BRUXISMO COMO FATOR DE RISCO PARA O DESENVOLVIMENTO DE DISFUNÇÕES DA ARTICULAÇÃO TEMPOROMANDIBULAR: UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512060601


Anamelia Amorim Silva Costa
Orientador(a): Profa. Dra Karime Tavares Lima da Silva


RESUMO

O bruxismo e as disfunções temporomandibulares (DTMs) apresentam relação clínica relevante, influenciada por fatores neuromusculares, psicossociais e comportamentais. Este estudo teve como objetivo analisar, por meio de revisão narrativa da literatura, a interação entre o bruxismo e o desenvolvimento ou agravamento das DTMs. A busca bibliográfica foi realizada em bases como SciELO, PubMed e Google Acadêmico, considerando artigos publicados entre 2018 a 2025, selecionados por critérios de relevância, atualidade e disponibilidade. Os estudos analisados indicam que o bruxismo do sono e o bruxismo em vigília apresentam impactos distintos sobre as estruturas do sistema mastigatório, contribuindo para dor muscular, sobrecarga articular e limitações funcionais associadas às DTMs. Fatores como estresse, ansiedade, hábitos parafuncionais e alterações posturais também influenciam a intensidade dos sinais e sintomas. As evidências apontam que o manejo clínico requer abordagem interdisciplinar, incluindo intervenções odontológicas, fisioterapêuticas e suporte psicológico. Conclui-se que o reconhecimento precoce do bruxismo e a identificação dos fatores contribuintes são essenciais para a prevenção e o controle das DTMs, reforçando a necessidade de estratégias terapêuticas integradas.

Palavras-chaves: Bruxismo. Disfunção temporomandibular. Fatores de risco. Diagnóstico. Tratamento.

ABSTRACT

Bruxism and temporomandibular disorders (TMDs) present a relevant clinical relationship influenced by neuromuscular, psychosocial, and behavioral factors. This study aimed to analyze, through a narrative literature review, the interaction between bruxism and the development or worsening of TMDs. The bibliographic search was conducted in databases such as SciELO, PubMed, and Google Scholar, considering articles published between 2018 and 2025, selected according to relevance, recency, and availability. The analyzed studies indicate that sleep bruxism and awake bruxism exert distinct impacts on the structures of the masticatory system, contributing to muscle pain, joint overload, and functional limitations associated with TMDs. Factors such as stress, anxiety, parafunctional habits, and postural alterations also influence the intensity of signs and symptoms. The evidence shows that clinical management requires an interdisciplinary approach, including dental, physiotherapeutic, and psychological interventions. It is concluded that early recognition of bruxism and identification of contributing factors are essential for the prevention and control of TMDs, reinforcing the need for integrated therapeutic strategies.

Keywords: Bruxism. Temporomandibular disorder. Risk factors. Diagnosis. Treatment.

1 INTRODUÇÃO

O bruxismo é um distúrbio motor caracterizado pela atividade repetitiva de apertar ou ranger os dentes, podendo ocorrer tanto durante o sono quanto em vigília. Ambos os tipos podem ocasionar danos significativos ao sistema estomatognático, afetando a estrutura dentária e a musculatura facial, o que pode comprometer a qualidade de vida dos indivíduos acometidos (Silva, 2018).

Além dos danos físicos, o bruxismo está frequentemente associado a fatores emocionais como estresse e ansiedade, os quais influenciam negativamente a saúde orofacial. Essas condições podem gerar alterações musculares que se evidenciam por desconforto, dor e comprometimento funcional da região maxilofacial (Neves, 2025).

A articulação temporomandibular (ATM) é uma estrutura anatômica complexa responsável por funções essenciais como a mastigação, a fala e a deglutição. Alterações nessa articulação, particularmente as decorrentes de sobrecarga mecânica, podem levar às disfunções temporomandibulares (DTMs), caracterizadas por dor, estalidos articulares e restrições nos movimentos mandibulares (Silva, 2018).

