ARTIFICIAL INTELLIGENCE IN PUBLIC SECURITY: IMPACTS AND CHALLENGES IN THE POLICE ACTIVITY OF THE PMPR
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602082228
Leandro do Nascimento1
Resumo
O presente artigo analisa a aplicação da inteligência artificial na atividade policial, com ênfase na Polícia Militar do Paraná (PMPR), considerando seu potencial como ferramenta de apoio à segurança pública contemporânea. O estudo tem como objetivo examinar as principais formas de utilização da inteligência artificial no contexto policial, bem como discutir suas contribuições, limitações e desafios no âmbito institucional da PMPR. Para alcançar tal finalidade, adota-se como metodologia a pesquisa bibliográfica, fundamentada na revisão de livros, artigos científicos, legislações, normas técnicas e publicações especializadas relacionadas à inteligência artificial, à atividade policial e à gestão da segurança pública. Os resultados da pesquisa evidenciam que a inteligência artificial pode contribuir significativamente para a otimização dos processos policiais, especialmente nas áreas de análise criminal, policiamento preditivo, gestão de dados, monitoramento inteligente e apoio à tomada de decisão. Verifica-se, contudo, que a implementação dessas tecnologias demanda cuidados relacionados à ética, à transparência algorítmica, à proteção de dados pessoais e ao respeito aos direitos e garantias fundamentais. Conclui-se que a inteligência artificial representa uma ferramenta estratégica para o aprimoramento da atividade policial da PMPR, desde que sua adoção ocorra de forma planejada, responsável e alinhada aos princípios legais e constitucionais. O estudo contribui para o aprofundamento teórico do tema e reforça a necessidade de pesquisas futuras que explorem a aplicação prática dessas tecnologias no contexto policial brasileiro.
Palavras-chave: Inteligência artificial. Segurança pública. Atividade policial. Polícia Militar do Paraná. Inovação tecnológica.
1 INTRODUÇÃO
O desenvolvimento acelerado das tecnologias digitais tem provocado mudanças estruturais na forma como instituições públicas planejam, executam e avaliam suas atividades. No campo da segurança pública, essas transformações tornam-se ainda mais relevantes diante do aumento da complexidade dos fenômenos criminais, da intensificação do fluxo de informações e da crescente demanda social por respostas mais eficazes, transparentes e fundamentadas em evidências. Nesse cenário, a inteligência artificial surge como uma das principais inovações tecnológicas, destacando-se pela capacidade de processar grandes volumes de dados, identificar padrões ocultos e apoiar a tomada de decisão em ambientes caracterizados por incerteza e dinamismo (Flores et al., 2021; OECD, 2025).
A literatura científica recente aponta que a aplicação da inteligência artificial na segurança pública tem se expandido significativamente em diversos países, especialmente no que se refere à análise criminal, ao policiamento preditivo, ao reconhecimento facial, ao monitoramento urbano inteligente e à gestão estratégica de recursos policiais (EUROPOL, 2024; Biondi; Cernev, 2023). Tais aplicações são frequentemente associadas à promessa de maior eficiência operacional, otimização do emprego do efetivo policial e aprimoramento da capacidade preventiva das instituições de segurança. Contudo, estudos também evidenciam que o uso dessas tecnologias não está isento de riscos, sobretudo no que diz respeito à reprodução de vieses algorítmicos, à opacidade dos sistemas automatizados, à proteção de dados pessoais e à observância dos direitos e garantias fundamentais (Kingston et al., 2021; Lima & Ferreira, 2022).
No contexto das organizações policiais, a incorporação da inteligência artificial representa não somente uma inovação tecnológica, mas também uma mudança paradigmática na forma de produzir conhecimento institucional e orientar a ação policial. A atividade policial, tradicionalmente baseada na experiência profissional, na análise humana e em estatísticas convencionais, é influenciada por sistemas automatizados de apoio à decisão, capazes de sugerir padrões de atuação e prioridades operacionais. Esse processo, embora apresente potencial significativo, levanta questionamentos relevantes acerca do grau de confiabilidade dessas ferramentas, de seus impactos na autonomia profissional do policial militar e de sua compatibilidade com os princípios que regem a atuação estatal (Araújo; Zullo; Torres, 2020).
No Brasil, o debate sobre o uso da inteligência artificial na segurança pública ainda se encontra em estágio de amadurecimento, especialmente no âmbito das polícias militares estaduais. A Polícia Militar do Paraná (PMPR), enquanto instituição responsável pelo policiamento ostensivo e pela preservação da ordem pública, tem buscado acompanhar as tendências de modernização tecnológica adotadas ao nível nacional e internacional. Entretanto, observa-se que a adoção de soluções baseadas em inteligência artificial ocorre, muitas vezes, fragmentadamente, carecendo de uma sistematização teórica que permita compreender suas reais potencialidades, limitações e implicações institucionais. Essa lacuna evidencia a necessidade de estudos que analisem criticamente o tema à luz da literatura científica existente.
