IDEALIZATION IN WOMEN SUFFERING FROM CONJUGAL VIOLENCE: A PSYCHOANALYTIC PERSPECTIVE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511241840
Eloina Lorena Morais Lima
Michelle da Silva Galvão
Milla Maria De Carvalho Dias Vieira
RESUMO
O artigo analisa, a partir do referencial psicanalítico, como a idealização do parceiro agressor e outros mecanismos inconscientes participam da permanência de mulheres em relações conjugais violentas. Partindo do cenário epidemiológico brasileiro, que revela índices crescentes de violência contra a mulher, o estudo argumenta que fatores objetivos não são suficientes para explicar a manutenção desses vínculos, sendo necessário compreender os processos subjetivos que organizam a vida afetiva dessas mulheres. A revisão de literatura mobiliza conceitos de Freud e Ferenczi, destacando o papel do trauma, do desamparo e da compulsão à repetição na formação de estruturas psíquicas que favorecem a submissão, a culpa e a dificuldade de ruptura. A idealização é apresentada como mecanismo central: ao supervalorizar o agressor e negar seus aspectos destrutivos, a mulher sustenta a fantasia de proteção e transformação, reforçando a dependência emocional e obscurecendo o reconhecimento da violência. Estudos empíricos revisados, como os de Del Bianco, Ramos & Tosta (2024) e Vieira (2025), mostram que histórias infantis marcadas por negligência, violência e abandono funcionam como matrizes relacionais que se reatualizam na vida adulta. O artigo conclui que a permanência em relações abusivas é um fenômeno multideterminado, enraizado na história subjetiva, nos discursos culturais de gênero e em defesas inconscientes que buscam reparar feridas primitivas. A psicanálise, ao iluminar essas operações, oferece subsídios clínicos e teóricos essenciais para compreender a complexidade do fenômeno e promover práticas de cuidado mais sensíveis à experiência dessas mulheres.
Palavras-chave: Violência conjugal; idealização; trauma psíquico; desamparo; psicanálise.
ABSTRACT
This article examines, from a psychoanalytic perspective, how the idealization of the abusive partner and other unconscious mechanisms contribute to women’s permanence in violent intimate relationships. Drawing on Brazilian epidemiological data, which show increasing rates of violence against women, the study argues that objective factors alone cannot explain the maintenance of these bonds, making it necessary to approach the subjective processes that shape these women’s affective lives. The literature review mobilizes concepts from Freud and Ferenczi, highlighting the roles of trauma, helplessness, and repetition compulsion in forming psychic structures that foster submission, guilt, and difficulty breaking away. Idealization appears as a central mechanism: by overvaluing the aggressor and denying his destructive aspects, the woman sustains fantasies of protection and transformation, reinforcing emotional dependence and obscuring the recognition of violence. Empirical studies, such as those by Del Bianco, Ramos & Tosta (2024) and Vieira (2025), show that childhood histories marked by neglect, violence, and abandonment become relational matrices that reappear in adulthood. The article concludes that remaining in abusive relationships is a multidetermined phenomenon rooted in subjective history, cultural gender narratives, and unconscious defenses aimed at repairing early wounds. Psychoanalysis, by shedding light on these operations, offers essential clinical and theoretical contributions to understanding the complexity of the phenomenon and to developing care practices that are sensitive to the experiences of women in situations of violence.
Keywords: Intimate partner violence; idealization; psychic trauma; helplessness; psychoanalysis.
1. INTRODUÇÃO
O fenômeno da violência contra a mulher constitui um grave problema social, de caráter estrutural e persistente, manifestando-se em naturezas distintas (física, psicológica, sexual, moral e patrimonial). Sobre essa realidade representada em estatística, 37,5% das mulheres com 16 anos ou mais relataram ter sofrido algum tipo de violência em 2024, correspondendo a 21,4 milhões de brasileiras (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2024). Dentre elas, 16,9% sofreram agressão física, equivalente a quase 9 milhões de vítimas. Além disso, em 25% dos casos, a agressão ocorreu diante dos filhos, evidenciando o impacto intergeracional. Esses índices representam os mais altos já registrados desde o início da série histórica em 2017.
Tendo em vista esse cenário, o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM), apresentado pelo Ministério das Mulheres do Governo Federal, apresenta dados relacionados à violência letal que indicam a gravidade do cenário. Ao trazer à luz os dados reunidos pelo Sistema Nacional de Informações Penais (SISDEPEN), frisa-se que, apenas em 2023, foram registrados 1.463 feminicídios, número que representa um aumento de 1,6% em relação ao ano anterior, o equivalente a uma média de quatro mulheres mortas por dia devido à condição de gênero (BRASIL, 2025). Além disso, os registros apontaram 62.977 casos de estupro contra mulheres, revelando a amplitude da violência contra mulheres e como as formas de violência não se limitam às agressões físicas. Grande parte das mulheres relatou sofrer violência psicológica, moral e sexual, além de coerção em relações íntimas (BRASIL, 2025). Em média, cada vítima mencionou ter vivenciado três modalidades diferentes de agressão em apenas um ano.
A maior parte das agressões ocorre dentro do próprio ambiente afetivo, o que evidencia a gravidade da violência conjugal como fenômeno estrutural. Cerca de 40% dos casos de violência foram cometidos por cônjuges, companheiros ou namorados, enquanto 26,8% tiveram como autores ex-parceiros (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2024). Esses números indicam que quase 70% das agressões são praticadas por alguém com quem a vítima mantém ou manteve vínculo afetivo, revelando a persistência de dinâmicas de controle, dominação e coerção no interior das relações íntimas. Considerando o número de 21,4 milhões de mulheres que relataram ter sofrido algum tipo de violência, estima-se que mais de oito milhões tenham sido vitimadas por parceiros atuais ou anteriores.
Diante deste preocupante cenário social e estatístico, a gravidade da violência doméstica requer que o olhar se estenda para além dos aspectos objetivos do fenômeno e abranja conhecimento acerca dos processos subjetivos que influenciam sua conservação. Entre eles, a idealização é o processo que atua insidiosamente em relacionamentos abusivos. Muitas mulheres reinterpretam o comportamento do agressor, atribuindo-lhe qualidades positivas e minimizando o abuso sofrido, idealizando-o, portanto (BALDINO & BOECKEL, 2023). Apesar dos repetidos episódios de sofrimento, essa dinâmica emocional prolonga o ciclo de violência. Assim, esse tipo de idealização vai além de um simples sonho e funciona como um mecanismo psicológico e social que justifica a permanência no relacionamento mesmo com os repetidos índices de violência física e emocional.
As políticas públicas e os movimentos sociais brasileiros têm considerado a idealização como um fenômeno simbólico e cultural que sustenta a desigualdade de gênero e dificulta o reconhecimento da violência. Martins, Cerqueira & Matos (2015) argumenta que as ações dos movimentos feministas, que denunciaram a idealização da mulher como “frágil”, “maternal” e “submissa” impactaram significativamente a criação de políticas públicas voltadas para as mulheres. Ao afirmarem o direito das mulheres à independência e à igualdade de condições sociais e políticas, esses movimentos buscaram desconstruir tais representações. Desde os anos 1970, com o crescimento do feminismo e a formalização de tratados internacionais como o de Belém do Pará (1994), a discussão sobre violência doméstica passou a ser entendida também como uma discussão sobre poder e idealizações normativas que colocam as mulheres em papéis passivos.
A luta coletiva feminista exigia o rompimento com as percepções idealizadas que naturalizavam a dominação masculina e sufocavam o sofrimento feminino (MARTINS, CERQUEIRA & MATOS, 2015). Em resposta a essa demanda, surgiram políticas públicas de combate à violência, como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Rosa & Cabral (2025) acrescentam novos aspectos a esse debate, apontando que a contínua interação entre o Estado e os movimentos sociais moldou outras políticas modernas, como a Política Nacional de Saúde Integral da Mulher (PNAISM). O objetivo dessa articulação visava, principalmente, uma reavaliação das formas como o Estado idealiza a “cidadã” em suas regulamentações, frequentemente limitadas às funções maternas e reprodutivas. Tais políticas defendem, portanto, que o enfrentamento à violência e à desigualdade exige uma mudança de significados profunda. É necessário desfazer as idealizações históricas que sustentam a dependência e a subalternidade feminina, promovendo uma visão de mulher como sujeita de direitos e de desejo, e não apenas como objeto de cuidado e proteção estatal (MARTINS, CERQUEIRA & MATOS, 2015; ROSA & CABRAL, 2025).
Nos relacionamentos violentos, a idealização surge como um elemento central e silencioso, pois acolhe e, ao mesmo tempo, aprisiona a vítima. Soares & Merlo (2023) argumentam que a socialização feminina, aliada à idealização dos relacionamentos, contribui diretamente para que as mulheres interiorizem uma imagem romântica de completude e proteção. Isso acaba se reforçando em uma cultura patriarcal que naturaliza a subordinação e a fragilidade feminina. Desse modo, a mulher permanece vinculada a um parceiro que, embora seja o agressor, ocupa simultaneamente o papel idealizado de “salvador” ou “protetor”. A vítima se torna objeto de uma espera indefinida por mudança e pela reafirmação da promessa de amor (SOARES & MERLO, 2023). Essa dinâmica de idealização reforça a dependência emocional e, consequentemente, dificulta a ruptura do ciclo abusivo. Neste contexto, a alternância entre afeto, arrependimento e agressão fortalece o investimento no parceiro e invalida a narrativa de sofrimento das vítimas. A crença de que “o amor vai mudar o outro” persiste, internalizada como uma verdade inquestionável (LEVY & GOMES, 2008).
Nesse sentido, a psicanálise oferece uma perspectiva crucial para investigar o paradoxo central: quais operações subjetivas e inconscientes levam a mulher a permanecer em um vínculo com parceiro agressor? A psicanálise se apresenta como uma abordagem vantajosa para a análise dessa temática dada a sua capacidade de analisar as operações inconscientes que protegem o Eu da realidade da violência (XAVIER & FERRANTE, 2019). Assim, é possível observar este fenômeno utilizando das ideias de idealização, compulsão à repetição, trauma e desamparo, articulando como estas formações psíquicas influenciam a manutenção do vínculo abusivo.
