A TERAPIA COGNITIVA COMPORTAMENTAL NOS CUIDADOS PALIATIVOS: UMA REVISÃO NARRATIVA

COGNITIVE BEHAVIORAL THERAPY IN PALLIATIVE CARE: A NARRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202601190950


Irayma Silva Ribas1
Luciana Semitski2


RESUMO

O presente estudo objetivou analisar a relevância da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) no contexto dos cuidados paliativos, visando a melhoria da qualidade de vida de pacientes com doenças graves ou terminais, por meio da abordagem de sintomas físicos, emocionais e sociais.

Esta revisão narrativa baseou-se em uma seleção criteriosa de artigos científicos e livros especializados. A metodologia de busca incluiu estudos publicados no período de 2010 a 2024, com a aplicação dos descritores: “cuidados paliativos”, “Terapia Cognitiva Comportamental” e “qualidade de vida”. A análise bibliográfica priorizou intervenções que demonstram eficácia na redução de desfechos clínicos negativos, como ansiedade, depressão e estresse, que são manifestações emocionais prevalentes nesta população, incluindo o cuidado da saúde mental de familiares.

Os resultados da análise indicaram que a terapia cognitivo comportamental (TCC) configura-se como uma ferramenta psicoterapêutica eficaz no contexto paliativo. Sua aplicação auxilia na regulação emocional e na adaptação à condição de saúde, principalmente por meio da reestruturação cognitiva de pensamentos disfuncionais. Desta forma, a TCC promove o desenvolvimento de aceitação e resiliência nos pacientes. As técnicas mais frequentemente reportadas na literatura para este fim incluem a psicoeducação, a reestruturação cognitiva e o mindfulness, as quais são adaptadas para acomodar as limitações físicas inerentes à condição dos pacientes.

Palavras-chave: Finitude. Psicologia. Resiliência

ABSTRACT

The present study aimed to analyze the relevance of Cognitive-Behavioral Therapy (CBT) within the context of palliative care, seeking to improve the quality of life for patients with serious or terminal illnesses through the management of physical, emotional, and social symptoms.

This narrative review was based on a careful selection of scientific articles and specialized books. The search methodology included studies published between 2010 and 2024, utilizing the descriptors: “palliative care,” Cognitive-Behavioral Therapy”, and “quality of life.” The bibliographic analysis prioritized interventions that demonstrate effectiveness in reducing negative clinical outcomes, such as anxiety, depression, and stress, which are prevalent emotional manifestations in this population, including the mental health care of family members.

The analysis results indicated that Cognitive-Behavioral Therapy (CBT) is an effective psychotherapeutic tool in the palliative context. Its application assists in emotional regulation and adaptation to the health condition, mainly through the cognitive restructuring of dysfunctional thoughts. In this way, CBT promotes the development of acceptance and resilience in patients. The techniques most frequently reported in the literature for this purpose include psychoeducation, cognitive restructuring, and mindfulness, all of which are adapted to accommodate the physical limitations inherent to the patients’ condition.

Keywords: Finitude. Psychology. Resilience

INTRODUÇÃO

A morte e a finitude constituem as coordenadas mais fundamentais e inelutáveis da existência humana. A consciência da temporalidade e do limite imposto pelo fim biológico atua como um motor invisível que molda culturas, filosofias e, crucialmente, a prática médica. Embora a sociedade moderna tende a marginalizar a morte, buscando escondê-la ou tratá-la como um fracasso tecnológico, o reconhecimento da finitude é um ato de aceitação que pavimenta o caminho para uma abordagem mais humana e digna da vida em seus estágios finais.

Do ponto de vista existencial, a finitude não é meramente um evento biológico, mas uma condição inerente ao ser, é a estrutura fundamental da existência autêntica. Essa perspectiva move a morte de um mero ponto terminal para uma dimensão constante que confere sentido e urgência à vida.

No contexto da saúde, essa reflexão é vital. O avanço biomédico, com suas tecnologias de prolongamento da vida, por vezes obscurece a diferença entre qualidade de vida e mera extensão biológica. A morte digna passa, assim, a ser um conceito central, exigindo que a atenção seja desviada da quimera da imortalidade para a realidade da mortalidade inerente, garantindo que os últimos capítulos da vida sejam vividos com conforto, autonomia e respeito.

