A CIDADANIA DE UM MULÇUMANO: (IN) ADAPTAÇÕES DE UM IMIGRANTE NO RECIFE-PE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202601130944


Lucivânia Oliveira Vieira1
Rozineide Iraci Pereira da Silva2


RESUMO

Este trabalho tem por desígnio analisar a partir de um estudo de caso, os mecanismos de inserção e marginalização de imigrantes muçulmanos no Brasil no Recife-PE. Para tanto, adota como procedimento um balanço bibliográfico de um conjunto de autores das ciências humanas que, direta ou indiretamente, se debruçaram sobre a temática dos estrangeiros. Num segundo momento, operamos uma delimitação na bibliografia de modo a direcionar para um tipo preciso de estrangeiro: abordaremos as (In) adaptações e interações sociais que tem se verificado com a presença da imigração muçulmana no Brasil. Tal procedimento tem em vista fornecer balizas conceituais e marcos analíticos a fim de ponderarmos um estudo de caso hodierno na cidade do Recife.

Palavras-chaves: Cultura, Identidades Sociais, Intersubjetividade, (In)adaptações e Multiculturalismo.

ABSTRACT

This work aims to analyze, from a case study, the mechanisms of insertion and marginalization of Muslim immigrants in Brazil in Recife-PE. In order to do so, it is adopted as a bibliographic review of a group of authors of the human sciences who, directly or indirectly, dealt with the theme of foreigners. Secondly, we operate a delimitation in the bibliography in order to target a specific type of foreigner: we will discuss the (In) adaptations and social interactions that have occurred with the presence of Muslim immigration in Brazil. This procedure aims to provide conceptual frameworks and analytical frameworks to consider a current case study in the city of Recife.

Keywords: Culture, Social Identity, Intersubjectivity, (In) adaptations and Multiculturalism.

1. INTRODUÇÃO

A pertinência do caso escolhido para observamos as questões da marginalização, adaptação e tolerância dos imigrantes islâmicos no mundo contemporâneo está diretamente ligada ao perfil do sujeito escolhido. Trata-se de um imigrante da República do Mali natural de Tombuctu, região onde o Islamismo predomina, sua capital Bamako. No século XIV por ser muito próximo ao Deserto do Saara, foi de grande importância para economia do país pois fazia parte do Império do Mali, era um local de negociação entre o sal e o ouro.

O estudo se debruça sobre um jovem senhor, de 51 anos, mulçumano, que vem ao Brasil em busca de um visto permanente, cruzando o Atlântico em virtude de foro íntimo. Escolhemos por não adentrar neste assunto no presente estudo, e utilizaremos um procedimento comum aos estudos de caso elaborados nas ciências humanas optando por chamá-lo de “Obama”. 

Fonte: Gettyimage

O senhor Obama tem dificuldade significativa com a língua portuguesa, todavia, expressando-se fluentemente na língua francesa, inglesa e ainda três dialetos próprios de seu país, apesar de não ter conhecimento no que concerne à alfabetização, sem oportunidades, de família humilde, não teve condições de estudar em seu país, não conhecendo sequer as letras do alfabeto até chegar ao Brasil. No momento desse estudo, estava frequentando a escola regular na Educação de Jovens e Adultos e também contava com uma professora particular.

É um caso de teor marcante no cerne de sua história, pois requer conhecimento da cultura dos dois países para que possa haver uma comunicação em que ambos, imigrante e nativo se sintam pertencentes, respeitosos e integradores. 

O estudo apresentado irá mostrar a necessidade de assimilação e flexibilidade por parte de Obama e da professora. O Brasil é formado pela mistura de várias culturas, fato que por si só requer um movimento de assimilação do sujeito. No primeiro capítulo, iremos abordar um recorte da subjetividade\ da alteridade em processos de (In)adaptação (Vila Nova, 1999).

O convívio da professora com esse estudante, e as observações desta, proporcionaram a essa psicóloga entrar em contato com as demandas trazidas pela professora sobre o imigrante e vislumbrar a partir deles questões de amplitude geral do tema. Sabemos que o processo de imigração está escrito desde o conhecimento da história da humanidade por motivos diversos.

A história sobre imigração em massa aponta que no início do século XIX com o advento da Revolução Industrial em vários países da Europa e das Américas houve uma concentração de imigrantes nos centros urbanos. O Brasil está entre os países que são considerados grandes países imigrantistas como EUA, Canadá e Argentina (Oliveira, 2014). 

Parte substancial desse processo está ligado, na contemporaneidade, às implicações de um capitalismo global que, contraditoriamente, permite o livre fluxo de capitais entre as fronteiras nacionais – na tão aclamada era da “globalização”, mas reiteradamente, investe contra o deslocamento de trabalhadores. Sabemos que:

É mais simples fazer investimentos em um país estranho do que se tornar cidadão’, acrescenta Garcia Canclini, para alertar sobre o tipo de protagonismo reservado às imigrações contemporâneas na constituição dos mercados regionais e ao mesmo tempo registrar que, em ritmo similar ao das alianças econômicas e, articuladas a elas, as barreiras às imigrações têm se transformado em um dos principais temas da pauta dos acordos de livre comércio e integração regional no cenário da globalização (Cogo, 2001, p.13).

