ATIVIDADE OPERACIONAL, JORNADA DE TRABALHO E SAÚDE MENTAL: UMA ANÁLISE BIBLIOGRÁFICA NO CONTEXTO DA POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ

OPERATIONAL ACTIVITY, WORKING HOURS, AND MENTAL HEALTH: A BIBLIOGRAPHIC ANALYSIS IN THE CONTEXT OF THE PARANÁ MILITARY POLICE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602082242


Leandro do Nascimento1


Resumo

A saúde mental dos profissionais da segurança pública tem se consolidado como um campo de investigação relevante, sobretudo em razão das exigências físicas, emocionais e organizacionais que caracterizam o trabalho policial militar. Este artigo tem como objetivo analisar os impactos da atividade operacional e da jornada de trabalho na saúde mental e no estresse ocupacional dos policiais militares da Polícia Militar do Paraná. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada em análise bibliográfica, desenvolvida a partir de livros, artigos científicos e documentos institucionais relacionados à saúde mental, ao estresse ocupacional e às condições de trabalho no contexto da segurança pública. A revisão da literatura evidencia que a atividade operacional, marcada pela exposição constante à violência, ao risco iminente e a situações potencialmente traumáticas, associada a jornadas extensas, irregulares e ao trabalho noturno, constitui um fator central na intensificação do estresse ocupacional e do sofrimento psíquico entre policiais militares. Os estudos analisados indicam, ainda, que a cultura organizacional militar, caracterizada pela rigidez hierárquica, pelo controle emocional e pelo estigma relacionado ao adoecimento mental, contribui para a invisibilização do sofrimento psíquico e dificulta a adoção de estratégias preventivas eficazes. Conclui-se que o estresse ocupacional no trabalho policial militar decorre de fatores estruturais e organizacionais, reforçando a necessidade de políticas institucionais integradas de promoção e prevenção em saúde mental, voltadas à humanização das condições de trabalho e à valorização do cuidado psicológico no âmbito da segurança pública.

Palavras-chave: Saúde Mental. Estresse Ocupacional. Polícia Militar. Condições de Trabalho. Segurança Pública.

1 INTRODUÇÃO

A saúde mental no trabalho tem se consolidado como um dos principais campos de investigação nas ciências humanas e da saúde, especialmente diante das transformações contemporâneas nas relações laborais, marcadas pela intensificação das jornadas, pela pressão por resultados e pela exposição constante a situações de estresse. Nesse contexto, profissões que lidam diretamente com risco, conflito e tomada de decisão sob pressão, como a atividade policial, apresentam elevada vulnerabilidade ao adoecimento psíquico, tornando o tema socialmente relevante e cientificamente necessário (Dejours, 2017; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2022).

Entre os profissionais da segurança pública, os policiais militares estão cotidianamente expostos a fatores estressores específicos, tais como o enfrentamento da violência, o contato frequente com situações traumáticas, a cobrança institucional por desempenho, a rigidez hierárquica e a necessidade permanente de vigilância. Tais condições contribuem para o desenvolvimento de quadros de estresse ocupacional, ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e outras manifestações de sofrimento psíquico, frequentemente invisibilizadas no interior das corporações (Minayo; Assis, 2014; Lima; Bueno, 2020).

No Brasil, estudos apontam que o estresse ocupacional entre policiais militares está diretamente relacionado à organização do trabalho, às longas jornadas, à sobrecarga funcional e à dificuldade de conciliação entre vida profissional e pessoal (Silva; Vasconcelos, 2019). A lógica operacional, marcada por escalas extensas, trabalho noturno, plantões sucessivos e acionamentos emergenciais, compromete o descanso, o convívio social e os processos de recuperação física e emocional, elementos fundamentais para a preservação da saúde mental do trabalhador (Mendes; Araújo, 2018).

Nesse cenário, a Polícia Militar do Paraná (PMPR), assim como outras corporações estaduais, enfrenta desafios significativos no que se refere à promoção da saúde mental de seus efetivos, especialmente daqueles inseridos na atividade operacional. Embora haja avanços normativos e institucionais voltados à atenção psicossocial do policial militar, observa-se que as demandas decorrentes da jornada de trabalho e das exigências operacionais ainda se sobrepõem às estratégias de cuidado, prevenção e acompanhamento contínuo (Paraná, 2021).

A literatura evidencia que o estresse ocupacional não deve ser compreendido apenas como resultado de fragilidades individuais, mas como um fenômeno multifatorial, produzido pelas condições objetivas e subjetivas do trabalho. Sob essa perspectiva, o sofrimento psíquico do policial militar revela tensões estruturais entre o discurso institucional de disciplina, controle emocional e prontidão permanente e as reais condições humanas de enfrentamento do risco e da violência cotidiana (Dejours, 2017; Minayo; Assis, 2014). Essa contradição contribui para o silenciamento do adoecimento mental e para a dificuldade de busca por apoio psicológico, em razão do estigma ainda associado à fragilidade emocional no contexto policial.

Os conceitos de trabalho e saúde mental estão interligados, não só pela definição da OMS, que engloba a atividade de poder trabalhar como um fator de saúde mental, como em estudos realizados por Sivadon, Guillant e Begoin (Billiard, 2001) que buscam analisar a relação causal entre determinadas organizações e condições laborais com o adoecimento mental, utilizando a psicopatologia do trabalho como abordagem.