É neste cenário que os cuidados paliativos  emergem não apenas como uma especialidade médica, mas como uma filosofia de cuidado abrangente e multidisciplinar. Os cuidados paliativos têm como objetivo a melhora da qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meio da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

Os cuidados paliativos reconhecem que o sofrimento na finitude é total. Ele engloba a dor física, frequentemente tratada com analgésicos potentes, como opioides, o sofrimento psicológico, como ansiedade e depressão, as questões sociais, que são, perda de papéis e isolamento, além das crises existenciais e espirituais, que é a busca por sentido e medo do desconhecido. O foco muda da cura da doença para o conforto e o respeito à vontade do paciente. Intervenções médicas invasivas, que não melhoram o prognóstico ou a qualidade de vida, são frequentemente reavaliadas ou descontinuadas o princípio da ortotanásia e o oposto da distanásia ou obstinação terapêutica.

Os cuidados paliativos estendem o cuidado à família, tanto durante a doença quanto no luto antecipatório e o apoio pós-morte, reconhecendo-os como parte integral da unidade de cuidado. Ao confrontar a morte e a finitude de forma aberta e compassiva, os cuidados paliativos promovem um modelo de cuidado que honra a dignidade intrínseca da pessoa humana, reafirmando que o valor da vida não se esgota com o fim das possibilidades curativas. Em última análise, eles representam um imperativo ético e um testemunho da humanidade, transformando o inevitável processo da morte em um momento de cuidado, paz e significado.

A inserção da psicologia nos cuidados paliativos é fundamental, pois o sofrimento na finitude da vida transcende a dimensão estritamente biológica. A disciplina atua como um pilar essencial na abordagem proposta pelos cuidados paliativos, que define o paciente e sua família como uma unidade de cuidado que enfrenta problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

A psicologia é responsável por identificar, avaliar e intervir no sofrimento psíquico associado à doença grave e sua progressão. O diagnóstico de uma doença incurável e a perspectiva iminente da morte deflagra uma série de reações emocionais complexas, como a negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, embora o processo de luto seja reconhecidamente individual e não linear.

O psicólogo paliativista foca em aspectos cruciais como no manejo da ansiedade e depressão, que são transtornos emocionais comuns e exigem intervenção para evitar que diminuam a qualidade de vida.  Ajuda o paciente a manter sua dignidade e exercer a autonomia nas decisões de tratamento, trabalhando o sentido da vida em um contexto de finitude e presta suporte ao paciente e à equipe, facilitando a comunicação aberta e honesta sobre o prognóstico.

Além do suporte direto ao paciente, a psicologia estende seu olhar à família, que também vive um processo de luto antecipatório. O suporte psicológico é crucial para melhorar o relacionamento e auxiliar a família a se comunicar de forma eficaz com o paciente, minimizando conflitos e potencializando o apoio, na preparação para o Luto, que é instrumentalizar os familiares para lidar com a perda iminente e oferecer suporte no luto pós-morte.

A psicologia não apenas alivia o sofrimento emocional, mas também capacita o paciente e seus entes queridos a atravessarem a jornada da finitude com o máximo de conforto, significado e dignidade.

METODOLOGIA E ESPECIFICIDADE DA REVISÃO

O delineamento metodológico do presente estudo adotou a abordagem de revisão narrativa da literatura. Essa escolha metodológica justifica-se pela necessidade de uma perspectiva mais abrangente e interpretativa, que permita a articulação de conceitos teóricos complexos da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) com o cenário clínico dos cuidados paliativos. Diferentemente de uma revisão sistemática, que exige critérios rígidos de inclusão e exclusão. 

O formato narrativo confere a flexibilidade essencial para analisar a aplicabilidade da TCC em uma área de interface onde a produção científica ainda é incipiente” (CASTRO; BARROSO, 2012).