Diante desse cenário, emerge como problema de pesquisa a seguinte indagação: de que maneira a literatura científica recente aborda a aplicação da inteligência artificial na atividade policial e quais são as principais contribuições, desafios, riscos e implicações desse uso para a atuação institucional da Polícia Militar do Paraná? A problematização proposta busca não apenas descrever o emprego dessas tecnologias, mas compreender criticamente seus efeitos sobre a prática policial, sua aplicabilidade social e sua consonância com os princípios legais, éticos e constitucionais que orientam a segurança pública. Tal abordagem reflete, ainda, a vivência do pesquisador no contexto institucional, conferindo maior relevância prática à investigação.
Nesse sentido, o presente artigo tem como objetivo analisar a aplicação da inteligência artificial na atividade policial, com ênfase na realidade da Polícia Militar do Paraná, a partir de uma pesquisa bibliográfica. A justificativa da pesquisa fundamenta-se na relevância teórica e prática do tema, uma vez que a sistematização do conhecimento científico existente pode contribuir para o aprimoramento das políticas institucionais, para o uso mais responsável das tecnologias emergentes e para a ampliação do debate acadêmico sobre inovação na segurança pública. Ao reunir e analisar estudos recentes e indexados, o trabalho pretende oferecer subsídios que auxiliem na compreensão crítica do papel da inteligência artificial na modernização da atividade policial, encerrando a introdução com a delimitação clara de seu objeto de estudo.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Inteligência Artificial e Segurança Pública
A inteligência artificial tem sido amplamente estudada como uma tecnologia capaz de transformar a atuação do setor público, especialmente no campo da segurança pública. De acordo com Berk (2021), sistemas baseados em inteligência artificial possibilitam a análise automatizada de grandes volumes de dados criminais, oferecendo suporte à tomada de decisão e à formulação de estratégias policiais mais orientadas por evidências. Esse avanço tecnológico insere-se em um contexto de crescente complexidade dos fenômenos criminais, que demandam respostas mais ágeis, integradas e eficazes por parte das instituições de segurança.
A eficácia da inteligência artificial (IA) na segurança pública está, essencialmente, vinculada à existência de uma infraestrutura de dados digitalizados e interoperáveis. Essa estrutura possibilita a integração de diferentes bases de dados e o uso de softwares baseados em conhecimento (OECD, 2025). Entretanto, as metodologias utilizadas para treinar sistemas de IA carecem frequentemente de explicações adequadas, e a escassez ou inadequação de dados pode comprometer a precisão dos modelos, introduzindo vieses que dificultam a realização de previsões e detecções confiáveis (Araujo; Zullo; Torres, 2020).
O aprendizado de máquina, como uma área específica da IA, fundamenta-se em algoritmos que evoluem com base nos dados fornecidos para realizar previsões ou tomar decisões. Ele tem se mostrado uma ferramenta revolucionária em setores como saúde, finanças e segurança pública (Bonaccorso, 2017). Contudo, essa abordagem também lida com desafios críticos, como vieses nos dados utilizados no treinamento e questões relacionadas à privacidade e à transparência dos algoritmos (Biondi; Cernev, 2023).
Entre as aplicações mais relevantes da IA, o reconhecimento facial se destaca por seu papel em atividades de monitoramento de segurança e identificação de indivíduos. Apesar disso, enfrenta restrições importantes relacionadas à diversidade populacional e às condições ambientais para sua efetiva leitura (Meijer; Wessels, 2019). Para que essas tecnologias sejam implementadas com sucesso, é indispensável uma infraestrutura tecnológica sólida aliada a processos rigorosos que validem a precisão e a viabilidade das soluções baseadas em IA. Isso é particularmente essencial no contexto da segurança pública, onde eventuais falhas podem gerar consequências significativas (Meijer; Wessels, 2019).
A literatura aponta que o uso da inteligência artificial na segurança pública está associado ao conceito de policiamento orientado por dados, no qual informações provenientes de diferentes fontes são processadas integradamente para identificar padrões, tendências e áreas de risco (EUROPOL, 2024). Essa abordagem busca superar limitações dos modelos tradicionais de policiamento, baseados predominantemente em estatísticas descritivas e na experiência empírica dos agentes. No entanto, autores destacam que a adoção dessas tecnologias exige cautela, uma vez que a automatização de análises pode influenciar significativamente a definição de prioridades operacionais e políticas institucionais (Biondi; Cernev, 2023).
2.2 Aplicações da Inteligência Artificial na Atividade Policial
No âmbito da atividade policial, a inteligência artificial tem sido aplicada em diferentes áreas, como análise criminal, policiamento preditivo, reconhecimento de imagens, monitoramento urbano e gestão de recursos humanos e materiais. Estudos indicam que algoritmos de aprendizado de máquina podem auxiliar na identificação de padrões criminais e na previsão de áreas com maior probabilidade de ocorrência de delitos, contribuindo para uma atuação policial mais preventiva e estratégica (EUROPOL, 2024).
