológica trazendo assim mudanças em sua execução. Embora o índice de mortalidade tanto materna quanto do neonato tenha tido uma considerável queda, as consequências infelizmente não foram apenas positivas. A forma solitária em que as parturientes se encontram durante o procedimento sob invasão médico-cirúrgica, além da descaracterização do momento tornaram o evento um pouco mais traumático do que o vivido anteriormente (ANDRADE et al., 2017; LEAL, et al., 2018; SENS & STAMM, 2019).
Com o passar dos tempos, e com o aumento do conhecimento sobre a violência obstétrica e atos traumáticos vividos na sala de parto, começa-se a entender também muitas das cicatrizes e dores emocionais vividas pelas mulheres após o processo. As ações de violência contra a gestante é uma questão que impacta a saúde e os direitos das mulheres, manifestando-se como uma violação de gênero em diferentes momentos, desde a gravidez até o pós-parto, incluindo situações de aborto (FINUOLI, 2023).
É possível enumerar práticas caracterizadas como violência obstétrica, como o uso de ocitocina sintética para acelerar o trabalho de parto, a manobra de Kristeller (pressão sobre a barriga da parturiente), lavagem intestinal rotineira, tricotomia (retirada dos pelos pubianos) e exames de toque frequentes para verificar a dilatação. Além disso, relatam-se humilhações, como restrições à expressão da mulher durante o parto, ameaças de falta de atendimento se gritar, e comentários ofensivos relacionados à vida sexual: são exemplos de algumas das condutas inadmissíveis (ALVARENGA e KALIL, 2016) que impedem a mulher de exercer sua liberdade sobre seu próprio corpo e sexualidade, afetando não só a qualidade de vida física como também mental, podendo trazer traumas permanentes que podem afetar inclusive a maternidade (NASCIMENTO et al., 2022).
No estudo nacional conduzido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) (2021), observa-se que, em 2011/12, a taxa de cesarianas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) foi de 56,6%, enquanto na rede privada esse índice atingiu 90%. Quanto à administração de medicamentos para induzir, acelerar o processo de parto: ocitocina, 36,4% das mulheres receberam o medicamento desnecessariamente, resultando em 39,1% submetidas à amniotomia. No caso de partos naturais, 36,1% foram submetidas à manobra de Kristeller, que consiste na aplicação de pressão na parte superior do útero com o objetivo de facilitar a saída do bebê e 53,5% passaram por episiotomia, um corte realizado no períneo da mulher (entre a vagina e o ânus), no final do parto.
Um dos eventos traumáticos de maior frequência é a aplicação de ocitocina desnecessariamente. A substância sintética é reconhecida por sua capacidade de acelerar o processo de parto, visando intensificar as contrações para promover a dilatação uterina. Esse procedimento deve ser adotado em situações extremas, quando a mulher não gera a substância natural em quantidade suficiente para estimular as contrações. No entanto, recentemente, alguns especialistas têm empregado essa técnica sem a devida justificação. Aumentando assim a dilatação e as contrações de maneira “forçada”, causando extrema dor e sofrimento à parturiente (BRITTO, 2017).
Durante a gestação, ela desenvolve diversas expectativas em relação a esse momento, mas ao chegar ao hospital, essas idealizações podem ser desfeitas, resultando em frustrações e, por conseguinte, desencadeando uma possível depressão pós-parto. Adicionalmente, a ocitocina desempenha um papel na promoção do amor materno e no fortalecimento do vínculo entre mãe e bebê. Assim, ao optar pelo hormônio aplicado, a mulher pode não vivenciar plenamente essa experiência (DEFENSORIA PÚBLICA DO MATO GROSSO DO SUL, 2020).
A falta de informações sobre o tema da violência, de como os atos traumáticos na sala de parto podem levar à problemas psicológicos traz ainda mais prejuízos. Já que muitas mulheres vivenciam situações do tipo e se sentem inferiores, com medo, inseguras e posteriormente têm que lidar com possíveis efeitos desses eventos sem o apoio e conhecimento necessário (LOPES et al., 2009).
Poucas são as pesquisas que se aprofundam em entender quais são os efeitos que estas violências trazem para a saúde mental materna e posterior relação mãefilho. As autoras Rocha e Grisi (2017) fizeram uma análise entre a relação do parto e dos transtornos psicológicos com mulheres que relataram ter seu parto com eventos traumáticos e concluíram de 60% das participantes apresentaram sinais de estados depressivos no início do seu pós-parto.