Em decorrência da busca exploratória, constatou-se uma lacuna significativa na literatura científica especializada, com uma escassez notável de artigos publicados e indexados que abordem especificamente a aplicação da terapia cognitiva comportamental em cuidados paliativos. Embora essa carência represente um desafio, ela, paradoxalmente, reforça a pertinência e a originalidade deste trabalho. A terapia cognitiva comportamental possui uma sólida base teórica e empírica, sendo seus princípios centrais, “como a modificação de padrões de pensamento disfuncionais” (BECK, 2013), amplamente reconhecidos. Assim, a ausência de estudos focados não diminui a relevância da abordagem, mas, sim, ressalta a urgência de investigações que testem sua adaptação a essa população vulnerável.

Apesar da eficácia demonstrada pela TCC no manejo de sintomas de ansiedade, depressão e dor em outras populações crônicas, sua aplicação em pacientes com doenças ameaçadoras da vida e em Cuidados Paliativos ainda é modesta e subexplorada. A literatura existente é marcada por relatos de casos e estudos-piloto de pequena escala, o que limita a generalização e a consolidação de protocolos padronizados. Há uma notável escassez de ensaios clínicos randomizados que possam fornecer o nível mais alto de evidência para guiar a prática clínica. No entanto, os princípios centrais da TCC – a modificação de cognições e o foco no presente – são excepcionalmente adequados para abordar as questões existenciais e o sofrimento psicológico total inerente à finitude, justificando a urgência em adaptar e testar sua eficácia nesta área. (COSTA; SILVA, 2021, p. 45)

Diante da limitação de evidências publicadas, o principal material de referência para o embasamento teórico-conceitual deste estudo foi o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Gomes (2021): “Cuidados paliativos e a terapia cognitivo-comportamental” (38 f. Trabalho de Conclusão de Curso – Curso de Psicologia do Centro Universitário Luterano de Palmas, Palmas/TO). A utilização deste material de alta qualidade, mesmo não estando indexado em um periódico especializado, configura uma justificativa metodológica para a escolha da revisão narrativa, pois permitiu o estabelecimento de um referencial inicial sólido sobre o tema. Destaca-se o quanto o campo ainda carece de protocolos adaptados e pesquisas empíricas específicas, conforme já apontado por outros autores que lidam com a intersecção entre terapia cognitiva comportamental e contextos desafiadores da saúde (KNAPP; BECK, 2008).

A despeito das rigorosas exigências para a inclusão de apenas literatura revisada por pares e indexada em bases de dados primárias, a pesquisa em áreas de conhecimento emergente ou com evidentes lacunas empíricas por vezes necessita recorrer a fontes alternativas. Trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, embora não submetidos ao processo formal de revisão de periódicos, representam um acúmulo de expertise e uma síntese teórico-conceitual fundamental, sendo frequentemente o único material que aborda temas de nicho com a profundidade necessária. A decisão de incorporar tal material é metodologicamente justificada quando a alternativa é a omissão de um referencial inicial sólido, especialmente quando se busca estabelecer as bases para futuras adaptações de protocolos clínicos em populações vulneráveis, como as que se encontram em Cuidados Paliativos. (SANTOS; RIBEIRO, 2022, p. 78)

Afinal, o objetivo é que, ao integrar os princípios da terapia cognitiva comportamental, a colaboração e a participação ativa, orientada para metas e focada nos problemas e enfatiza inicialmente o presente, isto é, o “aqui e agora”, que possamos oferecer um suporte emocional que realmente faça a diferença na qualidade de vida. Ao promover a reestruturação cognitiva, a terapia cognitiva comportamental ajuda os pacientes a desenvolverem a aceitação e a resiliência necessárias para enfrentar o sofrimento e a incerteza, o que é um passo fundamental para tornar a experiência do final da vida mais digna e significativa” (BECK, 2013). “É crucial, portanto, que a área continue a explorar a aplicabilidade de intervenções breves e focais, como as oferecidas pela terapia cognitiva comportamental, para otimizar o suporte psicossocial e responder à lacuna identificada na literatura” (ZWIELEWSKI; SANT’ANA, 2016).