Nos dias atuais, temos acompanhado nos noticiários pelas mídias, TV, internet o êxodo de várias pessoas de seus países de origem, em busca de refúgio de guerras civis de conflitos étnico religiosos, políticos, sociais e econômicos. O ator do estudo de caso apresentado, não se relaciona às dimensões econômicas, nem religiosas (mesmo sendo sabedor que essa dimensão controle seu comportamento), nem tampouco o interesse recai sobre questões políticas e sim sobre os processos de (In) adaptação, assimilação e integração social desse imigrante, como também a intersubjetividade entre as culturas no desenvolvimento desses processos. 

Sabemos que a presença de imigrantes mulçumanos no Brasil tem demonstrado uma concentração de sua população nos estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro (Waniez, 2001), contudo, vamos relatar um caso de um imigrante na região do nordeste brasileiro. Nos dias atuais temos visto um aumento considerável da população de imigrantes no nosso país, nas capitais dentre elas, no Recife -PE, fato que traz grande impacto social, estrutural, econômico e urbanístico, que requer uma atenção nas políticas públicas para inserir essa população.

Depois do onze de setembro nos Estados Unidos da América, não se pode negar uma certa onda de xenofobia com relação a presença de mulçumanos, fato que está atrelado a sua identidade étnico-religiosa. Devido à onda de ataques terroristas à Europa, essa imagem tem se intensificado no imaginário social.

Weber em seus estudos sobre imigrantes demonstrou preocupação com questões fronteiriças relacionadas tanto com identidades quanto com religiosidades. Segundo o seu relato é perceptível que alguns imigrantes do Leste Europeu que eram reputados como incivilizados por ameaçar a obra dos anglo-saxões, todavia, acreditava-se que para estes, a cultura protestante funcionava como uma proteção (Weber Apud Oliveira, 2014).

A partir de uma ótica cultural, relataremos algumas experiências e comportamentos de Obama que relatou que passou algumas dificuldades ao visitar um centro umbandista. Em certa ocasião, o jovem senhor recebeu um colega do continente, um jornalista, nascido na República do Congo e exilado político em seu país.  Atualmente, o jornalista possui visto permanente na Alemanha, veio visitar o Brasil buscando referências africanas e resolveu vir à Pernambuco, hospedou-se na casa de Obama. 

Na ocasião estavam agendadas algumas visitas para (re) conhecimento da cultura do Estado que referenciariam as culturas africanas. Foram visitar o Centro de Religião Candoblecista no bairro de Água Fria – Recife, ao chegarem, houve apresentação de danças e rituais, após a celebração foram trazidas as comidas típicas, todavia Obama informou que não poderia comer àqueles alimentos, que sua religião impunha restrições, como exemplo carne de porco entre outras coisas, entretanto apesar de suas explicações os organizadores não aceitam um não como resposta e insistiram de forma abusiva, até que o mesmo constrangido comeu das iguarias, sendo obrigado no dia seguinte a realizar um ritual de purificação.

Para Durkheim, os problemas sociais estão associados à falta de integração dos processos de socialização que são conduzidos pela família, pela escola, e todos regulados pelo Estado. Já Simmel acredita que “o deslocamento rompe tradições, marca a modernidade” (Simmel apud Oliveira,2014,p.85). Para ele estar liberado de seu meio de origem, pode funcionar como combustível nas relações sociais. Para esse autor, a noção de identidade social do imigrante é fugaz e a presença do estrangeiro é rica socialmente e inspiradora, pois mantém o grupo original em constante alteridade. O ponto de maior interesse para a sociologia da imigração está, justamente, no padrão de assimilação que a presença do imigrante revela.  Esse autor faz referência a novos comportamentos sociais entre pessoas que dividem duas culturas, mostra o estrangeiro em situação de eterno imigrante em processo de assimilação ou não (Oliveira,2014).

A Escola de Chigaco (apud Oliveira, 2014) menciona dois pontos interessantes para nosso estudo. Segundo esta perspectiva analítica, quando um grupo apresenta uma cultura muito diferente da cultura hospedeira, é necessário mais tempo para o processo de assimilação posto que essa não ocorre tão rapidamente. E o outro ponto é o hibridismo cultural que trata de viver e partilhar as tradições culturais de dois diferentes povos. E que mesmo que lhe fosse permitido, raramente seria capaz de romper com seu passado e suas tradições. Contudo, é uma relação mais simbólica do que social, onde o comportamento e as atitudes são frutos das representações de situações vividas por esses atores.

Canclini opta pelo termo hibridação em contraponto com sincretismo e mestiçagem. Para ele hibridação dá conta de mesclas interculturais, enquanto mestiçagem remeteria a mesclas unicamente raciais, e sincretismo referiria “quase sempre” a fusões religiosas e a movimentos simbólicos tradicionais (Canclini, 2006, p. 19).

2. METODOLOGIA 

No que concerne à natureza do estudo, trata-se de um caso exploratório, de caráter qualitativo e instrumental. Portanto, tomamos como fundamento metodológico a utilização de procedimento como um balanço bibliográfico de um conjunto de autores das ciências humanas que, direta ou indiretamente, se debruçaram sobre a temática e de “técnicas como análise da narrativa do discurso e a entrevista semiestruturada” (Rodrigues, 2016).