Já para Dejours (1986), o conceito de saúde abrange muitos outros fatores. Ele afirma que o estado de saúde, bem-estar e conforto é impossível de definir, e se analisar criticamente, esse teste simplesmente não existe!

A tendência é dizer que a saúde é um objetivo a ser atingido, mas não tem como ser um bem-estar social como indica a definição internacional, uma vez que, por exemplo, o bem-estar psíquico não é estável, então cremos que isso seja uma ilusão.

A abordagem da Psicodinâmica do Trabalho considera o trabalho como um elemento essencial para a manutenção da saúde, indo além de uma perspectiva meramente funcional. Embora o trabalho possa de fato representar riscos à saúde e ser fonte de sofrimento, é igualmente necessário reconhecer os impactos negativos associados à ausência de trabalho. A realidade do desemprego, especialmente evidenciada nos últimos anos, demonstra de maneira clara o quanto a falta de envolvimento em atividades laborais pode contribuir para o surgimento de doenças e comprometimentos à saúde mental e física. Pesquisas realizadas sobre este fenômeno, suportadas por evidências concretas sobre os males relacionados ao desemprego, vêm ganhando maior visibilidade. A ausência de trabalho é associada ao desencadeamento de diversas condições patológicas, ilustrando o papel central do trabalho na vida humana. Contudo, é importante salientar que existe um discurso distorcido e equivocado, que presume erroneamente que as pessoas que questionam os aspectos prejudiciais ou perigosos do trabalho desejam simplesmente evitar responsabilidades laborais ou se tornar inativas. Tal discurso ignora as nuances das relações humanas com o trabalho e reduz indevidamente a complexidade deste debate ético e social.

Portanto, a saúde não deve ser compreendida como um atributo que provém exclusivamente de fatores externos, mas sim como uma condição conquistada, enfrentada e interdependente, onde o papel de cada indivíduo é essencial. Essa perspectiva sobre o protagonismo humano na saúde é frequentemente negligenciada em definições tradicionais, sendo imprescindível que essa dimensão ativa seja devidamente reconhecida. 

Adicionalmente, é fundamental ressaltar que a saúde não se configura como um estado fixo ou estável; ela está constantemente sujeita a variações e transformações. A saúde pode ser entendida, sobretudo, como uma contínua sucessão de compromissos com os desafios impostos pela realidade. Esses compromissos são assumidos, renegociados, reconquistados, perdidos e, em seguida, redescobertos ao longo da vivência humana.. 

A saúde é a liberdade de dar a esse corpo a possibilidade de repousar, é a liberdade de lhe dar de comer quando ele tem fome, de fazê-lo dormir quando ele tem sono, de fornecer-lhe açúcar quando baixa a glicemia. …, portanto, a liberdade de adaptação. Não é anormal estar cansado, estar com sono. Não é, talvez, anormal ter uma gripe, e aí vê-se que isso vai longe. Pode ser até que seja normal ter algumas doenças. O que não é normal é não poder cuidar dessa doença, não poder ir para a cama, deixar-se levar pela doença, deixar que as coisas sejam feitas por outro durante algum tempo, parar de trabalhar durante a gripe e depois voltar. (Dejours, p. 4, 1986).

Dejours, assim como outros autores que compartilharam dessas reflexões, buscava compreender o sofrimento psíquico no ambiente de trabalho. Todo o seu empenho era direcionado para estabelecer conexões entre as imposições e os constrangimentos organizacionais e a desestabilização psicológica dos indivíduos. No entanto, enquanto se esperava que, em certas condições ambientais, as pessoas inevitavelmente apresentassemdesequilíbrios psíquicos, as pesquisas realizadas por sua equipe demonstraram justamente o oposto. Frente às condições e organização do trabalho consideradas patogênicas, uma parte pequena das trabalhadoras e trabalhadores efetivamente adoecem. A Psicodinâmica do Trabalho se desenvolve então buscando compreender as estratégias e defesas desenvolvidas pelas trabalhadoras e trabalhadores em seus coletivos para lidar com o sofrimento e as nocividades do trabalho (Dejours, 2011). 

Diante desse quadro, emerge a seguinte problematização: de que maneira a atividade operacional e a jornada de trabalho influenciam o estresse ocupacional e a saúde mental dos policiais militares da PMPR? Tal questão reflete uma vivência concreta do pesquisador no campo educacional e institucional, a partir do contato com relatos, estudos e práticas formativas envolvendo profissionais da segurança pública, evidenciando a necessidade de aprofundamento teórico e empírico sobre o tema.

A relevância social desta pesquisa reside na possibilidade de contribuir para a compreensão crítica dos impactos do trabalho policial sobre a saúde mental, favorecendo a construção de políticas institucionais mais humanizadas, preventivas e eficazes. Do ponto de vista científico, o estudo justifica-se pela necessidade de ampliar o debate acadêmico sobre o estresse ocupacional em contextos militares estaduais, com foco nas especificidades da jornada e da atividade operacional, ainda pouco exploradas de forma sistemática na literatura nacional recente.

Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo geral analisar os impactos da atividade operacional e da jornada de trabalho na saúde mental e no estresse ocupacional dos policiais militares da Polícia Militar do Paraná. Como objetivos específicos, busca-se: a) discutir os principais fatores estressores presentes na atividade operacional policial; b) analisar a relação entre jornada de trabalho e adoecimento psíquico; e c) refletir sobre a importância de estratégias institucionais de promoção e prevenção em saúde mental no âmbito da PMPR.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

1. Saúde mental, trabalho e sofrimento psíquico: bases conceituais

A saúde mental no trabalho constitui um campo interdisciplinar que articula contribuições da psicologia, sociologia, saúde coletiva e ergonomia, compreendendo o adoecimento psíquico como um fenômeno socialmente construído. Nessa perspectiva, o trabalho não é apenas fonte de subsistência, mas um espaço de produção de sentidos, identidades e subjetividades, podendo gerar prazer ou sofrimento, a depender de suas condições de organização (Dejours, 2017).

A psicodinâmica do trabalho compreende o sofrimento psíquico como resultado das tensões entre as exigências institucionais e as possibilidades de o trabalhador exercer sua inteligência prática, criatividade e autonomia. Quando o trabalho impõe metas inalcançáveis, controle excessivo ou negação do reconhecimento, o sofrimento deixa de ser mobilizador e transforma-se em adoecimento (Dejours, 2017). Essa abordagem oferece sustentação teórica ao objetivo geral desta pesquisa, ao permitir analisar os impactos do trabalho policial sobre a saúde mental a partir de suas condições estruturais.

No campo da saúde do trabalhador, Mendes e Araújo (2018) reforçam que o sofrimento psíquico não deve ser compreendido como fragilidade individual, mas como expressão de um modo de organização do trabalho que ignora os limites físicos e emocionais do sujeito. Assim, investigar saúde mental implica examinar criticamente as formas de gestão, as jornadas e as exigências operacionais impostas aos trabalhadores.

2. Estresse ocupacional: conceitos e implicações no contexto profissional

O estresse ocupacional é definido como um processo psicofisiológico desencadeado quando as demandas do trabalho excedem os recursos de enfrentamento do indivíduo, produzindo respostas que podem comprometer sua saúde e desempenho (LIPP, 2016). Diferentemente do estresse pontual, o estresse ocupacional caracteriza-se pela cronicidade e pela associação direta com fatores organizacionais, como carga horária excessiva, pressão por resultados e insegurança no trabalho.

Ganster e Rosen (2013) destacam que o estresse ocupacional deve ser analisado a partir de modelos que considerem o desequilíbrio entre demandas e controle, bem como a ausência de suporte social. Em profissões de alta exigência emocional, como a atividade policial, esses fatores assumem maior relevância, uma vez que o trabalhador lida com riscos constantes e decisões que envolvem vidas humanas.

No contexto policial, o estresse ocupacional está associado a manifestações como irritabilidade, fadiga crônica, ansiedade, distúrbios do sono e dificuldades de concentração, impactando diretamente a qualidade do serviço prestado à sociedade (Minayo; Assis, 2014). Dessa forma, a análise dos fatores estressores presentes na atividade operacional constitui um eixo central para a compreensão do problema investigado.

3. Atividade operacional policial como fator estressor

A atividade operacional do policial militar envolve o enfrentamento direto da criminalidade, a mediação de conflitos, o contato com a violência e a exposição recorrente a eventos potencialmente traumáticos. Essas experiências exigem alto nível de vigilância, controle emocional e prontidão permanente, configurando um ambiente propício ao desgaste psíquico (Lima; Bueno, 2020).

Minayo e Assis (2014) ressaltam que a exposição contínua à violência, aliada à ausência de espaços institucionais de escuta e elaboração do sofrimento, contribui para a naturalização do adoecimento mental entre policiais. A cultura organizacional, frequentemente marcada pela valorização da resistência emocional e pela negação da fragilidade, dificulta o reconhecimento do sofrimento e a busca por apoio psicológico.

No âmbito da Polícia Militar do Paraná, a atividade operacional apresenta especificidades relacionadas à dinâmica urbana, às demandas sociais e à organização interna da corporação. Embora existam protocolos e diretrizes voltados à atuação operacional, a literatura indica que os impactos subjetivos dessas atividades ainda são pouco considerados nas políticas institucionais de gestão de pessoal (Paraná, 2021).

4. Jornada de trabalho e seus efeitos sobre a saúde mental

A jornada de trabalho constitui um dos principais determinantes do estresse ocupacional e do adoecimento psíquico. No trabalho policial militar, as escalas extensas, o trabalho noturno, os plantões sucessivos e os acionamentos emergenciais comprometem o descanso adequado e interferem nos ritmos biológicos, afetando o equilíbrio físico e emocional do trabalhador (Mendes; Araújo, 2018).

Pesquisas indicam que jornadas prolongadas e irregulares estão associadas ao aumento da fadiga, da irritabilidade e dos transtornos do sono, fatores que potencializam o estresse e reduzem a capacidade de enfrentamento das demandas emocionais do trabalho (Souza; Minayo, 2021). Além disso, a dificuldade de conciliação entre vida profissional e pessoal fragiliza as redes de apoio social, essenciais para a preservação da saúde mental.

Nesse sentido, analisar a relação entre jornada de trabalho e estresse ocupacional na PMPR permite compreender como a organização do tempo de trabalho contribui para o adoecimento psíquico, evidenciando a necessidade de revisão de práticas institucionais que priorizam a produtividade em detrimento do bem-estar do efetivo.

5. Estratégias institucionais de promoção e prevenção em saúde mental

A literatura aponta que estratégias institucionais de promoção e prevenção em saúde mental são fundamentais para reduzir os impactos do estresse ocupacional em profissionais da segurança pública. Essas estratégias incluem programas de acompanhamento psicológico contínuo, ações de prevenção ao suicídio, espaços de escuta qualificada e políticas de gestão da jornada de trabalho (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2022).