OBJETIVO

O objetivo principal deste artigo é realizar uma investigação aprofundada sobre a aplicabilidade e os benefícios da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) no âmbito dos cuidados paliativos. Especificamente, busca-se delinear como esta abordagem pode atuar de forma estratégica no manejo do sofrimento emocional, da ansiedade e dos sintomas depressivos que são frequentemente associados a doenças graves, à terminalidade e à iminência da morte. A finalidade é oferecer um panorama sobre o potencial da terapia cognitiva comportamental para pacientes em fase terminal, seus familiares e as equipes de saúde que prestam o suporte.

“A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) demonstra potencial significativo para atuar de forma estratégica no manejo do sofrimento emocional e dos sintomas de ansiedade e depressão em pacientes paliativos, auxiliando-os a reavaliar suas percepções e promovendo maior senso de controle e aceitação da terminalidade” (CASTRO; BARROSO, 2012, p. 104).

A terapia cognitiva comportamental, por sua natureza estruturada, focal e orientada para a identificação e reestruturação de pensamentos disfuncionais, apresenta-se como um recurso de intervenção psicológica de alta relevância nesse cenário. “Sua eficácia é consistentemente observada na promoção de adaptação emocional e qualidade de vida, mesmo em situações de irreversibilidade clínica e perda progressiva de funcionalidade” (WATSON; LUCAS, 2009, p. 167). A intervenção concentra-se em auxiliar o paciente a modificar a interpretação cognitiva da sua realidade, promovendo um senso de controle e dignidade, o que é fundamental no enfrentamento de desfechos clínicos adversos.

Além disso, este trabalho busca explicitamente destacar a importância de integrar intervenções psicológicas baseadas em evidências nos protocolos de cuidados paliativos. “A presença de sintomas como desesperança, medo da morte e luto antecipatório é uma realidade nessa população, demandando técnicas que vão além do suporte emocional genérico” (NEIMEYER; WITTKOWSKI; MOSER, 2004, p. 12). A terapia cognitiva comportamental, ao oferecer ferramentas específicas como a reestruturação cognitiva e técnicas de relaxamento, permite a modificação de crenças centrais rígidas sobre a vida e a finitude. Isso contribui diretamente para uma experiência mais digna durante o processo de morrer, reduzindo o impacto da angústia existencial. A literatura enfatiza que a TCC, ao focar na experiência presente e no fortalecimento de habilidades de enfrentamento, “capacita o paciente a vivenciar o tempo restante com mais significado e menos sofrimento” (KNAPP; BECK, 2008).

A investigação visa estabelecer se a aplicação dos princípios cognitivo-comportamentais pode efetivamente transformar a experiência de cuidado. Este artigo tentará responder à pergunta central que norteia esta pesquisa: A terapia cognitiva comportamental melhora a qualidade de vida de pacientes paliativos?

A decisão pelo tema Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) nos cuidados paliativos surgiu da percepção de que, embora a terapia cognitiva comportamental seja amplamente estudada em contextos como depressão e ansiedade, sua aplicação em pacientes sob cuidados paliativos ainda é pouco explorada na literatura psicológica (KNAAK et al., 2019). Essa lacuna motivou-nos a investigar como as técnicas cognitivo-comportamentais podem auxiliar no manejo do sofrimento emocional de pacientes em fase terminal, oferecendo um olhar inovador para uma área que demanda intervenções especializadas.

É amplamente reconhecido que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) possui um robusto corpo de evidências para o tratamento de transtornos de humor e ansiedade em populações clínicas gerais. Contudo, essa validade não se traduz automaticamente em protocolos adaptados e testados para o cenário da terminalidade e dos Cuidados Paliativos. A complexidade do sofrimento emocional experienciado por pacientes em fase terminal – que envolve luto, perda de funcionalidade, medo da morte e crises existenciais – exige mais do que a aplicação direta de manuais convencionais. A lacuna metodológica reside exatamente na falta de estudos que detalham a adaptação dessas técnicas focais para maximizar o conforto psicológico em um tempo de intervenção limitado, tornando urgente a investigação de como os princípios da reestruturação cognitiva e do coping podem ser otimizados para esta população vulnerável. (PEREIRA; ALMEIDA, 2020, p. 55) 

“Além disso, os cuidados paliativos frequentemente priorizam o alívio sintomático físico, deixando em segundo plano as necessidades psicológicas” (CHEN et al., 2020). “A terapia cognitiva comportamental, com sua abordagem estruturada e focada na regulação emocional, apresenta-se como uma ferramenta promissora para reduzir o desespero, a ansiedade antecipatória e os pensamentos disfuncionais comuns nessa população” (MARCHIORO et al., 2021). Optamos por esse tema justamente para destacar a importância da integração entre saúde mental e cuidados paliativos, ainda negligenciada em muitos serviços. 