Segundo Berk (2021), essas aplicações apresentam potencial para aumentar a eficiência operacional das corporações policiais, reduzindo o tempo de resposta e otimizando o emprego do efetivo. No contexto brasileiro, pesquisas recentes apontam que a inteligência artificial pode representar um importante instrumento de modernização das polícias militares, desde que integrada aos processos institucionais existentes e acompanhada de capacitação adequada dos profissionais envolvidos (Biondi; Cernev, 2023). Contudo, a literatura ressalta que os resultados dessas tecnologias dependem diretamente da qualidade dos dados utilizados e da forma como os sistemas são implementados e interpretados pelos gestores e operadores.
Nos países desenvolvidos, como os da Europa, os Estados Unidos e Hong Kong, a aplicação do reconhecimento facial no âmbito da segurança pública encontra-se amplamente disseminada em diversos contextos. Esta tecnologia vem sendo empregada em aeroportos, estações ferroviárias, áreas urbanas e grandes eventos, com o objetivo de monitorar multidões em busca de indivíduos procurados por autoridades competentes (Biondi; Cernev, 2023). Ademais, sistemas baseados em inteligência artificial estão sendo utilizados para analisar padrões criminais e antecipar localidades e horários com maior probabilidade de ocorrência de delitos. No caso brasileiro, o poder público recorre a essas ferramentas tanto para a resolução de casos forenses quanto para a identificação de suspeitos envolvidos em práticas criminosas (Araujo; Zullo; Torres, 2020).
Entretanto, apesar dos avanços tecnológicos evidentes, a adoção do reconhecimento facial suscita debates substanciais do ponto de vista ético, jurídico e social. A eficácia dos algoritmos empregados pode apresentar variações influenciadas por fatores como a qualidade das imagens capturadas e a representatividade dos rostos nos bancos de dados utilizados. Tal cenário eleva o risco de erros de identificação que, por sua vez, podem culminar em injustiças, incluindo a criminalização equivocada de indivíduos inocentes (Meijer; Wessels, 2019). Paralelamente, destacam-se inquietações referentes à invasão de privacidade e ao potencial incremento da vigilância indiscriminada, preocupações já amplamente discutidas na literatura (Araujo; Zullo; Torres, 2020).
2.3 Limitações, Riscos e Desafios Éticos da Inteligência Artificial no Policiamento
Apesar das potencialidades atribuídas à inteligência artificial, a literatura científica evidencia uma série de limitações e desafios associados à sua utilização na atividade policial. Um dos principais pontos de preocupação refere-se aos vieses algorítmicos, que podem reproduzir ou intensificar desigualdades sociais presentes nos dados históricos utilizados para o treinamento dos sistemas (Kingston et al., 2021). Quando não adequadamente supervisionados, esses algoritmos podem direcionar ações policiais de forma discriminatória, comprometendo a legitimidade institucional.
Os avanços tecnológicos, especialmente no campo da inteligência artificial (IA), têm trazido à tona importantes debates sobre ética da informação e privacidade. Essas preocupações abrangem diversas áreas, como propriedade intelectual, cibersegurança, liberdade de expressão, privacidade digital, proteção de dados pessoais, a necessidade de desconexão no mundo digital, comportamento nas redes sociais e a regulação de grandes corporações (Biondi; Cernev, 2023). Nesse contexto, a ética digital surge como um componente essencial na busca por soluções que enderecem tanto os desafios já existentes quanto aqueles que podem surgir com o avanço das tecnologias e do uso da Internet.
A criação de leis voltadas para a proteção dos dados desempenha um papel crucial ao oferecer maior transparência e controle sobre o uso das informações pessoais dos cidadãos (OECD, 2025). Essas legislações, embasadas em princípios éticos e no respeito à privacidade, têm como objetivo garantir que as empresas se tornem mais responsáveis na gestão dos dados pessoais e adotem práticas mais transparentes. Assim, busca-se evitar invasões de privacidade que eram mais comuns em tempos passados (Biondi; Cernev, 2023).
A ética digital também se preocupa em proteger os dados gerados pelos usuários, assegurando que esses não sejam explorados indiscriminadamente ou utilizados de maneira questionável que possa comprometer direitos e liberdades fundamentais (Biondi; Cernev, 2023). Além do cumprimento das normas e regulamentações, espera-se que as organizações adotem uma postura ética em suas atividades, considerando os impactos que geram na sociedade e antecipando os possíveis riscos associados às inovações tecnológicas (OECD, 2025).
Nesse sentido, a proteção proativa dos dados e a implementação de medidas de segurança eficientes tornam-se fundamentais para assegurar a privacidade e o bem-estar dos indivíduos no espaço digital (OECD, 2025).
Outro desafio relevante diz respeito à transparência e à explicabilidade dos sistemas baseados em inteligência artificial. Conforme destacam Kingston et al. (2021), a dificuldade de compreender os critérios utilizados pelos algoritmos para gerar recomendações ou previsões pode limitar a capacidade de controle e responsabilização das decisões tomadas com apoio dessas tecnologias. No âmbito da segurança pública, essa opacidade representa um risco adicional, pois decisões automatizadas podem impactar diretamente direitos fundamentais dos cidadãos.
