INTERAÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E MÉTODOS TRADICIONAIS NA INVESTIGAÇÃO HUMANA: INOVAÇÕES E IMPACTOS

INTERACTION BETWEEN TECHNOLOGY AND TRADITIONAL METHODS IN HUMAN INVESTIGATION: INNOVATION AND IMPACTS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511191228


Ana Leticia Santiago Borges de Jesus
Maille Ferreira Nunes Rocha


Resumo

As ciências forenses atuam na interface entre o direito e a ciência, buscando identificar vítimas e suspeitos por meio da análise de vestígios, normalmente encontrados nas cenas de crime. Para isso, são utilizados métodos reconhecidos cientificamente, classificados em primários e secundários. Os métodos primários de identificação humana compreendem a odontologia legal, a papiloscopia e o DNA, considerados os mais confiáveis e amplamente aceitos em âmbito jurídico e pericial. Entre os métodos secundários de identificação, destaca-se a antropologia forense, onde é útil em situações em que os métodos primários não podem ser aplicados, como em ossadas ou corpos em decomposição avançada. Com o avanço tecnológico, a Inteligência Artificial (IA) e a Reconstrução Facial Tridimensional passaram a ser utilizadas como ferramenta de apoio na identificação humana. A IA pode comparar registros ante mortem e post mortem, analisando radiografias e prontuários, e a reconstrução 3D permite a recriação da face de um indivíduo a partir da análise do crânio, utilizando medidas anatômicas e a espessura dos tecidos moles tornando o processo mais rápido e preciso, com maior eficiência e menor risco de erro humano. Dessa forma, os métodos tradicionais de identificação humana continuam sendo a base da ciência forense, mas a incorporação de tecnologias representa um avanço significativo. A combinação entre ciência e tecnologia torna os processos de identificação mais ágeis, seguros e confiáveis, contribuindo de forma decisiva para a efetivação da justiça

Palavras-chave: Identificação Humana. Inteligência Artificial. Reconstrução Tridimensional.

Abstract

Forensic science operates at the intersection between law and science, aiming to identify victims and suspects through the analysis of traces, which are usually found at crime scenes. To achieve this, scientifically recognized methods are employed, classified as primary and secondary. The primary methods of human identification include forensic odontology, papilloscopy, and DNA analysis, which are considered the most reliable and widely accepted in legal and forensic contexts. Among the secondary methods of identification, forensic anthropology stands out, being particularly useful in situations where primary methods cannot be applied, such as in skeletal remains or bodies in an advanced state of decomposition. With technological advancements, Artificial Intelligence (AI) and Three-Dimensional Facial Reconstruction have become important tools supporting human identification. AI can compare antemortem and postmortem records by analyzing radiographs and dental charts, while 3D reconstruction allows for the recreation of an individual’s face from cranial analysis, using anatomical measurements and soft tissue thickness. These technologies make the process faster, more precise, and more efficient, reducing the likelihood of human error. Therefore, traditional methods of human identification remain the foundation of forensic science; however, the incorporation of new technologies represents a significant advancement. The combination of science and technology makes identification processes faster, safer, and more reliable, contributing decisively to the pursuit and realization of justice.

Keywords: Human identification. Artificial intelligence. Three Dimensional Facial Reconstrucional.

1 INTRODUÇÃO

Historicamente, os métodos primários, como a análise papiloscópica, e a odontologia forense (Interpol, 2018), e os métodos secundários, como a antropologia forense formaram a base da identificação humana e produção de provas em processos criminais (Espinoza-silva et al., 2023). Hoje, novas técnicas, permitidas pelos avanços tecnológicos, prometem revolucionar esses procedimentos, proporcionando maior precisão, agilidade e confiabilidade nos processos investigativos.

A reconstrução tridimensional, a inteligência artificial e o uso de softwares avançados para comparação de perfis são algumas das inovações que estão modificando a forma como a identificação humana é realizada (Baqai et al., 2023). Essas tecnologias além de complementarem os métodos tradicionais, também superam algumas de suas limitações, tornando possível a análise de evidências de forma mais ágil e em condições antes consideradas desafiadoras (Teixeira e Soares, 2019; Silva et al., 2023).