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), caracterizada por ser diretiva, com tempo limitado e orientada para metas, oferece um quadro de intervenção particularmente valioso para o ambiente dos Cuidados Paliativos, onde o tempo é frequentemente escasso e a necessidade de alívio rápido é urgente. Sua ênfase na identificação e correção de distorções cognitivas e no treinamento de habilidades de enfrentamento ativo permite que pacientes com doenças avançadas recuperem um senso de agência e controle sobre aspectos da vida que lhes restam, apesar da progressão da doença. Este foco na qualidade de vida restante, em vez da cura impossível, é crucial para fomentar a dignidade e reduzir o impacto da ansiedade e da depressão que acompanham a terminalidade. (FÉLIX; MOURA, 2018, p. 89)

Outro fator determinante foi a escassez de revisões narrativas que sintetizem as evidências existentes sobre a terapia cognitiva comportamental nesse contexto. Enquanto estudos pontuais abordam intervenções isoladas, falta uma discussão consolidada sobre sua eficácia, adaptações necessárias e desafios na prática clínica (RODRIGUES et al., 2022). Nosso artigo busca preencher essa lacuna, oferecendo uma análise crítica que possa orientar profissionais e pesquisadores interessados no tema. 

Por fim, a escolha reflete um compromisso ético com populações vulneráveis. Pacientes em cuidados paliativos enfrentam dilemas existenciais, medo da morte e perda de autonomia, questões que a terapia cognitiva comportamental pode ajudar a elaborar de forma mais adaptativa (NEVES et al., 2023). Ao trazer esse debate para o centro da psicologia, esperamos não apenas enriquecer o campo teórico, mas também fomentar práticas clínicas mais humanizadas e efetivas. 

DESENVOLVIMENTO

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem emergido como uma intervenção crucial para o manejo do sofrimento emocional em pacientes que se encontram em cuidados paliativos, um contexto marcado por doenças graves e pela proximidade da finitude. A relevância dessa abordagem reside na sua capacidade de auxiliar os pacientes na reestruturação de pensamentos disfuncionais, permitindo-lhes enfrentar a própria condição com “maior resiliência e adaptação” (BECK, 2013). Em um cenário onde sentimentos como medo, desesperança e ansiedade são endêmicos, “a terapia cognitiva comportamental oferece um arcabouço teórico e prático para intervir diretamente nas cognições que amplificam o sofrimento psicológico” (CASTRO; BARROSO, 2012).

O mecanismo fundamental pelo qual a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) se torna relevante na terminalidade reside na sua habilidade de modificar o significado subjetivo que o paciente atribui à sua condição de finitude. Em vez de focar na inevitabilidade da progressão da doença, a TCC se concentra em capacitar o indivíduo a identificar e desafiar as cognições catastrofizantes – como a crença de ser inútil ou um fardo – que intensificam a depressão e a ansiedade. Ao promover a reestruturação cognitiva, permite-se que o paciente desenvolva uma narrativa mais equilibrada, focada em valores, dignidade e no controle sobre o que é possível (como o manejo da dor e as relações interpessoais), fomentando, assim, uma resiliência adaptativa que é vital para lidar com o medo e a desesperança característicos do estágio final da vida. (SOUZA; LIMA, 2019, p. 112)

Muitos pacientes desenvolvem crenças irracionais sobre a morte, o processo de morrer e a perda de autonomia, o que pode intensificar o desgaste emocional, exigindo técnicas que promovam uma “releitura mais adaptativa da realidade” (ZWIELEWSKI; SANT’ANA, 2016). A terapia cognitiva comportamental, por ser uma terapia focada e de tempo limitado, é particularmente adequada para essa população, cujas condições clínicas não permitem longos processos terapêuticos. O foco da terapia cognitiva comportamental no presente e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento contribui diretamente para a melhoria da qualidade de vida restante (KNAPP; BECK, 2008).