A expectativa da mulher em relação a todas as atividades naturais associadas à gravidez é incontestável; contudo, a manifestação de situações de violência durante esse processo, sobretudo quando perpetrada por indivíduos investidos no papel de cuidadores e protetores, notadamente profissionais da saúde, acarreta um impacto de magnitude expressiva no equilíbrio psicológico e comportamental da parturiente (RIBEIRO, 2017 apud DIAS e PACHECO, 2020).
4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4.1 – TIPO DE PESQUISA
Trata-se de um estudo descritivo, transversal, de abordagem quantitativa.
4.2 LOCAL DE ESTUDO
O estudo foi realizado a partir de um questionário elaborado pelas pesquisadoras, aplicado pelo google forms, apresentado ao público feminino, maiores de 18 anos e que tenham passado pela experiência do parto, seja ele cesariana ou natural. Foi divulgado em redes sociais a fim de conseguir 50 respostas, e assim analisado os índices e estudar os efeitos que a violência ou a experiência traumática no parto possam causar na saúde materna.
4.3 SUJEITOS DO ESTUDO
A população do estudo foi constituída por mulheres, maiores de 18 anos e que tenham passado pela experiência do parto, seja ele cesariana ou natural.
4.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Como critério de inclusão da amostra, foi considerada por mulheres, maiores de 18 anos e que tenham passado pela experiência do parto, seja ele cesariana ou natural e que aceite voluntariamente participar da pesquisa.
4.5 CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Serão excluídas do estudo as mulheres que não viveram a experiência traumática no parto, as mulheres que não tiveram filhos, as menores de 18 anos e as que se negarem a participar da pesquisa.
4.6 COLETA DE DADOS E VARIÁVEIS DE ESTUDO
A coleta de dados ocorreu por meio de questionário semi-estruturado, elaborado pelas pesquisadoras, com questões para conhecer o nível socioeconômico e questões de interesse da pesquisa, com cerca de 15 minutos de duração. É composto por 6 questões para conhecer o nível socioeconômico, como idade, escolaridade, atividade de trabalho e 9 questões para entender o tipo de parto, como foi a experiência da mulher, se houveram atos traumáticos, quais foram, quais os profissionais que o cometeram e de como esses eventos impactaram psicologicamente o puerpério imediato e a saúde mental até hoje das parturientes vítimas da violência.
O questionário contém 15 perguntas e levará em média 15 minutos para responder. Ele será disponibilizado através do link:
https://docs.google.com/forms/d/1oy7WcQgcpX5fq6udR3w14Njt_SuCipmO9YgCbVYkSI/edit?usp=drivesdk
Após a quantia estipulada de respostas, o formulário foi fechado e feita a análise das alternativas respondidas, por meio de gráficos que evidenciaram a correlação entre o tipo de parto, métodos administrados para realização deste, profissionais envolvidos, se existiram ou não atos traumáticos sejam eles físicos, psicológicos, morais com a reflexão na saúde mental materna, e se esta teve influência na relação mãe-filho.
4.7 ANÁLISE ESTATÍSTICA
Os dados foram analisados por meio do software Microsoft Excel 2007. Serão utilizadas técnicas de análise exploratórias, incluindo proporções, medidas de tendência central e variabilidade.
4.8 ASPECTOS ÉTICOS
O presente projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do UNISAGRADO, Bauru/SP.
Não será necessário nenhum tipo de identificação das respondentes e a participação será voluntária. Após as manifestações do interesse em participar da pesquisa será explicado os objetivos do estudo e disponibilizado o questionário online, através do link:
https://docs.google.com/document/d/1Q8Y_D5tWWbAxk20P9zMzVOf7WDyz VwFVw5t3ikr4Lu0/edit?usp=drivesdk.
Os indivíduos que espontaneamente aceitaram participar desse estudo registraram seu aceite por meio do termo de consentimento livre e esclarecido. Vale ressaltar que a participação do sujeito na pesquisa será voluntária e ficará condicionada à concordância e aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), segundo Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) (APÊNDICE 2).
4.9 RISCO E BENEFÍCIO
Esse estudo apresenta riscos mínimos, podendo estar relacionado ao constrangimento durante a participação da pesquisa, diante de alguma pergunta do questionário, porém nenhum risco físico, pois o questionário é aplicado de forma online. Nesse sentido, caso a participante sinta-se constrangida poderá ser encaminhada para atendimento na clínica de psicologia do Unisagrado.
Quanto aos benefícios, os resultados forneceram dados que deram subsídio parauma análise de efeitos referentes a experiências traumáticas dentro da sala de parto na saúde materna, assim, contribui para que profissionais da saúde dentro do momento de nascimento revejam suas atitudes, analisem seus atos e condutas a fim de minimizar traumas e danos maternos por uma experiência que deveria contar com sentimentos apenas de amor, gratidão e carinho.
