THE BROTHERHOOD OF THE GOOD DEATH: RELIGIOSITY, ANCESTRY, RESISTANCE, CULTURE AND TRADITION PRESENT IN THE FESTIVAL OF THE GOOD DEATH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508251237
Paulo Roberto Nogueira Silva1
Alexsandro Barros Errico2
Tatiane Gonçalves Pereira Souza3
Mônica Guimarães Luz4
Bruna Vitoria Nascimento Nogueira5
Brenda Nascimento Nogueira6
Carla Manoela Oliveira de Araújo7
Bernardino Galdino de Sena Neto8
Ailton Filgueiras da Silva9
Tailane Santos Cruz10
RESUMO
Esta pesquisa busca compreender como a Irmandade da Boa Morte se consolidou como confraria religiosa afro-católica brasileira, criando formas de resistência para dar o aporte para irmãs e irmãos escravizados. A metodologia utilizada foi uma bibliográfica para subsidiar a construção da escrita do texto. Autores como Amaral (2007) e Souza et al. (2021) foram trazidos para discutir o conceito de pesquisa bibliográfica; Bosi (1979), Halbwachs (1990), Pollak (1992) e Delgado (2006) para discutir memória; Bornheim (1987); Laraia (2001; 2009) e Hobsbawm (2018) para respaldar conceitos de tradição e legado cultural; Socci (2011) Oliveira e Junges (2012) e Almeida (2021) para apoiar a discussão sobre religiosidade, dentre outros. Trata-se de uma pesquisa social, de abordagem qualitativa, que põe em evidência a importância da Irmandade da Boa Morte no município de Cachoeira, no Estado da Bahia. Conclui-se que o legado deixado pelas mulheres que iniciaram a confraria se perpetuou e mantém um importante movimento que congrega um misto de religiosidade, de ancestralidade e de resistência da cultura afro-católica brasileira.
Palavras-chave: Festa da Boa Morte; Confraria religiosa; Resistência; Tradição.
SUMMARY
This research seeks to understand how the Irmandade da Boa Morte (Brotherhood of Good Death) established itself as a Brazilian Afro-Catholic religious brotherhood, creating forms of resistance to support enslaved brothers and sisters. A bibliographic methodology was used to support the writing of the text. Authors such as Amaral (2007) and Souza et al. (2021) were brought in to discuss the concept of bibliographic research; Bosi (1979), Halbwachs (1990), Pollak (1992), and Delgado (2006) to discuss memory; Bornheim (1987); Laraia (2001; 2009), and Hobsbawm (2018) to support concepts of tradition and cultural legacy; Socci (2011), Oliveira and Junges (2012), and Almeida (2021) to support the discussion of religiosity, among others. This is a qualitative social study that highlights the importance of the Irmandade da Boa Morte (Brotherhood of Good Death) in the municipality of Cachoeira, Bahia. The conclusion is that the legacy left by the women who founded the brotherhood has endured, sustaining an important movement that combines a blend of religiosity, ancestry, and the resistance of Brazilian Afro-Catholic culture.
Keywords: Festival of Good Death; Religious Brotherhood; Resistance; Tradition.
INTRODUÇÃO
A Irmandade da Boa Morte é uma confraria religiosa, afro-católica brasileira, localizada no município de Cachoeira, Recôncavo11 da Bahia. Estima-se que a irmandade foi fundada em 1820, século XIX, período que a escravidão dos povos negros oriundos do continente africano ainda era muito presente no Brasil. Foi fundada por mulheres negras seguindo uma linhagem matriarcal, com um viés abolicionista que lutava para alforriar seus irmãos escravizados.
A irmandade surgiu dentro do contexto de resistências e de lutas culturais e políticas negras no período escravocrata brasileiro e também pós abolição, mantendo a sua tradição até os dias atuais. As mulheres da irmandade exerciam atividades laborativas como ganhadeiras: lavadeiras de roupas, quituteiras, cozinheiras, baianas do acarajé, com o intuito de arrecadar valores em dinheiro para comprar a alforria de irmãs e irmãos escravizados. Nesse sentido, essas mulheres começaram a se empoderar em um período que predominava a família patriarcal, branca e de modelo eurocêntrico.
