REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602170401
Ligiane Monteiro de Arruda1
Marcelo Victor da Rosa2
Resumo
O racismo, enquanto fenômeno estrutural, também se atualiza no ensino superior por meio de práticas institucionais, interações cotidianas e regimes simbólicos que produzem exclusões, silenciamentos e desigualdades. Este artigo analisa como a cultura do racismo se manifesta no ambiente universitário e discute possibilidades de enfrentamento no âmbito acadêmico. Metodologicamente, realiza-se pesquisa bibliográfica sobre raça, colonialidade e racismo no ensino superior, articulada a pesquisa documental baseada em publicações institucionais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), com foco em ações divulgadas no âmbito da Campanha Eu Respeito (2018–maio/2025). Os resultados indicam que as iniciativas mapeadas contribuem para visibilizar a questão racial e produzir espaços formativos, porém tendem a se concentrar em marcos simbólicos, especialmente em novembro, o que pode reforçar uma abordagem episódica do tema. Nesse sentido, o enfrentamento institucional do racismo demanda políticas permanentes e transversais, articulando acesso, permanência material e permanência simbólica, de modo a transformar práticas e sentidos que naturalizam desigualdades no cotidiano universitário.
Palavras-chave: Ensino Superior. Racismo Estrutural. Ações Institucionais.
Introdução
A formulação moderna de “raça” emerge no contexto colonial como parte de um repertório de justificativas voltado à legitimação da dominação e da exploração de populações conquistadas. Se, em um primeiro momento, as distinções entre europeus e não europeus foram frequentemente interpretadas em chaves culturais e religiosas, a intensificação do empreendimento colonial produziu condições para consolidação de explicações que buscavam naturalizar hierarquizações. Nessa direção, Almeida (2019) compreende como um legado histórico do colonialismo, enfatizando seu caráter relacional e situado, isto é, distante de qualquer entendimento essencialista ou fixo. Conforme assinala o autor (Almeida, 2019, p. 16):
[…] Se antes desse período ser humano relacionava-se ao pertencimento a uma comunidade política ou religiosa, o contexto da expansão comercial burguesa e da cultura renascentista abriu as portas para a construção do moderno ideário filosófico que mais tarde transformaria o europeu no homem universal (atentar ao gênero aqui é importante) e todos os povos e culturas não condizentes com os sistemas culturais europeus em variações menos evoluídas.
Mesmo após a formal superação do colonialismo, Quijano (2005) argumenta que persistem heranças de hierarquização social, racial e epistemológica que reatualizam assimetrias produzidas no período colonial. A esse funcionamento duradouro, o autor atribui a noção de colonialidade, distinguindo-a do colonialismo enquanto regime histórico de dominação direta.
Nesse quadro, a racialização no colonialismo é compreendida como uma tecnologia de dominação de povos e territórios, pós esse período articula-se nas dimensões econômicas, políticas e culturais. É nesse horizonte que Quijano (2005) formula a ideia de colonialidade de poder, evidenciando a continuidade de matrizes classificatórias e de dominação que extrapolam a ocupação territorial.
Os efeitos dessas estruturas se prolongam geracionalmente e se manifestam, muitas vezes, de modo indireto, produzindo desigualdades e limitando o acesso a direitos. No campo universitário, tais dinâmicas podem ser observadas em práticas e mecanismos que, ainda que não tenham sido legalmente instituídos como segregação no Brasil, operam concretamente na reprodução e, em determinados casos, na própria produção de desigualdades raciais. Carvalho (2006, p. 92) chama atenção para dificuldade histórica de o meio acadêmico examinar criticamente tais mecanismos e de desativá-los:
[…] através de mecanismos que esse próprio mundo acadêmico tem feito muito pouco por analisar e nem tem mostrado interesse, até recentemente, em desativá-los. Fica ainda por compreender qual tem sido a participação do mundo acadêmico na formulação e na implementação prática desses mecanismos institucionalizados de segregação. Dito em outros termos, esse tipo de segregação é apenas reproduzido ou é também produzido no nosso meio acadêmico? A julgar pelo seu caráter generalizado e crônico, provavelmente seja uma soma das duas coisas.