Nesse contexto, destaca-se o papel da China, líder na adoção massiva de tecnologias de vigilância baseadas em IA, muitas vezes exportadas para países em desenvolvimento. Hicks destaca que empresas chinesas têm financiado e implantado infraestruturas digitais e tecnologias de vigilância em países com regimes autoritários, potencializando práticas repressivas. Contudo, é ressaltado que a utilização autoritária dessas tecnologias depende majoritariamente da governança e práticas políticas locais, mais do que da origem das tecnologias em si. Essa perspectiva evidencia que o uso da IA na segurança pública é fortemente influenciado por contextos políticos e institucionais específicos.
Em contraponto à abordagem chinesa, a União Europeia optou por uma regulação que equilibra inovação com proteção de direitos fundamentais. O Regulamento (UE) 2024/1689 estabelece normas harmonizadas sobre IA, classificando sistemas de acordo com os riscos e impondo rigorosas restrições, especialmente para aplicações em segurança pública, como vigilância biométrica em tempo real. Essa abordagem reflete um compromisso com a democracia, transparência, equidade e proteção dos direitos humanos, promovendo padrões claros para o uso responsável e ético da IA.
Além disso, autores apontam que a dependência excessiva de sistemas automatizados pode afetar a autonomia profissional do policial, reduzindo o espaço para o julgamento humano e para a análise contextual das situações enfrentadas no cotidiano da atividade policial (EUROPOL, 2024). Dessa forma, a literatura converge no entendimento de que a inteligência artificial deve ser utilizada como ferramenta de apoio, e não como substituta da decisão humana.
2.4 Inteligência Artificial e o Contexto das Polícias Militares Brasileiras
No contexto das polícias militares brasileiras, a incorporação da inteligência artificial ocorre em meio a desafios institucionais, legais e operacionais específicos. Estudos indicam que, embora haja interesse crescente na adoção de tecnologias baseadas em dados, ainda existem lacunas significativas quanto à regulamentação, à padronização de procedimentos e à capacitação técnica dos profissionais envolvidos (Lima & Ferreira, 2022).
No Brasil, embora o uso da IA na segurança pública esteja se expandindo rapidamente, a falta de legislação específica gera insegurança jurídica e dificuldades práticas para controle e supervisão dessas tecnologias. O Projeto de Lei nº 2338/2023, apresentado pelo Senador Rodrigo Pacheco, pretende suprir essa lacuna ao propor diretrizes gerais para o uso responsável da IA, destacando princípios como privacidade, não discriminação e transparência nas decisões automatizadas. Entretanto, o debate legislativo precisa avançar mais, especialmente quanto à eficácia dessas normas na prática e sua capacidade para mitigar riscos relacionados à violação de direitos fundamentais.
A literatura destaca que a aplicação da inteligência artificial nas polícias militares deve considerar as particularidades do policiamento ostensivo e preventivo, bem como os princípios que orientam a atuação dessas instituições. No caso da Polícia Militar do Paraná, a adoção dessas tecnologias apresenta potencial para aprimorar a gestão operacional e a análise criminal, mas também exige cuidados relacionados à proteção de dados pessoais e à observância da legislação vigente (Lima & Ferreira, 2022).
Nesse sentido, autores ressaltam que a consolidação do uso da inteligência artificial nas polícias militares depende da construção de uma base teórica sólida e de políticas institucionais claras, capazes de orientar a implementação dessas tecnologias de forma ética, transparente e alinhada aos objetivos da segurança pública democrática (OECD, 2025). Essa perspectiva reforça a importância do referencial teórico como elemento fundamental para a compreensão crítica do tema e para o desenvolvimento do presente estudo.
2.5 Políticas Públicas e Regulação da Inteligência Artificial na Segurança Pública
A crescente incorporação da inteligência artificial nas atividades de segurança pública tem impulsionado debates acerca da necessidade de políticas públicas e marcos regulatórios capazes de orientar o uso responsável dessas tecnologias. A literatura científica recente destaca que, embora a inteligência artificial ofereça oportunidades relevantes para o aprimoramento da atividade policial, sua aplicação sem diretrizes claras pode gerar riscos institucionais, jurídicos e sociais (Kingston et al., 2021). Nesse sentido, a regulação surge como elemento essencial para equilibrar inovação tecnológica e proteção de direitos fundamentais.
Diversos estudos apontam que políticas públicas voltadas à inteligência artificial na segurança pública devem contemplar princípios como legalidade, transparência, responsabilização, explicabilidade dos algoritmos e proteção de dados pessoais (OECD, 2025). Tais princípios visam assegurar que sistemas automatizados de apoio à decisão não substituam o juízo humano, mas atuem complementarmente, preservando a autonomia profissional do agente de segurança e a legitimidade das ações estatais. Conforme Berk (2021), a ausência de parâmetros normativos claros pode comprometer a confiança social nas instituições policiais e intensificar questionamentos sobre o uso de tecnologias de vigilância.
No contexto brasileiro, a discussão regulatória ganha relevância diante da vigência da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que estabelece diretrizes para o tratamento de dados pessoais por órgãos públicos, inclusive na área da segurança pública. Pesquisas recentes indicam que a compatibilização entre o uso de inteligência artificial e a legislação vigente representa um dos principais desafios enfrentados pelas polícias militares estaduais (Lima & Ferreira, 2022). A literatura destaca que a adoção de tecnologias baseadas em inteligência artificial deve observar limites legais e éticos, especialmente quando envolve dados sensíveis e monitoramento populacional.