No mês de agosto, entre os dias 13 e 17, a irmandade realiza a festa da Boa Morte, mês dedicado à Nossa Senhora, com a presença de muitas pessoas do Recôncavo Baiano e de visitantes e turistas da Bahia, do Brasil e também do exterior. Nesse sentido, emerge o questionamento: Como a Festa da Boa Morte se destaca no cenário brasileiro e internacional preservando a ancestralidade, as lutas e as resistências dos povos negros que foram escravizados? Assim, o objetivo desta pesquisa é compreender como a Irmandade da Boa Morte se consolidou como confraria religiosa afro-católica brasileira, criando formas de resistência para dar o aporte para irmãs e irmãos escravizados. Como objetivos específicos: analisar de que maneira a Irmandade da Boa Morte vem mantendo a tradição religiosa com a realização anual da Festa da Boa Morte e como deixou o seu legado para Cachoeira, para a Bahia e para o Brasil.
Nessa perspectiva, é importante pensar na ancestralidade dos povos negros, oriundos dos antigos reinos do continente africano com a preservação e o legado deixado por eles, participando das celebrações, reunindo religião e cultura, com as manifestações de fé, respeito e solidariedade. Na Irmandade da Boa Morte existe uma hierarquia interna sendo atribuída à Juíza Perpétua, o grau mais alto da organização, posição de destaque recebida pela decana da instituição, a mais idosa adepta da irmandade, com o objetivo de fazer a gestão e organizar a devoção diária e doméstica de seus membros; composta por quatro irmãs que recebem a atribuição de organizar os festejos que acontecem no mês de agosto, com alternância anual do comando. No ano de 2010 a festa passou a ser considerada como Patrimônio Imaterial do Estado da Bahia.
A programação da festa tem início sempre com uma missa, celebrada na Capela da Igreja de Nossa Senhora D’ajuda, seguida de uma procissão que sai pelas principais ruas da cidade de Cachoeira, com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte. De acordo com a fé e a crença católica, o título de Nossa Senhora da Boa Morte é atribuído à Virgem Maria ao fazer a passagem da vida pela Terra para a vida Celestial. Nesse sentido, os fiéis rezam, fazem orações pedindo que Nossa Senhora rogue por eles no momento de sua morte, partindo do princípio de que a alma depende da salvação eterna. Nesse viés, percebemos que a Irmandade da Boa Morte vem ao longo de dois séculos realizando a festa da Boa Morte, seguindo uma tradição afro-católica brasileira, preservando a identidade de mulheres que realizam a festa considerada bissecular e que marca a história religiosa do Estado da Bahia.
ASPECTOS TEÓRICOS METODOLÓGICOS
Para fazermos a reconstituição da história da Irmandade da Boa Morte e da realização de seus festejos, recorremos aqui à busca da pesquisa bibliográfica, que de acordo com Gil (2002, p. 45) “reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. Souza et al. (2021, p. 65) enfatizam que a pesquisa bibliográfica “está inserida principalmente no meio acadêmico e tem a finalidade de aprimoramento e atualização do conhecimento, através de uma investigação científica de obras já publicadas”. Gil (2002, p. 45) afirma que “a pesquisa bibliográfica também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados se não com base em dados bibliográficos”.
Nesse sentido, exploramos a pesquisa bibliográfica para registrarmos a história e o legado deixado pela Irmandade da Morte ao longo de dois séculos. A pesquisa tem caráter histórico, por reconstituir a história dessa confraria religiosa que deu o aporte para alforriar irmãos e irmãs escravizados e que realiza a festa da Boa Morte, mantendo a tradição afro-católica brasileira. Analisando as questões identitárias, Hall (2002, p. 9) pontua que identidade surge “de nosso pertencimento as culturas étnicas, raciais, linguísticas religiosas e, acima de tudo, nacionais”. Torna-se relevante pensarmos na identidade religiosa presente na comunidade de Cachoeira na Bahia, onde é realizada a Festa da Boa Morte.
De acordo com Andrade e Andrade (2025), essa é uma população que é habitualmente invisibilizada ou mesmo considerada como grupo uniforme, mas preservava profunda heterogeneidade em sua composição étnica e assim possuem demarcações em sua vida social pelas relações de desigualdades de poder numa sociedade predominantemente escravagista. Ainda, discutindo a respeito da identidade étnica, Delgado (2006) relata que
Identidades, representações e memórias encontram-se inter-relacionadas. Por meio da memória, as comunidades e os indivíduos podem, por exemplo, resgatar identidades ameaçadas e construir representações sobre sua inserção social e sobre sua cultura (DELGADO, 2006, p. 62).