No Brasil, a ampliação do debate público sobre desigualdades raciais e a pressão de movimentos sociais, em especial ao movimento negro, contribuíram para que as ações afirmativas ganhassem maior centralidade na agenda pública. Santos (2009) destaca que a III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata (Durban, 2001) teve papel importante no fortalecimento dessa discussão no país, repercutindo debates sobre a necessidade de políticas de acesso ao ensino superior público e incidindo no cenário político nacional nos anos seguintes.
Do ponto de vista metodológico, este estudo mobiliza autores(as) que discutem a questão racial, com ênfase em seus efeitos no ensino superior, articulando revisão bibliográfica e pesquisa documental. A pesquisa bibliográfica, conforme Gil (2002, p. 3), é desenvolvida com base em material já elaborado, especialmente livros e artigos científicos.
Para complementar a discussão, realizou-se pesquisa documental a partir de publicações disponíveis na página institucional da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), tomando como recorte materiais vinculados à Campanha Eu Respeito. Sobre esse tipo de abordagem, Gil (2010, p. 52) aponta a amplitude de fontes documentais possíveis e destaca, entre suas vantagens, o potencial na qual os “documentos constituem rica fonte de dados; como suscitam ao longo do tempo, torna-se a mais importante fonte de dados em qualquer pesquisa de natureza histórica e; não exige contato com o sujeito da pesquisa”.
O artigo organiza-se em cinco seções: primeiramente a presente introdução; na sequência a seção intitulada: ‘Raça, cultura e colonialidade: fundamentos para pensar o racismo’; em seguida: ‘Racismo no ensino superior e políticas institucionais de enfrentamento’; a próxima seção: ‘Papel da UFMS na questão racial: recortes de atuação’, na qual examinam-se recortes relativos à questão racial no contexto da UFMS, no âmbito da Campanha Eu Respeito, considerando o período do início da campanha até maio de 2025; por fim, finaliza-se com a seção: ‘Considerações finais’.
Raça, cultura e colonialidade: fundamentos para pensar o racismo
A compreensão de raça como construção histórica e relacional exige situá-la no interior dos processos culturais e políticos vinculados à modernidade colonial. Em diálogo com Williams (2015), cultura pode ser entendida como um “modo de vida” que organiza significados partilhados e, simultaneamente, permanece em constante disputa e reinvenção. Essa perspectiva permite considerar que o racismo não é apenas um conjunto de atitudes individuais, mas uma racionalidade social que produz sentidos, hierarquias e pertencimentos, atualizando-se em práticas cotidianas e institucionais.
Nesse horizonte, Quijano (2005) argumenta que a ideia de raça ganha centralidade com a colonização das Américas, como instrumento que classifica, hierarquiza e legítima dominações. Mecanismo este que não opera somente pela força material do colonialismo, mas também pela produção de saberes, valores e critérios que instituem o homem europeu com referência universal e os demais como variações inferiores ou desviantes. Perante isso o autor destaca que (Quijano, 2005, p. 118):
[…] a idéia de raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela conquista. A posterior constituição da Europa como nova identidade depois da América e a expansão do colonialismo europeu ao resto do mundo conduziram à elaboração da perspectiva eurocêntrica do conhecimento e com ela à elaboração teórica da idéia de raça como naturalização dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não-europeus. Historicamente, isso significou uma nova maneira de legitimar as já antigas idéias e práticas de relações de superioridade/inferioridade entre dominantes e dominados.
A literatura pós-colonial e descolonial ajuda a aprofundar essa discussão ao evidenciar que racialização incide sobre corpo, linguagem, subjetividade e reconhecimento. Fanon (2008), ao refletir sobre a linguagem e colonialismo, mostra como a assimilação cultural pode ser vivida como exigência de afastamento da própria identidade e como forma de internalização da inferiorização.
