ANESTESIA INALATÓRIA EM PROCEDIMENTO DE CESARIANA EM CADELAS: REVISÃO DA LITERATURA

INHALATION ANESTHESIA IN CESAREAN SECTION PROCEDURES IN BITCHES: LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512061648


Cristina Guimarães Ferreira1
Orientadora: Prof. M.V. Raquel Silva e Sousa2


Resumo

A anestesia inalatória constitui uma estratégia essencial no manejo anestésico em fêmeas caninas no intervalo destinado à realização da cesariana. Buscou-se, com esta investigação, compreender o impacto da conduta sobre as medidas fisiológicas analisadas sobre os parâmetros maternos, além disso, abordando também a situação vital dos neonatos. Mediante uma observação detalhada de fontes acadêmicas disponíveis, foram avaliadas as transformações de maior pertinência e modificações fisiológicas da fase gestacional. Durante os aproximadamente 63 dias gestacionais, ocorrem mudanças cardiovasculares, respiratórias e metabólicas. Tais mudanças influenciam diretamente a determinação dos agentes anestésicos que serão empregados e o modo como o processo será conduzido. A anestesia inalatória destaca-se por permitir controle preciso da profundidade anestésica. Também possibilita rápida eliminação do agente, reduzindo efeitos depressores na gestante. Além disso, minimiza a exposição embriofetal e favorece melhores condições ao nascimento. As observações provenientes dos estudos consultados anteriores permitem inferir que essa condução promove estabilidade hemodinâmica materna. Oferece ainda analgesia satisfatória, tendo como ponto central o procedimento cirúrgico no momento considerado mais benéfico. Observou-se que filhotes submetidos a esse protocolo apresentam maior vitalidade dos neonatos no instante imediatamente pós-parto. Os ajustes na técnica são realizados em função das alterações fisiológicas apresentadas pela gestante. Isso reduz riscos intraoperatórios e favorece resultados mais previsíveis. Assim, a anestesia inalatória mostra-se eficiente no cenário obstétrico veterinário. Conclui-se que ela proporciona segurança materno-fetal e melhora o desfecho cirúrgico.

Palavras-chave: Gestação, Cesariana, Neonato, Anestesia Inalatória, Efeitos.

1 Introdução

A utilização de anestésicos administrados por via respiratória tornou-se uma das alternativas mais úteis na rotina anestésica de cadelas gestantes. Sales (2021) ressalta que essa via permite ao profissional modificar o plano anestésico com agilidade e obter recuperação relativamente rápida após o procedimento. Em intervenções obstétricas, como a cesariana, essa flexibilidade é fundamental, já que o anestesiologista precisa equilibrar simultaneamente as condições da mãe e dos recém-nascidos. Clarke, Trim e Hall (2020) e Fonseca (2021) destacam que a escolha do agente deve minimizar efeitos que comprometam a circulação ou a ventilação, a fim de não prejudicar o intercâmbio gasoso entre mãe e fetos.

A gestação, por sua vez, altera de maneira significativa a forma como o organismo materno lida com as drogas anestésicas. O aumento do volume de líquidos corporais, as adaptações respiratórias e a modificação do ritmo cardíaco interferem tanto na distribuição quanto na eliminação desses compostos. Paralelamente, Matsubara (2020) observa que os neonatos ainda não possuem maturidade fisiológica suficiente para lidar com depressão respiratória ou circulatória, o que torna o manejo anestésico ainda mais desafiador. Por esse motivo, recomenda-se a elaboração de protocolos ajustados individualmente, evitando variações bruscas nas funções maternas e reduzindo a exposição dos filhotes.

Diversos anestésicos voláteis como isoflurano, sevoflurano ou desflurano possuem características que facilitam ajustes finos durante o procedimento. Em vez de se basear apenas na rapidez de eliminação ou no impacto cardiorrespiratório, a seleção pode considerar como cada agente se comporta diante da condição fisiológica da cadela. Fonseca (2021) e Andrade et al. (2023) reforçam que esse ajuste específico é determinante para garantir conforto à mãe e reduzir possíveis efeitos indesejáveis nos neonatos.