Corroborando com Delgado em relação às representações e à inserção social de uma cultura afro-católica brasileira presentes na vida das mulheres que realizam a Festa da Boa Morte, Ortiz (2006) defende que “a memória nacional e a identidade brasileira são construções simbólicas que dissolvem na heterogeneidade das culturas populares na homogeneização e narrativa ideológica”. No entanto, Collins e Bilge (2021, p. 210) ressaltam que “a política identitária repousa sobre uma relação recorrente entre indivíduos e as estruturas sociais”. Nesse sentido, as identidades devem ser pensadas a partir de grupos minoritários étnicos, buscando seus significados e suas experiências de vida, reconstituindo a história a partir de múltiplos olhares.
Na busca do diálogo com a etnicidade que se refere aos povos, aos grupos, e suas construções culturais, Poutignat e Streiff-Fenart (1998, p. 166) enfatizam que “a etnicidade, então, refere-se aos grupos, ou mais exatamente aos povos, que são nações potenciais, situadas em um estágio preliminar na formação da consciência nacional”. No entanto, Goicoechea (2011, p. 243) faz referência a “etnicidade como princípio ordenador que pode estruturar algumas parcelas da vida social para determinadas situações, sendo que outros sistemas de referência não necessariamente identitários podem ser os princípios ordenadores preferentes da experiência das pessoas e coletivas”.
Desse modo, pensar no coletivo de mulheres da Irmandade da Boa Morte que realiza a festa todos os anos, mantendo a tradição afro-católica presente em Cachoeira na Bahia, fundamenta-se no que para Poutignat e Streiff-Fenart (1998, p. 45) declara, que: “etnicidade, então, refere-se aos grupos, ou mais exatamente aos povos, que são nações potenciais, situadas em um estágio preliminar na formação da consciência nacional. Por fim, a reconstituição da história e do legado da Irmandade da Boa Morte, torna-se relevante, por se tratar de uma confraria religiosa bissecular que vem ao longo dos anos mantendo a tradição religiosa com a realização da Festa da Boa Morte no município de Cachoeira, no Estado da Bahia.
A TRADIÇÃO DA FESTA DA BOA MORTE EM CACHOEIRA – BA
Recorremos ao diálogo com as tradições para compreendermos como a Festa da Boa Morte tornou-se uma tradição no município de Cachoeira, na Bahia. O historiador egípcio Eric Hobsbawm (2018, p. 8) ressalta que “tradição é um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza, ritual ou simbólica”. No entanto, Bornheim (1987, p. 20) relata que “a tradição pode, assim, ser compreendida como o conjunto dos valores dentro dos quais estamos estabelecidos”.
Para Andrade e Andrade (2025, p.3), “a relevância estratégica da região favoreceu a sua ocupação e a intensificação dos usos do território, levando a um processo de etnocídio das populações originárias e ao volumoso tráfico negreiro para atender às demandas de mão de obra local”. É válido ressaltar, segundo a afirmação dos autores, que o contexto que permaneceu por séculos criou um amálgama cultural muito característico do Recôncavo, a partir das manifestações que atualmente são sustentadas como patrimônio cultural e de resistência. Nesse sentido, é interessante pensar nos valores presentes entre as mulheres, membros da Irmandade da Boa Morte, que vem mantendo a tradição da realização da festa todos os anos, no mês de agosto em Cachoeira. Hobsbawm (2018, p. 8) pontua que as tradições “visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado”.
Nesse viés, ressaltamos que a Festa da Boa Morte se tornou um processo de ritualização praticado por fiéis, mulheres negras, pretas e pardas, que iniciam o ritual na Capela da Igreja de Nossa Senhora D’ajuda, seguida de uma procissão que percorre as principais ruas da cidade de Cachoeira, com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, tendo a sua culminância no dia 17 de agosto. Vale ressaltar que na Festa da Boa Morte acontece a cerimônia de Assunção de Nossa Senhora realizada na Igreja Matriz do Rosário na cidade de Cachoeira, seguida de uma procissão com a imagem levada em um andor12 pelas ruas da cidade.
