REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511191224
Leandro Lemos Batista1
Maria Alice Barbosa Serique2
Bruno Alves de Almeida3
Resumo
A educação brasileira enfrenta uma crise epistemológica aguda, marcada pela tensão entre a imposição de modelos de padronização curricular de cunho neoliberal e a demanda urgente por uma formação que promova o conhecimento poderoso e a autonomia dos sujeitos. Este artigo analisa criticamente como as políticas educacionais recentes, influenciadas por organismos internacionais e pela lógica de mercado (como a Base Nacional Comum Curricular – BNCC), promovem um currículo focado em competências e habilidades utilitaristas, esvaziando o acesso ao conhecimento especializado e teoricamente estruturado. O objetivo é discutir o impacto dessa padronização na despolitização e precarização do ensino, contrastando-a com a perspectiva do Realismo Social de Michael Young, que defende o conhecimento poderoso como ferramenta de emancipação. A metodologia pauta-se na pesquisa bibliográfica e documental, analisando obras de autores contemporâneos (a partir de 2020) que abordam o neoliberalismo, o currículo e a epistemologia educacional. Conclui-se que a superação da crise requer a reafirmação da escola pública como espaço de democratização do acesso ao conhecimento de alto valor, capaz de transcender a experiência cotidiana e fomentar a criticidade e a autonomia.
Palavras-chave: Crise Epistemológica; Neoliberalismo; Padronização Curricular; Conhecimento Poderoso; Autonomia.
Abstract
Brazilian education faces an acute epistemological crisis, marked by the tension between the imposition of neoliberal curricular standardization models and the urgent demand for an education that promotes powerful knowledge and the autonomy of individuals. This article critically analyzes how recent educational policies, influenced by international organizations and market logic (such as the National Common Curricular Base – BNCC), promote a curriculum focused on utilitarian skills and abilities, emptying access to specialized and theoretically structured knowledge. The objective is to discuss the impact of this standardization on the depoliticization and precariousness of education, contrasting it with the perspective of Michael Young’s Social Realism, which defends powerful knowledge as a tool for emancipation. The methodology is based on bibliographic and documentary research, analyzing works by contemporary authors (from 2020 onwards) who address neoliberalism, curriculum, and educational epistemology. It is concluded that overcoming the crisis requires reaffirming the public school as a space for democratizing access to high-value knowledge, capable of transcending everyday experience and fostering critical thinking and autonomy.
Keywords: Epistemological Crisis; Neoliberalism; Curriculum Standardization; Powerful Knowledge; Autonomy.
1. INTRODUÇÃO
A educação, em qualquer sociedade, é um campo de disputa ideológica e epistemológica. No Brasil contemporâneo, essa disputa se intensifica em torno da qualidade, do currículo e, fundamentalmente, da própria finalidade da escola. A partir da década de 1990, e com maior vigor após 2017, as políticas educacionais passaram a ser fortemente influenciadas pelo ideário neoliberal (KRAKHECKE; VOSS; LEITE, 2024).
O foco na eficiência, na meritocracia e na adequação ao mercado de trabalho culminou em reformas curriculares e avaliativas que visam à padronização e à mensuração de resultados (BARBOSA; FIGUEIRÊDO, 2023). A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo, é um instrumento que, embora pretenda garantir equidade, materializa a pedagogia das competências em detrimento do acesso a um currículo rico em conteúdos conceituais e disciplinares (VASCONCELOS; MAGALHÃES; MARTINELI, 2021). Essa lógica induz a um perigoso esvaziamento epistemológico, onde a escola se preocupa mais em ensinar a aprender a aprender e a se adaptar do que em prover o saber que liberta e transforma.
A contradição se estabelece entre o projeto de uma educação instrumentalizada para as necessidades produtivas e o imperativo ético e social de garantir a todos os estudantes o acesso ao conhecimento poderoso — aquele que permite aos indivíduos ir além de suas experiências locais e compreender o mundo de forma estrutural e sistêmica (YOUNG, 2011). É nesse embate que reside a crise epistemológica da educação brasileira, ameaçando a função social da escola como promotora de igualdade intelectual e autonomia.
2. OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Analisar a crise epistemológica da educação brasileira, caracterizada pela tensão entre a padronização curricular de orientação neoliberal e a necessidade de promover o acesso ao conhecimento poderoso e a autonomia dos estudantes.
2.2 Objetivos Específicos
Discutir a influência do ideário neoliberal e de organismos internacionais nas políticas de padronização curricular no Brasil após 2020. Caracterizar o conceito de “Conhecimento Poderoso” na perspectiva do Realismo Social e sua relevância para a emancipação. Analisar as implicações da padronização e do foco em competências/habilidades para a autonomia docente e discente na escola pública.
3. METODOLOGIA
O presente estudo adota uma abordagem qualitativa e se fundamenta na pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica concentrou-se na análise crítica de obras e artigos científicos publicados a partir de 2020 que abordam as intersecções entre neoliberalismo, políticas educacionais brasileiras (BNCC e Novo Ensino Médio), epistemologia do currículo e o conceito de Conhecimento Poderoso.