A idealização do agressor e do relacionamento é compreendida como um mecanismo de defesa que protege o sujeito de um profundo mal-estar. O que está em jogo é o desamparo proveniente do reconhecimento de que o objeto amado possui elementos negativos e destrutivos. Para sustentar a negação dessa realidade insuportável, o Eu recorre à idealização, assim definida por Freud (1914/2013): “uma superestimação sexual desse tipo, que encontramos em toda moção da libido, merece o nome de idealização”. Por meio desse mecanismo, há uma negação dos aspectos negativos do agressor e uma supervalorização intensa dos aspectos positivos, de tal maneira que a pessoa, por meio desta visão, passa a ser percebida como perfeita. Essa idealização, nutrida pelo desejo inconsciente de cura e estabilidade, permite à mulher manter o investimento no parceiro e sustentar a crença em sua transformação, prolongando, desse modo, a manutenção dos vínculos abusivos.
Para entender a permanência nesses relacionamentos, precisamos primeiro voltar ao conceito de satisfação narcísica. Freud (1926/2014) esclarece que a satisfação que o ideal nos proporciona é essencialmente narcísica: ela se baseia no orgulho pela realização já conseguida. Essa satisfação deriva de um prazer narcísico, obtido ao manter uma autoimagem valorizada ou grandiosa. Essa dinâmica funciona como um mecanismo de defesa, no qual visa preservar a autoestima e nos proteger do mal-estar da imperfeição e do sofrimento. No contexto das relações violentas: a mulher projeta no agressor um ideal, engrandecendo-o para que, por vias indiretas, o seu próprio Eu ganhe valor por estar atrelado a essa figura supervalorizada, ou por conseguir exercer o papel de “salvadora” do parceiro. Essa operação narcísica atua como um mecanismo de defesa que encobre a dor e a dependência emocional. A idealização tende a ocultar possíveis falhas do parceiro e contribui para uma satisfação interna que pode influenciar o reconhecimento de situações de violência ou dificultar o término de relações abusivas.
A idealização do agressor atua diretamente para amenizar o sofrimento e as intensas frustrações vivenciadas em sua história de vida, reforçadas pelo ciclo da violência conjugal. Essa operação psicológica tem a função de servir de defesa à vítima, permitindo que ela se apegue a uma imagem supervalorizada do parceiro. Ao fazer isso, a mulher reafirma a ideia de que o parceiro é indispensável e, como consequência, que o próprio vínculo é essencial para ela.
A escolha do tema partiu da experiência prática no SEPSI, clínica-escola de Psicologia da Faculdade Carajás, onde relatos frequentes de mulheres em situações de violência conjugal evidenciaram a importância de investigar por que permanecem em vínculos abusivos, especialmente sob a ótica da idealização, utilizando o referencial psicanalítico. Outros trabalhos na clínica confirmam a relevância do tema, ressaltando a necessidade de ampliar pesquisas acadêmicas que articulem teoria e prática. A literatura psicanalítica contemporânea aponta a necessidade de compreender por que mulheres continuam idealizando parceiros mesmo em contextos violentos, destacando a falta de estudos sobre sua subjetividade nessas relações. O objetivo desta pesquisa é aprofundar a discussão sobre violência conjugal e psicanálise, oferecendo novos subsídios teóricos e clínicos para profissionais e estudiosos. O estudo segue as diretrizes metodológicas de Gil (2008) e Marconi e Lakatos (2017), sendo uma revisão de literatura de caráter básico e abordagem qualitativa. Classificada como exploratória, utiliza pesquisa bibliográfica com levantamento sistematizado nas bases SciELO, PePSIC e BVS-Psi, adotando critérios específicos de inclusão e exclusão para compor o corpus analítico.
A partir disso, apresenta-se como o problema desta pesquisa de que maneira a idealização do parceiro agressor, articulada a outros mecanismos psíquicos descritos pela psicanálise, influencia a permanência de mulheres em relacionamentos marcados pela violência conjugal. A justificativa sustenta-se na urgência social e acadêmica do tema, uma vez que os índices crescentes de violência contra a mulher revelam não apenas a persistência estrutural do fenômeno, mas também a necessidade de compreender os processos subjetivos que o mantêm. A alta prevalência de agressões cometidas no âmbito íntimo e a recorrência de relatos de permanência em vínculos abusivos demonstram que fatores psicológicos, como a idealização, a dependência afetiva e o desamparo, constituem dimensões essenciais para a análise do problema. Assim, investigar esses processos contribui tanto para o avanço da produção científica quanto para o aprimoramento das práticas clínicas e das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero. O objetivo principal é analisar, sob a ótica da psicanálise, como a idealização e outros mecanismos inconscientes participam da manutenção de relacionamentos violentos, influenciando a permanência das mulheres no ciclo abusivo e reorganizando sua percepção acerca do agressor e do vínculo afetivo. Para isso, ao longo da pesquisa serão examinados, na literatura psicanalítica clássica e contemporânea, os conceitos fundamentais de idealização, desamparo, compulsão à repetição e satisfação narcísica; identificados, nas produções acadêmicas sobre violência conjugal, como esses mecanismos subjetivos aparecem descritos nas experiências de mulheres vítimas de violência; articulados referenciais teóricos aos relatos e observações provenientes do contexto clínico, de modo a compreender de que forma tais operações psíquicas contribuem para a manutenção do vínculo abusivo; discutidas as implicações teóricas e clínicas desses achados, destacando possíveis contribuições para o campo da psicologia e para o enfrentamento da violência de gênero.
2. TRAUMA
O presente capítulo tem como objetivo fundamental estabelecer o conceito de trauma na psicanálise freudiana, pois este fenômeno está na base da compulsão à repetição e do desamparo, sendo, por consequência, essencial para a compreensão da permanência da mulher no ciclo da violência conjugal (BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024). Segundo Freud (1926/2014), o trauma resulta da impotência do Eu perante excitações intensas, deixando o indivíduo fundamentalmente vulnerável.
2.1 TEORIA FREUDIANA SOBRE O TRAUMA
Para iniciar a apresentação sobre a noção de trauma na perspectiva freudiana, é fundamental traçar a evolução de sua teoria. Durante seu estágio com Charcot, Freud passou a contestar a etiologia da histeria, que na época era atribuída a causas orgânicas. Ele, então, começou a atribuir a neurose histérica à história de vida das pacientes. Dessa forma, a primeira teoria freudiana sobre o trauma surge a partir destes primeiros escritos sobre a histeria, marcando um distanciamento radical da neurologia da época.
De maneira análoga, nossas pesquisas revelaram para muitos (…) dos sintomas histéricos, causas desencadeadoras que só podem ser descritas como traumas psíquicos. Qualquer experiência que possa evocar afetos aflitivos, tais como o susto, angústia, vergonha ou dor física pode atuar como um trauma dessa natureza; e o fato de isso acontecer de verdade depende, naturalmente, da suscetibilidade da pessoa afetada. (Freud, 1893/2016, p. 43).
Dando seguimento, os escritos de Freud de 1893 introduzem o trauma como o fator etiológico central no desencadeamento das manifestações patológicas. Nesta perspectiva inicial, o trauma é concebido como a ocorrência de um evento impactante e brusco que sobrecarrega as defesas do aparelho psíquico. Caracteriza-se, fundamentalmente, pela incapacidade de o sistema elaborar o excesso de excitação, o que acarreta danos à organização psíquica como um todo.
Sob a ótica econômica, o trauma é caracterizado pela ausência de ab-reação (descarga emocional adequada). A falha nesse processo faz com que o afeto permaneça “estrangulado”. Isso ocorre porque a representação do evento não consegue se ligar ao afeto correspondente e a consequência desse processo é o comprometimento do estado de homeostase e do equilíbrio do aparelho psíquico (Freud, 1893/2016, p. 44).
Essa falha na ab-reação impede que o sujeito reaja com uma descarga de afeto adequada. Como resultado, as ideias ligadas aos acontecimentos permanecem excluídas de associações conscientes, e o afeto ‘estrangulado’ ou reprimido se torna um corpo estranho no aparelho psíquico, desorganizando o estado de homeostase.
Com a descoberta do conceito de realidade psíquica, Freud formula sua segunda teoria sobre o trauma. Nesse momento de virada teórica, o foco etiológico da neurose migra do evento externo real para a força dos elementos imaginários, definidos por ele como fantasias. Essas fantasias, oriundas do mundo interno, demonstram ter um valor patogênico por si mesmas, capazes de provocar o trauma e a desorganização psíquica com a mesma eficácia de um acontecimento externo, concluindo que o trauma não é obrigatoriamente um evento factual, mas sim a forma como o psiquismo processa (Freud, 1914/2013, p. 27-28). A neurose passou a ser explicada pelo conflito entre o Eu e o desejo sexual do sujeito, colocando o trauma na esfera da realidade psíquica. Além disso, Freud postula que o trauma gera uma fixação no momento do evento. Como resultado dessa fixação, o sujeito é levado a reeditar continuamente esses eventos, revivendo-os de forma incontrolável.
Este acontecimento traumático, caracterizado pela fixação, passará a ser reeditado nos sonhos, demonstrando a compulsão à repetição. O sujeito é invadido por imagens, barulhos e sensações do instante traumático, revivendo-o de forma repetida e incontrolável, como um encontro que o assombra e do qual é impossível escapar (AZEVEDO & BRANDÃO, 2019).
Freud (1920/2010) introduziu o conceito de compulsão à repetição como um fenômeno psíquico pelo qual indivíduos tendem a reviver experiências traumáticas, mesmo que estas não tragam prazer, numa tentativa inconsciente de dominar ou reprocessar o sofrimento associado. Freud observou que certos pacientes, especialmente aqueles que haviam sofrido traumas, repetiam comportamentos, lembranças ou fantasias dolorosas, sugerindo que nem todas as ações psíquicas estão submetidas à busca do prazer, mas também à necessidade de reencontrar e elaborar experiências traumáticas não integradas. A partir disso, propôs que essa repetição não seria apenas um resquício da infância ou do instinto de auto satisfação, mas uma força estruturante que poderia revelar conflitos intrapsíquicos fundamentais, funcionando como uma tentativa de reorganizar o equilíbrio psíquico frente a experiências que a mente não conseguiu assimilar plenamente.