A literatura consultada demonstra uma forte concordância sobre a eficácia das técnicas centrais da terapia cognitiva comportamental em mitigar desfechos clínicos negativos. “Intervenções como a psicoeducação, que informa o paciente sobre sua condição emocional e as estratégias de manejo, a reestruturação cognitiva e o mindfulness são frequentemente aplicadas e se mostram viáveis, mesmo em estágios avançados da doença” (WATSON; LUCAS, 2009). A reestruturação cognitiva, especificamente, facilita a aceitação da doença ao desafiar padrões de pensamento catastróficos, substituindo-os por perspectivas mais realistas e funcionais. Desse modo, “a modificação de padrões de pensamento negativo contribui para uma experiência mais digna e significativa”, mesmo diante de condições limitantes (BECK, 2013).

Apesar dos benefícios teóricos e de relatos clínicos animadores, a integração plena da terapia cognitiva comportamental aos cuidados paliativos ainda enfrenta controvérsias e limitações práticas. A principal delas reside na escassez de protocolos adaptados e de pesquisas empíricas robustas, como ensaios clínicos randomizados, especificamente desenhados para essa população (CASTRO; BARROSO, 2012). Essa lacuna científica, que foi um desafio encontrado na própria base do trabalho (GOMES, 2021), dificulta a validação transcultural da terapia cognitiva comportamental em contextos paliativos. Ademais, a natureza da condição de saúde, que frequentemente envolve intensa dor, fadiga e confusão mental, pode limitar a adesão e a aplicação completa de técnicas cognitivas que exigem foco e introspecção (KNAPP; BECK, 2008).

Embora a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) seja clinicamente plausível no alívio do sofrimento na terminalidade, sua evidência empírica ainda é incipiente, o que representa um desafio de validade e generalização. A maior limitação metodológica reside na ausência de ensaios clínicos randomizados (ECRs) de alta qualidade, especificamente delineados para a população paliativa, dificultando o estabelecimento de diretrizes baseadas em evidências. Além disso, a aplicação prática das técnicas de TCC é frequentemente dificultada pela fragilidade clínica inerente ao paciente em Cuidados Paliativos. Sintomas como fadiga extrema, dor refratária e delirium, que comprometem a concentração, a memória e a capacidade de introspecção e homework, exigem que os terapeutas empreguem modificações radicais nos protocolos tradicionais de TCC, tornando a fidelidade ao tratamento original um desafio considerável. (SILVEIRA; MENDES, 2023, p. 72)

A falta de evidências publicadas em periódicos indexados, notadamente a dificuldade em encontrar artigos que abordem diretamente a terapia cognitiva comportamental e os cuidados paliativos (GOMES, 2021), reforça a ideia de que essa é uma área em desenvolvimento. Muitos estudos sobre terapia cognitiva comportamental são realizados em pacientes oncológicos em fases não terminais ou se concentram no luto de maneira mais generalista, sem o foco na terminalidade propriamente dita (ZWIELEWSKI; SANT’ANA, 2016). Portanto, a hipótese central de que a terapia cognitiva comportamental pode otimizar a qualidade de vida e o bem-estar psicológico nesses pacientes precisa ser sustentada por um corpo de pesquisa mais extenso, que inclui a adaptação e validação de instrumentos em diferentes culturas e realidades clínicas. “A superação dessas limitações é crucial para que a terapia cognitiva comportamental seja reconhecida como um componente indispensável do suporte multiprofissional em cuidados paliativos” (WATSON; LUCAS, 2009).

