REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202507271140
Ricardo Luiz de Assis1
RESUMO
O desenvolvimento comunitário é uma das estratégias mais efetivas de alcance e transformação das comunidades. Permite o enfrentamento dos problemas sociais na sua origem, atuando na complexidade das relações em uma comunidade e buscando na família seu foco principal de intervenção. O processo de construção e afirmação de desenvolvimento social e comunitário é, em todos os casos, longo e transversal com a compreensão do território e da(s) pessoa(s). Considerada como uma nova forma de se perceber a economia, a economia solidária impulsiona o desenvolvimento local, oferecendo aos sujeitos nela envolvidos, a possibilidade de construírem uma nova roupagem econômica, baseada na reciprocidade e cooperação, a partir de princípios já definidos. A Ecosol tem sido um espaço de novos caminhos e inclusão, a citar, o protagonismo da juventude, trazendo em recorte nesse trabalho a juventude de Quijingue/BA. Assim, observa-se a ecosol como possibilidade contextualizada, vinculada a elementos afetivos, cognitivos e sociais capazes de preparar a juventude para o enfrentamento dos novos desafios que se colocam na contemporaneidade.
Palavras-chaves: Economia Solidária; Juventude Rural; Trabalho e Renda; Desenvolvimento Territorial; Participação Social.
1. INTRODUÇÃO
O desenvolvimento local ou comunitário é o esforço para melhorar as condições de vida daqueles que habitam um local (a comunidade e o seu espaço geográfico e cultural) levando em conta a especificidade deste local. Distingue-se do desenvolvimento de uma população em geral porque procura o desenvolvimento equilibrado e integrado de uma comunidade, respeitando seus valores próprios e procurando tirar partido da sua riqueza histórica.
Resulta de ações que objetivam uma tomada de consciência acerca das potencialidades locais, promovendo, consequentemente, iniciativas geradoras de riqueza, valores culturais, pertencimento, significância e de emprego que se coaduna a um plano local de desenvolvimento integrado, ou seja, desenvolvimento e consolidação da democracia, desenvolvimento econômico e social e a inserção da comunidade nas políticas macroeconômicas. Não se pode também perder de vista a prática de estratégias e metodologias de ação que irão conduzir para mudança de hábitos e construção de valores, o contexto e o nível de vida das pessoas dessa comunidade. Embora com diferenças decorrentes de modelos culturais e organizacionais próprios, em todas as áreas geográficas existem agentes promotores de desenvolvimento, quer institucional/individuais que dinamizam e desenvolvem projetos de desenvolvimento local.
Não se pode falar em discurso comunitário sem falar no Nordeste brasileiro, tema de inúmeros trabalhos acadêmicos e não acadêmicos e uma fonte inesgotável, devido aos inúmeros problemas que enfrenta ao longo dos séculos. Por ser a região que abriga o maior número de estados da federação, o estigma da pobreza ainda persiste, tanto que em 2012, segundo a pesquisa “Brasil, Brasis: regionalização Nordeste”, realizada pelo Plano CDE, a Região concentrava 23,7 milhões de pobres, número equivalente a 45% de toda a população nordestina. Desse contingente, 5,1 milhões ainda estavam na linha da extrema pobreza. Apesar de todos os problemas existentes na Região Nordeste, a região também possui potenciais econômicos, mas para isso é necessário empenho político e criação de políticas sociais para um desenvolvimento efetivo, como pontua Celso Furtado (1964).
Nessa perspectiva, a construção do artigo se estrutura além desta introdução e das considerações finais, nos seguintes tópicos: I) Sujeitos e territórios: similaridades e conexões II) Economia popular e solidária e III) Ecologia solidária e agroecologia: um diálogo necessário.
Elementos relevantes da introdução.
2. METODOLOGIA
Metodologicamente, este trabalho desenvolve-se embasado em referências teóricas da área de economia solidária e desenvolvimento territorial documentos legais sobre a definição e constituição do recorte da pesquisa, bem como a caracterização e reflexões sobre ecologia solidária e agroecologia. Em geral, o material utilizado fora instrumento metodológico das disciplinas articuladas no programa de pós-graduação em Planejamento Territorial da Universidade Estadual de Feira de Santana (PLANTERR-UEFS), bem como no Grupo de Estudos e Pesquisas em Economia Popular e Solidária e Desenvolvimento Local (GEPOSDEL). A dialética freiriana foi utilizada como instrumento de ligação dos assuntos evidenciados, destacando assim, a simbiose existente entre estes.