3. Identificações gerais do caso

Jovem adulto, africano, nascido na República do Mali, veio para o Brasil acompanhado de seu tutor Diplomata. Iremos relatar um pouco do contexto social e histórico na visão da professora de Obama, ela nos diz que o imigrante evita manter contato com pessoas do sexo feminino, demonstra uma certa dificuldade em se relacionar com tal. Por outro lado, a professora teve que saber lidar com esse comportamento, teve que aprender as regras de seu país. Exemplo, não andar ao lado, mas andar sempre atrás de Obama, o que traz à tona a questão da adaptação a essas normas sociais, diferentemente do que está habituada, os cumprimentos não podiam expressar intimidade eram apenas cordiais. A ida aos locais públicos como praças, praias ou até mesmo shoppings, causa sempre muito constrangimento a Obama, por não concordar com as vestimentas, que deixam o corpo amostra, como também pela intimidade ao qual é expressa através de beijos e abraços, até mesmo pelos olhares cruzados e as mãos dadas. 

Locais de religiões de matriz africana como candomblé, por exemplo, também são inadequados para pessoas como Obama, por possuir rituais com incorporação de espíritos, danças, comidas que são feitas com sangue, considerados alimentos impuros, todas estas coisas estão postas como ofensivas à população mulçumana. 

Outra dificuldade relatada pela professora é a que indicou um dos clássicos da literatura brasileira, por se tratar de uma história entre culturas diferentes, o livro Iracema. Que foi de imediato rejeitado por Obama, ao avistar a capa do livro que retrata uma índia com os seios de fora. Outra situação que foi bastante preocupante, foi que ele adoeceu e seu ajudador, não estava na cidade. A professora foi contatada para ir até o apartamento de Obama, que chegando ao local, ele foi muito resistente e não queria abrir a porta para que ela o levasse ao hospital. 

Por meio desses relatos, podemos perceber que a forma como interpretamos uma situação tem influência dos pensamentos e sentimentos nos comportamentos. As habilidades sociais são compostas por três dimensões: comportamental, que se relaciona ao tipo de comportamento realizado; à pessoa, que leva em consideração as variáveis cognitivas (os pensamentos); e a variável situacional que leva em conta o contexto específico de cada situação (Falcone, 2000, Apud Pinedo e Pinheiro,2019,p322). Essas habilidades são aprendidas por meio de relações interpessoais, mas também podem ser desenvolvidas por meio de técnicas e treinamento.

A forma de pensar de um indivíduo tem relação com experiências e aprendizagens anteriores, dependendo dessas experiências, tende a avaliar dentro de uma perspectiva negativa as situações. O comportamento social não está vinculado a um manual, mas é preciso levar em consideração o contexto sociocultural, e suas variáveis em cada cultura.

(Inter) Subjetividade entre as culturas

Vila Nova (1999) fala que uma das funções da cultura é satisfazer as necessidades humanas, a outra função seria limitar a satisfação dessas necessidades. A cultura advém da capacidade do homem desenvolvida através do convívio social. Compreende, portanto, as normas, valores, conhecimentos, crenças, a maneira de vida própria de cada povo.  Esse modo próprio pode ser entendido como o convívio que o homem desenvolveu para adaptação às circunstâncias ambientais. Considerando esse fato, faz-se relevante dizer que ideias e sentimentos são partilhados entre os homens por meio da comunicação simbólica, fazendo da vida social uma realidade intersubjetiva, tornando esse aspecto um enlace no estudo das relações sociais que são traduzidas no comportamento humano.

Dentre os processos sociais básicos, vamos falar de dois dos quais se manifestam como parte essencial na integração das relações sociais: acomodação e assimilação. A acomodação é socialmente herdada, são transmitidas e aceitas por várias gerações na medida em que se trata de um processo em que o indivíduo não precisa admitir mudança, se ajusta a uma situação conflituosa, esse processo não elimina o conflito. Por outro lado, a assimilação, distintamente, é um processo que o indivíduo altera significantemente sua maneira de sentir, pensar e agir. É uma transformação mais acentuada da personalidade, ocorre por meio de contatos sociais, de forma gradual. Assim, afeta o comportamento, hábitos e costumes. É um processo no qual, valores e atitudes são partilhados por pessoas diferentes e que veem semelhanças, é profundo e durável. 

Diante desses conceitos, pode-se refletir sobre o comportamento de Obama e vislumbrar os fundamentos culturais, conscientes e inconscientes, que norteiam suas condutas que se demonstram refratárias diante de práticas “incompatíveis” com esses princípios que levam a pensar sobre o comportamento de Obama em não se comunicar, em evitar contatar com pessoa do sexo feminino, é preciso entender que conceitos ele herdou, ao praticar esse comportamento.

No sentido do que lhe fora passado e ensinado em sua cultura sobre mulheres, ou sobre mulheres brasileiras. Ainda assim, a professora buscou dirimir alguns conflitos, fazendo estudo para melhorar a comunicação, sobre regras e costumes do país imigrante, porém sem desconsiderar que ele agora está no Brasil, que é um país de cultura híbrida, o que também requer da parte de Obama, estudo, esforço na busca de conhecimento sobre regras, valores e normas sociais. Iremos relatar alguns hábitos que a professora aprendeu para uma melhor comunicação. No momento do cumprimento, fazer o aperto de mãos; nunca sentar ao lado de um homem em reuniões sociais principalmente; se o homem for casado, quem senta ao seu lado geralmente é outro homem, porém se a esposa estiver fazendo parte da reunião ela também poderá sentar-se ao lado do esposo, porém ao lado dela só poderá sentar mulheres; ter o cuidado e a atenção de nunca mostrar a planta dos pés, se apresentar com decotes é ofensivo; não oferecer alimentos considerados impuros como carne de porco, nem bebidas alcoólicas.