No contexto policial, tais ações devem considerar as especificidades da cultura organizacional militar, buscando romper com o estigma associado ao sofrimento psíquico. Silva e Vasconcelos (2019) destacam que políticas eficazes de saúde mental dependem do engajamento institucional e da legitimação do cuidado como parte integrante da atividade profissional.

As diretrizes institucionais da PMPR representam um avanço no reconhecimento da importância da saúde mental, porém a literatura indica a necessidade de ampliar essas ações, integrando-as à gestão do trabalho operacional e da jornada. Assim, refletir sobre estratégias preventivas contribui para a construção de práticas mais humanizadas e sustentáveis no âmbito da segurança pública.

6. Sustentação do problema e necessidade de aprofundamento

Embora existam estudos relevantes sobre saúde mental e trabalho policial, ainda se observa uma lacuna quanto à análise integrada da atividade operacional e da jornada de trabalho como fatores estruturais do estresse ocupacional, especialmente em corporações estaduais. Muitos estudos limitam-se a diagnósticos descritivos, sem aprofundar as dimensões organizacionais que produzem o sofrimento psíquico (Minayo; Assis, 2014).

Dessa forma, a presente pesquisa encontra sustentação na literatura ao evidenciar que o problema investigado permanece atual e demanda abordagens mais aprofundadas, capazes de subsidiar políticas institucionais eficazes. Ao articular diferentes referenciais teóricos, o estudo busca contribuir para o avanço do conhecimento científico e para a melhoria das condições de trabalho e saúde mental dos policiais militares da PMPR.

3 METODOLOGIA 

A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentado em análise bibliográfica, cujo objetivo é compreender os impactos da atividade operacional e da jornada de trabalho na saúde mental e no estresse ocupacional dos policiais militares, com ênfase na Polícia Militar do Paraná.

A opção pela pesquisa bibliográfica justifica-se pela necessidade de identificar, sistematizar e analisar criticamente o conhecimento científico já produzido sobre o tema, permitindo a construção de um quadro teórico consistente que sustente a problematização proposta e evidencie lacunas ainda existentes na literatura. De acordo com Gil (2019), esse tipo de pesquisa possibilita ao pesquisador aprofundar-se em conceitos, teorias e resultados de estudos anteriores, contribuindo para a compreensão ampliada do fenômeno investigado.

Quanto aos procedimentos técnicos, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, realizada a partir de materiais já publicados, tais como livros, artigos científicos, dissertações, teses e documentos institucionais oficiais. Foram priorizadas produções acadêmicas indexadas, nacionais e internacionais, reconhecidas pela relevância científica e aderência ao tema da saúde mental, estresse ocupacional e trabalho policial.

No que se refere à abordagem do problema, a pesquisa assume uma perspectiva qualitativa, uma vez que busca interpretar e analisar significados, concepções teóricas e relações estabelecidas entre trabalho, jornada e sofrimento psíquico, não se restringindo à quantificação de dados (Minayo, 2014).

O universo da pesquisa é constituído pelo conjunto de produções científicas e documentos institucionais que abordam a saúde mental, o estresse ocupacional e as condições de trabalho de policiais militares, com especial atenção aos estudos que tratam da atividade operacional e da organização da jornada de trabalho no contexto da segurança pública.

Embora não haja população empírica diretamente investigada, o universo teórico analisado representa o campo científico que sustenta o problema de pesquisa, possibilitando a compreensão das múltiplas dimensões envolvidas no adoecimento psíquico desses profissionais.

A amostragem da pesquisa foi intencional e criteriosa, selecionada a partir de critérios de relevância, atualidade e pertinência temática. Foram incluídas obras clássicas e contemporâneas que discutem a psicodinâmica do trabalho, o estresse ocupacional e a saúde mental no contexto policial, bem como artigos científicos publicados preferencialmente nos últimos dez anos, visando contemplar o estado da arte sobre o tema.

Foram excluídas fontes não indexadas, materiais opinativos, reportagens jornalísticas e publicações sem respaldo científico, em consonância com as orientações metodológicas para pesquisas acadêmicas.

A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento bibliográfico sistemático, utilizando bases de dados científicas reconhecidas, tais como SciELO, Portal de Periódicos CAPES, Google Scholar e bibliotecas digitais de universidades. Também foram consultados documentos institucionais oficiais relacionados à saúde do policial militar.

Os descritores utilizados incluíram, entre outros: saúde mental, estresse ocupacional, trabalho policial, atividade operacional, jornada de trabalho e polícia militar. A seleção das obras ocorreu após leitura exploratória dos títulos e resumos, seguida de leitura analítica e interpretativa do material selecionado.

A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo de caráter temático, conforme proposta de Bardin (2016), permitindo a identificação de categorias analíticas relacionadas aos objetivos da pesquisa. As etapas da análise compreenderam: a) pré-análise, com organização e leitura flutuante do material; b) exploração do conteúdo, com categorização dos dados; e c) interpretação dos resultados, articulando os achados com o referencial teórico adotado.

Os dados foram organizados e tabulados descritivamente, respeitando a coerência entre os eixos teóricos e os objetivos propostos, possibilitando a análise crítica das contribuições e limitações da literatura existente.