3. SUJEITOS E TERRITÓRIO: SIMILIRIDADES E CONEXÕES
Na visão de Sarchet (2009), a definição do território é fundamental para a compreensão das dinâmicas sóciopolíticas e culturais que permeiam as relações espaciais. Sarchet (2009) defende que o território não pode ser reduzido a simples limites geográficos e deve ser entendido como estruturas sociais e históricas. Nesse sentido, os territórios emergem das relações de poder, identidade e representação estabelecidas entre diversos atores sociais. A definição proposta enfatiza a importância das práticas sociais, das formas de gestão e ocupação do espaço e das representações simbólicas que dão significado e significado ao território. Ao ver o território como uma estrutura complexa, Sarchet (2009) estimula a análise de vários aspectos relacionados, como a disputas territoriais, processos de exclusão e inclusão, formas de resistência e reivindicações de grupos sociais. Esta perspectiva ampla e contextual contribui para uma compreensão mais profunda das relações sócioespaciais e para uma análise crítica das dinâmicas territoriais em diferentes contextos sociais e geográficos.
Quijingue, município baiano, é palco de uma série de disputas territoriais que refletem a complexidade social da região. Nesse contexto, os jovens desempenham um papel importante na análise das dinâmicas regionais, expondo processos de exclusão e assimilação, expressões de resistência e reivindicações. A cidade de Quijingue apresenta diferentes características de desigualdade social e espacial, com forte contraste entre áreas urbanas e rurais, recursos escassos e infraestruturas precárias. Essa realidade gera conflitos territoriais entre diferentes grupos sociais, como agricultores, comunidades indígenas e população urbana. A posse da terra e o acesso aos recursos naturais costumam estar no centro desses conflitos, refletindo desigualdades históricas e estruturais. A falta de investimento em políticas públicas voltadas para os jovens, a falta de espaço para a participação e a marginalização social e econômica são barreiras que precisam ser superadas.
Da perspectiva de Chaui (2012), o empobrecimento e a privação de direitos são compreensíveis por causa das estruturas sociais e políticas que perpetuam a desigualdade. A autora argumenta que a pobreza não é uma condição natural, mas uma construção social que se manifesta em um contexto histórico e econômico específico. Nesse sentido, as desvantagens das juventudes de Quijingue não são simplesmente o resultado de suas escolhas pessoais ou deficiências, mas sim instituições sociais que concentram recursos e oportunidades nas mãos de poucos, negam direitos básicos e perpetuam a marginalização.
Quijingue é um município localizado no interior do Estado da Bahia. Com uma população de cerca de 20.000 pessoas. Localizada na zona de transição entre o interior e a natureza, a cidade é cercada por uma vegetação exuberante, repleta de árvores nativas, flores coloridas e rios límpidos.
A cultura também desempenha um papel importante em Quijingue. A cidade é marcada por festas tradicionais, como a Festa do Padroeiro Santo Antônio, que reúne a comunidade em celebrações religiosas, música, dança e pratos de autor. Estas festas são uma oportunidade para os residentes expressarem a sua identidade cultural e preservarem as tradições passadas de geração em geração. Além disso, a música é parte integrante da vida em Quijingue. O município tem forte tradição musical, principalmente o reisado.
A população de Quijingue é composta principalmente por famílias de baixa renda que dependem do trabalho agrícola familiar e de outras atividades rurais para sua subsistência. A pobreza e a desigualdade socioeconômica são realidades enfrentadas pelas comunidades, o que torna necessário o (des)envolvimento de políticas públicas que promovam a inclusão social e o (des)envolvimento regional.
O acesso a serviços básicos, como saúde e educação, continua sendo um desafio para muitos moradores. É claro que a infraestrutura dessas áreas precisa ser melhorada, garantindo o acesso a serviços de qualidade para todos. No entanto, apesar dos desafios, Quijingue também tem um potencial social considerável. A comunidade é conhecida por sua solidariedade e senso de cooperação e associação. Iniciativas comunitárias, como associações comunitárias, centros comunitários, sindicatos de trabalhadores rurais e grupos de mulheres, surgiram e ajudaram a fortalecer a economia local e melhorar as condições de vida da população.