Vale ressaltar que a atitude da professora em usar o livro Iracema foi uma tentativa desmedida de confrontá-lo. A teoria social de Aroldo Rodrigues diz que “o que é considerado estranho em uma cultura pode ser encarado como perfeitamente normal e ajustado em outra” (2016, p.149). As normas sociais englobam os comportamentos aceitáveis, corretos socialmente, permitidos. Essas normas são aprendidas nas diversas dimensões sociais, em instituições escolares e religiosas, em casa com a família, com colegas, nas artes em mídias e etc, elas nos induzem sobre o que pensar e como reagir afetivamente e no mundo. Dessa forma é que os preconceitos se infiltram em uma dada cultura. A base cognitiva do preconceito está ancorada em um conjunto de crenças corretas ou não, que atribuímos a um indivíduo. Sabe-se que o preconceito pode ser reduzido com o contato sob certas condições.

A fim de esclarecer o conceito de preconceito vamos utilizar como aporte teórico as proposições de Bandeira e Batista (2002) e revelam que “preconceito significa fazer um julgamento prematuro, inadequado sobre a coisa em questão; fato esse que, para outros autores não se trata de julgamento em relação ao outro, mas de conhecer o outro” (p.126).

Diante do exposto verificamos que todos nós temos preconceitos, mesmo que não se trate do mesmo tipo de preconceito. Não somos isentos da influência da cultura que diverge em assuntos e temas variados. Iremos utilizar da base conceitual da Teoria Cognitiva Comportamental (TCC) para endossar a influência da cultura como algo que é socialmente aprendido e partilhado na percepção de si, do outro e do mundo. A terapia cognitiva identifica e trabalha com três níveis de pensamento: o pensamento automático, as crenças intermediárias ou subjacentes (pressupostos e regras) e as crenças centrais/nucleares (esquemas). Os pensamentos automáticos são espontâneos fluem em nossa mente a partir dos acontecimentos do dia a dia, independente de liberação ou raciocínio. Podem ser ativados por eventos externos e internos, aparecem na forma verbal ou imagem mental. É o nível mais superficial da nossa cognição. 

As crenças intermediárias correspondem ao segundo nível de pensamento e não estão diretamente relacionadas às situações, ocorrendo sob a forma de suposições ou regras. Derivam e reforcem as crenças centrais. As crenças centrais constituem o nível mais profundo da estrutura cognitiva e são compostas por ideias absolutistas, rígidas e globais que um indivíduo tem de si mesmo. Essas crenças são ideias e conceitos a respeito de nós mesmos, das pessoas e do mundo. São aceitas passivamente, sem grandes questionamentos, são mantidas e reforçadas sistematicamente.

As crenças nucleares são nossas ideias e conceitos mais enraizados e cristalizados acerca de nós mesmo, dos outros e do mundo, são constituídas desde as nossas experiências ainda na infância, se solidificam e se fortalecem ao longo da vida, moldando desta maneira o jeito de ser e agir do ser humano. O que não é modificado ou corrigido em fase desadaptativa, tratando-se de crenças disfuncionais, pode chegar à fase adulta como verdades absolutas (KNAPP, 2004).

Considerando essa teoria, o funcionamento do ser humano se dá na inter-relação entre cognição, emoção e comportamento. Então, nesse modelo o comportamento das pessoas é influenciado pela sua percepção dos eventos, ou seja, o modo como elas interpretam a situação é que determina como se sentem e agem. Sua resposta emocional é intermediada por sua percepção (BECK, 1991).

Fonte: Imagem google

Fazendo uma relação com as atitudes da professora em oferecer o livro Iracema e a atitude de Obama em rejeitá-lo, é possível observar que as percepções de ambos influenciaram em suas respostas. Para ela seria uma possibilidade de abrir um novo olhar ao colocá-lo em contato com uma história conflituosa entre culturas diferentes do povo branco e indígena. Para ele, não foi possível abrir essa possibilidade de entrar em contato com um livro que traz em sua capa a nudez de uma mulher.

Essa inferência nos faz refletir o quanto podemos interferir na cultura do outro, sendo sabedor de até quanto tem de nossas crenças, valores e conhecimento sobre a cultura do outro. Que a intersubjetividade formou uma barreira e, nesse sentido, que comunicação seria eficaz? Ao buscar entender ou estudar outras culturas o homem exerce juízos valorativos sobre a mesma, segundo Hernández,2005, ao investigar algo em outra cultura, o homem procura por identidades e diferenças entre essa e a sua.

O autor afirma que há uma distinção entre normas e feitos, e entre normas e motivos, como também entre a razão e a predisposição. Para ele, o homem pode agir conforme as duas coisas: razão e motivo. No caso da razão, a norma incide sobre o sujeito, sendo seu comportamento casual.  No segundo caso, seu comportamento não é casual, na situação há a presença de um elemento a mais, sua psyche.