Já Said (2007) evidencia como discursos “científicos” e culturais foram mobilizados para sustentar o binarismo civilizado/incivilizado e avançado/atrasado, oferecendo justificativas simbólicas para o imperialismo e para a inferiorização de povos colonizados. Assim, raça e cultura aparecem articuladas como campos de disputa em que se produzem regimes de verdade, hierarquias e possibilidades de vida.
Racismo no ensino superior e políticas institucionais de enfrentamento
Quando deslocamos essa discussão para o ensino superior, o racismo pode ser entendido como parte de uma engrenagem institucional que regula acesso, permanência, reconhecimento e legitimidade acadêmica. Carvalho (2006) chama a atenção para a existência de mecanismo de segregação racial que, embora não tenham sido legalmente formalizados no Brasil, operam de forma persistente e “informal” na universidade, participando tanto da reprodução quanto da produção de desigualdades. Essa ideia tensiona a ideia de neutralidade acadêmica, indicando que a universidade também integra a dinâmica histórica de racialização.
A crítica se amplia quando consideramos que as universidades, por muito tempo, consolidaram-se como espaços marcados por seletividade social e racial, com baixa representatividade negra e indígena em diferentes níveis da vida acadêmica (Sotero; Tourinho, 2021).
Isso se expressa não apenas nos processos de acesso, mas também em dimensões simbólicas e pedagógicas: currículos pouco plurais, escassa presença de referências negras e indígenas, desigualdades na distribuição de recursos e práticas que produzem microviolências e silenciamentos. Nesse quadro, o ensino superior aparece como espaço de disputa no qual a democratização do acesso não elimina, por si só, os obstáculos que atravessam a trajetória de estudantes racializados (Cordeiro, 2010).
É nesse sentido que as ações afirmativas e as políticas de permanência ganham centralidade. A Lei de Cotas (Brasil, 2012) representou uma inflexão importante no perfil discente das universidades federais, ao ampliar a presença de grupos historicamente excluídos. Entretanto. Como argumenta Santos (2009), a efetividade do acesso depende de condições materiais e simbólicas de permanência – isto é, apoio financeiro, suporte pedagógico, reconhecimento e pertencimento institucional. Além disso, o cenário recente de restrição orçamentária da assistência estudantil tensiona a capacidade institucional de sustentar políticas de permanência, especialmente para estudantes em vulnerabilidade socioeconômica (Alves, 2025).
Diante disso, iniciativas institucionais voltadas à visibilização e ao enfrentamento do racismo – como campanhas, programas e ações formativas – podem ser lidas como estratégias que operam no plano simbólico e pedagógico da vida universitária, produzindo sentidos sobre diferença, pertencimento e reconhecimento.
É a partir dessa chave que se justifica o recorte empírico deste estudo: analisar, no âmbito da UFMS, a Campanha Eu Respeito como um conjunto de práticas institucionais que, ao tematizar a questão racial em diferentes anos e ações, contribui para tensionar silenciamentos, mas também revela limites temporais, como será discutido adiante.
Papel da UFMS na questão racial: recortes de atuação
Entre as ações promovidas pela UFMS, abordaremos uma delas, trata-se da campanha intitulada Eu Respeito, a qual ocorre ao longo de todo o ano. A cada mês, é abordado um tema específico, e, dentro de cada tema, são propostas diversas ações. Diante disso, será feita uma sondagem de atividades fomentadas por essa ação no que tange a questão racial.
A Campanha Eu Respeito teve seu início em abril de 2018 no intuito de propiciar uma convivência harmônica na Instituição, integração entre as pessoas nas diversas unidades e na união dos esforços que refletisse em melhores realizações para a sociedade. No seu primeiro ano os temas abordados foram a saúde, a Universidade, as ações afirmativas, a história, o futuro, a vida, a pessoa e o conhecimento (UFMS, 2018a).
