DESAFIO DA RECONSTRUÇÃO EMOCIONAL FEMININA E AS REPERCUSSÕES PSICOLÓGICAS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NA VIDA DA MULHER

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510221450


Erondina Adeliana Hounsell Cardoso1
Neire Abreu Mota Porfiro2
Selena Castiel Gualberto Lima3
Fernanda Borges Trindade4


RESUMO

A violência doméstica contra a mulher é um fenômeno complexo, multifacetado e alarmantemente presente em nossa sociedade. Seus impactos não se limitam ao momento da agressão, mas reverberam em diversas dimensões da vida da vítima, afetando sua saúde mental, emocional, social e econômica. Este trabalho tem como objetivo analisar as consequências vivenciadas por mulheres após o rompimento de um relacionamento abusivo, com ênfase nos desafios relacionados à autoestima, ao bem-estar, à reconstrução da identidade, às relações familiares, à vida profissional e ao acesso a redes de apoio. Partindo da premissa de que os efeitos da violência extrapolam a fase da convivência com o agressor, propõe-se também a reflexão sobre a existência de um estágio específico, denominado Travessia, caracterizado pela luta cotidiana para consolidar a autonomia e ressignificar a própria história. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, utilizando como metodologia a realização de entrevistas semiestruturadas com mulheres que romperam o ciclo da violência. A análise dos dados será conduzida por meio da técnica de análise de conteúdo, buscando identificar padrões, sentimentos e estratégias de enfrentamento mobilizadas pelas participantes. O estudo ancora-se em referenciais teóricos da Psicologia e dos Estudos de Gênero, especialmente nos trabalhos de Saffioti (2004) e Souza & D’Oliveira (2013), que discutem o ciclo da violência e seus impactos prolongados. Ao dar visibilidade às trajetórias individuais de dor, superação e transformação, espera-se contribuir para o aprimoramento de políticas públicas, práticas de acolhimento e ações de enfrentamento da violência de gênero.

Palavras-chave: Violência doméstica; Mulheres vítimas; Saúde mental; Reconstrução da identidade; Políticas públicas; Psicologia da saúde; Rede de apoio.

ABSTRACT

Domestic violence against women is a complex, multifaceted, and alarmingly prevalent phenomenon in our society. Its impacts are not limited to the moment of aggression but reverberate across multiple dimensions of the victim’s life, affecting her mental, emotional, social, and economic well-being. This study aims to analyze the consequences experienced by women after leaving an abusive relationship, with emphasis on challenges related to self-esteem, well-being, identity reconstruction, family relationships, professional life, and access to support networks. Based on the premise that the effects of violence extend beyond the period of coexistence with the aggressor, this research also proposes a reflection on the existence of a specific stage, called The Crossing, characterized by the daily struggle to consolidate autonomy and redefine one’s own story. The study adopts a qualitative, exploratory, and descriptive approach, using semi-structured interviews with women who have broken the cycle of violence as its primary method. Data analysis will be conducted through content analysis, seeking to identify patterns, emotions, and coping strategies mobilized by the participants. The research is grounded in theoretical frameworks from Psychology and Gender Studies, particularly in the works of Saffioti (2004) and Souza & D’Oliveira (2013), which discuss the cycle of violence and its prolonged effects. By giving visibility to individual trajectories of pain, resilience, and transformation, this study seeks to contribute to the improvement of public policies, care practices, and actions aimed at addressing gender-based violence.

Keywords: Domestic violence; Female victims; Mental health; Identity reconstruction; Public policies; Health psychology; Support network.

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho nasce da necessidade de falar sobre os desdobramentos da violência doméstica na vida da mulher, logo após deixar o vínculo que a ligava à violência. Ao se tratar sobre violência doméstica e familiar contra mulher o que mais se difunde é o consenso acerca da necessidade de se deixar o ambiente da violência, encerrar os relacionamentos com os cônjuges agressores e acerca da superação desse contexto. 

No entanto, há uma fase que se inicia logo após o primeiro passo ao buscar a emancipação dessa mulher, a que chamaremos de Travessia,  onde diversos fatores relembram a dor sofrida no relacionamento, que reforçam a dependência desta mulher ao ex-cônjuge sejam por questões financeiras, sociais e psicológicas, como também podem trazer novas feridas oriundas desse processo que se busca a cura. Considerando as diversas formas de violência contra a mulher, o presente estudo busca apresentar os diversos desdobramentos e impactos correspondentes a esse evento na vida da mulher.