Importante lembrar que estão lidando com as concepções intelectuais e as crenças de uma cultura do ponto de vista de uma outra cultura. Tomando como exemplo, o caso que mesmo Obama estando diante de uma situação difícil, doente, precisando de assistência médica, se recusou a abrir a porta para a professora, só fazendo, diante da intervenção e insistência de seu amigo e ajudante. Fato que:

[…] para Winch há um elemento que escapa a qualquer predição: a capacidade de resolução e de decisão do sujeito, que não é que não seja regido por normas, mas que há de decidir como empregar estes em cada caso novo. O autor toma postura com respeito a dois pontos: Um, que existem umas normas socialmente aceitas pelas quais se regem os sujeitos. Dois: que este tem uma capacidade de decisão, interpretação e predisposição que é independente dessas normas (Winch Apud Hernandez, 2005, p. 42).

Outro ponto que citamos acima foi de que a intersubjetividade ergueu uma barreira. Observamos que poderia ter sido criado um linguajar intersubjetivo comum às distintas culturas, desde que fosse válido para as mesmas. Segundo Quine (Apud Hernandez,2005) a comunicação entre duas culturas se manifesta apoiando-se em hipóteses, como também não podemos estar seguros do que se passa na cabeça do outro. E, por isso, precisamos considerar a intersubjetividade, o que nos remete ao problema do relativismo como também a tendência de o rechaçar. Assim, a nossa percepção de mundo está determinada por uma cultura, movimentando uma dinâmica que se dá em interação entre o mundo e o sujeito que o percebe. 

Para um linguajar que contemple a intersubjetividade em ambas as culturas é preciso fazer uma reconstrução do mundo que percebe essa cultura estranha ou diferente. Concluindo assim que existem problemas universais que afetam todas as culturas no âmbito das crenças, pois, o homem traz consigo as concepções que lhes são impostas em sua própria cultura e que poderá buscar entre as culturas algo que lhe sirva para comparar e assim modificar a si próprio, metamorfoseando uma identidade da ideia que tem de si.

Descentração do sujeito, identidade étnico-cultural- religiosa: Multiculturalismo.

A cultura é vista como um operador simbólico na confirmação da identidade étnica e Obama, a partir de um referencial cultural diferente do ocidental, fala da apatia em relação ao acolhimento em nosso país, situação que nos faz lembrar de que “a identidade é uma construção simbólica que se faz em relação a um referente” (Ortiz,2001 apud Castro, 2015, p.85).

Identidade que em sua manifestação étnica aparece descentralizada em nossa cultura. Segundo Hall (2016) está acontecendo um tipo de mudança em nossa sociedade que fragmenta e abala a noção de etnia, nacionalidade, gênero, classe, sexualidade que outrora tínhamos como indivíduos sociais. Essas mudanças estão transformando as identidades pessoais, bem como, as ideias que tínhamos de nós próprios como sujeitos integrados, ocasionando um deslocamento ou descentração do indivíduo, tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmo.

Há uma ideia compartilhada entre estudiosos sobre o tema Identidade de que a pessoa possa assumir múltiplas identidades. Oliveira (2002) considera que é necessário distinguir entre identidade\identidades compartilhadas e o Eu (self). O Eu é uma instância psicológica, superordenadora de uma pluralidade de identidades. O Eu possui um sentido reflexivo que distingue conscientemente a si próprio de outra pessoa. Pode ser dotado de sentidos diferentes, entretecido por experiências da história individual ou transmitido culturalmente. Assim o Eu é agente viabilizado pela liberdade de escolha na manipulação da identidade étnica que o capacite a enfrentar situações de ambiguidade. É relevante que o Eu ao manipular identidades procure manter sua integridade na ação da liberdade dessa decisão, movimento esse que também o levará a dimensão ética. Portanto, “a identidade possui uma espessura empírica, particularmente quando a tomamos enquanto fenômeno social” (Oliveira, 2005, p.19). 

Nesse sentido, alguns autores como Said e Montenegro, corroboram com o pressuposto o qual” as identidades são sempre mutáveis, se valem de retalhos, de estratégias, mas sobretudo, espelham o modo como são percebidas pelos outros”. (Monteiro apud Castro, 2015 p.108). 

O Senhor Obama fala que sua família é de origem tradicionalista, reside no Tombouctou- República do Mali, que é o primeiro de oito filhos, que sua família o colocou em um casamento arranjado, mas não convive com a esposa, e que por questões políticas ficou morando na República do Mali, vindo a sós para o Brasil.

De fato, não costuma tocar no tema sobre sua relação com a família, pelo que relatou ele contrariou sua família ao sair da origem religiosa tradicionalista para ser muçulmano radical, porém, mantém comunicação com eles e os ajuda financeiramente. Nesse aspecto, o comportamento dele coaduna com o pensamento de Moutian e Rosa, explicitando que no âmbito da imigração, a noção de família é um elemento fundamental para a ideia de nação que o compõe (2015 p.155), pois, ao mesmo tempo faz menção ao país e à família mais adiante dizendo que gostaria que a guerra acabasse para poder voltar para seu país. 

Sobre os aspectos socioculturais como educação, trabalho e esporte correlacionado com sua relação interpessoal, Obama relata que está cursando a Educação de Jovens e Adultos, frequenta o curso de Inglês na Biblioteca Central do Recife e que trabalha como ajudante de cozinheiro na Casa Cultural Villa Ritinha, também participa de um grupo de corrida (maratonista).