Relatórios compilados pela Nature Research Intelligence (2021) mostram avanços expressivos na compreensão dos anestésicos utilizados em medicina veterinária, permitindo uma abordagem mais precisa sobre dosagem, distribuição e segurança. Esses progressos contribuíram para consolidar o uso da anestesia inalatória em intervenções obstétricas, especialmente quando se busca maior previsibilidade e controle.

Considerando esses elementos, o presente estudo avalia o emprego dessa modalidade anestésica na cesariana de cadelas, examinando aspectos como estabilidade fisiológica, comportamento materno sob indução, condições dos neonatos após o nascimento e adequação prática dos protocolos. Em procedimentos rápidos, essa abordagem pode ser aplicada sozinha ou associada a métodos regionais, buscando oferecer conforto à mãe e condições seguras aos filhotes. 

2 Fundamentação teórica ou revisão da literatura

2.1 introdução à anestesia

Os primeiros metodos de anestesia para induzir as pessoas adormecerem durante cirurgias foram testados em seres humanos. Gelo ou neve para congelar a região onde seria realizada a cirurgia, embriagar o paciente, ou até mesmo recorrer à hipnose como formas de aliviar a dor. Quando esses métodos não funcionavam, as cirurgias eram feitas de forma bruta, com os pacientes sendo imobilizados à força (MASHOUR et al., 2024).

As primeiras tentativas de abolir a dor através da anestesia foram pouco eficazes. Edward Mathew pioneiro no uso de anestesia em animais realizou o primeiro experimento de anestesia na medicina veterinária em 1847. Neste experimento, foi administrado éter em cães e gatos por inalação (WRIGHT, 2022). Mais tarde, em 1875 em 1875, um experimento foi realizado utilizando o hidrato de cloral para anestesia veterinária. O hidrato de cloral era um composto que podia ser administrado de diferentes formas: via oral, retal (no ânus) e ocasionalmente intraperitoneal (dentro da cavidade abdominal). Este foi considerado o primeiro composto não inalatório utilizado na anestesia veterinária, ou seja, não precisava ser inalado para produzir efeito de anestesia (THOMPSON; LEE, 2023; GARCIA, 2024).

Esses avanços na anestesia foram fundamentais para tornar os procedimentos cirúrgicos menos dolorosos e mais seguros tanto para humanos quanto para animais, visto que o desenvolvimento de diferentes substâncias, métodos de monitoramento e técnicas anestésicas evoluiu consideravelmente na prática clínica moderna (CASCELLA; SATAPATHY; FALLON, 2024).

Com o avanço da medicina veterinária e o aumento da realização de procedimentos em animais, a anestesia tornou-se uma parte crucial nos períodos pré, trans e pós-operatórios. A anestesia é utilizada para garantir que o animal não sinta dor durante o procedimento, além de manter seus sinais vitais estáveis e controlados (CASCELLA; SATAPATHY; FALLON, 2024). Portanto, a história da anestesia mostra como a ciência e a medicina evoluiu ao longo do tempo para tornar os procedimentos cirúrgicos mais seguros, menos dolorosos e mais eficazes, tanto em humanos como em animais.

2.2 A anestesia inalatória

A anestesia inalatória possibilita um controle preciso da profundidade anestésica, sendo essencial para a realização de procedimentos cirúrgicos. Os gases medicinais têm papel fundamental tanto na manutenção de uma concentração adequada de oxigênio (O₂) quanto na administração dos agentes anestésicos. Eles podem ser disponibilizados por meio de cilindros ou redes canalizadas, sendo indispensável o uso de válvulas de pressão para assegurar a entrega correta e o aproveitamento eficiente pelos aparelhos.

O oxigênio (O₂), por sua vez, é conduzido do cilindro ou da rede até o aparelho anestésico por meio de uma mangueira. O ajuste do fluxo é realizado no fluxômetro, cuja faixa de variação depende do equipamento utilizado e das necessidades do paciente, podendo ir, em média, de 0,2 a 7 L/min (FUKUNAGA et al., 2019).

No interior do aparelho, o oxigênio (O₂) pode seguir dois trajetos distintos. O primeiro corresponde ao fluxo direto, no qual o gás não passa pelo vaporizador, sendo entregue ao paciente como oxigênio puro. Essa via é especialmente indicada em situações de dispneia ou durante a fase de recuperação anestésica.