A forma mais comum experimentada por mulheres em todo o mundo é a violência física, considerada a ponta do ‘iceberg’, visto que a pessoa em situação de violência, provavelmente, já sofreu ou sofre os demais tipos” (Coelho; Silva; Lindner, 2014, p. 10).

A ausência do agressor não implica o fim imediato das consequências da violência, a mulher se depara com uma série de obstáculos que comprometem a real superação da dor e do trauma, além de impactos no seu bem estar emocional e em sua autonomia. Os impactos desses obstáculos enfrentados durante a travessia são elementos que pesam na vida dessa vítima que se vê limitada em voltar ao relacionamento anterior (ao contexto de violência), ou aceitar uma vida onde a falta de dignidade e de bem estar sejam base.

A sociedade celebra a saída como libertação, mas ignora que, na maioria das vezes, ela não vem acompanhada de acolhimento, amparo ou reconstrução. A mulher que foge com a roupa do corpo não está escolhendo recomeçar, está fugindo da morte, física e simbólica. E nesse contexto enfrenta dificuldades de todas as ordens, porém principalmente as financeiras.  Sejam por diminuição do padrão de vida, seja pela própria situação de miserabilidade em casos de mulheres que se dedicavam integralmente à casa e não tinham um exercício profissional, sendo totalmente dependentes do até então, cônjuge. A partir disso, os desafios relacionados à construção de um novo lar, moradia, alimentação, em casos onde há filhos os desafios permeiam a tentativa de se dar atenção e assistência a eles, visando proporcionar calma e superação do contexto de violência. Ainda relacionado aos cuidados com a prole, há dificuldades relacionadas à falta de uma rede de apoio, quando essa mãe precisa deixar os filhos por mais tempo quando se busca um emprego, uma vez que o mercado de trabalho impõe disponibilidade e dedicação. Não se pode deixar de citar os desafios de mulheres que ainda buscam conciliar todos esses aspectos com estudos. Para além dos desafios práticos do cotidiano, há os seus desdobramentos emocionais que se somam aos que essa mulher já adquiriu com a própria violência em si, portanto, a baixo estima, sentimento de solidão, vergonha, comprometimento do sistema nervoso por estresse pós-traumático, entre outros. 

A chamada “superação feminina” tem sido romantizada em discursos públicos, acadêmicos e midiáticos, como se bastasse coragem para transformar dor em força. Mas a realidade é mais dura: a travessia é feita de medo, de traumas que insistem em permanecer, de filhos que carregam marcas invisíveis, de pobreza e desamparo institucional. A mulher sobrevive, mas quase nunca encontra o apoio necessário para existir novamente com dignidade. O trauma psicológico se mistura à perda material e à culpa imposta por uma sociedade que, muitas vezes, ainda duvida da vítima e protege o agressor.

A ruptura tem um preço alto para mulheres, especialmente as mães, que acabam muitas vezes precisando de apoio extra para se reerguer. Esse fator, é determinante para a discussão acerca das Representações Sociais e como esse processo de travessia é um campo com diversas áreas a serem legitimadas para o conhecimento e validação da psicologia para seu melhor tratamento.

Parte-se da convicção de que não há cura possível sem reconhecimento da dor. “A Travessia” é o nome dado a esse período em que a mulher tenta reconstruir-se entre desafios que podem representar entraves à uma superação saudável do ponto vista psicológico. Este estudo busca compreender esse processo com a seriedade e a humanidade que ele exige, desafiando o olhar simplista que transforma sofrimento em espetáculo e resiliência em slogan.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 DEFINIÇÃO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é amplamente difundida como violência física, casos de agressões como tapas, socos, chutes, arranhões entre outros que afetam o corpo físico e deixam cicatrizes visíveis. Naturalmente, as agressões físicas são mais facilmente identificadas e, portanto, consideradas pela sociedade.

De acordo com a lei que trata sobre a Violência Doméstica, 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), define-se violência doméstica e familiar contra mulher, como […]…“qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.