Por tratar-se de uma pesquisa exclusivamente bibliográfica, não houve envolvimento direto de seres humanos, dispensando-se, portanto, a submissão a comitê de ética em pesquisa. Ainda assim, foram rigorosamente respeitados os princípios éticos da pesquisa científica, com a devida citação das fontes consultadas, conforme as normas da ABNT, garantindo a integridade acadêmica do estudo.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

 A análise dos estudos selecionados evidencia consenso na literatura quanto à elevada vulnerabilidade dos policiais militares ao adoecimento psíquico. Pesquisas nacionais e internacionais indicam índices superiores de estresse, ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao trauma quando comparados a outras categorias profissionais (Minayo; Assis, 2014; Ganster; Rosen, 2013).

Os dados apresentados nesses estudos apontam que a saúde mental dos policiais militares é diretamente impactada pelas condições de trabalho, especialmente pela natureza da atividade operacional e pela organização institucional. Esse achado confirma a compreensão teórica de que o sofrimento psíquico no trabalho não decorre de fragilidades individuais, mas da forma como o trabalho é estruturado e gerido (Dejours, 2017).

Nesse sentido, os resultados da literatura reforçam a pertinência do problema de pesquisa, ao evidenciar que o estresse ocupacional no trabalho policial constitui um fenômeno recorrente, multifatorial e socialmente produzido.

De acordo com Mendes (2007), a Psicodinâmica do Trabalho parte de um conceito histórico do homem como corpo físico, subjetivo e pensante que se esforça para resistir à dominação. Para compreender os processos de subjetivação dos sujeitos trabalhadores, são fundamentais a centralidade e a materialidade do trabalho; neste sentido, a Psicopatologia do Trabalho desenvolveu-se, desde o início, em um duplo diálogo: de um lado, as ciências da saúde e de outro as ciências do trabalho (Dejours, 1993 apud Lancmann 1999; 2004).

 A teoria psicodinâmica tem influências da psicanálise, sociologia e ergonomia. Na sociologia, estuda o impacto das diferentes formas de organização do trabalho na subjetividade do indivíduo; da ergonomia, herdou a distinção entre trabalho prescrito e trabalho real, e suas repercussões para o psiquismo; com relação à psicanálise, a teoria dejouriana inspira-se na noção de sofrimento e angústia.

Para Dejours (2012), trabalhar é preencher o vazio, sempre existente, entre o trabalho prescrito e o trabalho real, percorrendo um caminho que precisa ser criado e inventado pelo sujeito trabalhador. O trabalho é criação do novo, exige a disponibilidade da iniciativa, da inventividade, da engenhosidade, através da mobilização da inteligência prática.

Dito isto, é importante apresentar que a organização do trabalho também se diferencia entre organização prescrita e real. A organização prescrita diz respeito às regras e normas para realização do trabalho, e geralmente não busca atender às necessidades dos trabalhadores. Enquanto a organização real se refere às situações reais, concretas, de trabalho. Estas dicotomias levam a uma situação que, se levada ao limite, pode impossibilitar a execução do trabalho, e cuja resolução depende de uma atividade de interpretação das normas, conforme afirma Dejours (2004, p. 63): ‘’Após numerosas pesquisas de campo, constatou-se que, além da contradição entre a organização do trabalho prescrita e a organização do trabalho real, a organização do trabalho em si é completa de contradições. ’’

Entende-se que a experiência com o real do trabalho leva o sujeito a uma experiência de fracasso, gerando sentimento de impotência, raiva, angústia; e conforme Dejours, uma experiência afetiva (Dejours, 2012). Nesse sentido, tem-se também que: “trabalhar não é somente produzir, mas ainda transformar-se a si próprio e, no melhor dos casos, é uma ocasião oferecida à subjetividade de provar-se a si mesma, de realizar-se” (Dejours, 2012, p. 34).

Ainda segundo Dejours (2011), para dar conta do hiato entre o trabalho prescrito e o trabalho real, o trabalhador recorre à sua inteligência prática, um saber que não pode ser ensinado pelos especialistas, pois essa inteligência é produzida no exercício do trabalho; nesse sentido, é o trabalho que produz a inteligência e não o contrário. O sofrimento advém justamente ao se bloquear a possibilidade do exercício da inteligência criadora ou quando não são reconhecidos os esforços dos trabalhadores na construção e exercício dessa inteligência. Ao contrário, sua utilização e reconhecimento levam ao prazer no trabalho.

Sendo a Psicodinâmica do Trabalho (PDT) uma abordagem científica, apresentaremos seu histórico e as teorias que a embasam e suas reflexões ao longo deste capítulo, observando teóricos com relação entre saúde mental e trabalho pelo viés da psicodinâmica do trabalho, por meio de uma revisão bibliográfica sobre os estudos dejourianos; sua articulação entre as diferentes formas de organização do trabalho e as vivências de prazer e sofrimento decorrentes desses eixos.

 Christophe Dejours, médico do trabalho, psiquiatra e psicanalista francês, provavelmente é um dos pesquisadores contemporâneos que mais conversa com a psicologia e sociologia do trabalho nas sociedades ocidentais atuais.  Segundo Dejours (2008), a Psicodinâmica do Trabalho teve suas origens nos anos 1950-1960, com uma abordagem inicial denominada Psicopatologia do Trabalho. Naquele período, o foco era identificar doenças mentais específicas relacionadas às profissões ou aos contextos laborais.  