As DTMs possuem uma etiologia multifatorial, envolvendo fatores mecânicos, anatômicos, posturais e psicossociais, sendo o bruxismo apontado como um elemento de risco relevante para o desenvolvimento dessas disfunções. A atividade muscular excessiva e a micro traumatização das estruturas da ATM, geradas pelo bruxismo, contribuem para a instalação e agravamento das DTMs (Lopes, 2020).

Ainda que exista controvérsia quanto à relação causal direta entre o bruxismo e as DTMs, há consenso na literatura de que o bruxismo, especialmente em sua forma crônica, pode predispor a danos cumulativos na articulação e nos tecidos adjacentes, reforçando a importância da sua identificação e manejo precoce (Silva, 2018).

Dessa forma, este estudo propõe uma revisão narrativa da literatura acerca da associação entre o bruxismo e as disfunções da articulação temporomandibular, buscando contribuir para o aprimoramento do diagnóstico e tratamento dessas condições, com reflexos positivos na saúde bucal e qualidade de vida dos pacientes.

2 METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, de natureza qualitativa, com abordagem exploratória e descritiva, tendo como objetivo analisar a relação entre o bruxismo e o desenvolvimento de disfunções da articulação temporomandibular (DTMs). A revisão integrativa permite a síntese de diferentes estudos científicos, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento sobre o tema investigado.

A coleta de dados foi realizada por meio de pesquisa bibliográfica em artigos científicos, livros acadêmicos e publicações disponíveis em bases eletrônicas reconhecidas, tais como Scielo, PubMed e Google Acadêmico. Foram utilizados os descritores “Bruxism”, “Temporomandibular Joint”, “Temporomandibular Joint Dysfunction Syndrome” e “Facial Pain”, adaptando-os para os idiomas português, inglês e espanhol, ampliando o alcance das fontes selecionadas.

Foram incluídos artigos completos publicados entre 2018 e 2025, disponíveis nos idiomas selecionados, com acesso integral ao texto e que abordassem diretamente a relação entre bruxismo e DTMs, contemplando aspectos epidemiológicos, etiológicos, clínicos, diagnósticos ou terapêuticos. Foram excluídos estudos duplicados, artigos de opinião sem respaldo científico, pesquisas cujo foco não estivesse relacionado ao tema central, estudos com metodologia insuficientemente descrita e trabalhos que tratassem exclusivamente de DTMs sem associação ao bruxismo.

A busca inicial resultou em 82 estudos identificados. Após a remoção de duplicidades, permaneceram 43 artigos, que foram avaliados por título e resumo. Desses, 38 foram considerados potencialmente relevantes e submetidos à leitura completa. Ao final do processo, 17 estudos atenderam plenamente aos critérios de inclusão, compondo o corpus final da revisão.

3 REVISÃO DE LITERATURA

3.1 Conceituação e Características do Bruxismo e das Disfunções Temporomandibulares

O bruxismo é definido como uma atividade parafuncional caracterizada pelo apertamento, ranger ou encostar dos dentes, ocorrendo de forma repetitiva e involuntária. Essa condição pode manifestar-se em duas formas distintas: o bruxismo do sono (BS), que ocorre durante o ciclo do sono, e o bruxismo em vigília (BV), que ocorre durante o estado de consciência (Cardoso, 2025). A distinção entre essas duas formas é importante, pois suas etiologias, manifestações clínicas e abordagens terapêuticas podem divergir significativamente (Neves, 2025).

No bruxismo do sono, há uma associação com microdespertares durante as fases do sono, desencadeando a ativação do sistema nervoso central que promove a contração dos músculos mastigatórios. Essa atividade pode ser acompanhada de grande força muscular, atingindo níveis superiores aos encontrados na mastigação voluntária (De Luccas et al., 2021). Já o bruxismo em vigília está geralmente relacionado a fatores psicossociais, incluindo estresse, ansiedade e padrões comportamentais habituais, sendo uma manifestação consciente na maioria dos casos (De Lima et al., 2020).