Em março de 2020, a Campanha Eu Respeito, tornou-se parte do programa Se Cuide, Te Amo! Uma Ação do Coração da UFMS. O programa foi idealizado com o objetivo de promover o cuidado e a melhoria da qualidade de vida de toda a comunidade acadêmica, em um contexto marcado pela pandemia do novo coronavírus. Nesse cenário, o programa buscou desenvolver iniciativas para garantir a preservação de vidas durante as atividades presenciais, tanto no âmbito administrativo quanto acadêmico, ao mesmo tempo em que visava prevenir a disseminação do vírus (UFMS, 2022b).
A campanha deu continuidade mesmo após o fim da pandemia e segue vigente até os dias atuais. De acordo com a página da Agecom3, os temas e cores da campanha são distribuídos ao longo dos meses, houve alterações dos temas no decorrer do anos, atualmente se encontra da seguinte maneira: Janeiro – cor: Branco, tema: A integralidade; Fevereiro – cor: Azul, tema: Os sonhos; Março – cor: Lilás, tema: A renovação; Abril – cor: verde, tema: A saúde; Maio – cor: Amarelo, tema; O trabalho; Junho – cor: verde, tema: O meio ambiente; Julho – cor: azul, tema: A universidade; Agosto – cor: Lilás, tema: A profissão; Setembro – cor: Amarelo, tema: A vida; Outubro – cor: Rosa, tema: A pessoa; Novembro – cor: Azul, tema: O conhecimento e Dezembro – cor: Vermelho, tema: A gratidão (UFMS, 2022a).
Mensalmente, a página principal da UFMS (ufms.br) publica as ações planejadas para cada mês, de acordo com o tema correspondente. Para localizar essas publicações, foi utilizado o descritor ‘Campanha Eu Respeito’ no buscador da página principal da universidade. O resultado da busca retornou as notícias relacionadas à campanha. A partir desse conjunto de informações, foram selecionadas as ações da campanha cujos temas se aproximavam e/ou envolviam a questão racial. Nesse sentido, serão apresentados os resultados das buscas agrupadas por ano.
Em 20184, no mês de maio, o CPAN promoveu um Cine Debate “Cafundó – as heranças da escravidão no Brasil”, em que trouxe a discussão sobre a escravidão e seus impactos na vida dos/as escravizados/as e seus/suas descendentes. No mês de junho, pensando a garantia da igualdade em oposição à discriminação, o tema foi Ações Afirmativas, que incluiu palestras e cursos sobre as relações étnico-raciais. O CPNA5 promoveu o II Seminário sobre Diferenças de Raças e Etnia da UFMS: garantindo direitos para o povo negro”. Voltado especialmente para técnicos-administrativos, coordenadores, a equipe de heteroidentificação e comunidade acadêmica (2018b; 2018c).
Ainda no mês de junho, no CPNV6, houve o lançamento da 3ª edição do “Informativo Sabotagem”, que trata de uma publicação organizada por acadêmicos que compõem expressão de diversos assuntos incluindo debates étnico-raciais. Já no CPAN, realizou-se uma mesa redonda intitulada “Inclusão e diversidade na educação básica e educação superior”, entre os diversos temas debatidos destaca-se Acesso e Acessibilidade, Necessidades Especiais e Tecnologias Assistivas, e trouxe também debate sobre políticas de cotas (UFMS, 2018d; 2018e).
Marcando o dia da Consciência Negra, no dia 21, comunidades quilombolas trouxeram como atividades a música, culinária, feira e apresentaram seus costumes em locais espalhados pela Universidade. Ocorreu também, apresentação da comunidade negra São João Batista e palestra que teve como tema de discussão “O racismo em três dimensões: individual, simbólico e estrutural”. E no CPNA, em alusão ao tema Conhecimento da Campanha Eu Respeito, realizou-se uma conferência intitulada “Educação e Relações Étnico-Raciais” (UFMS, 2018f; 2018g).