O trauma, segundo Azevedo & Brandão (2019) é um acontecimento na vida do sujeito que se define pela sua intensidade, sendo um evento hiper intenso que excede a capacidade de elaboração e atinge o psiquismo antes que este possa processá-lo. Este afluxo excessivo de excitações acarreta perturbações e efeitos patogênicos duradouros na organização psíquica. Os autores descrevem o fenômeno econômico como um afluxo de excitações que é excessivo para o aparato psíquico, o qual não consegue, portanto, realizar sua elaboração. Perante esse excesso pulsional, o indivíduo experimenta o desamparo. A consequência dessa intensidade é a emergência da compulsão à repetição, vista como um esforço para dominar o estímulo excessivo e criar uma estrutura psíquica onde havia um vazio de processamento.
Desta forma, o estudo do trauma psíquico se torna relevante para a análise de casos de mulheres vítimas de violência conjugal. Nesses contextos, estas mulheres tendem a reencenar vivências traumáticas da infância, tanto por assistirem às suas mães sofrendo agressões físicas e psicológicas quanto por elas próprias haverem sofrido violência por parte dos pais (BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024). Portanto, essas crianças foram submetidas a violência física e psicológica. Consequentemente, o terror do desamparo se torna inerente desde seus primeiros anos de vida. Desta forma elas são levadas a buscar através da atuação, dar sentido aos afetos que persistem circulando livremente sem simbolização (Vieira, 2025).
Freud (1920) aponta que essa compulsão à repetição opera para além do princípio do prazer, levando os indivíduos a reproduzirem em seus atos e sonhos as situações que lhes causaram intenso sofrimento. Assim, essas mulheres revivem compulsivamente a situação traumática em relacionamentos atuais e análogos, envolvendo diferentes parceiros (Vieira, 2025). A compreensão do trauma ganhou avanços significativos a partir da base freudiana, graças às contribuições de Sándor Ferenczi. Após Freud, foi Ferenczi quem, de forma notável, analisou as consequências do trauma como um evento desconcertante, particularmente no que se refere àqueles ocorridos na infância (Cintra, 2018).
2.2 CONTRIBUIÇÕES DE FERENCZI
Sándor Ferenczi, psicanalista da primeira geração, dedicou-se à importância do trauma na constituição psíquica da criança, em seu ensaio Confusão de línguas entre o adulto e a criança, Ferenczi detalha o traumatismo relacional, demonstrando que a criança, diante da violência, é compelida à submissão (Ferenczi, 1933/1992). Isso ocorre porque a sobrevivência e a manutenção do afeto estão intrinsicamente ligadas à dependência da figura do agressor.
Para Ferenczi (1933/1992), o abuso sexual é, sem dúvida, um fator patogênico essencial na formação de traumas graves. Ele explica isso pelo conceito de confusão de línguas: quando a criança se aproxima com a linguagem da ternura (que é lúdica e afetuosa), o adulto responde de forma violenta, usando a linguagem da paixão (sexualizada). Esse choque extremo força a criança a lidar com algo para o qual ela não está preparada, desorganizando seu psiquismo resultando em um processo traumático. Segundo Ferenczi (1933/1992, p. 101), “nunca será demais insistir sobre a importância do traumatismo e, em especial, do traumatismo sexual como fator patogênico”.
Ferenczi (1933/1992) traz à luz a ideia de que a grande maioria das agressões contra crianças parte, justamente, das pessoas mais próximas, como pais e cuidadores. O grande conflito reside no fato de que a criança é totalmente dependente dessas figuras para sobreviver e receber afeto, tornando impossível fugir do contexto violento. Esse cenário cria uma situação de profunda contradição em que a fonte de cuidado e a fonte de violência são as mesmas, o que acaba por forçar a criança a buscar manter, custe o que custar, um vínculo de ternura com o próprio agressor. Além disso, é fundamental entender que, para Ferenczi, a criança se sente totalmente desamparada, tanto no plano físico quanto no moral, contra o poder do adulto. Sua personalidade, ainda em formação, é frágil demais para conseguir esboçar qualquer protesto ou reação. Em seu trabalho, Ferenczi descreve que o choque e o terror são tamanhos que a criança recorre a mecanismos de defesa extremos, como a submissão imediata e a identificação com o agressor. No plano intrapsíquico, esse processo de desorganização é profundo e devastador, levando a criança a um estado em que: a confiança que tem no testemunho dos próprios sentidos fica destruída.
A criança de quem se abusou converte-se em um ser que obedece mecanicamente, ou que se fixa numa atitude obstinada; mas não pode mais explicar as razões dessa atitude. (Ferenczi, 1933/1992, p. 118).
Uma vez que o agressor é internalizado pela criança, a ameaça da violência deixa de ser uma realidade externa. Esse processo, ditado pela força do princípio do prazer, viabiliza uma defesa psíquica crucial: o agressor internalizado pode ser transformado pelo psiquismo da criança. Essa fantasia permite que a figura seja modelada, tanto de forma positiva quanto negativa, como uma tentativa desesperada de restaurar o estado de ternura pré-traumático.
Conforme analisado por Mendes & França (2012), a introjeção do sentimento de culpa é um mecanismo de defesa essencial no trauma ferencziano, servindo a um propósito de sobrevivência psíquica e relacional. Em um movimento inverso e paradoxal, a criança assume para si a responsabilidade pela agressão que sofreu, transferindo a culpa do adulto para seu próprio Eu. Essa internalização do mal (que deveria ser do agressor) evita que a criança se depare com uma verdade insuportável: a falência moral e o perigo que reside no objeto de seu amor e dependência. Conforme destacado pela literatura recente, a criança prefere suportar a ideia de ser “má” a ter de enfrentar a perda total de confiança na pessoa que garante sua vida, preservando assim o vínculo a um custo psíquico devastador.
Além da identificação com o agressor, é comum notar um segundo mecanismo de defesa em crianças que sofreram abuso: a clivagem psíquica (Ferenczi, 1933/1992). Desencadeada pelo terror e pelo instinto de sobrevivência, essa manobra divide o eu da criança em duas áreas bem definidas. De um lado, forma-se um eu submisso e alienado, que se une ao agressor para garantir sua permanência. Do outro, emerge uma espécie de “eu observador”, que consegue captar e registrar o evento traumático, mas que é totalmente isolado da consciência. Essa cisão fragmenta a personalidade e resulta em um estado psíquico onde essas duas realidades coexistem, mas jamais se integram.
A criança que sofreu uma agressão sexual pode, de súbito, sob a pressão da urgência traumática, manifestar todas as emoções de um adulto maduro, as faculdades potenciais para o casamento, a paternidade, a maternidade. (Ferenczi, 1933/1992, p. 119).
O que realmente consolida o trauma como uma experiência patogênica não é apenas a agressão em si, mas o desmentido subsequente por parte do adulto de confiança. Quando a criança busca o adulto para relatar o ocorrido, este, na maioria das vezes, simplesmente invalida as impressões infantis, desqualificando a dor e a realidade da violência (Ferenczi, 1931/1992). Essa invalidação das suas percepções e sentimentos é profundamente devastadora para a criança, pois destrói sua confiança na própria realidade e, conforme aponta Kupermann (2019), é o fator decisivo para a instalação dos efeitos patogênicos do trauma.
O fecho desse ciclo defensivo se materializa na idealização do agressor internalizado, uma manobra final e alucinatória que serve à necessidade de alívio psíquico. A criança não idealiza o adulto por ingenuidade, mas sim como uma tentativa de dominar o horror e neutralizar o perigo que a ameaça, transformando a realidade traumática através da fantasia. Essa idealização extrema é o caminho forçado para garantir a permanência desse objeto internalizado, visto que é a única esperança de reverter o dano. A vítima se agarra a esse laço interno porque, no fundo, almeja: por meio da permanência do objeto amado, tentar recuperar o estado de ternura anterior ao trauma.
3. DESAMPARO
Desde seus primeiros trabalhos, Freud apresenta a noção de desamparo (Hilflosigkeit), o que evidencia a importância do termo para a psicanálise. O conceito foi esboçado pelo autor desde 1895, mas foi em seus textos desenvolvidos a partir da década de 1920, como Inibição, sintoma e angústia (1926), O futuro de uma ilusão (1927) e O mal-estar na cultura (1930), que Freud pôde aprofundar a problemática sobre o desamparo, elevando a palavra ao status de conceito (Vieira, 2025).
Conforme Vieira (2025), que faz referência às contribuições de Rocha (1999) e Menezes (2010), o desamparo é uma experiência na qual o sujeito se encontra sem ajuda, sem recursos, sem proteção, sem amparo; uma situação, portanto, de desamparo (Rocha, 1999). Segundo Menezes (2010), na construção de Hilflosigkeit a ideia mais importante é a ausência de ação, ausência de ajuda. Dessa forma, essa falta de proteção implicaria na necessidade do outro, de alguém que ajude. Estar desamparado seria uma condição de abandono, solidão e esquecimento, uma falta de amparo a partir do outro, da ajuda do outro (Menezes, 2010).
Freud (1895/2013) explica que o bebê recém-nascido, devido à sua imaturidade biológica, é incapaz de satisfazer suas próprias necessidades. Por isso, ele depende de um outro que realize a ação específica para a descarga de suas excitações endógenas. É a presença e a intervenção desse outro que permite ao bebê ter suas demandas atendidas e, assim, descarregar o excesso de tensão que o incomoda. Ainda nesta perspectiva, o autor define o desamparo como um estado de impotência do recém-nascido, que é incapaz de realizar qualquer ação específica por não possuir os meios necessários para isso. Inicialmente, ele se refere a esse fenômeno como “desamparo motor” (motorische Hilflosigkeit). Contudo, essa incapacidade biológica rapidamente leva ao aumento de uma tensão que o aparelho psíquico não consegue dominar, o que o leva a redefini-lo mais tarde (em 1926/2014) como “desamparo psíquico” (psychische Hilflosigkeit) (Vieira, 2025).