A promoção da cultura e tradições locais desempenha um papel importante na coesão social em Quijingue. Festas religiosas e eventos culturais unem as comunidades em comemorações que fortalecem a identidade local e promovem o orgulho regional.
Outro aspecto social importante é o protagonismo da juventude. Estimular a participação ativa dos jovens em iniciativas comunitárias, promovendo a educação e as cadeias produtivas pode gerar oportunidades de emprego, emprego e renda, além de contribuir para o (des)envolvimento econômico e social da região.
3.1 AS PESSOAS
As juventudes de Quijingue, envoltas num ambiente de fascínio e esperança, são os protagonistas de uma história cheia de sonhos e possibilidades. Nesta pequena cidade rural, o coração pulsante dos jovens ressoa com uma força da natureza, dando vida e movimento a várias comunidades rurais e urbanas.
Sob o sol forte que ilumina este território, juntam-se nas praças e nas ruas, partilhando risos, sorrisos e histórias. São indivíduos com alegria de viver, curiosidade pelo mundo e uma vontade incansável de conquistar ideais. De cada lado, linhas únicas revelam uma mistura de origens, cores e culturas, formando um rico e variado mosaico.
São em sua maioria jovens agricultores, trabalhando com devoção e amor na terra árida, conectando-se com a natureza e preservando as tradições agrícolas de seus ancestrais. Com mãos calejadas, eles semeiam esperança e colhem os frutos de seu trabalho árduo, alimentando não só suas barrigas, mas também as almas da comunidade.
Há também muitos jovens artistas inspiradores, com mentes criativas e espíritos livres, que pintam o mundo à sua volta com cores vibrantes. Eles cantam, dançam, recitam poemas que trazem alegria e emoção a cada apresentação. Suas expressões artísticas são inspiradoras, transmitindo mensagens de amor, resistência e pertencimento.
Com mochilas cheias de sonhos, trilharam o caminho do conhecimento. Alguns sedentos de conhecimento, buscam formas antiquadas de aprender, um futuro diferente dos pais. Outros desistiram e seguiram o destino imposto pela cultura patriarcal.
As juventudes quijinguense sonham com uma cidade melhor onde a igualdade e a justiça sejam pilares fundamentais. Querem ser vozes ativas na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva, vivendo em condições ideais onde todos possam encontrar o seu lugar e serem ouvidos.
Quijingue tem a sorte de ter nas suas fileiras estes jovens dinâmicos que iluminam o presente e pintam um horizonte possível para o futuro. Seus sonhos, talentos e paixões são o motor que impulsiona a cidade rumo a um grande destino. Em cada sorriso, em cada gesto de amor e em cada raio de esperança, os jovens da Quijingue deixam uma marca indelével, tornando-se os verdadeiros protagonistas desta história encantadora e inovadora.
4. A ECONOMIA POPULAR E SOLIDÁRIA
O (des)envolvimento local não pode ser visto apenas como crescimento econômico, mas como um processo que inclui a participação ativa e consciente das comunidades locais na determinação do próprio destino. A importância da construção da identidade coletiva, promovendo o conhecimento local e promovendo a autonomia dos atores locais.
Um dos conceitos-chave é território, entendido não apenas como um espaço geográfico, mas também como um conjunto de relações sociais, culturais e econômicas estabelecidas em uma determinada área. Neste sentido, o (des)envolvimento local é pensado na perspectiva das potencialidades e desafios específicos de cada território, tendo em conta as suas particularidades e diversidade.