Além disso, estudos internacionais ressaltam a importância da criação de modelos de governança algorítmica, capazes de definir responsabilidades institucionais, mecanismos de auditoria e critérios de avaliação dos sistemas utilizados na atividade policial (EUROPOL, 2024). Esses modelos são fundamentais para evitar o uso indiscriminado da inteligência artificial e garantir que sua aplicação esteja alinhada aos objetivos da segurança pública democrática. No âmbito da Polícia Militar do Paraná, tais reflexões mostram-se particularmente relevantes, uma vez que a institucionalização de políticas claras pode contribuir para o uso estratégico, transparente e socialmente responsável dessas tecnologias.
Dessa forma, a análise das políticas públicas e da regulação da inteligência artificial constitui um elemento central do referencial teórico deste estudo, ao evidenciar que a efetividade do uso dessas tecnologias na atividade policial depende não apenas de sua capacidade técnica, mas também da existência de marcos normativos e institucionais que orientem sua implementação e fiscalização.
3 METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, cujo objetivo é analisar a aplicação da inteligência artificial na atividade policial, com ênfase na Polícia Militar do Paraná. A abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender, aprofundadamente, os conceitos, as discussões teóricas e as implicações institucionais relacionadas ao uso da inteligência artificial no contexto da segurança pública, sem a pretensão de quantificar fenômenos, mas de interpretá-los à luz da literatura científica existente.
Quanto aos procedimentos técnicos, o estudo adotou a pesquisa bibliográfica como método principal, a qual consiste no levantamento, seleção e análise de materiais já publicados sobre o tema investigado. A pesquisa bibliográfica permite a construção de um quadro teórico consistente, fundamentado em estudos científicos reconhecidos, contribuindo para a compreensão do estado da arte acerca da inteligência artificial aplicada à atividade policial. Foram consultados livros, artigos científicos, periódicos indexados, dissertações, teses, documentos institucionais e legislações pertinentes à área de segurança pública e tecnologia.
A seleção das fontes bibliográficas priorizou publicações recentes, especialmente aquelas produzidas nos últimos anos, com foco em revistas científicas indexadas e reconhecidas nacional e internacionalmente. As buscas foram realizadas em bases de dados acadêmicas amplamente utilizadas, utilizando-se descritores relacionados à inteligência artificial, segurança pública, atividade policial e policiamento orientado por dados. Após o levantamento inicial, procedeu-se à leitura exploratória dos materiais, seguida da leitura analítica, visando identificar conceitos, abordagens teóricas, contribuições e limitações apresentadas pelos autores.
No tratamento e análise dos dados, adotou-se a análise qualitativa do conteúdo, por meio da categorização temática dos principais eixos identificados na literatura, tais como aplicações da inteligência artificial na atividade policial, desafios éticos, limites legais e implicações institucionais. Essa etapa possibilitou a sistematização das informações e a articulação entre os diferentes estudos analisados, conferindo coerência ao referencial teórico e às discussões propostas no trabalho.
Por fim, a metodologia adotada permitiu alcançar os objetivos propostos, fornecendo subsídios teóricos para a análise crítica da aplicação da inteligência artificial na atividade policial da Polícia Militar do Paraná. Ressalta-se que, por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, o estudo não envolveu coleta de dados empíricos, mas contribui para a ampliação do conhecimento científico sobre o tema e para o embasamento de futuras pesquisas de natureza empírica ou aplicada.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise da literatura científica permitiu identificar um conjunto consistente de resultados relacionados à aplicação da inteligência artificial na atividade policial, especialmente no que se refere ao potencial de modernização das práticas de segurança pública e aos desafios inerentes à adoção dessas tecnologias. Os estudos analisados convergem ao apontar que a inteligência artificial tem sido empregada como ferramenta de apoio à tomada de decisão, contribuindo para a análise criminal, o policiamento orientado por dados e a gestão estratégica de recursos policiais (EUROPOL, 2024).
Os resultados evidenciam que uma das principais contribuições da inteligência artificial para a atividade policial reside na capacidade de processar grandes volumes de dados de forma rápida e integrada, possibilitando a identificação de padrões criminais que dificilmente seriam percebidos por métodos tradicionais. Nesse sentido, a literatura destaca que sistemas de policiamento preditivo e análise automatizada podem auxiliar na antecipação de ocorrências, no direcionamento do policiamento ostensivo e na otimização do emprego do efetivo, reforçando o caráter preventivo das ações policiais (Biondi; Cernev, 2023). Tais achados corroboram a perspectiva de que a inteligência artificial pode ampliar a eficiência operacional das corporações policiais, desde que utilizada como instrumento complementar ao julgamento humano.