A fisiopatologia do bruxismo é multifatorial e ainda não completamente compreendida. Estudos indicam que fatores genéticos, neurológicos, psicológicos e oclusais podem influenciar no desenvolvimento da condição. Acredita-se que o sistema dopaminérgico desempenhe papel central, especialmente no bruxismo do sono, afetando os mecanismos de controle motor (Gatelli, 2018). Além disso, fatores como ingestão excessiva de cafeína, tabagismo, uso de drogas ilícitas e distúrbios do sono também são relacionados como possíveis agentes desencadeantes (Magalhães, 2018).

Clinicamente, o bruxismo pode provocar diversos sinais e sintomas decorrentes da sobrecarga funcional sobre dentes, músculos e articulações. Entre os sinais mais comuns estão o desgaste dentário, fraturas de restaurações, sensibilidade dentária, dor muscular, cefaleia tensional e desconforto na região orofacial. Pacientes com bruxismo do sono frequentemente relatam acordar com sensação de cansaço ou dor mandibular (Silva, 2018).

O diagnóstico do bruxismo baseia-se principalmente na anamnese detalhada e exame clínico, observando-se o relato de episódios de apertamento ou ranger dos dentes, além dos sinais clínicos visíveis. A polissonografia, exame que monitora as atividades durante o sono, é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico do bruxismo do sono, entretanto sua utilização clínica é limitada devido ao custo e complexidade (Magalhães, 2018).

A articulação temporomandibular (ATM) é uma estrutura anatômica complexa composta pelo côndilo mandibular, fossa mandibular e disco articular fibrocartilaginoso, que permite os movimentos de abertura, fechamento e lateralidade da mandíbula. O funcionamento saudável da ATM é essencial para atividades vitais como mastigação, fala e deglutição. Esta articulação é formada por uma cápsula articular, ligamentos e músculos que atuam em conjunto para garantir sua estabilidade e funcionalidade (Lopes, 2020).

As disfunções temporomandibulares (DTMs) configuram um conjunto heterogêneo de condições que acometem a ATM e os músculos mastigatórios, manifestando-se por dor ou desconforto orofacial, estalidos articulares, rigidez e limitação dos movimentos mandibulares. A etiologia das DTMs é multifatorial, englobando fatores biomecânicos, posturais, psicológicos e parafuncionais, dentre eles o bruxismo, que é um dos principais fatores de risco identificado (Oliveira, 2022).

Epidemiologicamente, as DTMs são prevalentes, afetando cerca de 5% a 12% da população adulta, com um predomínio maior em mulheres na faixa dos 20 aos 40 anos. Essa maior prevalência feminina é atribuída a fatores hormonais, além de diferenças comportamentais e psicossociais (De Morais; Da Silva; De Oliveira, 2023). Os sintomas frequentemente impactam a qualidade de vida, comprometendo atividades diárias e apresentando caráter crônico em muitos casos.

Ao considerar a relação entre bruxismo e DTMs, observa-se que a sobrecarga mecânica gerada pelo hábito de ranger ou apertar os dentes pode induzir microtraumas e inflamações nas estruturas articulares e musculares, exacerbando ou desencadeando as disfunções (Souza, 2023). A intensidade e duração do bruxismo são determinantes para a gravidade das alterações nas DTMs, sendo que o bruxismo crônico está mais relacionado a quadros sintomáticos significativos (Lopes, 2020)

Além do desgaste dentário e dor muscular, o bruxismo pode provocar hipertrofia dos músculos masseteres, migraineas de cabeça e dores cervicais, evidenciando o impacto sistêmico deste distúrbio para além da articulação. A coexistência de bruxismo e DTMs requer abordagem clínica detalhada, considerando aspectos psicossociais e físicos para um manejo eficaz (Oliveira, 2022)

É importante destacar a distinção entre bruxismo e DTMs, pois enquanto o primeiro é um comportamento parafuncional, o segundo é um quadro clínico com diversas manifestações. Nem todos os bruxistas desenvolvem DTMs, e nem todas as DTMs são causadas por bruxismo. No entanto, a evidência científica aponta para uma associação significativa, sobretudo quando o bruxismo apresenta elevado grau de severidade (Neves, 2025).