Há múltiplas formas de manifestação de violência, como é o caso da violência  psicológica, financeira e moral, que nem sempre são tão evidentes. No entanto, causam feridas tão ou mais profundas. As naturezas da violência são classificadas pelas OMS, como:

  • Violência Psicológica/Moral: É toda forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, cobrança exagerada, punições humilhantes e utilização da pessoa para atender às necessidades psíquicas de outrem. É toda ação que coloque em risco ou cause dano à autoestima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Esse tipo de violência também pode ser chamado de violência moral […]”
  • Violência Sexual: É qualquer ação na qual uma pessoa, valendo-se de sua posição de poder e fazendo uso de força física, coerção, intimidação ou influência psicológica, com uso ou não de armas ou drogas, obriga outra pessoa, de qualquer sexo e idade, a ter, presenciar, ou participar de alguma maneira de interações sexuais ou a utilizar, de qualquer modo a sua sexualidade, com fins de lucro, vingança ou outra intenção. Incluem-se como violência sexual situações de estupro, abuso incestuoso, assédio sexual, sexo forçado no casamento, jogos sexuais e práticas eróticas não consentida[…]”;
  • Violência Financeira/Econômica: É o ato de violência que implica dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, instrumentos de trabalho, bens e valores da pessoa atendida/vítima. Consiste na exploração imprópria ou ilegal, ou no uso não consentido de seus recursos financeiros e patrimoniais. Esse tipo de violência ocorre, sobretudo, no âmbito familiar, sendo mais frequente contra as pessoas idosas, mulheres e deficientes. Esse tipo de violência é também conhecida como violência patrimonial…;
  • Negligência/Abandono: É a omissão pela qual se deixou de prover as necessidades e cuidados básicos para o desenvolvimento físico, emocional e social da pessoa atendida/vítima. Ex.: privação de medicamentos; falta de cuidados necessários com a saúde; descuido com a higiene; ausência de proteção contra as inclemências do meio, como o frio e o calor; ausência de estímulo e de condições para a frequência à escola. O abandono é uma forma extrema de negligência, é o tipo mais comum de violência contra crianças.” 

Judith Herman explica que a violência de gênero, especialmente quando é prolongada ou vivida no ambiente doméstico, provoca traumas complexos. Isso significa que a vítima não sofre apenas no momento da agressão, mas carrega efeitos duradouros como medo constante, baixa autoestima, dificuldade de confiar em outras pessoas e problemas emocionais como depressão e ansiedade.

A partir da compreensão das diversas formas de violência, entende-se que a violência não é um evento isolado, mas parte de um padrão contínuo de comportamentos considerados abusivos, que ocorrem de maneira sistemática dentro da dinâmica do casal, podendo chegar a episódios diários.  

Quando a mulher sai do contexto de violência, deixando a casa em que morava, ou que se mantém no mesmo lugar porém sem a presença do cônjuge que até então custeava o sustento da família, ela trava uma nova realidade que confronta tanto os danos da própria violência em si, como também as violências ‘invisíveis’ presentes na desigualdade de tratamento que a sociedade dá a uma mulher e a um homem. 

A violência de gênero produz-se e reproduz-se nas relações de poder onde se entrelaçam as categorias de gênero, classe e raça/etnia. Expressa uma forma particular de violência global mediatizada pela ordem patriarcal, que delega aos homens o direito de dominar e controlar suas mulheres, podendo para isso usar a violência (Araújo, 2008, p. 2).

Por essa razão, explica-se a dificuldade de superação de traumas, intrinsecamente ligado ao estresse pós-traumático em decorrência dessa convivência com a violência, somado a quebra da situação conjugal que a princípio era regida pela expectativa de construção de uma família e de viver uma vida em parceria e apoio mútuo, a confiança, autoestima e senso de dignidade são extremamente despercebidos por essa vítima.

2.2 O OLHAR DA PSICOLOGIA 

Conforme aponta Saffioti (2004), a violência de gênero é sustentada por uma estrutura social patriarcal que naturaliza a subordinação feminina, o que dificulta a ruptura dos vínculos abusivos e prolonga o sofrimento mesmo após o término da relação violenta. De maneira convergente, Souza e D’Oliveira (2013) demonstram que os efeitos da violência persistem na trajetória das mulheres, manifestando-se em forma de traumas psicológicos, vulnerabilidades socioeconômicas e desafios no acesso a direitos fundamentais, evidenciando que o fim da convivência com o agressor não encerra o ciclo de impactos da violência.

Conforme o entendimento das representações sociais como audiências sociais que, embora possam ser acessadas a partir do seu conteúdo cognitivo, precisam ser compreendidas em seu contexto de produção, ou seja, a partir das funções simbólicas e ideológicas que exercem e das formas de comunicação pelas quais circulam, percebe-se que a violência doméstica ainda demanda uma nova percepção por parte da sociedade em geral. 