O referencial teórico central se estrutura na crítica ao neoliberalismo na educação (LAVAL, 2019; KRAKHECKE; VOSS; LEITE, 2024) e na discussão sobre a importância do conhecimento disciplinar e especializado para a justiça social, conforme proposto por Michael Young (2011).
A pesquisa documental incluiu a análise de documentos normativos e artigos que discutem as implicações da Base Nacional Comum Curricular e da legislação do Novo Ensino Médio na organização curricular e no trabalho docente. As citações foram realizadas conforme a NBR 10520 (ABNT, 2023 [simulação ABNT 2025]), buscando a inserção de vozes autorizadas e atualizadas no debate.
4. DESENVOLVIMENTO
4.1 A OFENSIVA NEOLIBERAL E A PADRONIZAÇÃO CURRICULAR
A política educacional brasileira se alinha a um projeto global de governabilidade neoliberal que busca aplicar a lógica empresarial à esfera pública, transformando o cidadão em mero consumidor ou autoempreendedor de si (KRAKHECKE; VOSS; LEITE, 2024). Essa ótica se manifesta na educação por meio da ênfase em resultados mensuráveis, eficiência e competitividade (FREITAS, 2018 apud SILVA, 2023).
A principal expressão desse movimento no Brasil é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), um documento que opera como dispositivo de padronização e de controle curricular. A adoção da pedagogia das competências e habilidades como eixo central, em detrimento do conhecimento disciplinar robusto, é o cerne da crise epistemológica.
Em sua análise, Vasconcelos, Magalhães e Martineli (2021) apontam que a BNCC:
[…] se orienta pelo aprender a aprender, para promover a formação de competências e habilidades, assim como o protagonismo do aluno no processo de ensino, o qual é permeado por esses princípios. (VASCONCELOS; MAGALHÃES; MARTINELI, 2021, p. 556)
Essa orientação, ao priorizar a flexibilidade e a adaptação em detrimento da apropriação do conhecimento historicamente construído, restringe a formação a meras instruções técnicas, principalmente para a massa popular (BASSO; NETO, 2014, apud GIOVANNETTI; SALES, 2022). O resultado é uma educação esvaziada de conteúdo crítico e de potencial emancipatório.
4.2 O IMPERATIVO DO CONHECIMENTO PODEROSO E DA AUTONOMIA
Em contraponto à padronização utilitarista, emerge o conceito de Conhecimento Poderoso de Michael Young (2011). Young distingue o “conhecimento dos poderosos” (acessado apenas pela elite) do “conhecimento poderoso” (o conhecimento especializado, teórico e disciplinar que é, em si, um recurso para a justiça social).
O conhecimento poderoso é aquele que:
[…] não se refere a quem tem mais acesso ao conhecimento ou quem o legitima, mas refere-se ao que o conhecimento pode fazer, como, por exemplo, fornecer explicações confiáveis ou novas formas de interpretar o mundo. (YOUNG2, 2007, p. 1294, citado por PEREIRA; GOMES, 2020, p. 28).
Para Young, a escola deve ser o espaço que oferece a todos os estudantes, especialmente aos das classes populares, o acesso a esse saber cognitivamente superior ao conhecimento da experiência cotidiana. Sem ele, os indivíduos permanecem dependentes daqueles que o possuem, limitando sua capacidade de compreender e transformar a realidade.
A autonomia, neste contexto, não se refere apenas à autogestão ou à moral autoempreendedora, mas sim à capacidade intelectual de tomar decisões informadas e de participar criticamente da vida social. Essa autonomia é construída pelo acesso a um currículo que desafia a experiência e fornece as ferramentas conceituais necessárias para a crítica social e a participação democrática.
4.3 IMPLICAÇÕES PARA O TRABALHO DOCENTE
A padronização curricular e a cultura da avaliação em larga escala exercem forte controle sobre o trabalho docente, configurando um verdadeiro sequestro da autonomia profissional (SANTOS, 2025). O professor é transformado em um mero aplicador de metodologias focadas no alcance de resultados e na cobertura de habilidades, perdendo o espaço para a mediação do conhecimento em profundidade e o desenvolvimento do senso crítico.
A pressão por resultados em testes padronizados resulta em uma qualidade de ensino restrita, que tende a:3
[…] pôr em segundo plano os elementos pedagógico-didáticos da qualidade de ensino, restringindo aos filhos das famílias pobres as possibilidades de acesso ao conhecimento científico e ao desenvolvimento das capacidades intelectuais por meio desse. (MPRJ, 2016).
Assim, a crise epistemológica se manifesta na sala de aula como uma precarização do ensino, onde a autonomia do professor é cerceada em nome de um alinhamento que serve aos interesses mercadológicos e não ao desenvolvimento integral e emancipador do estudante.
5. CONCLUSÃO
A crise epistemológica da educação brasileira é o reflexo da submissão das políticas curriculares ao modelo neoliberal de padronização. Ao esvaziar o currículo de seu potencial conceitual e crítico, substituindo-o por um rol de competências utilitaristas e adaptativas (BNCC), o sistema educacional restringe o acesso ao Conhecimento Poderoso e fragiliza a construção da autonomia plena.