No ano de 2019, em setembro, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis – Proaes, Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas – Progep, Agecom e Instituto Integrado de Saúde – Inisa, juntamente com os representantes estudantis (Diretório Central dos Estudantes – DCE, Atléticas, Ligas Estudantis e Grupos de Apoio), se reuniram para discutir ações que promovem a saúde, os direitos humanos, a inclusão e voluntariado na instituição. Na Campanha Eu Respeito com o tema a Pessoa, em outubro, as cotas na universidade foram um dos assuntos das palestras, que teve como objetivo informar a comunidade acadêmica. Também em outubro, a DIAAF7 promoveu oficinas de capacitação para bancas de verificação (UFMS, 2019a; 2019b; 2019c).
Nos dias 19 e 20 de novembro, o CPAQ8 e IFMS9 de Aquidauana sediaram a Semana da Consciência Negra, as atividades trouxeram o intuito de valorizar e reforçar a busca por informações sobre leis, direitos, comportamento e leitura. Da programação teve como destaque o sarau literário oportunizado pelo clube de leitura “Por Que Ler Nunca É Demais”, também contou com apresentação musical, contação de história, grupo “Aki-Ritmos”, exibição de documentário e roda de capoeira. No evento também ocorreu uma mesa-redonda Negritude em Debate com temáticas “Marcas da escravidão: Sul do Mato Grosso no século XIX” e “A construção da identidade para a relações étnico-raciais, roda de conversa com o Neab (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros), dentre outras ações (UFMS, 2019d).
Em 2020, especificamente em fevereiro, na recepção dos calouros foi apresentado o Coletivo Negro da UFMS, como menciona na publicação, a ideia é fortalecer aqueles que estudam na instituição, buscando apoiar, auxiliar, reunir, para que não se sintam sozinhos (UFMS, 2020).
Já em 2021, de 3 a 23 de novembro foi realizado atividades sobre o Mês da Consciência Negra com cursos, palestras e aulas promovidas pelo Neab da UFMS, englobando lançamentos da 2ª mostra fotográfica “Beleza Negra Resiste” e do documentário “Territorialidades negras em Mato Grosso do Sul” (UFMS, 2021).
No ano de 2022, entre os meses de outubro e novembro, a Secretaria de Acessibilidade e Ações Afirmativas (SEAAF) promoveu uma série de atividades que na busca de contribuir para a integração e garantia de direitos, diante disso, foi lançado o projeto “UFMS promovendo a valorização das pessoas: contra homofobia, xenofobia, discriminação e racismo”, dentre essas atividades proporcionou uma palestra cujo tema foi “Cotas na UFMS: os 10 anos da Lei N° 12.711”, que foi promovida pela própria Seaaf (UFMS, 2022c).
Outras atividades também integraram ao projeto com temáticas como “Esse muro entre nós: Diálogos sobre xenofobia e racismo”, “Pessoas Diferentes Caminham Juntas Contra o Racismo”, “Questões Étnico-Raciais na Sociedade Contemporânea”, “Simpósio de Direitos humanos e diversidade”, “Conexões EFORGeo: Os diferentes espaços na perspectiva de negros e negras”, entre outras programações, as atividades foram promovidas na Cidade Universitária de demais campus. Na programação também consta as atividades do Neab e parceiros sobre o Mês da Consciência Negra (UFMS, 2022d).
Já para o ano 2023, dentre as atividades promovidas, abordaram a inclusão da pessoa com deficiência na universidade e no dia 31/10, na rádio UFMS, houve uma apresentação com o tema “Cotas na UFMS: ingresso, permanência, participação e sucesso” (UFMS, 2023).
