DIAGNOSIS OF ADENOCARCINOMA AND SQUAMOUS CELL CARCINOMA OF THE CERVIX: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512060545
Ana Beatriz Braga de Souza1
Fernanda Maria da Silva Costa2
Joyciwangila de Souza Lima3
Pedro Emanuel do Nascimento Farias4
Gabrielle Sales de Medeiros5
Resumo
O presente trabalho analisa o diagnóstico do adenocarcinoma cervical e do carcinoma de células escamosas do colo do útero, destacando suas diferenças epidemiológicas e as barreiras que influenciam a detecção precoce. O estudo tem como objetivo comparar os dois subtipos, identificar o perfil epidemiológico observado na América do Sul e examinar estratégias descritas na literatura que possam reduzir desigualdades no rastreamento. A pesquisa utiliza uma revisão de literatura realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Scopus, com seleção de estudos publicados entre 2020 e 2024, adotando critérios de inclusão relacionados ao diagnóstico, tempo de detecção e características populacionais. Os resultados mostram que o adenocarcinoma apresenta maior detecção tardia, associada à menor sensibilidade da citologia e ao comportamento biológico das lesões glandulares. Evidências indicam ampla influência de desigualdades sociais e regionais no diagnóstico dos dois subtipos, especialmente na América do Sul, onde a cobertura de rastreamento permanece limitada. Os estudos também revelam avanços diagnósticos, como o teste primário de HPV, a autoamostragem e biomarcadores de metilação, que ampliam a acurácia e o acesso ao rastreamento. A revisão conclui que o adenocarcinoma mantém maior dificuldade diagnóstica e pior prognóstico, enquanto o carcinoma escamoso permanece mais prevalente, reforçando a necessidade de estratégias que fortaleçam o rastreamento e reduzam barreiras estruturais.
Palavras-chave: Adenocarcinoma Cervical. Carcinoma de Células Escamosas. Diagnóstico Precoce. Rastreamento. Revisão de Literatura.
1 INTRODUÇÃO
O câncer de colo do útero (CCU) é um importante problema de saúde pública, especialmente em países de baixa e média renda, onde representa uma das principais causas de mortalidade feminina. A doença tem como principal fator de risco a infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), especialmente pelos tipos oncogênicos HPV-16 e HPV-18, responsáveis por cerca de 80% dos casos globais (OPAS, [s. d.]). De acordo com os dados mais recentes do Global Cancer Observatory (Globocan), estimou-se que, em 2022, mais de 660.000 novos casos foram diagnosticados e cerca de 350.000 óbitos associados ao CCU, configurandoo como o quarto tipo de câncer mais incidente em mulheres (Sung et al., 2021).
Nas últimas décadas, tem-se observado um aumento significativo na incidência do adenocarcinoma cervical, especialmente entre mulheres mais jovens, tendência apontada por Li, Liu & Weng (2024). Esse crescimento tem sido atribuído não apenas a mudanças no comportamento epidemiológico da doença, mas também ao perfil virológico do adenocarcinoma. Estudos recentes, como o de Reynders et al. (2023), demonstram que esse subtipo apresenta forte associação com genótipos de HPV de alto risco, predominantemente HPV-16 e HPV-18, além de variantes oncogênicas emergentes que influenciam seu comportamento biológico. Diferentemente do carcinoma escamoso, cujas lesões precursoras são ectocervicais e frequentemente bem detectadas pela citologia, as lesões precursoras glandulares tendem a se localizar no canal endocervical, reduzindo a sensibilidade do exame citopatológico e contribuindo para diagnósticos tardios, estágios avançados e piores prognósticos.
Essa dificuldade diagnóstica é especialmente relevante no contexto de países em desenvolvimento, onde programas de rastreamento ainda apresentam limitações em cobertura, adesão e qualidade. Na América do Sul, fatores socioeconômicos, desigualdades regionais, barreiras culturais e falhas estruturais dos serviços de saúde impactam diretamente a efetividade do rastreamento e o acesso ao diagnóstico precoce, resultando em maiores taxas de incidência, morbidade e mortalidade por câncer cervical (Assunção, 2021). Esses desafios também foram evidenciados por Torres et al. (2021), que identificaram baixa cobertura de rastreamento, falhas no seguimento e elevada prevalência de lesões de alto grau em Manaus, refletindo fragilidades estruturais do sistema de saúde. Além disso, barreiras culturais, raciais e sociais como baixa adesão ao Papanicolau entre grupos vulneráveis contribuem para atrasos no diagnóstico e pior prognóstico, como demonstrado por Santos et al. (2025). Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender comparativamente o comportamento clínico e epidemiológico do adenocarcinoma e do carcinoma de células escamosas, bem como identificar as barreiras que dificultam o diagnóstico precoce de ambos os subtipos. Assim, esta revisão de literatura visa sintetizar as evidências publicadas nos últimos cinco anos, com ênfase na realidade da América do Sul, a fim de contribuir para o aprimoramento das estratégias diagnósticas e para a redução das desigualdades em saúde relacionadas ao câncer do colo do útero.