A Psicodinâmica do Trabalho (PDT) se define como uma ciência que busca compreender as conexões entre a organização do trabalho e o sofrimento psíquico (Dejours, 1992, p. 10). Nesse campo, o sofrimento no ambiente de trabalho torna-se o principal objeto de estudo, com ênfase na investigação da normalidade, ao invés de patologias. Dejours (2008, p. 54) descreve essa normalidade como um resultado das dinâmicas humanas em que as relações intersubjetivas desempenham um papel crucial na construção de estratégias, sejam elas defensivas ou ofensivas, para enfrentar o sofrimento.

Foi durante os anos 1970, na França, que a Psicodinâmica do Trabalho consolidou-se como disciplina, quando Dejours iniciou novas pesquisas sobre a relação entre as condições laborais e o sofrimento psíquico. De acordo com ele (Dejours, 2008), a Psicopatologia do Trabalho era voltada às ciências da saúde, mais especificamente à medicina do trabalho, com o objetivo de prevenir, diagnosticar ou tratar doenças originadas pelo ambiente profissional.Conforme Franco (2004):

 “A psicodinâmica do trabalho, que tem indicações nos campos psicológicos e sociológicos (…), inicialmente denominada psicopatologia do trabalho, tem por objeto o estudo clínico e teórico da patologia mental decorrente do trabalho. Fundada no final da II Guerra por um grupo de médicos−pesquisadores liderados por Le Guillant, ela ganhou há uns 15 anos um novo impulso que a levou recentemente a adotar a denominação de ‘análise psicodinâmica das situações de trabalho’ ou simplesmente psicodinâmica do trabalho. Nessa evolução da disciplina, a questão do sofrimento passou a ocupar uma posição central. O trabalho tem efeitos poderosos sobre o sofrimento psíquico. Ou bem contribui para agravá−lo, levando progressivamente o indivíduo à loucura, ou bem contribui para transformá−lo ou mesmo subvertê−lo, em prazer, a tal ponto que, em certas circunstâncias, o indivíduo que trabalha preserva melhor a sua saúde do que aquele que não trabalha. Por que o trabalho ora é patogênico, ora é estruturante? O resultado jamais é dado de antemão. Depende de uma dinâmica complexa cujas principais etapas são identificadas e analisadas pela psicodinâmica.”

A PDT descentraliza as investigações na direção das doenças mentais e estuda as estratégias defensivas inconscientes elaboradas diante das situações de trabalho ansiogênicas (Rodrigues; Álvaro; Rondina, 2006, apud Rezende, 2021).

Ao organizar os dados provenientes da literatura, observa-se que a atividade operacional é apontada recorrentemente como um dos principais fatores associados ao estresse ocupacional. Estudos indicam que a exposição contínua à violência, a situações de risco iminente e a eventos potencialmente traumáticos gera desgaste emocional progressivo, especialmente quando não há acompanhamento psicológico sistemático (Minayo; Assis, 2014).

Os achados demonstram que o trabalho operacional exige do policial militar um estado permanente de alerta, controle emocional e prontidão, dificultando a elaboração psíquica das experiências vividas. Conforme Dejours (2017), quando o trabalhador não dispõe de espaços institucionais para transformar o sofrimento em experiência compartilhada e reconhecida, este tende a se acumular e manifestar-se como adoecimento.

No contexto da Polícia Militar do Paraná, os estudos analisados sugerem que a intensidade das demandas operacionais, aliada à pressão por resultados e à responsabilização individual do policial, amplia os níveis de estresse ocupacional, especialmente entre aqueles que atuam diretamente no policiamento ostensivo.

Quando Dejours amplia seu objeto de estudo da psicopatologia do trabalho, seu foco passa a ser o sofrimento no trabalho. O sofrimento é inerente ao trabalho, pois, quando o real se revela para o sujeito, este se depara com os imprevistos. Desta forma, é fundamental conhecer a organização do trabalho em sua dinâmica concreta para compreender as vivências de sofrimento e prazer no trabalho.

Outro eixo recorrente nos estudos analisados refere-se à jornada de trabalho como elemento central na intensificação do estresse ocupacional. A literatura aponta que escalas extensas, trabalho noturno, plantões consecutivos e acionamentos fora do horário regular comprometem o descanso adequado e interferem nos ritmos biológicos dos policiais militares (Mendes; Araújo, 2018).

Os dados apresentados por Souza e Minayo (2021) indicam que jornadas irregulares estão associadas ao aumento da fadiga crônica, irritabilidade e distúrbios do sono, fatores que potencializam o sofrimento psíquico e reduzem a capacidade de enfrentamento das demandas emocionais do trabalho. Esses achados corroboram estudos internacionais que relacionam carga horária excessiva a principais índices de adoecimento mental em profissionais da segurança pública (Ganster; Rosen, 2013).

A análise comparativa desses estudos permite afirmar que a jornada de trabalho não atua isoladamente, mas em articulação com a atividade operacional, ampliando os efeitos do estresse ocupacional e dificultando a recuperação física e emocional do policial.

Diz-se que a flexibilização do trabalho surge como uma exigência imposta pelo novo sistema econômico e apresenta novos desafios em matéria de subjetividade. Geralmente, eles veem a flexibilidade como uma coisa boa e argumentam que não se deve mais tentar controlar ou silenciar a subjetividade como era o objetivo taylorista. Hoje, criatividade, iniciativa, sensibilidade, maturidade pessoal, habilidades interpessoais, liderança, devem ser pesquisadas, compreendidas e desenvolvidas.