Economia solidária é um conceito bastante utilizado em várias partes do mundo e com “com acepções variadas, mas que giram todas ao redor da ideias da solidariedade, em contraste com o individualismo competitivo que caracteriza o comportamento econômico padrão nas sociedades capitalistas” (SINGER, p. 116, 2003 ). Assim, Singer (2003) entende a economia solidária como um conceito mais geral, que engloba um conjunto de empreendimentos solidários,
Segundo Schutz (2017), a economia solidária tem estreita relação com o Território. Por sua vez, Território – normalmente definido nos dicionários como extensões de terra, espaço – é um termo muito abrangente, podendo-se afirmar que este é o “espaço definido e delimitado por e a partir das relações de poder. Do quarteirão aterrorizado por uma gangue de jovens até o bloco constituído por países membros da OTAN” (SOUZA 2001, p.11 apud SCHUTZ, 2017, p.13). Por sua vez, o geógrafo e pesquisador Milton Santos amplia o conceito de território, uma vez que ele
discute como nos territórios locais se estabelecem relações que chama de horizontais e verticais. As relações horizontais são as que ocorrem no espaço local, enquanto espaço de vida e de interação cotidiana dos moradores daquele território, ou com os espaços vizinhos. As relações verticais são as que se articulam ao espaço global, espaço de intervenção das redes econômicas, culturais e políticas internacionais, vinculando-se ao mercado e à produção mundializadas. (MACHADO; LACERDA, 2003, p.14 apud SCHUTZ, 2017, p.14)
Assim, pode-se dizer que território não é uma apenas uma área delimitada pelo Estado, mas a força, o poder, a capacidade de decisão das pessoas, de organizações, de grupos, de associações e de outras tantas formas da sociedade de se organizar e que o delimitam.
Dessa forma, quando se fala de território está se falando majoritariamente de duas coisas: poder e capacidade de decisão. Embora o mundo moderno esteja globalizado trazendo até cada um de nós as coisas já prontas, quando se fala em território e tomadas de decisões é necessário pensar em quem decide, como decide o que está sendo decidido e quem estabelece padrões e regras que vão nortear essas decisões.
Levando-se em consideração as questões mencionadas, há que se entender que economia solidária e território estão intimamente ligados e sofrerão alterações conforme a realidade de cada lugar. Não se pode padronizar, uma vez que cada território irá escolher uma nova forma de fazer economia conforme suas necessidades e potencialidades conforme sua natureza social. ALVES et al (2016, p. 244) afirmam que a “economia solidária se baseia na ideia de que os benefícios da atividade econômica devem estar ao alcance daqueles que a realizam, ou seja, dos trabalhadores”.
Atualmente a Economia Solidária (ECOSOL) desenvolve-se frente a um cenário de desigualdades sociais, sendo, portanto, um projeto alternativo e de resistência diante do capitalismo. A partir da década de 1990, a ECOSOL traçou como um dos objetivos principais a inserção de trabalhadores no mercado de trabalho, em forma de cooperativas e/ou associações, a partir dos princípios da autogestão, solidariedade, equidade e cooperação. Esta seria uma nova alternativa de propiciar aos trabalhadores pobres níveis mínimos de autodeterminação e geração de renda. (ASSEBURG e GAIGER, 2007).
Levando-se em consideração autores que dissertam sobre o tema, Asseburg e Gaiger (2007) implicam que a ideia da ECOSOL é fortalecer a capacidade de ação dos mais carentes, através de propostas norteadoras para valorização do protagonismo dos trabalhadores.
4.1 PRINCÍPIOS DA ECONOMIA SOLIDÁRIA
Quando se fala em princípios da Economia Solidária, não se tratam apenas do conjunto de valores que norteiam esse modo de produção, os ideais que vão inspirar e delinear a forma como se dará o funcionamento das organizações inseridas nessa economia também estão presentes. Pode-se elencar como seus princípios, a solidariedade, a autogestão, a cooperação e a democracia.
- Solidariedade
É preciso destacar que a solidariedade, como princípio de Economia Solidária, caracteriza-se pela solidariedade democrática, não podendo, portanto, ser confundida com solidariedade filantrópica oriunda de ações sociais de cunho caridoso. Aqui, trata-se de uma solidariedade que é pautada pela igualdade, pela reciprocidade, e pela necessidade de organização para produzir. Tal fato corrobora o conceito de solidariedade dado por Aleixo (2015).
a solidariedade é uma construção social e a sua concepção atual, surgiu no já início do século XIX, como resposta às realidades decorrentes da sociedade industrial, em que se assume que o mercado deve ser complementado e que essa complementaridade pode ser conseguida através da solidariedade democrática e da associação entre iguais, que só são possíveis existirem no ambiente atual de democracia. (ALEIXO, 2015, p. 26).