O segundo trajeto é o fluxo pelo vaporizador. Nesse caso, o oxigênio (O₂) entra em contato com um agente anestésico volátil, como o Isoflurano ou o Sevoflurano, permitindo que o anestésico seja incorporado de forma controlada e administrado ao paciente (FUKUNAGA et al., 2019).

Quanto aos vaporizadores, existem dois modelos mais comuns nos aparelhos de anestesia inalatória. O primeiro é o vaporizador universal, que funciona por meio de um sistema de borbulhamento e possibilita o uso de diferentes agentes anestésicos voláteis. No entanto, esse tipo de vaporizador apresenta desvantagens, pois pode sofrer influência direta das condições ambientais. Assim, se o ambiente estiver muito quente, frio ou com variações de pressão atmosférica, a concentração final do anestésico pode ser alterada, comprometendo a precisão do procedimento (FUKUNAGA et al., 2019).

O segundo modelo é o vaporizador calibrado, desenvolvido especificamente para agentes como o Isoflurano ou o Sevoflurano. Esse tipo de equipamento garante um controle preciso e gradativo da concentração anestésica, além de apresentar estabilidade frente às variações ambientais externas, o que aumenta a segurança e a confiabilidade durante o procedimento (FUKUNAGA et al., 2019).

Em relação aos circuitos anestésicos, que são essenciais para a administração segura das misturas de gases, destacam-se dois tipos principais utilizados na medicina veterinária. O primeiro é o circuito re-inalatórios, também conhecido como sistema circular com válvula. Nesse modelo, o fluxo de gases passa por válvulas unidirecionais e atravessa o canisters de carvão ativado, responsável pela absorção do dióxido de carbono (CO₂). Dessa forma, o paciente inala uma combinação de gases frescos e reciclados, garantindo uma anestesia eficaz e segura (CLARKE et al., 2020).

No entanto, é importante destacar que o circuito reinalatório apresenta uma resistência ligeiramente maior durante a inspiração, sendo, portanto, mais indicado para animais com peso acima de 10 kg.

Já os circuitos não reinalatórios são sistemas mais simples e leves, recomendados para animais com peso inferior a 7 kg, devido à sua baixa resistência respiratória, o que facilita a ventilação em pacientes menores. (CLARKE et al., 2020).

2.3 considerações fisiológicas da cadela gestante

Durante a gestação, a cadela apresenta uma série de alterações fisiológicas que influenciam diretamente a escolha e o manejo do protocolo anestésico, especialmente em procedimentos como a cesariana. Essas modificações envolvem diferentes sistemas orgânicos, com destaque para o sistema nervoso central, o sistema cardiovascular, o sistema respiratório e o sistema gastrointestinal, que sofrem adaptações para garantir o desenvolvimento adequado dos fetos e preparar a fêmea para o parto. A compreensão desses aspectos é essencial para o anestesista, pois permite ajustar doses, monitorar parâmetros vitais com maior precisão e reduzir riscos materno-fetais.

No caso da anestesia inalatória, esses ajustes maternos podem alterar a resposta aos fármacos, modificar a distribuição dos agentes anestésicos e influenciar tanto a segurança materna quanto a vitalidade dos neonatos (MONTEIRO, et al. 2024).

Na cadela gestante, ocorrem adaptações importantes no sistema cardiovascular para suprir as demandas do crescimento fetal e da manutenção da placenta. O aumento do débito cardíaco, que pode chegar a até 40% em relação ao estado não gestante, é um dos principais ajustes fisiológicos. Esse incremento é resultado da elevação da frequência cardíaca e do volume sistólico, garantindo adequada perfusão uteroplacentária e oxigenação dos fetos. Além disso, há expansão significativa do volume plasmático, acompanhada por uma redução relativa da resistência vascular sistêmica, o que facilita a circulação uterina (MONTEIRO, et al. 2024). Apesar desses mecanismos de compensação, o sistema cardiovascular da cadela gestante torna-se mais vulnerável a situações de estresse, como a anestesia.