5. RESULTADOS
O questionário sociodemográfico e o questionário de interesse da pesquisa foram aplicados a um total de 50 mulheres, com o objetivo de analisar as influências de experiências traumáticas no parto sobre a saúde mental materna. Todas as participantes aceitaram participar da pesquisa através da aceitação do Termo de consentimento livre e esclarecido. A seguir, apresentam-se os resultados obtidos.
1. Perfil Sociodemográfico
- Idade das participantes:
○ 18 a 30 anos: 35,7 %
○ 31 a 40 anos: 35,7%
○ 41 anos ou mais: 28,6 %
- Número de filhos:
○ 1 filho: 42,9 %
○ 2 filhos: 57,1 %
○ 3 ou mais filhos: nenhuma resposta
- Escolaridade das participantes:
○ Não possuo: nenhuma resposta
○ Ensino Fundamental Incompleto: nenhuma resposta
○ Ensino Fundamental Completo: nenhuma resposta
○ Ensino Médio Incompleto: 4,1 %
○ Ensino Médio Completo: 36,7 %
○ Superior Incompleto: 8,2 %
○ Superior Completo: 51 %
- Atividade de trabalho:
○ Possui carteira assinada: [percentual]%
○ Não possui carteira assinada: [percentual]%
- Possui convênio de saúde:
○ Sim: 59,2 %
○ Não: 40,8 %
2. Características do Parto
- Experiência traumática durante o parto:
○ Participantes que consideraram ter vivido um evento traumático: 28,6 %
○ Participantes que não consideraram: 71,4 %
Tipo de parto realizado:
○ Parto Natural: 35,7 %
○ Parto Cesárea: 64,3 %
- Rede de atendimento (pública ou privada):
○ Parto na rede pública: 71,4 %
○ Parto na rede privada: 28,6 %
3. Profissional Responsável pelo Trauma Percebido
● Profissional que tornou o parto traumático:
○ Médicos: 61,5 %
○ Enfermeiros:15,4 %
○ Técnicos de enfermagem: 23,1 %
○ Auxiliares de enfermagem: 15,4 %
○ Fisioterapeutas: nenhuma resposta
○ Doulas: nenhuma resposta
○ Outros: 23,1 % (anestesista)
4. Atos Realizados Durante o Parto
● Atos de violência percebidos:
○ Violência física (episiotomia, ocitocina, abuso sexual): 38,5 %
○ Violência psicológica (ex: “você é fraca”; “na hora de fazer não estava chorando”): 61,5 %
○ Outros: relatos, por exemplo: “muitas tentativas de encaixe de agulha”, “impaciência”, “uma enfermeira subiu em cima de mim para empurrar”, “você ou seu filho vão morrer”.
5. Impacto do Trauma no Bem-Estar Mental
- O impacto do trauma no parto na saúde mental materna:
- Participantes que acreditam que o trauma afetou sua saúde mental: 46,2 %
■ Como afetou: “depressão”, “frustrada com o nascimento do filho”, “incapacidade”, “desisti de engravidar novamente”.
○ Participantes que não acreditam que o trauma afetou sua saúde mental: 53,8 %
- Impacto do trauma no relacionamento com o filho:
○ Participantes que acreditam que o trauma afetou a relação com o filho: 30,8 %
○ Participantes que não acreditam que o trauma afetou a relação com o filho: 69,2 %
6. Gênero do Profissional Envolvido no Trauma
● Gênero do profissional que causou o trauma (segundo a percepção das participantes):
○ Homem: 23,1 %
○ Mulher: 53,8 %
○ Não sabe definir: 23,1 %
7. Sentimentos Relacionados ao Trauma Vivido
As participantes foram solicitadas a compartilhar um sentimento sobre a experiência vivida durante o parto. As respostas obtidas incluem uma variedade de sentimentos, como incapacidade, medo, trauma em relação a segurança do filho (não o deixa fazer as coisas sozinho por apego), ansiedade, preocupação excessiva com o filho, descaso, irresponsabilidade, angústia, superproteção, abandono no momento de fragilidade.
6. DISCUSSÃO
A análise dos dados coletados através dos questionários sociodemográficos e de interesse da pesquisa revela uma complexa relação entre as experiências traumáticas no parto e a saúde mental materna, com destaque para os aspectos de violência percebida e suas consequências na saúde mental das parturientes.