E para uma melhor compreensão de que maneira a Festa da Boa Morte passou a ser uma celebração religiosa em Cachoeira, recorremos à busca do aporte da religiosidade que, de acordo com Oliveira e Junges (2012), “é entendida nesse contexto como religião, tanto pode ser vista como um processo adaptativo e bem integrador da pessoa em busca do entendimento ou do significado para a vida”.
Almeida (2021, p. 65) relata que “a religiosidade adquire forma determinada através da religião. A religião, por sua vez, é um espaço de socialização”. A presente socialização entre as mulheres que organizam e participam da Festa da Boa Morte demandam a reprodução étnica e ancestral dos povos negros. Para Socci (2011, p. 2), a “religiosidade refere-se também às experiências pessoais e ao próprio conhecimento religioso”. Conhecimento adquirido ao longo dos anos por essas mulheres idealizadoras da festa da Boa Morte.
Podemos adotar uma análise cultural para compreendermos como a Festa da Boa Morte passou a ser uma tradição presente na comunidade de Cachoeira. Para tanto, Laraia (2009, p. 24) ressalta que “cultura é um processo acumulativo, resultante das experiências históricas das gerações anteriores. Trata-se, portanto, de disposições legais e pressupostos entendidos como disposições resultantes do vivido e percebido pelos grupos da comunidade em estudo”. Experiências históricas das gerações anteriores, dos conhecimentos dos ancestrais dessas mulheres. Portanto, a cultura para Laraia (2006, p. 25) é “este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. As crenças e costumes presentes entre as mulheres de Cachoeira que realizam a festa, que se tornou tradição secular significativa presente no Estado da Bahia.
Laraia (2001, p. 33) enfatiza que a “cultura é um sistema de símbolos e significados. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações e modos de comportamento”. Tais comportamentos dessas mulheres se modificam quando vestem roupas brancas celestiais e ornamentadas com belos colares, usados durante a celebração da festa. E, por fim, a reconstituição da história da Festa da Boa Morte se torna relevante por se tratar de um festejo que se tornou uma tradição religiosa afro-católica bissecular e que faz parte da cultura presente no Estado da Bahia.
MEMÓRIA, TRADIÇÃO E LEGADO CULTURAL DA FESTA DA BOA MORTE
A Festa da Boa Morte está presente na memória coletiva da população do município de Cachoeira, sobretudo, das pessoas mais velhas, que acompanham a festa em todas as suas realizações anuais.E, assim, podemos contar com os teóricos que convergem com a memória. De acordo com Halbwachs (1990, p. 88), a memória coletiva “é um grupo de analogias, e é natural que ela se convença que o grupo permanece, e permaneceu o mesmo, porque ela fixa sua atenção sobre o grupo”.Compreendemos, então, que a cultura se mantém viva através da memória coletiva dos povos ou comunidades adeptas aos hábitos repassados de geração em geração.
Pollak (1992, p. 201) enfatiza que “a memória deve ser entendida também, ou sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente”. Construído coletivamente, sobretudo, pelas mulheres da cidade de Cachoeira, que organizam e participam da festa todos os anos. Pessoas mais velhas, que guardam em suas memórias dados, fatos e acontecimentos. Bosi (1979, p.12) enfatiza que “o velho carrega em si, mais fortemente, tanto a possibilidade de evocar quanto o mecanismo da memória, que já se fez prática motora”.
Para Delgado (2006, p. 38), “a memória é base construtora de identidades e solicitadora de consciências individuais e coletivas”. A autora cita ainda que a memória “é elemento constitutivo do autorreconhecimento como pessoa e/ou membro de uma comunidade pública, como uma nação, ou privada, como uma família”. A Comunidade de Cachoeira é formada em sua maioria por populares que participam da Festa da Boa Morte em todas as suas edições. A Festa da Boa Morte se tornou uma tradição não só para a cidade de Cachoeira, mas também para o Estado da Bahia.
Referindo às tradições, Bornheim (1987, p. 20) enfatiza que elas estão presentes na “totalidade do comportamento humano, que só se deixa elucidar a partir do conjunto de valores constitutivos de uma determinada sociedade”. Encontram-se presentes na realização da Festa da Boa Morte valores imateriais, como religiosidade, musicalidade, oralidade, memória e, sobretudo, ancestralidade. Para Hobsbawm (2018, p, 380), as tradições “têm funções políticas e sociais importantes, e não poderiam ter nascido, nem se firmado se não as pudessem adquirir”.