A escola pública, historicamente concebida como um espaço de democratização do saber, corre o risco de se tornar uma mera agência de semiformação, adequada apenas para suprir as demandas produtivas do capital. A superação dessa crise exige uma resistência pedagógica e política que reafirme a importância do conhecimento especializado e disciplinar como o principal recurso para a justiça social.
É imperativo que as políticas educacionais voltem a se pautar na epistemologia do currículo, garantindo a todos o acesso ao saber que transcende a experiência e possibilita a compreensão crítica do mundo, conforme defendido pelo Realismo Social de Young. Somente assim a educação poderá cumprir sua função emancipadora e promover uma verdadeira autonomia, não apenas de mercado, mas de cidadania e pensamento crítico.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Olavo Souza; FIGUEIRÊDO, Andréia Magalhães. Neoliberalismo e as reformas curriculares no Brasil: implicações para a construção da BNCC do Ensino Médio. Olhar de Professor, Ponta Grossa, v. 26, 2023. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/20434. Acesso em: 09 nov. 2025.
GEMINI. A crise epistemológica da educação brasileira: entre a padronização neoliberal e o imperativo do conhecimento poderoso e da autonomia /2.5 Flash Versão de 2025. Inteligência Artificial. Disponível em: https://gemini.google.com/app/06b7dea11bd93e5b?hl=pt-PT/. Acesso em 11 no. 2025.
GIOVANNETTI, Carolina; SALES, Shirlei Rezende. BNCC, Reforma do Ensino Médio e questões de gênero: disputas para o controle do conhecimento. Olhar de Professor, Ponta Grossa, v. 25, 2022. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/20658. Acesso em: 09 nov. 2025.
KRAKHECKE, Elisabeth Maria Almeida; VOSS, Daniela Mariza da Silva; LEITE, Márcia Cristina Leme. A educação pública sob governamentalidade neoliberal e neoconservadora em tempos de promessas e suspeitas. Olhar de Professor, Ponta Grossa, v. 27, 2024. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/23034. Acesso em: 09 nov. 2025.
LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. Tradução: Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2019.
MPRJ. Políticas Educacionais Neoliberais e Escola Pública: uma qualidade restrita de educação escolar. Rio de Janeiro: MPRJ, 2016. Disponível em: https://www.mprj.mp.br/documents/20184/1330165/Politicas_Educacionais_Neoliberais_e_Escola_Publica_-_uma_qualidade_restrita_de_educacao_escolar.pdf. Acesso em: 09 nov. 2025.
PEREIRA, Adalice de Souza; GOMES, Luiz Antonio. Contribuições de Michael Young para os estudos curriculares. Educação em Debate, Fortaleza, v. 42, n. 82, p. 1292-1309, maio/ago. 2020. Disponível em: https://periodicos.ufc.br/educacaoemdebate/article/view/72609. Acesso em: 09 nov. 2025.
SANTOS, Lucas Ferreira. O sequestro da autonomia docente: a redução da profissão e da didática nas contrarreformas neoliberais. Currículo, São Paulo, v. 1, n. 1, 2025. Disponível em:https://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum/article/download/65551/48666/246906. Acesso em: 09 nov. 2025.
SILVA, Rafaella Roque da. A influência neoliberal na educação: uma análise sobre Base Nacional Comum Curricular. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Química) – Instituto Federal Goiano, Campus Urutaí, 2023. Disponível em: https://repositorio.ifgoiano.edu.br/bitstream/prefix/3401/3/tcc_Rafaella%20Roque%20da%20Silva.pdf. Acesso em: 09 nov. 2025.
VASCONCELOS, Carolina de Moura; MAGALHÃES, Carlos Henrique Ferreira; MARTINELI, Telma Adriana Pacífico. A influência neoliberal nas políticas educacionais brasileiras: um olhar sobre a BNCC. EccoS – Revista Científica, São Paulo, n. 58, p. 550-571, 2021. Disponível em: https://periodicos.uninove.br/eccos/article/view/10726. Acesso em: 09 nov. 2025.
YOUNG, Michael F. D. O futuro da educação em uma sociedade do conhecimento: o argumento radical em defesa de um currículo centrado em disciplinas. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 16, n. 48, p. 775-794, set./dez. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/gKj3V93y7s8F35gL9kY4d9y. Acesso em: 09 nov. 2025.
1Bacharel em Ciências Contábeis pelo CEUNI -FAMETRO; Especialista em Docência Universitária e Contabilidade Pública pela UNIASSELVI. E-MAIL: moreyra.vynhote@gmail.com
2Bacharel em Enfermagem pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM; Especialista em Docência em Enfermagem pela Faculdade Bookplay. E-MAIL: alice_serique2@hotmail.com
3Bacharel em Enfermagem pelo CUENI – FAMETRO; Especialista em Enfermagem em Urgência e Emergência pelo Instituto Singular. E-MAIL: brunoalvesalmeida20@hotmail.com