Inicialmente, o desamparo aparecia como a resposta direta ao estado de prematuridade biológica que constitui o aparelho psíquico e motor do bebê, isto é, devido à falta de recursos, o recém-nascido encontra-se em uma fragilidade radical. Nesse sentido, Carvalho & Gewehr (2022) afirmam que não há outra época em que o indivíduo seja tão absolutamente vulnerável, demandando a intervenção de um outro para sobreviver e, consequentemente, para iniciar o processo de constituição do próprio psiquismo. Passos (2018) defende que a condição de existência do sujeito na civilização é apoiada numa condição de desamparo do psiquismo. Conforme postula Menezes (2012), o desamparo por ser originário, fundante e estruturante é insuperável e irá mediar as relações possíveis estabelecidas pelo laço social, sendo, portanto, uma marca presente em todas as relações e acontecimentos.
Freud (1926/2014) oferece fundamentos teóricos que permitem compreender a forma como o sujeito busca organizar-se diante do desamparo. Segundo o autor, a imaturidade orgânica do bebê cria uma condição de vulnerabilidade que se manifesta como desamparo biológico, o qual está diretamente ligado ao psiquismo. Nesse sentido, ele afirma que “a angústia se revela como produto do desamparo psíquico do bebê, que é a contrapartida evidente de seu desamparo biológico.” (Freud, 1926/2014, p. 80). A busca pelo laço com o objeto externo surge, então, como a única via de superação dessa situação traumática originária, pois “o objeto psíquico materno substitui, para a criança, a situação biológica do feto.” (Freud, 1926/2014, p. 80). Assim, a vinculação ao objeto é a resposta do Eu ao perigo da insuficiência, sendo a própria angústia o sinal que mobiliza essa busca.
É em função desse desamparo que o sujeito irá ligar-se a um objeto na tentativa de apaziguar o sofrimento e, assim, produzir e se organizar subjetivamente. A imaturidade orgânica do bebê estabelece a experiência de desamparo, forçando o psiquismo a estruturar suas bases na dinâmica da própria insuficiência. Essa fragilidade biológica (BEZERRA, 2013) institui uma dependência radical e originária, que exige o recurso ao outro para a sobrevivência e, consequentemente, funda o laço social e o processo de subjetivação (Menezes, 2012). A vivência dessa dependência deixa uma marca que influencia todas as relações: o desamparo representa a fonte primordial dos motivos morais e orienta a busca por afeto na vida adulta, pois as relações subsequentes se realizam sob o modelo da relação primordial de amparo (Menezes, 2012).
Em Além do princípio do prazer, de 1920, Freud retoma sua teoria sobre o desamparo de forma secundária, utilizando-o como base para a introdução do conceito de compulsão à repetição. Segundo o autor, a compulsão, observada clinicamente no jogo infantil de alternância da presença e ausência do objeto amado (o Fort-Da), demonstra que o psiquismo é impelido a reviver ativamente a experiência de desamparo e a dor da perda. Ao transformar a passividade do trauma em atividade, o indivíduo obtém um prazer de domínio, buscando, assim, a ligação da excitação que, inicialmente, havia agido para além da lógica do prazer. Do mesmo modo, Freud (1930/2011) demonstra que o desamparo é determinante na estruturação das relações sociais e culturais, pois o sentimento de fragilidade diante da vida motiva a busca coletiva por estabilidade, e refina sua concepção do desamparo em Inibição, Sintoma e Angústia, de 1926. Neste texto, Freud eleva o desamparo psíquico à condição de matriz da angústia e à base para a formação dos vínculos de dependência. Desse modo, a angústia é ressignificada, passando a emergir diante da impotência originária do sujeito. Essa conexão é definida pelo autor: “É fácil ver que nesse contexto não há espaço para uma ab-reação do trauma do nascimento, e que não é possível achar outra função da angústia que não a de sinal para evitar a situação de perigo.” (Freud, 1926, p. 80). A inegável conexão entre desamparo e angústia é, então, reforçada ao observarmos o trauma do nascimento e as primeiras vivências do bebê:
Não requer interpretação psicológica a notável coincidência de que tanto a angústia do nascimento como a angústia do bebê são determinadas pela separação da mãe; explica-se biologicamente de forma simples, pelo fato de a mãe, que antes atenderá todas as necessidades do feto mediante os mecanismos de seu corpo, prosseguir com esta função também após o nascimento, em parte com outros meios. (Freud, 1926/2014, p. 80).
É essencial notar que a importância do desamparo se expande além do evento biológico, alcançando as estruturas da subjetividade e a própria constituição do Eu (FREUD, 1926). O desamparo do recém-nascido não é apenas uma limitação orgânica; ele se torna a matriz que define a experiência subsequente de angústia e a necessidade radical de dependência em relação ao outro. Essa vulnerabilidade primordial institui o modelo a partir do qual toda situação futura de perigo será interpretada pelo sujeito:
A situação que inclui a condição para tal expectativa pode ser chamada situação de perigo, e nela é dado o sinal para a angústia. Esse quer dizer: ‘estou esperando uma situação de desamparo’, ou ‘a situação atual me lembra uma das vivências traumáticas já sofridas’. […] A situação de perigo é a reconhecida, recordada, esperada situação de desamparo. A angústia é a original reação ao desamparo no trauma (FREUD, 1926, p. 116).
Por conseguinte, a teoria da obra eleva o desamparo a condição de experiência primária e universal que define a economia afetiva do sujeito, sendo o ponto de origem da angústia (FREUD, 1926). A incapacidade inicial do bebê de lidar com a inundação de estímulos sem o auxílio do outro supera a mera insuficiência biológica; ela se estabelece como o modelo a partir do qual o psiquismo interpretará toda ameaça futura. Nesse sentido, a angústia é ressignificada: ela não é um subproduto automático, mas sim um sinal de antecipação que surge diante das ameaças de perda. A evolução desse modelo de perigo é o que permite ao Eu dominar a passividade original do trauma. Conforme o autor: “A angústia da castração evolui para angústia de consciência, angústia social. Agora já não é tão fácil dizer o que a angústia teme.” (FREUD, 1926, p. 82). Desta forma, o Eu tenta ativamente transformar o trauma original em um perigo dominável.
A situação de perigo é a reconhecida, recordada, esperada situação de desamparo. A angústia é a original reação ao desamparo no trauma, que depois é reproduzida na situação de perigo como sinal para ajuda. O Eu, que viveu passivamente o trauma, repete ativamente uma reprodução atenuada do mesmo, na esperança de poder ele próprio dirigir seu curso. (FREUD, 1926, p. 116).
Freud (1927/2014) expande a ideia de desamparo e a associa diretamente ao nascimento das crenças religiosas. O autor argumenta que a necessidade de apoio sentida na infância após a perda da segurança parental não desaparece, mas se projeta na vida adulta como uma busca contínua por segurança espiritual. Assim, a religião serve como a ilusão que responde à impotência constitucional da humanidade diante do mundo e de seu destino. Isso demonstra a permanência do desamparo como uma estrutura mental básica que sustenta a religiosidade e o desejo de ordem diante do desconhecido. Segundo a análise de Freud, a fé é a transposição dessa relação de dependência infantil para o plano coletivo:
A terrível impressão deixada pelo desamparo da criança despertou a necessidade de proteção — proteção através do amor —, fornecida pelo pai; e a compreensão de que esse desamparo continua por toda a vida motivou o apego à existência de outro pai — agora mais poderoso. Mediante a benévola ação da Providência divina, a angústia ante os perigos da vida é atenuada. (FREUD, 1927/2014, p. 262-263).
Desse desamparo inicial, os deuses emergem como substitutos do pai protetor da infância. Essa criação simbólica é uma resposta humana à fragilidade diante das forças esmagadoras da natureza e do destino, projetando no reino divino a esperança de amparo e de uma ordem justa. Assim, a religião é fundamentalmente compreendida como um grande esforço coletivo para superar o desamparo humano, transformando o medo e a dependência em fé e submissão.
Desde então, ao que parece, você descobriu o fator da impotência e desamparo humanos, ao qual é geralmente atribuído o papel principal na formação das religiões, e agora você transpõe para o desamparo tudo o que antes era complexo paterno (Freud, 1927, p. 254).
Para além dos limites da infância e da esfera religiosa, o desamparo torna-se uma condição intrínseca à relação do sujeito com o real e o desconhecido, isto é, o sentimento de vulnerabilidade experimentado na infância não se limita à dependência do cuidador ou à busca de proteção por meio de figuras divinas, mas se estende como uma dimensão estrutural do psiquismo ao longo da vida. Freud acreditava que a experiência inicial de desamparo — marcada pela percepção do indivíduo de seu próprio desamparo diante das exigências do mundo e das limitações de seu próprio aparelho psíquico — não desaparece com a maturidade ou a independência. Essa permanência da experiência de desamparo na vida adulta é, inclusive, reconhecida na psicanálise contemporânea (CAMPOS & SILVA, 2020). Em vez disso, ela permanece como uma condição que guia a maneira como a pessoa interage com a realidade, com a incerteza e o desconhecido, sempre buscando segurança, sentido ou controle, seja em interações interpessoais, projetos de vida ou crenças simbólicas. Essa impotência estrutural diante de forças externas, juntamente com as limitações do próprio aparelho psíquico, faz do desamparo uma constante ao longo da vida humana. Mesmo com os avanços científicos e o domínio racional sobre o mundo, o sentimento de vulnerabilidade não desaparece; pelo contrário, o homem continua a buscar refúgio em algo que lhe ofereça segurança e sentido. Freud (1927/2014) observa que, embora a ciência prometa ampliar o poder humano e organizar a vida por meio do conhecimento, ela não elimina completamente o caráter de ilusão dessa crença, apenas a desloca: acreditamos na razão como antes acreditávamos em Deus. Assim, o desamparo persiste, apenas revestido de novas formas de fé e sustentação simbólica.
Lejarraga (2012) propõe uma leitura na qual o narcisismo infantil se constitui como uma estrutura defensiva fundamental, edificada frente à impotência originária e à finitude da existência. A autora sustenta que a sensação de onipotência e de plenitude do Eu infantil não emerge de uma força autônoma, mas de uma ilusão sustentada pela resposta dos pais, que, ao projetarem-se narcisicamente sobre o filho, o investem como um ser idealizado e destituído de falhas. Nesse movimento, o olhar parental confere à criança uma espécie de “aura de completude”, instaurando uma cena imaginária que mascara a fragilidade constitutiva do sujeito. A onipotência, portanto, atua como um mecanismo ilusório de proteção contra o desamparo, ainda que permaneça, paradoxalmente, totalmente dependente do amparo e da presença do outro.