Por fim, a abordagem multidisciplinar é fundamental para o diagnóstico, prevenção e tratamento do bruxismo e das DTMs, envolvendo odontólogos, fisioterapeutas, psicólogos e outros profissionais da saúde para atuação conjunta. O entendimento aprofundado das características e fisiopatologia de ambos os distúrbios é essencial para o desenvolvimento de estratégias clínicas eficazes e humanizadas (Santos M., 2024.

3.2 Fatores de Risco e Associação do Bruxismo com as Disfunções Temporomandibulares

O bruxismo é considerado um importante fator de risco para o desenvolvimento das disfunções temporomandibulares (DTMs), devido à sobrecarga mecânica que exerce sobre a articulação temporomandibular (ATM) e os músculos mastigatórios (Silva, 2018). Essa sobrecarga pode causar microtraumas nas estruturas articulares, levando a processos inflamatórios, fadiga muscular e comprometimento funcional, que são fatores determinantes para o surgimento ou agravamento das DTMs (Santos J., 2024)

Estudos epidemiológicos destacam uma maior prevalência do bruxismo em mulheres adultas, faixa etária que também apresenta maior incidência de DTMs, sugerindo uma possível relação entre gênero e susceptibilidade para esses distúrbios (De Morais; Da Silva; De Oliveira, 2023). Essa prevalência pode estar associada a fatores hormonais, além do maior reporte de sintomas por parte das mulheres, influenciando diretamente os aspectos clínicos e o manejo terapêutico (Gatelli, 2018).

Além do gênero, fatores psicossociais como estresse, ansiedade e depressão têm sido consistentemente apontados como importantes desencadeadores e agravantes tanto do bruxismo quanto das DTMs (Neves, 2025). A pandemia da COVID-19, por exemplo, evidenciou um aumento significativo dos níveis de estresse na população, refletindo numa maior incidência de bruxismo e sintomas relacionados às DTMs (Edemundo, 2023).

Outro fator relevante é a influência dos hábitos posturais inadequados, que podem contribuir para alterações biomecânicas na região cervical e mandibular, desencadeando ou exacerbando os sintomas das DTMs. O desequilíbrio postural ocasiona maior tensão muscular e alterações na dinâmica da ATM, fomentando o ciclo vicioso de dor e disfunção (Silva, 2018).

As alterações oclusais também são consideradas fatores de risco para o desenvolvimento das DTMs. A má oclusão, ou desarmonia no contato entre os dentes superiores e inferiores, pode aumentar a carga funcional sobre a ATM durante o bruxismo, favorecendo o aparecimento de desconfortos e lesões articulares (Conte et al., 2021). Entretanto, a relação entre má oclusão e DTMs é controversa, com alguns estudos indicando que não há causa direta, mas sim um fator preponderante aliado a outros elementos (Candido et al., 2021).

A presença de traumatismos na região mandibular, seja por acidentes, procedimentos odontológicos mal executados ou manipulação inadequada, também figura como um fator etiológico importante nas DTMs, especialmente em pacientes com bruxismo (De Luccas et al., 2021). Esses traumas provocam lesões diretas à articulação e estruturas associadas, facilitando o surgimento dos distúrbios funcionais (Oliveira, 2022).

É importante destacar o papel dos fatores genéticos e hereditários, que vêm ganhando evidência no estudo da fisiopatologia do bruxismo e das DTMs. Pesquisas recentes indicam que determinadas predisposições genéticas podem influenciar a atividade neuromuscular e a resposta inflamatória, contribuindo para a vulnerabilidade do indivíduo frente a esses distúrbios (De Morais; Da Silva; De Oliveira, 2023).

Em pacientes que apresentam comorbidades como distúrbios do sono, especialmente apneia obstrutiva, a prevalência de bruxismo e DTMs é maior. A privação do sono e os episódios repetidos de microdespertares promovem alterações no controle neuromuscular relacionadas ao bruxismo. Essa relação destaca a importância da avaliação multidisciplinar durante o diagnóstico (Da Silva; Pessoa; De Lucena, 2024).