Bornheim (1987, p. 20) ressalta que a tradição “designa o ato de passar algo para outra pessoa, ou de passar de uma geração para a outra geração”. Tradição que vem sendo mantida em Cachoeira, na Bahia, ao longo de dois séculos, herança cultural herdada dos ancestrais afro-brasileiros. Ao realizar a Festa da Boa Morte, as mulheres que fazem parte da Irmandade vêm ao longo dos anos contribuindo com a manutenção da memória afro-brasileira, deixando um legado cultural imensurável, através de registros feitos pela oralidade e pelo desenvolvimento de atividades como os rituais sagrados que fazem parte da festa. Nesse sentido, essas mulheres têm a função de preservar a memória cultural afro-brasileira na vida cotidiana das gerações seguintes de mulheres cachoeirenses.
No eixo cultural que conecta os municípios de Cachoeira e de São Félix, a ancestralidade afro-brasileira é marcante e se manifesta de forma viva, orgânica e pulsante. A ancestralidade está presente não apenas na memória coletiva, mas, sobretudo, na preservação e na documentação histórica dos terreiros de candomblé, que constituem importantes territórios de resistência, fé e identidade em ambos os municípios citados.
Para as reflexões no campo das relações étnico-raciais, a Irmandade da Boa Morte oferece um aporte robusto e vasto campo de investigação no tocante a agência de mulheres negras, interseções entre raça, gênero, religião e a marca espacial e temporal da negritude em cidades históricas. Trabalhos que foram desenvolvidos pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB e de periódicos universitários apontam como a Boa Morte permite reconstituir memórias da diáspora africana, táticas de sobrevivência cultural (samba de roda, culinária ritual, irmandades) e estratégias de negociação e convivência com instituições eclesiásticas e poderes locais. Essa relação permite iluminar os debates acerca do racismo estrutural e políticas de reparação simbólica, em que o patrimônio cultural presente nesses territórios proporciona ampla reflexão e utiliza-se de toda a sua força local para inspirar a luta e a resistência de um povo marcado por séculos de exclusão histórica.
Vale ressaltar que a Festa da Boa Morte tem relevância histórica e aspectos de atuação sócio-cultural presentes não somente na cidade de Cachoeira, mas também no Estado da Bahia, por se tratar de uma celebração que ganhou notoriedade a nível nacional e internacional, sendo reconhecida como Patrimônio Imaterial da Bahia, que de acordo com o IPAC (2010, p. 1), o ato foi “assinado pelo então governador Jacques Wagner”. Por fim, ressaltamos que a Irmandade da Boa Morte, ao realizar a festa anualmente, tem deixado seu legado para a cidade de Cachoeira, para o Estado da Bahia e para o Brasil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa faz a reconstituição da religiosidade e da tradição da Festa da Boa Morte no município de Cachoeira. A investigação apresenta relevância social, porque se propõe reconstituir a trajetória e as memórias da Irmandade da Boa Morte, instituição afro-católica brasileira, bissecular que tem deixado um grande legado para o Estado da Bahia e para o Brasil, com a realização da festa todos os anos. Nesse viés, percebemos a presença da religiosidade, da ancestralidade, da resistência e das culturas presentes na Festa da Boa Morte, e que se tornou uma tradição na cidade de Cachoeira.
Ressaltamos que a participação das mulheres da Irmandade da Boa Morte na organização da festa é essencial para a manutenção dessa tradição religiosa que faz parte do calendário anual das festas de Cachoeira e das festas populares da Bahia. Destacamos que a Festa da Boa Morte se tornou um processo de ritualização praticado pelas mulheres negras, pretas e pardas, que iniciam o ritual na Capela da Igreja de Nossa Senhora D’ajuda, seguida de uma procissão que percorre as principais ruas de Cachoeira, com o corpo de Nossa Senhora da Boa Morte, tendo a sua culminância no dia 17 de agosto.
Vale lembrar que na Festa da Boa Morte acontece a cerimônia de Assunção de Nossa Senhora realizada na Igreja Matriz do Rosário na cidade de Cachoeira, seguida de uma procissão com a imagem levada em um andor pelas ruas da cidade, com a participação das mulheres que organizam a festa, por populares, adeptos do catolicismo e do candomblé. Por fim, enfatizamos que a Irmandade da Boa Morte, ao realizar a festa todos os anos, deixa um grande legado para toda a comunidade afro-católica, para a cidade de Cachoeira, para o Estado da Bahia e para o Brasil.