Essa dinâmica fundante, que busca reparar a falta por meio da onipotência, reencontra na vida adulta sua expressão mais intensa na experiência amorosa. O amor passional é compreendido por Lejarraga (2012) como uma tentativa imaginária de restaurar o estado de completude e ausência de falhas que marcou — ou foi fantasiado como tendo marcado — o tempo inaugural da infância. Diante do desamparo estrutural e inevitável que acompanha a condição humana, o sujeito apaixonado dirige-se ao objeto amoroso projetando nele a imagem daquele Eu infantil idealizado e absoluto (Lejarraga, 2002, p. 115).
A onipotência infantil é uma saída ilusória ante a impotência e a fragilidade do eu infantil, uma construção imaginária que tende a encobrir o desamparo, que se sustenta e alimenta na dependência do outro. (LEJARRAGA, 2002, p. 115).
Trata-se, assim, de um movimento que visa negar a própria finitude, reinstaurando, de modo ilusório, o antigo sentimento de fusão e dependência total do outro, característico das primeiras experiências de amor.
Essa leitura converge com a teoria freudiana ao postular que o desamparo não é superado com o desenvolvimento, mas apenas deslocado para outras formas de laço e de idealização (FREUD, 1927). O amor passional, nesse sentido, representa uma defesa psíquica que tenta recobrir a dor da falta e a angústia da separação, conforme o texto de Lejarraga (2002):
Podemos pensar na paixão como figura contraposta ao desamparo, ou como uma resposta passível ao desamparo. Enquanto o desamparo implica dependência e fragilidade egóica, na impossibilidade de se valer por si mesmo, a paixão amorosa – que contém no seu bojo a dependência total do amado e a diluição do eu no outro – quando correspondida é imagem e de autossuficiência a dois. O apaixonamento representaria ilusoriamente a felicidade e a plenitude, contraposta ao desamparo, que seria metáfora da desolação. (LEJARRAGA, 2002, p. 115).
A partir dessa formulação, compreende-se que o apaixonamento encena uma busca incessante pela restauração de uma unidade imaginária perdida, constituindo-se como um modo de enfrentamento, ainda que ilusório, do desamparo e da finitude que atravessam a existência. Ao discutir tal dinâmica, Lejarraga (2002, p. 96) diz: “Por mais que possamos sair do estado infantil de desamparo, nunca deixamos totalmente de ser desamparados, de depender do outro para viver”.
O percurso conceitual do desamparo revela sua natureza contraditória: desde a prematuridade biológica que inicia a dependência absoluta do sujeito aos mais intrincados tipos de vínculo social, emocional e civilizacional. Simultaneamente, a maior expressão da fragilidade inata do ser humano e a força vital que o impulsiona em direção ao outro numa busca incessante por segurança, plenitude e sentido, define-se o desespero. Essa dependência, criada desde o início da vida, não desaparece com a maturidade; ao contrário, transforma-se e redefine-se nos diferentes domínios da experiência humana, fazendo do amor, da religião e da cultura as principais ilusões necessárias para tentar recuperar a vulnerabilidade fundamental do ser (CAMPOS, MENEZES & BOCCHI, 2020).
É justamente nesse ponto que surge a idealização, buscando transformar a fragilidade em segurança e o desamparo em completude. Portanto, a idealização surge de um esforço inconsciente para rejeitar a falta e investir no objeto — seja por meio do apaixonamento, da figura divina ou o ideal cultural — um ideal que promete trazer de volta a completude perdida. Se o desamparo é o início inevitável da experiência humana, a idealização é uma de suas respostas mais elaboradas porque permite ao indivíduo manter viva a crença na possibilidade de um apoio absoluto, mesmo ao custo de renunciar à realidade.
4. IDEALIZAÇÃO
Freud (1914/2010) define a idealização como um processo envolvendo o objeto, mediante o qual este é aumentado e psiquicamente elevado sem que haja transformação de sua natureza. A idealização pode se manifestar tanto na esfera da libido narcísica quanto na libido objetal, sendo a supervalorização sexual de um objeto durante o estado de paixão o exemplo mais evidente deste último caso. Neste mesmo ensaio, aponta que “[…] estar apaixonado ocorre em virtude da realização das condições infantis para amar […] podemos dizer que qualquer coisa que satisfaça essa condição é idealizada” (FREUD, 1914/2010, p. 107). Essa concepção esclarece que o objeto idealizado não é qualquer um, mas aquele capaz de corresponder com as condições de amor estabelecidas na infância, tal como detalha Vieira (2025). Em essência, a satisfação desses critérios é o que desencadeia a paixão e o processo de idealização. Conforme argumenta Vieira (2025), idealizamos quem nos ampara. Essa dinâmica libidinal é detalhada quando Freud (1914/2010) define o elucidando o mecanismo que o eleva à condição de ideal sexual:
O enamoramento consiste num transbordar da libido do Eu para o objeto. Ele tem o poder de levantar repressões e restaurar perversões. Ele eleva o objeto sexual a ideal sexual. Como, no tipo objetal ou de apoio, ele sucede com base no cumprimento de condições de amor infantis, pode-se dizer que tudo o que preencher tal condição de amor será idealizado. (Freud 1914/2010, p. 49).
Freud (1914/2010) define que a idealização do objeto se baseia nas primeiras categorias de escolha objetal estabelecidas pelo sujeito na infância. Esses modelos iniciais de amor serviram como referência fundamental, determinando a forma como o indivíduo busca e projeta a perfeição no parceiro adulto:
A escolha objetal se dá quando se ama: a) segundo o tipo narcísico: a quem se é, a quem se foi, a quem se gostaria de ser, e a pessoa que foi parte do próprio Eu; b) segundo o tipo de apoio (anaclítico): a mulher nutriz ou o homem protetor.” (Freud 1914/2010, p. 35/36).
Embora seja um componente inerente à paixão, a idealização pode se manifestar de forma diferente em contextos marcados por fragilidade narcisista. Kernberg (1975) explica que a supervalorização libidinal do objeto atua como um mecanismo de defesa ao examinar os ideais em relacionamentos disfuncionais. Esse processo fortalece os objetos que replicam padrões relacionais nocivos, esclarecendo, assim, por que a idealização persiste na preservação de vínculos destrutivos, apesar da dor evidente. O propósito dessa idealização é manter inconsciente a exigência de que o parceiro possua qualidades restauradoras. Essa dinâmica oculta a necessidade de que o objeto de amor repare falhas internas do sujeito. A persistência de imagens idealizadas justifica a aceitação do abuso, ao mesmo tempo em que funciona como o poder psicológico que retarda o rompimento do relacionamento.
Quando Freud afirma que “o enamoramento consiste num transbordar da libido do Eu para o objeto […] ele eleva o objeto sexual a ideal sexual” (FREUD, 1914/2010), torna-se possível compreender como essa dinâmica se manifesta especificamente no vínculo abusivo. A idealização do parceiro, especialmente em contextos de violência, se caracteriza justamente por esse movimento de “transbordar” libidinal: o outro é investido com qualidades superiores, muitas vezes correspondentes a expectativas infantis de amor e reparação (FREUD, 1914/2010). Essa supervalorização funcionaliza o objeto amado como ideal do Eu, favorecendo o enraizamento em estruturas relacionais disfuncionais, onde o parceiro idealizado torna-se simultaneamente fonte de segurança e de sofrimento. Sobre essa questão, Freud (1914/2010) afirma que:
O ideal sexual pode se colocar num interessante vínculo auxiliar com o ideal do Eu. Onde a satisfação narcísica depara com obstáculos reais, o ideal do Eu pode ser usado para a satisfação substitutiva. Então a pessoa ama, em conformidade com o tipo da escolha narcísica de objeto, aquilo que já foi e que perdeu. (Freud 1914/2010, p. 49).
Na tradição pós-freudiana, Lewkovitch e Grimberg (2016) afirmam que a idealização ligada à libido narcisista está relacionada à criação do Ideal do Eu, um símbolo da perfeição almejada para restaurar a satisfação onipotente do narcisismo. Freud, tanto em 1914 quanto em 1921, sublinhou sua relação com a supervalorização do objeto amado, o ideal e a dinâmica libidinal envolvida, e apontou que investir muito esforço na valorização do objeto resultaria naturalmente em uma redução da libido do próprio Eu.
O mesmo livro de 1921 descreve o processo de idealização como aquele que mantém o mesmo padrão de admiração narcisista que provém das primeiras relações objetais. Essa preservação do narcisismo infantil direciona a libido para o objeto, o que leva à sua superestimação e à falsa atribuição de perfeição e completude.
Assim, quando, na idealização, um objeto é colocado no lugar do ideal, observa-se uma reprodução da situação infantil, na qual se verifica uma “relação entre alguém com poderes superiores e alguém que está sem poder e desamparado” (Freud, 1921/2011, p. 147).
Dessa maneira, a escolha do objeto idealizado obedece a uma lógica de satisfação do próprio Eu: o indivíduo ama o objeto não por ele mesmo, mas sim pelos atributos que deseja incorporar ao seu ego. Assim, a superestimação do objeto que ocupa o lugar de ideal é um meio para o sujeito alcançar, indiretamente, a satisfação de sua libido narcísica (FREUD, 1921/2011, p. 188).
A idealização manifesta-se como fascinação e servidão ao objeto que se torna precioso, situação em que a libido narcísica do sujeito transborda em direção a ele. Essa dinâmica ressalta o caráter alienante do objeto idealizado, pois, ao assumir a função de Ideal do Eu, ele sustenta a ilusão de possuir grandes valores e poderes, em uma reprodução da situação narcísica originária da infância (PASSOS, 2018). Em um sentido mais abstrato, a idealização pode, inclusive, ser compreendida como uma devoção sublime a uma ideia ou ideal abstrato (Freud, 1921, p. 143).