Para um muçulmano, a formação não só religiosa, mas profissional, e o bom comportamento devem vir antes mesmo da promulgação da palavra divina (Castro, 2015). Configurando assim a importância da educação, estudos em populações muçulmanas no Brasil, têm demonstrado que o nível de educação dessa população é nitidamente mais alto do que o conjunto da população urbana (Waniez e Brustlein, 2001,p.161).

A cerca da relação interpessoal relata que no trabalho procura falar pouco, finge não entender o que os outros dizem para que assim não seja necessário se comunicar, e complementa dizendo que passou muito tempo procurando trabalho de cozinheiro e encontrou muita dificuldade para conseguir emprego.

Descreve um sentimento de rejeição, que sofre humilhação e menosprezo por parte de algumas pessoas desse grupo de trabalho: “escuto as pessoas me chamarem de burro, de preto, que só tenho as bolas dos olhos brancas, então vou conversar o que com essas pessoas?” (sic) Justifica seu comportamento dizendo que devido a essas atitudes costuma não interagir.

Fato que nos remete a diferença entre conhecimento e reconhecimento, para Oliveira (2005) o conhecimento exprime a identificação do ser como indivíduo, enquanto o reconhecimento é confirmado pelo conhecimento dessa afirmação. O reconhecimento é um ato público que depende do meio de comunicação que denote o fato de que outra pessoa é detentora de um valor social. E nesse caso, Obama acredita que não tem valor social para as pessoas do grupo de trabalho.

Entrando assim, na dimensão da moral quando se sente desrespeitado na forma de se vestir, na cor de sua pele, vê que o apontam na rua, se sente inferiorizado, é tratado como um estranho e por isso evita sair, enfatiza que falta de respeito, é não ser aceito pelas pessoas como realmente é. 

Como ser social, estamos dentro da esfera jurídica como ser de direito e deveres, e como ser de direitos poderemos estar seguros do cumprimento social de algumas pretensões. E dentre essas pretensões está àquela de teor mais genérico, o reconhecimento de nós mesmos como pessoa, como ser social. E para além do reconhecimento jurídico temos ainda o reconhecimento como ente moral que aborda o respeito nas relações e, assim, ocupa um lugar estratégico no reconhecimento da identidade étnica que nesse caso o desrespeito tem acionado sentimentos, emoções e comportamentos que o distanciam de interações sociais.

Sobre o grupo de maratonistas, relata: “Vou, corro e volto para casa.” (sic). Então ressalto as dificuldades e os prejuízos da não interação, do isolamento, o qual ele responde que sente que é prejudicial, porém, que não se sente tão isolado quando vai à mesquita, pois lida com pessoas como ele.

Ainda sobre interação social podemos inferir o comentário de Rosa e Cerruti que diz, “o que determina a representação de um sujeito em cada contexto é a maneira como o outro me reconhece ou não, me legitima ou não” (Rosa e Cerruti apud Mountian e Rosa, 2015, p. 153)

A respeito do sentimento de reconhecimento, de identificação quando vai à mesquita, a religião traz em seu bojo a capacidade de criar laços de solidariedade e o sentimento de pertença, o que confere um poder político, inclusive (CASTRO, 2015). No que concerne à dimensão religiosa, Obama diz que permanece frequentando a mesquita no centro do Recife, colaborando financeiramente para construção de uma nova mesquita. Intitulando-se muçulmano radical, afirma categoricamente que todas as áreas da sua vida são orientadas pela religião, enfatizando que o aspecto religioso vem sempre em primeiro lugar, conclui o pensamento acerca da religião dizendo que não é terrorista, mas também não aceita a forma como as pessoas vivem (sic).

Segundo Castro (2015, p.63) “um muçulmano além da identidade religiosa tem múltiplas possibilidades dentro do islamismo, e ainda pode ostentar muitas outras identidades como a de gênero, classe, etnia, nação”. Iremos abordar a identidade de etnia e religiosa que permeia à de gênero. 

Grillo, (2004 Apud Castro, 2015, p.63) “chama a atenção para o risco que essencializar acarretaria, ao considerar a religião como a representação mais profunda e autêntica da subjetividade de alguém”.

Podemos perceber nesse aspecto que Obama apoia-se no ideal islâmico e sobrepõe a identidade religiosa sobre as demais. Nos estudos de Castro com a comunidade muçulmana no Brás-SP, ela fala que a religião tem a função de reconstruir a identidade, e as pessoas que se deparam com uma nova realidade, distante de suas raízes, e com diferentes funções a serem exercidas têm a necessidade de uma nova identidade, de um novo grupo estável e solidário além de preceitos morais para orientar essa nova vida.

Com relação ao comentário de Obama sobre não ser terrorista, Castro, (2015) traz uma explicação que ajuda a compreender esse comentário quando ela diz que a percepção da pessoa pode ser direcionada pela visão que a sociedade tem sobre essa minoria muçulmana, principalmente porque a mídia vem propagando no imaginário ocidental uma associação entre a religião Islã e o terrorismo, dessa forma, se torna comum que o muçulmano ao falar sobre si ou de sua religião, enfatize não ser terrorista.