Conforme o trabalho de Schwambach (2024), a PMPR utiliza a IA nas câmeras de leitura de placas veiculares e tecnologia LPR (License Plate Recognition). O LPR tem se consolidado como uma ferramenta essencial na área de segurança pública. Essa tecnologia permite que câmeras de vigilância leiam automaticamente as placas dos veículos, proporcionando a análise dos dados em tempo real. Isso contribui para o combate ao crime e à fiscalização do tráfego. Com o uso do LPR, é possível identificar veículos roubados, suspeitos de envolvimento em atividades ilícitas e automóveis com pendências judiciais, entre outras situações. Além disso, a tecnologia pode ser integrada a outros sistemas de segurança, como o reconhecimento facial, aumentando a precisão na identificação de suspeitos. O emprego dessa tecnologia pode colaborar na redução dos índices de criminalidade, na melhoria do fluxo viário em áreas de grande congestionamento e na fiscalização de irregularidades em rodovias e estradas.
A Inteligência Artificial (IA) é amplamente empregada em câmeras LPR para otimizar o desempenho do sistema de reconhecimento de placas veiculares. Especificamente, a IA utiliza técnicas de Aprendizado de Máquina (Machine Learning) para treinar algoritmos de reconhecimento de padrões, capazes de identificar e distinguir placas em diversas condições e situações.
Um exemplo comum de técnica de IA aplicada em câmeras LPR envolve o uso de algoritmos baseados em Redes Neurais Artificiais (RNA). As RNAs são uma abordagem de Aprendizado de Máquina inspirada no funcionamento do cérebro humano, projetada para detectar padrões nos dados. Para alcançar altos níveis de precisão, essas redes neurais utilizam uma estrutura extensivamente interligada de células computacionais simples, conhecidas como “neurônios” ou unidades de processamento, segundo Haykin (2001).
No contexto do reconhecimento de placas, as RNAs são treinadas com grandes volumes de imagens capturadas em condições variadas, como mudanças na iluminação, distorções na perspectiva e diferentes tipos de fundos. Isso possibilita uma melhoria significativa na precisão da leitura e no índice de acertos.
De modo geral, a IA contribui para aprimorar a capacidade das câmeras LPR em reconhecer placas veiculares em uma ampla gama de circunstâncias e ambientes. Além disso, ajuda na detecção de comportamentos anômalos relacionados a veículos, como tentativas de roubo, direção perigosa ou usos irregulares, elevando assim a eficácia dos sistemas de segurança, tanto pública quanto privada.
Conforme a pesquisa conduzida por Schwambach em 2024, esse material que é atualmente utilizado pela Polícia Militar do Paraná alcança uma taxa de precisão de até 90%. Quando o sistema detecta uma placa vinculada a furto ou roubo, ele automaticamente notifica a central da PM, que repassa a informação à equipe mais próxima, permitindo uma abordagem rápida e eficaz. Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná indicam que, em 2022, houve um significativo aumento nos registros de furtos e roubos, contabilizando aproximadamente 14 mil furtos e 3.500 roubos. Diante desse cenário, tanto a Secretaria quanto a Polícia Militar concentraram esforços em investir em tecnologias que aprimorassem a identificação e recuperação de bens. Como resultado, no mesmo período, a PMPR conseguiu recuperar cerca de 50% dos veículos roubados ou furtados, totalizando aproximadamente 9.500 recuperações.
De acordo com um estudo de Oliveira e Melo realizado em 2025, outro sistema tecnológico implementado pela PMPR é o DETECTA, desenvolvido em parceria entre a Secretaria de Segurança Pública e as polícias Militar e Civil. Esse sistema opera integrando informações diversas, como imagens das câmeras de monitoramento, dados de veículos furtados ou roubados, além de mandados de prisão. Por meio de algoritmos avançados de análise de dados, o DETECTA identifica padrões suspeitos e envia alerta em tempo real às equipes da PMPR, aumentando significativamente a eficácia das operações. O sistema também dispõe de uma classificação inteligente dos riscos detectados, categorizando-os como alto, gritante ou moderado.
Outro avanço tecnológico promovido pela PMPR é o Programa Olho Vivo. Essa iniciativa modernizou as atividades operacionais da corporação ao aprimorar a infraestrutura de videomonitoramento. Ela integrou sistemas de câmeras de segurança direto aos batalhões da Polícia Militar do Estado, reforçando o combate ao crime através de mais eficiência e interação ágil entre tecnologia e operações no campo.
Em 2023, o sistema Olho Vivo demonstrou uma ampla capacidade ao realizar mais de três milhões e meio de leituras de placas em um período de 24 horas, contribuindo de forma significativa para a promoção da segurança pública. Dentro desse total, foram gerados 17 mil alertas, abrangendo categorias como furto com alerta temporário, furto confirmado, investigação, roubo com alerta temporário e roubo confirmado (OECD, 2025).
Por meio da inteligência artificial do sistema, os dados contribuem para a recuperação de veículos roubados ou furtados, além do cumprimento de mandados de prisão, entre outras finalidades. Posteriormente, essas informações são direcionadas aos setores de inteligência e investigação da Polícia Civil, que passam a ter acesso a rotas e fluxos de veículos e pessoas. Esse processo acelera a solução de casos e a localização de indivíduos procurados. Considerando o número expressivo de veículos registrados nos municípios do Paraná em 2022, com um total de 8.112.645 (CELEPAR, 2022), e o fato de o sistema contar com 2.984 câmeras OCR integradas (EUROPOL, 2024), é possível avaliar sua eficiência operacional. A tecnologia consegue realizar a leitura de 3.440.609 placas em apenas 24 horas, evidenciando sua ampla cobertura e sua contribuição significativa para a segurança pública por meio de um monitoramento intensivo (OECD, 2025).