A própria ruptura do ciclo da violência, apesar de amplamente difundida como uma vitória, representa, na verdade, apenas o início de uma nova etapa no processo de superação. Esse momento, embora significativo, não marca a superação definitiva, mas o ponto de partida para uma reconstrução emocional e social da mulher enquanto indivíduo digno, pleno e capaz.

É nesse novo estágio, em que surgem desafios como a criação de um novo lar, as dificuldades financeiras, o acesso limitado a auxílios sociais, a escassez de redes de apoio, a continuidade dos estudos e a reconstrução da confiança nas relações, que a Psicologia deve atuar de forma a conscientizar a sociedade sobre a existência e a importância desse período pós-ruptura, que também requer acolhimento e compreensão.

Entre as diversas formas de violência, a mais marcante, muitas vezes, é a deterioração da saúde mental, resultado direto da opressão da autoestima, da inibição do comportamento, das acusações constantes e do estresse contínuo. Viver um relacionamento permeado por agressões psicológicas recorrentes é, por si só, uma experiência exaustiva, que mantém a vítima em um estado de alerta e de perturbação emocional constante, acentuando as consequências da agressão sobre o psicológico.

Esses impactos não se restringem à mulher, mas reverberam no ambiente familiar. Crianças e adolescentes que convivem com situações de violência doméstica tendem a apresentar dificuldades emocionais e sociais, como retraimento, insegurança, agressividade ou queda no rendimento escolar. A convivência prolongada com o medo e a instabilidade compromete o desenvolvimento saudável e a percepção de segurança afetiva, essenciais para o amadurecimento emocional.

Sob a ótica humanista, Carl Rogers enfatiza que o ser humano precisa de um ambiente de empatia, aceitação e compreensão para desenvolver plenamente seu potencial. Em contextos de violência de gênero, essas condições são substituídas pelo medo, controle e julgamentos, bloqueando o processo de crescimento pessoal e enfraquecendo a autoconfiança. Uma adolescente que presencia o pai agredir a mãe, por exemplo, tende a reprimir suas emoções, a se calar e a se retrair, impedindo-se de “tornar-se pessoa”, expressão usada por Rogers para designar o desenvolvimento autêntico do ser humano em direção à sua realização.

A psicologia fenomenológica, conforme proposto por Amedeo Giorgi, amplia essa compreensão ao propor que se investigue o significado da experiência vivida por cada indivíduo, sem reduzi-la a categorias pré-estabelecidas. No contexto da violência doméstica, isso significa compreender que cada mulher sente, interpreta e reage à agressão de modo singular. Enquanto uma pode desenvolver crises de ansiedade, outra pode optar pelo silêncio e pelo isolamento. Ambas, porém, vivem experiências legítimas de sofrimento, e o papel do profissional é oferecer uma escuta genuína, sem julgamentos, respeitando o modo como cada uma constroi sentido para a própria dor.

Essa abordagem, centrada na experiência e na dignidade subjetiva, contribui não apenas para o cuidado psicológico individual, mas também para a construção de uma consciência social mais sensível às nuances da violência de gênero. Ao reconhecer a mulher como sujeito de sua própria narrativa, e não como objeto de diagnóstico ou estatística, a psicologia se coloca como aliada na reconstrução de sua autonomia e na reafirmação do seu valor como pessoa em processo contínuo de crescimento.

2.3 AS DIFICULDADES

Ao sair de um contexto de violência doméstica, muitas mulheres enfrentam não apenas o desafio emocional da reconstrução de si mesmas, mas também o impacto prático da ruptura de uma dependência econômica. A falta de autonomia financeira, antes mascarada pela manutenção do vínculo conjugal, se revela de forma dura e imediata, colocando essas mulheres diante da necessidade de garantir o próprio sustento e, muitas vezes, o de seus filhos.

A maternidade, que deveria representar uma vivência de realização e crescimento, frequentemente se transforma em um fator que aumenta a vulnerabilidade social. A interrupção da trajetória profissional para o cuidado dos filhos repercute diretamente nas oportunidades futuras de inserção no mercado de trabalho. Mesmo após os filhos atingirem idade escolar, muitas mulheres encontram barreiras para retomar suas carreiras, seja pela defasagem de habilidades decorrente do afastamento, seja pela escassez de vagas que ofereçam condições flexíveis de jornada.