Brasil Multicultural

Brasil de muitos Brasis, dentro do próprio país existe diversidade cultural de uma região para outra, um país com extensão de 8.516.000 km², povoado por diversas culturas como espanhóis, indígenas, ingleses, holandeses, portugueses, africanos, constituindo assim um híbrido mosaico cultural, que comparando com o Mali com extensão de 1.240.000km² caberia quase sete países da extensão do Mali dentro do nosso Brasil, fato que essa mistura de povos e raças é a causa que intensificou a hibridação cultural.  Fazendo um paralelo com o que disse Oliveira (2000) sobre comportamento cultural que lhe é próprio, o Brasil é um país formado por subconjuntos étnicos com suas culturas nas cinco regiões, cada uma das regiões segue um comportamento cultural distinto. 

Nesse contexto tanto para os brasileiros como para o imigrante, […]os segmentos étnicos procuram tornar visíveis seus pertencimentos a heranças culturais diferenciadas para adquirir distinção e acumular capital simbólico e político como atores no contexto da chamada política da identidade e da ideologia do multiculturalismo (Ribeiro,1998 apud Oliveira, 2000 p.10).

Sobre as dificuldades que um muçulmano radical sente ao viver em um país multicultural como o Brasil e uma cidade plural culturalmente como o Recife, Obama relata que não se sente à vontade, que não se acostuma com nossa cultura, nosso modo de ser, de se vestir, que não concorda que as mulheres se vistam com tão pouca roupa mostrando o corpo.

A forma como a hibridação intercultural, os modos de nomeá-la e os estilos com que é representada agem como operadora da representação simbólica e a autonomia dos processos simbólicos podem traduzir o que há de oblíquo, simulado e distinto em qualquer interação no campo cultural e político (Canclini,1997). 

No pensamento ortodoxo muçulmano, a mulher vale menos que o homem afirma Leila Ahmed especialista em estudos da mulher no oriente Médio, e tudo o que compõe a vida ocidental normal, é visto como transgressão. Em seus estudos Castro relata a fala de um muçulmano árabe, ele diz com um sorriso no rosto, que em certa ocasião teve que sair de casa devido às mulheres terem se hospedado em sua casa e que, em seu país os “costumes são diferentes, homens e mulheres não ficam juntos, se denota um comportamento de grande importância a segregação dos sexos” (Castro,2015).

Voltamos a falar nas crenças nucleares que, segundo Knapp, vão se construindo desde as experiências mais primitivas e se fortalecem ao longo da vida, moldando a percepção e a interpretação dos eventos, modelando nosso jeito psicológico de ser. As crenças nucleares são nossas ideias e conceitos mais enraizados acerca de nós mesmos, das pessoas e do mundo, são incondicionais, pois independem da situação que se apresente, o indivíduo irá pensar do mesmo modo em consonância com suas crenças (p.22).

A reação de Obama aos eventos que relatou coaduna com o que fala a TCC sobre o que pensamos influenciar nossas emoções e comportamentos. Nós sentimos o que pensamos…Os eventos, os pensamentos geram como consequências emoções e os comportamentos, assim são compreensíveis esse tipo de reação comportamental de Obama. Para a TCC é justamente a inter-relação entre cognição, emoção e comportamento que implica no funcionamento do ser humano diante das respostas sociais.

Para Knapp (2004, a), a predisposição do indivíduo à vulnerabilidade cognitiva está atrelado à disposição de vários fatores como genéticos, familiares, culturais, de desenvolvimento e personalidade que acionarão as interações e interfaces desses fatores na formação das crenças e dos pressupostos da sua idiossincrasia, das pessoas e do mundo, acionando eventos e reações mal adaptativas (Knapp, (b),p.21). Portanto, pensamento, sentimento e comportamento de Obama estão relacionados ao que ele escuta do outro sobre si, nessa dinâmica é importante observar como os discursos sobre raça, cultura são construídos e reproduzidos.

Traz a experiência da relação interpessoal mal adaptativa com um colega ocasionada pela divisão de moradia. Obama divide o apartamento com um funcionário de seu tutor legal e diz que não é tratado com respeito, que foi xingado/humilhado muitas vezes e que seu colega o ameaça de ser preso se continuar falando certas coisas, mas não comentou que coisas seriam essas. Fala de seu sentimento de não pertença, que o Brasil é conhecido pela liberdade de expressão e pelo modo de vida livre, mas que aqui não se sente livre, que não pode dizer o que pensa e nem tem a quem dizer o que sente. E para esse colega de moradia, Obama se sente como se não representasse nada…

A respeito desse fato, Tedesco (2016) faz alusões importantes a serem consideradas no estudo com imigrantes em legitimação de poder, observar as práticas discursivas eivadas de estereótipos e marginalização e que a exclusão em cargos de alguma representação social pode apresentar uma relação onde o primeiro imigrante deseja demonstrar poder em relação ao segundo, usando como instrumento para isso, uma representação social negativa de Obama, objetivando legitimar sua posição de superioridade. À medida que inferioriza e despreza os recém-chegados, criando implicitamente uma hierarquia classificatória de status, coloca o estrangeiro recém-chegado em um mal-estar que retifica o outro. Esse poder confere superioridade àquele que estigmatiza que se utiliza de mecanismos e estratégias de exclusão que vão legitimando seu poder e superioridade social à medida que rotula de valor inferior esse mais novo imigrante, enfraquecendo sua autoimagem.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com a Declaração Universal de Direitos Humanos nos Art. 1 e 2 é enfatizado a liberdade, igualdade, dignidade e direitos, independente de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política, ou outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição, coibindo qualquer tipo de discriminação. 