Durante a gestação, a cadela apresenta adaptações respiratórias significativas que têm impacto direto na anestesia inalatória. O aumento do consumo de oxigênio, necessário para suprir as demandas metabólicas da mãe e do feto, aliado à redução da capacidade funcional residual pulmonar devido ao deslocamento diafragmático pelo útero em crescimento, reduz a reserva respiratória disponível. Essa combinação torna a cadela mais vulnerável à hipoxemia, especialmente durante indução anestésica ou episódios de apneia, podendo comprometer rapidamente a oxigenação materna e fetal (MONTEIRO, et al. 2024).

Outro ponto relevante é que a hiperventilação fisiológica da gestação, estimulada pela progesterona, aumenta a ventilação alveolar e diminui os níveis de dióxido de carbono (PaCO₂). A complacência torácica também diminui devido à compressão do diafragma e à alteração da geometria torácica, resultando em volumes correntes menores e maior trabalho respiratório. Em combinação com a supressão reflexa respiratória induzida pelos anestésicos inalatórios, essa redução da complacência pode levar rapidamente à hipoventilação, queda da oxigenação e acúmulo de CO₂, aumentando o risco de acidose respiratória e prejuízo fetal (MONTEIRO, et al. 2024).

Além disso, a resistência das vias aéreas pode ser aumentada pela congestão mucosa e pelo edema leve das mucosas respiratórias, comum na gestação, tornando a intubação orotraqueal mais desafiadora. O uso de tubos traqueais adequados e a lubrificação correta, junto à seleção de técnicas de ventilação assistida ou controlada, tornam-se essenciais para garantir ventilação eficiente durante o procedimento anestésico (MONTEIRO, et al. 2024). A préoxigenação, idealmente por 3 a 5 minutos antes da indução, é uma medida fundamental para aumentar o estoque de oxigênio nos pulmões, prolongando a tolerância da cadela a períodos de apneia ou ventilação insuficiente.

Outro aspecto importante é a redistribuição do fluxo sanguíneo pulmonar durante a gestação, que pode reduzir a eficiência da troca gasosa. Associado ao efeito depressor respiratório dos anestésicos inalatórios, isso torna o organismo materno mais sensível à hipoventilação induzida por anestesia profunda. A ventilação mecânica controlada ou assistida ajuda a manter volumes correntes adequados e pressão alveolar suficiente, minimizando riscos de atelectasia e melhorando a oxigenação (MONTEIRO, et al. 2024).

2.4 Alterações no Sistema Nervoso Central (SNC)

No sistema nervoso central da cadela em gestação, os níveis elevados de progesterona e outros hormônios esteroides aumentam a sensibilidade aos anestésicos inalatórios. Essa condição reduz a concentração alveolar mínima (MAC) necessária para atingir o plano anestésico, permitindo que doses menores sejam eficazes, mas aumentando o risco de depressão cardiorrespiratória se a titulação não for precisa (MONTEIRO, et al. 2024).

A modulação do limiar nociceptivo por endorfinas endógenas permite o uso de técnicas multimodais, combinando anestésicos inalatórios com opioides ou anestésicos locais, preservando estabilidade materna e minimizando efeitos sobre os fetos. A monitorização detalhada da profundidade anestésica e dos parâmetros vitais é fundamental durante a cesariana (MONTEIRO, et al. 2024).

A depressão do SNC também interfere no controle da respiração e da pressão arterial, reforçando a importância de monitorização contínua de frequência cardíaca, pressão arterial, capnografia e SpO₂. (MONTEIRO, et al. 2024).

2.5 Alterações no Sistema Digestório

A gestação provoca alterações importantes no sistema digestório da cadela, que impactam diretamente a anestesia inalatória. O relaxamento da musculatura lisa gastrointestinal, induzido pela progesterona, retarda o esvaziamento gástrico e diminui a motilidade intestinal, aumentando o risco de regurgitação e aspiração durante o procedimento anestésico. A compressão do estômago pelo útero em crescimento potencializa esse efeito, tornando a proteção das vias aéreas crítica. Por isso, a intubação orotraqueal rápida, com cuff bem posicionado, é obrigatória. Além disso, estratégias pré-anestésicas, como jejum adequado, uso de antieméticos ou bloqueadores H₂, podem reduzir a acidez gástrica e o volume do conteúdo estomacal, minimizando riscos respiratórios (MONTEIRO, et al. 2024).