Esse cenário leva uma parcela significativa dessas mulheres para o trabalho informal, caracterizado por baixa remuneração, ausência de garantias trabalhistas e instabilidade constante. As mães solo, em especial, enfrentam um acúmulo de responsabilidades que dificulta a conciliação entre o trabalho e o cuidado dos filhos, o que reforça o ciclo de desigualdade e precarização. Muitas delas não dispõem de formação completa, pois a maternidade precoce, somada ao contexto de vulnerabilidade, interrompeu sua escolarização em um momento crucial de desenvolvimento educacional e profissional.

A desigualdade de renda também é expressiva: dados de pesquisas nacionais indicam que mulheres que criam seus filhos sozinhas recebem, em média, rendimentos consideravelmente menores que os homens casados com filhos, o que evidencia a persistente disparidade de gênero e a penalização econômica associada à maternidade.

Essas dificuldades materiais não se restringem à questão financeira, mas reverberam no bem-estar emocional, tanto da mulher quanto de seus filhos. O medo da instabilidade, a sobrecarga e a ausência de uma rede de apoio geram sofrimento psíquico e podem agravar o trauma vivenciado anteriormente. Nesse sentido, a superação da violência doméstica não se encerra no rompimento com o agressor, mas inclui também a necessidade de reconstrução de condições mínimas de dignidade social e econômica.

Daolio e Bonafé (2015, p. 4) defendem que o trauma tende a acarretar a “compulsão à repetição do evento traumático, dada a não inserção à cadeia associativa ou a não inscrição nos sistemas mnêmicos do que acaba de se repetir”. Dessa forma, quando se evidenciam os desafios enfrentados por essa mulher, percebe-se que o sofrimento não se restringe às dores emocionais e físicas, mas se estende às dificuldades inerentes à falta de assistência social e material. Esses fatores podem influenciar a retomada da relação abusiva, uma vez que, culturalmente, ainda é mais aceitável uma mulher permanecer em um relacionamento que lhe garanta certo conforto financeiro, mesmo que à custa de sua dignidade.

O dilema vivido por essa mulher, portanto, está intrinsecamente ligado à necessidade de escolher por qual motivo irá sofrer, pela escassez material e o abandono social, ou pela continuidade da violência emocional e física, o que evidencia uma crueldade profundamente humana e estrutural.

De acordo com Souza (2013), ao passar por um estresse traumático que ameaça a própria vida ou desperta fortes emoções, o indivíduo tende a reagir de três formas: lutar, fugir ou congelar diante do perigo. Essa última resposta, o congelamento, é uma reação comum em situações de violência doméstica, quando a mulher, diante do medo e da desestruturação emocional, sente-se paralisada e incapaz de agir. Contudo, esse estado não se encerra no momento da agressão: ele pode se estender para o período posterior, quando a mulher, ao romper o vínculo violento, se vê diante de um novo cenário de instabilidade, preconceito e solidão.

A travessia que se inicia após a ruptura é marcada por dores físicas e psicológicas que não cessam com o afastamento do agressor. Ao contrário, é nesse momento que muitas mulheres passam a enfrentar novos tipos de violência, simbólica, institucional e social, manifestadas nos olhares de desconfiança, nos julgamentos morais e na negligência das redes de apoio. A perda da esperança, a culpa internalizada e o medo do fracasso repercutem não apenas sobre a própria saúde mental da mulher, mas também sobre a formação emocional de seus filhos e na possibilidade de estabelecer vínculos afetivos saudáveis no futuro.

Ao refletir sobre a violência sob uma perspectiva sistêmica, Sant’Anna e Penso (2016) enfatizam a importância de se considerar os valores socioculturais que moldam as relações familiares. Esses valores, ainda amplamente estruturados sobre bases patriarcais e machistas, como observa Balbinotti (2018), sustentam uma lógica hierárquica que posiciona o homem como figura de autoridade e a mulher como dependente, submissa e emocionalmente responsável pela estabilidade da família. Dentro desse cenário, a mulher que decide romper com o ciclo de violência desafia uma estrutura social que historicamente a ensina a permanecer, a suportar e a se sacrificar.

Morgado (2011) reforça que, embora a violência conjugal ocorra no contexto familiar, ela não se restringe a esse espaço, pois reflete as dinâmicas socioculturais mais amplas que definem os papeis de gênero. Assim, quando uma mulher tenta reconstruir sua vida após romper com o agressor, ela continua a enfrentar as mesmas forças que sustentaram a violência: o machismo estrutural, a desvalorização social e o julgamento moral.