A implementação dessas tecnologias exige não apenas investimentos significativos e treinamento especializado, mas também uma validação científica para garantir sua aceitação no meio jurídico. Além disso, a dependência excessiva dos recursos digitais pode reduzir a sensibilidade e o olhar crítico dos peritos, que ainda dependem da experiência adquirida com métodos tradicionais (Anees et al., 2024).

Diante desse contexto, este trabalho, impulsionado pelo rápido avanço tecnológico, tem como objetivo explorar criticamente a face cambiante da investigação humana e encontrar caminhos que permitam a integração entre tradição e tecnologia destacando seus impactos, desafios e benefícios. Além disso, visa promover uma melhor compreensão de como os métodos tradicionais de identificação humana se integra com o surgimento das novas tecnologias, possibilitando explorar percepções, práticas e efeitos, que embora não quantificáveis, continuam sendo cruciais para entender a situação em foco.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Métodos Tradicionais na identificação humana

As ciências forenses atuam na interface entre ciência e direito, onde, por meio da análise de vestígios, devem reconstruir eventos, identificar vítimas e suspeitos, e fornecer provas materiais que auxiliem o processo investigativo. A análise desses vestígios é possível devido ao uso de métodos que permitem a investigação e identificação de indivíduos (Garrido RG, Giovanelli, 2012; Dinkar, 2005).

Métodos primários de identificação são técnicas reconhecidas cientificamente que permitem a identificação individual e precisa de um ser humano, sendo eles: odontologia legal, papiloscopia e o DNA (Interpol, 2018).

A Odontologia Legal é essencial no reconhecimento de arcadas dentárias, especialmente em situações em que a identificação por meios convencionais, como impressões digitais, não é possível; por exemplo, em corpos carbonizados, em decomposição ou mutilados (Bianch, 2019). Os prontuários odontológicos são documentos padronizados de responsabilidade do cirurgião dentista, possuindo finalidade jurídica e pericial (De Almeida et al., 2017). É onde serão armazenadas informações sobre todos os pacientes que tenham se submetido a algum tratamento odontológico. Através das informações nele contidas, são possibilitadas as comparações entre registros odontológicos AM e a arcada dentária encontrada, tornando-se viável a individualização de um indivíduo com alto grau de confiabilidade (Silveira, 2018). Esse método é rápido, preciso e amplamente aceito em investigações criminais.

Além disso, desempenha um papel fundamental na investigação de mordidas, especialmente em casos criminais. Por meio da análise das arcadas dentárias, os peritos conseguem comparar marcas de mordida encontradas em vítimas ou objetos com os dentes de possíveis suspeitos (Pereira et al., 2021). Cada pessoa possui uma dentição única, o que permite identificar ou excluir indivíduos com alto grau de precisão.

A Papiloscopia é a ciência que visa o estudo das papilas dérmicas de cada indivíduo, ou seja, as impressões digitais (datiloscopia), se baseando nos requisitos de perenidade, imutabilidade, individualidade, variabilidade e perenidade dessas papilas (Teixeira e Soares, 2019). Juan Vucetich criou um sistema de classificação das impressões digitais em 1992, que é o mais utilizado mundialmente até os dias atuais. Em 2014, esse método passou a ter auxílio tecnológico através da implementação de registros biométricos civis e criminais em um banco de dados.

O princípio da variabilidade ampara a premissa da individualidade, onde, de acordo com Croce (1998), até hoje, em milhares de fichas datiloscopias, não foram encontradas duas impressões digitais idênticas, nem mesmo nos dedos de um mesmo indivíduo.

A papiloscopia abrange o estudo da datiloscopia, impressões digitais dos dedos; podoscopia, impressões das plantas dos pés; e a quiroscopia, impressões nas palmas da mão. A podoscopia e quiroscopia são fundamentais na identificação de rastros deixados em cenas de crimes.