Monitorização constante de parâmetros respiratórios e cardíacos complementa a segurança anestésica, prevenindo intercorrências digestivas que possam repercutir na perfusão uteroplacentária e no bem-estar fetal (MONTEIRO, et al. 2024).

2.6 Alterações no metabolismo dos fármacos

A gestação altera a farmacocinética e farmacodinâmica dos fármacos anestésicos na cadela. O aumento do volume plasmático e do débito cardíaco influencia a distribuição de agentes inalatórios, enquanto alterações hepáticas moduladas por hormônios gestacionais podem afetar o metabolismo e a eliminação de alguns anestésicos. Agentes lipofílicos, como certos anestésicos voláteis, podem ter maior distribuição nos tecidos maternos, prolongando seus efeitos (MONTEIRO, et al. 2024).

A filtração glomerular aumentada acelera a eliminação de alguns medicamentos, enquanto a perfusão hepática alterada pode reduzir a biotransformação de outros, tornando a resposta à anestesia mais imprevisível. Além disso, parte dos anestésicos inalatórios atravessa a placenta, podendo induzir depressão fetal se a dose materna não for cuidadosamente controlada. Por isso, a titulação criteriosa da anestesia inalatória, associada a técnicas multimodais, reduz a quantidade necessária de agente inalatório, preservando tanto a estabilidade materna quanto a vitalidade neonatal (LUCENA, et al., 2020).

Outra consideração importante é que a menor MAC (Concentração Alveolar Mínima) durante a gestação exige monitorização detalhada da profundidade anestésica. A utilização de monitorização multiparamétrica permite ajustes em tempo real, evitando tanto subdosagem, que comprometeria analgesia e relaxamento muscular, quanto superdosagem, que poderia causar depressão cardiorrespiratória materna e fetal. Dessa forma, compreender as alterações no metabolismo dos fármacos durante a gestação é essencial para o sucesso da anestesia inalatória em cadelas submetidas à cesariana (LUCENA, et al., 2020).

3 Metodologia 

A metodologia científica é essencial na elaboração de artigos acadêmicos, pois orienta a estruturação dos trabalhos conforme normas técnicas, assegura a qualidade da pesquisa e contribui para os saberes da literatura científica (Silva, 2023). Dessa forma, a escolha metodológica adequada é fundamental para preservar a relevância dos resultados obtidos.

A metodologia adotada neste estudo consiste em uma pesquisa bibliográfica descritiva e qualitativa, com enfoque em revisão integrativa da literatura (Souza et al., 2023). Lançar mão sobre esse tipo de abordagem, permite reunir, analisar e sintetizar de forma crítica as evidências científicas disponíveis sobre anestesia inalatória, contemplando estudos experimentais, clínicos e de revisão. Segundo Martins (2022), a metodologia descritiva qualitativa é amplamente utilizada em pesquisas científicas, pois, embora não apresente critérios rigorosos de seleção como os estudos sistemáticos, possibilita a apresentação de conclusões e resultados de artigos científicos, favorecendo análises reflexivas e discussões teóricas aprofundadas.

O objetivos desde é apresentar uma revisão bibliográfica abrangente sobre a anestesia inalatória, compreender as particularidades desse tipo de anestesia no contexto obstétrico veterinário, explorar como essas alterações fisiologicas da gestação interferem na resposta anestésica e identificar os principais sinais clínicos observados durante a anestesia. Por meio dessa análise, busca-se fornecer uma visão consolidada e atualizada sobre o tema, e aprimorar as práticas anestésicas seguras e eficazes na prática veterinária.

A pesquisa bibliográfica de natureza descritiva e qualitativa teve por objetivo compreender um tema específico com base em estudos previamente publicados em bases de dados reconhecidamente confiáveis. Além disso, essa abordagem possibilitou reflexões aprofundadas e a proposição de novas investigações como base para o desenvolvimento de concepções inovadoras (Furidha, 2024; Arantes, 2023). Assim, entendeu-se que essa metodologia poderia apoiar tomadas de decisão mais fundamentadas no que tange aos impactos da anestesia inalatória sobre essas fêmeas gestantes..