No texto O futuro de uma ilusão, de 1927, é possível compreender que o conceito de idealização está relacionado ao modo como o sujeito transforma seus objetos de desejo em modelos dotados de valor e perfeição. Nesse processo, ocorre uma elevação psíquica que desloca a energia libidinal para fins simbólicos. Freud define:
A satisfação que o ideal oferece aos participantes da cultura é de natureza narcísica, baseia-se no orgulho pela realização já conseguida. Para ser completa, necessita da comparação com outras culturas. (FREUD, 1927/2014, p.242 243).
A idealização mantém, portanto, um caráter relacionado ao desejo e ao simbolismo. Freud (1927/2014) discute a idealização como um mecanismo fundamentado na figura paterna, do qual deriva o ideal, ressaltando que o indivíduo, em geral, só consegue conceber essa providência sob a representação de um pai altamente exaltado; apenas um pai com tais características poderia compreender as necessidades humanas, ser sensível aos seus apelos e ser influenciado por manifestações de arrependimento. Além disso, a idealização é apresentada como uma forma de sustentação do vínculo entre o Eu e as construções culturais que oferecem consolo diante da precariedade humana. Freud afirma:
Quando, então, a pessoa em crescimento percebe que está destinada a ser sempre uma criança, que jamais pode prescindir da proteção contra as forças superiores desconhecidas, ele atribui a elas os traços da figura paterna, cria para si os deuses, que teme e que procura conquistar, e aos quais, no entanto, confia a sua proteção. É assim que o motivo do anseio pelo pai é idêntico à necessidade de proteção contra as consequências da impotência humana; a defesa contra o desamparo infantil empresta à reação contra o desamparo – que o adulto tem, necessariamente, de reconhecer como sendo justamente a formação da religião – seus traços característicos. (FREUD, 1927/2014, p. 255-256).
Aqui, a idealização conserva elementos infantis, mantendo-se como base psíquica que alicerça crenças religiosas e sociais. Desse modo, a idealização se articula ao desejo de permanência das crenças religiosas mesmo quando sua validade racional é questionada. Assim, a idealização se expressa como resistência psíquica que impede o abandono das estruturas simbólicas que oferecem segurança. A idealização está associada à tentativa de o sujeito reconciliar-se com o sofrimento imposto pela cultura.
Mediante a benévola ação da providência divina, a angústia ante os perigos da vida é atenuada; o estabelecimento de uma ordem moral universal assegura o cumprimento da exigência de justiça. (FREUD, 1927, p. 263).
Na psicanálise atual, entende-se que a idealização atua como um mecanismo fundamental que organiza as relações sociais e ajuda o indivíduo a lidar com a angústia gerada pelo receio de ficar desamparado em sociedade. Montes (2023) nos traz que, na idealização, o objeto recebe a mesma consideração dada ao Eu, sendo preenchido pela libido e ocupando um lugar que o ideal do Eu não alcança, tornando-se parte do próprio ego.
Segundo Martins, Cerqueira & Matos (2015), a idealização é um processo psíquico destinado a reconquistar a sensação de completude e a proteger o indivíduo do sentimento de desamparo. Nesse sentido, seriam essas ilusões de origem narcísica, criadas pela idealização a partir das aspirações do eu ideal, que fundamentariam a crítica de Freud à ilusão religiosa.
Em seu trabalho, Lejarraga (2012) aborda a distinção crucial entre idealização e sublimação. Enquanto a sublimação é um processo que incide sobre a pulsão e tem a capacidade de realizar com sucesso os ideais do sujeito, a idealização diz respeito ao objeto (Lejarraga, 2012, p. 92). Este mecanismo leva o indivíduo a outorgar ao objeto um valor superior ao que ele realmente possui, engrandecendo-o. Essa superestimação aproxima o processo da ilusão e, consequentemente, o afasta muitas vezes da concretização dos próprios ideais do indivíduo.
Assim, devemos diferenciar a idealização, que se caracteriza pelo abandono da atividade crítica e pela cegueira de juízo, da formação do ideal que, enquanto imagem de perfeição, estimula o sujeito a realizar ações para alcançar o dito ideal. (LEJARRAGA, 2012, p. 92).
Esse mecanismo é notoriamente evidente no apaixonamento, onde o objeto amado é idealizado em sua totalidade. No entanto, o processo vai além da mera superestimação do outro: idealiza-se também a própria experiência passional, elevando-a à condição do sentimento mais intenso e verdadeiro, que mais se aproxima da ideia de felicidade. A idealização, portanto, comporta uma dupla função: não só confere valor superior ao objeto, mas também idealiza a experiência emocional, garantindo sua permanência e o afastamento da realidade (Lejarraga, 2012, p. 92). O indivíduo apaixonado projeto, ou transfere, sobre o objeto de sua paixão, as idealizações narcísicas de sua infância, e tem a ilusão de que, nesse objeto idealizado, está o segredo de tudo que falta. Com efeito, na paixão amorosa, revive-se a ilusão da completude narcísica infantil, que fazia da mãe tudo para a criança, e da criança tudo para sua mãe. Essa tentativa ilusória de querer recuperar, em uma união fusional com o objeto da paixão amorosa, aquele estado de bem-aventurança psíquica e de completude narcísica para todo o sempre perdido — e que de fato nunca existiu senão nas fantasias das crianças — é, para Freud, a mais importante característica da Verliebtheit (Rocha, 2012).
5. VIOLÊNCIA CONJUGAL: A IDEALIZAÇÃO DO AGRESSOR
Retomando ao problema desta pesquisa, trazemos relatos da história de duas mulheres que vivenciaram sofrimento psíquico, visando ilustrar de que maneira a idealização do parceiro agressor, articulada aos outros mecanismos psíquicos descritos, influencia a permanência dessas mulheres em relacionamentos marcados pela violência conjugal, destacando como as vivências se inscrevem subjetivamente e contribuem para a repetição de vínculos marcados pelos padrões violentos.
5.1 DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA (2024)
O estudo de Del Bianco, Ramos & Tosta (2024) foi desenvolvido entrevistas com mulheres vítimas de violência e o objetivo de compreender a repercussão de eventos traumáticos infantis na vida adulta e suas influências na permanência em ciclos de violência crônica em relacionamentos conjugais, onde foram encontradas falas que exemplificam os conceitos abordados neste artigo. Para o presente estudo, será revisitado o caso de Clara. A história de Clara foi apresentada pelos autores:
Clara (64 anos) tem três filhos, é aposentada e está casada há mais de 40 anos. Possui o ensino superior completo e conta com uma aposentadoria superior a três salários mínimos; seu marido, também aposentado, complementa a renda do lar com um salário mínimo. Revela um histórico de diferentes formas de maus-tratos, como abusos físico, psicológico e sexual, além de negligências física e emocional. Afirma que nunca se sentiu amada e que poucas vezes sentiu que tinha alguém para cuidar dela e protegê-la. Muitas vezes, foi ameaçada se não fizesse algo sexual com o próprio pai, e frequentemente apanhava da mãe com objetos que a machucavam. (DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024, p. 7).
Clara afirma que “nunca se sentiu amada e que poucas vezes sentiu que tinha alguém para cuidar dela e protegê-la” (DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024, p.7), revelando a persistência do desamparo em sua história e evidenciando, na prática, o que foi discutido a partir da teoria freudiana ao longo deste artigo, onde as figuras primárias da participante não lhe ofereceram o amparo de que necessitava e, por isso, seu estado de desamparo não pôde ser superado, permanecendo e se repetindo ao longo de sua vida adulta. Assim, Clara se desenvolveu dentro de uma dinâmica marcada pela insuficiência. A fragilidade é intensificada pelo trauma relacional vivenciado por Clara, que, desde a infância, sofreu abusos físicos, sexuais e emocionais, evidenciando, de forma concreta, o conflito que Ferenczi (1933/1992) descreve como o cerne da confusão de línguas. Quando a figura que deveria oferecer cuidado é a mesma que inflige terror, ocorre uma ruptura fundamental da confiança básica e, segundo o autor, consolida um padrão psíquico no qual a busca por amparo e afeto, marcada pelo desamparo originário, passa a se vincular à repetição da violência em suas próprias experiências.
“Quando meu pai estava com raiva, ele não precisava falar, seus olhos saíam faísca, dava pra sentir o ódio e raiva nos olhos dele, e eu ficava totalmente paralisada de medo, achava que ele iria me matar”. (Clara). (DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024, p. 8).
A paralisia que Clara sentia diante da ameaça paterna, expõe uma evidência clínica da manifestação do trauma, demonstrando falha do aparelho psíquico de Clara em lidar com o evento traumático, no qual a intensidade ultrapassou a capacidade de elaboração. Tal incapacidade do Eu de ligar e dominar o excesso psíquico, conforme apontado por Freud (1920) em seus estudos sobre o trauma, resulta na repetição do afeto e do desprazer, marcando a inscrição do trauma como um real não simbolizado.
“Me sentia desastrada na minha infância […] eu fazia coisas que deveria tomar mais cuidado. Eu carrego em mim uma culpa muito grande, tudo me traz culpa, até hoje”. (Clara). (DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024, p. 8).
“As mulheres desse tipo, assim como eu, sentem-se com muito pouco valia. Eu nunca me senti amada, tenho uma baixa autoestima. Eu tive infância de um pai abusador, então eu busquei numa outra pessoa para ter carinho, fé, uma situação diferente. Eu sempre tive a esperança de que meu marido mudasse e pudesse me valorizar um pouco mais … Também tenho medo da solidão e também a culpa dele, do meu marido ficar sozinho e não ter quem cuidar dele; sinto culpa inclusive por ele ter os problemas físicos que ele tem”. (Clara). (DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024, p. 8).
As falas de Clara descrevem o padrão que Ferenczi (1933/1992) considera como introjeção do agressor, no qual a vítima internaliza o sentimento de culpa. A introjeção dessa culpa funciona como um mecanismo de defesa, garantindo que o vínculo de dependência seja preservado, mesmo à custa da dor.
“É como se eu não me sentisse merecedora de algo melhor; é como se eu fosse merecedora de algo ruim que me estivesse acontecendo, sentia que precisava viver dessa forma”. (Clara). (DEL BIANCO, RAMOS & TOSTA, 2024).