2 METODOLOGIA
Este estudo trata-se de uma Revisão de Literatura, com foco no diagnóstico do adenocarcinoma cervical e do carcinoma de células escamosas do colo do útero, considerando estudos publicados nos últimos 5 anos. Para a construção deste estudo, foi realizada uma busca nas bases de dados eletrônicas PubMed/MEDLINE, SciELO e LILACS (BVS). A estratégia de busca incluiu o uso de descritores controlados (MeSH e DeCS) e termos livres, combinados por operadores booleanos, a exemplo de (“Cervical Adenocarcinoma” OR “Cervical Squamous Cell Carcinoma”) AND (“Diagnosis” OR “Early Detection of Cancer”) AND (“Uterine Cervical Neoplasms”) AND (“South America” OR “América do Sul”), sendo a sintaxe adaptada de acordo com cada base consultada.
Foram considerados apenas artigos publicados entre janeiro de 2020 e dezembro de 2024, estabelecendo um recorte temporal de 5 anos. Os critérios de inclusão envolveram estudos originais ou revisões que abordassem o diagnóstico de adenocarcinoma cervical e/ou carcinoma de células escamosas, realizados em países da América do Sul, publicados em português, inglês ou espanhol, com acesso ao texto completo, e que apresentassem informações sobre tempo de detecção, perfil epidemiológico ou estratégias relacionadas ao diagnóstico. Por outro lado, foram excluídos resumos de congresso, cartas ao editor, opiniões sem dados empíricos, estudos in vitro ou em modelos animais, pesquisas cujo foco não estivesse direcionado ao diagnóstico ou à comparação entre os dois tipos histológicos, além daqueles que não se enquadraram no período estabelecido.
Após a identificação dos artigos nas bases, os resultados foram importados para o software de revisão sistemática Rayyan, o qual foi utilizado para a exclusão de duplicatas e a triagem inicial dos títulos e resumos. Em seguida, foi realizada a seleção conforme os critérios definidos, seguida da leitura integral dos textos elegíveis. A análise ocorreu de forma narrativa e comparativa, com extração das informações mais relevantes, como autor, ano, tipo de estudo, objetivo, base de dados, resultados e perfil epidemiológico. Dessa maneira, os achados foram organizados de forma a permitir a identificação de semelhanças, diferenças e lacunas existentes na literatura sobre o tema.
O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos foi conduzido conforme as recomendações do PRISMA. O fluxograma a seguir (fig.1) apresenta detalhadamente todas as etapas da seleção, incluindo o número de registros identificados, excluídos por duplicidade, triados por título e resumo, avaliados na íntegra e os estudos incluídos nesta revisão.
Figura 1 Fluxograma PRISMA do processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos selecionados para a revisão.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A presente revisão de literatura incluiu 20 estudos publicados entre 2020 e 2024, permitindo uma análise comparativa entre o adenocarcinoma cervical (ADC) e o carcinoma de células escamosas (SCC) no contexto da América do Sul, como demonstrado pelos estudos no Quadro 1.
Quadro 1 Caracterização dos estudos incluídos na revisão.



Os artigos avaliados demonstraram de forma consistente que o adenocarcinoma apresenta maior detecção tardia, resultado associado principalmente à menor sensibilidade da citologia em identificar lesões glandulares. Esse achado foi amplamente confirmado por Teoh et al. (2020), que destacam que a citologia convencional apresenta desempenho limitado na detecção de AIS e ADC devido à localização endocervical dessas lesões, o que reduz a representatividade das amostras coletadas.
Além das limitações diagnósticas atribuídas à citologia, a compreensão da distribuição dos genótipos de HPV associados ao adenocarcinoma fornece elementos importantes para explicar sua crescente incidência. Reynders et al. (2023), em uma revisão sistemática e metaanálise abrangente, demonstraram alta prevalência global de HPV em casos de adenocarcinoma cervical, reforçando a forte dependência etiológica desse subtipo em relação aos tipos virais oncogênicos. O estudo também identificou padrões genotípicos específicos associados a variantes histológicas do adenocarcinoma, o que contribui para o entendimento de seu comportamento biológico mais agressivo em comparação ao carcinoma de células escamosas.
Os dados epidemiológicos analisados nos estudos evidenciam que o SCC continua sendo o subtipo histológico mais prevalente, porém observa-se um crescimento relativo do adenocarcinoma nos últimos anos, conforme apontado por Li et al. (2024). Esta tendência também é mencionada nos achados prognósticos descritos por Guo et al. (2024), que observam maior agressividade clínica do ADC em comparação ao SCC, especialmente nos estágios IIB– IVA.