Por sua vez, o DNA é uma ferramenta indispensável na rotina forense para o estudo de casos criminais, podendo ser aplicada em diversas situações, como: determinar a relação entre suspeitos e locais de crimes, eliminar ou inocentar suspeitos de delitos, identificar corpos de pessoas desaparecidas, entre outros.  A saliva, sangue, fio de cabelo e sêmen são algumas das fontes biológicas que contêm o perfil do DNA, que posteriormente será analisado em laboratório através de técnicas biomoleculares (Dolinsky et al., 2007). Caso não seja possível a comparação entre perfis de DNA de amostras coletadas, ainda é possível realizar a tipagem do DNA se houver um banco de dados para comparações. A criação de bancos de dados tem sido de suma importância no combate à violência e injustiças, principalmente em casos que estão há muito tempo sem solução.

Além disso, ainda existem os métodos secundários de identificação, que são utilizados em conjunto com os primários ou quando estes não são possíveis de serem aplicados. Permitem descartar candidatos por meio da compatibilidade dos materiais ante e post mortem (Neville, 2009). A Antropologia forense se encaixa nessa classificação, tendo como objetivo analisar e definir um perfil biológico baseado no sexo, idade, ancestralidade e estatura, por meio dos ossos, dentes e outras estruturas, para assim auxiliar na identificação de indivíduos (Espinoza-silva et al., 2023).

A Antropologia forense é requisitada especialmente quando há cadáveres em estado avançado de decomposição, carbonização ou que vá além das técnicas dos outros métodos de identificação (Galvão, 2013). É uma técnica necessária, também, na identificação de traumas ante mortem e pós mortem, na estimativa de hora da morte e para reconstruções faciais com fins identificatórios. Sua área de atuação se faz necessária para fins de investigação criminais, desastres em massa, achados arqueológicos e desaparecimentos (Alves, 2012; Delwing, 2013; Nunes; Gonçalves, 2014).

Envolve um conjunto vasto de conhecimentos sobre o corpo humano, que são de importância decisiva na identificação humana. Em contexto forense, o crânio é o mais comum e é através de sua análise que se determina a ancestralidade, o sexo e a idade do esqueleto. Em relação ao sexo, a pelve é o osso de primeira escolha, principalmente se o dismorfismo sexual já estiver desenvolvido (Nunes; Golçalves, 2014; Biancalana et al. 2015). Para estimar a idade as suturas cranianas devem ser observadas, determinando em cada sutura o grau de soldadura, utilizando como base o grau de obliteração das suturas (Lourenço, 2010).

2.2 A Inteligência Artificial aplicada na identificação humana

A expressão Inteligência Artificial (IA) surgiu em 1950, por John McCarthy, criada para representar um ramo emergente da computação que busca desenvolver sistemas capazes de simular o comportamento humano no processamento de informações e na tomada de decisões (Mintz Y et al., 2019). O principal objetivo da IA é dotar os sistemas computacionais da habilidade de aprender, interpretar, analisar e agir de forma racional e inteligente diante de situações ou problemas específicos (Lu et al., 2018; Jackson, 2019).

A Inteligência Artificial funciona em três eixos. O primeiro deles é Machine Learning, que permite que os sistemas computacionais aprendam a partir dos dados processados, identificando padrões e tomando decisões com o mínimo de intervenção humana, tornando-se mais resilientes e dinâmicos à medida que assimilam novas informações. Outro eixo se chama Deep Learning (Lecun, et al., 2015; Rajkomar, et al., 2018), onde as chamadas Redes Neurais Artificiais (RNA) se assemelham às estruturas neurais dos organismos inteligentes ao desenvolverem conhecimento com base na experiência vivida, utilizando modelos matemáticos. Este algoritmo avançado é aplicado para automatizar a etapa de comparação entre os registros ante mortem e post mortem, aprovando compatibilidades de modo mais rápido e preciso, diminuindo erros humanos (Thurzo et al., 2022).

