MENTAL HEALTH PROMOTION IN PRIMARY CARE: A REPORT OF A THERAPEUTIC GROUP FOR ANXIETY AMONG ADULTS IN THE INTERIOR OF THE AMAZON REGION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma102026020818
Nínive Colonese Michelis1
Fernando Henrique Silva Andrade2
Analine Ferreira do Amaral3
RESUMO: Os transtornos de ansiedade figuram entre as principais demandas em saúde mental na Atenção Primária à Saúde (APS), exigindo estratégias de cuidado que ultrapassem o modelo biomédico e individualizado. O presente artigo tem como objetivo relatar a experiência de implantação e condução de grupos terapêuticos para adultos com sintomas de ansiedade, desenvolvidos em uma Unidade Básica de Saúde do município de Espigão do Oeste, Rondônia. Trata-se de um relato de experiência, de natureza qualitativa e descritiva, fundamentado na Terapia Cognitivo-Comportamental. Ao longo do projeto, foram realizados três grupos terapêuticos em meses distintos, com participantes diferentes, sendo cada grupo estruturado em dez encontros semanais, com duração média de uma hora e meia. Em média, cada grupo contou com cinco participantes, com idades entre 28 e 50 anos. As intervenções envolveram psicoeducação sobre ansiedade, identificação de pensamentos automáticos, técnicas de autorregulação emocional, respiração e relaxamento, além de espaços de compartilhamento de vivências. Para cada grupo, foi realizado previamente um processo de seleção criteriosa dos participantes, a fim de garantir coerência entre o perfil clínico e o objetivo do grupo, sendo incluídos apenas usuários com demandas predominantemente relacionadas à ansiedade. Os resultados observados indicaram redução de sintomas ansiosos, fortalecimento da autonomia emocional, ampliação de habilidades sociais e impacto positivo na organização do fluxo de atendimentos psicológicos da unidade. Conclui-se que os grupos terapêuticos constituem estratégia viável, ética e eficaz para a promoção da saúde mental na APS, ampliando o acesso ao cuidado psicológico e fortalecendo práticas coletivas alinhadas aos princípios do Sistema Único de Saúde.
Palavras-Chave: Saúde mental; Atenção Primária à Saúde; Ansiedade; Grupo terapêutico; Terapia Cognitivo-Comportamental.
ABSTRACT: Anxiety disorders are among the main demands in mental health care within Primary Health Care (PHC), requiring care strategies that go beyond the biomedical and individualized model. This article aims to report the experience of implementing and conducting therapeutic groups for adults with anxiety symptoms, developed in a Primary Health Care Unit in the municipality of Espigão do Oeste, Rondônia. This is a qualitative and descriptive experience report, grounded in Cognitive Behavioral Therapy. Throughout the project, three therapeutic groups were conducted in different months, with different participants, each group structured into ten weekly meetings with an average duration of one and a half hours. On average, each group included five participants, aged between 28 and 38 years. The interventions involved psychoeducation about anxiety, identification of automatic thoughts, emotional self-regulation techniques, breathing and relaxation exercises, as well as spaces for sharing experiences. For each group, a prior and careful participant selection process was carried out in order to ensure coherence between the clinical profile and the group’s objective, including only users with demands predominantly related to anxiety. The observed results indicated a reduction in anxiety symptoms, strengthening of emotional autonomy, expansion of social skills, and a positive impact on the organization of psychological care flows within the health unit. It is concluded that therapeutic groups constitute a viable, ethical, and effective strategy for mental health promotion in PHC, expanding access to psychological care and strengthening collective practices aligned with the principles of the Brazilian Unified Health System.
Keywords: Mental health; Primary Health Care; Anxiety; Therapeutic group; Cognitive Behavioral Therapy.
INTRODUÇÃO
Os transtornos de ansiedade estão entre os principais problemas de saúde mental no Brasil, impactando de forma significativa a qualidade de vida, o funcionamento social e o bem-estar dos indivíduos. Dados nacionais e internacionais indicam elevada prevalência desses transtornos, refletindo-se diretamente na rotina dos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS), porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS).
No contexto da Estratégia de Saúde da Família, a demanda por atendimentos psicológicos relacionados à ansiedade é recorrente, sobretudo em municípios do interior, onde os recursos especializados são escassos. Tradicionalmente, o cuidado em saúde mental nesses territórios tem se concentrado em atendimentos individuais, o que contribui para a sobrecarga dos serviços, longas filas de espera e dificuldades de acesso ao cuidado continuado.
Diante desse cenário, os grupos terapêuticos emergem como dispositivos potentes para a promoção da saúde mental, ao possibilitarem intervenções coletivas, trocas de experiências e ampliação do acesso ao cuidado psicológico. A literatura aponta que grupos fundamentados na Terapia Cognitivo-Comportamental apresentam bons resultados no manejo da ansiedade, especialmente quando adaptados ao contexto da Atenção Primária à Saúde.
Assim, o presente artigo propõe-se a relatar a experiência de implantação e condução de grupos terapêuticos para adultos com sintomas de ansiedade na APS de um município do interior da Amazônia Legal, destacando a metodologia adotada, os resultados percebidos e as contribuições dessa prática para o cuidado em saúde mental no SUS.
MÉTODO / DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido no contexto da Atenção Primária à Saúde do município de Espigão do Oeste, Rondônia. A experiência foi conduzida por psicólogos residentes da Residência Multiprofissional em Saúde da Família.
Ao longo do projeto, foram realizados três grupos terapêuticos distintos, implementados em meses diferentes, com participantes diferentes em cada edição. Cada grupo foi estruturado em dez encontros semanais, com duração média de uma hora e meia. Embora cada grupo tenha iniciado com cerca de dez participantes, observou-se, ao longo dos encontros, uma redução gradual no número de integrantes, fenômeno esperado em intervenções grupais, com encerramento dos grupos variando entre seis e nove participantes.