11O Recôncavo baiano é uma região brasileira de forte influência africana que recebeu muitas mulheres e homens vindos de várias partes da África, para ali serem escravizados. Esse movimento em torno da implantação da economia açucareira, por intermédio dos engenhos de açúcar, influenciou nas crenças e valores compartilhados no referido território (COELHO, 2022 apud, OLIVA, 2009).
12Andor: padiola portátil que leva as imagens nas procissões (RIOS, 2012, p. 28).
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1Mestre em Relações Étnicas e Contemporaneidade – PPGREC/UESB, Esp. em Educação no/do Campo, Esp. em História e Cultura Afro-Brasileira, Graduado em História e Graduado em Pedagogia. Professor do Centro Educacional Ministro Simões Filho. Membro do Grupo de Estudos em Pedagogias, Racialidades, Educação, Etnicidades e Gênero – GEPREEG, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB. E-mail: pnogueirasilva@yahoo.com.br. Orcid id: 0000-0002-1084-5774.
2Mestrando em Direito pela Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo/FADISP, Esp. em Direito da Família pela Universidade Cândido Mendes – UCAM, Esp. em Educação a Distância pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB (2013), Bacharel em Direito pela Faculdade de Excelência UNEX (2022), Graduado em Mediação pela Faculdade do Grupo UNIASSELVI (2021). Graduação em Língua Portuguesa e Respectivas Literaturas pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, (2013). E-mail: alexmestrado2025@gmail.com. Orcid id: 0009-0002-6625-4014.
3Mestra em Relações Étnicas e Contemporaneidade – PPGREC/UESB. Esp. em Produção de Mídias para Educação On-line pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia-UFBA. Licenciada em Letras, com habilitação em português e espanhol, pelo Centro Universitário Sant’Anna. Professora Auxiliar da UNEB, Campus XXI, Ipiaú. Orcid id: 0009-0002-7868-9306.
4Pós-graduanda em Direito Penal e Direito Processual Penal pela Legale Educacional, Graduada em Direito pela Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC (2017). Estagiária de Pós-Graduação/TJBA na Comarca de Ibirataia. E-mail: monicaagluz@gmail.com. Orcid id: 0009-0003-8163-8793.
5Pós Graduanda em Psicologia Escolar pela Faculdade Sudoeste UNIGRAD/FASU. Graduada em Psicologia pela Faculdade de Excelência – UNEX, Campus de Jequié. Auxiliar administrativo no Laboratório de Patologia Clínica Lauro Batista. E-mail: vitoriabrunna667@gmail.com. Orcid id: 0000-0002-0868-3497.
6Graduanda do Bacharelado em Nutrição pela Faculdade de Excelência – UNEX, Campus de Jequié E-mail: brendsnog12@gmail.com. Orcid id: 0000-0003-2183-1543.
7Mestra em Relações Étnicas e Contemporaneidade pela Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB. Especialista em Neuropsicologia pela FASU/UNIGRAD. Graduada em Psicologia pela Faculdade de Tecnologia e Ciências Coordenadora do Serviço de Psicologia do NIEFAM/UESB E-mail: carlamanoela@hotmail.com.br. Orcid id: 0000-0002-3361-1364
8Doutor em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional – PPGEP/IFRN. Professor Assistente na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus de Jequié. Coordenador do GEPFE/CNPq. E-mail: bernardino.neto@uesb.edu.br. Orcid id: 0000-0001-5922-5093.
9Mestre em Relações Étnicas e Contemporaneidade – PPGREC/UESB. Licenciado em Letras pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB (2007). Esp. em Literatura e Ensino de Literatura pela UESB (2011), Esp. em Linguagens, suas Tecnologias e o Mundo do Trabalho pela UFPI (2023). Professor do Colégio Estadual Nair Lopes Jenkins – Wenceslau Guimarães – BA. E-mail: ailton.filgueiras@hotmail.com. Orcid id: 0000-0002-4687-0840.
10Mestra em Relações Étnicas e Contemporaneidade – PPGREC/UESB. Pós graduanda em Gestão Escolar pela UESB/UNEAD. Licenciada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB (2017). Professora da rede municipal de Ibirataia – BA. E-mail: taillane.cruz@gmail.com. Orcid id: 0000-0001-9806-9951.