 Por fim, o terceiro eixo diz respeito ao Processamento de Linguagem Natural (PLN), definido como a capacidade de um sistema computacional compreender a linguagem humana em sua forma natural. As técnicas que compõem o PLN têm como objetivo analisar, reconhecer e/ou gerar textos em linguagens humanas (De Almeida, 2018).

A utilização desta tecnologia em âmbito forense tem como objetivo diminuir o tempo gasto nas comparações realizadas entre a arcada e os prontuários, aumentar a eficiência do trabalho realizado pelos atuantes, bem como aumentar a eficiência do armazenamento e recobramento das informações AM e PM. Os prontuários odontológicos, que são documentos clínicos onde o cirurgião-dentista registra todas as informações do paciente, incluindo exames radiográficos, diagnósticos, tratamentos realizados e planejados (Lobo, 2017; Lu H et al., 2018; Jackson, 2019), serão utilizados para nutri-lo.

O programa deve ser capaz de analisar os dados pós mortem encontrados e comparar com as informações ante mortem de forma rápida, eficaz, e com uma precisão que supera as habilidades humanas, além da capacidade de armazenamento de informações. Porém, A IA deve ser utilizada para complementar e auxiliar no processo, e não para substituir os profissionais atuantes (Vodanoviy et al., 2023).

Na Antropologia forense, a IA irá utilizar as imagens radiográficas, através de características individualizantes presentes nestas imagens, para a determinação positiva da identidade de um indivíduo. Faz-se necessário o registro prévio das radiografias ante mortem para que ocorra a comparação entre a post mortem, que devem ser reproduzidas simulando as ante mortem, para assim ser possível a avaliação analisando a densidade e formas ósseas, e determinar se pertencem ao mesmo indivíduo ou não (Trevelin, Lopez, 2012).

2.3 Reconstrução Facial Tridimensional

Quando há poucas evidências disponíveis para a determinação positiva da identidade de um indivíduo, a reconstrução tridimensional é utilizada com método auxiliar neste processo. É um método que visa recriar a face de um ser humano utilizando variações esqueléticas e a espessura dos tecidos moles, possibilitando a delineação do contorno dos tecidos moles sobre o osso e aumentando a probabilidade de identificação (Turner et al., 2005; Kim et al., 2005).

Ao determinar o perfil bioantropológico do cadáver (idade, sexo e ancestralidade), a inquirição craniométrica é realizada baseada em pontos antropométricos onde os tecidos moles serão, gradativamente, mimetizados através de parâmetros de espessura pré-estabelecidos (Mautner, 2003).

Este método pode ser dividido em duas técnicas: a manual e digital. Na reconstrução manual, faz o uso desenhos e modelagens para remodelar o rosto, com argila, por exemplo, um método com alto grau de subjetividade. Já na digital, é utilizado o protocolo de aproximação facial forense digital, através de softwares especializados (Moraes e Miamoto, 2015). Essa técnica é considerada mais rápida e flexível, onde é possível a criação de vários modelos em um mesmo crânio (Quatrehomme et al., 1997).

Por meio da fotogrametria, o crânio é digitalizado e as imagens postas para que se crie um modelo 3D, visando a confecção da reconstrução facial. Os softwares são responsáveis pela reconstrução facial propriamente dita, utilizando pontos craniométricos e padrões de espessura dos tecidos moles nas referências da face a ser reconstituída (Vanezis, 2007). Através desse rascunho e da antropologia, é criado um esboço desta face que será, posteriormente, modelada ao modelo 3D criado anteriormente. É dessa forma que se torna possível determinar o perfil antropológico como, o sexo, a raça e a idade.

3 METODOLOGIA

Esta pesquisa é uma abordagem bibliográfica, de natureza exploratória e descritiva, com base em obras teóricas, artigos científicos disponíveis em português ou inglês, encontrados através do Scielo e Google Acadêmico, por meio de palavras chaves, como “Identificação humana”, “Avanços tecnológicos” e “Técnicas de identificação humana”.