Perfil Sociodemográfico: Mais da metade das participantes (71,4%) tinha entre 18 a 40 anos, o que reflete a faixa etária comum entre mães de crianças pequenas, segundo a média de idade que mulheres costumam ter filhos de maneira saudável. A distribuição de escolaridade mostra que a maioria (51%) possui ensino superior completo, indicando uma amostra com nível educacional relativamente alto. Isso pode sugerir maior acesso à informação sobre saúde, mas além disso pode indicar que a experiência de fatores traumáticos na hora do parto transcende fatores socioeconômicos. O percentual de participantes com plano de saúde (59,2%) também é relevante, já que as mulheres que deram à luz em rede pública (71,4%) podem ter vivido experiências diferentes dependendo das condições dos serviços, mas mesmo assim ter um plano de saúde demonstrou que não é fator de segurança para não existir eventos de trauma, já que algumas mulheres vivenciaram seu parto com violência mesmo em rede privada.
Características do Parto A prevalência de parto cesáreo (64,3%) em relação ao parto natural (35,7%) e o fato de 71,4% das participantes terem tido parto na rede pública refletem a realidade do sistema de saúde, onde a cesariana é muitas vezes indicada por conveniência ou limitações no acompanhamento durante o parto, sem uma análise técnico- científica de indicação, já que o parto cesariana oferece mais riscos se indicado por qualquer motivo, embora seja necessária uma análise feita por profissionais treinados evidenciado que o parto natural à qualquer custo também causa perigo ao binômio (mãe-bebê). Embora uma grande parte das participantes não tenha considerado seu parto como não traumático (71,4%), os 28,6% que relataram o evento como traumático indicam que, existe uma parte significativa de mulheres que não veem o nascimento de seu filho de uma forma leve e tranquila, e sim um evento marcado de traumas e dor.
Profissional Responsável pelo Trauma Percebido Os médicos foram apontados como responsáveis pela experiência traumática em 61,5% dos casos, sugerindo que a abordagem obstétrica, por vezes desumanizada, pode ser um fator decisivo na percepção de trauma. O que pode indicar um alerta ao modelo de atendimento. Enfermeiros e técnicos de enfermagem também desempenharam um papel relevante, com 15,4% de cada grupo sendo citados. Isso indica que a interação com profissionais de saúde durante o parto, seja por falta de empatia ou ações inadequadas, pode ter consequências psicológicas duradouras. A responsabilidade não só aos profissionais também se deve à sobrecarga no sistema de saúde, que influencia na qualidade de atendimento aos pacientes.
Atos Realizados Durante o Parto Os atos de violência física e psicológica descritos pelas participantes indicam um cenário de violência obstétrica. A violência psicológica (61,5%) se destaca como a forma mais prevalente, o que está em consonância com estudos anteriores que mostram que palavras e atitudes desrespeitosas podem ter um impacto psicológico significativo, muitas vezes mais duradouro do que a violência física. Relatos de abuso verbal e físico durante o parto (exemplo: “você é fraca”, episiotomia sem consentimento) são alarmantes e revelam a necessidade de maior humanização no atendimento obstétrico. Os atos de violência física não envolvem só administração de ocitocina e nem epistostomia como de costume se pensar, a insistência por uma modalidade de parto, a força aplicada, os procedimentos repetitivos sem necessidade, também são exemplos que as participantes apresentaram de maneira relevante.
Impacto do Trauma na Saúde Mental Materna Cerca de 46,2% das participantes relataram que o trauma afetou sua saúde mental, com sintomas de depressão, frustração e até a decisão de não ter mais filhos. Esse dado é preocupante, pois sugere que as mulheres que vivenciam um parto traumático podem enfrentar dificuldades psicológicas de longo prazo, e não só durante o ato. O impacto na relação com o filho também foi significativo para 30,8% das participantes, evidenciando que o trauma pode afetar a capacidade de estabelecer vínculos saudáveis com o seu filho, logo após o nascimento mas pode pendurar pela vida toda com sentimentos de proteção excessiva, preocupação patológica,. prejudicando assim o psicológico da criança também. Isso aponta para a necessidade de suporte psicológico para as mães que vivenciam partos traumáticos, tanto para o bem-estar delas quanto para a qualidade do vínculo com os filhos.
Gênero do Profissional Envolvido no Trauma A percepção das participantes sobre o gênero do profissional responsável pelo trauma revelou que a maioria dos profissionais identificados como causadores do trauma era do sexo feminino (53,8%). Embora este dado pareça indicar que o gênero feminino não isenta de atitudes prejudiciais, é importante considerar que a relação de poder e a dinâmica de cuidado no contexto do parto podem influenciar essas percepções. Já que quando uma mulher está vulnerável, quanto mais em aspectos que envolvem ginecologia, ela procura encontrar segurança em outra mulher, e quando é esta que causa o trauma, o dano tende a ser ainda maior.