A interação entre fatores psicológicos e físicos constitui um desafio no manejo clínico dessas patologias. A ansiedade e o estresse elevam a atividade muscular e a hiperexcitabilidade nervosa, ampliando a resposta dolorosa e perpetuando o ciclo de bruxismo e DTMs. Terapias que visam o controle dos aspectos emocionais mostram-se eficazes para reduzir os sintomas (De Lima et al., 2020).

Além disso, características biomecânicas individuais, como postura mandibular e atividade muscular basal, influenciam a suscetibilidade ao dano articular durante episódios de bruxismo intenso. A hipertrofia dos músculos masseteres é comum em bruxistas, evidenciando a sobrecarga funcional das estruturas orofaciais (Gatelli, 2018).

A influência de fatores ambientais, como o consumo de substâncias estimulantes (cafeína, álcool, nicotina) e o uso de medicamentos psicotrópicos, também impacta a frequência e intensidade do bruxismo, afetando diretamente o risco para DTMs. Estratégias para modificação desses hábitos são frequentemente incluídas no tratamento (Neves, 2025).

O reconhecimento precoce dos fatores de risco e a identificação dos sinais clínicos associados são fundamentais para instituir intervenções eficazes que previnam a progressão das DTMs em indivíduos com bruxismo. O acompanhamento regular e a avaliação multidisciplinar são essenciais para otimizar os resultados terapêuticos (Edemundo, 2023).

Por fim, compreender as múltiplas dimensões envolvidas na associação entre o bruxismo e as DTMs permite o desenvolvimento de abordagens personalizadas que considerem as características biopsicossociais do paciente, valorizando a prevenção e o cuidado integral para melhoria da qualidade de vida (De Morais; Da Silva; De Oliveira, 2023).

3.3 Diagnóstico e Tratamento do Bruxismo e das Disfunções Temporomandibulares

O diagnóstico do bruxismo e das disfunções temporomandibulares (DTMs) requer uma abordagem minuciosa que integra dados clínicos, anamnese detalhada e, em alguns casos, exames complementares. Segundo o Consenso Internacional de Bruxismo, o diagnóstico inicial é clínico, baseado na observação dos sinais típicos, como desgaste dentário, dor muscular e relatos do paciente sobre ranger ou apertamento dos dentes (Oliveira, 2022).

Complementarmente, a utilização de ferramentas diagnósticas como a polissonografia (PSG) é considerada o padrão-ouro, especialmente para o bruxismo do sono, permitindo a detecção precisa da atividade muscular durante o sono e o monitoramento de eventos relacionados (Da Silva; Pessoa; De Lucena, 2024). Além disso, a eletromiografia de superfície é usada para avaliar a atividade dos músculos mastigatórios, contribuindo para a diferenciação entre os tipos de bruxismo (De Morais; Da Silva; De Oliveira, 2023).

Para o diagnóstico das DTMs, o protocolo Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (RDC/TMD), e sua versão atualizada Diagnostic Criteria for TMD (DC/TMD), são amplamente utilizados, fornecendo critérios padronizados para avaliação de sinais e sintomas, classificando as disfunções em subtipos clínicos que auxiliam no planejamento terapêutico (Cardoso, 2025).

A avaliação clínica das DTMs inclui exame da amplitude dos movimentos mandibulares, palpação dos músculos da mastigação e articulares, investigação de ruídos articulares e avaliação da presença de dor (Conte et al., 2021). Exames de imagem, como radiografias, tomografia computadorizada e ressonância magnética, são indicados para casos com suspeita de alterações estruturais ou para monitoramento dos tratamentos (Silva, 2018).

No que concerne ao tratamento do bruxismo, as intervenções são variadas e dependem da gravidade e das manifestações clínicas. O uso de placas oclusais estabilizadoras é um dos recursos mais empregados para proteção dental e redução da sobrecarga muscular, embora a evidência sobre seu efeito na redução do bruxismo em si ainda seja objeto de estudos (De Lima et al., 2020).