A mulher que decide partir, mesmo sem marcas físicas aparentes, é frequentemente vista como a responsável pela desestruturação familiar; a que permanece, é tida como conivente; e a que tenta se reerguer sozinha, como incapaz ou imprudente. Esse duplo vínculo social a aprisiona em narrativas que negam sua complexidade humana. Tal dinâmica demonstra que o sofrimento da mulher vítima de violência não se limita ao momento da agressão direta, ele se perpetua nas reações sociais que deslegitimam sua dor e minam sua busca por autonomia.

Sob a ótica fenomenológica, essa deslegitimação reforça o sofrimento existencial, pois impede que a experiência vivida pela mulher encontre lugar de expressão e reconhecimento. A ausência de empatia e de escuta social interrompe o processo de ressignificação da vivência traumática, prolongando o congelamento descrito por Souza (2013). A mulher, ao não ser ouvida, permanece invisível em sua própria história.

Por essa razão, o reconhecimento legítimo do sofrimento feminino após a ruptura do vínculo abusivo é um imperativo ético e psicológico. É nesse momento, e não apenas durante a violência, que se revela a profundidade da ferida, a de quem tenta renascer em uma sociedade que, em vez de acolher, questiona o seu direito de existir com dignidade. A psicologia humanista, inspirada em Rogers, lembra que somente em um ambiente de aceitação e empatia o ser humano pode se reorganizar e avançar em direção à sua autorrealização. 

Assim, reconhecer e acolher o sofrimento da mulher em sua travessia é mais do que uma questão clínica: é um ato de justiça simbólica e social, que devolve a ela a condição de sujeito pleno de valor e sentido.

3. METODOLOGIA

A fundamentação metodológica adotada nesta pesquisa parte de uma investigação qualitativa, com enfoque fenomenológico, por compreender que as vivências subjetivas das mulheres que passaram por relacionamentos abusivos não podem ser reduzidas a números ou categorias fixas, mas devem ser analisadas em sua profundidade existencial e simbólica. A escolha por esse método se justifica pela necessidade de compreender as experiências, sentimentos e significados atribuídos por essas mulheres às etapas de dor, resistência e reconstrução que compõem o processo de superação da violência.

O estudo insere-se, portanto, no âmbito da pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, conforme propõe Minayo (2018), buscando interpretar as percepções, emoções e sentidos emergentes das produções científicas e relatos sobre a temática.

Para alcançar seus objetivos, foi desenvolvida uma revisão sistemática de pesquisas e produções acadêmicas publicadas em periódicos científicos e plataformas digitais. O levantamento bibliográfico foi realizado por meio do sítio eletrônico SciELO, bem como em portais oficiais de notícias e informação voltados à temática da violência doméstica e suas repercussões psicológicas.

Não houve delimitação temporal específica, em virtude da escassez de estudos que se dediquem ao período posterior à ruptura do vínculo abusivo, compreendido aqui como a fase de “travessia”.

Como critérios de inclusão, consideraram-se os trabalhos que abordam o problema sob o prisma das consequências emocionais e cotidianas da violência doméstica, além daqueles cujos objetivos se mostraram condizentes com o propósito da presente investigação. Foram excluídos os textos que trataram exclusivamente da violência física em si ou que se restringiram ao momento da agressão, sem analisar o processo de reconstrução emocional subsequente.

A seleção do material deu-se a partir da leitura de títulos, resumos e textos completos que tratavam das repercussões da violência sobre a subjetividade feminina, das experiências de superação e da reconstrução da autonomia após o rompimento do ciclo abusivo. Não houve restrição de nacionalidade das publicações, em razão da limitação de material disponível em língua portuguesa, sendo também incluídas notícias e relatórios oficiais de relevância social.