Em 2024, em fevereiro, na Semana Pedagógica, evento que ocorreu de forma on-line, trouxeram como tema a “Excelência no Ensino Superior: Acolhimento, Inclusão, Inovação e Acessibilidade” (UFMS, 2024a). Em novembro, na divulgação da campanha, é realizada a menção sobre a sanção da Lei Nº 14.759, que torna o Dia da Consciência, 20 de novembro, feriado nacional (UFMS, 2024b).
O Neab e o grupo de Pesquisas sobre Educação, Relações Étnico-Raciais e Formação de Professores promoveram o evento “Afrocentrismo e os estudos pós-coloniais: possibilidades para a descolonialidade do saber”, durante o mês da Consciência Negra promoveu-se seminários, debates e exposição de bonecas (UFMS, 2024b).
Por fim, em 2025, no mês de maio em celebração as datas como o dia Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo e o Dia Internacional Contra a LGBTFobia, o CPNA promoveu atividades do projeto de pesquisa “Vozes Alteístas e Plurais”, com foco em narrativas de mulheres, pessoas negras e LGBTQIANP+ (UFMS, 2025).
Os resultados do levantamento indicam que a abordagem da questão racial, no âmbito da Campanha Eu respeito, ocorre por meio de diferentes formatos – seminários, cine-debates, mesas-redondas, ações formativas e eventos culturais –, com o protagonismo recorrente do Neab e participação relevante de setores institucionais como a Seaaf, além de iniciativas localizadas em câmpus específicos.
Observa-se, contudo, uma distribuição desigual dessas atividades ao longo do calendário acadêmico, com forte concentração no mês de novembro, em torno da Consciência Negra, e menor recorrência nos demais períodos do ano, o que sugere uma visibilização frequentemente atrelada a marcos simbólicos.
Esse padrão dialoga com a crítica de Hasenbalg (1996) acerca do risco de a questão racial ser deslocada para um plano meramente cultural ou comemorativo, perdendo densidade analítica sobre as estruturas que sustentam as desigualdades. Ainda assim, os recortes analisados evidenciam um movimento institucional de reconhecimento do racismo como problema universitário e a criação de espaços formativos e de debate público, em convergência com leituras que compreendem a universidade como parte do processo de reprodução – e também contestação – das hierarquias raciais (Carvalho, 2006; Sotero; Tourinho, 2021).
A campanha pode ser lida como um conjunto de práticas discursivas que não apenas “tratam” o racismo, mas produzem sentidos sobre diferença, pertencimento e legitimidade no espaço universitário. Essa dimensão torna visíveis tanto avanços quanto os limites de ações centradas em sensibilização e eventos, recolocando como desafio a transversalização permanente da pauta racial para além de calendários temáticos e efemérides.
Considerações finais
A análise desenvolvida neste artigo reafirma que o racismo, enquanto fenômeno estrutural e historicamente constituído, também atravessa o ensino superior, produzindo efeitos na experiência acadêmica, nas formas de reconhecimento e nas condições de permanência de estudantes racializados. Ainda que, em muitos casos, suas expressões se apresentem de modo indireto e cotidiano, seus impactos se materializam em desigualdades persistentes no acesso, na participação e na produção de pertencimento institucional.
Nesse cenário, políticas de ações afirmativas representam uma inflexão fundamental, mas insuficiente quando não articuladas a estratégias de permanência material e simbólica, envolvendo apoio financeiro, pedagógico e institucional, além de ações voltadas à produção de ambientes acadêmicos efetivamente antirracistas. A permanência qualificada, nesse sentido, não se reduz à subsistência, mas inclui a possibilidade de reconhecimento, participação e integração no espaço universitário, tensionando práticas que naturalizam hierarquias e silenciam conflitos.
A partir do recorte empírico adotado, observou-se a Campanha Eu Respeito constitui uma iniciativa institucional relevante de visibilização da questão racial na UFMS, ao fomentar ações formativas e espaços de debates, com a participação expressiva de núcleos, coletivos e setores dedicados à temática. Entretanto, os dados também indicam limites: a recorrente concentração de atividades em torno do mês da Consciência Negra pode reforçar um tratamento episódico do tema, deslocando-o para marcos simbólicos e reduzindo sua transversalidade no cotidiano universitário.