Entende-se que o autor defende que, a partir desse momento, é que não se deve confundir estado de normalidade com estado saudável. Se, de um lado, a normalidade pode refletir equilíbrio saudável entre as pessoas, pode, de outro, mascarar   um   precário   equilíbrio entre   as   forças desestabilizadoras dos sujeitos e o esforço destes e dos grupos no sentido de se manterem produtivos e atuantes à custa de muito sofrimento, que se estenderá também em sua vida fora do trabalho. Esse sofrimento não se manifesta porque os sujeitos buscam ativamente se proteger e defender. A patologia surge quando se rompe o equilíbrio e o sofrimento não é mais contornável. Em outros termos, quando um certo trabalhador utilizou todos os seus recursos intelectuais e psicoafetivos para dar conta das atividades e demandas impostas pela organização e percebe que nada pode fazer para se adaptar e/ou transformar o trabalho.

Entre outras razões, estes podem experimentar uma sensação de aumento na carga de trabalho, ter dificuldade de interação com os colegas distantes e, até mesmo, desenvolver uma percepção mais negativa de justiça (Barros; Silva, 2010).

Para Rezende (2021), o reconhecimento está além das realizações do trabalho, ele está ligado à constituição da identidade profissional e da subjetividade do sujeito. É a partir do olhar do outro que nos constituímos enquanto sujeito. São as relações do cotidiano que permitem a construção da identidade social e individual, por meio de trocas materiais e afetivas, fazendo com que o indivíduo, durante a sua vida, constitua sua singularidade em meio às diferenças (Lancman, 2008).

Rezende (2021) ainda aponta que o desejo de reconhecimento, por parte do indivíduo, é um elemento fundamental na relação com o outro. Cada um quer ser reconhecido como único, pelo que tem ou aparenta ter, pelo que é ou aparenta ser. 

Para Dejours, a questão do reconhecimento é sobre o saber fazer, pois o trabalho somente é reconhecido pela qualidade do seu feito (como processo e como resultado), e é assim que ele terá, em resumo, a retribuição simbólica proporcionada pelo reconhecimento, podendo atingir o que ele almeja com relação às expectativas subjetivas e à realização de si mesmo (Dejours, 2008).

Para Amaral (2018), a sobrecarga vem pela busca do reconhecimento, pois alguns não respeitam seus limites, ou limites de sua doença, para provarem ou mostrarem seu valor. Para a autora, ainda é necessário observar que, nessa dimensão, é necessário pontuar que o trabalhador, ao oferecer sua contribuição à organização, com todos os riscos e renúncias necessárias, espera uma retribuição – simbólica ou moral -, que acontece por meio do reconhecimento do outro. Esse reconhecimento não diz respeito à pessoa, mas ao seu trabalho, ou seja, é focado no fazer. Somente em um segundo momento o sujeito pode, eventualmente, levar esse julgamento do registro do fazer para o registro do ser, no sentido de sua realização. Assim, por meio do reconhecimento, o sofrimento no trabalho pode ser transformado em prazer, ao imprimir um sentido subjetivo ao trabalho (Dejours, 2012).

Dejours (2007) ressalta: “sem o reconhecimento, não pode haver nem prazer, nem reapropriação em relação à alienação. Sem reconhecimento, só há sofrimento patogênico e estratégias defensivas. Sem reconhecimento, haverá inevitavelmente desmobilização”. (Dejours, 2011, p. 307)

Desse modo, para o sujeito sentir que seu trabalho foi validado, é necessária a sensação do reconhecimento pelos outros, e assim o sofrimento é transformado em prazer. Se não houver esse reconhecimento, é como se todo sofrimento fosse em vão, levando a uma desestabilidade, acentuando o grau da patologia, por vezes, já existente. 

“Para a Psicodinâmica do Trabalho, a identidade é a ‘armadura da saúde mental’, ela não está jamais definitivamente estabilizada e permanece incerta, incompleta” (Gernet & Dejours, 2011, p. 66). 

Amaral (2018) afirma que, sendo assim, os sujeitos necessitam constantemente da confirmação do olhar do outro. E é em função do reconhecimento que o trabalho se torna para o sujeito uma possibilidade de se transformar, mais do que o produzir bens ou serviços. A possibilidade de prazer pelo trabalho se dá a partir do ganho obtido no registro da construção da identidade e da realização de si mesmo, ou seja, não é somente a atividade em si que produz identidade, mas o reconhecimento conferido pelo olhar do outro (Dejours, 2011).

Os resultados da literatura também evidenciam que a cultura organizacional militar exerce papel central na forma como o sofrimento psíquico é percebido e tratado. Estudos apontam que valores como disciplina rígida, resistência emocional e controle dos afetos contribuem para o silenciamento do adoecimento mental e para a dificuldade de busca por ajuda psicológica (Silva; Vasconcelos, 2019).

Essa lógica institucional reforça a naturalização do sofrimento e a responsabilização individual do policial, invisibilizando os fatores organizacionais que produzem o estresse. Conforme Dejours (2017), esse processo contribui para a manutenção do sofrimento patogênico, uma vez que impede a construção de estratégias coletivas de enfrentamento.

A comparação entre diferentes estudos revela que instituições investidoras em espaços de escuta, acompanhamento contínuo e revisão das condições de trabalho apresentam melhores indicadores de saúde mental, reforçando a importância de políticas institucionais estruturadas.