Por fim, os dados foram organizados de forma analítico-interpretativa, com base na técnica de análise de conteúdo, buscando-se identificar padrões temáticos, sentimentos recorrentes e estratégias de enfrentamento relatadas nas fontes. Essa abordagem possibilitou compreender, de modo mais amplo, o fenômeno da reconstrução emocional feminina após a vivência da violência doméstica, destacando as interfaces entre psicologia, gênero e sociedade.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos resultados obtidos evidencia uma lacuna significativa na literatura científica quanto ao reconhecimento e estudo aprofundado de um período subsequente à ruptura do vínculo abusivo, etapa que, neste trabalho, denominamos Travessia. Observa-se que a maior parte dos estudos concentra-se na fase da violência em si, nos mecanismos de denúncia ou nos aspectos legais e protetivos imediatos, deixando de lado a compreensão das vivências emocionais, sociais e psicológicas que emergem após o rompimento. Essa ausência teórica e empírica reforça a necessidade de se nomear, descrever e analisar este momento, que se revela determinante para a efetiva reconstrução da mulher em situação de violência.

A Travessia representa um campo simbólico e existencial ainda não institucionalizado nas políticas públicas e nas práticas de saúde e assistência social. É nesse intervalo, entre o término da relação abusiva e a consolidação da autonomia pessoal, que a mulher enfrenta os maiores desafios psicológicos, emocionais e materiais. Conforme aponta Saffioti (2004), a violência de gênero não se encerra com o afastamento do agressor, pois os mecanismos de opressão permanecem enraizados nas estruturas sociais e culturais. Nesse sentido, a ausência de políticas que considerem a Travessia como fase legítima de vulnerabilidade perpetua o ciclo de desamparo e invisibilidade.

Do ponto de vista psicológico, a teoria fenomenológica contribui para a compreensão desse momento como uma experiência singular de reconstrução do ser. A mulher que sai de um contexto de violência se vê diante da tarefa de ressignificar a própria história, reelaborando sentimentos de culpa, medo e indignidade (Giorgi, 2009). A falta de reconhecimento institucional e social desse processo acentua o sofrimento e dificulta a elaboração do trauma, pois o sujeito não encontra espaços de escuta e acolhimento que validem sua dor. Como observa Rogers (1977), a autorrealização só é possível quando o indivíduo encontra um ambiente de empatia e aceitação, condições ainda pouco oferecidas às mulheres em situação pós-violência.

Sob a ótica das representações sociais, conceito desenvolvido por Moscovici (2011), a sociedade tende a romantizar a superação feminina, reduzindo-a à ideia de força e resiliência, o que desconsidera as dimensões psicológicas complexas envolvidas na reconstrução emocional. Essa representação distorcida encobre a realidade da Travessia, transformando o sofrimento em símbolo de heroísmo e, assim, negando o direito à vulnerabilidade. Conforme reforça Minayo (2018), compreender as representações sociais é fundamental para revelar os significados que os sujeitos atribuem às suas experiências e para propor intervenções socialmente contextualizadas.

No âmbito da saúde mental, a falta de protocolos específicos para atendimento a mulheres em Travessia demonstra a insuficiência das políticas públicas voltadas à recuperação emocional e social. A maior parte das ações se limita à emergência da violência, não havendo continuidade no acompanhamento psicossocial. A literatura evidencia que os impactos do trauma persistem a longo prazo, manifestando-se em forma de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e dificuldades relacionais (Souza & D’Oliveira, 2013). A ausência de uma abordagem integrada entre psicologia, serviço social e rede de apoio institucional compromete a reestruturação subjetiva da vítima, prolongando a dependência emocional e material.

Portanto, a relevância desta discussão está em romper com o silenciamento institucional e reconhecer a legitimidade do sofrimento feminino pós-violência. Nomear e estudar a Travessia é não apenas um gesto científico, mas também um ato político e ético: significa devolver à mulher o direito de ser ouvida em seu percurso de cura, e não apenas no momento de sua dor.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo evidencia a necessidade de compreender o sofrimento da mulher vítima de violência doméstica não apenas no momento da agressão direta, mas também durante o período subsequente à ruptura do vínculo abusivo. Este momento, aqui denominado como Travessia, revela-se crítico, pois envolve um conjunto complexo de desafios emocionais, sociais, econômicos e físicos que, mesmo isoladamente, impactam severamente a vida de um indivíduo; quando conjugados, aumentam exponencialmente os riscos de estresse pós-traumático, comprometendo o desenvolvimento pleno da mulher e, potencialmente, gerando novos traumas ou padrões repetitivos, como a retomada de relacionamentos abusivos.