Este estudo busca promover uma melhor compreensão de como os métodos tradicionais de identificação humana se integra com o surgimento das novas tecnologias. Sob este ponto de vista, é possível explorar percepções, práticas e efeitos, que embora não quantificáveis, continuam sendo cruciais para entender o fenômeno em foco.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Foram encontrados 145 artigos, porém ao serem aplicados os métodos de exclusão, como desatualização tecnológica, falta de relevância científica e a não disponibilidade do texto completo; e métodos de inclusão, como a relevância com o tema, tipos de estudos, por exemplo, casos clínicos, pesquisas empíricas, revisões de literatura, uso interdisciplinar e acesso total ao arquivo, foi reduzido a 85, sendo que os 06 estudos mais atuais e relevantes ao tema desta pesquisa foram selecionados (Tabela 01). Após a seleção do material, os estudos foram classificados de acordo com os critérios de; tipos de tecnologia, principais resultados e aplicações práticas, discussões sobre precisão, agilidade e confiabilidade dos métodos.

Tabela 1 – Estudos incluídos após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão

TítuloAno de PublicaçãoObjetivo da PesquisaConclusão
Artificial intelligence in forensic medicine and forensic dentistry (Vodanović et al.)2023Analisar a aplicação de tecnologias modernas, especialmente da inteligência artificial na identificação forense, como determinação do sexo, idade, arcada dentaria, além da análise de mordidasA inteligência artificial mostra-se uma ferramenta promissora para otimizar processos investigativos e diagnósticos na área forense, contribuindo para maior eficiência, padronização e confiabilidade nas análises médicas e odontológicas legais.
Aplicabilidade da inteligência artificial no processo de identificação humana (Bergamasso)2023Investigar como as ferramentas de IA podem auxiliar na identificação de indivíduos por meio de características odontológicas.Conclui-se que a IA pode otimizar processos periciais e reduzir erros humanos, mas a integração com práticas tradicionais ainda é essencial.
 Human remains identification using micro-CT, chemometric and AI methods in forensic experimental reconstruction of dental patterns after concentrated sulphuric acid significant impact (Thurzo et al)2022Investigar a utilização de métodos baseados em microtomografia computadorizada  quimiometria e inteligência artificial na identificação de restos humanos por meio da reconstrução experimental de padrões dentários após exposição a ácido sulfúrico concentrado.O estudo demonstrou que a combinação de Micro-CT, análises quimiométricas e algoritmos de IA é eficaz na identificação de padrões dentários mesmo após degradação química severa, evidenciando o potencial dessas tecnologias para aprimorar a identificação forense em cenários extremos.
Reconstrução facial forense como método de identificação humana- Uma revisão de literatura (Costa et al.)2025Revisar a literatura sobre a aplicação da reconstrução facial forense como método de identificação humana, abordando técnicas, eficácia e limitações do processoA reconstrução facial forense é apresentada como uma ferramenta valiosa na identificação de indivíduos, especialmente em casos em que outros métodos tradicionais não são viáveis, demonstrando relevância tanto para investigações criminais quanto para estudos históricos e antropológicos.
Reconstrução facial na Antropologia Forense no Brasil sob a perspectiva da Medicina Legal (Brito et al.)2024Analisar a importância da reconstrução facial forense como técnica auxiliar na identificação humana em contextos criminais.O estudo destaca que a reconstrução facial é uma ferramenta valiosa para reconstituir a aparência de vítimas, especialmente quando outros métodos de identificação são limitados.
Fonte: Próprio autor


As inovações tecnológicas estão remodelando o contexto das investigações criminais, através da identificação de vestígios. Está evoluindo para auxiliar novos métodos de investigação, se especializando na extração e análise de dados produzidos, armazenamento e processamentos. Por outro lado, a melhoria da capacidade de extração e análise de dados, possibilitada pelos novos avanços tecnológicos, está contribuindo para o aprimoramento dos métodos forenses relacionados a crimes em diversas áreas (Ramos, 2022).