Terapias comportamentais, como técnicas de relaxamento, biofeedback e manejo do estresse, são recomendadas, sobretudo no bruxismo em vigília, onde fatores psicossociais têm papel preponderante (Neves, 2025). O tratamento multidisciplinar envolvendo psicólogos é considerado fundamental para casos associados a ansiedade e transtornos do humor (Souza, 2023).

Em pacientes com DTMs, o tratamento inicial é geralmente conservador. A fisioterapia desempenha papel central, com técnicas como terapia manual, exercícios ativos, eletroterapia e acupuntura, visando a redução da dor, melhoria da função e reabilitação muscular (Gatelli, 2018). Evidências apontam benefícios clínicos da fisioterapia combinada ao uso de dispositivos oclusais.

O manejo farmacológico inclui anti-inflamatórios, analgésicos, relaxantes musculares e, em alguns casos, antidepressivos tricíclicos para controle da dor crônica e espasmos musculares (Magalhães, 2018). Contudo, o uso prolongado deve ser monitorado para evitar efeitos adversos.

Inovações terapêuticas como a toxina botulínica do tipo A têm sido incorporadas ao arsenal de tratamentos, apresentando eficácia na redução da hiperatividade muscular e alívio da dor em pacientes selecionados No entanto, evidências sobre segurança e efeito a longo prazo ainda carecem de mais estudos clínicos (Edemundo, 2023).

Intervenções cirúrgicas são reservadas para casos refratários e graves, como deslocamentos não reduzidos do disco articular ou alterações degenerativas marcantes da ATM. Procedimentos como artrocentese, arthroscopia e cirurgia aberta podem restabelecer a função, porém envolvem riscos maiores e demandam avaliação criteriosa (Neves, 2025).

A educação do paciente sobre a natureza multifatorial do bruxismo e das DTMs é essencial para adesão ao tratamento e sucesso terapêutico. A compreensão dos fatores desencadeantes e dos mecanismos das disfunções contribui para a redução do estresse e ansiedade associados (Oliveira, 2022).

A avaliação postural e a reabilitação global musculoesquelética também são componentes importantes, pois alterações posturais estão associadas à exacerbação dos sintomas das DTMs, podendo influenciar a função da ATM (Santos M., 2024).

A individualização do tratamento é o princípio norteador, ajustando as intervenções conforme a gravidade, características clínicas e necessidades específicas de cada paciente, potencializando os resultados e minimizando riscos (Edemundo, 2023).

Estudos recentes destacam ainda a importância do acompanhamento longitudinal dos pacientes para monitorar a evolução das DTMs e o impacto do bruxismo, ajustando a abordagem terapêutica conforme a resposta clínica (Candido et al., 2021).

Finalmente, o avanço da teleodontologia e das tecnologias digitais oferece novas ferramentas para diagnóstico e acompanhamento remoto, ampliando o acesso e a eficácia do tratamento das DTMs e bruxismo, especialmente em contextos de difícil acesso (Lopes, 2020).

4 DISCUSSÃO

A revisão da literatura realizada neste estudo evidenciou a complexidade da relação entre o bruxismo e as disfunções temporomandibulares (DTMs), reforçando a natureza multifatorial e multidimensional desses distúrbios. O aprofundamento conceitual mostrou que, apesar das diferenças entre o bruxismo do sono e em vigília, ambos compartilham a característica de sobrecarga muscular e articular, podendo desempenhar papel decisivo na etiologia das DTMs (De Morais; Da Silva; De Oliveira, 2023).

De forma semelhante, Candido et al. (2021) destacam que o bruxismo atua como fator predisponente às DTMs, principalmente quando associado a hábitos parafuncionais e estresse crônico. Já Neves (2025) observa que essa relação ainda é motivo de debate, visto que a intensidade dos sintomas não é proporcional à atividade muscular em todos os casos.

Embora o bruxismo seja identificado como um fator de risco relevante para o desenvolvimento das DTMs, a literatura aponta para a necessidade de compreender a interrelação com outros elementos biomecânicos, psicossociais e genéticos que modulam sua manifestação e severidade.