Na vida adulta, a baixa autoestima impulsiona a compulsão à repetição. Isso ocorre porque o trauma deixou um excesso psíquico não ligado, que o Eu não conseguiu elaborar durante a experiência. Esse material não processado permanece livre e ativo no psiquismo, exigindo constantemente uma nova representação ou reencenação (FREUD, 1920).
5.2 VIEIRA (2025)
O caso de Amanda, extraído da tese de Vieira (2025), permite analisar como os mecanismos psíquicos previamente estabelecidos se manifestam na história de vida e nos relacionamentos.
Amanda é uma mulher de aproximadamente 27 anos, possui graduação concluída e estava cursando outra até o final do acompanhamento psicanalítico. No início do tratamento, morava sozinha em uma casa cedida pela mãe. Amanda apenas procurava a análise quando o relacionamento conjugal “não estava bem”, ou seja, quando existia a possibilidade de o relacionamento chegar ao fim. O término do relacionamento era algo aterrorizante para essa paciente, chegando a pensar em suicídio caso ele se concretizasse. Parecia que buscar a análise era a última esperança para não tirar a própria vida. Contudo, sempre que o seu relacionamento “estava bem”, Amanda abandonava o tratamento e passava meses sem acompanhamento. (VIEIRA, 2025, p. 25).
O comportamento de Amanda evidencia a centralidade do vínculo amoroso na organização de seu psiquismo e ilustra de que maneira a ameaça de perda do parceiro reativa experiências de desamparo profundamente enraizadas. Freud (1926/2014) descreve que a possibilidade de abandono convoca o desamparo infantil, momento em que o Eu ainda depende integralmente do outro para sua preservação. No caso de Amanda, o risco de término desencadeia intenso sofrimento, chegando a pensamentos suicidas e revelando a função vital que o parceiro idealizado cumpre em sua economia psíquica.
Desde a primeira sessão, Amanda relatou o constante medo que sentia em ser “deixada”, abandonada pelo namorado, com quem estava se relacionando há mais ou menos um mês, o qual irei chamar de Ricardo (nome fictício). Percebe que sentia esse medo pois ele, ao longo do dia, demorava em responder suas mensagens ou atender às suas ligações. Sentia medo de estar sendo enganada, de Ricardo não estar atendendo pelo fato de ter outro relacionamento. Já Ricardo se apresentou para Amanda como um empresário bem-sucedido, dono de três empresas que se localizavam em diferentes capitais do país. Se locomovia entre as empresas por meio do seu avião particular. Por ser um homem muito ocupado, que vivia em reuniões, não conseguia atender às ligações de Amanda. (VIEIRA, 2025, p. 25).
Ao longo das sessões, percebia que Amanda se encontrava em um conflito, pois, por um lado, dizia acreditar no que Ricardo estava contando e, por outro, sentia que não poderia acreditar ou confiar em suas palavras. (VIEIRA, 2025, p. 25).
O medo constante de abandono relatado por Amanda revela o funcionamento psíquico profundamente marcado pela dependência do objeto amoroso e pela fragilidade do Eu diante da possibilidade de perda. A oscilação entre acreditar e duvidar das narrativas grandiosas apresentadas por Ricardo evidencia o conflito entre a percepção da realidade e o investimento idealizante dirigido a ele. Freud (1921/2011) aponta que o engrandecimento do objeto pode suspender o julgamento crítico, permitindo que mesmo elementos evidentemente inverossímeis sejam aceitos quando o sujeito deposita no outro a função de garantia narcísica. No caso de Amanda, o fascínio por um parceiro que encena poder, sucesso e onipotência parece operar como defesa contra o retorno do desamparo, conduzindo-a a aderir parcialmente às fantasias de Ricardo, ainda que simultaneamente perceba suas incongruências. Essa clivagem entre crença e desconfiança expressa, como descreve Ferenczi (1931/1992), uma tentativa de acomodação psíquica frente à angústia traumática, na qual a verdade é flexibilizada para preservar o vínculo.
É importante considerar que a paciente sobrevivia somente da bolsa do seu estágio e de uma pequena pensão dada pelo seu pai. Com essa realidade, passava muitas dificuldades econômicas, chegando a quase faltar comida em sua casa. Ricardo, sempre que ia à residência dela, fazia supermercado com compras para a semana, procurava cuidar da casa, consertando algo que estivesse quebrado. Buscava se fazer muito presente, mostrando ser preocupado e atencioso. Todo esse cuidado e atenção eram acompanhados de frases do tipo: “quero te ver alimentada”, além de promessas: “nunca vou te abandonar”. (VIEIRA, 2025, p. 26).
A condição econômica precária de Amanda intensifica sua vulnerabilidade subjetiva e contribui para que o cuidado oferecido por Ricardo seja investido de um valor desproporcional, funcionando como uma forma concreta de amparo em meio ao desamparo estrutural que a caracteriza. A condição econômica precária de Amanda intensifica sua vulnerabilidade subjetiva e contribui para que o cuidado oferecido por Ricardo seja investido de um valor desproporcional, funcionando como uma forma concreta de amparo em meio ao desamparo estrutural que a caracteriza. Freud (1921/2011), aponta que “[…] o objeto colocou-se no lugar do ideal do Eu”, o que possibilita a satisfação narcísica e estabelece o laço de identificação.
Para Amanda, o gesto de Ricardo de comprar comida, arrumar a casa e prometer nunca mais ir embora tem, portanto, um poder simbólico que transcende o nível físico e a coloca novamente na posição de quem satisfaz uma carência primordial. Vieira (2025) observa que mulheres marcadas por traumas tendem a idealizar pessoas que se apresentam como fortes e protetoras. A submissão ao arranjo proposto por Ricardo revela não apenas acomodação afetiva, mas a tentativa de preservar o vínculo com o único objeto que, para ela, encarna a possibilidade de amparo.
Para compreender como Amanda se vincula a Ricardo, pode-se utilizar a reflexão de Freud (1914/2010), onde é sustentada a ideia de que idealizamos aqueles que parecem cumprir as condições infantis para amar, ou seja, figuras que, de algum modo, atualizam a promessa de completude primária vivida na relação inicial com os cuidadores, ajudando a compreender por que expressões como “quero te ver alimentada” ou “nunca vou te abandonar” adquirem, para Amanda, uma potência afetiva tão grande: elas não são apenas declarações de cuidado, mas reavivam a fantasia de um Outro capaz de suprir a falta constitutiva e reinstalar a ilusão de proteção total. No desenvolvimento dessa mesma linha teórica, Freud (1921/2011) acrescenta que a idealização altera o juízo, falseando a capacidade de discriminar o verdadeiro do ilusório. O objeto idealizado é engrandecido a tal ponto que falhas evidentes ou contradições deixam de operar como critérios de realidade. É precisamente o que se verifica no caso de Amanda: mesmo diante de sinais concretos de incoerência nas narrativas de Ricardo, sua necessidade de preservá-lo na posição de ideal impede que o juízo crítico se estabeleça. “O apaixonado projeta, ou transfere, sobre o objeto de sua paixão, as idealizações narcísicas de sua infância […] na paixão amorosa, revive-se a ilusão da completude narcísica infantil” (ROCHA, 2005, p. 62). Assim, a figura de Ricardo funciona, na economia psíquica de Amanda, como um suporte imaginário para a antiga crença de que existe um Outro todo-poderoso capaz de preencher o vazio da falta, crença sem a qual ela se vê ameaçada pela experiência primária de desamparo.
Ademais, a análise desenvolvida por Vieira (2025) aprofunda essa compreensão ao demonstrar que a idealização, no caso de Amanda, não tem apenas a função de engrandecer o parceiro, mas opera como uma defesa contra a irrupção de um desamparo traumático que acompanha sua história desde a infância. Amanda precisava sustentar a crença de que não estava só e de que dispunha de alguém forte e protetor, e perder essa crença seria confrontar-se com o excesso pulsional ligado à violência que a marcou desde cedo. É nesse contexto que se torna possível compreender por que Amanda mobilizava justificativas evidentemente afastadas da lógica para manter a coerência interna de sua fantasia. Tal necessidade se articula com a fragilidade narcísica que Vieira (2025) descreve, indicando que Amanda permanece aprisionada a um modelo narcísico de relação. O fracasso da relação mãe–bebê deixa a criança diante de um risco de aniquilamento e, diante dessa ameaça, o sujeito se agarra a ilusões de completude, buscando no outro a reparação impossível dessa falha originária (SILVA, 2002 apud VIEIRA, 2025). A onipotência infantil funciona como saída imaginária diante da impotência e da finitude, sustentando-se na dependência do outro e mascarando o desamparo primordial (BIRMAN, 1999; LEJARRAGA, 2002 apud VIEIRA, 2025). Como afirma Lejarraga (2002, p. 85), é “uma construção imaginária que tende a encobrir o desamparo”, permitindo ao sujeito crer que não está à mercê da vulnerabilidade que o constitui. Em Amanda, essa necessidade aparece de modo eloquente: a manutenção da idealização de Ricardo não é apenas o desejo de acreditar em um namorado ideal, mas a única forma que ela encontra, naquele momento de sua vida psíquica, de não ser tragada pelo vazio traumático que a acompanha desde a infância.
Vieira (2025) relata que Amanda acabou descobrindo toda a farsa construída por Ricardo quando um amigo dele resolveu revelar a verdade: ele não era empresário, mas apenas um estagiário, e mantinha um noivado oculto enquanto se relacionava com ela. Mesmo depois de quase um ano ouvindo Ricardo dizer que “não prestava” e até incentivá-la a namorar outra pessoa, ele seguia ligando e mantendo o vínculo. A revelação deixou Amanda tomada pela paralisação e desespero, e quando foi confrontá-lo percebeu que ainda tinha medo de que ele a deixasse. O término acabou acontecendo, mas ela, envolvida e fragilizada pela dinâmica da relação, pediu que eles não terminassem.
Mesmo após descobrir a mentira, a reação de Amanda mostra o quanto ela estava aprisionada a uma relação marcada pela idealização, retomando as contribuições de Freud de que, no enamoramento, o sujeito engrandece o objeto a ponto de suspender o julgamento crítico, tratando-o como portador de perfeições que ele próprio deseja possuir (FREUD, 1921/2011). Mesmo diante da verdade, Amanda continua temendo o abandono, demonstrando o seu medo em perder a sensação narcísica de completude.