Participantes e critérios de seleção
Cada grupo iniciou com aproximadamente dez participantes adultos, de ambos os sexos, encaminhados pela equipe de saúde mental ou por outros profissionais da Unidade Básica de Saúde. As idades variaram de forma heterogênea, abrangendo adultos em diferentes fases da vida, com participantes entre 28 a 50 anos. Para cada grupo, foi realizada previamente uma seleção criteriosa dos participantes, com avaliação clínica do perfil e das demandas apresentadas, a fim de assegurar coerência entre o objetivo do grupo e as necessidades dos usuários.
Foram incluídos usuários adultos com queixas predominantemente relacionadas à ansiedade, com ou sem diagnóstico formal, que demonstrassem disponibilidade para participação em grupo fechado e concordância com as regras de sigilo e utilização dos dados de forma anonimizada para fins científicos. Foram excluídos usuários com sofrimento psíquico intenso incompatível com a intervenção grupal naquele momento, como quadros psicóticos agudos ou ideação suicida ativa, bem como aqueles que não compareceram ao número mínimo de encontros estabelecido para análise da experiência.
Procedimentos e intervenções
Os encontros foram previamente planejados, com definição de objetivos, conteúdos e técnicas, mantendo-se flexibilidade para acolher demandas emergentes do grupo. A estrutura básica de cada encontro contemplou acolhimento inicial, desenvolvimento do tema proposto, espaço de compartilhamento e fechamento.
As intervenções fundamentaram-se nos pressupostos da Terapia Cognitivo-Comportamental, incluindo psicoeducação sobre ansiedade, identificação de pensamentos automáticos, desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, técnicas de respiração, relaxamento e autorregulação emocional. Foram utilizados registros em diário de campo clínico e observações sistemáticas sobre a participação e evolução dos usuários.
Aspectos éticos
Por se tratar de relato de experiência, sem identificação dos participantes e sem intervenção experimental, o estudo dispensou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução CNS nº 510/2016. Todos os participantes foram informados sobre os objetivos do grupo, assinaram Termo de Confidencialidade e tiveram garantido o sigilo profissional, a autonomia e a proteção de sua identidade ao longo de todo o processo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO.
Os resultados observados ao longo da condução dos três grupos terapêuticos indicaram efeitos positivos consistentes no manejo da ansiedade dos participantes. De modo geral, foi possível identificar redução de sintomas ansiosos, maior capacidade de autorregulação emocional e ampliação das habilidades sociais.
O contexto grupal favoreceu o compartilhamento de experiências e a validação emocional, permitindo que os participantes reconhecessem suas vivências no discurso do outro, reduzindo sentimentos de isolamento e fortalecendo vínculos interpessoais. Observou-se, ainda, o desenvolvimento progressivo de uma identidade grupal, na qual as demandas emergentes passaram a orientar parte das intervenções, reforçando o caráter dinâmico e relacional do grupo terapêutico.
No âmbito institucional, a realização dos grupos contribuiu para a reorganização do fluxo de atendimentos psicológicos da unidade, reduzindo a demanda exclusiva por atendimentos individuais e ampliando o acesso ao cuidado em saúde mental. A seleção criteriosa dos participantes mostrou-se elemento fundamental para a coesão grupal e para a efetividade das intervenções, evitando heterogeneidade excessiva de demandas que pudesse comprometer o processo terapêutico.
Esses achados dialogam com a literatura que reconhece os grupos terapêuticos como dispositivos eficazes na Atenção Primária à Saúde, especialmente quando articulados às diretrizes do SUS e às políticas públicas de saúde mental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência relatada evidencia que a condução de grupos terapêuticos para ansiedade na Atenção Primária à Saúde constitui estratégia viável, ética e eficaz para a promoção da saúde mental em territórios com recursos limitados. A realização de três grupos em períodos distintos permitiu ampliar o acesso ao cuidado psicológico, atender diferentes usuários e fortalecer práticas coletivas no território.
Os resultados apontam que o dispositivo grupal contribui não apenas para o manejo dos sintomas ansiosos, mas também para o fortalecimento da autonomia dos sujeitos, a ampliação dos vínculos sociais e a reorganização dos fluxos de cuidado na unidade de saúde. Ressalta-se, entretanto, a importância da continuidade dessas ações e da sustentação institucional para que os efeitos positivos se mantenham ao longo do tempo.
Conclui-se que os grupos terapêuticos devem ser compreendidos como práticas permanentes no cuidado em saúde mental na Atenção Primária, alinhadas aos princípios do Sistema Único de Saúde e às necessidades reais da população atendida.
REFERÊNCIAS
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) na atenção básica à saúde. Brasília: CFP, 2019.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Edição revisada. Brasília, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório global sobre transtornos de ansiedade. Genebra: OMS, 2023.
SANGIONI, L. A.; PATIAS, N. D.; PFITSCHER, M. A. Psicologia e o grupo operativo na atenção básica em saúde. Revista da SPAGESP, Ribeirão Preto, v. 21, n. 2, p. 23–40, 2020.
1Residência Multiprofissional em Saúde da Família – Residente
Espigão D’Oeste – Rondônia
http://lattes.cnpq.br/1265256982639918
2Residência Multiprofissional em Saúde da Família – Residente
Espigão D’Oeste – Rondônia
http://lattes.cnpq.br/8235013197383726
3Residência Multiprofissional em Saúde da Família – Tutora
Espigão D’Oeste – Rondônia
http://lattes.cnpq.br/6572056194645217