A busca bibliográfica foi realizada em bibliotecas virtuais, com a obtenção dos dados ocorrendo em três das principais plataformas de pesquisa acadêmica: Scielo, PubMed e Academia Edu, amplamente reconhecidas por sua relevância em investigações científicas nas áreas de saúde e ciências biológicas. Essas plataformas foram selecionadas devido à sua robustez e ao grande número de estudos revisados por pares que disponibilizam. A pesquisa utilizou descritores, incluindo: “Gestação”, “Cesariana”, “Neonato”, “Anestesia Inalatória” e “Efeitos” (BERNARDI et al., 2025).

Os termos escolhidos foram cuidadosamente elaborados para contemplar aspectos clínicos e éticos na conduta voltada à anestesia inalatória. A pesquisa foi refinada por filtros que restringiram os resultados a artigos publicados entre 2021 e 2025, garantindo referências contemporâneas que refletissem as práticas e discussões mais atuais sobre o tema (SCHIEFLER et al., 2025). De forma similar, Schiefler (2025) conduziu uma revisão qualitativa da literatura, aplicando buscas com descritores específicos e filtros temporais para assegurar que os estudos selecionados representassem as práticas atuais no manejo anestésico na rotina veterinária.

Os critérios de elegibilidade para a seleção dos artigos foram claramente definidos. Foram incluídos artigos científicos publicados entre 2021 e 2025, disponíveis em português ou inglês, compreendendo estudos de campo, estudos de caso, revisões ou metanálises, que abordassem, em títulos ou resumos, ao menos um dos descritores relacionados à temática proposta. Foram excluídos artigos que se desviavam do tema central, apresentavam resumos ou textos incompletos, ou tratavam de insuficiência venosa crônica associada a condições de alto risco devido a patologias relacionadas. O fluxograma detalhando as etapas metodológicas encontra-se ilustrado na Figura 1.

Figura1 – Fluxograma organizacional de seleção dos artigos.

Fonte: Autora

4 Resultados e discussões 

A estratégia de busca eletrônica identificou 74 estudos nas bases SciELO, PubMed e Academia.edu. Após a leitura dos títulos, 29 estudos duplicados e 35 que não respondiam à questão norteadora foram excluídos, garantindo a seleção de trabalhos relevantes e alinhados aos objetivos da revisão. Dessa forma, 14 artigos foram submetidos à leitura crítica de resumos e textos completos, dos quais 4 não se adequaram aos critérios de inclusão e aos objetivos da pesquisa. Assim, 10 artigos compuseram a amostra final, sendo 3 provenientes da SciELO, 4 do PubMed e 3 da Academia.edu, refletindo a diversidade de fontes e o rigor metodológico aplicado na seleção.

Essa amostra permitiu uma análise aprofundada, incluindo variações de agentes inalatório, técnicas adjuvantes e efeitos maternos e neonatais. A seleção criteriosa dos artigos garante que os dados apresentados na Tabela 1 reflitam os achados mais recentes e relevantes sobre anestesia inalatória, fortalecendo a confiabilidade e a validade desta revisão da literatura. 

Tabela 1 – Distribuição dos Artigos Incluídos nos Resultados e Discussão.

Legenda: Anestesia Inalatória em Cesarianas de Cadelas (AIC). Fonte: Autores.

A anestesia inalatória constitui um tema central na anestesiologia veterinária, devido à sua influência direta sobre a estabilidade hemodinâmica materna e a vitalidade neonatal. Diversos autores discutem que, embora técnicas adjuvantes, como bloqueio epidural lombossacral ou analgesia multimodal, sejam eficazes e seguras, sua concentração e o protocolo de administração permanecem determinantes para a segurança do procedimento (Silva et al., 2021; Oliveira et al., 2022). Essa constatação traz a luz não apenas os efeitos individuais dos anestésicos inalatório, mas também como suas combinações com outros fármacos que podem impactar a fisiologia da gestante e do neonato.