Da Silva, Pessoa e De Lucena (2024) defendem que a etiologia das DTMs deve ser analisada de forma integrada, considerando a influência emocional e postural. Nesse sentido, Lopes (2020) reforça que fatores genéticos e estruturais também contribuem para a predisposição individual, o que confirma o caráter multifatorial proposto por Magalhães et al. (2018).

A prevalência maior de bruxismo e DTMs em mulheres destaca a influência hormonal e possivelmente comportamental na vulnerabilidade desses grupos. Cardoso (2025) observou incidência significativamente superior em mulheres jovens, o que se relaciona com o padrão de resposta ao estresse e flutuações hormonais.

Santos (2024) corrobora essa tendência, apontando que as mulheres apresentam maior percepção de dor e sintomas mais persistentes. Essa diferença de gênero, entretanto, não é plenamente explicada, o que reforça a necessidade de novas investigações.

Os fatores emocionais, especialmente o estresse e a ansiedade, mostram-se fortemente associados tanto ao surgimento do bruxismo quanto à cronicidade das DTMs. De Lima et al. (2020) ressaltam que o componente psicológico exerce papel fundamental no agravamento dos sintomas, justificando a adoção de terapias comportamentais e suporte psicológico. Para Candido et al. (2021), o sucesso terapêutico depende da abordagem multiprofissional que inclua a gestão do estresse. Esses achados estão alinhados com Oliveira et al. (2022), que enfatizam a importância da reeducação de hábitos e da orientação emocional.

Na análise dos fatores biomecânicos, a influência da postura corporal e da oclusão é destacada como elemento que pode exacerbar os sintomas das DTMs associados ao bruxismo. Conte et al. (2021) observaram que alterações na oclusão e na posição mandibular podem desencadear sobrecarga articular. Contudo, Silva (2018) aponta que tais fatores, isoladamente, não são determinantes, mas sim potencializadores quando combinados a causas emocionais e funcionais.

A importância do diagnóstico preciso foi enfatizada pelos protocolos RDC/TMD e DC/TMD, que contribuem para a uniformização dos critérios clínicos e permitem a categorização adequada dos pacientes. Lopes (2020) e Santos (2024) salientam que a aplicação desses instrumentos melhora a acurácia diagnóstica e auxilia na escolha das condutas terapêuticas mais adequadas.

De Luccas et al. (2021) complementam que o uso padronizado desses protocolos facilita a comparação entre estudos e favorece a evolução científica na área. Os métodos complementares como a polissonografia e a eletromiografia agregam informações relevantes, contudo apresentam limitações práticas no cotidiano clínico devido a custos e necessidade de equipamentos específicos.

De Morais et al. (2023) e Magalhães et al. (2018) defendem que o exame clínico detalhado continua sendo o principal meio diagnóstico, especialmente em contextos com restrição de recursos tecnológicos. As abordagens terapêuticas analisadas indicam que o tratamento do bruxismo e das DTMs deve ser multidisciplinar e individualizado, combinando recursos odontológicos, fisioterapêuticos e psicológicos.

De Lima et al., (2020) reforçam a efetividade das placas oclusais na proteção dentária, embora não existam evidências conclusivas sobre sua ação direta na redução do bruxismo. Candido et al. (2021) acrescentam que o uso isolado da placa não é suficiente, devendo ser complementado por orientações comportamentais.

Intervenções comportamentais demonstram eficácia especialmente para o bruxismo em vigília, ressaltando a relevância do manejo do estresse, o que corrobora a importância dos aspectos psicossociais na gênese e manutenção desses distúrbios. Segundo Da Silva et al. (2024), o tratamento deve buscar a reeducação funcional, enquanto Oliveira et al. (2022) destacam que o envolvimento ativo do paciente aumenta a adesão e melhora os resultados terapêuticos.

A fisioterapia mostrou-se eficiente na redução dos sintomas dolorosos e na melhora da função mandibular, com técnicas que promovem relaxamento muscular e reeducação postural (De Lima et al., 2020). De Luccas et al. (2021) reforçam que o tratamento conservador deve priorizar o equilíbrio muscular e o alívio da dor, antes da adoção de terapias invasivas.