A discussão dos dados aponta que, embora existam iniciativas institucionais voltadas à saúde mental dos policiais militares, estas ainda se mostram insuficientes frente à complexidade do problema. A Organização Mundial da Saúde (2022) destaca que ações pontuais ou exclusivamente reativas não conseguem reduzir significativamente o estresse ocupacional.

Os estudos analisados indicam que estratégias eficazes devem integrar promoção, prevenção e intervenção, articulando acompanhamento psicológico, gestão adequada da jornada de trabalho e mudanças na organização do trabalho operacional. No entanto, a literatura evidencia um descompasso entre o reconhecimento formal da importância da saúde mental e a efetiva incorporação desse cuidado à gestão institucional (Silva; Vasconcelos, 2019).

Dessa forma, os resultados discutidos reforçam a necessidade de revisão das práticas institucionais, apontando que a promoção da saúde mental no trabalho policial exige mudanças estruturais e não somente ações individuais de enfrentamento do estresse.

A organização dos dados da literatura permite afirmar que o estresse ocupacional e o adoecimento psíquico dos policiais militares resultam da interação entre atividade operacional intensa, jornadas de trabalho extenuantes e uma cultura organizacional que tende a invisibilizar o sofrimento. A comparação entre os achados evidencia que o problema investigado permanece atual e carece de abordagens mais integradas e humanizadas.

Assim, a discussão apresentada fornece subsídios consistentes para a compreensão do fenômeno estudado, sustentando as conclusões do artigo e reforçando a relevância social e científica da pesquisa.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar os impactos da atividade operacional e da jornada de trabalho na saúde mental e no estresse ocupacional dos policiais militares, com ênfase na Polícia Militar do Paraná, a partir de uma pesquisa de natureza qualitativa e bibliográfica. A análise da literatura permitiu compreender que o sofrimento psíquico no trabalho policial não se constitui como um fenômeno isolado ou decorrente de fragilidades individuais, mas como resultado de condições estruturais e organizacionais que caracterizam a atividade policial militar.

Os resultados evidenciados na revisão de literatura indicam que a atividade operacional se configura como um dos principais fatores estressores, em razão da exposição constante à violência, ao risco iminente e a situações potencialmente traumáticas. Essas experiências, quando vivenciadas de forma contínua e sem espaços institucionais adequados de elaboração psíquica, contribuem para o desenvolvimento de estresse ocupacional crônico e outros quadros de adoecimento mental, conforme amplamente discutido pela literatura especializada.

No que se refere à jornada de trabalho, os estudos analisados apontam que escalas extensas, trabalho noturno, plantões sucessivos e acionamentos emergenciais comprometem o descanso e interferem nos ritmos biológicos dos policiais militares, potencializando o desgaste físico e emocional. A dificuldade de conciliação entre vida profissional e pessoal, associada à imprevisibilidade da rotina operacional, fragiliza as redes de apoio social e reduz as possibilidades de enfrentamento do estresse ocupacional.

Outro aspecto relevante evidenciado na discussão diz respeito à cultura organizacional militar, que tende a valorizar o autocontrole emocional, a resistência psicológica e a negação da fragilidade. Tal lógica contribui para a invisibilização do sofrimento psíquico e para o estigma associado à busca por apoio psicológico, dificultando intervenções precoces e eficazes. A literatura analisada demonstra que, embora existam diretrizes institucionais voltadas à saúde mental, ainda há um descompasso entre o reconhecimento formal do problema e a efetiva incorporação do cuidado à gestão do trabalho policial.

Dessa forma, o estudo contribui para o campo científico ao reafirmar a necessidade de compreender o estresse ocupacional no trabalho policial a partir de uma perspectiva crítica e estrutural, que considere a organização do trabalho, a jornada laboral e a cultura institucional como elementos centrais na produção do sofrimento psíquico. Do ponto de vista social e institucional, os achados reforçam a importância de políticas integradas de promoção e prevenção em saúde mental, que ultrapassem ações pontuais e individuais, incorporando estratégias contínuas de acompanhamento psicológico, revisão das jornadas e humanização das práticas de gestão.

Como limitações da pesquisa, destaca-se o fato de tratar-se de um estudo exclusivamente bibliográfico, impossibilitando a análise empírica direta das vivências dos policiais militares. Contudo, essa limitação não compromete a relevância do estudo, uma vez que a literatura analisada oferece subsídios consistentes para a compreensão do fenômeno investigado e para a identificação de lacunas que demandam aprofundamento.

Nesse sentido, recomenda-se que pesquisas futuras avancem para estudos empíricos, incluindo entrevistas, questionários ou análises documentais, a fim de aprofundar a compreensão das experiências subjetivas dos policiais militares e avaliar a efetividade das políticas institucionais de saúde mental. Tais investigações podem contribuir significativamente para a construção de práticas mais humanizadas e sustentáveis no âmbito da segurança pública.

Conclui-se, portanto, que a promoção da saúde mental dos policiais militares constitui um desafio contemporâneo de grande relevância social, cuja superação exige o reconhecimento do sofrimento psíquico como uma questão institucional e coletiva, indissociável das condições de trabalho e da organização da atividade policial.

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1Licenciado em Letras pela Faculdade Anhanguera de Ponta Porã-MS. Pós-graduado “Lato Sensu” em Segurança Pública e Análise Criminal pela Faculdade UNINA-PR. E-mail: leandro@hotmail.com

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