Estudos recentes indicam que isoflurano e sevoflurano, quando combinados com protocolos balanceados ou pré-medicação adequada, promovem melhor estabilidade cardiovascular, recuperação anestésica mais rápida e menor depressão neonatal (Antończyk et al., 2023; Souza et al., 2020). Entretanto, alguns autores argumentam que a eficácia da analgesia regional ou multimodal pode reduzir diferenças entre os agentes inalatório, sugerindo que os anestésicos isolados tem efeito variável dependendo do protocolo e condições da cadela. 

A literatura também aponta limitações do uso isolado da anestesia inalatória, com risco anestésico aumentado, gestação múltipla ou condições clínicas concomitantes (Ferreira et al., 2021; Pereira et al., 2020). Autores defendem que protocolos combinados com ventilação controlada e monitorização rigorosa são essenciais para minimizar riscos, enquanto outros destacam que ajustes na dose e tipo de anestésico inalatório podem ser suficientes quando em baixo risco. Essas discussões mostram que, embora existam consensos sobre segurança, há ainda divergências quanto às estratégias mais adequadas para diferentes perfis de pacientes.

Protocolos que associam agentes inalatório a técnicas adjuvantes, como analgesia multimodal, tendem a reduzir o estresse que o neonatal pode vir a sofrer, e melhorando assim os parâmetros sanguíneos dos recém-nascidos (Martins et al., 2022; Ribeiro et al., 2023). No entanto, alguns autores observam que diferenças entre isoflurano e sevoflurano podem ser sutis e dependem da experiência do anestesista e do manejo intraoperatório, evidenciando a complexidade do tema, buscando assim a padronização de protocolos.

Outro ponto de discussão relevante é a lacuna científica existente: apesar da ampla utilização da anestesia inalatória, poucos estudos analisam seus efeitos isolados, sem combinação com outros fármacos ou técnicas. Essa limitação é apontada por diversos autores como uma oportunidade para futuras pesquisas, permitindo entender melhor os mecanismos específicos dos anestésicos inalatório e aprimorar protocolos clínicos (Carvalho et al., 2024; Costa et al., 2019).

Dessa forma, esta revisão evidencia que, mesmo com consenso sobre a eficácia de técnicas adjuvantes, o agente inalatório permanece crítico para resultados maternos e neonatais. Ao consolidar os achados dos diferentes autores, este estudo reforça a relevância científica e clínica da anestesia inalatória, fornecendo subsídios para fundamentar decisões anestésicas baseadas em evidências e destacando lacunas e oportunidades para pesquisa futura. 

5 Conclusão/considerações finais

A anestesia inalatória se configura como técnica essencial, promovendo estabilidade hemodinâmica materna, recuperação anestésica eficiente e preservação da gestante e do neonato. Quando combinada a protocolos balanceados ou técnicas adjuvantes, seus efeitos são potencializados, garantindo maior segurança e eficácia do procedimento.

Mesmo considerando a eficácia de bloqueios regionais, analgesia multimodal, sua concentração e associação com outros protocolos continuam determinantes para os resultados maternos e neonatais, reforçando as decisões clínicas individualizadas. Em cadelas com risco anestésico aumentado ou condições clínicas complexas, a anestesia inalatória isolada apresenta limitações, buscando assim um olhar sobre a monitorização rigorosa e ajustes específicos de protocolo.

Os achados indicam ainda que as técnicas adjuvantes reduzem flutuações hemodinâmicas, melhora a vitalidade neonatal e favorece uma recuperação materna mais rápida, demonstrando que a anestesia inalatória é um componente central para o sucesso do parto cesariano.

A análise crítica dos estudos permite identificar lacunas na literatura, indicando oportunidades para futuras pesquisas e reforçando a prática veterinária baseada em evidências.

Portanto, a revisão evidencia que a anestesia inalatória não apenas é eficaz, mas também possui relevância científica e prática, fornecendo subsídios para aprimorar protocolos anestésicos, consolidando seu papel como tema atual e de alto impacto na anestesiologia veterinária. 

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1Discente do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro
Universitário do Norte – UNINORTE – Manaus/AM.
2Docente do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro
Universitário do Norte – UNINORTE – Manaus/AM. Especializada em Clínica Médica de Pequenos Animais (Fameesp) 032002899@prof.uninorte.com.br