Sentimentos Relacionados ao Trauma Vivido Os relatos das participantes indicam que o trauma no parto vai além das ações físicas, afetando profundamente as emoções e a saúde mental. Sentimentos como incapacidade, medo, ansiedade, e superproteção são recorrentes, destacando o impacto psicológico negativo e a dificuldade de adaptação pós-parto. Tais sentimentos podem prejudicar o processo de recuperação emocional da mãe, afetando suas interações com o filho e sua saúde mental geral.
7. CONCLUSÃO
O nascimento de um filho, um parto planejado, um momento que deveria ser celebrado como o início da vida de um filho e o fortalecimento da relação entre mãe e bebê, se torna, para muitas mulheres, um cenário de traumas profundos e duradouros. O objetivo dessa pesquisa foi compreender como as experiências traumáticas no momento do parto influenciam a saúde mental materna, e se essa influência pode afetar a relação posterior dessa mãe com ela mesma e com seu filho.. A partir da análise das respostas de 50 mulheres, ficou claro que, embora nem todas reconheçam seu parto como traumático, há uma parcela significativa de mães que carregam as feridas emocionais dessa experiência, muitas vezes invisíveis, mas que afetam cada aspecto de sua vida, sentimentos profundos e marcas irreparáveis.
Entre as participantes, quase um terço relatou ter vivido um evento traumático no parto, e os relatos revelam um quadro perturbador de violência, seja física ou psicológica, que marca o corpo e a alma das mulheres. A violência psicológica, com palavras cruéis como “você é fraca” ou “não estava chorando quando estava fazendo”, ecoa na mente das mães, provocando sentimentos de incapacidade, frustração e desesperança. Essas experiências não são apenas lembranças do momento do parto; elas se perpetuam, afetando a saúde mental dessas mulheres e, consequentemente, seu vínculo com seus filhos, já que em um momento em que as parturientes esperavam acolhimento de dor, de medo, receberam ainda mais esses dois sentimentos, de quem deveria ter ajudado e entendido.
O trauma não se limita ao momento do nascimento, mas reverbera na forma como essas mães lidam com a vida, com seus corpos, suas mentes e com seus filhos. A pesquisa revela que, para muitas, o impacto do trauma se reflete em depressão, ansiedade e um distanciamento emocional que dificulta a construção de um relacionamento saudável com seus filhos. Além disso, muitas mulheres expressam um medo constante em relação à segurança de seus filhos, o que se traduz em uma superproteção excessiva e dificuldades em permitir que seus filhos experimentem a vida de forma autônoma.
Ao analisar os dados, fica evidente que os profissionais envolvidos no parto têm uma responsabilidade imensa na formação dessa experiência. Médicos, enfermeiros e outros membros da equipe de saúde são os protagonistas dessa história, o que afirma ainda mais aonde se precisa de mudança em relação ao ato que é considerado violência contra a mulher. A violência obstétrica, praticada por palavras e atitudes desrespeitosas, representa não apenas um descaso com a dor da mãe, mas uma agressão emocional que persiste muito depois do parto. E o que era para ser carregado de boas memórias, se torna marco de dor e sentimento de incapacidade, como mãe, como mulher e como pessoa.
A influência dessas experiências traumáticas é devastadora, não apenas para a saúde mental da mulher, mas também para a dinâmica familiar. A incapacidade de vivenciar o parto como um momento de empoderamento e conexão com o filho prejudica a formação de um vínculo afetivo saudável. A maternidade, que deveria ser um espaço de afeto e acolhimento, torna-se, para muitas, um campo de luta constante contra os efeitos do trauma.
Este estudo não apenas expõe as feridas abertas na saúde mental materna, mas também convoca os profissionais de saúde tanto do sistema privado como público a uma reflexão profunda sobre o papel desses no processo de parto. O processo parto, seja ele vaginal ou cesariana deve ser, acima de tudo, um ato de respeito e cuidado, onde a mulher é tratada com dignidade, e onde sua saúde mental é preservada. A transformação do sistema de saúde obstétrica não é uma escolha, mas uma necessidade urgente.
A saúde mental materna é uma prioridade que não pode ser adiada. Este estudo é um alerta para que se possa mudar a realidade da maternidade, para que cada mulher tenha a oportunidade de viver o nascimento de seus filhos como um momento de luz, e não de sombra. A análise dos fatos, faz-se por objetivo entender aonde o sistema e profissionais precisam agir e assim contribuir para a cura das cicatrizes emocionais que tantas mulheres carregam, oferecendo um parto digno, sem violência e com o apoio emocional que todos os pacientes atendidos têm direito.
REFERÊNCIAS
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