No contexto da América do Sul, o perfil epidemiológico das pacientes demonstra padrões semelhantes ao observado mundialmente, porém agravados por desigualdades socioeconômicas, baixa cobertura do rastreamento e dificuldade de acesso a serviços especializados. O estudo nacional de Assunção et al. (2021) evidencia desigualdades regionais expressivas na mortalidade por câncer cervical no Brasil, sendo as regiões Norte e Nordeste as mais afetadas. Esses dados convergem com o estudo de Torres et al. (2021), realizado em Manaus, que identificou baixa cobertura de rastreamento (~40%), elevada prevalência de HSIL+(até 15%) e importantes falhas no seguimento das pacientes.
O único estudo de coorte original brasileiro incluído, Rodrigues et al. (2022), reforça essas desigualdades ao mostrar que 81,8% das pacientes recém-diagnosticadas já se apresentavam em estágios avançados (FIGO II-IV) no momento do diagnóstico. Além disso, as justificativas para não realização do Papanicolau como falta de interesse, vergonha, desconhecimento e dificuldade de acesso, revelam fatores sociais que agravam a epidemiologia da doença. Esses achados se alinham aos resultados de Santos et al. (2024), que mostraram baixa adesão ao rastreamento entre mulheres negras, reforçando o impacto das desigualdades raciais e estruturais na progressão da doença.
A infecção persistente pelo HPV, especialmente pelos tipos oncogênicos 16 e 18, permanece como o principal fator de risco para ambos os subtipos tumorais. Entretanto, diversos estudos avaliados apontam melhorias nas estratégias diagnósticas. Arbyn et al. (2022) e Ramírez et al. (2023) demonstram que o teste de HPV, seja baseado em DNA ou mRNA, apresenta maior sensibilidade diagnóstica quando comparado à citologia isolada. Além disso, estudos recentes como os de Martinelli (2023) e Miazga et al. (2024) apontam a eficácia do teste de HPV em urina como alternativa viável em regiões com baixa cobertura de rastreamento, oferecendo um método não invasivo e de fácil acesso.
Outras estratégias destacadas incluem o uso de biomarcadores de metilação como ferramenta promissora para detecção precoce, especialmente em lesões glandulares de difícil identificação (Hillyar et al., 2022), bem como a expansão da autoamostragem para HPV, que tem se mostrado uma alternativa eficaz para aumentar a adesão ao rastreamento em populações vulneráveis. Evidências brasileiras reforçam esse potencial: o estudo de Lichtenfels et al. (2023) demonstrou alta aceitabilidade, boa acurácia diagnóstica e maior participação entre mulheres que tradicionalmente não realizam o exame citológico. Além disso, a implementação do rastreamento primário por HPV, conforme apontam as diretrizes internacionais analisadas por Rayner et al. (2023), tem sido recomendada como estratégia central para melhorar a detecção das lesões precursoras, sobretudo em regiões com baixa cobertura. Tais avanços são especialmente relevantes para países da América do Sul, onde o rastreamento ainda é predominantemente oportunístico, como indicado por Cerqueira et al. (2022), acentuando desigualdades na detecção precoce.
No âmbito dos desfechos clínicos, estudos como os de Hong et al. (2024) mostram que pacientes com SCC costumam responder melhor ao tratamento quimioterápico quando comparadas às com ADC, reforçando a importância de diagnósticos mais precoces para este subtipo. Além disso, Shimels et al. (2022) destacam que atrasos no início do tratamento impactam diretamente a sobrevida, um aspecto crítico diante das limitações estruturais enfrentadas na América do Sul.
Assim, a presente revisão evidencia que o adenocarcinoma cervical apresenta maior detecção tardia, pior prognóstico e maior relação com falhas no rastreamento, enquanto o carcinoma escamoso permanece mais prevalente. O conjunto dos estudos demonstra ainda que os desafios relacionados ao rastreamento, acesso ao diagnóstico e desigualdades sociais são determinantes para o perfil epidemiológico observado na América do Sul.
Esses achados destacam a necessidade urgente de ampliar o acesso ao teste de HPV como método primário de rastreamento, fortalecer estratégias como autoamostragem, aprimorar o seguimento das pacientes e reduzir as barreiras estruturais enfrentadas por grupos mais vulneráveis. Dessa forma, torna-se possível minimizar as desigualdades existentes e melhorar o prognóstico dos dois principais tipos histológicos do câncer do colo do útero na região.
REFERÊNCIA
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1Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e-mail: anabeatribraga2004@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e-mail: silvafernandamaria81@gmail.com
3Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e-mail: Joycewangela12@gmail.com
4Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e-mail: Pedroenfarias@gmail.com
5Docente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. Mestrado em Ciências Biológicas pelo Programa de Biologia da Interação Patógeno Hospedeiro – PPGBIO INTERAÇÃO – FIOCRUZ AMAZÔNIA. e-mail: gabriellemedeiros01@gmail.com