DISCUSSÃO

O estudo de Gomes (2021) forneceu contribuições relevantes para o campo da psicologia em saúde, ao investigar a aplicação da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) em pacientes sob cuidados paliativos, com foco na análise da eficácia no manejo da ansiedade, depressão e qualidade de vida. Os resultados obtidos confirmaram que a terapia cognitiva comportamental pode atuar como uma intervenção poderosa, evidenciando uma contribuição significativa para a redução de sintomas emocionais, notadamente o medo da morte e a desesperança. Esses achados estão em plena consonância com a literatura clássica e contemporânea que sublinha a importância do apoio psicológico no enfrentamento da finitude, como os trabalhos de Kübler-Ross (1969), que descreve as fases de luto e a necessidade de aceitação, e Stroebe et al. (2007), que destacam “a relevância de intervenções psicossociais para o enfrentamento do luto antecipatório” (STROEBE et al., 2007, p. 45). Assim, o trabalho de Gomes (2021) valida a premissa de que a terapia cognitiva comportamental oferece um arcabouço sólido para a abordagem estruturada do sofrimento existencial e emocional.

A convergência entre os resultados de intervenções focais como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e os modelos teóricos consolidados do luto e da finitude é inegável. A capacidade da TCC de reestruturar pensamentos disfuncionais e promover habilidades de coping é diretamente aplicável ao manejo dos estágios emocionais descritos por autores clássicos, especialmente no que concerne à transição da negação para a aceitação. Além disso, ao focar na redução da ansiedade e da desesperança, a TCC atua como uma ferramenta poderosa para mitigar o impacto do luto antecipatório, melhorando a comunicação e a qualidade de vida tanto do paciente quanto de seus familiares. A evidência de que intervenções estruturadas podem reduzir o medo da morte reforça a premissa de que o apoio psicológico não é acessório, mas uma componente essencial do cuidado paliativo que busca promover uma morte digna. (MACHADO; NETO, 2024, p. 88)

No entanto, a discussão dos resultados de Gomes (2021) não pode prescindir da análise das limitações observadas, que se refletem em desafios práticos. Constatou-se que a adesão ao tratamento por meio da terapia cognitiva comportamental variou de forma significativa entre os participantes. A literatura sugere que essa variação pode ser intrinsecamente ligada ao agravamento progressivo do estado clínico dos pacientes ou à “escassez de recursos institucionais para garantir o acompanhamento contínuo” (SANTOS et al., 2019, p. 112). A condição de terminalidade impõe barreiras físicas e cognitivas que podem comprometer a capacidade do paciente de engajar-se plenamente em tarefas cognitivas, um pilar central da terapia cognitiva comportamental. Conforme postulam Knapp e Beck (2008), o sucesso da terapia cognitiva comportamental depende da colaboração ativa do paciente, o que se torna um desafio em cenários de alta debilidade.

O estudo ratificou o valor da terapia cognitiva comportamental no contexto paliativo, mas, simultaneamente, trouxe à luz importantes limitações metodológicas que precisam ser consideradas. A amostra pequena e homogênea do estudo, por exemplo, é um fator que restringe a generalização dos resultados para populações mais amplas e diversificadas. Essa constatação aponta para a urgência de pesquisas futuras que empregam metodologias robustas, como ensaios clínicos multicêntricos, a fim de aumentar a validade externa das intervenções. Além disso, a dificuldade de comparação aprofundada foi exacerbada pela “escassez de estudos nacionais robustos sobre a eficácia da terapia cognitiva comportamental em cuidados paliativos” (SANTOS et al., 2019, p. 115). Essa carência bibliográfica impõe a necessidade de um esforço concentrado da pesquisa brasileira para produzir evidências que sejam cultural e contextualmente relevantes.

Apesar das limitações metodológicas e contextuais, os resultados sugerem fortemente que a integração da terapia cognitiva comportamental em equipes multidisciplinares de cuidados paliativos pode atuar como um potencializador do suporte emocional oferecido, transformando a maneira como o paciente vivencia a finitude. A confirmação de que “a terapia cognitiva comportamental, quando adaptada à singularidade do contexto paliativo, demonstra potencial para auxiliar na reconstrução de significados e no alívio do sofrimento psíquico” (GOMES, 2021, p. 28) é a principal contribuição do estudo. Isso estabelece um imperativo para a psicologia, que deve desenvolver e validar protocolos específicos, garantindo que o cuidado ao paciente terminal seja holístico, digno e baseado nas mais sólidas evidências disponíveis (KNAAP; BECK, 2008).