Destarte, ao analisarmos o caso de forma interdisciplinar acerca dos encaminhamentos no âmbito jurídico, se faz necessário reaver documentações, inclusão no mundo do trabalho, avaliar aspectos discriminatórios entre outros. Tais intervenções poderão ser desempenhadas pelo Setor de Imigrantes (Polícia Federal) situado no Aeroporto Internacional do Recife-Guararapes/Gilberto Freyre; Cáritas Brasileira (Entidade de Promoção e Atuação Social da Igreja Católica); Secretaria de Justiça e Direitos Humanos; Comitê Nacional para Refugiados (CONARE); Associação de Senegaleses em Pernambuco; Escritório de Assistência à Cidadania Africana em Pernambuco (EACAPE)-Faculdade DAMAS, que é um Projeto de Apoio Jurídico. No tocante à saúde, os estrangeiros em Recife não possuem nenhum programa de atuação especializada, podem utilizar o Sistema Único de Saúde.  

É necessário observar e intervir nas práticas discursivas, eivadas de estereótipos e marginalização nas relações de poder, pois, é nessa relação que implicitamente se cria uma hierarquia de status que se utiliza de mecanismos e estratégias de exclusão que legitimam seu poder à medida que ratifica esse outro.

Considerando que o campo social são a base da história de vida de um sujeito, experiências sociais, individuais e psicológicas e como lidam com a cultura, religião e as tradições passadas pela família de forma intergeracional de significados, em que estão imersos os seres humanos, sendo esse o  local em que a condição humana recebe e influi dessas experiências, e que não se pode simplesmente ser neutro diante de sua história, todavia, as diferenças não inviabilizam a comunicação intersubjetiva, pois acredita-se que a partir de um mosaico de uma tessitura compartilhada é possível alcançar a convergência ou afirmar as diferenças em meio à controvérsia, movimento que Obama não se abriu para tal.  

É por meio do diálogo com o relativismo cultural que a ideia de alteridade surge, quando a capacidade de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, identificação e diálogo. É o ponto de partida para aceitar as diferenças e respeitar as formas de apreender o mundo. Quando a pessoa se depara com culturas, costumes, hábitos distintos dos seus, no mínimo procura buscar algo que possa se adaptar e moldar os seus costumes também. E essa abertura não se encontra no comportamento de Obama, a visão de si parece frágil, que interfere na visão do outro e do mundo.

Como diz Thomaz Tadeu, (2023) a identidade é marcada pela diferença, por meio de símbolos, pela linguagem, pela cultura e pelo social.  A identidade é marcada pela relação de poder e pela diferença que no caso de Obama se você é do Mali, logo, não é brasileiro, que por meio de sua história Obama reafirma sua identidade e que ao fazê-lo poderá também estar produzindo nova identidade, movimento e que ele se nega, ao querer permanecer fixo. Essa diferença é demonstrada por um simbolismo à outras identidades, essa marcação simbólica dá sentido às relações sociais, diferenciando quem é excluído e quem é incluído nessas relações. Nesse caso, a escola poderia contribuir ao utilizar uma pedagogia da diferença, como parte integrante de questionar, criticar essa relação de poder, e assim, contribuir para reformular essas relações sociais.

Uma vez que se cruza a fronteira, seja por livre vontade ou por movimentos demográficos forçados como é o caso de Obama, lidamos com o hibridismo cultural que traz consigo um lugar de possibilidades de questionamento e de novas identidades. Dessa forma, a identidade não é mais nenhuma das identidades originais, podendo conter traços dela. Esse movimento de migrar, forja identidades plurais como também identidades contestadas quando é definido por grandes desigualdades sociais, econômicas e políticas, como é o caso. Como afirma Tadeu (2023): “ o outro cultural é sempre um problema, pois coloca permanentemente em xeque nossa própria identidade.” (p.97)

Não somos isentos da influência da cultura que diverge em assuntos e temas variados, mas que possamos estar abertos ao contato com o diferente, com o que diverge a fim de abrir novos horizontes, novos aprendizados, respeitando e experimentando novas formas de saber e descobrir que não há só uma forma de ver as coisas, quem nunca mudou de opinião sobre alguma questão na vida? De religião, de time, de amor? De modo de vida? atitude que causa muitas vezes inicialmente desconforto, conflitos, dualidade de pensamento, incertezas, mas é algo intrínseco à natureza e à alma humana, e contra esse movimento não dá para fugir. Sofre mas, sofre menos, não sei, depende de como seus olhos enxergam essa dinâmica e o quanto há de necessidade e desejo.

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1Mestrado em Ciências da Educação pela Universidade Christian Business School- CBS. Psicóloga do NAS – Núcleo de Atenção ao Servidor – e Psicóloga Jurídica- atende crianças e adolescentes vítimas de violência, lucioliver.psi@gmail.com
2PhD. Doutora em Ciências da Educação e professora orientadora da Christian Business School-CBS, rozineide.pereira1975@gmail.com.

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