Experiências históricas revelam como a solidariedade foi importante para a definição de Economia Solidária, uma vez que diz respeito também ao tratamento que será dado à propriedade privada, pois se por um lado na Economia Tradicional trata-se de propriedade individual, neste modelo econômico trata-se de propriedade coletiva.
- Autogestão
Independentemente de como os empreendimentos solidários se organizem juridicamente, a administração será feita por meio da autogestão, fator muito importante pelo fato de gerar igualdade entre os pares, como defende Szul; Moura (2017, p.3): “Compreende-se que a autogestão como princípio norteador da Economia Solidária acaba por aumentar o contexto de igualdade e democracia dentro dos empreendimentos”.
Nem sempre essa é uma tarefa fácil, porquanto a maior parte dos trabalhadores não foram educados para gerenciar e sim para serem gerenciados. A capacitação do trabalhador é fundamental para o sucesso da autogestão a fim de haja interesse por parte daqueles que compõem o grupo.
No sentido da construção de uma identidade cidadã, a autogestão alicerça a manutenção de relações de produção que satisfaçam as necessidades humanas do ponto de vista social e político, não se restringindo apenas ao econômico.
- Cooperação
Em se tratando de economia solidária, à forma como se realizam as interações sociais dá-se o nome de cooperação. Aplicada como estratégia é uma das melhores ferramentas para aumentar qualquer desenvolvimento econômico. É bom salientar, que no caso da ECOSOL, a cooperação é sempre uma troca entre os parceiros desprovida de qualquer ranço de competitividade, uma vez que os objetivos que se pretende alcançar beneficiará a coletividade e não ao indivíduo. Nesse caso,
a cooperação possui como escopo a contribuição para um processo de interação social dentre aqueles que do projeto participam, faz com que exista uma constante busca por um objetivo comum através de ações compartilhadas, pois ao final, o benefício será repartido entre todos (PORTO e OPUSZKA, 2015, p. 431).
- Dimensão Econômica
Conforme a definição do Ministério do Trabalho, a dimensão econômica na ECOSOL diz respeito aos estímulos que congregam recursos pessoais e de outras fontes e/ou organizações a fim de que possa haver a produção de bens. Englobam os elementos de viabilidade econômica que deem sustentação aos projetos, alinhados aos critérios de eficácia, afetividade, aspectos culturais e ambientais. (Ministério do Trabalho).
5. ECOLOGIA SOLIDÁRIA E AGROECOLOGIA – UM DIÁLOGO NECESSÁRIO
Não se pode falar em economia solidária sem falar também em agroecologia, porque os dois movimentos se comunicam em boa parte das práticas e, com mais ênfase, quando se trata da construção de mercados agroecológicos e solidários. Além disso, ambas questionam profundamente a ordem capitalista vigente.
Em contrapartida, os conceitos preconizados pela agroecologia têm que estar presentes no sistema natural de cada localidade uma vez que envolve “o solo, o clima, os seres vivos, bem como as inter-relações entre esses três componentes” (PRIMAVESI, 2003, p. 9). Ainda segundo a autora
trabalhar ecologicamente significa manejar os recursos naturais respeitando a teia da vida. Sempre que os manejos agrícolas são realizados conforme as características locais do ambiente, alterando-as o mínimo possível, o potencial natural dos solos é aproveitado (PRIMAVESI, 2003 P. 9).
Portanto, entendida como o estudo da agricultura a partir de uma perspectiva ecológica, a agroecologia é um tipo de prática agrícola que dá prioridade ao uso de dos recursos naturais de forma consciente. É uma alternativa que tem como objetivo minimizar os problemas gerados pelo modelo tradicional de agricultura – cujos impactos sobre a biodiversidade são gritantes -, apresentando opções sustentáveis como forma de manter a produtividade da terra. Desse modo,
o que torna a agroecologia diferente de outras práticas agrícolas como as de subsistência, por exemplo, é que ela não se prende à reprodução de produtos agrícolas, ela orienta a reprodução ampliada da vida, uma vez que abre possibilidades de atuação também à disputa dos espaços públicos e dos embates políticos, próprios dos movimentos sociais (FRANÇA FILHO e LAVILLE, 2004, p.165).