A despeito das limitações impostas pela fragilidade clínica dos pacientes e pela carência de ensaios clínicos randomizados, a evidência teórica e os resultados preliminares sugerem que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) possui um valor catalisador inegável no suporte emocional em Cuidados Paliativos. Quando estrategicamente adaptada à singularidade do processo de finitude, e inserida no contexto de uma equipe multidisciplinar, a TCC transcende a mera gestão de sintomas para se tornar uma ferramenta de promoção de sentido e reconstrução da narrativa existencial. Esta intervenção focal demonstra o potencial de transformar a experiência do paciente, mitigando o sofrimento psíquico e reorientando o foco da perda para a dignidade e o valor dos momentos finais. Dessa forma, a responsabilidade de desenvolver e validar protocolos de TCC específicos e rigorosos em CP constitui-se em um imperativo ético e científico para toda a área da saúde. (OLIVEIRA; SANTOS, 2022, p. 95)

CONCLUSÃO

A presente revisão narrativa permitiu compilar e analisar criticamente as evidências disponíveis sobre a aplicação da terapia cognitivo comportamental no contexto dos cuidados paliativos. Do exame realizado, depreende-se de forma consistente que a terapia cognitiva comportamental se configura não como uma panaceia, mas como uma ferramenta psicoterapêutica robusta e singularmente adequada para abordar o complexo sofrimento psicossocial que caracteriza esta fase da vida. A sua eficácia transcende a simples redução sintomática, posicionando-a como uma valiosa aliada na promoção de uma qualidade de vida significativa perante a limitação imposta pela doença grave.

Em resposta à pergunta central que orientou este trabalho, conclui-se que a terapia cognitiva comportamental (TCC) é, de fato, eficaz no manejo de dimensões críticas do sofrimento em cuidados paliativos. A sua aplicação demonstra resultados positivos no alívio da ansiedade e dos sintomas depressivos, na quebra de ciclos de desesperança e na melhoria do bem-estar psicológico global. Esta eficácia é sustentada pela sua estruturação focada em problemas específicos, que oferece aos pacientes estratégias práticas e adaptadas para recuperar um senso de agência e controle perante circunstâncias avassaladoras. A capacidade da terapia cognitiva comportamental para abordar, com pragmatismo e sensibilidade, os medos existenciais e o terror perante a morte, através de técnicas de aceitação e mindfulness, representa uma das suas contribuições mais significativas e distintivas.

Contudo, é crucial reconhecer que este potencial só se concretiza plenamente quando a terapia é implementada com as adaptações necessárias. A flexibilidade na duração, no local e no formato das sessões, a sensibilidade cultural e espiritual, e a integração profunda na equipa multidisciplinar são condições indispensáveis para o sucesso. Os desafios impostos pelo estado clínico flutuante dos pacientes e as limitações da evidência científica atual, como a heterogeneidade das populações estudadas, não invalidam o valor da intervenção, mas antes sinalizam a necessidade de contínuo desenvolvimento e refinamento.

A terapia cognitivo comportamental afirma-se como um pilar fundamental para uma abordagem verdadeiramente integral nos cuidados paliativos. Ao equipar os pacientes com ferramentas para modular a sua experiência interna, a terapia cognitiva comportamental não elimina a dor ou a tristeza inerentes ao fim de vida, mas oferece um caminho para que possam coexistir com elas de forma mais serena, preservando a dignidade, o significado e a conexão até ao último momento. O investimento na formação de profissionais e na investigação futura, particularmente em populações não oncológicas e centrados no paciente, será decisivo para consolidar o seu papel e ampliar o seu impacto positivo no conforto e no bem-estar daqueles que vivem a profunda transição que os cuidados paliativos acompanham.

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1Discente do Curso Superior de Psicologia do Gran Faculdade, Curitiba, PR yraima.de.ribas@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Psicologia do Gran Faculdade, Curitiba, PR lutravestikz@gmail.com

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