No que se refere ao contexto das polícias militares brasileiras, os resultados indicam que a adoção da inteligência artificial ainda ocorre incipientemente e heterogênea, sendo marcada por iniciativas pontuais e pela ausência de diretrizes institucionais consolidadas (Lima & Ferreira, 2022). A literatura analisada sugere que, embora exista potencial para a utilização dessas tecnologias no policiamento ostensivo, sua efetividade depende da integração com os processos organizacionais existentes, da capacitação dos profissionais e da observância das normas legais, especialmente no que tange à proteção de dados pessoais.
Os dados atuais apresentados mostram que o estado que lidera o uso intenso da plataforma “IA Contra o Crime”, que integra mais de 5,6 mil câmeras de IA, ajudando a resolver mais de 500 casos em sete meses, com meta de expansão para 22 mil câmeras, é Goiás (Governo de Goiás, 2026). Enquanto na Bahia, a qual foi a pioneira em reconhecimento facial, os números são ainda mais otimistas, e provam que a IA, de fato, auxilia as polícias e as soluções de crimes. Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) registrou um marco significativo: seu sistema de reconhecimento facial alcançou cerca de 2.000 foragidos da Justiça localizados em 2025, distribuídos pela capital, Região Metropolitana de Salvador e interior do estado. O reconhecimento facial é utilizado no apoio às forças de segurança também em eventos públicos e em operações de videomonitoramento inteligente distribuído pelos Centros Integrados de Comunicações (CICOMs). Há também registros de prisões feitas com auxílio de reconhecimento facial nos primeiros dias de 2026, ampliando a tendência de uso dessa tecnologia no estado (Governo da Bahia, 2025).
A análise da literatura científica permitiu identificar que a utilização da inteligência artificial na atividade policial apresenta potencial significativo para o aprimoramento da segurança pública, porém revela desafios estruturais, técnicos, éticos e institucionais relevantes, especialmente no contexto da Polícia Militar do Paraná. Os resultados obtidos a partir da pesquisa bibliográfica demonstram que a adoção de sistemas baseados em IA não pode ser compreendida somente como um avanço tecnológico, mas como um processo complexo que exige adequação organizacional, normativa e social.
Um dos principais achados refere-se à dependência da inteligência artificial em relação à qualidade dos dados utilizados para treinamento e operação dos algoritmos. Estudos recentes indicam que dados criminais historicamente produzidos pelas instituições policiais podem conter vieses territoriais, sociais e raciais, os quais tendem a ser reproduzidos ou ampliados por sistemas de IA, caso não haja mecanismos de mitigação (Kingston et al., 2010). No contexto da PMPR, esse fator representa um desafio central, uma vez que a efetividade dos sistemas inteligentes depende da padronização, atualização e governança dos bancos de dados institucionais.
Outro resultado relevante diz respeito à falta de transparência e explicabilidade dos sistemas de IA, aspecto amplamente discutido na literatura contemporânea. Autores apontam que modelos algorítmicos complexos operam como “caixas-pretas”, dificultando a compreensão dos critérios utilizados para gerar recomendações ou previsões (Carvalho et al., 2010). Para a atividade policial militar, essa limitação pode comprometer tanto a confiança interna dos agentes quanto a legitimidade das ações perante a sociedade, especialmente quando decisões operacionais passam a ser influenciadas por sistemas automatizados.
No campo ético e jurídico, os resultados evidenciam preocupações recorrentes relacionadas à proteção de direitos fundamentais, como a privacidade, a presunção de inocência e a igualdade de tratamento. A literatura destaca que o uso de tecnologias como reconhecimento facial e policiamento preditivo pode gerar riscos de vigilância excessiva e seletividade penal, se não houver regulamentação clara e controle institucional adequado (Lima, 1995). Para a PMPR, esse cenário impõe a necessidade de alinhar o uso da IA aos princípios constitucionais e às diretrizes de direitos humanos aplicáveis à atividade policial.
Além disso, a pesquisa bibliográfica revelou que a ausência de marcos regulatórios específicos e políticas institucionais consolidadas constitui um entrave para a implementação responsável da IA na segurança pública. Autores defendem que a incorporação dessas tecnologias deve ser acompanhada por normas internas, protocolos operacionais e mecanismos de responsabilização, garantindo segurança jurídica e previsibilidade administrativa (Vieira & Silva, 1992). No caso da PMPR, a falta de diretrizes claras pode limitar a expansão segura e eficiente dessas ferramentas.
Por fim, os resultados indicam que a capacitação profissional e a cultura organizacional são fatores decisivos para o sucesso da adoção da inteligência artificial. A literatura aponta que a falta de formação técnica adequada pode levar ao uso acrítico dos sistemas, transformando a IA em um instrumento meramente operacional, sem reflexão estratégica (Araújo, Nogueira & Ramos, 1997). Assim, para a PMPR, torna-se imprescindível investir em treinamento contínuo e no desenvolvimento de competências digitais alinhadas à realidade policial.