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento comunitário tem por missão impulsionar processos de desenvolvimento local de processos educativos, do fomento do desenvolvimento produtivo e da concertação participativa dos atores locais, levando a comunidade a recentrar-se em relação a si mesma e aos seus potenciais, desabrochando para novas possibilidades.
A EPS apresenta-se como uma abordagem transformadora e promissora para os desafios da migração juvenil no meio rural e oferece alternativas concretas de trabalho, emprego e renda. Ao estimular a criação de projetos coletivos e a promoção de atividades econômicas locais, a EPS não só contribui para o desenvolvimento local, mas também promove o meio rural como um todo. Por meio da EPS, as juventudes têm a oportunidade de desenvolver habilidades coletivas, adquirir conhecimentos técnicos e participar ativamente da gestão dos negócios.
Além disso, a economia solidária estimula a criação de redes colaborativas onde todos podem trocar experiências e se ajudar. Ao promover a cultura local e fomentar o consumo e a produção sustentáveis, a EPS trabalha para preservar o patrimônio cultural, ambiental e social das áreas rurais. Além disso, a EPS promove a inclusão social e a redução das desigualdades, permitindo que os jovens tenham acesso a condições dignas de trabalho e melhoria da qualidade de vida.
No entanto, para que a EPS possa realmente cumprir seu potencial, é necessário um ambiente favorável e políticas públicas que incentivem e apoiem essas iniciativas. O engajamento dos governos, organizações da sociedade civil, instituições de ensino e demais atores envolvidos é fundamental para promover a disseminação e o fortalecimento da economia solidária nas áreas rurais. Em suma, a EPS oferece uma perspectiva positiva e viável para que as juventudes possam continuar na zona rural, com alternativas de trabalho, emprego e renda que respeitem suas raízes e contribuam para o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais.
Ao estimular a cooperação, a solidariedade e a sustentabilidade, a EPS abre caminhos para um futuro promissor, no qual os jovens encontram oportunidades de realização pessoal e coletiva, ao mesmo tempo em que preservam a riqueza e a diversidade do campo. Essas possibilidades devem ser trabalhadas de forma crítica e contextualizada, conjugando elementos afetivos, cognitivos e sociais, capazes de preparar a juventude para o enfrentamento de novos desafios que se colocam na contemporaneidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ALVES, Juliano Nunes et al. A Economia Solidária no Centro das Discussões: um trabalho bibliométrico de estudos brasileiros. Cad. EBAPE.BR, Rio de Janeiro, v. 14, nº 2, Paper 1, Abr./Jun.2016. Disponível em > http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1679-39512016000200243&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso: 06/06/ 2019.
ASSEBURG, H. B.; GAIGER, L. I. A economia solidária diante das desigualdades. Revista de ciências sociais, Rio de Janeiro, v. 50, n. 3, p. 499-533, 2007.
COVEY, Stephen R. Sinergia – o Poder da Cooperação. Editora Negócio – Curitiba, 2003.
FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de y LAVILLE, Jean-Louis. A Economia Solidária: uma abordagem internacional. Porto Alegre. Editora da UFRGS. 2004.
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FURTADO, Celso. Dialética do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964.
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PORTO, Pedro Augusto Cruz; OPUSZKA, Paulo Ricardo. Economia solidária, seus princípios e sua extensão como vetor para construção de um novo cidadão. Revista Jurídica, v. 1, n. 38, p. 422-441, 2015. Disponível em: http://revista.unicuritiba.edu.br/index.php/RevJur/article/ viewFile/1429/970. Acesso: 30 set 2018.
PRIMAVESI, Ana Maria. Agroecologia e manejo do solo. Revista Agriculturas – v. 5 – no 3 – setembro de 2008.
SCHUTZ, Fernanda. Economia Solidária Alguns Conceitos Básicos. CAMPI: Porto Alegre. 2017. Disponível em: http://camp.org.br/files/2017/11/Cartilha-EcoSol-Conceitos-Basicos-CFES-Sul.pdf. Acesso em 06/06/2019
1Mestrando em Políticas Públicas, Planejamento Territorial e Participação Social pela Universidade Estadual de Feira de Santana/Bahia, e-mail: ricardoldeassis@gmail.com