 Para Bergamasso et al. (2023), a finalidade pretendida com o uso da IA e softwares é obter auxílio e acelerar o desempenho do trabalho realizado pelos profissionais, almejando minimizar o tempo necessário para realizar a análise, e torná-la mais precisa e eficaz. Por sua vez, Thurzo et al (2022), estudaram sobre redes neurais utilizadas para automatizar a análise de prontuários odontológicos, reduzindo a necessidade de avaliação manual e minimizando erros humanos, e afirmando, que em breve, a avaliação automatizada de características como idade, sexo, etnia, microfraturas e padrões dentários, representará um avanço significativo na perícia forense.

Ainda de acordo o estudo de Bergamasso et al. (2023), apesar da capacidade das máquinas atuais, a falta de conhecimento de como os algoritmos de Aprendizado de Máquinas chegam às suas conclusões e correlações, significa a mesma avaliação de performance que qualquer outra teoria criada pelo homem. Sendo reforçado por Vadanovic (2023), que ressalta a essencialidade de considerar as vantagens e desvantagens, como transparência, responsabilização, privacidade, segurança e ética, ao implementar sistemas de Inteligência Artificial na medicina e odontologia forense, bem como estabelecer regulamentações para diminuir potenciais impactos negativos, além de ser fundamental garantir que os sistemas de IA sejam utilizados como ferramentas de apoio e não como substitutos dos peritos forenses.

Na reconstrução facial, o estudo de Costa et al (2025), esclarece que as técnicas contemporâneas, guiadas pela anatomia craniana e redes neurais especializadas, superaram limitações referente aos métodos tradicionais, como as modelagens em argilas e desenhos bidimensionais, que dependiam fortemente da subjetividade do reconstrutor. Além disso, os bancos de dados regionais e étnicos contribuem para uma maior acurácia e realismo nas reconstruções, tornando o processo mais confiável em investigações forenses.

Outro ponto destacado por Costa et al (2025), é o impacto do aprendizado de máquina, que permite a criação de modelos antecipatórios cada vez mais refinados. A possibilidade de automatizar etapas da reconstrução facial reduz o tempo necessário para a elaboração de retratos forenses e diminui o viés humano, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de análise de grandes volumes de dados.

Nesse contexto, Brito et al (2024), destaca que, apesar de ser uma ferramenta de grande versatilidade, a competência e preparo do profissional incumbido da reconstrução são vitais para garantir a qualidade do resultado, pois, mesmo que os softwares sejam altamente capazes de executar suas funções, é necessário ser abastecido com os dados apropriados, ou os resultados podem não ser satisfatórios.

Portanto, a análise dos estudos selecionados possibilitou compreender o impacto positivo do avanço tecnológico no âmbito forense. O estudo da Inteligência Artificial e da Reconstrução Facial Tridimensional revelou ter potencial para transformar o trabalho pericial, tornando-o mais rápido e preciso (Bergamasso et al.,2023; Costa et al., 2025).

Os métodos tradicionais desempenham um papel fundamental há décadas no cenário forense e continuam sendo a base da investigação científica e da validação de provas, porém possui limitações ligadas ao fator humano, como a possibilidade de erros de interpretação, e a subjetividade durante a análise (SILVA et al., 2021).

Nesse sentido, as novas tecnologias ganham relevância. Por exemplo, tradicionalmente, a reconstituição facial era realizada por meio de técnicas manuais. Hoje, com o uso de softwares especializados e escaneamento digital, é possível gerar modelos faciais detalhados, que podem ser comparados com bancos de dados fotográficos ou usados para divulgação pública em casos de desaparecimento. Dessa forma, a integração das técnicas tradicionais com sistemas de softwares permite automatizar etapas do processo, aumentando a eficiência e minimizando erros.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo da pesquisa, compreende-se que o uso das tecnologias não substitui a análise crítica do perito humano, mas sim a complementa, mantendo o rigor científico e o julgamento técnico como elementos centrais do processo investigativo. Dessa forma, pode-se afirmar que a interação entre métodos tradicionais e tecnologias avançadas deve ser vista como uma relação de complementaridade e não de substituição, uma vez que a união entre a experiência humana e os recursos tecnológicos potencializa a eficiência das investigações forenses, ampliando as possibilidades de identificação e confiabilidade às provas apresentadas.

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