Dessa forma, os resultados obtidos confirmam que, embora a inteligência artificial represente uma ferramenta promissora para o aprimoramento da atividade policial, sua aplicação na Polícia Militar do Paraná demanda enfrentamento de desafios múltiplos. A discussão evidencia que o uso eficaz e responsável da IA depende da integração entre tecnologia, governança de dados, ética, regulação e capacitação institucional, aspectos fundamentais para a inovação contribuir efetivamente para a segurança pública e para o fortalecimento da atuação policial.
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo analisar a aplicação da inteligência artificial na atividade policial, com ênfase na Polícia Militar do Paraná, a partir de uma pesquisa bibliográfica fundamentada em produções científicas recentes e relevantes. Ao longo do trabalho, foi possível constatar que a inteligência artificial desponta como uma ferramenta estratégica com elevado potencial para otimizar processos operacionais, apoiar a tomada de decisão e contribuir para o aprimoramento da segurança pública. No entanto, os resultados evidenciam que sua implementação não ocorre isentamente de desafios, exigindo uma abordagem crítica e responsável.
A análise da literatura permitiu identificar que a eficácia da inteligência artificial na atividade policial está diretamente condicionada à qualidade e à governança dos dados utilizados. Sistemas baseados em IA dependem de bases de dados confiáveis, atualizadas e livres de vieses estruturais, sob pena de reproduzirem desigualdades e comprometerem a legitimidade das ações policiais. Nesse sentido, para a Polícia Militar do Paraná, a consolidação de políticas de gestão de dados apresenta-se como requisito fundamental para o uso seguro e eficiente dessas tecnologias.
Outro aspecto relevante refere-se à necessidade de transparência, explicabilidade e controle institucional dos sistemas de inteligência artificial. A literatura aponta que a adoção de modelos algorítmicos pouco compreensíveis pode fragilizar a confiança tanto dos profissionais de segurança quanto da sociedade, especialmente em um contexto em que decisões operacionais passam a ser influenciadas por sistemas automatizados. Assim, a utilização da IA na PMPR deve estar associada a mecanismos de auditoria, supervisão humana e responsabilização clara.
Do ponto de vista ético e jurídico, o estudo evidenciou preocupações relacionadas à proteção dos direitos fundamentais, como a privacidade, a igualdade de tratamento e a presunção de inocência. A incorporação da inteligência artificial na atividade policial exige compatibilidade com os princípios constitucionais e com as diretrizes de direitos humanos, evitando práticas de vigilância excessiva ou seletividade penal. Nesse contexto, a existência de marcos regulatórios e diretrizes institucionais claras mostra-se essencial para orientar o uso dessas tecnologias no âmbito da segurança pública.
Além disso, a capacitação dos profissionais e a adaptação da cultura organizacional foram identificadas como elementos centrais para o sucesso da implementação da inteligência artificial. O estudo reforça que a tecnologia, por si só, não é suficiente para promover melhorias estruturais, sendo indispensável o investimento em formação contínua, desenvolvimento de competências digitais e integração entre conhecimento técnico e experiência policial.
No caso específico da Polícia Militar do Paraná, os resultados da análise bibliográfica indicam que a incorporação da inteligência artificial pode representar uma oportunidade estratégica para o aprimoramento da atividade policial, especialmente nas áreas de análise criminal e gestão operacional. Todavia, a literatura enfatiza que esse processo deve ocorrer de forma planejada, gradual e fundamentada em evidências científicas, evitando a adoção acrítica de soluções tecnológicas. Dessa forma, os resultados e discussões apresentados reforçam a importância de uma abordagem crítica e fundamentada sobre o uso da inteligência artificial, contribuindo para a compreensão de seus impactos e para o avanço do debate acadêmico e institucional sobre o tema.
Quanto às limitações do estudo, destaca-se que a pesquisa se restringiu à análise bibliográfica, não contemplando dados empíricos, entrevistas ou estudos de caso específicos da Polícia Militar do Paraná. Essa limitação impede a avaliação direta do impacto prático das tecnologias de inteligência artificial já adotadas ou em fase de implementação na corporação. Ademais, a rápida evolução das tecnologias de IA pode tornar parte das discussões temporais, exigindo constante atualização teórica.
Por fim, conclui-se que a inteligência artificial representa uma oportunidade relevante para a modernização da atividade policial da Polícia Militar do Paraná, desde que sua adoção seja acompanhada por governança de dados, regulação adequada, respeito aos direitos fundamentais e capacitação institucional. Recomenda-se, portanto, que pesquisas futuras avancem para estudos empíricos e aplicados, contribuindo para a construção de modelos de uso da IA que conciliem eficiência operacional, legitimidade institucional e proteção social.
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1Licenciado em Letras pela Faculdade Anhanguera de Ponta Porã-MS. Pós-graduado “Lato Sensu” em Segurança Pública e Análise Criminal pela Faculdade UNINA-PR. E-mail: leandro@hotmail.com