Apesar de muitas dessas questões serem conhecidas socialmente, a literatura ainda não organiza de forma sistemática e integrada os dados e reflexões sobre a fase pós-ruptura. Essa lacuna reforça a importância de estudos como o presente, que buscam dar visibilidade à realidade vivida pelas mulheres, promovendo conscientização tanto no âmbito social quanto no psicológico. O impacto da violência doméstica se estende à família, prejudicando o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes que convivem nesse contexto, e interfere na trajetória profissional, na autonomia e na construção da identidade da mulher enquanto indivíduo pleno, mãe e cidadã.

A Travessia, portanto, surge como conceito fundamental para orientar práticas de cuidado, acolhimento e formulação de políticas públicas. Reconhecer essa fase significa admitir que a saída do relacionamento abusivo não encerra a violência, mas inaugura um processo de reconstrução que exige escuta clínica qualificada, suporte emocional, reintegração social e garantia de direitos básicos. Este reconhecimento permite que instituições e profissionais atuem de forma preventiva, reduzindo riscos de recaídas e reaproximações com o agressor, e promovendo a autonomia e o empoderamento da mulher.

A partir de uma perspectiva humanista e fenomenológica, a Travessia deve ser entendida como um processo dinâmico de ressignificação da experiência, no qual a mulher se reconecta com sua identidade, elabora o trauma e redefine sua posição no mundo. Assim, este estudo contribui para o avanço científico e social ao estabelecer a Travessia como uma fase de transição crítica, cuja atenção interdisciplinar é imprescindível para garantir a proteção, a dignidade e o pleno desenvolvimento das mulheres que romperam com a violência doméstica, promovendo não apenas sua recuperação individual, mas também um impacto positivo no tecido social mais amplo.

REFERÊNCIAS

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1Graduanda em Psicologia pela Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: erondina.cardoso@sou.fcr.edu.br

2Doutoranda no Programa de Doutorado Profissional em Educação Escolar pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Pesquisadora da Linha 2 – Currículo, Políticas e Diferenças Culturais na Educação Básica. Mestra em Educação pela Universidade Federal de Rondônia. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior (UNINTES-2004). Pós-graduada em Neuropsicopedagogia pelo Instituto Rhema (2024). Pós-graduada em Coordenação Pedagógica pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR- 2012). Graduada em Pedagogia com Habilitação em Administração Escolar (UNIPEC-2003). Membro dos Grupo de Pesquisa: Práxis (UNIR); Educação Intercultural e Povos Tradicionais (UNIR). Articuladora dos Anos Iniciais da Base Nacional Comum Curricular no Estado de Rondônia. Professora Voluntária da Universidade Federal de Rondônia de 2019 a 2020. Atuou como Assessora Técnica pedagógica na Escola Superior de Contas do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (2021 a 2022). Tem experiência como Coordenadora de Ensino na Faculdade Católica de Rondônia (2022). Atualmente atua na Faculdade Católica de Rondônia como docente, Coordenadora de TCC, e colaboradora do Núcleo de apoio Discente e Docente, bem como Professora NII na Secretaria Municipal de Educação e bolsista do Instituto Federal de Rondônia. Articuladora do Pacto Nacional da Educação de Jovens e Adultos.  
CV: http://lattes.cnpq.br/2174979432762207
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6949-9792
E-mail: nporfiro28@gmail.com

3Psicóloga Clínica e do Trabalho. Doutora em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI. Mestre em educação pela Universidade Federal de Rondônia- UNIR. Especialista em Docência do Ensino Superior pelo instituto FGF. Especialista em Psicologia do Trabalho. Especialista em Tanatologia – Luto. Graduada em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil. Graduada em Direito pela Faculdade de Rondônia- FARO. Advogada inscrita na OAB seccional Rondônia. Especialista em Direito Civil com ênfase familiar pelo Instituto Luterano de Ensino Superior – ULBRA. Professora de Psicologia na Faculdade Católica de Rondônia – FCR. Titular das disciplinas: psicologia e processos de aprendizagem, teorias humanistas e disciplinas com foco na psicologia educacional. Possui experiência em gestão educacional e Psicopedagógica.
CV: http://lattes.cnpq.br/4855025551273789
Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-6720-9912.
E-mail: selena.castiel@fcr.edu.br

4Psicóloga, Neuropsicóloga, Mestre em Psicologia. Professora na Faculdade Católica de Rondônia. Supervisora clínica com ênfase em clínica infantojuvenil.
CV: http://lattes.cnpq.br/1038272960039370
Orcid iD: ttps://orcid.org/0000-0002-2824-7203
E-mail: fernanda.trindade@fcr.edu.br

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