Portanto, tanto Clara quanto Amanda foram crianças traumatizadas, agredidas enquanto crianças. Freud (1920/2010) descreve que o trauma rompe a proteção do psiquismo e produz marcas que retornam de forma fragmentada, muitas vezes sob a forma de lapsos, lacunas e recusa de recordação. O “não lembrar” de Amanda não indica ausência de experiência, mas a impossibilidade de integrá-la sem reviver o sofrimento original. Ferenczi (1932/2011), ao discutir o trauma infantil, aponta que o sujeito frequentemente se desliga de si mesmo diante da violência, produzindo zonas de amnésia afetiva que só podem ser revisitadas quando um ambiente suficientemente seguro se estabelece.
Nota-se que, nessas situações, a permanência no vínculo abusivo é sustentada pelo que se designa como compulsão à repetição. Freud (1926/2014) afirma que, apesar da repressão, o impulso instintual encontra um substituto, porém este é limitado, deslocado, inibido e não reconhecido como satisfação. Em termos mais simples, a compulsão à repetição é um impulso inconsciente que leva o indivíduo a reviver, no presente, experiências dolorosas e traumáticas do passado. A pessoa repete o cenário de sofrimento não por escolha, mas numa tentativa falha e involuntária de, finalmente, dominar o trauma original e obter um desfecho diferente ou satisfatório.
Em relação à violência doméstica, cada agressão reativa antigas marcas psicológicas, em vez de ser um evento isolado. Com base nas contribuições de Ferenczi (1933/1992) sobre o trauma, confirma-se a presença contínua da mulher no ciclo: ela permanece aprisionada em ciclos de retorno ao agressor, impulsionada por forças inconscientes que a levam à identificação com ele e à cisão psíquica, mecanismos que impedem a ruptura e sustentam o vínculo abusivo. Para a mulher, o laço afetivo intensifica a experiência traumática, pois o amor, ao invés de simbolizar uma espécie de proteção, transforma-se em fonte de dor. O trauma, portanto, prende a vítima num ciclo de sofrimento e desamparo. Além disso, a idealização contribui essencialmente para a permanência do vínculo disfuncional. Segundo Freud:
A tendência que aqui falseia o juízo é a da idealização. Mas, com isso, é mais fácil nos orientarmos; nós reconhecemos que o objeto é tratado como se fosse o próprio Eu, que, portanto, no enamoramento, uma medida maior de libido narcísica transborda sobre o objeto. Em algumas formas de escolha amorosa, salta até mesmo à vista que o objeto sirva para substituir um ideal do Eu próprio, mas não alcançável. Ele é amado por causa das perfeições que se almeja para o próprio Eu e as quais agora se gostaria de obter, por esse desvio, para a satisfação de seu narcisismo. (FREUD, 1927/2010, p. 255).
Ao considerar o conjunto dos casos analisados e a literatura brasileira que discute a permanência de mulheres em relações violentas, torna-se evidente que o trauma precoce, o desamparo e a idealização operam como organizadores psíquicos centrais na manutenção desses vínculos. Estudos nacionais indicam que a violência de gênero se inscreve em contextos estruturais marcados por desigualdades afetivas e simbólicas que se iniciam muito antes do relacionamento conjugal, configurando trajetórias de vulnerabilidade que se atualizam repetidamente nas escolhas amorosas e nas estratégias de enfrentamento (SAFFIOTI, 2004; SCHRAIBER et al., 2002). Ao mesmo tempo, pesquisas em psicologia clínica têm mostrado que o sofrimento psíquico dessas mulheres não pode ser compreendido sem a articulação entre história subjetiva, dinâmica relacional e condições sociais de existência, reforçando a importância de abordagens clínicas e institucionais sensíveis à complexidade dessas experiências (MENEGHEL; HIRAKATA, 2011). Dessa forma, o capítulo evidencia que a articulação entre psicanálise e estudos brasileiros sobre violência oferece não apenas uma compreensão mais profunda do fenômeno, mas também subsídios éticos e teóricos para a construção de práticas de cuidado que reconheçam a singularidade dessas mulheres e a necessidade de intervenções que transcendam respostas focalizadas apenas no evento violento, alcançando o enraizamento histórico e afetivo que sustenta o ciclo.
6. CONCLUSÃO
A análise desenvolvida ao longo deste trabalho permitiu compreender que a permanência de mulheres em relações conjugais violentas não pode ser explicada apenas por fatores objetivos ou socioeconômicos, mas exige uma investigação profunda dos processos subjetivos que estruturam o vínculo com o agressor. Os capítulos apresentados evidenciaram que, na vida dessas mulheres, o traumático opera como uma ruptura radical da capacidade psíquica de simbolizar o excesso, instaurando vivências de medo, descontinuidade e impotência que se atualizam ao longo da vida adulta. Como mostram Del Bianco, Ramos e Tosta (2024) e Vieira (2025), histórias de infância atravessadas por violência, negligência e abandono tornam-se matrizes relacionais que orientam escolhas amorosas marcadas pela ambivalência entre desejo de amparo e repetição do sofrimento.
Os aportes teóricos de Freud reforçam que o trauma não se restringe ao acontecimento externo, mas à impossibilidade de o Eu dar forma ao excesso pulsional (Freud, 1893; 1920; 1926). Ferenczi (1933/1992) aprofunda o entendimento do trauma ocorrido ainda na infância ao demonstrar que, diante da violência cometida por figuras de cuidado, a criança é compelida à submissão, à clivagem e à identificação com o agressor, instaurando marcas psíquicas duradouras que reaparecem nos vínculos amorosos posteriores. Os relatos das participantes analisadas nos estudos confirmam esse movimento: a culpa introjetada, o medo da solidão, a sensação de não merecimento e a esperança de transformação do parceiro são efeitos diretos de um eu que, fragilizado desde cedo, aprendeu a sobreviver pela via da obediência, da renúncia e da idealização.
A articulação entre trauma e desamparo evidenciou que o desamparo não é apenas uma condição biológica inicial, mas um eixo estruturante da subjetividade. O sujeito, ao experimentar a fragilidade radical diante das primeiras perdas e angústias, aprende a buscar no outro uma promessa de proteção que, mais tarde, pode tomar a forma de amor idealizado. Esse desamparo originário reaparece nas relações conjugais violentas como dependência emocional, medo da ruptura e expectativa de que o agressor possa devolver a sensação de completude perdida. Assim, a permanência no vínculo abusivo não é resultado de uma escolha consciente, mas expressão de uma economia afetiva organizada em torno da tentativa de evitar o retorno à situação de perigo psíquico.
A idealização constitui o operador central que sustenta esse movimento. A dinâmica narcísica de supervalorização do parceiro, combinada à necessidade inconsciente de reparação, explica por que mulheres permanecem investindo afetivamente em homens que reiteradamente as ferem. Nos estudos analisados, essa idealização aparece não apenas como defesa individual, mas como fenômeno sustentado por discursos culturais que associam amor à renúncia, sacrifício e salvação do outro. A socialização de gênero reforça expectativas românticas de completude e dedicação irrestrita, dificultando o reconhecimento da violência e contribuindo para a manutenção do ciclo abusivo (LEVY & GOMES, 2008).
Ao retomar os dados epidemiológicos apresentados, observa-se que a violência contra mulheres permanece sendo um problema público de enorme magnitude, atravessado tanto por desigualdades sociais quanto por mecanismos subjetivos que agravam e perpetuam a vulnerabilidade feminina. Quando se compreende que o trauma precoce, o desamparo estrutural e a idealização do agressor operam combinadamente na sustentação do vínculo violento, reafirma-se a urgência de políticas públicas que integrem cuidado psicológico, enfrentamento estrutural das desigualdades e ações educativas que desnaturalizem as narrativas culturais que romantizam o sofrimento feminino. Como argumentam Rosa & Cabral (2025) e Martins, Cerqueira & Matos (2015), romper com a violência implica também romper com os ideais normativos que moldam a mulher como sujeito de sacrifício e tolerância ilimitada.
A psicanálise mostrou-se um referencial indispensável para a compreensão da complexidade que atravessa a permanência dessas mulheres em relações violentas, sobretudo porque oferece ferramentas para acessar o que não é imediatamente visível nos relatos e comportamentos. Ao articular conceitos como trauma, desamparo, idealização e compulsão à repetição, o campo psicanalítico permite ultrapassar explicações meramente comportamentais ou sociológicas, iluminando as operações inconscientes que sustentam o vínculo com o agressor. Esse aporte teórico possibilita compreender como experiências infantis de abandono, violência ou desvalorização moldam formas específicas de amar, sofrer e esperar, reinstalando na vida adulta um enredo afetivo que se organiza em torno da busca por proteção e reparação. Nesse sentido, a psicanálise contribui não apenas para interpretar a dinâmica de cada caso, mas também para explicitar que a manutenção do ciclo de violência é resultado de processos psíquicos enraizados na história subjetiva e cultural dessas mulheres, e não de escolhas racionais ou voluntárias. Assim, seu valor analítico reside justamente na capacidade de revelar a lógica afetiva que sustenta o sofrimento e de oferecer caminhos para uma escuta clínica que acolha e simbolize essas experiências.
A análise realizada permite concluir que a permanência de mulheres em relações abusivas é um fenômeno complexo, multideterminado e profundamente enraizado na história subjetiva e cultural. O traumático, ao impedir a simbolização e reinstalar vivências de desamparo, e a idealização, ao oferecer a promessa narcísica de completude e reparação, colaboram para o aprisionamento em laços que repetem, no presente, a dor do passado. A psicanálise, ao iluminar essas operações inconscientes, oferece contribuições essenciais para o campo clínico, acadêmico e social, reforçando a importância de uma abordagem sensível às marcas psíquicas deixadas pela violência e às formas pelas quais elas se transmitirão, se não forem reconhecidas e trabalhadas. Com isso, reafirma-se a relevância deste estudo para a psicologia e para a sociedade, apontando caminhos para práticas clínicas e políticas que considerem a complexidade subjetiva da mulher em situação de violência.
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