O uso da toxina botulínica apresenta-se como alternativa promissora para casos refratários, proporcionando alívio da hiperatividade muscular e da dor. Edemundo (2023) demonstrou resultados positivos na redução da dor miofascial associada à DTM, embora ressalte a necessidade de acompanhamento contínuo. Entretanto, Gatelli et al. (2018) alertam que o uso indiscriminado da substância pode gerar efeitos adversos e mascarar sintomas subjacentes.

A intervenção farmacológica continua sendo importante para controle da dor e dos espasmos musculares. Santos (2024) aponta que analgésicos e relaxantes musculares podem ser úteis no curto prazo, mas o uso prolongado deve ser evitado.

De Lima et al. (2020) reforçam que o tratamento medicamentoso deve ser sempre associado a terapias não farmacológicas para prevenir dependência e efeitos adversos.

A cirurgia permanece como recurso para casos graves e refratários. Magalhães et al. (2018) enfatizam que a indicação cirúrgica deve ser criteriosa, baseada em protocolos clínicos atualizados e após a falha de tratamentos conservadores. Lopes (2020) concorda, destacando a importância da avaliação multidisciplinar prévia.

A educação do paciente e sua conscientização acerca dos fatores envolvidos reforçam um componente essencial para a adesão e o sucesso terapêutico. Silva (2018) destaca que a comunicação clara e o envolvimento do paciente favorecem o controle dos hábitos parafuncionais. Oliveira et al. (2022) e Candido et al. (2021) concordam que o diálogo humanizado e o acompanhamento contínuo são determinantes para o êxito terapêutico.

O impacto dos hábitos ambientais e comportamentais, como o consumo de estimulantes e uso de medicamentos psicotrópicos, no bruxismo e nas DTMs, reforça a necessidade de avaliação global do paciente. Santos (2024) e Cardoso (2025) sugerem que a modificação desses hábitos deve ser parte integrante do tratamento, promovendo melhorias na qualidade do sono e na função mandibular.

Novas tecnologias digitais e a teleodontologia oferecem perspectivas positivas para diagnóstico e acompanhamento, principalmente em regiões de difícil acesso. Neves (2025) aponta que essas ferramentas ampliam o alcance e a eficácia do cuidado em saúde bucal, favorecendo a continuidade do tratamento e a monitorização de sintomas.

A discussão evidencia ainda que, apesar dos avanços, há lacunas significativas na compreensão dos mecanismos fisiopatológicos e das melhores estratégias terapêuticas, o que exige continuidade na pesquisa focada na personalização do atendimento. De Morais et al. (2023) e Da Silva et al. (2024) reforçam que o futuro dos estudos deve se concentrar na integração entre fatores fisiológicos e emocionais.

Por fim, ressalta-se a relevância da abordagem interdisciplinar para otimizar a assistência integral, considerando a conexão entre fatores físicos, emocionais e sociais, fundamentais para a promoção da saúde e bem-estar dos pacientes acometidos pelo bruxismo e DTMs (Silva, 2018; De Lima et al., 2020; Candido et al., 2021).

5. CONCLUSÃO

A revisão demonstrou que o bruxismo representa um importante fator de risco para o desenvolvimento das disfunções temporomandibulares (DTMs), evidenciando que diferentes elementos, como estresse, ansiedade, hábitos parafuncionais e alterações musculares influenciam diretamente a manifestação dos sintomas. Os estudos analisados reforçam a necessidade de um diagnóstico preciso, fundamentado em critérios padronizados, e de uma abordagem terapêutica integrada que envolva placas oclusais, fisioterapia e intervenções comportamentais.

A toxina botulínica pode ser indicada em situações específicas, embora sua eficácia prolongada ainda exija maior evidência científica. Conclui-se que a educação do paciente, o acompanhamento periódico e a atuação conjunta entre profissionais de diferentes áreas são fundamentais para o manejo adequado do bruxismo e das DTMs. Persistem lacunas na literatura quanto aos mecanismos envolvidos e às estratégias terapêuticas mais eficazes, destacando a necessidade de novas pesquisas.

REFERÊNCIAS

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