Assim, os resultados apontam para a necessidade de fortalecer políticas institucionais permanentes e intersetoriais, capazes de articular campanhas e eventos a práticas contínuas de formação, revisão curricular, produção de dados, mecanismos de escuta e acompanhamento, bem como ações de enfrentamento a microviolências e desigualdades estruturais. Em síntese, não se trata apenas de ampliar a presença de grupos historicamente excluídos, mas de sustentar condições para que essa presença se traduza em participação, reconhecimento e transformação institucional.
Nesse sentido, permanecem questões que orientam investigações futuras: em que medida os sujeitos racializados se percebem reconhecidos e pertencentes após o ingresso? Que dispositivos institucionais de escuta e acompanhamento existem – e como operam – diante de experiências de discriminação e silenciamento? E até que ponto iniciativas como a Campanha Eu Respeito conseguem ultrapassar o caráter temático e operar como eixo transversal de uma política antirracista no ensino superior?
3Agecom: Agência de Comunicação Social e Científica.
4CPAN: Câmpus do Pantanal.
5CPNA: Câmpus de Nova Andradina.
6CPNV: Câmpus de Naviraí.
7DIAAF: Divisão de Acessibilidade e Ações Afirmativas.
8CPAQ: Câmpus de Aquidauana.
9IFMS: Instituto Federal de Mato Grosso do Sul.
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UFMS. Ciclo de palestras aborda inclusão das pessoas com deficiência na Universidade. 05 de out. 2022c. Disponível em: https://www.ufms.br/ciclo-de-palestras-aborda-inclusao-das-pessoas-com-deficiencia-na-universidade/ . Acesso em: 08 de abril de 2025.
UFMS. Ciclo de palestras e mesas redondas aborda homofobia, xenofobia, discriminação e racismo. 28 de out. 2022d. Disponível em: https://www.ufms.br/ciclo-de-palestras-e-mesas-redondas-aborda-homofobia-xenofobia-discriminacao-e-racismo/ . Acesso em: 08 de abril de 2025.
UFMS. Rodas de conversa, palestra e exposição abordam a inclusão da pessoa com deficiência na Universidade. 17 de out. de 2023. Disponível em: https://www.ufms.br/rodas-de-conversa-palestra-e-exposicao-abordam-a-inclusao-da-pessoa-com-deficiencia-na-universidade/ . Acesso em 10 de abril de 2025.
UFMS. Campanha Eu Respeito de fevereiro tem como tema os Sonhos. 01 de fev. 2024a. Disponível em: https://www.ufms.br/campanha-eu-respeito-de-fevereiro-tem-como-tema-os-sonhos-2/ . Acesso em 10 de abril de 2025.
UFMS. Mês da Consciência Negra tem seminários, debates e exposições de bonecas. 01 de nov. 2024b. Disponível em: https://www.ufms.br/mes-da-consciencia-negra-tem-seminarios-debates-e-exposicoes-de-bonecas/ . Acesso em: 10 de abril de 2025.
UFMS. Campanha Eu Respeito de maio tem como tema o Trabalho. 03 de mai. 2025. Disponível em: https://www.ufms.br/campanha-eu-respeito-de-maio-tem-como-tema-o-trabalho-3/ . Acesso em 03 de maio de 2025
WILLIAMS, Raymond. A cultura é algo comum. In: WILLIAMS, Raymond. Recursos da esperança: cultura, democracia, socialismo. São Paulo: Editora Unesp, 2015.
1Graduada em Serviço Social pela Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: ligiane.arruda@ufms.br.
2Graduado em Licenciatura em Educação Física e mestre em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutor em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: marcelo.rosa@ufms.br. ORCID: 0000-0002-0621-0389.
